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REFLEXÃO PARA O XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 18,21-35 (ANO A)



Neste vigésimo quarto domingo do tempo comum, a liturgia propõe Mateus 18,21-35 para o Evangelho. É a continuidade e conclusão do quarto dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus. Esse discurso é comumente chamado de “discurso comunitário” ou “discurso eclesial”, porque trata das relações entre os membros da comunidade cristã. No âmbito das relações, a principal dimensão apresentada pelo Evangelho de hoje é  a capacidade e a necessidade do perdão entre os irmãos que compõem a comunidade. Como no domingo passado (vigésimo terceiro domingo), cujo texto evangélico proposto pela liturgia foi Mt 18,15-20, já fizemos a contextualização de todo o capítulo dezoito, hoje podemos nos isentar dessa tarefa.

Como esse discurso foi dirigido exclusivamente aos discípulos, é deles que vem as reações. Por isso, diz o texto que “Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (v. 21). Como vemos, é Pedro o primeiro a se manifestar, não por exercer uma atividade de proeminência sobre os demais, mas apenas por refletir a voz de todo o grupo e ser ele o que melhor sintetiza as características do grupo, sobretudo, no que diz respeito às contradições e incoerências. Ao invés de líder dos doze, Pedro é a cara dos doze: professa a fé (cf. Mt 16,16), mas também nega (cf. Mt 26,69-75), ora fala conforme a vontade do Pai, ora conforme satanás (cf. Mt 16,17.23). Portanto, a figura de Pedro funciona como uma síntese do grupo dos doze, sobretudo, em Mateus.

Jesus tinha apresentado apresentado a necessidade da reconciliação como uma busca irrenunciável para a comunidade (cf. 18,15-20). Como não há reconciliação sem perdão, Ele vai apresentar a necessidade do perdão permanente e contínuo na vida da comunidade. Aqui, Pedro encontra a oportunidade de interagir, através de uma pergunta. Nessa pergunta de Pedro há, mais que uma dúvida, uma convicção: se deve perdoar, mas deve haver limite para tudo! Esse limite seria sete vezes (em grego: e`pta,kij – heptákis), afinal, o número sete evoca perfeição e completude. Os rabinos da época, observantes da “Torá oral”, aconselhavam o perdão até três vezes. De positivo, a pergunta de Pedro demonstra que, aos poucos, a lógica da antiga religião estava sendo superada entre os discípulos; o lado negativo é a insistência em querer medir quantitativamente aquilo que deve ser ilimitado.

 Certamente, Pedro imaginava receber um elogio de Jesus, pois tinha demonstrado uma “justiça superior à dos escribas e fariseus” (cf. Mt 5,20). Jesus vai muito além, com a sua resposta: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (v. 22). Sem dúvidas, Pedro e os demais ficaram desconcertados com essa resposta. A pergunta de Pedro já refletia uma abertura na comunidade para ir além dos costumes da época, mas com certos limites. A resposta de Jesus ensina a romper todos os limites. Não se trata de um convite ou ordem para os discípulos fazerem uma multiplicação e chegarem a uma cifra elevada, porém, contável (70 x 7 =490), mas simplesmente um sinal de que não há espaço para números no que diz respeito às relações com o próximo na comunidade cristã. Essa expressão numérica não indica quantidade, mas qualidade: o perdão é ilimitado e incontável.

Para deixar ainda mais clara a necessidade do perdão entre os irmãos, Jesus apresenta uma parábola, concluindo o discurso. Nesse mesmo discurso Ele já tinha contado uma primeira parábola, aquela da ovelha perdida (cf. 18,10-14), ao enfatizar que as relações na comunidade devem refletir o amor e a misericórdia do Pai. Agora, com essa segunda parábola, Ele reforça esse ensinamento: “O Reinos dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados” (v. 23). Antes de tudo, convém recordar que uma parábola é apenas uma comparação, e não uma descrição. É importante fazer esse esclarecimento para não distorcermos a imagem do Pai misericordioso, convertendo-o em um soberano vingativo.

O primeiro objetivo dessa parábola é mostrar a abundância do perdão ilimitado de Deus e alertar para a dificuldade que a comunidade tem de praticar o perdão. O segundo objetivo é levar a comunidade a superar essa dificuldade, tendo em vista que é em vão pedir o perdão do Pai quando não há disposição de perdoar ao próximo também de modo ilimitado.

De modo simplificado, podemos compreender a parábola da seguinte maneira: tudo o que se recebe de Deus é dom, e tudo o que é dom deve ser partilhado. O primeiro empregado ou servo (em grego: dou,loj – dúlos) devia uma quantidade incalculável (v. 24), ou seja, possuía uma dívida milionária, a ponto de ser impossível quitá-la. O rei, o patrão, manda vendê-lo como escravo, juntamente com toda a família (v. 25). Certamente, esse não era apenas um empregado, mas alguém que participava diretamente da administração, o qual deve ter desviado ilicitamente muito dinheiro para ficar tão endividado para com o rei. Sabendo da impossibilidade de pagar, não lhe resta outra coisa senão suplicar o perdão da dívida, como o fez, pedindo um prazo como pretexto (v. 26). O patrão teve compaixão e perdoou a dívida (v. 27), representando o agir de Deus diante da incapacidade humana de corresponder aos seus propósitos.

O servo, perdoado de maneira absoluta e ilimitada, se mostra incapaz de partilhar o perdão recebido (vv. 28-32); e isso é intolerável para aquele que lhe havia perdoado (v. 33-34). O centro da parábola está exatamente aqui: advertir e prevenir a comunidade, principalmente as lideranças, da hipocrisia, covardia e mesquinhez de não partilhar o perdão, de não ser instrumento e sinal de reconciliação. O servo foi condenado porque reteve o perdão somente para si, não partilhou o perdão recebido. Jesus quer evitar esse perigo na(s) sua(s) comunidade(s). Assim, a comunidade contradiz o projeto de Jesus e do Pai quando classifica o pecado, determinando se é “perdoável” ou não, e quando impõe limites ao aplicar o perdão.

Longe de comparar Deus a um soberano vingativo, o que Jesus fez com essa parábola foi reforçar um ensinamento necessário e urgente para o bem da comunidade, que insistia em neglicenciar. Enfim, Jesus apenas reforçou o que já tinha dito no seu primeiro discurso, o da montanha: “Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os vossos delitos” (cf. Mt 6,14-15). Podemos, assim, colocar o perdão como critério de reconhecimento se uma comunidade/igreja é cristã ou não: se há restrição ao perdão e medição quantitativa e qualitativa do pecado, essa está longe de ser aquela sonhada por Jesus!



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 18,15-20 (ANO A)


A liturgia deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum nos propõe Mateus 18,15-20 para o Evangelho. O capítulo dezoito do Evangelho segundo Mateus é composto pelo quarto dos cinco grandes discursos de Jesus apresentados nesse Evangelho. Esse discurso é dirigido especialmente aos discípulos, e trata das relações entre os membros da comunidade, por isso é comumente chamado de “discurso comunitário” ou “discurso eclesial”. O ensinamento de Jesus nesse discurso tem como primeiro objetivo apresentar a comunidade cristã como uma comunidade de iguais, marcada pelo amor, humildade e perdão recíprocos.

Como o texto que a liturgia oferece não compreende o início do discurso, convém retornarmos ao início para contextualizá-lo e, assim, compreendermos melhor.  Ora, o discurso é a resposta de Jesus a uma pergunta absurda dos discípulos, conforme o primeiro versículo do capítulo: “Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: ‘Quem é o maior no Reino dos céus?” (18,1). A pergunta é absurda para Jesus porque ela revela que os discípulos ainda não haviam compreendido quase nada do Reino dos céus. Desde o início da sua pregação, Jesus tinha apresentado o Reino dos céus como uma sociedade alternativa ao sistema vigente, sem relações de poder, nem hierarquia entre os seus membros. Se os discípulos ainda perguntavam quem era o maior, é porque ainda não haviam compreendido nem aceitado essa proposta.

Além da introdução ao discurso, é importante recordar também que, pouco antes, Jesus havia feito o segundo anúncio da paixão (cf. Mt 17,22-23). Por incrível que pareça, quanto mais Jesus falava em cruz, perseguição e sofrimento, mais os discípulos alimentavam seus sonhos de grandeza e poder (cf. Mt 20,20-28), demonstrando que não estavam ainda vivendo segundo as bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12). Sem dúvidas, essa era também a crise da comunidade de Mateus, cerca de quatro décadas após a morte de Jesus. A tendência hierarquizante era cada vez mais forte, por isso o evangelista faz questão de recordar às palavras de Jesus contrárias a essa tendência.

Voltando para o discurso em si, convém ainda recordar que o trecho proposto pela liturgia é precedido pela parábola da ovelha perdida (cf. 18,10-14). Assim, podemos dizer que o nosso texto é uma espécie de explicação da parábola, uma vez que, ao tratar da correção fraterna, o texto evidencia o esforço da comunidade para que o perdão e a reconciliação aconteçam. Os membros da comunidade devem esforçar-se ao máximo para refletirem em suas vidas o esforço do Pai: “Vosso Pai, que está nos céus, não quer que se perca nenhum destes pequeninos” (18,14). Ora, para que nenhum dos pequeninos se perca, a comunidade não pode medir esforços; deve empenhar-se com todos os meios disponíveis para que prevaleça o amor, o perdão e haja a reconciliação.

Feita a devida contextualização, voltamos a nossa atenção para o nosso texto específico (18,15-20), o qual funciona como uma expécie de explicação da parábola que o precede, como afirmamos antes. Eis o primeiro versículo: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.” (v. 15). A possibilidade do pecado e da ofensa já deixa muito claro que a comunidade não é perfeita, pois seus membros também não são perfeitos. Não obstante as imperfeições, a comunidade é, antes de tudo, um espaço fraterno, pois seus membros são todos irmãos. De fato, uma das informações e ensinamentos mais importantes desse versículo é o uso da palavra irmão  (em grego: avdelfo,j – adelfós). Independentemente da falta cometida, a fraternidade, como regra básica da comunidade cristã, deve ser buscada em todas as circunstâncias. A correção em particular é o primeiro recurso: nada de exposição e humilhação; entre irmãos, deve haver liberdade para perceber juntos o erro e a necessidade de correção para o bem da comunidade. Não é a posição de um superior para com um subalterno, mas de um irmão que busca outro irmão para recompor a unidade da comunidade. Ganhar o irmão significa recuperá-lo para a comunidade, ou seja, reatar com ele os laços de fraternidade.

Caso essa primeira tentativa não funcione, novos meios devem ser buscados: “Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas testemunhas para que a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas” (v. 16). O cuidado com o irmão continua muito evidente: nada de expô-lo publicamente. Contudo, para que não se perca, é necessário continuar buscando a sua reconciliação e seu retorno à fraternidade. Tendo falhado a primeira tentativa, busca-se uma segunda. Nessa, recorre-se ao princípio judaico do testemunho, ao aconselhar que se tome uma ou mais testemunhas, para que o testemunho seja válido (cf. Dt 19,15). Aqui, no entanto, não se trata de um recurso jurídico, mas sim da ajuda mútua. Mais do que mostrar o erro, o esforço da comunidade deve ser um convencimento para que o irmão não se aparte dela.

Mesmo que a segunda tentativa funcione, ainda há outros recursos e meios, como sugere Jesus: “Se ele não vos der ouvidos, dize-o à Igreja” (v. 17a). A terceira tentativa para que o irmão não se perca da comunhão fraterna é levá-lo à comunidade, ou seja, à Igreja. Essa, não como instância jurídico-institucional, mas como espaço de comunhão e fraternidade, deve ser comunicada e ficar a par de todas as situações que envolvam seus membros. A Igreja aqui, como já falamos, não é uma instituição nem um grupo hierárquico, mas a comunidade reunida, a assembleia (evkklhsi,a| – ekklesia). Esse conselho de Jesus é mais um sinal da sinceridade e transparência com que os irmãos e irmãs da comunidade cristã devem viver. Como um corpo que é a comunidade, seus membros tem direito de saber como andam as relações entre os demais membros, afinal, o bom funcionamento do corpo depende da saúde e do bem de todos os membros. A comunidade reunida, como espaço de comunhão e oração, deve também fazer da celebração uma oportunidade de crescimento com a reconciliação de seus membros.

É possível que até mesmo a comunidade reunida não seja suficiente para convencer o irmão da necessidade da reconciliação. Assim como é espontâneo o ingresso na comunidade, também deve ser o afastamento, o que muitas vezes ocorre até por falta de compreensão e acolhida. Por isso, Jesus previne: pode ser que nem mesmo o conselho da assembleia reunida seja suficiente para o retorno do irmão: “Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público” (v. 17b). Muitos interpretam, equivocadamente, que após todas as tentativas de conversão, a Igreja pode e deve excomungar, abandonar e excluir o membro pecador. É claro que esse pensamento distorce completamente o pensamento de Jesus. Contradiz, inclusive, a parábola que antecede o nosso texto, aquela da ovelha perdida. O real significado dessa expressão é: se aquele irmão não se convenceu da necessidade de viver em paz com outro, se ele não se deixou mais convencer pela beleza da vida fraterna e comunitária e, por isso, depois de várias tentativas, ele precisa refazer o caminho.

Ser tratado como pagão ou publicano é ser, de novo, destinatário do Evangelho. Embora o texto litúrgico use a expressão “pecador público”, é mais correto usar “publicano” ou “cobrador de impostos” (em grego: telw,nhj – telónes)  por uma questão de fidelidade ao texto original. Ora, ao longo de todo o Evangelho, os cobradores de impostos e os pagãos são destinatários do interesse de Jesus e, portanto, do Evangelho. Essas duas categorias de pessoas eram desprezíveis para os fariseus, mas jamais para Jesus. A comunidade cristã não pode ser pautada pelos mesmos princípios dos fariseus, e sim pelo amor de Jesus e do Pai, por Ele revelado. Por isso, deve ter coragem de voltar atrás e recomeçar seu caminho formativo para o discipulado, quantas vezes for necessário, indo ao encontro daqueles e daquelas que se afastaram. Portanto, como comunidade inclusiva, a Igreja deve buscar todos os meios para que nenhum pequenino se perca.

O que já dissera aos discípulos no episódio de Cesaréia de Felipe, Jesus agora reforça: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (v. 18). É claro que não se trata de uma delegação de poderes, mas de responsabilidade. A comunidade que vive, de fato, as bem-aventuranças é reflexo do céu. As relações fraternas de amor e perdão são os distintivos da comunidade cristã. Não é necessário ter poder para que as coisas da terra sejam confirmadas pelo céu; basta coerência, testemunho e, sobretudo, amor! Ao Pai, importa apenas amor, concórdia e fé (v. 19). São esses os requisitos para tornar válida a oração. Antes de dobrar os joelhos e abrir os lábios para dirigir uma prece ao Pai, a comunidade deve viver a concórdia interna, respeitando as diferenças, obviamente.

A autêntica comunidade cristã, reconciliadora e orante, é o lugar privilegiado da presença de Jesus: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (v. 20). Aqui, o evangelista retoma um dos temas principais de todo o seu Evangelho: a presença do Senhor no meio da comunidade (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Aqui está também a justificativa para que a comunidade nunca se canse de buscar o retorno daqueles que se afastam: é a presença do irmão que gera comunhão, e essa comunhão garante a presença de Jesus. Na época da redação do Evangelho, como o templo já havia sido destruído, os judeus afirmavam que Deus estava presente onde dois ou mais estivessem reunidos para estudar a Lei. Com essas palavras, Jesus diz que não é o estudo da lei que garante a presença divina, mas é o seu nome. O evangelista entende que reunir-se no nome de Jesus não é apenas pronunciar palavras juntos, mas viver de acordo com o seu ensinamento. Com isso, ele combate as tendências individualistas que começavam a aparecer na sua comunidade.

Uma comunidade só é autenticamente cristã quando é possível perceber e sentir nela a presença de Jesus. Essa presença só se manifesta quando há amor, perdão, reconciliação e compreensão. Havendo esses elementos, independente do número de membros, mesmo que sejam só dois ou três, o Senhor estará presente. Por isso, a comunidade deve empenhar-se ao máximo possível para recuperar um irmão ou irmã afastado; mesmo que seja somente um, a sua ausência pode comprometer a presença do Senhor!


Mossoró-RN, 09/09/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues




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REFLEXÃO PARA O XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 16,21-27 (ANO A)



Neste vigésimo segundo domingo do tempo comum, a liturgia propõe Mateus 16,21-27 para o Evangelho. Se trata do primeiro anúncio explícito da paixão feito por Jesus aos discípulos, e da reação desses, marcada pela não aceitação de um messias sofredor. Esse trecho é a sequência imediata do Evangelho do domingo passado, Mateus 16,13-20, quando Jesus perguntou sobre a sua identidade, e Pedro, em nome do grupo, confessou a sua fé, afirmando com aparente convicção que Jesus era o Messias esperado, o Filho do Deus vivo.

Com a confissão solene e objetiva da fé por Pedro (cf. Mt 16,13-20), Jesus imaginava que o grupo dos discípulos havia atingido um grau considerável de maturidade para compreender o seu destino de sofrimento, por isso, começou a anunciar de modo explícito quais seriam as consequências da forma como estava vivendo e fazendo as suas opções. Esse destino não poderia ser outro, senão a cruz, ou seja, a condenação total e humilhante pelos detentores de poder, político e religioso, incomodados com a sua mensagem de libertação.

Podemos dizer, logo de início, que o Evangelho de hoje apresenta a negação ou o recuo das palavras firmes que Pedro tinha pronunciado no episódio anterior, na região de Cesaréia de Filipe. Assim, podemos também dizer que, juntando esses dois episódios, temos as duas faces de uma mesma moeda, opostas obviamente. De elogiado a reprovado, Pedro é a imagem da comunidade de Mateus, marcada pela inconstância, ambiguidade, incoerência e incompreensão.

O episódio de Cesaréia de Filipe foi um divisor de águas na vida de Jesus e no seu relacionamento com os discípulos. Por isso, o texto evangélico de hoje começa com uma indicação cronológica importante, infelizmente omitida pelo liturgia: “a partir de então” ou “desse momento em diante”  (v. 21a), (em grego: Apo. to,te – apó tote). Sem essa indicação, o texto litúrgico começa assim: “Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 21). Como vemos, são muitas informações para um único versículo, o que requer uma explicação cuidadosa e lenta.

A primeira informação importante do versículo é a mudança de rumo e sentido na pregação de Jesus. Como Ele já havia anunciado bastante sobre o Reino dos céus; agora, é chegado o momento de deixar claro quais são as consequências para a vida de quem “busca em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (cf. Mt 6,33). Como a busca pelo Reino requer opções, tais opções trazem também consequências. Assim, o que Ele começou a mostrar aos discípulos, do episódio de Cesaréia em diante, foi exatamente essas consequencias. Ora, fazer opção pelo Reino é, antes de tudo, mostrar indignação, inconformismo e resistência à todas as forças que impediam a concretização desse Reino.

Tendo optado pelo Reino acima de tudo, Jesus tinha muita clareza do seu destino: sofrer e morrer pelas mãos dos inimigos do Reino. Não se trata de uma predestinação, mas de uma necessidade. Jesus tinha muita clareza da sua missão de instaurar o Reino do seu Pai na terra, e sabia que para isso deveria enfrentar muitas forças hostis e adversas, principalmente a religião que oprimia, excluía e matava em nome de um Deus que em nada parecia com o seu Pai. Era necessário desmascarar essa religião, e isso lhe traria consequências inevitáveis. Como era em Jerusalém que essa religião estava enraizada institucionalmente, era para lá que Jesus devia ir. Por isso, sua ida até ela era necessária.

Jesus sabia antecipadamente quem seriam seus algozes principais: “os anciãos, os sumos sacerdotes e os mestres da lei”, a elite religiosa de Jerusalém. Não sabia disso por possuir conhecimento de coisas misteriosas e futuras, mas pela consciência de que seu projeto colidia com os interesses dessa elite. Era o confronto de dois projetos bem distintos: o Reino de Deus com sua justiça, acolhida, misericórdia e amor, de um lado e, a instituição religiosa com seus dogmas, sua lei e seus preceitos excludentes, segregadores, manipuladores e exploradores, do outro lado. O confronto era inevitável. Como centro de poder e, portanto, de exploração, Jerusalém e sua elite religiosa e política eram conhecidas por “matar profetas” (cf. Mt 23,37; Lc 13,34). Aliás, convém recordar que, de acordo com o Evangelho de Mateus, desde o seu nascimento, Jesus é almejado pelos detentores de poder (cf Mt 2,16ss). Portanto, nenhuma novidade!

As elites se enganam ao imaginar que matando Jesus poriam fim ao projeto do Reino. A confiança de Jesus no Pai ultrapassa todos os limites da existência humana. Vai morrer sim, mas irá ressuscitar ao terceiro dia. Assim como Herodes imaginava, no início do Evangelho (cf. Mt 2,16ss), que matando os inocentes estaria eliminando as ameaças ao seu falso senhorio, também a elite religiosa imagina que matando Jesus estaria eliminando o perigo da instauração do Reino de Deus. O Reino de Deus é perigo mesmo para qualquer sistema incompatível com sua proposta!

A certeza da ressurreição era fruto de uma íntima e profunda confiança no Pai, confiança essa ainda não experimentada pelos discípulos, como a sequência do texto mostrará. A ressurreição é certeza somente para quem confia verdadeiramente no Pai. A expressão “no terceiro dia” (em grego: th/| tri,th| h`me,ra| – té trité heméra), no entanto, não é um dado cronológico, mas teológico. Ao longo da história bíblica, “o terceiro dia” indica uma intervenção extraordinária de Deus na história, basta recordar a narrativa da teofania do Sinai: foi no terceiro dia que Moisés recebeu as tábuas da Lei (cf. Ex 19,16ss). Portanto, na ressurreição, Deus agirá de modo admirável e novo.

Mais uma vez, a reação dos discípulos às palavras de Jesus é encabeçada por Pedro: “Então Pedro, tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não te permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” (v. 22). A atitude de Pedro é de reprovação total ao que Jesus tinha acabado de dizer. Com essa atitude, Pedro e todo o grupo, pois é em nome do grupo que ele age e fala, jogam por terra toda uma caminhada de discipulado. É como se ele revogasse a belíssima confissão proferida pouco tempo antes (cf. Mt 16,23-20). Ora, ao repreender Jesus, Pedro deixa de lado sua condição de discípulo para ser mestre. É uma atitude arrogante e arbitrária, totalmente incompatível com o que Jesus tinha ensinado até então. Pedro sabia que, inevitavelmente, o caminho do discípulo é o mesmo do mestre. Assim, se Jesus morresse pelo Reino, também ele e os demais discípulos morreriam. Por isso, tenta tirar essa ideia de Jesus. Essa tem sido uma das grandes tentações da Igreja ao longo da história: desconsiderar a força das palavras de Jesus e seus impactos na vida de cada um e na sociedade. Convicto de seguir o messias glorioso, Pedro não aceita de modo algum a ideia de um messias sofredor.

Jesus logo percebe a ideia infeliz de Pedro e, com muita sinceridade, chama-lhe a atenção: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensa as coisas de Deus mas sim as coisas dos homens” (v. 23). Aqui, o texto liturgico apresenta um grande equivoco: Jesus não manda Pedro ir para longe, mas para atrás de si, ou seja, voltar ao lugar de discípulo. O evangelista usa aqui a mesma expressão empregada no momento do chamado: “vinde atrás de mim” (cf. Mt 4,19), ou seja, “segui-me” (em grego: ovpi,sw mou – opíssô um). Jesus não afasta Pedro, mas o convida a colocar-se em seu devido lugar: no seguimento, deve continuar aprendendo, afinal, tinha demonstrado não ter aprendido praticamente nada a respeito do seguimento de Jesus com suas opções e consequências. Pedro é chamado de satanás porque, na verdade, satanás não é uma pessoa ou um ser específico, mas é uma atitude. Impedir a realização do Reino é o papel e a atitude de satanás. Essa atitude é, na maioria das vezes, assumida pelos de dentro, ou seja, por quem se apresenta como seguidor, mas não se abre aos desígnios do Pai.

Pouco tempo antes, após ter confessado a sua fé, Pedro tinha sido proclamado bem-aventurado pela sua sintonia com o Pai (cf. Mt 16,17); agora, ele é duramente repreendido por trocar os pensamentos do Pai pelas coisas dos homens, e gerenciar sua vida a partir dessas coisas. As coisas do Pai às quais Jesus se refere são: doação, serviço e amor; as coisas dos homens são o medo, a ambição e a sede de poder e dominação. Esse paradoxo não poderia passar despercebido por Jesus. Por isso, de pedra da construção, ele passa a ser pedra de tropeço, ou seja, escândalo para a comunidade (em grego ska,ndalon – skandalon).
É importante estarmos atentos a essa situação: a edificação do Reino é confiada à comunidade cristã, a Igreja. Essa, tanto pode construí-lo, quanto fazê-lo sucumbir. A construção depende da fidelidade e da capacidade de doação da vida, o que requer renúncias e perdas. Mais importante ainda é saber que o que é escândalo para Jesus não é a transgressão de regras morais, mas sim a omissão, a falta de convicção e de capacidade para doar a própria vida em prol do Reino de Deus. Em outras palavras, escândalo é a falta de amor!

Ao perceber o recuo de Pedro, Jesus sente a necessidade de reforçar a sua catequese aos discípulos e de falar com cada vez mais clareza. Ninguém tem obrigação de segui-lo, pois o seguimento é livre e opcional. No entanto, a quem opta pelo seguimento, são feitas exigências, ou seja, opções bastante radicais, e isso Jesus deixa muito claro: “Se alguém que me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (v. 24). Com essa afirmação, Ele chama a atenção dos discípulos para a seriedade do seguimento.

A primeira exigência não é um convite à negação de si nem à resignação, mas a todo e qualquer projeto pessoal e individualista de realização. Renunciar a si mesmo é assumir um projeto coletivo, cujo centro de interesse será sempre o bem do próximo. É ter consciência dos desafios inerentes ao seguimento de Jesus e, mesmo assim, abraçá-los. É o que estava faltando a Pedro naquele momento, ao trocar os pensamentos de Deus pelas coisas dos homens.

O convite a carregar a cruz é a certeza de que o projeto de Jesus é incompatível com o sistema vigente. É importante ressaltar que não é Jesus quem oferece a cruz. A cruz é consequência do seu seguimento fiel. Jesus convida o discípulo a assumir corajosamente uma atitude de repulsa ao domínio religioso e imperial vigentes. A cruz é, portanto, sinal e prova de que tal atitude foi assumida com seriedade. Tudo isso, claro, considerando que a cruz não era um adorno sacro, como foi adotado posteriormente, mas um sinal de morte, de rebeldia, inconformismo e humilhação, já que era a pena reservada ao que havia de pior na sociedade, ou seja, aos rebeldes que ameaçavam a ordem vigente e, por isso, “mereciam” uma pena humilhante e exemplar.

É lamentável que, de sinal de rebeldia, o cristianismo tenha transformado a cruz em sinal de resignação. Hoje, quando se fala em carregar a cruz, geralmente, se faz referência à aceitação passiva dos problemas e sofrimentos causados pelo sistema. Uma pena, pois esse tipo de cristianismo nada tem a ver com os propósitos de Jesus. A exigência de carregar a cruz foi e sempre será um convite à desobediência, à subversão e não aceitação das injustiças oficialmente cometidas pelas classes detentoras de poder. Sem essas disposições, se vive uma religião de fachada, se faz teatro, mas não há seguimento de Jesus.

O autêntico seguimento de Jesus é desafiador porque exige uma lógica completamente nova no modo de conceber a vida. Por isso, seus discípulos ainda não tinham compreendido. Ora, eles estavam seguindo-o como Messias, mas segundo o messianismo tradicional, ou seja, esperavam que Jesus fosse o messias glorioso, potente e guerreiro que, eliminando o poder romano, imporia o seu poder, restaurando o reino davídico-salomônico para impor-se sobre outros povos. Jesus, pelo contrário, proponha o Reino do seu Pai, um reino sem dominador nem dominados, mas um reino de servidores, iguais em dignidade e amor. Abraçar esse projeto ousado de Jesus é ver o mundo com outros olhos, é deixar de pensar somente em si para pensar no bem comum.

O jogo de palavras perda/ganho empregado por Jesus significa a passagem de uma mentalidade individualista para uma concepção comunitária de sociedade e de mundo (vv. 25-26). Mais que salvar sua vida, o cristão autêntico pensa no advento do Reino. Somente no Reino de Deus a vida pode ser vivida em sua plenitude e dignidade e, portanto, tentar vivê-la fora desse projeto é perdê-la, simplesmente. Vale lembrar que o Reino de Deus não é uma vida no além, mas a vida presente, uma vez que é no hoje, no dia-a-dia que o Reino de Deus deve ser edificado.

Somos desafiados por esse trecho do Evangelho a refletir e redefinir nossa maneira de viver e seguir a Jesus, cada vez mais conscientes dos desafios e dificuldades, renovando a coragem de abraçar a cruz, não como mero simbolismo, mas como disposição para a luta por um mundo novo, mesmo que isso nos renda, como rendeu a Jesus, o título de loucos, subversivos, bandidos e marginais. Os sinais do Reino só se tornam visíveis quando os cristãos tem coragem de viver na contramão do sistema!

   
 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 16,13-20 (ANO A)




Neste vigésimo primeiro domingo do tempo comum, a liturgia nos oferece Mateus 16,13-20 para o Evangelho, texto que contém a famosa confissão de fé de Pedro na região de Cesaréia de Filipe. Esse mesmo texto já fora usado há quase dois meses atrás, por ocasião da solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Se trata de um relato comum aos três Evangelhos Sinóticos (cf. Mt 16,13-19; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), embora a versão mateana apresente certos elementos próprios, o que lhe rendeu uma supervalorização na reflexão teológica ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo católico.

Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. É importante que esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (cf. 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (cf. 16,21-23; 17,22). Na verdade, podemos dizer que tais acontecimentos são consequência do episódio narrado no Evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza.

Recordamos o que sucede o nosso texto no conjunto do Evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: uma controvérsia com os fariseus, os quais pediam sinais a Jesus (cf. 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo “fermento dos fariseus e saduceus” (cf. 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam.

Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade. É claro que esse cuidado continua válido ainda para os dias atuais, uma vez que são cada mais perigosos os fermentos farisaicos de hoje: retorno ao ritualismo, indiferença às necessidades do próximo, fundamentalismo, espiritualismos vazios e tantos outros. Isso se dá por falta de clareza da identidade de Jesus e carência de experiência verdadeira com Ele.

Agora podemos, portanto, direcionar nosso olhar para o texto que liturgia nos oferece: “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?’” (v. 13). O texto começa com um indicativo geográfico de grande importância: Cesaréia de Filipe, cidade que estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica, era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização.

Longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos de qualquer influência da tradição religiosa judaica, ou seja, livres do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus seria um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos céus e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova e continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial.

Podemos dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas religiosos do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano. Em outras palavras, é optar por uma sociedade alternativa, como é o Reino de Deus. E, para que a confissão de fé seja autêntica é necessário ter clareza da identidade daquele em quem se crê, Jesus. Ora, Jesus estava prestes a iniciar sua viagem definitiva para Jerusalém, onde sofreria a paixão e morte, isso exigiria cada vez mais clareza de si na mentalidade dos discípulos.

A pergunta de Jesus sobre o que dizem a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Até então, Jesus já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que Ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que Ele realizava. Ele percebia isso, por isso fez essa pergunta: “Que dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v. 13b).

A resposta dos discípulos à pergunta de Jesus revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual Jesus já gozava entre o povo, certamente o povo simples, com quem Ele interagia e por quem mais lutava. Eis a resposta: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). Sem dúvidas, Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. De fato, os personagens citados foram grandes profetas, homens que acenderam a esperança de libertação, anunciando, denunciando e testemunhando. Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Foi esse risco que Mateus quis combater ao recordar esse episódio da vida de Jesus.

A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, Jesus queria saber mesmo era o que seus discípulos pensavam de si. Por isso, lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que “Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Não resta dúvida que também os demais discípulos, componentes do grupo dos doze, também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade.

A resposta é complexa e profunda: Jesus é Messias e Filho do Deus vivo. É muito significativo que Ele seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: o Filho do Deus vivo (em grego o` ui`o.j tou/ qeou/ tou/ zw/ntoj – hó hiós tú Theú tú zontos). Além de definir a qualidade e especificidade do messianismo de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade.

Com a resposta de Pedro, a comunidade cristã é chamada a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo (termo mais fiel ao texto grego que Messias), é o Filho do Deus vivo, ou seja, seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus oferecido pelo templo de Jerusalém eram privados de vida e agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído. A convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas, religiosos e políticos, que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.

Jesus se alegra com a resposta de Pedro e o proclama bem-aventurado: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17).  Não se trata de um elogio por um mérito particular de Pedro, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz é uma constatação: as coisas parecem começar a funcionar na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (cf. 10,21), e Pedro está falando a partir do que o Pai lhe sugere, ele está demonstrando adesão plena ao projeto do Reino! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição de pertencer ao mundo dos pequeninos. Parece que os discípulos começam, realmente, a pôr os pés no chão!

Na continuidade, Jesus declara: “Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). com essa afirmação, Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas. Pedro é uma destas pedras escolhidas por Jesus. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável a fé que Pedro tinha acabado de professar.

Não podemos esquecer que muitas controvérsias já foram geradas a partir desse versículo. Por isso, é importante perceber e esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas, mas diferentes, para designar Pedro e pedra: Pe,troj Petros e pe,tra| - petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las: Petros, transformado no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível usada em construções; petra designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção sólida. Enquanto apóstolo e membro da comunidade, Pedro, juntamente com os demais, é apenas um elemento da ampla edificação proposta por Jesus, e não o fundamento dessa. A rocha ou superfície rochosa é a fé sólida e convicta em Jesus, professada por Pedro em nome de todo o grupo. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Vale lembrar que essa é a primeira ocorrência da palavra Igreja no Evangelho (em grego evkklhsi,a – eclesía), cujo significado é assembleia convocada.

Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que haviam na região de Cesaréia de Filipe, construídos com pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, Ele declara: “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (v. 18b). Aqui Ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a realização plena do Reino aqui na terra. São as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso.

No penúltimo versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será desligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (v. 19). Não se trata de uma delegação de superpoderes à Igreja como muitos propagam. Mais que conferindo poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer já aqui na terra. A comunidade recebe “as chaves do Reino dos céus” porque é nela que se faz a experiência da fé e da comunhão profunda com Deus através da prática das bem-aventuranças (cf. 5,1-12), e é isso que torna alguém apto para entrar Reino dos céus. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças tem a chave de acesso ao Reino. “Ligar e desligar” é, portanto, responsabilidade e não poder: se a comunidade cristã viver profundamente o que Jesus ensinou, não haverá diferença entre o céu e a terra!

Infelizmente, ao longo história, muitos abusos já foram praticados devido as más interpretações aplicadas a esse texto. Jesus não instituiu nenhum poder monárquico. Com essas imagens tão fortes (chaves – ligar – desligar) Jesus convida a sua Igreja, comunidade do Reino, a viver sempre em perfeita sintonia com Ele mesmo e com o Pai, de modo que, aquilo que a comunidade experimentar será referendado pelos céus! Ele dá as chaves para a sua comunidade abrir para todos o Reino que os escribas e fariseus tinham trancado (cf. 23,13), devido a hipocrisia em que viviam.

O último versículo apresenta uma proibição de Jesus aos discípulos: “Jesus, então, ordenou aos discípulos que eles não dissessem a ninguém que Ele era o Messias” (v. 20). A princípio, parece uma contradição, uma vez que a comunidade tem a missão de anunciar Jesus e sua boa nova. Ora, Jesus conhecia muito bem os seus discípulos e suas fragilidades. Essa confissão de Pedro já foi um grande passo, mas sabia ainda continuavam vulneráveis e aquela fé não se manteria tão sólida com o passar do tempo, como o próprio Evangelho vai mostrar na sua sequência. Espalhar que Jesus era o Messias seria muito arriscado para a continuidade do seu projeto, pois a ideia de Messias que circulava na época era completamente diferente do tipo de messianismo que estava revelando. Certamente, muitos mal entendidos surgiriam.

Essa ordem para que os discípulos não contassem a ninguém que Ele era o Messias reforça na comunidade a necessidade que cada um tem de fazer uma experiência autêntica com Ele, seguindo cada passo da sua vida para, de fato, perceber a especificidade do seu messianismo e da sua vida: servir e amar, até dar a própria vida.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues



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REFLEXÃO PARA A ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (LUCAS 1,39-56)




Neste domingo em que celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia nos oferece um dos textos mais lidos de todo o Novo Testamento, sobretudo nas tradições católicas: Lucas 1,39-56. Concentraremos nossa reflexão unicamente no Evangelho, embora seja oportuno fazer uma leitura de conjunto com os outros textos que a liturgia oferece para esse dia, bem como uma contextualização histórica do dogma proclamado pelo papa Pio XII em 1950. Porém, mais uma vez reiteramos que nos concentraremos apenas no texto evangélico de Lucas.

O texto apresenta a visitação de Maria à sua parenta Isabel, contemplando o famoso cântico ‘Magnificat’ como ápice e conclusão do encontro das duas mulheres, ambas contempladas de modo especial pelo olhar misericordioso de Deus, o qual olha para a “humildade de seus servos e servas” (v. 48). É importante lembrar que o contexto geral do episódio do encontro entre as duas mulheres é o da dupla anunciação: do nascimento de Jesus a Maria (cf. 1,26-38), e de João a Zacarias (cf. Lc 1,5-25), dentro do chamado ‘Evangelho da Infância’, episódio exclusivo da narrativa de Lucas.

Após a retirada do anjo de perto dela (cf. Lc 1,38), tendo ficado muito alegre e ao mesmo tempo embaraçada com o anúncio (cf. Lc 1,29), Maria tomou a firme decisão de ir visitar sua parenta, certamente com o propósito de conferir a veracidade do anúncio feito pelo anjo: “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice, e este é o sexto mês para aquela que a chamavam de estéril” (cf. Lc 1,36). Realmente, a gravidez de uma mulher estéril e anciã seria tão surpreendente quanto a de uma jovem apenas prometida em casamento. As duas tinham muito o que conversar entre si sobre os últimos acontecimentos da vida de cada uma. Por isso, Maria não pensou duas vezes e partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia” (v. 39). Muito tem se discutido a respeito da finalidade dessa partida tão apressada. As interpretações mais populares e devocionais atribuem essa partida apenas à vontade de Maria de servir, de ajudar à sua parenta. Porém, em momento algum o texto afirma isso, nem mesmo dá indícios.

O anjo afirmou a Maria que Isabel, sua parenta, já estava no sexto mês de gravidez, e logo que o anjo a deixou, imediatamente, Maria partiu com pressa para a casa de Isabel. Ora, diz o texto que Maria permaneceu três meses na casa da parenta e retornou para casa. Logo, Maria esperou até o nono mês da gravidez de Isabel exatamente para comprovar a informação dada pelo anjo. Tendo retornado após três meses, fica claro que seu propósito não era propriamente o serviço, uma vez que é exatamente após o parto que a mulher mais necessita de cuidados e ajuda. E, Maria voltou para casa antes do parto. Se o objetivo da viagem fosse apenas o serviço à parenta, ela teria permanecido com a mesma após o parto.

Portanto, podemos concluir, sem dificuldade, que Maria pôs-se a caminho para a casa de Isabel com o intuito de comprovar a veracidade do anúncio da parte do anjo e esse sendo verdadeiro, compartilhar a alegria de testemunhar o Todo-Poderoso fazendo grandes coisas em favor de pessoas tão humildes quanto ela e a parenta (v. 49). Como uma mulher atenta e perspicaz, sensível aos sinais dos tempos, ela fez bem em conferir esse fato. Isso apenas comprova que era uma mulher prudente, de fé sólida. Além disso, o texto revela, de modo antecipado, muitos aspectos da teologia tratada por Lucas ao longo de toda a sua obra (Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos). É típico de Lucas, o movimento. O constante partir de um lugar para outro é um traço característico do Evangelho de Lucas, principalmente da parte de Jesus com os discípulos. Essa partida imediata de Maria faz dela um modelo de discípula e, ao mesmo tempo, inaugura o primeiro movimento de Jesus: ainda no ventre, Ele já estava inquieto e pronto a romper qualquer situação de estabilidade e tranquilidade, mesmo tendo que enfrentar adversidades e perigos, como Maria enfrentou ao partir sozinha para uma região montanhosa e de difícil acesso.

O fato de Maria não ter ido à casa de Isabel apenas para servi-la não diminui o seu papel e o seu valor. Antes de tudo, merecem atenção e reverência a sua coragem e determinação de partir sozinha e apressada para uma região distante, percorrendo caminhos difíceis e perigosos. Para uma mulher, isso era praticamente inadmissível, e ela, com muita audácia o fez, rompendo muitas barreiras, antecipando o papel da Igreja, da qual ela é modelo: romper barreiras, colocar-se em estado constante de saída, independente do perigo a ser enfrentado, para anunciar sem medo a alegria do Evangelho.

Um dos fatos narrados pelo texto que atestam a coragem de Maria, além de empreender uma viagem perigosa sozinha, é a sua atitude ao chegar ao destino: “Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel” (v. 40). Muito mais que cumprimentar, o verbo saudar seria mais apropriado na tradução do texto, por ser mais compatível com a língua original e o contexto em questão. A expressão hebraica para a saudação é desejar a paz (Shalom). Ao enviar os discípulos em missão, Jesus ordenou que eles desejassem a paz em cada casa que entrassem (cf. Lc 10,5). Aqui, mais uma vez, Maria antecipa a atitude de cada discípulo e discípula: ser portador (a) da paz! Como mulher inovadora e corajosa, ela ignora a tradição patriarcal e saúda a mulher em lugar do homem (v. 40). Assim, ela provoca uma verdadeira revolução e inversão de valores nas relações sociais, como aprofundará no seu hino, o Magnificat. Na sociedade do seu tempo, o primeiro a receber a saudação era o dono da casa. Saudando primeiro a mulher, ela afirma que um tempo novo está surgindo, com novas relações e uma nova ordem. O conjunto da cena em si já é revolucionário: o encontro de duas mulheres dialogando, como protagonistas, e a passividade de um sacerdote mudo, incapaz de falar porque não estava apto para acreditar nem aceitar o novo rumo que a história estava tomando.

A saudação de Maria irradia paz no ambiente, a ponto de fazer até mesmo a criança, ainda no ventre, agitar-se (v. 41a). Isso porque Isabel fica “cheia do Espírito Santo” (v. 41b). Trata-se do mesmo Espírito prometido pelo anjo a Maria no momento do anúncio: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (cf. Lc 1,35a). Como força vital, o Espírito Santo é luz irradiante e interpelante, que pode ser sentido quando transmitido por pessoas cheias dele, como Maria. A atitude de Isabel não poderia ser outra, senão exclamar, gritando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (v. 42). É a palavra profética que nela se atualiza. Sabendo que Maria carregava dentro de si o Messias, isso fazia dela a mais ‘bendita’ entre todas as mulheres. Assim, Isabel torna-se a primeira a proclamar ‘bem-aventuranças’ no Evangelho segundo Lucas. Ora, gerar filhos na mentalidade bíblica, era sinal de bem-aventurança e bênção; uma confirmação de que se tinha mesmo Deus a seu favor. Logo, gerar o Messias seria prova de uma dignidade inigualável.

Tendo composto seu Evangelho com muita atenção para a escritura hebraica, o Antigo Testamento, Lucas procura atualizá-lo no ‘evento Cristo’. Assim, na continuação da exclamação de Isabel, o evangelista desenha Maria como a nova ‘Arca da Aliança’. Como sabemos, na arca da aliança eram guardadas as tábuas da lei, sinal máximo da presença de Deus no meio do seu povo. Com a exclamação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? ” (v. 43), Lucas relembra e atualiza as palavras de Davi quando estava para receber a Arca em sua casa: “Como virá a Arca de Iahweh para minha casa?” (2 Sm 6,9). Portanto, Lucas percebe em Maria a arca da nova aliança, não mais baseada na lei, e sim no amor e na acolhida. Davi exclamou com medo (cf. 2 Sm 6,10), enquanto Isabel exclamou de alegria.

E, mais uma vez, Maria é reconhecida como bem-aventurada: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45). Além de exaltar as qualidades de Maria, as palavras de Isabel são também uma repreensão ao seu esposo Zacarias, o qual, ao contrário de Maria, não acreditou no anúncio do anjo (cf. Lc 1,20), por isso ficou mudo até que o menino nascesse. Isabel combate a incredulidade do marido, por sinal um sacerdote, e reforça a sua fé renovada pela presença de Maria, como ela confessou: “Será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45b). Ao repreender a incredulidade do esposo sacerdote, Isabel proclama a decadência antiga religião oficial, demonstrando que somente os pobres, simples e humildes são capazes acolher as intuições do Espírito Santo, como Maria. Assim, a religião do rigor e da lei está completamente falida.

Provavelmente tímida com tantos elogios da parte da sua parenta, Maria a interrompe e, exultando de alegria, expressa seu louvor a Deus com o hino conhecido como Magnificat (vv. 46-54). É o primeiro dos hinos que Lucas apresenta em seu Evangelho. Trata-se de uma composição que sintetiza todo o Antigo Testamento. Lucas faz uma construção nova com pedras antigas, pois o texto é um verdadeiro mosaico de citações do Antigo Testamento. A estrutura geral é tomada do cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10), o que se explica pela analogia das duas situações. Se Isabel estava maravilhada por contemplar grandes coisas (vv. 42-45), Maria lhe ajuda a compreender melhor tal situação, convidando-lhe a olhar para a história e perceber que, na verdade, esse Deus de Israel nunca esqueceu o seu povo, sempre fez grandes coisas em seu favor e, portanto, é a Ele que o louvor deve ser dirigido. Tudo o que está acontecendo é dom de Deus.

Maria personifica todo o Israel e resume os grandes feitos de Deus na história, destacando, sobretudo, a sua predileção pelos pobres, humildes e humilhados. Quando reconhece que “o Todo-Poderoso fez e faz grandes coisas” (v. 49), ao mesmo tempo se afirma que não há outros poderosos, exatamente porque devem ser derrubados de seus falsos tronos (v. 52). É o início do cumprimento das antigas promessas, agora sob a responsabilidade de Jesus e a comunidade dos discípulos, da qual Maria é modelo. A versão das bem-aventuranças e maldições é também aqui antecipada: “Encheu de bens os famintos” (v. 53a) antecipa as bem-aventuranças dirigidas aos pobres (cf. Lc 6,20-21); “Despediu os ricos de mãos vazias” (v. 53b) antecipa as repreensões dirigidas aos ricos (cf. Lc 6,24-25). É, sem dúvidas, a síntese da oração de Israel que deverá ser continuada pela comunidade dos discípulos, a Igreja cristã.

A conclusão do texto reafirma a imagem de Maria como nova arca da nova aliança: “Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa” (v. 56). Uma expressão muito parecida aparece em 2Sm 6,11: A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom e a toda a sua família”. A presença de Maria na casa de Isabel foi, com certeza, a confirmação da bênção de Deus sobre ela, seu esposo Zacarias e o filho esperado, João Batista. Na arca da nova aliança não há tábuas da lei, não há norma nem preceito, há apenas Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com a humanidade.



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 14,22-33 (ANO A)



Neste décimo nono domingo do tempo comum, a liturgia nos propõe o texto evangélico de Mateus 14,22-33. É um texto bastante conhecido e importante para a vida da comunidade cristã em todos os tempos. Esse texto relata Jesus andando sobre as águas em direção aos discípulos em perigo no alto mar. De modo antecipado, já podemos concluir que, mais que o relato de um fato, esse texto pretende ser uma imagem da comunidade cristã, a qual deve colocar-se sempre em situações arriscadas para que o Evangelho seja anunciado e, assim, o Reino dos céus seja edificado ainda aqui na terra.

O contexto do nosso texto é de crise na comunidade dos discípulos e no próprio Jesus. O capítulo quatorze de Mateus começa relatando a morte de João, o Batista, decapitado a mando do rei Herodes (cf. Mt 14,1-12). Embora fossem muito diferentes em mentalidade, sobretudo a respeito do Reino e seus sinais, Jesus e João eram muito próximos afetivamente. Certamente, a morte trágica do Batista abalou profundamente a Jesus e seus seguidores, tanto pelo afeto que os unia, quanto pela certeza de que Ele tinha tudo para ser a próxima vítima da fúria imperial.

Diante disso, Jesus sentiu a necessidade de um momento sozinho para rezar, meditar e, talvez, até chorar; por isso, “foi a um lugar deserto para estar a sós” (cf. Mt 14,13). Porém, não conseguiu logo esse desejado momento de solidão porque as multidões o seguiam e até chegavam antes dele ao destino, pela ânsia que tinham de libertação e já tinham percebido que Jesus, de fato, era sinal de libertação e esperança. O drama é total: comovido pela morte do seu mentor, o Batista, sabendo que em breve também Ele seria condenado e morto, encontra-se no deserto diante de uma grande multidão faminta que foi ali somente para vê-lo e ouvi-lo. Seu sentimento não poderia ser outro: “teve compaixão” (cf. Mt 14,13). A compaixão em Jesus não era um mero sentimento, era motivação para uma ação concreta que restabelecesse a dignidade e a vida em plenitude; essa vida em plenitude pressupõe a saúde do corpo e da alma.

Disso, surgiu um pequeno desentendimento entre Jesus e os discípulos: as multidões sentiram fome, os discípulos, por comodismo, sugeriram que Jesus as despedissem; Jesus, pelo contrário, diz que são os discípulos que devem providenciar o alimento: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (cf. Mt 14,16); os discípulos reclamam que o que eles têm é muito pouco, apenas cinco pães e dois peixes; Jesus mostra que é exatamente daquilo que é pouco e pequeno que a mudança pode acontecer (cf. Mt 14,21). Quando o pouco é colocado em comum, surge a abundância. Por isso, o milagre aconteceu. Certamente, o clima entre Ele e os discípulos ficou pesado e o momento de solidão se tornou cada vez mais necessário. É esse o contexto do Evangelho de hoje: crise pessoal em Jesus, crise na sua relação com os discípulos e, sobretudo, crise nos discípulos.

Terminada a contextualização, olhamos para o nosso texto: “Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões” (v. 22). Nossa primeira observação é a respeito da tradução do texto litúrgico: ao invés de “Jesus mandou”, é mais correto e mais fiel ao texto original “Jesus obrigou” (verbo grego avnagkazw – anankazô). Jesus não está dando uma sugestão, mas impondo uma condição para a comunidade: ir “para o outro lado do mar”, ou seja, para a outra margem (em grego: pe,ran – péran = outra margem). Ora, ir para a outra margem significa abandonar o comodismo e expor-se ao perigo, aos riscos. A outra margem do mar da Galileia era o território dos pagãos, e essa ordem de Jesus significa a universalidade do seu Evangelho. A barca é a imagem da comunidade cristã, ou seja, da Igreja, a qual só tem razão de existir se estiver em estado de travessia, enfrentando perigos, mas levando a mensagem de Jesus a todos os lugares, sem distinção. A uma situação de crise na comunidade, Jesus responde com novos desafios, não suavizando nem enganando. Ser Igreja é estar sempre em saída!

Jesus não renunciou ao seu momento de oração pessoal, por isso, tendo despedido as multidões e os discípulos, “subiu ao monte para orar a sós” (v. 23). A oração é um tema bem menos frequente em Mateus, comparando-o a Lucas, mas indispensável. O monte é, na tradição bíblica, o lugar do encontro com Deus, da intimidade com o Criador. Nesses dois primeiros versículos do Evangelho de hoje, Jesus apresenta duas posturas indispensáveis para a comunidade cristã: o cultivo da vida de oração e o colocar-se em estado de saída. Subir ao monte sem descer depois para enfrentar os mares da vida é inútil, bem como é inevitável o naufrágio quando se arrisca no mar sem ter feito antes a experiência do monte.

Quando a barca já estava longe da terra, ou seja, em alto mar, ela “era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (v. 24). É essa a situação da Igreja em saída em todos os momentos da história. O termo vento (em grego: a;nemoj – ánemos), merece uma consideração especial: ele aparece três vezes no texto de hoje (vv. 24. 30. 32), e representa os três principais obstáculos que atrapalhavam a comunidade cristã no anúncio do Reino: 1) a oposição da sinagoga (judaísmo oficial), 2) as forças do império romano, 3) o medo dos discípulos. Três obstáculos a serem enfrentados para o Evangelho alcançar a outra margem, ou seja, chegar no mundo inteiro. Desses, o principal era o medo dos discípulos, ou seja, a resistência e a tentação do comodismo ou mesmo da desistência. Isso quer dizer que a comunidade é desafiada constantemente por forças externas e internas, sendo as internas as mais perigosas.

Quando a comunidade está prestes a sucumbir, eis que Jesus se manifesta e vai ao seu encontro “andando sobre o mar” (v. 25). O mar, na mentalidade bíblica, evoca perigo, morte, domínio do mal, é sinônimo de caótico, algo que o ser humano não tem força para controlar. Porém, conforme essa mesma mentalidade, Deus tem o controle de tudo e pode, de fato, controlar até o mar, como fizera outrora, ao libertar o seu povo da escravidão do Egito (cf. Ex 14,24ss; Sl 77,16-20). Essa cena é um recado para a comunidade de Mateus, sufocada pelos três ventos mencionados anteriormente, e para a Igreja em todos os tempos: em Jesus, o Reino dos céus em pessoa, é possível superar o mal e todas as forças contrárias. Porém, só é possível vencer as hostilidades do mundo se enfrentá-las. Só vence o mar quem se arrisca nele.

Com a falta de confiança e convicção, a hostilidade só faz crescer na comunidade, como aconteceu com os discípulos: “Quando avistaram Jesus andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: ‘É um fantasma!’. E gritaram de medo” (v. 27). O medo (em grego: fo,boj – fóbos) tem sido o maior obstáculo da Igreja em todos os tempos. O medo constrói fantasmas e gera terror. Foi esse medo que fez a Igreja criar ‘inimigos’ para si ao longo da história. É o vento que mais impede a Igreja de alcançar a outra margem, ou seja, de chegar onde ninguém chega, onde estão os excluídos e marginalizados. Por isso, ao medo dos discípulos, Jesus responde com uma declaração e um imperativo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27). É preciso coragem e confiança no Deus que, simplesmente, é! De fato, com a afirmação “Sou eu” (em grego evgw, eivmi – egô eimí), Jesus recorda e atualiza ação do Deus libertador do Êxodo (cf. Ex 3,14), o qual também fez o seu povo passar para a outra margem do mar, conquistando a libertação da escravidão. A libertação só pode ser alcançada quando o medo for superado.

Pedro assume o papel de porta-voz do grupo e se manifesta: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (v. 28). O protagonismo de Pedro aqui é completamente negativo. Sua proposta é a mesma do diabo no episódio das tentações (cf. Mt 4,1-11), e dos zombadores no calvário (cf. Mt 27,40). Assim, como o demônio e os zombadores, Pedro quer pôr Jesus à prova com a expressão típica das tentações: “se tu és...” (em grego: eiv su. ei=  – ei si ei); ao pedir um sinal, “manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”, ele se comporta como os escribas e fariseus, classificados por Jesus como geração perversa e malvada (cf. Mt 12,38ss). Mais tarde, no episódio de Cesaréia de Filipe, Jesus irá desmascarar Pedro chamando-o diretamente de satanás (cf. 16,23). Essa atitude de Pedro é mais um alerta de Mateus à sua comunidade: o medo por um lado, e o desejo de poder e triunfalismo do outro, são os maiores perigos que a Igreja enfrenta.

A resposta de Jesus ao pedido absurdo e tentador de Pedro é muito clara: “Vem!” (v. 29). É uma resposta-convite para o próprio Pedro perceber a sua falta de fé e convicção. Jesus não chamou Pedro para dar uma prova do seu poder, mas para mostrar o quanto aquele discípulo estava equivocado. Caminhar sobre as águas era, para Pedro, prova de poder sobre o mal e vitória sobre os obstáculos, uma ideia de triunfalismo, pois ele queria vencer sem lutar, como se a palavra de Jesus fosse mágica. Ao convidar Pedro a andar sobre a água, Jesus queria que ele se conscientizasse de sua vulnerabilidade, como, de fato, aconteceu: “Quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me’!” (v. 30). Pedro ainda estava incapacitado para enfrentar os ventos contrários. Eis o paradoxo no qual ele se encontra: de chamado a ser pescador de homens (cf. Mt 4,18-19), a homem pescado por Jesus!

Os momentos de Jesus a sós com os discípulos são sempre ocasião para catequese e aprofundamento. E essa oportunidade não poderia passar desperdiçada. Por isso, ao ver Pedro afundar em sua falta de fé, “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, porque duvidaste?” (v. 31). A repreensão de Jesus a Pedro, como homem de “pouca fé” ou “fraco na fé” (em grego: ovligo,pistoj – oligopistos), não foi porque ele começou a afundar enquanto caminhava, pois era impossível não afundar, mas pela mesquinhez de necessitar de um sinal para crer.  A dúvida de Pedro não o fez afundar, o fez tentar Jesus como satanás. Jesus repreende a Igreja e seus membros quando não se esforçam para contornar situações adversas, ou seja, quando se recusam a ir em direção à outra margem por medo e comodismo. Quando a comunidade valoriza mais os sinais extraordinários e milagres do que a luta pela justiça, a inclusão, e a superação das desigualdades, ela está, como Pedro, revelando seu lado satânico.

Ao subirem no barco, Jesus e Pedro, diz o texto que “O vento se acalmou” (v. 32). É a confiança que foi recuperada, a certeza de que, com Jesus, seguindo a sua palavra, a comunidade pode superar os obstáculos, vencer as barreiras e conseguir chegar à outra margem. “Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”  (v. 33). É uma atitude importante que mostra a necessidade de uma conversão contínua na vida da comunidade cristã, marcada pela renovação das convicções.

As situações de perigo e provação devem levar à Igreja à autocrítica e, assim, perceber qual é o seu verdadeiro papel no mundo e qual o rumo que Jesus quer que ela tome. Com essa confissão comunitária, a qual será retomada por Pedro no episódio de Cesaréia de Filipe (cf. 16,16), Mateus está mostrando um progresso na fé da sua comunidade: em um episódio anterior, quando também Jesus e os discípulos estavam num barco e foram ameaçados pela tempestade, Jesus agiu, salvou-os do perigo, e os discípulos, admirados, perguntaram: “Quem é este a quem até os ventos e o mar obedecem? (cf. 8,27). A resposta foi dada seis capítulos depois: é o Filho de Deus!

 O Evangelho interpela a Igreja a tomar atitudes que podem colocá-la em perigo, mas essa é a razão da sua existência. É preciso alcançar outras margens, as periferias existenciais, os lugares onde só é possível chegar se perder o medo. Para isso, é necessário ter muita convicção da presença de Jesus em seu meio, mesmo que seja difícil reconhece-lo, muitas vezes; e, na certeza dessa presença, enfrentar os mares com seus ventos, buscando uma fé madura para não se contentar com sinais ou espetáculos, mas buscar sempre a construção do Reino de Deus, que também é nosso!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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