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REFLEXÃO PARA O XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 9,51-62



Com o Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum, nós entramos no coração da narrativa lucana: a viagem de Jesus em direção a Jerusalém, a qual ocupa uma extensão de dez capítulos (9,51 – 19,28) de um total de vinte e quatro. Portanto, é uma parte muito relevante para o conjunto da obra do terceiro Evangelho.

É importante recordar que aquilo que o evangelista quer apresentar com a grande viagem de Jesus, não é a descrição de seu percurso ou itinerário propriamente, mas o sentido teológico do Caminho. Logo, não é um diário de bordo, mas uma apresentação teológica da vida de Jesus e da comunidade cristã, com seus respectivos sentidos.

Trata-se de um caminho que será construído ao longo dos capítulos a ele dedicados, os quais serão apresentados ao longo do ano na sequência dos domingos. Nos concentremos agora na etapa do caminho proposta para esse domingo. E, é exatamente o início da longa jornada proposta por Jesus.

O texto se inicia afirmando que “Estava chegando o momento de Jesus ser levado para o céu” (v. 51 a). Ele já tinha preparado seus discípulos antes (cf. Lc 9,22) e sabia muito bem o que lhe esperava na capital. Tinha consciência de que seria levado para o céu, mas também de que, antes disso, deveria ser rejeitado, sofrer, morrer e ressuscitar. Por isso, “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (v. 51b), onde tudo se consumaria. Na segunda parte do versículo falta fidelidade ao texto na sua língua original. A tradução correta seria “endureceu o rosto para ir a Jerusalém”, o que vem ressaltar a importância e a irrevocabilidade da decisão e, sobretudo, a coragem para toma-la, considerando as consequências, como bem as conhecemos: sofrimento, cruz, morte.

Com essa expressão bastante enérgica, Lucas recorda três passagens do Antigo Testamento: (a) o terceiro cântico do servo de Isaías 50,7: “O Senhor Iahweh virá em meu socorro, eis porque não me sinto humilhado, eis porque endureci o rosto como uma pederneira, e tenho a certeza de que não ficarei confundido”; (b) Jeremias 21,10a: “Porque endureço meu rosto contra esta cidade para sua desgraça, não para sua felicidade”. (c) Ezequiel 21,7: “Filho do homem, endurece tua face para Jerusalém, profere a tua palavra na direção do santuário e profetiza contra a terra de Israel”.

Endurecer o rosto em direção a alguém ou algo é ter a coragem de andar contra, é enfrentar. Logo, com essa decisão, Lucas quer dizer que Jesus está completamente convencido que não dá mais para esperar. É necessário e urgente partir para Jerusalém e lá denunciar toda a corrupção e hipocrisia política e, principalmente, religiosa. De fato, suas atitudes ao aproximar-se e chegar na cidade apontam para isso: a lamentação (cf. Lc 19,41-44) e a chamada purificação do templo (cf. Lc 19,45-46).

Da decisão de ir, passamos para os primeiros passos da caminhada nos versículos 52 e 53. Jesus envia mensageiros a sua frente, assim como anteriormente tinha enviado discípulos em missão (cf. Lc 9,1-6), mas esses não obtêm êxito ao entrar em um povoado de samaritanos. Assim, o sentido do caminho vai tornando-se mais claro: nele Jesus envia, ensina, repreende, enfim, catequisa. É um caminho de formação, de vivência e testemunho. É fazer a experiência de e com Jesus. Tanto que nos Atos dos Apóstolos, livro também escrito por Lucas, a própria comunidade cristã é chamada algumas vezes de “o Caminho” (cf. At 9,2; 19,9.23; 24,14.22). A Igreja é “o Caminho” para Lucas, porque deve estar sempre a caminho, como espaço de encontro e experiência autêntica com o Senhor e, ao mesmo tempo, em estado permanente de missão, ou seja, em saída, como tem pedido o Papa Francisco. E, é Lucas, por excelência, o Evangelho da missão. Não podemos também deixar de recordar a auto apresentação que o próprio Jesus faz como Caminho em João 10,6: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. 

Jesus encontra adversidade logo no início do caminho, ao ser rejeitado pelos samaritanos (v. 53). Como o caminho é missão, com essa rejeição Lucas recorda o início da missão de Jesus na Galiléia, quando Ele também lá fora rejeitado pelos seus conterrâneos (cf. Lc 4, 16-30) e, ao mesmo tempo, já antecipa a rejeição que o mesmo sofrerá em Jerusalém (cf. Lc 22 – 23). Desse modo, o evangelista mostra que Jesus sofreu rejeição em todas as etapas da sua missão. Eis porque o seu seguimento comporta tantas exigências, como veremos nos versículos conclusivos (vv. 57-62).

Devemos recordar os motivos da rejeição por parte dos samaritanos: porque Jesus caminhava para Jerusalém (v. 53). Certamente, isso aconteceu porque os discípulos que foram na frente para preparar o caminho e pedir as hospedagens não anunciaram corretamente o que Jesus iria fazer em Jerusalém, pois nem eles mesmos compreendiam. Imaginavam que Ele iria a Jerusalém para lá reinar, e não para contestar e lá ser vítima do mesmo poder ao qual os samaritanos historicamente se opunham. Os discípulos pediram hospedagem para um messias triunfante. Não tinham ainda entendido que o movimento de Jesus para Jerusalém era um movimento contra, de contestação.

A rivalidade entre samaritanos e judeus era secular. Quando a Assíria conquistou Samaria, a capital do Reino do Norte, em 722 a.C., deportou a população local e trouxe povos estrangeiros para habitar na cidade (cf. 2 Rs 17,24-28). Os novos habitantes levaram seus costumes e tradições religiosas, o que levou a Samaria a ser conhecida como terra de sincretismo, de heresias e povo impuro. É essa a origem histórica da relação conflituosa. Inclusive, quando os judeus retornaram do exílio e começaram a reconstruir o tempo e a cidade de Jerusalém, mesmo em meio às dificuldades, rejeitaram a ajuda oferecida pelos samaritanos, como atesta o livro histórico de Esdras (cf. Es 4,3).

Por essa rivalidade histórica, os samaritanos hostilizavam quem por lá passava em direção a Jerusalém. Mas Jesus não ia a Jerusalém para reforçar o poder da capital, mas para contestá-lo. Se os discípulos tivessem deixado isso claro, a receptividade teria sido diferente. Inclusive, Jesus até mostrava simpatia pelos samaritanos em solidariedade ao preconceito que eles sofriam pelos judeus, sendo tratados como inferiores. A parábola do bom samaritano será uma prova disso (cf. Lc 10,29-37).

A proposta de João e Tiago, mandar fogo para destruir os samaritanos (v. 54), é uma clara prova de que os discípulos ainda não tinham compreendido o sentido do caminho nem o sentido do seguimento de Jesus. Na verdade, não tinham clareza da identidade do Mestre. De fato, Lucas revela, mais uma vez, que a mentalidade triunfalista continuava presente nos discípulos de Jesus. Os filhos de Zebedeu revelam-se arrogantes, intolerantes, fanáticos e fundamentalistas. Não é à toa que em Marcos Jesus os chama “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), exatamente pelo caráter autoritário e ambicioso. Na verdade, eles estavam no grupo em busca de poder e privilégio (cf. Mc 10,35-40; Mt 20,20-23).

Com tal proposta os discípulos mostram exatamente o que não se deve fazer. A mensagem de Jesus não pode ser imposta. Deve ser vivida com alegria e convencer pelo testemunho. Aqueles que a recebem tem a liberdade de acolher ou não. Por isso, recebem uma repreensão severa de Jesus (v. 55). Aqui, Lucas aplica o verbo grego επιτιμαω “epitimaô”, o mesmo usado quando diz que Jesus expulsa os demônios. Isso indica que os discípulos, João e Tiago, tiveram uma ideia satânica e, portanto, reprovável para Jesus. Qualquer iniciativa de oposição ao Reino de Deus pode ser considerada satânica, como a violência e a vingança.

Os obstáculos não impedem a caminhada de Jesus e, assim, “partiram para outro povoado” (v. 56), antecipando o que será a sina da comunidade pós pascal, apresentada no livro dos Atos dos Apóstolos pelo próprio Lucas.

No prosseguimento da viagem (vv. 57-62), três personagens anônimos entram em cena, como supostos candidatos ao discipulado: dois voluntariamente (vv. 57 e 61) e outro é interpelado pelo próprio Jesus. São três pequenas cenas, cujo objetivo é mostrar quais são as exigências para um seguimento autêntico e livre. A cada uma das situações Jesus responde com pequenos provérbios bastante interpelantes. A quantidade, três, indica a totalidade, ou seja, a catequese universal presente nas situações. Significa que as exigências impostas por Jesus são válidas para todos os discípulos em qualquer momento da história.

Ao primeiro (v. 58), Jesus expõe suas condições de pobreza absoluta, deixando claro que ninguém o siga pensando em privilégios e seguranças, pois “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Tal situação deve ser também a dos seus discípulos.

Ao segundo, o qual é chamado pelo próprio Jesus (v. 59), é exigido que o mesmo abra mão de um dos direitos e deveres mais sagrados para o povo judeu, o de enterrar os genitores. Com a expressão “Deixa que os mortos enterrem seus próprios mortos”, Jesus quer dizer que a causa do Reino é incompatível com qualquer ideia de vida velha ou passado. Trata-se de um provérbio hiperbólico, cujo sentido é a exigência de uma nova mentalidade e, consequentemente, um novo jeito de pensar e conceber a vida.

No terceiro caso Jesus toma uma imagem agrícola para ilustrar mais uma exigência ou reforçar as outras duas, com a expressão: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (v. 62). Assim, a radicalidade do seu seguimento vem mais uma vez evidenciada, uma vez que o anúncio do Reino não pode mais esperar.

Para o discípulo de ontem, de hoje e de sempre, Jesus exige uma ruptura total com o passado. É urgente o anúncio do Reino, e esse só se faz com plena liberdade e convicção. Qualquer olhar para trás compromete o êxito do caminho a ser construído. As concessões requeridas pelos candidatos a discípulo representam o impacto da primeira dificuldade encontrada por Jesus e os Doze no caminho que tinham iniciado. As interpelações de Jesus representam a adesão total e incondicional.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues