domingo, abril 30, 2017

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DE PÁSCOA – LUCAS 24,13-35


A liturgia da Palavra deste III Domingo da Páscoa nos oferece o texto evangélico de Lucas 24,13-35. Esse é, sem dúvidas, um dos textos mais conhecidos de todo o Novo Testamento. Trata-se da narrativa da experiência do encontro de dois discípulos com o Cristo Ressuscitado no caminho de retorno de Jerusalém para um povoado chamado Emaús. Daí o título popular atribuído a esse episódio de “Os discípulos de Emaús”. É um texto bastante atrativo para o leitor, devido à sua vivacidade narrativa, à beleza literária e riqueza teológica.

Esse é um texto exclusivo de Lucas, e funciona como síntese e conclusão do seu Evangelho: síntese porque resume a dinâmica de Jesus e seu discipulado em todo o Evangelho, ou seja, a dinâmica do caminho, tema central da teologia lucana, desde a caminhada de Maria ao encontro com Isabel, (Lc 1,39-45) até a longa viagem de Jesus com os discípulos para Jerusalém (Lc 9,51 – 19,44); conclusão porque culmina com o encontro da comunidade com o Ressuscitado e o cumprimento da missão de anunciá-lo (24,33-35). Podemos dizer que, com esse episódio, Lucas conclui o Evangelho e, ao mesmo tempo, antecipa a sua segunda obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.

O texto é iniciado com um indicativo temporal importante: “Naquele mesmo dia, o primeiro da semana” (v. 13a); o evangelista faz questão de apresentar momentos diferentes de um mesmo dia: a ida das mulheres ao sepulcro nas primeiras horas (24,1), e depois a ida de Pedro (24,12) e, no final do dia, a viagem dos dois discípulos, conforme o nosso texto, até o encontro fraterno dos Onze e os demais discípulos (24,33ss). Portanto, o dia do acontecimento é o dia mesmo da Páscoa, o domingo da ressurreição.

Infelizmente, o texto litúrgico apresenta uma deficiência logo no início: a ausência da expressão “Eis que”, presente no texto original; a partícula grega ivdou. – idú, com a qual Lucas abre esse episódio, indica a importância do que vem a ser narrado, é um modo de chamar a atenção do leitor e, infelizmente, o texto que da liturgia omite. Assim, a expressão mais apropriada para abrir o texto seria: “Eis que que naquele mesmo dia...”, pois, além de enfatizar a importância do relato, o relaciona com os outros acontecimentos do mesmo dia.

Na sequência, diz o texto que “dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (v. 13); essa expressão nos traz informações muito importantes: se dois discípulos tinham saído de Jerusalém, e quando voltam encontram os Onze reunidos (v. 33), logo, o grupo de discípulos era muito mais vasto que o grupo dos apóstolos propriamente ditos. Ao apresentar esses dois, Lucas resgata a grande missão dos setenta e dois, quando Jesus os enviou dois a dois (cf. Lc 10,1-20). Esse é mais um passo em preparação aos Atos dos Apóstolos e um modo de dizer que a missão não é monopólio dos Doze menos um (os Onze após a saída de Judas), mas é aberta, inclusiva e universal.

Os dois discípulos “iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (v. 13); após toda uma vivência com Jesus, o retorno ao povoado é sinal de incompreensão e decepção, pois o povoado significa o fechamento de mentalidade, é o lugar onde o que vale é aquilo que está na Lei. O nome Emaús significa “gente desprezada”; esse povoado teve importância no tempo dos macabeus, pois fora palco de uma batalha dos judeus liderados por Judas Macabeu contra os pagãos, e vencida pelos judeus (cf. 1Mc 3,40 – 4,27). Por isso, Lucas enfatiza esse povoado como antítese ao seu projeto missionário: em Emaús se cultivava o ideal tradicional e triunfalista do judaísmo; logo, não era lugar para os discípulos de Jesus!

Nesse texto, Lucas preserva e reforça a função pedagógica do caminho na sua teologia: “Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido” (v. 14). Caminhar é aprender e ensinar; mais que percorrer uma distância, é a busca de um ideal. Obviamente, para quem tinha seguido Jesus, o assunto não poderia ser outro senão os últimos acontecimentos da sua vida. Caminhavam tristes, certamente discutiam sobre as esperanças perdidas e os sonhos frustrados, como gente que perdeu tempo seguindo a um fracassado que morreu na cruz; tudo isso fica claro na conversa a três, quando Jesus surge no caminho e passa a interagir com eles.

A presença de Jesus não é reconhecida de imediato, o que se explica pela cegueira recordada pelo evangelista (v. 16). Obviamente, não se trata de uma cegueira física, o que os impediria de caminhar sozinhos; é uma cegueira de mentalidade. É interessante perceber que, embora desiludidos e decepcionados, aqueles discípulos falavam de Jesus e tinham um bom conceito a seu respeito: “foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (v. 19); portanto, não estão longe da verdade. Lamentam ter que voltar ao “povoado”, pois já sabem que o mal está na tradição quando afirmam com muita clareza que foram “os sumos sacerdotes e os chefes que o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram” (v. 20); por isso, não querem mais submeter-se a ela. Outra característica da teologia lucana é aqui evidenciada: a responsabilidade dos judeus na morte de Jesus, praticamente inocentando o império romano.

O motivo da decepção e do não reconhecimento de Jesus em seu meio está na concepção equivocada de messias: eles “esperavam que Jesus fosse libertar Israel” (v. 21); ora, Jesus não veio ao mundo para libertar Israel, mas a humanidade inteira! Essa mentalidade equivocada só pode ser corrigida com uma boa revisão da Escritura, como faz o próprio Jesus: “E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (v. 27); é necessário abrir o horizonte da consciência para compreender e aceitar que a mensagem libertadora de Jesus é universal, e não destinada a um único povo. Essa revisão da Escritura não é tudo, mas é um passo importante no processo de reconhecimento do ressuscitado; a ela, deve-se acrescentar a experiência comunitária da partilha, da comunhão de mesa, como se dará, finalmente (vv. 30-31).

Mesmo não reconhecendo ainda a presença do ressuscitado, os discípulos parecem não ter perdido completamente a esperança; na verdade, a esperança parece que começou a renascer dentro deles depois que o forasteiro começou a caminhar com eles, tanto que “imploram” que permaneça com eles: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” (v. 29); ao invés do verbo “insistir” trazido pelo texto litúrgico, o mais apropriado seria “implorar” ou “forçar”, mais próximos do sentido de intensidade que o verbo grego, presente no texto original exprime: parebia,zomai – parabiazomai. Portanto, os discípulos perceberam que não podiam ficar sozinhos no povoado e, por isso, imploraram que o forasteiro permanecesse com eles, porque daquela conversa, a esperança estava voltando; por isso, querem evitar o retorno às trevas da vida no povoado, que significa o retorno ao julgo da lei. A expressão “a noite vem chegando” não é um dado cronológico, mas teológico: é a vida fechada, sem perspectivas e esperanças, da qual eles tinham saído e não queriam mais voltar.

Jesus, ainda como forasteiro, atende aos discípulos que imploram a sua presença e senta-se com eles à mesa (v. 30). A refeição tem um sentido muito profundo no Evangelho de Lucas e é, portanto, necessário perceber essa importância para não reduzirmos esse texto a uma mera descrição de uma celebração eucarística, como muitas interpretações reducionistas tem feito.

Ao longo de todo o Evangelho, Lucas apresentou Jesus sentando à mesa com pessoas de diferentes classes sociais e religiosas: fez refeição na casa de um fariseu de nome Simão (cf. 7,36-50); outra vez foi na casa de um dos chefes dos fariseus (cf. 14,1-6); ao hospedar-se na casa de Zaqueu, pecador público, também se sentou com ele à mesa e fez refeição (cf. 19,1-10). É necessário, pois, ter em mente que a mesa-refeição é, ao longo de todo o Evangelho de Lucas, um espaço-momento de revelação da identidade de Jesus, pois significa, partilha, fraternidade, companheirismo e acolhida.

Como tinham sido profundamente incomodados pela explicação da Escritura que Jesus tinha dado, o que os levou a uma revisão de conceitos e de compreensão da mesma, faltava pouco para seus olhos abrirem-se, ou seja, para saírem definitivamente da situação de trevas em que se encontravam. E, foi, portanto, a experiência da partilha que proporcionou a certeza da presença do ressuscitado no meio deles.

Essa é a resposta que Lucas quis dar às suas comunidades: o Ressuscitado está presente no dia-a-dia, quando a comunidade caminha, reflete a Palavra, partilha a mesa e dialoga; são essas as ocasiões propícias para a comunidade abrir os olhos (v. 31a). Quem segue esses passos, já não necessita mais de uma visão ou aparição (v. 31b). Finalmente, como último passo de uma comunidade que faz a experiência do encontro com o Ressuscitado, Lucas apresenta a missão, tema caro para a sua teologia e que será mais desenvolvido no livro dos Atos dos Apóstolos, antecipado no Evangelho de hoje pela iniciativa dos discípulos: “se levantaram e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Para Lucas, Jerusalém não significa chegada, mas o ponto de partida da missão universal.

Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados por Lucas a fazer um esforço constante de reconhecimento do ressuscitado, percebendo sua presença na comunidade para que jamais falte esperança, amor, partilha, solidariedade e companheirismo. Para isso, é necessário caminhar, aprofundar no conhecimento da Escritura e viver, acima de tudo, a partilha. De fato, o critério básico de reconhecimento da experiência com o Ressuscitado é a partilha do pão; essa, não pode ser reduzido a um rito ou gesto, mas deve ser a práxis da comunidade.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, abril 23, 2017

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 20,19-31


No segundo domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece João 20,19-31 como texto evangélico. É o relato da situação da comunidade nos dois primeiros domingos e, portanto, um dos textos mais conhecidos do Quarto Evangelho, pois é a continuidade da narrativa da experiência da comunidade dos discípulos no primeiro dia da semana, o domingo da ressurreição e, ao mesmo tempo, a quase repetição da mesma experiência uma semana depois, quando entra em cena Tomé, o discípulo rotulado injustamente de incrédulo.

Esse texto é também a conclusão do Evangelho segundo João (v. 31), uma vez que o capítulo seguinte é um acréscimo posterior. Não analisaremos cada versículo, e sim o texto em seu conjunto, embora seja necessário destacar alguns versículos específicos.

O primeiro versículo diz: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, entrou Jesus e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco” (v. 19). O dia em questão é aquele primeiro, o mesmo em que Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado foram ao túmulo logo no início da manhã (cf. Jo 20,1). A reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma natural dispersão.

Embora se recompondo, a comunidade estava em crise, o que se evidencia, sobretudo, pela situação de medo informada pelo evangelista. Esse medo é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns, uma vez que não havia ainda nenhuma perseguição da parte dos judeus, pois a ressurreição ainda não se confirmara. O medo é, portanto, a ausência do Senhor; sem a presença do Ressuscitado, toda comunidade perece.

Jesus se manifesta na comunidade reunida, colocando-se no meio dos discípulos e inicia neles o processo de transformação com o primeiro antídoto ao medo: a paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade, aparentemente, fracassada. Ressuscitado, Jesus reforça também o modelo de comunidade sonhado e praticado durante a sua vida: uma comunidade livre, igualitária, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio.

Na continuidade da experiência, Jesus mostra as mãos e o lado (v. 20a), ou seja, as marcas do sofrimento e do flagelo da cruz, garantindo a continuidade entre o crucificado e o ressuscitado. Com isso, Ele diz que a cruz não foi o fim e, assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o motivo da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. A cruz não foi um acidente nem algo a ser esquecido pela comunidade; pelo contrário, foi consequência de suas opções, e as opções da comunidade devem ser as mesmas dele. Portanto, é necessário que os discípulos estejam habituados com a cruz.

A reação dos discípulos ao verem o Senhor foi de alegria (v. 20b), e essa deve ser uma característica marcante da comunidade que vive e celebra a presença do ressuscitado. De uma situação de medo, a comunidade passa à alegria, como consequência da experiência com o ressuscitado.

A paz é novamente oferecida, muito mais que desejada (v. 21a). Só é possível viver plenamente os dons pascais com a paz oferecida por Jesus. Aqui, não podemos imaginar a paz como uma simples tranquilidade ou alívio, mas como sinal de liberdade e vida plena, e como capacidade de assumir as consequências das opções feitas. Em seguida, os envia, como fora Ele mesmo enviado pelo Pai (v. 21b). Sendo portadores da sua paz, seus discípulos são enviados com as mesmas credencias, pois Ele os envia como o “Pai o enviou” e, portando, devem fazer as mesmas opções e consequências.

Em seguida, Jesus confere à comunidade o mais sublime dos dons, conforme prometera durante na última ceia, o Espírito Santo, o Paráclito (cf. Jo 14,16.26; 15,26), o qual sustentará a comunidade enviada (v. 22). O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, é muito importante que o versículo 23 seja bem compreendido.

“A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23); por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão, equivocadamente. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do ressuscitado a todas as pessoas e de todos os lugares. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o ressuscitado e, portanto, amar e perdoar sem medida.

Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus. Jesus confere à comunidade essa responsabilidade árdua de fazer-se presente, pois dessa presença depende o bem da humanidade. Os pecados são perdoados à medida que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou.

A comunidade não estava completa naquele primeiro dia: como Judas não fazia mais parte do grupo, faltava Tomé, como atesta o texto (v. 24). É necessário destacar algumas características desse discípulo, considerando que o mesmo foi, injustamente, rotulado negativamente pela tradição. O motivo pelo qual os discípulos estavam reunidos a portas fechadas era o medo; ora, se Tomé não estava com eles é porque não tinha medo e, portanto, circulava livremente e sem temor algum; era, portanto, um discípulo corajoso, ao contrário dos demais.

A evidência maior da coragem de Tomé aparece no episódio da reanimação de Lázaro. Jesus já tinha sido alvo de diversas ameaças e tentativas de assassinato pelos judeus; quando decide ir à Galileia, onde ficava Betânia, Tomé foi o único a dispor-se a ir para morrer com Jesus (cf. Jo 11,16). Por isso, não ele tinha nenhum motivo para esconder-se dos judeus. Essa sua coragem foi ofuscada pelo rótulo inadequado de incrédulo.

Quanto à fé no ressuscitado, a diferença de Tomé para os outros dez deve-se a apenas ao intervalo de uma semana. Não estava reunido no primeiro dia e não acreditou no testemunho da comunidade. À exceção do Discípulo amado, o qual viu e acreditou ao contemplar o túmulo vazio (cf. Jo 20,8), os demais também só acreditaram após a manifestação do Senhor no meio deles. Nenhum deles acreditou no testemunho de Maria Madalena; esperaram o Senhor aparecer.

Quando, assim como os demais, Tomé teve certeza da ressurreição, superou a todos na intensidade e convicção da fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28); essa é a mais profunda profissão de fé de todos os evangelhos. Jesus já tinha sido reconhecido como Senhor, como messias, Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus, mas como Deus mesmo, essa foi a primeira vez.

A propósito, chamamos a atenção para um detalhe que não pode passar despercebido: diz o evangelista que Tomé era chamado Dídimo, em grego  Di,dumoj – dídimos, cujo significado é gêmeo. Isso significa um convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a tomarem Tomé como irmão gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto. É claro que se estivesse com a comunidade logo no primeiro dia, ele teria antecipado a sua profissão de fé.

A bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto” (v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, após a morte da maioria dos apóstolos. Os novos cristãos da comunidade joanina eram muito questionadores e chegavam a duvidar do anúncio. Por isso, o evangelista quis responder a essa necessidade.

A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado. O intervalo de uma semana para a manifestação do Senhor é sinal de que devemos desconfiar das tantas revelações e aparições contadas nos dias atuais.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, abril 16, 2017

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DA RESSURREIÇÃO – JOÃO 20,1-9



O texto evangélico que a liturgia propõe como primeira opção para o Domingo de Páscoa é João 20,1-9. Ao contrário da paixão e da morte, as quais são descritas minuciosamente pelos evangelhos, nenhuma descrição da ressurreição é feita, o que pode parecer estranho, considerando que é a ressurreição o evento fundante do cristianismo e o centro da fé cristã. Foi exatamente por causa da ressurreição que os evangelhos foram escritos e, mesmo assim, seus autores não conseguiram descrevê-la.

O nosso texto, Jo 20,1-9, é apenas a introdução do que o Quarto Evangelho dedica à Ressurreição: a descoberta do sepulcro vazio, o que pode significar muito ou quase nada, a depender de quem faz a constatação. Três personagens entram em cena: Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado; o número três já é, por si, um bom indicativo teológico: é uma comunidade, a qual encontra-se profundamente abalada, devido ao final trágico de seu líder, mas que vai, aos poucos, sendo recomposta.

O primeiro versículo é bastante significativo, pois apresenta o verdadeiro retrato da comunidade antes de vivenciar a experiência da ressurreição: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (v. 1). O “primeiro dia” é o dia seguinte ao sábado, o último dia; isso quer dizer que a comunidade ainda estava apegada à lei, cumprindo o repouso sabático; a observância da lei atrasa a experiência da ressurreição que é, na verdade, a nova criação que se instaura. Portanto, a ressurreição não se deu exatamente no domingo, o primeiro dia da semana, mas foi nesse dia que a comunidade começou a despertar e fazer a experiência de encontro com o Ressuscitado.

Após cumprir a lei do repouso, “Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro” (v. 1). Embora o texto joanino registre apenas a ida de Maria Madalena, é mais provável que tenha sido um grupo de mulheres, como consta nos sinóticos (cf. Mt 28,1; Mc 16,1; Lc 24,1). Ir ao túmulo é a atitude de quem acredita que a morte triunfou, pois o túmulo é a morada dos mortos, é um depósito de cadáver. A comunidade vai ao túmulo por reverência a Jesus e para chorar a sua morte.

O indicativo temporal “bem de madrugada” e seu complemento “quando ainda estava escuro” significam muito mais que um dado cronológico; é na verdade o indício da mentalidade da comunidade. O evangelista usa a palavra grega  skoti,a – skotia, cujo significado é trevas; por isso, a tradução mais adequada seria “de manhã cedo, ainda em trevas”; essa situação de trevas não se deve à ausência da luz física, mas significa que a vida não está triunfando na comunidade, ou seja, a morte está prevalecendo.

Enquanto observa a lei, como o repouso sabático, a comunidade permanece cega e incapaz de perceber os sinais do ressuscitado. A cultura da morte está tão presente na mente dos discípulos que nem mesmo a pedra do túmulo removida é suficiente para animá-la. De fato, a remoção da pedra e a suposta ausência do corpo de Jesus causa preocupação e espanto, ao invés de alegria. Por isso, Maria Madalena correu para comunicar a Pedro e ao Discípulo Amado: “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram” (v. 2b). Nessa fala da Madalena vem expressa a completa falência da comunidade: sentem a falta de um cadáver; querem saber onde está o corpo morto para reverenciá-lo e chorar junto dele.

Com o aviso de Maria Madalena, também Pedro e o Discípulo Amado tomam a iniciativa de ir ao túmulo para conferir a veracidade da informação (v. 3), uma vez que a palavra de uma mulher não era digna de credibilidade naquela sociedade. Afirma o texto que “Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo” (v. 4), o que revela o grau de desânimo de Pedro após ter sido tão incoerente com o Mestre na fase final de sua vida: opôs-se a ele na ceia, no momento do lava-pés (cf. 13,6-8), e o negara durante o processo (cf. 18,15-27).

A pressa do Discípulo Amado revela sua fidelidade, testada e comprovada aos pés da cruz (cf. 19,25-27), característica da pessoa amada; somente quem fez a experiência do amor com o Senhor é capaz de opor-se ao clima de morte reinante na comunidade. Ele chegou primeiro e comprovou que a informação da Madalena era verídica: “viu as faixas de linho no chão, mas não entrou” (v. 5).

O Discípulo Amado, embora tenha chegado primeiro, espera que Pedro também chegue e faça ele mesmo a sua experiência (v. 6-7). Tendo entrado no túmulo, Pedro comprova a ausência do corpo de Jesus e, certamente, faz uma longa reflexão a respeito de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Isso se atesta pelo uso do verbo grego qewrew – teorêo, que significa mais que simplesmente ver, mas contemplar; desse verbo origina-se a palavra teoria, como consequência de uma observação profunda.

Depois de Pedro, entra também o Discípulo Amado no túmulo. Tendo chegado primeiro, poderia ter entrado logo, mas preferiu esperar que Pedro chegasse e entrasse logo. Não se trata de preeminência, uma vez que na comunidade joanina não havia espaço para hierarquia; era na verdade uma questão de necessidade: quem, de fato, necessitava de uma experiência forte era Pedro, pois, depois de Judas, foi aquele que mais fracassou. Já o Discípulo Amado tinha feito uma experiência autêntica com o Senhor, por isso, “viu e acreditou” (v. 8); não se deixou vencer pelos sinais de morte vistos dentro do túmulo, mas reforçou ali a sua fé.

Para Pedro, será necessário um pouco mais de tempo, pelo menos algumas horas, para convencer-se de que o Senhor ressuscitou e vive. Mas, os sinais estão apontando para isso: interiormente, ele já estava “teorizando” sua fé, reconstruindo-a lentamente, uma vez que os acontecimentos do lava-pés ao julgamento de Jesus foram muito fortes e deixaram suas expectativas bastante comprometidas.

É o conhecimento da Escritura que, gradativamente, vai habilitar a comunidade à crença na ressurreição (v. 9). A fé de Pedro, de Maria Madalena e dos demais será reformulada aos poucos, a cada “primeiro dia” quando reunirem-se para a comunhão fraterna. Só crê num primeiro momento quem ama e sente-se amado, como aquele Discípulo sem nome, ao qual o evangelista quer que todos os seus leitores se assemelhem! Assim, concluímos voltando para o nosso início: a ressurreição não pode ser descrita, pode apenas ser experimentada. Para isso, é necessário fazer a experiência do amor profundo!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

quinta-feira, abril 13, 2017

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA – JOÃO 13,1-15



Na Quinta-Feira Santa, somos convidados pela liturgia da Palavra a refletir, meditar e compreender o rico texto joanino da cena do lava-pés: João 13,1-15. Não temos dúvidas de que essa é uma das passagens mais significativas de todo o Quarto Evangelho, e que marcou o cristianismo desde as suas origens. A princípio, pode nos causar espanto a distância entre João e os demais evangelhos quando o assunto é a última ceia de Jesus com seus discípulos.

Ao contrário dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) que dedicam poucos versículos à última ceia, João dedica nada menos que cinco capítulos: 13 – 17; é uma longa e profunda catequese ministrada com gestos e palavras, numa espécie de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, distintivos do cristão e da comunidade. Não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do vinho; por sinal, a menção ao pão é feita apenas na descrição da traição de Judas (cf. 13,17.26.27.30).

A ausência do tema do pão na última ceia pode ser explicada pelo fato de que João já havia apresentado esse tema em outra ocasião: após a multiplicação dos pães (cf. 6,1-15), o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus apresentando-se como o “pão da vida” (cf. 6,26-66); portanto, não havia mais necessidade, pois, a sua “catequese eucarística” já tinha sido feita.

O que mais chama a atenção no texto que hoje devemos refletir é o gesto de Jesus lavando os pés dos discípulos. O texto inicia-se com um indicativo teológico-temporal importante: “Antes da festa da Páscoa” (v. 1a). O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com os seus discípulos, mas quer apenas diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus não é mais a mesma do templo; celebrando antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois pelos praticantes da antiga religião, não vale mais nada, está vencida, caduca. Na Páscoa do templo, o centro é a morte, a imolação dos cordeiros, enquanto a Páscoa de Jesus celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais visível das manifestações do amor.

Ao longo de todo o Evangelho, João cria um clima de suspense em relação à “Hora de Jesus” (cf 2,4; 12,23). Pois bem, essa hora chegou! É a hora de “glorificar” ao Pai... o Pai que não se sentia glorificado pelo falso culto prestado no templo de Jerusalém, recebe de Jesus o verdadeiro culto: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1c). O amor de Jesus pelos seus é ilimitado e, por isso, “até o fim”, em grego  eivj te,loj – eis télos, significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou-os de modo extremo e continua amando, uma vez que continua vivo entre os seus na comunidade cristã.

“Estavam tomando a ceia” (v. 2a), ou seja, no momento primordial da vivência do amor-comunhão, uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; por isso, registra-se o episódio lamentável da traição de Judas (2b). A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora e, ainda, muitos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição.

A oferta do amor gratuito de Jesus pelos seus começou a se materializar quando Ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (v. 4). Certamente, não foi pequena a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto é privar-se da dignidade e prestígio pessoal; amarrar uma toalha na cintura é improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço. Está cada vez mais claro o combate à liturgia oficial: a indumentária dos sacerdotes do templo são um impedimento ao serviço; na comunidade de Jesus não se usa paramentos, mas avental, ou seja, não se executa ritos, mas serve-se ao irmão.

Na sequência, o texto diz o que Jesus fez após deixar de lado o manto e colocar-se em atitude de serviço: “Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha” (v. 5). Assim como os leitores, ainda hoje, ficam perplexos com a cena, muito mais ficaram os discípulos que estavam com Jesus. Aqui, devemos considerar o ambiente e a situação história da época: lavar os pés antes das refeições era uma regra básica de higiene; antes de tudo, porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples e, portanto, tudo isso deixava os pés muito sujos e empoeirados.

Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas nem os convivas sentavam em cadeiras, pelo menos nos ambientes mais simples. A mesa era apenas uma esteira colocada ao chão e, ao seu redor, sentava-se no chão; logo, a comida ficava muito próxima aos pés, e isso fazia da limpeza dos pés uma exigência antes das refeições. Portanto, o que Jesus fez foi uma necessidade básica de higiene, não instituiu nenhum rito.

A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: esse papel era próprio do escravo ou da mulher do dono da casa; Jesus inverte os valores ao fazer o serviço típico do escravo, sendo ele mesmo Mestre e Senhor (v. 13-14). Assim, uma nova ordem foi estabelecida na comunidade: a hierarquia foi abolida, a liturgia enquanto rito foi substituída pelo serviço.

É claro que houve reação da comunidade dos discípulos! O primeiro a protestar contra ousadia de Jesus foi Simão Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” (v. 8a). Para quem tinha deixado tudo imaginando seguir um “Rei de Israel”, deve ser mesmo chocante deparar-se com um “escravo”. Por isso, o espanto e a negação: isso é inaceitável! Aqui, Pedro revela também a resistência dos oprimidos no processo de libertação: a igualdade parece ser algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes. A resistência de Pedro revela isso.

O outro motivo para a resistência de Pedro é o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lava os pés dos outros, o seu discípulo deve fazer o mesmo! Por isso, Pedro só aceita a atitude de Jesus em última instância: ou aceita ou não pode mais continuar na comunidade, ou seja, não terá parte com Ele (v. 8b).

Após muita insistência de Jesus, Pedro aceita, mas não compreende: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (v. 9). Aqui, Pedro quer desviar o foco daquilo que Jesus está propondo: ele quer criar um novo rito, um a mais entre os tantos que os judeus praticavam e Jesus combatia. Ele não aceita a igualdade e não admite ter que servir ao próximo com a mesma intensidade com a qual Jesus servia. Transformando a atitude serviçal do lava-pés em um novo rito de purificação, ele estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica.

No final, após muita insistência e resistência, o gesto de Jesus conclui por si mesmo a catequese do serviço: “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo” (v. 12a). Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação da revolução de valores instaurada: no banquete da vida há espaço para todos, principalmente para o que serve; as divisões de classes estão superadas: o que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel do homem livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã porque nessa prevalece o movimento levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, às mais complexas.

Jesus em sua liberdade faz o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode mais haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como ainda hoje muitos resistem e preferem fechar-se na mentalidade antiga. Jesus celebrou a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa sem hierarquia, na qual reina somente o amor!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, abril 02, 2017

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 11,1-45 (ANO A)


A liturgia deste V Domingo da Quaresma continua nos convidando a refletir a partir do Evangelho segundo João. O texto proposto hoje é o relato do sétimo e último sinal cumprido por Jesus nesse Evangelho, a reanimação de Lázaro, seu amigo, em Jo 11,1-45. É um episódio exclusivo do Quarto Evangelho, e muito significativo, pois conclui o ciclo dos sinais ou milagres feitos por Jesus. Como se trata de um texto de grande extensão, não analisamos todos os versículos, e procuramos destacar apenas os seus aspectos principais.

Os sete sinais narrados por João foram criteriosamente escolhidos, como ele mesmo afirma no final do Evangelho, para despertar a fé em Jesus e transmitir a vida em plenitude que dessa emana (cf. Jo 20,30-31), sendo esse da reanimação de Lázaro o sinal por excelência, ou seja, o maior de todos.

Não se trata propriamente de uma ressurreição, mas de uma “reanimação”, considerando que ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, graças à ressurreição de Cristo. O que João apresenta é Jesus realizando a reanimação de um corpo que já se encontrava em estado de decomposição, mas que continuou corruptível. Jesus apenas prolongou os dias de Lázaro com esse sinal extraordinário.

Esse não é o único milagre do gênero narrado na Bíblia. Ainda no Antigo Testamento, Elias e Eliseu realizaram prodígios semelhantes: Elias restituíra a vida ao filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17,17-24), e Eliseu fizera o mesmo com o filho da sunamita (cf. 2Rs 4,8-37). Nos demais evangelhos temos outros dois episódios semelhantes: Jesus reanima o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,11-17) e a filha de Jairo (cf. Mc 5,22-43).

Como sempre, não dispensamos a contextualização, mesmo que breve, para que o texto possa ser bem compreendido. Esse relato da reanimação de Lázaro está inserido entre duas ameaças de morte a Jesus da parte dos dirigentes ou chefes da religião oficial. Daí, já surge um dado interessante: à morte, Jesus responde com o dom da vida.

No capítulo anterior, por ocasião da festa da dedicação do templo, os judeus quiseram apedrejar Jesus, acusando-o de blasfemador (cf. Jo 10,31-33), mas Ele conseguiu escapar e fugiu (cf. 10,39-40). Após restituir a vida de Lázaro, os chefes judeus, incluindo o Sumo Sacerdote, fizeram o plano definitivo para o aniquilamento de Jesus, pois Ele tinha ido longe demais dessa vez (cf. Jo 10,46-54). Portanto, em meio a duas situações de morte, Jesus manifesta a vida e a apresenta como resposta a toda e qualquer situação em que essa é ameaçada.

Voltemos agora o nosso olhar para o texto partindo do primeiro versículo, muito significativo, por sinal: “Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta” (v. 1). Em Betânia, cujo nome significa “casa da aflição”, havia uma comunidade cristã ideal, onde a fraternidade, de fato, reinava. Essa fraternidade é evidenciada pela apresentação que o evangelista faz de seus membros: Lázaro, Maria e Marta são apresentados apenas como irmãos, não há hierarquia entre eles, não há pai nem mãe, mas apenas pessoas iguais; essa é a comunidade ideal para o cultivo do amor e das relações fraternas e sinceras.

Embora a comunidade de Betânia fosse ideal, ao mesmo tempo era vulnerável por dois motivos; o primeiro, por ser um povoado, o segundo porque estava próxima a Jerusalém (v. 18). O povoado na Bíblia, em grego kw,mh – kôme, é sinônimo de resistência e conservadorismo, pois é o lugar de preservação da tradição, onde a novidade não é bem recebida.

O segundo motivo para a vulnerabilidade da comunidade de Betânia só é apresentado no versículo 18, mas já adiantamos aqui: “Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém”. Infelizmente, a tradução litúrgica omite o advérbio “perto” presente no texto original: evggu.j – enghys, em grego; a tradução mais justa seria “Betânia estava perto de Jerusalém cerca de três quilômetros”. Para a proximidade geográfica, a indicação dos três quilômetros é suficiente. O advérbio faz falta porque a ênfase que o evangelista está dando é à proximidade ideológica. Estando próxima a Jerusalém, essa comunidade era facilmente influenciada pela ideologia dominante, ou seja, pelo judaísmo oficial.

A influência de Jerusalém, ou seja, do judaísmo oficial sobre a comunidade de Betânia se evidencia ao longo de todo o texto pela reação dos personagens diante do fenômeno da morte (vv. 19.21.24.31.33.37), e diante de Jesus. Diz o texto que “Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão” (v. 19), quer dizer que a morte era vista como causa de desespero e medo, e Jesus não era conivente com essa mentalidade. Por isso, Ele prefere não entrar no povoado: Marta vai ao encontro dele e, depois, também Maria, pois Jesus a tinha chamado (vv. 20.28.30).

No povoado, concebia-se a morte com o respaldo da religião oficial: as irmãs choravam desesperadamente, sendo consoladas pelos judeus que tinham ido de Jerusalém. Por isso, Jesus fica fora do povoado (v. 30), porque somente saindo das antigas estruturas e mentalidade é possível vivenciar o triunfo da vida: de fora do povoado, Jesus chama as irmãs a saírem; Ele não entra e as conduz pela mão, mas dá a liberdade de escolha; ao seu convite, as irmãs de Betânia e os cristãos de todos os tempos podem responder positiva ou negativamente.

De Lázaro, o doente-morto-vivo, pouco se diz, pois, o objetivo do evangelista não é apresentar uma biografia sua, mas convidar a comunidade a escapar das estruturas de morte e despertá-la para Aquele que é “a Ressurreição e a Vida” (vv. 25-26), Jesus. Como o significado do nome Lázaro é “Deus ajuda”, podemos compreender o episódio narrado em torno da sua pessoa como um convite de Jesus à comunidade a buscar ajuda e consolo fora da Lei e das antigas instituições, por isso, Ele diz: “essa doença é para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v. 4). Em Lázaro, Deus está ajudando a comunidade a sair da antiga mentalidade.

Como o texto é também um pré-anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus, o evangelista ressalta alguns aspectos importantes da sua vida, sobretudo, no que diz respeito à sua humanidade: um homem de afetos e emoções! Cultivava amizade (v. 5), amava e se deixava ser amado, a ponto de ter o amor como a característica maior das relações recíprocas com seus discípulos: “Senhor, aquele que amas, está doente” (v. 3a); aqui, o evangelista apresenta Lázaro como o discípulo ideal, cuja relação com o Senhor é simplesmente o amor. Ser discípulo é sentir-se amado por Jesus e amar ao próximo com a mesma intensidade do amor recebido de Jesus.

O afeto e a seriedade de Jesus nas relações com seus discípulos são muito bem apresentados por João nesse relato. Não poderia passar despercebido em nossa reflexão o registro marcante do versículo 35: “E Jesus chorou”. A interpretação para essa expressão tem sido muito questionada e variada ao longo do tempo. É inegável que foi uma demonstração de afeto e prova do seu amor pelo discípulo. Aqui, se faz necessária mais uma observação semântica.

As irmãs choravam (vv. 31.33) e certamente outros amigos que foram ao encontro delas em solidariedade. Há, no entanto, uma distinção entre as duas maneiras de chorar, o que a tradução litúrgica omite. Existem dois verbos na língua grega, na qual foi escrito o nosso texto, klaiw (klaío) e dakriw (dakrío); ambos significam chorar, mas com conotações diferentes. O primeiro, klaiw (klaío), significa choro enquanto lamento e desespero, aplicado pelo evangelista nos versículos 31 e 33 para afirmar o choro de Maria, a irmã de Lázaro. Para afirmar o “choro” de Jesus, o evangelista usa o segundo verbo dakriw (dakrío), o qual significa simplesmente “derramar lágrimas”, “lacrimejar”, o que significa uma reação natural, mas não desesperadora. Portanto, enquanto os demais, principalmente as irmãs, choravam desesperados, derretendo-se em prantos e lamentações, Jesus apenas derramou lágrimas porque, para Ele, a morte nunca é o fim.

As lágrimas de Jesus causam admiração entre os judeus: “Então os judeus disseram: Vede como ele o amava” (v. 36). Ora, eles não conheciam amor nem gratuidade nas relações; viviam aprisionados pelo rigor da Lei; concebiam a relação com Deus a partir do modelo patrão-servo, dominador-dominado. Por isso, a Boa-Nova de Jesus não tinha boa aceitação no povoado. Por onde Jesus passa, o amor o acompanha e só quem ama e se sente amado pode acolhê-lo.

Jesus foi ao encontro das irmãs porque não abandona sua comunidade aflita e amava incondicionalmente Lázaro, a ponto de derramar lágrimas por ele (v. 35), mesmo não compactuando com a mentalidade delas. Porém, sua ida é pedagógica. Ao invés de alimentar aquela mentalidade, ainda influenciada pela religião oficial, Ele a combate: chega somente no quarto dia após a morte (v. 39) e não entra no povoado. A chegada no quarto dia foi proposital: Ele tinha consciência do que deveria fazer e já tinha expressado isso aos discípulos mais próximos: “o nosso amigo Lázaro dorme” (v. 11). Merece atenção aqui o possessivo plural: tudo o que Ele tinha e tem é compartilhado com os seus, inclusive as amizades e todas as relações. Na sua comunidade não há espaço para o individualismo: bens e afetos existem para a partilha.

A chegado após quatro dias tinha como objetivo desmascarar uma falsa crença judaica de que até três dias após a morte, ainda era possível que o defunto voltasse a viver, pois acreditava-se que o espírito do morto ainda sobrevoava ao redor do cadáver. A partir do quarto dia, começava a decomposição e, portanto, o espírito ia embora. Realizando o milagre até o terceiro dia, a “glória do Filho de Deus” não seria manifestada, pois os presentes reconheceriam como algo natural, conforme a crença.

A ida de Jesus teve, portanto, um objetivo muito claro: libertar a comunidade da morte física, por um momento, e principalmente, da doença e morte ideológica, da qual a comunidade estava ameaçada. Chamou Lázaro para fora do túmulo (v. 43), ordenando que fosse retirada a pedra (v. 39). A pedra representa aqui, tudo o que separa a vida da morte: o medo, a violência, a opressão e tudo o que a Lei causava de mal no seio da comunidade. Para Jesus, a antiga Lei era sinal de morte.

A ordem “Lázaro, vem para fora” (v. 43) é o convite final que Jesus faz para a liberdade. É necessário “desatar” (v. 44) o ser humano de tudo o que o impede de caminhar livremente em busca da vida plena e da dignidade. É necessário sair dos povoados e dos túmulos para caminhar com Jesus em busca de um mundo novo onde, de fato, reine o amor e a vida triunfe!



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, março 25, 2017

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 9,1-41 (ANO A)


Neste IV Domingo da Quaresma continuamos em contato com o Evangelho segundo João. O texto a liturgia nos oferece é Jo 9,1-41, a narrativa da cura do cego de nascença. Trata-se do sexto dos sete sinais cumpridos por Jesus no Quarto Evangelho.

Embora os evangelhos em geral registrem outras curas de cegos, esse episódio do cego de nascença é exclusivo de João e um dos trechos de maior criatividade e riqueza desse Evangelho, tanto literária quanto teológica. É um texto bastante longo, composto por quarenta e um versículos; obviamente, essa extensão nos impossibilita de analisarmos cada versículo, por isso, procuramos destacar somente os seus aspectos mais essenciais.

Para uma boa compreensão do texto é necessário fazer, embora brevemente, a contextualização. A cena narrada acontece em Jerusalém ou em seus arredores. Jesus tinha ido à “cidade santa” para a grande festa das tendas (cf. Jo 7,1-2.14), uma das três grandes festas de peregrinação dos judeus, juntamente com as festas da páscoa e de pentecostes. Como a fama de Jesus já estava bastante espalhada, em decorrência dos cinco sinais já cumpridos (cf. Jo 2,1-12 – a mudança da água em vinho; 4,46-54 – a cura do funcionário do rei; 5,1-18 – a cura do paralítico; 6,1-15 – a partilha dos pães; 6,16-21 – a caminhada sobre o mar), Ele já era, portanto, considerado um perigo para o poder religioso, uma vez que cada sinal manifestava a glória de Deus, provando que Deus não se deixava manipular pela religião.

À medida que a religião oficial vai sendo desmascarada pelo testemunho, o ensinamento e os sinais de Jesus, os chefes religiosos vêem desmoronar seus poderes e privilégios. Por isso, planejam matá-lo (Jo 7,1), pois Jesus era uma pessoa perigosa para o sistema. Durante a festa das tendas, Ele tinha passado dos limites ao se auto proclamar luz do mundo (cf. 8,12) e Filho eterno do Pai (cf. 8,54-58). Por toda essa ousadia, os judeus o consideraram um endemoniado (cf. 8,48) e, por isso, tentaram apedrejá-lo.

É, portanto, observando o último versículo do capítulo anterior que podemos compreender o nosso texto de hoje: “Eles pegaram, então, pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do templo” (8,59).

Assim, voltamos nossa atenção para o Evangelho de hoje, o qual se inicia assim: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (v. 1). Mesmo apressado, pois estava fugindo, Jesus percebe a necessidade do outro e age em solidariedade, reconhecendo a situação desprezível do homem. A cegueira era sinal de maldição, pois impedia que o homem pudesse estudar e conhecer a Lei, o único meio de comunicação que Deus estabeleceu com o seu povo, conforme a mentalidade judaica. Portanto, aquele homem, cego de nascença (em grego  tuflo.n evk geneth/j – tyflon ek guenetês) estava completamente excluído da religião e da sociedade.  

Mais que qualquer outra deficiência, a cegueira era considerada uma maldição e consequência do pecado, conforme a religião judaica ensinava, e os discípulos de Jesus ainda estavam dominados por essa mentalidade, o que se evidencia na pergunta: “Quem pecou para que nascesse cego? Ele ou os seus pais?” (v. 2). Vigorava a ‘teologia da retribuição’ e acreditava-se que “Deus não deixa ninguém impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e a quarta geração” (Ex 34,7). É claro que Jesus não concorda com essa mentalidade e, por isso, corrige seus discípulos e expressa a sua pressa em sanar aquela situação de miséria vivida pelo pobre homem cego (vv. 3-4).

Jesus compartilha com os discípulos a sua responsabilidade de manifestar as obras do Pai (v. 4), usando o verbo trabalhar, em grego evrga,zomai (ergazomai). Infelizmente, a versão litúrgica do texto não exprime a intensidade e urgência presentes no texto original. Ao invés de “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia” (v. 4a), a forma mais justa seria “Nós temos que trabalhar realizando as obras daquele que me enviou, enquanto é dia”; o verbo trabalhar exprime a seriedade da missão, a expressão “enquanto é dia” revela a urgência. Considerando que seus dias estavam contados, depois de tantas ameaças, não há mais tempo a perder. A “chegada da noite” (v. 4c) significa a sua morte que se torna cada vez mais próxima.

Quando o assunto é a liberdade e a dignidade do ser humano, o discípulo de Jesus, assim como Ele, deve agir com pressa, independente das regras e códigos de moral, civis ou religiosos. Aqui nos chama a atenção para o voluntarismo de Jesus: o cego não lhe pede nada, não lhe faz nenhuma súplica, ao contrário de muitas outras curas em que são os necessitados que até imploram a Jesus. O simples olhar de Jesus é suficiente para perceber a necessidade no próximo.

Imediatamente Jesus passa à ação com um gesto cheio de simbolismo: “Cuspiu no chão, fez lama com a saliva” (v. 6a). A imagem do barro alude à criação, é a matéria prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. Segundo essa mesma mentalidade, a saliva é gerada pelo hálito, esse, por sua vez, é o sopro, o espírito. Portanto, Jesus repete o gesto criador de Deus: soprou sobre o barro e gerou vida humana (cf. Gn 2,7). Com a lama produzida pelo seu hálito, Jesus ungiu os olhos do cego (6b). O texto litúrgico emprega a expressão “colocou-a sobre os olhos do cego”, mas seria mais adequado dizer que Ele “ungiu os olhos do cego”, considerando o sentido do verbo grego empregado pelo evangelista:  evpi,criw – epícrio, o qual significa ungir.

A ação de ungir é seguida por uma ordem: “Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer enviado)” (v. 7). Não é fácil interpretar essa ordem. A maioria, lendo o texto à luz de uma liturgia batismal, aplica aqui o simbolismo da água batismal; No entanto, considerando a oposição de Jesus às instituições religiosas do seu tempo, principalmente no Evangelho de João, é mais prudente não seguirmos essa linha. A piscina de Siloé localizava-se fora de Jerusalém, e como Jesus estava fugindo, provavelmente já se encontrava fora da cidade, próximo à piscina. Como aquela piscina abastecia o templo, inimigo de Jesus, é difícil imaginar que Jesus visse naquelas águas, um elemento purificador. A lama nos olhos deveria ser tirada de qualquer maneira e, portanto, Jesus indicou o local mais próximo.

O verdadeiro sentido da ordem “Vai lavar-te” consiste na liberdade e responsabilidade que Jesus quer apresentar ao ser humano. Ele apresenta o caminho, cabe ao homem fazer a sua parte. Jesus não impõe a sua luz sobre o mundo, mas a oferece. Obviamente, sua ordem foi cumprida: “O cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (v. 7b). Quem anda pelos caminhos que Jesus aponta encontra luz e sentido para a vida. A ida do cego à piscina representa sua adesão ao Evangelho, sua fé e seu compromisso. É uma demonstração de que no Reino de Deus não há espaço para a passividade, mas todos devem assumir responsabilidades e compromissos. Jesus liberta, mas dá, ao homem, autonomia e o faz também sujeito de sua própria libertação.

O espanto é geral entre aqueles que conheciam o cego de nascença, um homem miserável e amaldiçoado e, agora, passam a ver um homem íntegro, novo e restaurado (vv. 8-12). A admiração começa entre os vizinhos, passa pelos que o viam mendigando no tempo até chegar nos fariseus e nas autoridades religiosas. O motivo de tamanho espanto é compreensível, considerando que a afirmação do próprio homem que fora cego ao defender-se das acusações dos fariseus: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença” (v. 32). De fato, em toda a Bíblia, não há registro de nenhum outro milagre de cura de um cego de nascença.

Os fariseus, como representantes do sistema de dominação, reagem com rigor e até com violência, porque vêem que a luz que eles ajudavam a roubar do povo, Jesus a restitui e de modo completamente gratuito. Por isso, inconformados, submetem o homem curado a um longo interrogatório, sem aceitar nenhuma das respostas. É claro que todo o inconformismo é causado pela rejeição a Jesus.

O fato de Jesus ter curado em dia de sábado já era, por si, motivo de escândalo, ainda mais da forma como fez: “Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego” (v. 14). Jesus tocou na terra, mexeu no barro e fez lama em dia de sábado, praticando algo abominável para os judeus. De fato, os judeus consideravam o sábado como o maior dos mandamentos, pois é o único mandamento que até Deus guardou (cf. Ex 20,11), assim eles pregavam. Eles passam a ter mais um motivo para condenar Jesus.

O ex cego é, literalmente, encurralado pelos representantes da religião oficial porque deixou de ser um dominado, tornou-se um sujeito autônomo, ganhou independência. A situação chega ao ponto de ser necessário o depoimento dos pais do homem (v. 18-23). Com medo da repressão, os pais deixam a responsabilidade para que o próprio filho responda. Sendo incapazes de convencer com argumentos e testemunho, os chefes apelam para a violência, como em qualquer sistema opressor, por isso, “o expulsaram da comunidade” (v. 34b). É a religião agindo com tirania, banindo a vida, ao invés de protegê-la. É claro que não havia espaço para Jesus em uma religião como aquela.

Mais uma vez Jesus se manifesta, ao saber que o homem tinha sido expulso da comunidade sinagogal e vem ao seu encontro (v. 35). Aqui, é importante fazer mais uma observação semântica: o texto original não diz apenas que Jesus encontrou o homem de novo, como afirma a tradução litúrgica, mas diz que “Ele foi encontrá-lo”, ou seja, foi busca-lo, uma vez que o homem estava novamente em perigo. Portanto, a ação de Jesus é recuperar o que a religião rejeitou. A religião exclui e Jesus inclui; os sistemas dominantes separam, Jesus junta; o templo domina, Jesus liberta.

No final da discussão, Jesus mostra a grande inversão de valores e de papéis: os verdadeiros cegos são os fundamentalistas que, apegados à lei e aos mais diversos códigos de conduta, sufocam a vida do ser humano, privando da liberdade e da dignidade (v. 41a). Para esse tipo de cegueira não há justificativa (v. 41b).

Assim como João escreveu pensando na sua comunidade, também devemos pensar nas comunidades de hoje em dia: se essas não promovem a vida e a liberdade do ser humano, estão distantes da proposta de Jesus. Se prevalece a norma sobre a caridade, o Evangelho está sendo esquecido. Se o conhecimento continua concentrado em um pequeno grupo, está mais para sinagoga que para comunidade cristã. Se há imposição de ideias, decisões e normas, continua-se a gerar cegos, ao invés de pessoas conscientes e iluminadas.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues