sábado, maio 07, 2016

DOMINGO DA ASCENSÃO: LUCAS 24,46-53 (ANO C)

A nossa reflexão não tem como objeto o sentido da solenidade da ascensão em si, mas sim o Evangelho proposto para essa no corrente ano: Lucas 24, 46-53. Obviamente, a reflexão do texto bíblico nos levará a uma compreensão da festa também. Trata-se dos últimos versículos do terceiro Evangelho. É, portanto, a conclusão.
Lucas não escreve o seu Evangelho pensando nesta solenidade e, portanto, não procuremos no mesmo, dados cronológicos exatos que venham comprovar com exatidão a soma dos quarenta dias dias após a ressurreição, como sugere a liturgia. Nem mesmo o dado dos Atos dos Apóstolos, livro também escrito por Lucas, pode fundamentar o número de dias. De fato, Atos 1,3-9, trecho incluído na primeira leitura de hoje, afirma que "durante quarenta dias, apareceu-lhe falando do reino de Deus" (v. 3) e  "Depois de dizer isso Jesus foi levado ao céu à vista deles" (v. 9). Se tomássemos essa afirmação como exata, estaríamos negando outros trechos escritos pelo mesmo autor no Evangelho.
É importante ressaltar que nenhum livro da Bíblia foi escrito para descrever acontecimentos e apresentá-los como dados históricos concretos. A historiografia bíblica preocupa-se com a ação salvífica de Deus na história, e essa não pode ser medida segundo critérios humanos. Como os autores bíblicos eram humanos, logo, tudo nela é aproximativo.
Portanto, a diferença de dados na obra lucana, Evangelho e Atos, não mostra incoerência, mas sim perspectivas diferentes. São simbólicos os quarenta dias de Atos como é simbólico o "terceiro dia" como o dia da ressurreição. Não havia motivos para Jesus passar três dias morto, nem para passar quarenta aparecendo após a ressurreição.
Assim, o dado mais verossímil e que melhor reflete a ressurreição e ascensão é a promessa do paraíso ao malfeitor (erroneamente chamado de bom ladrão) na cruz: "Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,43). O seu grito de morte "Pai, em tuas mãos entrego o meu espirito" (Lc 23,46) confirma mais ainda que, ao morrer, Jesus imediatamente foi para o encontro do Pai no céu, sem esperar três nem quarenta dias. Repetimos, esses números são elementos teológico-catequéticos empregados pelos autores do Novo Testamento para explicar os eventos da Paixão-Morte-Ressurreição de Jesus com embasamento nas Escrituras.
Feitas as considerações, nos concentramos agora no Evangelho de hoje: Lucas 24,46-53. O contexto é o da ressurreição, ou seja, "no primeiro dia da semana" (24,1). É a continuação do célebre episódio dos Discípulos de Emaús. Jesus aparece aos onze e algumas mulheres (24,36), conforme aparecera aos dois no caminho (24,13-35) e refaz a catequese que fizera aos dois no caminho: explica a si mesmo à luz da Escritura (24,27. 43-46).
O versículo 45 diz que Jesus abriu a mente dos discípulos para que compreendessem a Escritura à luz do que estavam contemplando, ou seja, a sua ressurreição. De fato, só alguém com a mente muito aberta poderia conceber e aceitar um Messias que padecesse, mesmo que viesse a ressuscitar (v. 46). Uma vez esclarecidos, começa a missão: anunciar, em seu Nome, a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (v. 48). A primeira missão da Igreja é, portanto, levar a todos os povos a reconciliação, sem distinção.
O começo por Jerusalém é muito significativo. Era em Jerusalém onde estava a sede do poder religioso e, portanto, era para lá que as pessoas iam para receber o perdão de Deus através dos sacrifícios e oferendas rituais no templo. Com essa afirmação, Jesus diz que aquela antiga instituição não funciona. Aquele ritualismo estéril não é capaz de reconciliar o mundo com Deus.
Mais significativo ainda é o fato de ser Jerusalém, com seu aparato religioso e policial, responsável pela sua morte. O perdão e a reconciliação são destinados antes de tudo àqueles que estão em maior débito com Deus, a elite religiosa, responsável direta pela Morte do Messias. E, como o Deus de Jesus, principalmente na perspectiva de Lucas, é substancialmente misericórdia, o perdão é dirigido antes de tudo aos maiores devedores, para depois, chegar a todas as nações.
A promessa do paráclito é reforçada (v. 49), porque dele depende a eficácia da missão recém confiada à comunidade dos discípulos: ser portadora da reconciliação e, portanto, da misericórdia de Deus.
Um dos versículos mais ricos de todo o trecho é, certamente, o 50: "Então, Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os". Com o gesto de levá-los para fora, Lucas evoca o antigo êxodo e o atualiza. É preciso libertá-los definitivamente da antiga mentalidade. Para perto de Betânia significa o início da missão reconciliadora, já que Betânia lembra a amizade pura e desinteressada, amizade vivida por Jesus com a família de Lázaro e suas irmãs Maria e Marta.
Ainda no versículo 49, não menos significativo é o gesto de Jesus abençoar. É a primeira vez que Lucas atribui a Jesus essa função, exatamente no finalzinho do seu Evangelho. Com isso, ele faz uma paralelo com o início do seu Evangelho, por sinal, uma técnica muito utilizada por ele, o paralelismo. Em Lc 1,21-22a se diz que o povo aguardava Zacarias e estranhava que demorasse no Santuário. Quando saiu, não podia falar. Zacarias, então, não podia abençoar. A bênção de Jesus revela a esterilidade do antigo sacerdócio e a fertilidade do novo. O antigo sacerdócio está falido, não tem mais importância alguma, não transmite mais perdão nem bênção. Por isso, é urgente que seja a própria Jerusalém a primeira destinatária da reconciliação, porque é ela que está carente.
A subida de Jesus ao céu coincide com o momento da bênção. Portanto, sua partida deste mundo não é sinal de ausência nem de abandono. Com a bênção Ele confirma que está presente naqueles que a recebem. O gesto de reverência e adoração dos discípulos (v. 52) revela o pleno reconhecimento do senhorio de Jesus. A grande alegria (v. 52) revela a característica principal do discípulo e da discípula de Jesus, já antecipada no início do livro em Maria (1,47), nos pastores e nos anjos (1,8-20), e presente em todo o livro.
Para concluir, podemos dizer que estes poucos versículos (24,46-53) além de marcar a conclusão da missão terrena de Jesus e inaugurar a missão da Igreja, a qual será apresentada de modo mais amplo e claro no segundo volume da obra lucana, o livro dos Atos dos Apóstolos, são a conclusão e síntese do Evangelho, bem como a recapitulação de elementos importantes pré-anunciados no início do Evangelho: a alegria do discipulado (1,28;47 = 24,52), o Espírito Santo como força indispensável na missão (1,35 = 24,49).
Assim como Lucas abriu seu Evangelho no templo, com a esterilidade de Zacarias e Isabel, encerra também no templo. Porém, não mais na carência de bênção nem na infertilidade, mas no vigor e ardor dos discípulos, convictos da missão e, felizes!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

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