sábado, outubro 08, 2016

REFLEXÃO PARA O XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 17,11-19 (ANO C)



O Evangelho deste XXVIII Domingo do Tempo Comum, Lucas 17,11-19, nos leva a contemplar mais uma etapa do longo caminho de Jesus para Jerusalém, sendo que dessa vez é o próprio autor quem nos indica o contexto: “enquanto caminhava para Jerusalém” (v. 11). Essa é a terceira vez que Lucas diz que Jesus está a caminho (cf. 9,51; 13,21; 17,11) e essa insistência é de grande relevância para a sua catequese e teologia.

Ora, Lucas constrói o seu evangelho em constante movimento; ele apresenta a itinerância de Jesus desde o ventre materno através da viagem de Maria até a casa de Isabel e Zacarias (cf. 1,36). Ainda na infância, ele aponta duas idas de Jesus a Jerusalém: uma para a apresentação (cf. 2,22) e outra aos doze anos, no episódio que ficou conhecido como a perda e o encontro (cf. 2,41-42). O caminho é, portanto, um indicativo teológico importante para o conjunto da obra lucana: no evangelho é apresentada a itinerância de Jesus, no livro dos Atos ele apresenta o constante movimento missionário dos apóstolos, principalmente de Paulo.

Na etapa do caminho que nos é apresentada nesse domingo, contemplamos o famoso episódio da cura dos dez leprosos, um fato contado apenas por Lucas. Como já notamos no início, o próprio texto nos fornece o contexto: “caminhando para Jerusalém, Jesus passava pela Samaria e a Galileia” (v. 11). Há, a princípio, uma incoerência no dado geográfico, considerando que o destino é Jerusalém, na Judéia, e a Samaria era a região intermediária entre a Galileia e a Judeia; portanto, deveria percorrer antes a Galiléia e depois a Samaria. Mas, como sabemos, o evangelista não tem intenção de apresentar uma crônica da viagem de Jesus; sua intenção é teológica e catequética, portanto, não busquemos informações históricas precisas no texto.

Como o primeiro versículo (v. 11) serve apenas para contextualizar a cena, o episódio narrado acontece exatamente a partir do segundo (v. 12), um versículo muito rico de informações: “Ao entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam a distância”. Três dados que devem ser bem compreendidos para que o texto também o seja na sua integridade.

O primeiro dado, “ao entrar num povoado” (v. 12a), indica que Jesus estava entrando em um lugar difícil, hostil ao seu ensinamento. De fato, em todos os evangelhos, o povoado, em grego kw,mh – kome, tem sempre um sentido negativo porque representa o lugar da resistência às novas ideias, é onde impera o conservadorismo e o legalismo inflexível. No povoado, as coisas nunca podem mudar e, portanto, as ideias de Jesus não podem entrar. A rejeição de Jesus em Nazaré, apresentada no início da sua vida pública (cf. Lc 4,14-30), explica bem a mentalidade reinante no “povoado”: o apego à tradição impede de acolher a mensagem libertadora de Jesus.

Na sequência, ainda no mesmo versículo, diz que “dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância” (v. 12bc). Se estivéssemos procurando a historicidade do fato, encontraríamos aqui uma nova incoerência, pois o texto indica que Jesus está entrando, os leprosos o avistam e vão ao seu encontro, como se eles estivessem dentro do povoado. Historicamente isso seria impossível, pois as leis de pureza contidas no Levítico determinavam que os leprosos ficassem distante da cidade ou do povoado. De fato, o Levítico dedica dois capítulos inteiros para tratar da questão do leproso (cf. Lv 13 – 14). Aqui, recordamos a passagem central: “O leproso andará esfarrapado e despenteado, com a barba coberta e gritando: ‘Impuro, impuro!’ Enquanto durar a enfermidade, ficará impuro. Viverá à parte: sua habitação será fora do acampamento” (Lv 13,45-46). Portanto, historicamente não seria possível que os leprosos estivessem dentro do povoado, pois a religião não permitia.

A lepra significava o grau máximo de desgraça e o leproso, obviamente, o condenado por excelência. Era, de fato, o pior dos males e as leis bíblicas não tinham em vista a sua proteção; pelo contrário, visavam exatamente evitar a contaminação dos ‘puros’, por isso, determinavam a segregação total. O pior de tudo é que era vista como consequência do pecado e, portanto, como castigo de Deus. Logo, era o sacerdote quem examinava para declará-lo impuro e também, em caso de cura, quem o declarava puro e, portanto, readmitido ao convívio social.

A atitude dos leprosos é de submissão e respeito à lei: “Pararam à distância” (12c). Compreendiam que não podiam aproximar-se de ninguém que estivesse são, como Jesus. Embora reconheçam a submissão, há um inconformismo, sentem que o fardo imposto é pesado demais e, por isso, “gritaram: Jesus, mestre, tem compaixão de nós!” (v. 13). Ao invés de gritarem o sinal do aviso, “Impuro, impuro!”, como ordenava a lei, para que uma pessoa “pura” não se aproximasse deles, gritam em súplica a Jesus. É um grito de dor, de quem carrega um fardo insuportável e, essa dor não era tanto a física, mas a exclusão, a completa marginalização que a religião lhes imponha. E, ao contrário do que pregava a religião, Jesus não os considerava amaldiçoados nem impuros. Por isso, os atende conforme é solicitado: com compaixão!

É interessante observar, um detalhe que a tradução litúrgica não nos permite perceber, que Jesus é invocado como mestre, mas não como aquele que ensina, mas como quem tem poder, autoridade. Para o mestre na condição de quem ensina, o termo grego comum é didaskaloj – didaskalos; aqui, Lucas usa o termo  evpista,thj – epistates, que significa chefe, senhor. Portanto, os leprosos invocam Jesus reconhecendo-o como quem tem autoridade sobre a lei que os marginalizava. Pedir compaixão é reconhecer a situação de miséria em que se encontra, e só tem sentido fazer esse pedido a quem tem poder de contornar tal situação.

O versículo seguinte (v. 14), mostra a resposta de Jesus à súplica dos leprosos e as consequências. Como sempre, o agir libertador de Jesus não é marcado por interrogatórios nem lição de moral; sua preocupação é a libertação total da pessoa, reintegrar no convívio social, restituindo-lhe a dignidade negada pelo sistema religioso e político. Por isso, ordena: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes” (v. 14a). Porque apresentar-se ao sacerdote? Por que, segundo as normas do Levítico, era o sacerdote quem examinava o leproso e tinha autoridade para dizer se estava apto ou não para o convívio social. Há uma certa ironia da parte de Jesus, pois como a lepra era praticamente incurável, e o leproso era um semimorto, a apresentação daqueles dez levaria o sacerdote a uma reflexão a respeito da verdadeira mediação entre Deus e a humanidade. De certo modo, desmascararia aquela religião cheia de preceitos inúteis: os leprosos ficaram curados sem submeter-se a nenhum rito penitencial; foram curados, ou melhor, libertados, pela força da palavra de Jesus.

Os leprosos acreditaram nas palavras de Jesus e “Enquanto caminhavam, ficaram curados” (v. 14b); aqui está o núcleo central de todo o texto. Eles ficaram curados enquanto caminhavam, ou seja, quando saíram do povoado. Daí que, como ressaltamos antes, a intenção do autor não é crônico-histórica, mas catequética e teológica. Logo, quem tornava aqueles dez homens deficientes era a mentalidade fechada e legalista do povoado, ou seja, a própria religião. Aqui, mais uma vez, é importante fazer um esclarecimento terminológico: o verbo usado por Lucas é kaqari,zw – katarizo, e seu significado mais justo é purificar, mais que curar. Esse esclarecimento ajuda muito na compreensão da atitude de Jesus. Sua primeira preocupação era tirar o rótulo imposto pela religião, a qual classificava as pessoas como puras ou impuras. Jesus quer que todos se reconheçam e sejam reconhecidos como iguais, portanto, sem rótulos, sem classificação.

O texto poderia ser concluído aqui mesmo no versículo 14. À medida que os leprosos saem do povoado, deixam de ser impuros. Na verdade, o texto nem diz que Jesus os curou; Jesus apenas mostrou-lhes o caminho, indicando que era necessário desapegar-se das tradições. Era aquela mentalidade mesquinha do povoado que lhes tinha imposto o rótulo de impuros, obrigando-os à segregação. E, como diz o texto, nas entrelinhas, que eles na verdade já estavam no povoado, o a mensagem central de Lucas nesse trecho é que enquanto nos submetemos aos aprisionamentos e condicionamentos impostos pelos costumes e tradições, viveremos rotulados e sujeitos aos ditames do sistema.

Outro pormenor importante é que a purificação ou cura aconteceu enquanto caminhavam. Foi, exatamente, em caminhada que Jesus quis a sua comunidade e quer a sua Igreja em todos os tempos. Era um grupo de dez, um número simbólico que significa totalidade, completude; também esse é um dado importante que o evangelista apresenta: a dimensão comunitária da fé. Os leprosos não suplicaram individualmente, cada um pedindo a sua cura; suplicaram em comunidade: “tem compaixão de nós!” (v. 13); a súplica foi atendida igualmente à medida que caminharam juntos. É em comunidade que que se deve lutar, porque é em comunidade que se salva e se liberta.

Embora algumas interpretações destaquem bem mais o conteúdo dos versículos 15 a 19, para superexaltar uma teologia da gratidão, a mensagem central está no versículo 14, mesmo que o conteúdo dos versículos sucessivos também seja importante.

Não pode passar despercebido o fato de somente um ter voltado glorificando a Deus em alta voz (v. 15), e era um samaritano. Embora os samaritanos tenham rejeitado Jesus no início da viagem (cf. Lc 9,52-56), Lucas deixa muito clara a predileção de Jesus por aquele povo tão rejeitado pelos judeus. O exemplo mais claro dessa predileção se verifica com a parábola do samaritano caridoso (cf. Lc 10,29-37), sobrepondo seu comportamento ao do sacerdote e do levita. Além de voltar glorificando a Deus, após sentir-se curado, é muito importante a sua atitude: “atirou-se os pés de Jesus com o rosto por terra e agradeceu-lhe” (v. 15). Ora, de todos os leprosos, era esse o mais estigmatizado, pois era portador de uma dupla maldição: além de leproso, era samaritano. De fato, ser samaritano já era ser impuro por natureza, herege e pecador. Indo diretamente ao sacerdote, ele receberia o atestado de pureza apenas pela metade: estava curado da lepra, mas não tinha como deixar de ser samaritano; por isso, voltou, glorificando a Deus e agradecendo porque em Jesus ele encontraria, realmente, espaço e liberdade para viver plenamente com sua dignidade reconhecida.

O questionamento de Jesus a respeito do comportamento dos outros nove é apenas uma forma tipicamente lucana de ressaltar os comportamentos opostos. De fato, do começo ao fim do seu evangelho, Lucas gosta de apresentar seus personagens a partir das diferenças comportamentais extremas: o sim de Maria e a incredulidade de Zacarias, o samaritano e o sacerdote da parábola, o fariseu e o publicano. Faz parte da didática do evangelista.

Se no texto anterior (Lc 17,1-11), refletido no domingo passado, Jesus tinha alertado seus discípulos a não esperar por reconhecimento quando cumprissem com seus deveres, logo, não condenaria os outros nove que não vieram agradecê-lo. Na verdade, seu lamento é porque os nove não tinham ainda sentido o dom completo da libertação: saíram do povoado, mas o povoado não saiu deles, ou seja, continuavam com a mentalidade tradicional de apego à lei com seus preceitos.

O fato de perceber que aquele que voltou para agradecer e dar glória a Deus era um estrangeiro (v. 18), é um sinal claro de outra dimensão importante da teologia proposta por Lucas: o universalismo da salvação. Ainda no evangelho, mas principalmente nos Atos dos Apóstolos, Lucas procura enfatizar que, à medida que os judeus se fecharam à Boa Nova trazida por Jesus, os pagãos foram aderindo e aceitando a salvação. Por isso, no final, Jesus diz que o samaritano  não apenas ficou curado, mas ganhou a salvação: “Tua fé te salvou!” (v. 19b), ou seja, ganhou a vida em plenitude; saiu completamente do povoado e o povoado saiu dele.

Concluindo, podemos afirmar que, muito mais que desenvolver uma teologia da ‘gratidão’ e do ‘louvor’, o Evangelho de hoje nos ensina e nos estimula a clamar, confiar e sair, sem medo de romper com costumes e tradições. É necessário perceber onde estão as lepras de nossos tempos. No tempo de Jesus estava na tradição, nos costumes impostos pela religião, nos povoados que impediam as pessoas de pensar e vivere a vida em plenitude.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

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