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REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – LUCAS 2,22-40 (ANO B)



Neste domingo em que celebramos a festa da Sagrada Família, a liturgia nos oferece o texto de Lc 2,22-40 para o evangelho, a narrativa do episódio conhecido como apresentação de Jesus no templo de Jerusalém. É importante esclarecer, desde já, que esse texto não é um tratado sobre a família, mas uma maneira de Lucas afirmar a “normalidade” de Jesus: nasceu e criou-se no seio de uma família judaica, condicionado aos costumes e leis da sua época, embora capaz de contradizê-los e até negá-los, conforme a necessidade, como será demonstrado ao longo do Evangelho. É um texto de alta concentração cristológica, no qual são unidos diversos elementos do Antigo Testamento à novidade de Jesus como preparação para o seu reconhecimento como salvador universal, ou seja, “luz das nações” (v. 32).

Por se tratar de um texto bastante longo, não comentaremos cada versículo, mas procuraremos colher a mensagem central em seu conjunto, embora seja necessário evidenciar alguns versículos em particular. É importante, antes de tudo, perceber o contexto para melhor compreender. Esse texto faz parte do chamado “Evangelho da infância”, já em sua parte final. Após a encantadora narrativa do nascimento, com o coro dos anjos e a visita dos pastores (cf. 2,8-20), Lucas menciona a circuncisão do menino no oitavo dia (cf. 2,8,21) e, em seguida, narra a cena da apresentação do menino e a purificação da mãe, conforme o preceito legal judaico, e os testemunhos dos anciãos Simeão e Ana (2,22-40).

Conforme afirmamos anteriormente, esse texto tem uma alta concentração cristológica, ou seja, é Cristo o seu centro, e isso já pode ser percebido no primeiro versículo: “Quando se completaram os dias da purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (v. 22). O preceito de purificação era aplicado somente à mãe: quarenta dias após o parto, se a criança fosse menino, e oitenta dias se fosse menina (Lv 12,1-8). Ora, a lei exigia apenas que a mãe se apresentasse ao sacerdote; ao inserir Jesus na cena, Lucas pretende evidenciar a sua importância e centralidade. Quanto ao fato da apresentação, não havia nenhuma prescrição legal para esse gesto. A Lei determinava não prescrevia a apresentação da criança, mas apenas a consagração do primogênito: “Conforme está escrito na Lei do Senhor: todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor” (v. 23 = Ex 13,2). Para essa consagração não havia necessidade de levar a criança ao sacerdote; exigia-se apenas o pagamento do seu resgate (cf. 34,19-20). Ao dizer que Jesus foi apresentado, Lucas quer enfatizar a sua pertença ao Pai.

Um dos temas mais caros ao Evangelho segundo Lucas é a atenção aos pobres. Nesse episódio, esse tema é enfatizado pela descrição da oferta de José e Maria em expiação pela purificação da mãe: “Foram também oferecer o sacrifício – um par de rolas ou dois pombinhos – como está ordenado na Lei do Senhor” (v. 24). A oferta deveria ser de um cordeiro, com exceção para as famílias pobres que podiam oferecer um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lv 12,8), como fizeram José e Maria. Com isso, o evangelista evidencia que Jesus veio pelos pobres, para os pobres e para ficar com os pobres. Sua identificação é clara com os últimos de Israel e, consequentemente, de todo o universo: humildes, pecadores, mulheres, etc.

Para ilustrar a cena, Lucas introduz em sua narrativa dois personagens importantes para a sua criação teológica: Simeão e Ana. Ambos são personalidades corporativas, ou seja, representam uma coletividade: o povo de Israel que permaneceu fiel às promessas de Deus, sobretudo os mais pobres, e que vê em Jesus o cumprimento dessas promessas.

De Simeão, diz Lucas que ele era “justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor” (vv. 25-26). Com as credenciais de justo e piedoso, ele é colocado entre aqueles que se mantiveram fiéis ao Senhor, não obstante tantos momentos críticos ao longo da história de Israel e, por isso, esperavam a consolação. Ora, esperar a consolação significa reconhecer e assumir uma situação de tristeza, negação da vida. Por isso, Lucas enfatiza tanto a alegria ao longo do seu Evangelho. Israel vivia uma situação caótica e triste, na qual muitos perderam a esperança e o gosto pela vida. Simeão soube esperar e reconhecer em Jesus o consolo definitivo, a salvação de quem estava literalmente perdido, sem perspectivas, devido a opressão causada pelos poderes vigentes na época, o império romano e a religião oficial de Israel. Vivendo em situação tão adversa e caótica, somente tendo consigo o Espírito Santo, Simeão poderia sentir a libertação definitiva tão próxima. Esse dado é importante: é o Espírito Santo quem credencia o ser humano a acolher a novidade de Jesus e do Evangelho.

Ao dizer que “Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus” (v. 28), Lucas quer afirmar que o velho acolheu o novo, os dois testamentos (alianças) se encontraram e podem, de agora em diante, conviver em harmonia, desde que haja abertura ao Espírito Santo da parte do antigo. O povo da antiga aliança é consolado ao participar da nova aliança, cedendo aos apelos do Espírito Santo. Isso requer um aprofundamento na vivência da fé, graças ao Espírito Santo. Conforme já profetizara Isaías (cf. Is 49,6), Simeão percebe que é preciso abrir mão de certos pensamentos hegemônicos: a glória de Israel é compatível com a luz das nações. Ora, luz é também sinal de glória. Portanto, se Israel encontra sua glória, os povos de todo o mundo são também iluminados, e não dominados, como esperavam os movimentos mais nacionalistas e radicais.

Somente com olhos e coração atentos ao Espírito Santo, era possível afirmar que a salvação foi vista, contemplada. Assim, Simeão e, nele, todo o Israel fiel, pode dizer: “podes deixar teu servo partir em paz” (v. 30). De fato, Antigo Testamento deu ao Novo seu lugar! Simeão, ajudado pelo Espírito Santo, antecipa a missão de Jesus e o efeito dessa: ser sinal de contradição e causa de queda e reerguimento para muitos em Israel (cf. v. 34). O Evangelho não será acolhido por todos e, portanto, a sua acolhida causará divisão, angústia e, consequentemente, queda e elevação. Na verdade, Lucas está reforçando o que já tinha apresentado no cântico de Maria: o Deus de Israel e de Jesus eleva os humildes e faz cair os soberbos (cf. Lc 1,52ss).

Quando ao que Simeão diz em relação a Maria, a mãe, não é uma profecia em relação ao drama da cruz, como muitas interpretações tradicionais afirmam. A espada é uma imagem da palavra de Deus no Antigo Testamento (cf. Is 49,2). Portanto, será a Palavra de Deus, revelada plenamente em Jesus, a atravessar Maria: o Evangelho dividirá o povo judeu; uns o acolherão, outros não; como imagem e figura de Israel, Maria viverá em si esse drama. A espada aqui é o Evangelho que dividirá o mundo.

Quanto a Ana, seu papel é semelhante ao de Simeão. Ao mencioná-la, Lucas quer enfatizar a importância da mulher na nova aliança, resgatando a importância que a a antiga lhe tinha neglicenciado. Ao qualificá-la como profetisa, o evangelista lhe atribui um papel importante; poucas mulheres receberam esse título no Antigo Testamento (cf. Jz 4-5: Débora; 2Rs 22, 14: Hulda). A sua idade é bastante significativa: 84 anos, o que significa 7 vezes 12, ou seja, Israel (número 12) chegando a sua perfeição (número 7); portanto, Ana representa é o Israel ideal que encontrou em Jesus a sua razão de ser. Por isso, ela “pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém” (v. 38). O louvor é consequência de quem se reencontra com a alegria e o gosto pela vida, algo que Lucas valoriza bastante em sua obra (Evangelho e Atos). Ana, ao louvar, se solidariza com todos aqueles que esperavam a libertação. Ora, libertação é o desejo de quem se sente na escravidão. Ela reconhece Jesus como a libertação definitiva de quem se encontrava escravizado pelo império romano e pela religião judaica.

Diante de tudo o que se dizia do menino, a reação dos seus pais não poderia ser diferente: estavam maravilhados (v. 33). Assim como Simeão e Ana, José e Maria também estavam cansados da vida com suas mazelas, exploração e desencantos. Porém, mantiveram a esperança viva; não desanimaram, esperaram no Senhor e viram a libertação e a consolação. Por isso, são para nós testemunhas autênticas de um Deus que não deixa de cumprir as suas promessas.

A grande lição desse belo texto evangélico é exatamente essa: em Jesus, as promessas de Deus são realizadas, o Antigo Testamento é cumprido, porém, de modo surpreendente: a mensagem salvífica de Jesus é tão grande que Israel não é capaz de comportá-la; por isso, transcende, é luz para todos os povos!

Maravilhar-se é admirar-se, encantar-se. Somente o que é grandioso e novo pode encantar realmente. É olhando para as raízes de Jesus e, ao mesmo tempo, indo além, que somos chamados a testemunhá-lo com amor, alegria e determinação, na certeza de que n’Ele, somos consolados e libertados!


Mossoró-RN, 30/12/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DO ADVENTO – LUCAS 1,26-38 (ANO B)



A liturgia deste quarto e último domingo do advento constitui o ápice da preparação para o Natal do Senhor. Assim como nos dois últimos domingos (segundo e terceiro) fomos ajudados pelo testemunho de João Batista, hoje é a figura de Maria que nos é apresentada como testemunha exemplar de acolhida aos desígnios de Deus em sua vida. Por isso, a liturgia recorre ao Evangelho segundo Lucas, e nos oferece o texto da anunciação: Lc 1,26-38, uma vez que o evangelho do ano corrente, Marcos, não faz qualquer menção a este acontecimento.

Esta última etapa litúrgica de preparação para o Natal tem a função de nos introduzir diretamente no mistério da encarnação, mostrando como Deus intervém na história, vindo ao encontro da humanidade de maneira extraordinária e, ao mesmo tempo, simples, interagindo surpreendentemente com o ser humano através do diálogo, propondo ao invés de impor, escolhendo os pequenos e marginalizados ao invés dos poderosos e ricos, fazendo morada na periferia ao invés dos grandes centros. Essas pequenas pequenas observações constituem uma breve síntese do evangelho de hoje, objeto da nossa reflexão.

A anunciação do nascimento de Jesus pelo anjo Gabriel a Maria não é um evento isolado no terceiro evangelho. Na verdade, esse evento é precedido por um outro anúncio: o do nascimento de João a Zacarias. Inclusive, para compreender melhor o anúncio a Maria, é necessário recordar alguns elementos do anúncio a Zacarias, como: o ambiente urbano e solene do templo de Jerusalém, um sacerdote como destinatário, a idade avançada dos personagens (Zacarias e Isabel), a incredulidade. Esses elementos são importantes para as intenções teológicas de Lucas, o qual convida o ouvinte/leitor a perceber que no anúncio a Maria acontece praticamente o contrário, como sinal de que, em Jesus, começa uma nova história da humanidade, escrita a partir dos pequenos, com uma verdadeira revolução de valores e relações.

Mais uma vez, a versão litúrgica do texto traz um prejuízo logo no primeiro versículo, ao trocar o indicativo temporal “No sexto mês”, como consta no texto bíblico, pela fórmula genérica e vaga “naquele tempo”. Assim é o primeiro versículo: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré” (v. 28). O sexto mês tem como referência o anúncio feito a Zacarias: seis meses após, o anjo Gabriel foi enviado a Nazaré. Aqui começa a novidade. Ora, a Galiléia era uma terra desprezada, considerada semi-pagã; embora fossem judeus de raça, seus habitantes eram vistos com desconfiança pelos líderes religiosos e políticos de Jerusalém. Nazaré era uma pequena aldeia, nunca mencionada no Antigo Testamento; aqui, Lucas a apresenta como símbolo máximo do desprezo e do anonimato, sinal das surpresas de Deus. Para onde a religião só dispensava desprezo e discriminação, Deus envia o seu mensageiro para dar uma Boa Notícia!

Além do lugar desprezível, Deus surpreende também na escolha da destinatária: “a uma virgem, prometida em casamento, a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi, e o nome da virgem era Maria” (vv. 27-28). Embora a tradição cristã tenha transformado a virgindade em virtude, para a mentalidade semita a mulher virgem tinha uma conotação bastante negativa; ser virgem significava não ter capacidade de atrair os desejos e olhares de um homem, e numa cultura ultra-machista de completo desprezo pela mulher, isso era lamentável, sinônimo de desgraça. No caso de Maria, menos mal que já estava “prometida em casamento”. É importante recordar como se dava o casamento judaico. Esse acontecia em duas fases: a primeira, chamada de “etapa da promessa”, durava cerca de um ano; nessa fase, já eram considerados casados, mas a noiva continuava morando com seus pais. Um ano após a “promessa”, acontecia a celebração de bodas, dando início a segunda fase; após cerca de uma semana de festa, os cônjugues passavam a viver juntos. O casamento era consumado na primeira noite das bodas, por isso a noiva permanecia virgem durante toda a fase da promessa.

Embora uma nova história da salvação estivesse para acontecer, o evangelista faz questão de mostrar a continuidade dessa história e da ação perene de Deus em favor da humanidade, levando as antigas promessas ao seu cumprimento. Por isso, apresenta José como descendente de Davi, mostrando que a nova história começa como cumprimento da velha; as duas alianças de unem.

Do versículo 28 em diante, o texto se desenvolve em forma de um surpreendente diálogo entre o enviado de Deus e Maria: “O anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo!” (v. 28). Ao dizer que o anjo entrou, o evangelista dá a entender que o anúncio foi dado dentro de casa, contrapondo ao anúncio solene a Zacarias no templo de Jerusalém. Através de seu mensageiro, Deus rompe todas as barreiras de classe e cultura, dialogando com uma mulher em uma casa de aldeia.

O imperativo “alegra-te” (em grego: cai/re – kaire) que abre o diálogo sinaliza para um novo tempo: coisas boas estão para acontecer, uma nova história virá! É também uma demonstração de que Deus não se deixa condicionar pelos esquemas da religião e da cultura, substituindo a tradicional fórmula de saudação hebraica “shalom”. O motivo da exuberante saudação nem sempre foi bem compreendido: “cheia de graça, o Senhor está contigo”. Algumas práticas devocionais exageradas tende a encher Maria de méritos, a ponto de Deus tê-la premiado por isso, escolhendo-a para mãe de seu Filho. O anjo não está dando um atestado de virtudes, mas fazendo um anúncio maravilhoso: “O Senhor está contigo, te enchendo de amor gratuitamente”; essa seria a tradução mais justa. A escolha de Maria, portanto, não foi um prêmio por suas virtudes, mas uma demonstração da gratuidade do amor de Deus. Na Bíblia, graça e mérito são incompatíveis.

A reação de Maria é bastante compreensível, considerando a novidade do acontecimento: ficou perturbada e pensativa (v. 29), chegando, inclusive, a ter medo (v. 30). Como a iniciativa foi de Deus, é Ele mesmo, através de seu mensageiro, o anjo, quem explica qual será a missão de Maria na nova história: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim” (vv. 31-33). A missão de Maria é de uma mulher autônoma, emancipada: conceber, dar à luz, pôr o nome. Pela tradição, quem dava o nome à criança era o pai, principalmente se o filho fosse varão. No limiar de um novo tempo, a história toma um novo rumo com o protagonismo da mulher.

Simultânea à missão de Maria, também vem explicada a do filho, começando pelo nome Jesus, o qual significa “Deus salva”; aqui está o sentido de todos estes acontecimentos. A ação salvífica de Deus, até então bloqueada pela religião, de agora em diante se estenderá a todas as gerações. Sendo “Filho do Altíssimo”, ninguém terá poder sobre Ele. Ocupará de uma vez por todas o trono de Davi; não terá sucessores, como acontecera no passado, inaugurando um reino novo na certeza de que não cairá nas antigas vicissitudes, como ocorrera com o finado reino de Israel. Assim, cumprem-se as promessas do Antigo Testamento, mas não conforme as antigas expectativas. “Deus salva” a partir dos pequenos e das margens; será essa a principal característica do Reino que está prestes a ser inaugurado.

A interação de Maria com o anjo revela uma nova concepção de Deus. O Deus soberano e distante é coisa do passado. O Deus do diálogo entra em cena: vindo ao encontro da humanidade, escolhendo o lado mais fraco da história, permite ser questionado por uma jovem mulher. Maria antecipa o novo rosto da humanidade e da religião, quebrando protocolos, abandonando rituais, interagindo diretamente com o divino: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” (v. 34). Ela compreende que é possível dialogar com Deus e até questioná-lo, afinal, Ele quis ser um de nós! Mais que percepção e cognição, o verbo conhecer (em grego: ginw,skw – guinôsko) na tradição bíblica significa intimidade, e até mesmo relação sexual;  é nesse sentido que Lucas o emprega aqui. É o mesmo que afirmar que Maria disse “Como isso pode acontecer, se eu não tenho relação com homem algum?”. De fato, embora já fossem considerados marido e mulher, na primeira etapa do casamento não era permitido ter relação sexual. A fé autêntica não está imune a questionamentos, pelo contrário. Na pergunta de Maria, Lucas antecipa o modelo ideal de discipulado: crente, confiante, perspicaz e questionador. Com a crescente mercantilização do sagrado, o exemplo questionador de Maria se torna cada vez mais necessário no discipulado de Jesus; isso vale para todos os tempos.

À humanidade questionadora, Deus não responde com castigo, como muitos ainda hoje pregam. A resposta de Deus, através do anjo, é de quem acredita no ser humano e tem paciência com ele, bem típico do Deus de Jesus: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus” (v. 35). Além da capacidade de Deus agir de modo completamente novo, extraordinário e surpreendente, a concepção divina de Jesus, dispensando a intervenção masculina, marca também um rompimento com a tradição familiar patriarcal. A figura masculina deixa de ser o centro da família e da sociedade, preconizando uma sociedade marcada pela igualdade nas relações.

Ainda em resposta ao questionamento de Maria, o mensageiro de Deus cita o exemplo de Isabel, uma anciã considerada estéril, porém fecundada graças à intervenção divina. Os dois casos, uma anciã estéril e uma jovem virgem grávidas, ressaltam a grandiosidade de Deus, comprovam que para Ele nada é impossível (v. 37). Como é a partir das dúvidas que a fé se torna sólida, Maria chega à conclusão da veracidade do anúncio e se prontifica a colaborar decisivamente com o projeto de Deus para a construção de um mundo novo e de uma humanidade renovada: “Eis aqui a serva do Senhor” (v. 37a). Mais que uma prova de humildade, a resposta de Maria é uma profissão de fé, amor e confiança. Com a expressão “a serva do Senhor” (em grego: h` dou,lh kuri,ou – hé dulé tu kyriu), Maria não dá uma declaração de humildade, mas se apresenta como colaboradora de Deus. Ora, no Antigo Testamento, “servo do Senhor” era um título de honra, aplicado apenas a figuras masculinas, tanto síngulas quanto corporativas. Aplicando a si, Maria diz que também as mulheres podem ser colaboradoras de Deus e de seu plano salvífico.

O consentimento livre e espontâneo demonstra a autonomia e a confiança de Maria: “faça-se em mim segundo a tua palavra!” (v. 37b). Naquelas circunstâncias sócio-históricas, a mulher não tinha nenhum poder de decisão; só o pai ou o marido poderiam decidir por ela. Ao ser consultada e responder sozinha, sem pedir permissão a nenhum homem, Maria rompe completamente com os condicionamentos culturais da época, tirando a mulher da humilhante situação de submissão. Assim, ela preconiza a total emancipação da mulher. Abrindo-se com disponibilidade para o cumprimento da palavra, ela se torna exemplo de discípula.

Podemos, então, concluir que o maior exemplo de preparação para a acolhida do Senhor é Maria. Com seu testemunho de fé no Senhor, espírito questionador, automia e coragem, ela se torna modelo e exemplo para o discipulado de todos os tempos. Para sentir os sinais da sua vinda/presença, o Senhor nos convida, através do exemplo de Maria, a olhar para as margens, ouvir os silenciados de sempre e, assim, construir uma nova história.


Mossoró-RN, 23/12/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO ADVENTO – JOÃO 1,6-8.19-28 (Ano B)



Neste terceiro domingo do advento, o Evangelho nos apresenta, mais uma vez, a figura de João, o Batista, como personagem importante no caminho de preparação para o reconhecimento e acolhida do Senhor que já veio e, portanto, já está entre nós. O texto evangélico que a liturgia propõe é Jo 1,6-8.19-28. Como Marcos apresenta a missão do Batista de maneira bastante breve, a liturgia recorre ao Quarto Evangelho para continuar a apresentar sua missão de precursor de Jesus.

O texto que liturgia oferece é composto de duas partes distintas: a primeira (vv. 6-8), funciona como introdução, uma vez que faz parte do rico prólogo poético-teológico, o qual funciona como introdução teológica a todo o Quarto Evangelho; a segunda parte (vv. 19-28) é o desenvolvimento da introdução, e corresponde à abertura da primeira seção narrativa do Quarto Evangelho, iniciada exatamente com a apresentação do testemunho de João, o Batista.

Em seu rico prólogo, o evangelista João apresenta Jesus Cristo como “lógos” (em grego: lo,goj), palavra/verbo originário de todas as coisas (cf. 1,1-18). Se trata de um hino altamente cristológico, mas mesmo assim, o autor encontra razão e espaço para citar, nesse texto, a existência de um homem: “Surgiu um homem enviado por Deus; Seu nome era João” (v. 6). Ao falar de Jesus e de sua vinda ao mundo, a missão de João não pode ser ignorada. Como Deus nunca deixou de comunicar-se com a humanidade, ao enviar seu filho, envia também um mensageiro para apontá-lo, para ajudar o mundo a reconhecê-lo.

Como homem enviado por Deus, o precursor é figura proeminente no despertar das consciências para a luz que veio iluminar a humanidade dominada pelas trevas: “Ele veio como testemunha da luz, para dar testemunho da luz, para que todos cheguem à fé por meio dele” (v. 7). A luz da qual fala o evangelista é o próprio Cristo (lógos), já presente, mas ainda não reconhecido como tal; por isso, é necessário o testemunho de João apontando para Ele, para que todos cheguem a fé, sem distinção entre israelitas e gentios.

Controlada e explorada politica e economicamente por Roma, religiosa e ideologicamente pela elite sacerdotal de Jerusalém, a Palestina do tempo de Jesus vivia uma situação plena de trevas; trevas como negação da vida plena e digna. Por isso, as pessoas estavam ansiosas por luz, e Jesus vem apresentado como luz. E, para que João não fosse confundido com Jesus, o messias-luz, o evangelista esclarece: “Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz” (v. 8). Embora tenha um papel proeminente na construção de um mundo novo, iluminado, João não pode ser confundido com Aquele que, de fato, é luz e vida por excelência; seu papel foi o testemunho, como é hoje o de todos os cristãos e cristãs. Dar testemunho da luz é a missão que João, como precursor, transmite aos seguidores de Jesus.

Após introduzir a missão de João, com suas credenciais de testemunha da luz, o evangelho descreve a sua missão, sendo essa, desde o princípio, marcada pela perseguição da parte daqueles queriam manter o mundo em trevas: “os judeus enviaram de Jerusalém, sacerdotes e levitas para perguntar: ‘Quem és tu?’” (v. 19). É importante esclarecer que, ao mencionar os judeus, o evangelista não se refere ao povo judeu em si, mas às suas autoridades, ao núcleo do poder, aos chefes, nesse caso específico, ao sinédrio.

Certamente, a pregação de João começava a surtir efeito e espalhavam-se boatos a seu respeito. Como a luz é ameaça para as trevas, os movimentos populares são ameaças para os controladores da ordem vigente. Assim, a pregação de João preocupava os detentores de poder na sua época. Por isso, diz o texto que as autoridades enviaram uma comitiva, composta de sacerdotes e levitas, para fiscalizar a atividade de João, perguntando pela sua identidade: “Quem és tu?”. Mais que curiosidade, essa pergunta revela o menosprezo dos que se sentem os únicos autorizados a falar em nome de Deus. Revela também o medo da perda de privilégios.

Como boa testemunha da luz, João responde, dizendo quem não é: “Eu não sou o Messias” (v. 20). Quem tem consciência de sua missão, não assume o lugar e a competência do outro. Além da coerência do Batista, é importante também perceber aqui a coerência teológica do evangelista: no Quarto Evangelho, a expressão “Eu sou” (em grego: evgw. eivmi, – egô eimí) é reveladora da identidade divina, em consonância com o Êxodo (cf. Ex 3,14): somente Jesus “é” (cf. Jo 8,58). O autor do Quarto Evangelho não permite que nenhum outro personagem seu use essa expressão para si, porque ela é exclusiva de Deus. Inclusive, no próprio texto de hoje, quando na tradução litúrgica apresenta João se identificando como “Eu sou a voz que grita no deserto” (v. 23a), na língua original está apenas: “Eu, a voz que grita no deserto” (em grego: evgw. fwnh. bow/ntoj evn th/| evrh,mw|\ – egô foné boontos en té erémo), porque somente Jesus pode dizer “Eu sou”.

Os delegados enviados pelas autoridades do templo continuam o interrogatório: perguntam se João é Elias ou o profeta (vv. 21). Ora, segundo a profecia de Malaquias, o profeta Elias deveria voltar para preparar a vinda do Messias (cf. Ml 3,21). No Deuteronômio, Deus havia prometido suscitar um “profeta” como uma espécie de segundo Moisés (cf. Dt 18,18), o que alimentava bastante as expectativas do povo judeu. A resposta de João continua negativa, ou seja, ele continua afirmando que não é nenhuma destas figuras do Antigo Testamento.

Os enviados do templo para inspecionar a atividade de João, assim como seus chefes, tinham toda a doutrina da religião memorizada, viviam em função dela e fechados nela, a ponto de não aceitarem que Deus agisse fora de seus esquemas tradicionais. O evangelista, de modo sutil, denuncia tendências de fechamento na sua comunidade, mostrando que a ação de Deus transcende a doutrina. É impossível submeter o agir de Deus a um esquema doutrinal. Não sendo o Messias, nem o sucessor de Moisés, nem Elias, quem mais João poderia ser? Por isso, a pergunta final: “Quem és afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo?” (v. 22). Para os judeus, o que não fosse fundamentado pela lei e os profetas, não podia vir de Deus. A lição do evangelista serve para todas as religiões: quando se fecha na doutrina, ignora-se a ação do Espírito, e deixa-se de ver beleza e valor no outro.  Por sinal, o Espírito é uma categoria muito importante para a comunidade joanina, porque Ele ilumina e conduz à verdade, gerando amor entre todos; após a ressurreição, será o condutor da comunidade.

A resposta de João, mais uma vez, mostra a sua grandeza revelada na pequenez: assim já tinha dito que não é o Messias nem a luz, mas apenas testemunha, agora confessa que não passa de uma “voz que grita no deserto para aplainar o caminho do Senhor” (v. 23). O profeta é apenas voz, porque a Palavra é o próprio Cristo; a voz é passageira, ecoa por alguns segundos, a Palavra permanece, é eterna, a qual existe deste o princípio (cf. Jo 1,1). É uma voz-grito que ressoa no deserto porque as instituições, fechadas na doutrina, já não eram mais capazes de ouvir o seu apelo de conversão. A voz de Deus não era ouvida no templo, transformado em casa de comércio (cf. Jo 2,13-20).

Aplainar os caminhos do Senhor significa remover os obstáculos para que a mensagem libertadora do Evangelho prevaleça. Esses obstáculos são: o ódio, a cobiça, a violência, a corrupção, o preconceito, a indiferença, o proselitismo, enfim, tudo o que impede os homens e mulheres de viverem como irmãos e irmãs em toda a terra. Infelizmente, muitos destes obstáculos tinham sido postos no caminho pela própria religião institucionalizada. Por isso, seus dirigentes estavam preocupados com a voz forte de João, o qual anunciava em consonância com os antigos profetas, os quais também foram silenciados pela instituição religiosa (Amós, Jeremias, Isaías, Miquéias...).

À medida em que os encarregados da religião oficial continuavam a interrogá-lo, João deixava cada vez mais clara a natureza da sua missão de preparar o caminho do Senhor, batizando com água aqueles que dele se aproximavam e, ao mesmo tempo, chamando a atenção para uma novidade: “no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim” (vv. 26-27). Nessa expressão está a chave de leitura de todo o texto para a perspectiva do advento: conhecer e reconhecer quem já veio. Não buscá-lo em eventos ou intervenções extraordinárias, nem esperá-lo em longas e utópicas vigílias, mas reconhecê-lo na situação presente, na simplicidade das coisas.

Depois da voz de João gritando no deserto, e do seu testemunho da luz, devemos reconhecer a presença de Jesus em nosso meio também dando testemunho da luz, ouvindo a voz que ressoa do deserto, mas também colocando-nos como vozes da Palavra por excelência, Jesus. O reconhecimento passa pela abertura de mentalidade, a conversão, desarmando-nos do fechamento e rigidez das doutrinas, e aprendendo a reconhecer a ação de Deus nos acontecimentos do dia-a-dia. A certeza de que Ele está presente torna nosso caminho para acolhê-lo mais realista!



Mossoró-RN, 16/12/2017, Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO ADVENTO – MARCOS 1,1-8 (ANO B)


Neste segundo domingo do advento, a liturgia nos convida a ler e refletir os primeiros versículos do Evangelho segundo Marcos: 1,1-8. Se trata de um texto bastante rico e profundo. Como o advento é, para a liturgia, o tempo por excelência de preparação para o Natal do Senhor, é importante voltarmos o olhar para o princípio do evangelho, reconhecendo o papel dos personagens que estiveram em tal princípio, como hoje recordamos a figura de João, o Batista.

De maneira única em todo o Novo Testamento, assim Marcos inicia seu escrito: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v. 1). Somente ele intitula sua obra de Evangelho, inaugurando um novo gênero literário. Evangelho (em grego: euvaggeli,on – euanguélion) significa boa notícia, boa nova, notícia agradável. Era uma palavra mais utilizada na esfera política que religiosa. Na verdade, “euanguélion” era a palavra que se usava para anunciar as notícias mais importantes do império, como o nascimento de um filho do imperador e as vitórias em uma guerra ou batalha. Ao utilizá-la para falar dos acontecimentos referentes a Jesus, Marcos se assume como subversivo, afirmando que boa notícia não é o que sai de Roma, através de decretos imperiais, mas o que sai de Nazaré, na vida de um homem simples, corajoso e cheio de amor: Jesus.

Se Marcos se assume subversivo politicamente, aplicando “euanguélion” a Jesus, é nítida também a sua subversão religiosa, ao abrir a “história” de Jesus com a mesma palavra que se abre o Antigo Testamento, com o termo grego VArch. – arkhê, cujo significado mais autêntico é princípio, ao invés de início, como traz o texto litúrgico. O autor quer dizer que a história da salvação tem, em Jesus, um novo princípio, um novo fundamento, desafiando a religião oficial da época, até então, controladora do nome de Deus.

O homem do qual o evangelista irá falar ao longo do evangelho, Jesus, é Cristo, ou seja, messias, e, ao mesmo tempo, Filho de Deus. O termo Cristo (Cristoj - Cristós) é a tradução grega de messias, assim, o evangelista ensina que o tempo da espera acabou: o tão esperado messias libertador de Israel chegou, mas não como tinha ensinado o magistério oficial, ou seja, ele não veio como rei, guerreiro e vencedor, mas simples e pobre, embora não seja preocupação de Marcos narrar o nascimento de Jesus, como fizeram Mateus e Lucas.

Ao afirmar que Jesus é também Filho de Deus, Marcos desafia, ao mesmo tempo, tanto o império quanto a religião da época. Ora, o judaísmo esperava um messias filho de Davi, o qual viria para proteger e libertar somente o povo de Israel; ao denominar Jesus como Filho de Deus, Marcos diz que Jesus veio para a humanidade toda, e não para um povo exclusivo, ao mesmo tempo em que desmascara a religião imperial que cultuava o imperador romano como filho de Deus. Portanto, de modo simples, mas ao mesmo tempo profundo, Marcos enfrenta os dois poderes mais fortes e organizados da época na terra de Jesus: o império romano e a religião oficial judaica.

Até aqui, refletimos apenas sobre o primeiro versículo, o qual funciona como título e introdução geral a todo o Evangelho segundo Marcos. Na continuidade, do segundo versículo em diante, o evangelista apresenta a figura de João, o Batista, e sua missão profética de precursor de Jesus. Para introduzir a missão de João, Marcos recorre à tradição profética: “Está escrito no livro do profeta Isaías: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’ ” (vv. 2-3). Aqui, embora mencione somente Isaías, a citação é, na verdade, uma mescla de Isaías com Malaquias (cf. Ml 3,1; Is 40,3). O objetivo do profeta é assegurar que a missão de João continua e atualiza o profetismo bíblico tradicional, do qual Jesus é o seu verdadeiro cumprimento.

Após a fundamentação bíblico-profética, o evangelista descreve a missão de João e os seus efeitos, dizendo que ele “apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para a remissão dos pecados” (v. 4). Ora, o deserto (em grego: evrh,moj – erémos)  é o lugar ideal para a relação entre Deus e o seu povo; representa uma etapa no processo de libertação, como aconteceu no primeiro êxodo; por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf. Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Assim, a presença de João no deserto é um convite para Israel romper com as estruturas vigentes e retornar às suas origens. O batismo de conversão serve como chamada de atenção: todos tem um certo grau de culpa na situação de degradação do país. É necessário que cada um tome consciência de sua responsabilidade na construção de um mundo novo, através da conversão.

A pregação de João, como proposta de libertação, atraía “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro” (v. 5a). Certamente, o evangelista exagera aqui, mas faz parte de suas intenções teológicas. Com isso, ele está propondo que um novo êxodo estava para acontecer, iniciando com a pregação do Batista e se completando com a missão de Jesus. A antiga terra prometida, principalmente a cidade de Jerusalém, tinha se transformado em terra de escravidão. Dessa vez, não era um faraó o algoz, mas a própria casta sacerdotal do templo. Foi dessa gente que controlava a vida do povo e explorava em nome de Deus que Jesus veio libertar, em primeiro lugar.

A religião institucionalizada era sinal de exploração, abuso de poder. E, de todas as formas de exploração, a pior é aquela que usa o nome de Deus, ou seja, a exploração religiosa. Mais uma vez, a tradução litúrgica omite um dado importante do texto, ao dizer que “os moradores iam” ao encontro de João. Na língua original, o grego, o autor emprega o verbo evkeporeuomai – “ekporêuomai”, cujo significado é sair, libertar-se; por isso, a tradução correta seria “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém, saíam...”. Saíam porque o julgo da exploração estava pesado demais, e viam na pregação do Batista um sinal de luz e libertação. O evangelista antecipa a religião de Jesus: menos institucional e mais profética.

As pessoas que saíam das antigas estruturas, “confessavam os seus pecados e João as batizava no rio Jordão” (v. 5b). A confissão aqui, não é um rito, mas um reconhecimento do pecado e arrependimento, conforme reza um salmista: “Confessei a ti o meu pecado, e minha iniquidade não te encobri; eu disse: "Vou a Iahweh confessar a minha iniquidade!" (Sl 32,4). Ser batizado no Jordão quer dizer atravessá-lo, passar por ele, como passou o povo do primeiro êxodo; de fato, a travessia do Jordão foi a última etapa da longa caminhada do povo de Deus antes de entrar na terra prometida, já sob a liderança de Josué, após a morte de Moisés (cf. Js 1,2). Assim, a proposta de João é um convite a um novo êxodo, ou seja, uma nova libertação que se aproxima, e só pode participar quem faz a experiência do deserto e da travessia, ou seja, quem passa de uma mentalidade antiga para uma nova.

Além das citações de Isaías e Malaquias, a descrição que o evangelista faz de João também reforça suas credenciais de profeta: “João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (v. 7). De fato, Elias, um dos maiores profetas da história de Israel, é apresentado em 2Rs 1,8 com características semelhantes. É mais uma prova de que o verdadeiro profeta é aquele que anuncia com palavras, ações e, principalmente, com o testemunho; a vida simples de João comprova esse testemunho e ainda serve de contraposição à vida opulenta da elite religiosa e política de Jerusalém. Essa descrição funciona como um apelo do evangelista para a comunidade cristã configurar-se como religião profética, combatendo as primeiras tendências de institucionalização do cristianismo.

Até aqui, a pregação de João, como convite à conversão, fora apenas mencionada, mas nenhuma palavra sua fora ainda citada. Eis, então: “Depois de mim, virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vou batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo” (vv. 7-8). Certamente, muitas pessoas confundiam João com o messias, por isso, ele esclarece. Como verdadeiro profeta, sabe que seu papel, na história da salvação é de instrumento de Deus, Aquele que é maior! A referência ao gesto de desamarrar as sandálias costuma confundir bastante as interpretações; mais que um simples gesto de humildade do Batista, é uma referência a Israel como esposa, fazendo uso da lei judaica do levirato: tirar a sandália significava apropriar-se do direito de tomar a mulher (viúva) como esposa (cf. Rt 3,5-11). Assim, João deixa claro que não é ele o esposo, porque essa missão não lhe compete. O direito de fecundar Israel é exclusivo de Jesus, para tornar novamente fértil aquela esposa explorada e tornada estéril pela elite sacerdotal de Jerusalém.

João administrava apenas um rito: o batismo com água, o qual era somente um sinal do batismo por excelência: com o Espírito Santo. Esse batismo é definitivo, é o cumprimento de profecias e condição para o povo de Israel voltar à condição de povo de Deus (cf. Ez 36,24-28), e ao mesmo tempo sinal de universalização da salvação: o Espírito Santo, como superação e substituição da Lei, dará condições, ao ser acolhido, para que todos os povos sejam contemplados com a libertação inaugurada por Jesus.

Somos, então, neste segundo domingo do advento, convidados a rever nossa prática religiosa, e tomar uma decisão, fazendo um êxodo pessoal: abraçar a religião profética, abandonando todas as práticas das antigas estruturas, renovando a maneira de conceber Deus e abrindo-se ao Espírito Santo, dom de Jesus, o balizador por excelência.



Mossoró-RN, 10/12/2017, Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DO ADVENTO – MARCOS 13,33-37 (ANO B)



Neste domingo, a Igreja inicia mais um ano litúrgico, convidando-nos a, mais uma vez, percorrer o caminho de Jesus Cristo, contemplando e vivendo o mistério da sua vida, morte e ressurreição. Advento é a palavra que designa a primeira etapa do ano litúrgico, cujo sentido literal é vinda ou visita. Trata-se de um tempo especial que a Igreja dedica à preparação para a magnífica celebração do Natal do Senhor, expressão maior da visita definitiva de Deus à humanidade.

Com o início do novo ano litúrgico, iniciamos também a leitura do Evangelho segundo Marcos, porém, não do seu início, mas do seu final, precisamente do seu pequeno discurso escatológico, comparado ao de Mateus. Por isso, o texto proposto para hoje é Mc 13,33-37. O discurso escatológico está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), e trata das realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

A princípio, parece até paradoxal que a preparação para o natal seja iniciada com palavras sobre as realidades últimas. Porém, é necessário compreender o advento como uma oportunidade de preparação para a vinda constante do Senhor na vida de cada pessoa, tornando essa vinda uma presença, ao invés de apenas alimentar uma expectativa futurista e preparar para uma única data ou evento. É importante também perceber a continuidade do tempo: como nos últimos domingos do ano litúrgico anterior refletimos, a partir do discurso escatológico de Mateus, o tema da vigilância, é também com esse tema que abrimos o novo ano.

O Evangelho proposto consiste nas últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão: Mc 13,33-37. É necessário fazer uma pequena contextualização para uma compreensão mais adequada do mesmo. Jesus se encontrava em Jerusalém e, ao sair do templo, os discípulos expressaram admiração a respeito da magnitude do templo; à essa admiração, Jesus respondeu: “não restará pedra sobre pedra”. Então, os discípulos perguntaram: “Quando estas coisas acontecerão?” (cf. Mc 13,1-4). Portanto, o Evangelho de hoje é a conclusão da resposta de Jesus a essa pergunta dos discípulos.

Ainda a respeito do contexto, é necessário recordar o versículo que precede de imediato o nosso texto: “Ora, a respeito daquele dia ou hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (Mc 13,32). Como sabemos, passados alguns anos após a ressurreição, os cristãos começaram a inquietar-se, pois esperavam com muita ansiedade pela segunda vinda do Senhor e, como essa não acontecia, muitos desanimavam, sobretudo quando começaram as perseguições. Por isso, explorou-se bastante a pregação sobre a imprevisibilidade dessa vinda, enfatizando que o importante é manter vivo o espírito de vigilância, sem preocupação com o dia ou a hora.

Foquemos, pois, em nosso texto: Mc 13,33-37. A palavra chave desse pequeno texto evangélico é o imperativo “vigiai”; a mesma ocorre três vezes (vv. 33.35.37) embora a versão litúrgica omita uma delas, infelizmente: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento” (v. 33). Ao invés de “Cuidado! ficai atentos”, seria mais adequado: “abri os olhos e vigiai”, por corresponder melhor à expressão grega Ble,pete( avgrupnei/te – “blépete agrípneite”. Diante da indefinição, não há outra saída para a comunidade a não ser a vigilância. Esse versículo prepara o leitor/ouvinte para a pequena parábola que vem a seguir, mostrando como deve ser feita essa vigilância.

Eis a continuação: “É como um homem que, ao partir, para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando” (v. 34). Em apenas um versículo, Marcos consegue transmitir uma parábola extraordinária, modificada e ampliada por Mateus e Lucas (cf. Mt 25,14-30 = parábola dos talentos // Lc 19,11-28 = parábola das dez minas). A partida do homem para o estrangeiro equivale ao intervalo temporal entre a ascensão e a tão esperada, porém desconhecida, segunda vinda do Senhor.

O evangelista quer ensinar à sua comunidade que, ao invés de preocupar-se com questões relativas ao tempo em que o Senhor virá, o importante é trabalhar para a sua mensagem manter-se viva e atuante na vida das pessoas, uma vez que Ele nunca se ausentou da comunidade que nunca deixou faltar o amor. Para isso, é importante que cada membro sinta-se responsável, como servo bom e fiel, ao bem-estar da casa. Surpreende o uso da imagem da casa: sinal de universalidade, ao contrário da vinha, por exemplo, imagem exclusiva do povo de Israel, e ao mesmo tempo, sinal das pequenas comunidades, nas quais todos se conhecem e devem viver em comunhão, a partir de relações movidas pelo amor, a justiça e a solidariedade. Na casa, enquanto, família, todos são iguais: empregados e porteiros, com a mesma responsabilidade de não deixar faltar o amor e a concórdia, bem como o pão material, tão necessário para o dia-a-dia.

O perigo de esfriamento na vivência da fé era tão grande, a ponto de ser necessário insistir no imperativo “vigiai”; assim, prossegue o versículo seguinte: “vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer” (v. 35). Sendo o Senhor o dono da casa, aos servos compete apenas vigiar. Porém, é necessário ressaltar, mais uma vez, a natureza dessa vigilância tão cara ao Senhor; não se trata de busca por segurança ou conforto, mas simplesmente de manter o evangelho vivo e atuante na vida das pessoas. A comunidade vigilante é aquela na qual os sinais do Reino se manifestam: amor e justiça em abundância. Onde esses valores abundam, o que menos tem importância é o tempo. Inclusive, quanto mais tardar o Senhor, mais frutos a casa/comunidade terá gerado; por isso, o cristão só pode ter pressa em uma coisa: em fazer o bem!

O motivo da vigilância é muito claro: “Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (v. 36). É claro que o texto não se refere ao dormir como a necessidade natural do ser humano, pois dessa ninguém pode privar-se, mas como a indiferença e a omissão em relação aos valores do evangelho. Nesse caso, dormir significa deixar de praticar a mensagem de Jesus Cristo, abandonar seu ensinamento. Mais que triste, é até trágico quando uma comunidade abandona a mensagem libertadora do evangelho, deixando de praticar o amor, a justiça e a solidariedade, ou seja, quando não tem mais a fraternidade como sinal distintivo. Por isso, o convite é novamente reforçado e, agora, com a sua dimensão universal mais explícita ainda: “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” (v. 37). Todos da comunidade, e em todos os tempos, são convocados à vigilância da prática do amor.

Não importa quando o Senhor virá pela segunda vez. Procuremos celebrar a sua primeira vinda, ou seja, o natal, como certeza de que Ele já veio e conosco está; porém, sua presença constante não será percebida enquanto não assumirmos a nossa responsabilidade na casa que Ele nos confiou: a família, a comunidade, o universo como “casa comum”. Para celebrarmos bem a certeza de que Ele já veio, só nos resta nos mantermos acordados, ou seja, praticando o amor, acima de tudo. Vigiar é isso!

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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – MATEUS 25,31-46 (ANO A)



Chegamos ao trigésimo quarto domingo do tempo comum, o último do ano litúrgico, o qual vem intitulado como Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Se trata de um título, a princípio, perigoso, uma vez que a tendência é, de imediato, imaginá-lo como um rei semelhante aos reis deste mundo e atribuir-lhe trono, cetro, coroa e poder, como normalmente vem representado em diversas imagens, escondendo a sua principal característica: o amor serviçal.
Se concebermos Jesus Cristo, Rei do universo, como um homem forte, potente, sentado em um trono ornado de ouro, com cetro na mão, ditando, julgando e ordenando uma imensidão de serviçais, guerreando, vencendo e subjugando inimigos, estamos imaginando o rei-messias esperado pelos judeus do seu tempo e estamos rejeitando Jesus de Nazaré, o servo de todos, aquele que veio para servir e não para ser servido. Infelizmente, boa parte do cristianismo acabou caricaturando a realeza de Jesus, atribuindo-lhe traços de rei que não lhe são próprios.
Focaremos a nossa reflexão no texto evangélico que a liturgia propõe para a solenidade neste ano: Mt 25,31-46 e não no título litúrgico da festa. Trata-se da conclusão do último discurso de Jesus, o chamado discurso escatológico, um trecho normalmente conhecido como o “julgamento final”. É um texto exclusivo do Evangelho segundo Mateus, com fortes traços apocalípticos, o que pode dificultar a sua compreensão.
O evangelho apresenta uma cena de juízo conduzida pelo “Filho do Homem” em forma de parábola. É importante recordar que o tema principal do discurso escatológico é a vigilância, ou seja, a espera atenta pelo desfecho final da história; por isso, o texto inicia com essa expressão: “Quando vier o Filho do Homem em sua glória” (v. 31a). O importante não é a forma como virá esse Filho do Homem, mas a sua atitude: “reunirá diante dele todos os povos da terra e separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (v. 32). Aqui está a universalidade do juízo e do alcance da mensagem de Jesus: todos os povos são contemplados, inclusive Israel, eliminando qualquer privilégio étnico e racial.
A imagem do pastor é usada mais uma vez, pois era muito acessível aos interlocutores de Jesus e à comunidade de Mateus. De fato, era frequente que o mesmo pastor cuidasse de rebanhos de ovinos e caprinos juntos, e no início da noite sempre era necessário separá-los, devido a questões climáticas e também para facilitar o acasalamento, tendo em vista a reprodução. Certamente, os primeiros ouvintes e leitores da comunidade de Mateus compreendiam muito bem isso.
Ao reunir “todos os povos” (em grego: pánta tá étne), ou seja, toda a humanidade, o Filho do Homem irá fazer a separação. O critério da separação é o mais surpreendente: ao invés de considerar distintivos religiosos, como bom e mau, puro e impuro, digno e indigno, santo e pecador, cumpridor das prescrições e não cumpridor, o critério utilizado por Jesus é o que alguém fez ou deixou de fazer aos “pequeninos” ou “menores” dos irmãos. Não é difícil compreender a quem Jesus se refere como os “menores dos irmãos”, embora algumas correntes de estudos tentem distorcer a mensagem, afirmando que esses menores são apenas os discípulos, os quais foram enviados a todas as nações (cf. Mt 28,16-20). Essa interpretação não se sustenta se considerarmos o Evangelho em seu conjunto.
A atenção aos “menores dos irmãos” é o critério de participação na vida definitiva, ou seja, o “reino que o Pai preparou desde a criação do mundo” (v. 34). Em Mateus, a mensagem de Jesus foi condensada nos cinco discursos, e é importante perceber o nexo que une esses discursos: o primeiro, o da montanha, foi iniciado com as bem-aventuranças, nas quais Jesus introduzia a sua opção preferencial pelos marginalizados e sofredores (pobres, aflitos, mansos, perseguidos... cf. Mt 5,1-12); no último discurso, o texto de hoje, essa opção é reforçada e confirmada. Podemos dizer que, do começo ao fim, a mensagem de Jesus tem a atenção aos “menores dos irmãos”, ou seja, toda a sua vida foi marcada por uma clara opção por aqueles que são desprezados pela sociedade; em linguagem eclesial já afirmada entre nós, podemos dizer que a opção de Jesus é opção preferencial pelos pobres.
A partir de seis situações (ações) concretas, o evangelho de hoje mostra como alguém pode demonstrar ser cristão ou não: dar comida aos famintos, dar água aos sedentos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, cuidar dos enfermos e visitar os presos. Não é à toa que Mateus elenca seis atitudes. O número seis diz da incompletude, da fragilidade da vida, da imperfeição. Elencar seis atitudes em resposta a seis tipos de necessidades significa que sempre haverá o que fazer. O número sete, perfeição, não foi atingido pois não há completude nem perfeição na história, mas falta e necessidade, que só se supre com o amor e a acolhida do outro. Assim, Mateus abre o leque dos necessitados, reconhecendo que todo ser humano é necessitado. O ser humano é um ser carente, não só de afetos, mas de casa, comida, educação, presença, diálogo, lazer etc. As seis atitudes de acolhida citadas por Mateus foram chamadas de “obras de misericórdia” pelo cristianismo, como de fato são. Mas a fé católica colocou-as como conselhos a serem acatados enquanto elas são, na verdade, o único critério de pertença à comunidade do Reino, como ensina o evangelho. Para saber se uma pessoa entrou na dinâmica do Reino ou não, basta saber se ela entendeu que os outros são necessitados de seu amor, especialmente os mais fragilizados, aqueles cuja falta dos bens básicos é notadamente visível. Por isso, é importante reforçar aqui: estas práticas não são alguns critérios, mas são os únicos critérios válidos para credenciar a pertença ou não de alguém à comunidade do Reino.
Notemos que o senhor não faz cobranças acerca da ortodoxia da fé, não acusa ninguém de não professar a fé conforme a reta doutrina, de não frequentar a reunião comunitária. O critério de julgamento é a ortopraxis, ou seja, a vivência do amor, a acolhida do outro. A religião cristã é a religião do amor, pois o Deus de Jesus Cristo é amor. Logo, amar é exigência se tornar de fato seguidor desse rei-pastor: amar e dar a vida pelas ovelhas como ele mesmo fez. Esses são os benditos do Pai que recebem o convite para a comunhão com ele. O Filho do Homem, enquanto senhor da história, conduzirá o julgamento com um diálogo bastante franco e sincero, iniciado com um convite: “Vinde benditos de meu Pai!” (v. 34a). Em seguida, são dadas as razões pelas quais são chamados de benditos do Pai: “Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar” (vv. 35-36). Chama a atenção a surpresa dos que são tratados como benditos: eles perguntam quando viram o senhor naquelas situações e o serviram. Essa surpresa é registrada pelo narrador para reforçar o caráter desinteressado e gratuito do amor transformado em serviço: fazer o bem, sem olhar a quem! A surpresa aumenta ainda mais quando o senhor diz: “todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (v. 40). Famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e presos sintetizam todas as categorias de marginalizados. Jesus se identifica a tal ponto com tais categorias, chamando-os de irmãos, de seus iguais.
O diálogo com o segundo grupo se desenvolve a partir da mesma dinâmica, embora com desfecho contrário, a começar pelo convite inicial: “Afastai-vos de mim, malditos” (v. 41). Da mesma forma, o rei dá as razões pelas quais esses são chamados de malditos: não ter feito aquilo que fizeram os primeiros. Também esses recebem a sentença do rei com surpresa: “Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?” (v. 44). A resposta do rei só faz aumentar a surpresa: “Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!” (v. 44). Assim como o terceiro empregado da parábola dos talentos, a sentença de condenação não é consequência de maldades cometidas, mas de omissões. O que há de mais sério na vida do ser humano, e que pode levá-lo à privação da vida em plenitude, é a omissão, a indiferença ao sofrimento do próximo, a carência de ações praticadas em favor dos menos favorecidos.
Como conclusão do discurso escatológico, o texto de hoje reforça a vigilância e dá um novo sentido a ela: não se deve ficar esperando pelo encontro com o Senhor na consumação dos tempos, em um tempo remoto; é preciso ter capacidade, maturidade e amor para encontrar-se com Ele todos os dias, fazendo o bem àqueles nos quais o Senhor está presente, já elencados repetidas vezes aqui (faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso). A parábola é um alerta para a comunidade de Mateus, tão ansiosa pelo retorno do Senhor, mas incapaz de ver o Senhor já presente nos mais necessitados. Certamente, esse alerta continua válido também para os cristãos de hoje.
O cristão verdadeiro encontra-se com o Senhor todos os dias, não tem medo nem anseia por um encontro final e decisivo, mas sabe que Ele já está aqui conosco. A presença de Jesus, por sinal, é o fio condutor do Evangelho segundo Mateus: do anúncio a José (Mt 1,23) ao envio dos discípulos após a ressurreição: “Eis que eu estou convosco todos os dias” (28,20). Portanto, não há razões para a comunidade perguntar quando virá o Senhor; o importante é perceber a sua presença no cotidiano, nas situações concretas da vida.
Todos foram pegos de surpresa: tanto os considerados benditos quanto os ditos “malditos”, pois ou fizeram ou deixaram de fazer o bem. O bem a ser praticado deve ser completamente desinteressado. O Senhor não marca nem rotula nenhum daqueles nos quais Ele deve ser reconhecido. Basta reconhecer o outro como ser humano, imagem e semelhança do criador; essa é a única marca e não é impressa por nenhuma religião, mas pelo criador de todas as coisas. Ao Senhor, interessa o bem praticado, o serviço doado, o amor praticado! Reconhecer a realeza de Jesus sobre o universo é reconhecê-lo em cada irmão e irmã, sobretudo nos mais necessitados.


Mossoró-RN, 25/11/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 25,14-30 (ANO A)



Neste trigésimo terceiro domingo do tempo comum, o penúltimo do ano litúrgico, continuamos a leitura do discurso escatológico de Jesus no Evangelho segundo Mateus. O texto de hoje compreende a chamada “parábola dos talentos”, Mt 25,14-30. Essa é uma das parábolas mais difíceis e complexas de Mateus, por isso, muito passível de distorção em sua interpretação. Nela, continua em evidência o tema  da vigilância, embora de maneira menos explícita que na parábola das dez virgens (cf. Mt 25,1-13), refletida no domingo passado.

Localizada entre a parábola das dez virgens e a cena do julgamento final, a parábola dos talentos tem um significado relevante em todo o Evangelho segundo Mateus e, portanto, seu ensinamento é de fundamental importância para o bem da comunidade cristã em todos os tempos. Certamente, a comunidade de Mateus vivia um momento de relaxamento e desânimo na vivência das bem-aventuranças, núcleo central da mensagem cristã. Ora, os cristãos esperavam um retorno imediato do Senhor e, como isso não acontecia, começavam a desanimar, abandonando a fé ou vivendo-a de modo superficial.

Com essa parábola, o evangelista quis animar aqueles cristãos, mostrando que o tempo de espera não é perdido; pelo contrário, é o tempo oportuno para a comunidade fazer crescer e multiplicar os dons que o Senhor lhe confiou. Assim, essa parábola assume um papel importante para os processos de discernimento dos cristãos a respeito da espera pelo Senhor, ensinando que a melhor maneira de esperá-lo é trabalhando para que o seu Reino se realize no cotidiano, fazendo render o amor, o talento por excelência, que foi confiado a cada um e cada uma na comunidade.

Olhemos, então, para a parábola: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou” (vv. 14-15). Antes de tudo, recordemos que parábola é um gênero literário que apresenta uma mensagem por meio de comparação. É, portanto, com essa imagem apresentada que o evangelista compara a situação da sua comunidade em espera pelo retorno do Senhor. Embora o texto litúrgico empregue a palavra empregados, o correto seria servos, por corresponder com mais fidelidade ao termo grego “dúlos” usado pelo evangelista. O homem viaja, mas não se ausenta, pois continua presente, de modo implícito, nos bens confiados aos servos. Também o Senhor ressuscitado não se ausentou da comunidade; continua presente à medida em que seus seguidores são capazes de fazer o seu projeto se desenvolver, cultivando os dons que lhes foram confiados.

Embora distribuídos em quantidades diferenciadas, ninguém ficou desprovido de bens; cada um recebeu de acordo com a sua capacidade. Esse detalhe é importante para o evangelista. Se todos recebem, todos tem algo a partilhar, a plantar e fazer frutificar. A quantidade diferenciada de bens recebidos por cada um pode ser uma alusão à diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Os talentos não são emprestados, são entregues, verdadeiramente doados. Talento (em grego: ta,lanton – talanton)  era uma medida de peso usada para pesar metais preciosos como ouro e prata; um talento equivalia a aproximadamente trinta quilos de ouro, o que correspondia a seis mil denários; um denário era o salário de um dia de trabalho braçal (cf. Mt 20,2). Assim, até mesmo aquele recebeu apenas um talento, ainda recebeu uma grande fortuna. Isso significa a benevolência e liberalidade do Senhor, bem como a perenidade dos bens que ele doa à comunidade.

Ao receber os talentos ou dons, cada um é livre para usá-los como quiser. A viagem do dono evoca a liberdade dada àqueles que receberam os talentos para usá-los. Como o dono não estava presente para vigiar os servos, eles poderiam multiplicar, extraviar ou apenas conservar os talentos recebidos. A parábola diz qual foi a atitude de cada um: “o que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que recebeu dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão” (vv. 16-18). Os dois primeiros servos trabalharam até duplicarem o que haviam recebido. Embora o texto não indique como eles fizeram isso, o certo é que não ficaram parados, nem tiveram medo. Foram ousados e criativos. O terceiro, simplesmente pensou na conservação; escondendo o talento, o conservou de modo íntegro e fiel.

A aparente ausência do Senhor  pode levar os membros da comunidade a diferentes posturas: para uns, é oportunidade de crescimento, para outros é motivo de medo e insegurança. A comunidade de Mateus vivia esse drama: o que fazer enquanto o Senhor não retorna? O evangelista aconselha que cada um desenvolva os dons recebidos, procurem multiplicar, transformando as realidades com amor e justiça. O Senhor nunca se ausentou; deixou seus dons como forma de continuar presente e operante. Desse modo, o convite à vigilância não visa um momento final específico, mas uma vida toda vigilante, praticando o amor e a justiça, ou seja, vivendo segundo a dinâmica das bem-aventuranças.

A liberdade de cada um no uso dos talentos não os isenta da responsabilidade, pelo contrário. Por isso, diz o texto que “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com  os empregados (v. 19). Ora, se os talentos entregues aos servos equivalem aos dons confiados aos membros da comunidade para a sua edificação, é justo que o Senhor se interesse pelo uso que cada um fez deles. Na comunidade não pode haver individualismo, indiferença nem omissão. Quem recebeu dons e não os fez frutificar, colocando-os a serviço dos demais, obviamente, não está apto a integrar a comunidade. É esse o sentido do acerto de contas mencionado na parábola. O Senhor quer saber o que fazemos com o seu evangelho a nós confiado. Quem multiplicou os talentos, gerou vida, edificou o Reino. Quem o manteve intacto como recebeu, foi omisso, cruzou os braços; na comunidade cristã, responsável pela edificação do Reino, não há espaço para pessoas assim.

Os servos que souberam colocar os dons a serviço da comunidade, multiplicando-os, ou seja, fazendo-os frutificar, são tratados, em tom de elogio, como “servo bom e fiel” (vv. 21-23), (em grego: dou/le avgaqe. kai. piste, – dúle agathé kai pisté). Embora o texto não descreva o que estes servos fizeram precisamente, o certo é que agiram, não ficaram acomodados. O Senhor quer que os dons confiados sejam usados em prol da justiça e do amor, tornando o mundo mais humanizado e parecido com o Reino. Não se trata de um convite ao acúmulo, o que seria contrário à lógica do Reino. É uma mensagem de esperança e perseverança, um convite a perder o medo e arriscar tudo, inclusive a vida, para que as sementes do Reino se multipliquem.

Ao contrário dos dois primeiros servos, o terceiro foi repreendido como “servo mau e preguiçoso” (v. 26), (em grego: ponhre. dou/le kai. ovknhre, – poneré dule kai okneré). É interessante que o texto não menciona nenhuma ação malvada desse servo; pelo contrário, menciona sua precaução em não estragar o talento recebido, o que poderia render-lhe um reconhecimento de prudente. Ora, na lógica do Reino, lógica que a comunidade cristã deve assumir, não basta cometer delitos para ser tratado como mau: basta ser omisso, indiferente e medroso. Não basta não fazer o que é mal, basta deixar de fazer o bem para ficar fora da comunidade e, consequentemente, do Reino. O medo paralisa a comunidade e impede a instauração do Reino. De todos os medos, o mais perigoso é o medo de mudança. É esse medo que leva muitos grupos e movimentos a simplesmente conservarem rigidamente certas tradições, ignorando a ação criativa e constante do Espírito Santo.

Podemos, finalmente, identificar o sentido da vigilância nessa parábola: a autêntica vigilância não é espera passiva, mas é atitude, é serviço em prol do Reino, através da multiplicação dos dons confiados pelo Senhor à comunidade. Quem pensa apenas em conservar a doutrina, os costumes e tradições, trai a confiança depositada pelo Senhor. O Reino exige decisão, ousadia, criatividade e liberdade para o uso dos dons recebidos. Ser vigilante é, portanto, não ter medo de arriscar, é colocar-se a serviço da comunidade, expondo os dons recebidos, mesmo correndo riscos.

Uma vez que os talentos não foram confiados para serem conservados, mas para frutificarem, a atitude do dono é completamente compreensível: “tirar do que tem pouco para dar ao que tem muito” (v. 28). Ora, o que já tinha dez talentos, passando a onze, poderia fazer multiplicar cada vez mais, e quem mais ganharia com isso seria a comunidade, ou seja, o Reino. Com essa afirmação “a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas aquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado” (v. 29), o evangelho não propõe a perpetuação das desigualdades, mas acentuando a natureza da comunidade cristã: só pode participar dela quem produz e multiplica o que lhe foi confiado. Quem recebe o dom e o retém somente para si, não pode entrar em um projeto de vida comunitário como o Reino de Deus.

O destino final de quem se auto-excluiu da comunidade enfatiza a privação total de vida e amor: “choro e ranger de dentes” (v. 30). Essa expressão significa o grau máximo de despero para um ser humano, equivalente a uma vida privada de sentido. Isso não é castigo, mas consequência. De fato, é sem sentido a vida de quem não vive a lógica das bem-aventuranças. Viver para si é um mal. No Reino, só vive quem sabe viver a serviço do bem de todos; só se vive asssim com coragem e amor!


Mossoró-RN, 18/11/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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