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REFLEXÃO PARA A ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (LUCAS 1,39-56)




Neste domingo em que celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia nos oferece um dos textos mais lidos de todo o Novo Testamento, sobretudo nas tradições católicas: Lucas 1,39-56. Concentraremos nossa reflexão unicamente no Evangelho, embora seja oportuno fazer uma leitura de conjunto com os outros textos que a liturgia oferece para esse dia, bem como uma contextualização histórica do dogma proclamado pelo papa Pio XII em 1950. Porém, mais uma vez reiteramos que nos concentraremos apenas no texto evangélico de Lucas.

O texto apresenta a visitação de Maria à sua parenta Isabel, contemplando o famoso cântico ‘Magnificat’ como ápice e conclusão do encontro das duas mulheres, ambas contempladas de modo especial pelo olhar misericordioso de Deus, o qual olha para a “humildade de seus servos e servas” (v. 48). É importante lembrar que o contexto geral do episódio do encontro entre as duas mulheres é o da dupla anunciação: do nascimento de Jesus a Maria (cf. 1,26-38), e de João a Zacarias (cf. Lc 1,5-25), dentro do chamado ‘Evangelho da Infância’, episódio exclusivo da narrativa de Lucas.

Após a retirada do anjo de perto dela (cf. Lc 1,38), tendo ficado muito alegre e ao mesmo tempo embaraçada com o anúncio (cf. Lc 1,29), Maria tomou a firme decisão de ir visitar sua parenta, certamente com o propósito de conferir a veracidade do anúncio feito pelo anjo: “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice, e este é o sexto mês para aquela que a chamavam de estéril” (cf. Lc 1,36). Realmente, a gravidez de uma mulher estéril e anciã seria tão surpreendente quanto a de uma jovem apenas prometida em casamento. As duas tinham muito o que conversar entre si sobre os últimos acontecimentos da vida de cada uma. Por isso, Maria não pensou duas vezes e partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia” (v. 39). Muito tem se discutido a respeito da finalidade dessa partida tão apressada. As interpretações mais populares e devocionais atribuem essa partida apenas à vontade de Maria de servir, de ajudar à sua parenta. Porém, em momento algum o texto afirma isso, nem mesmo dá indícios.

O anjo afirmou a Maria que Isabel, sua parenta, já estava no sexto mês de gravidez, e logo que o anjo a deixou, imediatamente, Maria partiu com pressa para a casa de Isabel. Ora, diz o texto que Maria permaneceu três meses na casa da parenta e retornou para casa. Logo, Maria esperou até o nono mês da gravidez de Isabel exatamente para comprovar a informação dada pelo anjo. Tendo retornado após três meses, fica claro que seu propósito não era propriamente o serviço, uma vez que é exatamente após o parto que a mulher mais necessita de cuidados e ajuda. E, Maria voltou para casa antes do parto. Se o objetivo da viagem fosse apenas o serviço à parenta, ela teria permanecido com a mesma após o parto.

Portanto, podemos concluir, sem dificuldade, que Maria pôs-se a caminho para a casa de Isabel com o intuito de comprovar a veracidade do anúncio da parte do anjo e esse sendo verdadeiro, compartilhar a alegria de testemunhar o Todo-Poderoso fazendo grandes coisas em favor de pessoas tão humildes quanto ela e a parenta (v. 49). Como uma mulher atenta e perspicaz, sensível aos sinais dos tempos, ela fez bem em conferir esse fato. Isso apenas comprova que era uma mulher prudente, de fé sólida. Além disso, o texto revela, de modo antecipado, muitos aspectos da teologia tratada por Lucas ao longo de toda a sua obra (Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos). É típico de Lucas, o movimento. O constante partir de um lugar para outro é um traço característico do Evangelho de Lucas, principalmente da parte de Jesus com os discípulos. Essa partida imediata de Maria faz dela um modelo de discípula e, ao mesmo tempo, inaugura o primeiro movimento de Jesus: ainda no ventre, Ele já estava inquieto e pronto a romper qualquer situação de estabilidade e tranquilidade, mesmo tendo que enfrentar adversidades e perigos, como Maria enfrentou ao partir sozinha para uma região montanhosa e de difícil acesso.

O fato de Maria não ter ido à casa de Isabel apenas para servi-la não diminui o seu papel e o seu valor. Antes de tudo, merecem atenção e reverência a sua coragem e determinação de partir sozinha e apressada para uma região distante, percorrendo caminhos difíceis e perigosos. Para uma mulher, isso era praticamente inadmissível, e ela, com muita audácia o fez, rompendo muitas barreiras, antecipando o papel da Igreja, da qual ela é modelo: romper barreiras, colocar-se em estado constante de saída, independente do perigo a ser enfrentado, para anunciar sem medo a alegria do Evangelho.

Um dos fatos narrados pelo texto que atestam a coragem de Maria, além de empreender uma viagem perigosa sozinha, é a sua atitude ao chegar ao destino: “Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel” (v. 40). Muito mais que cumprimentar, o verbo saudar seria mais apropriado na tradução do texto, por ser mais compatível com a língua original e o contexto em questão. A expressão hebraica para a saudação é desejar a paz (Shalom). Ao enviar os discípulos em missão, Jesus ordenou que eles desejassem a paz em cada casa que entrassem (cf. Lc 10,5). Aqui, mais uma vez, Maria antecipa a atitude de cada discípulo e discípula: ser portador (a) da paz! Como mulher inovadora e corajosa, ela ignora a tradição patriarcal e saúda a mulher em lugar do homem (v. 40). Assim, ela provoca uma verdadeira revolução e inversão de valores nas relações sociais, como aprofundará no seu hino, o Magnificat. Na sociedade do seu tempo, o primeiro a receber a saudação era o dono da casa. Saudando primeiro a mulher, ela afirma que um tempo novo está surgindo, com novas relações e uma nova ordem. O conjunto da cena em si já é revolucionário: o encontro de duas mulheres dialogando, como protagonistas, e a passividade de um sacerdote mudo, incapaz de falar porque não estava apto para acreditar nem aceitar o novo rumo que a história estava tomando.

A saudação de Maria irradia paz no ambiente, a ponto de fazer até mesmo a criança, ainda no ventre, agitar-se (v. 41a). Isso porque Isabel fica “cheia do Espírito Santo” (v. 41b). Trata-se do mesmo Espírito prometido pelo anjo a Maria no momento do anúncio: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (cf. Lc 1,35a). Como força vital, o Espírito Santo é luz irradiante e interpelante, que pode ser sentido quando transmitido por pessoas cheias dele, como Maria. A atitude de Isabel não poderia ser outra, senão exclamar, gritando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (v. 42). É a palavra profética que nela se atualiza. Sabendo que Maria carregava dentro de si o Messias, isso fazia dela a mais ‘bendita’ entre todas as mulheres. Assim, Isabel torna-se a primeira a proclamar ‘bem-aventuranças’ no Evangelho segundo Lucas. Ora, gerar filhos na mentalidade bíblica, era sinal de bem-aventurança e bênção; uma confirmação de que se tinha mesmo Deus a seu favor. Logo, gerar o Messias seria prova de uma dignidade inigualável.

Tendo composto seu Evangelho com muita atenção para a escritura hebraica, o Antigo Testamento, Lucas procura atualizá-lo no ‘evento Cristo’. Assim, na continuação da exclamação de Isabel, o evangelista desenha Maria como a nova ‘Arca da Aliança’. Como sabemos, na arca da aliança eram guardadas as tábuas da lei, sinal máximo da presença de Deus no meio do seu povo. Com a exclamação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? ” (v. 43), Lucas relembra e atualiza as palavras de Davi quando estava para receber a Arca em sua casa: “Como virá a Arca de Iahweh para minha casa?” (2 Sm 6,9). Portanto, Lucas percebe em Maria a arca da nova aliança, não mais baseada na lei, e sim no amor e na acolhida. Davi exclamou com medo (cf. 2 Sm 6,10), enquanto Isabel exclamou de alegria.

E, mais uma vez, Maria é reconhecida como bem-aventurada: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45). Além de exaltar as qualidades de Maria, as palavras de Isabel são também uma repreensão ao seu esposo Zacarias, o qual, ao contrário de Maria, não acreditou no anúncio do anjo (cf. Lc 1,20), por isso ficou mudo até que o menino nascesse. Isabel combate a incredulidade do marido, por sinal um sacerdote, e reforça a sua fé renovada pela presença de Maria, como ela confessou: “Será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45b). Ao repreender a incredulidade do esposo sacerdote, Isabel proclama a decadência antiga religião oficial, demonstrando que somente os pobres, simples e humildes são capazes acolher as intuições do Espírito Santo, como Maria. Assim, a religião do rigor e da lei está completamente falida.

Provavelmente tímida com tantos elogios da parte da sua parenta, Maria a interrompe e, exultando de alegria, expressa seu louvor a Deus com o hino conhecido como Magnificat (vv. 46-54). É o primeiro dos hinos que Lucas apresenta em seu Evangelho. Trata-se de uma composição que sintetiza todo o Antigo Testamento. Lucas faz uma construção nova com pedras antigas, pois o texto é um verdadeiro mosaico de citações do Antigo Testamento. A estrutura geral é tomada do cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10), o que se explica pela analogia das duas situações. Se Isabel estava maravilhada por contemplar grandes coisas (vv. 42-45), Maria lhe ajuda a compreender melhor tal situação, convidando-lhe a olhar para a história e perceber que, na verdade, esse Deus de Israel nunca esqueceu o seu povo, sempre fez grandes coisas em seu favor e, portanto, é a Ele que o louvor deve ser dirigido. Tudo o que está acontecendo é dom de Deus.

Maria personifica todo o Israel e resume os grandes feitos de Deus na história, destacando, sobretudo, a sua predileção pelos pobres, humildes e humilhados. Quando reconhece que “o Todo-Poderoso fez e faz grandes coisas” (v. 49), ao mesmo tempo se afirma que não há outros poderosos, exatamente porque devem ser derrubados de seus falsos tronos (v. 52). É o início do cumprimento das antigas promessas, agora sob a responsabilidade de Jesus e a comunidade dos discípulos, da qual Maria é modelo. A versão das bem-aventuranças e maldições é também aqui antecipada: “Encheu de bens os famintos” (v. 53a) antecipa as bem-aventuranças dirigidas aos pobres (cf. Lc 6,20-21); “Despediu os ricos de mãos vazias” (v. 53b) antecipa as repreensões dirigidas aos ricos (cf. Lc 6,24-25). É, sem dúvidas, a síntese da oração de Israel que deverá ser continuada pela comunidade dos discípulos, a Igreja cristã.

A conclusão do texto reafirma a imagem de Maria como nova arca da nova aliança: “Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa” (v. 56). Uma expressão muito parecida aparece em 2Sm 6,11: A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom e a toda a sua família”. A presença de Maria na casa de Isabel foi, com certeza, a confirmação da bênção de Deus sobre ela, seu esposo Zacarias e o filho esperado, João Batista. Na arca da nova aliança não há tábuas da lei, não há norma nem preceito, há apenas Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com a humanidade.



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 14,22-33 (ANO A)



Neste décimo nono domingo do tempo comum, a liturgia nos propõe o texto evangélico de Mateus 14,22-33. É um texto bastante conhecido e importante para a vida da comunidade cristã em todos os tempos. Esse texto relata Jesus andando sobre as águas em direção aos discípulos em perigo no alto mar. De modo antecipado, já podemos concluir que, mais que o relato de um fato, esse texto pretende ser uma imagem da comunidade cristã, a qual deve colocar-se sempre em situações arriscadas para que o Evangelho seja anunciado e, assim, o Reino dos céus seja edificado ainda aqui na terra.

O contexto do nosso texto é de crise na comunidade dos discípulos e no próprio Jesus. O capítulo quatorze de Mateus começa relatando a morte de João, o Batista, decapitado a mando do rei Herodes (cf. Mt 14,1-12). Embora fossem muito diferentes em mentalidade, sobretudo a respeito do Reino e seus sinais, Jesus e João eram muito próximos afetivamente. Certamente, a morte trágica do Batista abalou profundamente a Jesus e seus seguidores, tanto pelo afeto que os unia, quanto pela certeza de que Ele tinha tudo para ser a próxima vítima da fúria imperial.

Diante disso, Jesus sentiu a necessidade de um momento sozinho para rezar, meditar e, talvez, até chorar; por isso, “foi a um lugar deserto para estar a sós” (cf. Mt 14,13). Porém, não conseguiu logo esse desejado momento de solidão porque as multidões o seguiam e até chegavam antes dele ao destino, pela ânsia que tinham de libertação e já tinham percebido que Jesus, de fato, era sinal de libertação e esperança. O drama é total: comovido pela morte do seu mentor, o Batista, sabendo que em breve também Ele seria condenado e morto, encontra-se no deserto diante de uma grande multidão faminta que foi ali somente para vê-lo e ouvi-lo. Seu sentimento não poderia ser outro: “teve compaixão” (cf. Mt 14,13). A compaixão em Jesus não era um mero sentimento, era motivação para uma ação concreta que restabelecesse a dignidade e a vida em plenitude; essa vida em plenitude pressupõe a saúde do corpo e da alma.

Disso, surgiu um pequeno desentendimento entre Jesus e os discípulos: as multidões sentiram fome, os discípulos, por comodismo, sugeriram que Jesus as despedissem; Jesus, pelo contrário, diz que são os discípulos que devem providenciar o alimento: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (cf. Mt 14,16); os discípulos reclamam que o que eles têm é muito pouco, apenas cinco pães e dois peixes; Jesus mostra que é exatamente daquilo que é pouco e pequeno que a mudança pode acontecer (cf. Mt 14,21). Quando o pouco é colocado em comum, surge a abundância. Por isso, o milagre aconteceu. Certamente, o clima entre Ele e os discípulos ficou pesado e o momento de solidão se tornou cada vez mais necessário. É esse o contexto do Evangelho de hoje: crise pessoal em Jesus, crise na sua relação com os discípulos e, sobretudo, crise nos discípulos.

Terminada a contextualização, olhamos para o nosso texto: “Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões” (v. 22). Nossa primeira observação é a respeito da tradução do texto litúrgico: ao invés de “Jesus mandou”, é mais correto e mais fiel ao texto original “Jesus obrigou” (verbo grego avnagkazw – anankazô). Jesus não está dando uma sugestão, mas impondo uma condição para a comunidade: ir “para o outro lado do mar”, ou seja, para a outra margem (em grego: pe,ran – péran = outra margem). Ora, ir para a outra margem significa abandonar o comodismo e expor-se ao perigo, aos riscos. A outra margem do mar da Galileia era o território dos pagãos, e essa ordem de Jesus significa a universalidade do seu Evangelho. A barca é a imagem da comunidade cristã, ou seja, da Igreja, a qual só tem razão de existir se estiver em estado de travessia, enfrentando perigos, mas levando a mensagem de Jesus a todos os lugares, sem distinção. A uma situação de crise na comunidade, Jesus responde com novos desafios, não suavizando nem enganando. Ser Igreja é estar sempre em saída!

Jesus não renunciou ao seu momento de oração pessoal, por isso, tendo despedido as multidões e os discípulos, “subiu ao monte para orar a sós” (v. 23). A oração é um tema bem menos frequente em Mateus, comparando-o a Lucas, mas indispensável. O monte é, na tradição bíblica, o lugar do encontro com Deus, da intimidade com o Criador. Nesses dois primeiros versículos do Evangelho de hoje, Jesus apresenta duas posturas indispensáveis para a comunidade cristã: o cultivo da vida de oração e o colocar-se em estado de saída. Subir ao monte sem descer depois para enfrentar os mares da vida é inútil, bem como é inevitável o naufrágio quando se arrisca no mar sem ter feito antes a experiência do monte.

Quando a barca já estava longe da terra, ou seja, em alto mar, ela “era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (v. 24). É essa a situação da Igreja em saída em todos os momentos da história. O termo vento (em grego: a;nemoj – ánemos), merece uma consideração especial: ele aparece três vezes no texto de hoje (vv. 24. 30. 32), e representa os três principais obstáculos que atrapalhavam a comunidade cristã no anúncio do Reino: 1) a oposição da sinagoga (judaísmo oficial), 2) as forças do império romano, 3) o medo dos discípulos. Três obstáculos a serem enfrentados para o Evangelho alcançar a outra margem, ou seja, chegar no mundo inteiro. Desses, o principal era o medo dos discípulos, ou seja, a resistência e a tentação do comodismo ou mesmo da desistência. Isso quer dizer que a comunidade é desafiada constantemente por forças externas e internas, sendo as internas as mais perigosas.

Quando a comunidade está prestes a sucumbir, eis que Jesus se manifesta e vai ao seu encontro “andando sobre o mar” (v. 25). O mar, na mentalidade bíblica, evoca perigo, morte, domínio do mal, é sinônimo de caótico, algo que o ser humano não tem força para controlar. Porém, conforme essa mesma mentalidade, Deus tem o controle de tudo e pode, de fato, controlar até o mar, como fizera outrora, ao libertar o seu povo da escravidão do Egito (cf. Ex 14,24ss; Sl 77,16-20). Essa cena é um recado para a comunidade de Mateus, sufocada pelos três ventos mencionados anteriormente, e para a Igreja em todos os tempos: em Jesus, o Reino dos céus em pessoa, é possível superar o mal e todas as forças contrárias. Porém, só é possível vencer as hostilidades do mundo se enfrentá-las. Só vence o mar quem se arrisca nele.

Com a falta de confiança e convicção, a hostilidade só faz crescer na comunidade, como aconteceu com os discípulos: “Quando avistaram Jesus andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: ‘É um fantasma!’. E gritaram de medo” (v. 27). O medo (em grego: fo,boj – fóbos) tem sido o maior obstáculo da Igreja em todos os tempos. O medo constrói fantasmas e gera terror. Foi esse medo que fez a Igreja criar ‘inimigos’ para si ao longo da história. É o vento que mais impede a Igreja de alcançar a outra margem, ou seja, de chegar onde ninguém chega, onde estão os excluídos e marginalizados. Por isso, ao medo dos discípulos, Jesus responde com uma declaração e um imperativo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27). É preciso coragem e confiança no Deus que, simplesmente, é! De fato, com a afirmação “Sou eu” (em grego evgw, eivmi – egô eimí), Jesus recorda e atualiza ação do Deus libertador do Êxodo (cf. Ex 3,14), o qual também fez o seu povo passar para a outra margem do mar, conquistando a libertação da escravidão. A libertação só pode ser alcançada quando o medo for superado.

Pedro assume o papel de porta-voz do grupo e se manifesta: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (v. 28). O protagonismo de Pedro aqui é completamente negativo. Sua proposta é a mesma do diabo no episódio das tentações (cf. Mt 4,1-11), e dos zombadores no calvário (cf. Mt 27,40). Assim, como o demônio e os zombadores, Pedro quer pôr Jesus à prova com a expressão típica das tentações: “se tu és...” (em grego: eiv su. ei=  – ei si ei); ao pedir um sinal, “manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”, ele se comporta como os escribas e fariseus, classificados por Jesus como geração perversa e malvada (cf. Mt 12,38ss). Mais tarde, no episódio de Cesaréia de Filipe, Jesus irá desmascarar Pedro chamando-o diretamente de satanás (cf. 16,23). Essa atitude de Pedro é mais um alerta de Mateus à sua comunidade: o medo por um lado, e o desejo de poder e triunfalismo do outro, são os maiores perigos que a Igreja enfrenta.

A resposta de Jesus ao pedido absurdo e tentador de Pedro é muito clara: “Vem!” (v. 29). É uma resposta-convite para o próprio Pedro perceber a sua falta de fé e convicção. Jesus não chamou Pedro para dar uma prova do seu poder, mas para mostrar o quanto aquele discípulo estava equivocado. Caminhar sobre as águas era, para Pedro, prova de poder sobre o mal e vitória sobre os obstáculos, uma ideia de triunfalismo, pois ele queria vencer sem lutar, como se a palavra de Jesus fosse mágica. Ao convidar Pedro a andar sobre a água, Jesus queria que ele se conscientizasse de sua vulnerabilidade, como, de fato, aconteceu: “Quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me’!” (v. 30). Pedro ainda estava incapacitado para enfrentar os ventos contrários. Eis o paradoxo no qual ele se encontra: de chamado a ser pescador de homens (cf. Mt 4,18-19), a homem pescado por Jesus!

Os momentos de Jesus a sós com os discípulos são sempre ocasião para catequese e aprofundamento. E essa oportunidade não poderia passar desperdiçada. Por isso, ao ver Pedro afundar em sua falta de fé, “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, porque duvidaste?” (v. 31). A repreensão de Jesus a Pedro, como homem de “pouca fé” ou “fraco na fé” (em grego: ovligo,pistoj – oligopistos), não foi porque ele começou a afundar enquanto caminhava, pois era impossível não afundar, mas pela mesquinhez de necessitar de um sinal para crer.  A dúvida de Pedro não o fez afundar, o fez tentar Jesus como satanás. Jesus repreende a Igreja e seus membros quando não se esforçam para contornar situações adversas, ou seja, quando se recusam a ir em direção à outra margem por medo e comodismo. Quando a comunidade valoriza mais os sinais extraordinários e milagres do que a luta pela justiça, a inclusão, e a superação das desigualdades, ela está, como Pedro, revelando seu lado satânico.

Ao subirem no barco, Jesus e Pedro, diz o texto que “O vento se acalmou” (v. 32). É a confiança que foi recuperada, a certeza de que, com Jesus, seguindo a sua palavra, a comunidade pode superar os obstáculos, vencer as barreiras e conseguir chegar à outra margem. “Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”  (v. 33). É uma atitude importante que mostra a necessidade de uma conversão contínua na vida da comunidade cristã, marcada pela renovação das convicções.

As situações de perigo e provação devem levar à Igreja à autocrítica e, assim, perceber qual é o seu verdadeiro papel no mundo e qual o rumo que Jesus quer que ela tome. Com essa confissão comunitária, a qual será retomada por Pedro no episódio de Cesaréia de Filipe (cf. 16,16), Mateus está mostrando um progresso na fé da sua comunidade: em um episódio anterior, quando também Jesus e os discípulos estavam num barco e foram ameaçados pela tempestade, Jesus agiu, salvou-os do perigo, e os discípulos, admirados, perguntaram: “Quem é este a quem até os ventos e o mar obedecem? (cf. 8,27). A resposta foi dada seis capítulos depois: é o Filho de Deus!

 O Evangelho interpela a Igreja a tomar atitudes que podem colocá-la em perigo, mas essa é a razão da sua existência. É preciso alcançar outras margens, as periferias existenciais, os lugares onde só é possível chegar se perder o medo. Para isso, é necessário ter muita convicção da presença de Jesus em seu meio, mesmo que seja difícil reconhece-lo, muitas vezes; e, na certeza dessa presença, enfrentar os mares com seus ventos, buscando uma fé madura para não se contentar com sinais ou espetáculos, mas buscar sempre a construção do Reino de Deus, que também é nosso!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA A FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR (MATEUS 17,1-9)



Neste domingo, seis de agosto, celebramos a Festa da Transfiguração do Senhor. O texto oferecido pela liturgia para essa festa, nesse ano, é Mateus 17,1-9, o relato da transfiguração propriamente dita, em sua versão mateana. A transfiguração é um episódio narrado pelos três evangelhos sinóticos (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36) e, portanto, de grande relevância para a vida das comunidades cristãs de todos os tempos.

Para uma boa compreensão do nosso texto é indispensável contextualizarmos o mesmo, embora brevemente. Trata-se do episódio que sucede imediatamente à profissão de fé de Pedro na região de Cesaréia de Felipe (cf. Mt 16,13ss) e, consequentemente, ao primeiro anúncio da Paixão (cf. Mt 16,21-28). Daí, podemos concluir que se trata de uma resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos em relação ao seu caminho de doação da vida por fidelidade aos propósitos do Pai.

Mais uma vez, a versão litúrgica do texto nos priva de uma expressão muito importante para uma compreensão mais adequada: o indicativo cronológico “Seis dias depois” (em grego meqV h`me,raj e]x – meth heméra ex), presente no texto original, substituído no texto litúrgico pela genérica e desnecessária expressão “Naquele tempo”.

Diz o texto que “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão” (v. 1a). Esse indicativo cronológico faz referência ao ocorrido em Cesaréia de Filipe, quando Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, levando Jesus a repreendê-lo duramente, chamando-o de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. Portanto, “Seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude. Assim como o homem e a mulher foram criados no sexto dia (cf. Gn 1,26-31), na transfiguração Jesus manifesta Jesus o ser humano recriado, ou seja, em sua máxima dignidade e realização.

Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. À primeira vista, parece tratar-se de um privilégio: Jesus escolhe os mais próximos e íntimos, hierarquizando o grupo dos Doze. Porém, se fizermos uma leitura mais atenta, concluímos exatamente o contrário: esses três são os discípulos que mais tem dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus, são os mais trabalhosos e, portanto, os mais necessitados de catequese. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento, a ponto de ser o único dos Doze a quem Jesus chamou diretamente de satanás, por colocar-se como pedra de tropeço em seu caminho (cf. Mt 16,23); Tiago e João, além de ambiciosos (cf. Mc 10,35-40), tinham temperamento bastante explosivo, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (cf. Mc 2,17). Portanto, são os discípulos que tinham mais dificuldade em aceitar a mensagem libertadora e desafiadora de um messias sofredor.

O indicativo espacial também é de grande importância: uma alta montanha. Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro com Deus. No alto da montanha, diz o texto que “Jesus foi transfigurado diante dos discípulos” (v. 2a). O verbo grego usado aqui é “metamorfo,omai metamorfóomai”, cujo significado é ser transformado ou mudado. Assim, o evangelista está dizendo que Jesus transformou-se, sua forma mudou diante dos discípulos. Ora, diante da incredulidade e resistência em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus n’Ele. “Seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a luz” (v. 2b): as mesmas imagens da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova.

Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: Moisés e Elias (v. 3). Obviamente, estes personagens representam a Lei e os profetas, respectivamente. É mais uma iniciativa divina para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento.

Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento. Em Jesus, a Lei e os profetas encerram-se, chegam ao fim. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada tem a dizer para a comunidade cristã; essa deve escutar somente a Jesus (v. 5).

Pedro, teimoso como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas desprezíveis: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 4). Duas coisas são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, interrompendo-lhe.

A segunda coisa a reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias” (v. 4b); infelizmente, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da sua vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro.

As palavras de Pedro são tão absurdas que o próprio Deus, o Pai, lhe interrompe: “Pedro ainda estava falando quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (v. 5). O Pai não espera Pedro concluir seu equivocado discurso e o interrompe, chamando a sua atenção. Mais uma vez a imagem da luz e da nuvem são evidenciadas como sinais da presença e manifestação de Deus, sendo que o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado. Escutai-o”; é praticamente a mesma frase proferida por Deus no momento do Batismo (cf. Mt 3,17), sendo que ali somente Jesus ouviu, enquanto aqui na transfiguração também os discípulos ouviram e ainda foram exortados a escutá-lo. O imperativo “escutai-o” (em grego avkou,ete auvtou/ - akúete autú), é dirigido a toda a comunidade, mas principalmente a Pedro, ainda propenso a escutar mais a Moisés que a Jesus.

Moisés e Elias, ou seja, a Lei e os profetas já disseram o que tinham a dizer. De agora em diante, só o Evangelho deve falar à comunidade cristã. Ouvir Jesus é compreender sua Palavra e viver as consequências de uma adesão radical a ela, o que Pedro tentava constantemente evitar, por medo da cruz. A situação tornou-se tão séria, a ponto de ser necessário o Pai intervir: sem escutar Jesus, não é possível prosseguir no seu seguimento.

Eis as consequências das palavras de Deus: “Os discípulos, assustados, caíram com o rosto por terra” (v. 6). Essa cena apresenta um pequeno retrato da comunidade cristã no seu dia-a-dia que, sentindo-se desafiada, cai constantemente. É um sinal de falência e um reconhecimento de que falharam ao longo do seguimento. A comunidade cai por terra quando não escuta seriamente o que Jesus diz. Porém, mesmo caída, a comunidade jamais será abandonada, porque Jesus está sempre próximo, tocando e estimulando: “Levantai-vos e não tenhais medo” (v. 7). Apesar das infidelidades e fracassos dos discípulos, Jesus não desiste, continua acreditando no ser humano e encorajando-o.

Após a belíssima experiência, a vida volta à sua normalidade: “ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (v. 8). Moisés e Elias foram embora, pois cumpriram as suas respectivas missões; a comunidade cristã já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus da nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também o Pai!

É o momento de descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro.

Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e também porque se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele apenas em busca de sinais e milagres. Da comunidade cristã, o que o Pai espera é que esteja atenta para ouvir somente o que Jesus diz é: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (cf. Jo 13,35).

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 13,44-52 (ANO A)


Com a liturgia deste décimo sétimo domingo do tempo comum, concluímos a leitura do terceiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, o chamado “Discurso em Parábolas”. Nesse discurso, o Reino dos céus é apresentado a partir de sete parábolas contadas por Jesus às margens do mar da Galileia, para um auditório composto pelos discípulos e a multidão. O texto específico que a liturgia oferece para esse domingo é Mateus 13,44-52, o qual contém as últimas três das sete parábolas, uma vez que as quatro primeiras já foram apresentadas na liturgia dos dois últimos domingos.

Tendo já apresentado as diversas características do Reino dos céus por meio das parábolas anteriores, nas de hoje, o objetivo parece ser motivar a comunidade a fazer opção pelo Reino, preferindo-o a qualquer outra realidade ou bem. Isso se evidencia nas duas primeiras, principalmente, a do tesouro e a da pérola (vv. 44-46), respectivamente. Iniciamos, assim, o nosso olhar para o texto, dispensando a contextualização, uma vez que essa já foi feita nos dois domingos anteriores e vale ainda para o texto de hoje.

O nosso texto inicia-se com a fórmula “O Reino dos céus é como”. Na verdade, seria mais fiel ao texto original o uso da expressão “O Reino dos céus é semelhante” (em grego ~Omoi,a evsti.n h` basilei,a tw/n ouvranw/n – Homoía estin hé basiléia ton uranón). Como já acenamos anteriormente, as duas primeiras parábolas de hoje são mais uma motivação para a acolhida do Reino do que uma mera descrição comparada desse. O encontro com o Reino e seus valores exige uma decisão e tomada de posição radicais e inadiáveis.

Eis a primeira parábola: “O Reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (v. 44). Um tesouro no contexto da época, era um vaso de argila cheio de moedas valiosas e joias que os proprietários enterravam em suas propriedades quando percebiam perigo de guerras, invasões ou saques. Quando um proprietário de terras tinha que fugir às pressas por causa de uma invasão, enterrava seu tesouro, imaginando um dia voltar. Dificilmente retomava a posse da terra; essa passava para outros proprietários que não sabiam do tesouro escondido. Geralmente, esses tesouros eram encontrados muito tempo depois de enterrados, por pessoas que não sabiam da sua existência; daí a ideia de surpresa subentendida no texto, seguida da mencionada alegria. Por sinal, uma palavra chave no Evangelho de hoje é, exatamente, alegria (em grago cara, – kará), como uma característica essencial de quem encontrou o Reino e a ele aderiu plenamente.  

A respeito do homem que encontra o tesouro, o texto não diz muita coisa. Não sabemos o que fazia antes, se estava no campo por acaso ou trabalhando. Provavelmente, era um camponês sem-terra, pois não era proprietário do campo. O que sabemos é que ele encontrou um motivo para mudar a sua vida. Encontrou algo pelo qual valia a pena abrir mão de tudo o que possuía para ficar somente com o bem precioso que tinha acabado de encontrar. A chamada de atenção de Jesus para os discípulos e a multidão, e de Mateus para a sua comunidade, visa deixar ainda mais claro que o Reino deve ser a primeira opção de quem o encontra.  O Reino desestabiliza a normalidade das coisas, é reviravolta, subversão, é o revés da ordem estabelecida, tanto a política quanto a religiosa.

O homem encontrou o tesouro por acaso, ou seja, sem fazer esforço algum. Essa é uma das possibilidades de encontro com o Reino, pois como já tinha dito o próprio Jesus, “o Reino dos céus está próximo” (cf. Mt 10,17), embora sejam feitas exigências para experimentá-lo: “convertei-vos” (cf. Mt 10,17). A decisão do homem da parábola foi o retorno às bem-aventuranças: “Bem-aventurados os que são pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” (cf. Mt 5,3). Não basta contemplar nem saber que o Reino dos céus chegou, é necessário fazer esforço para nele entrar; esse esforço consiste em deixar de lado tudo o que não é compatível com ele, como fez o homem da parábola.

A segunda parábola tem muita semelhança com a primeira. Também nela se evidencia a necessidade de uma tomada de decisão radical, e apresenta o Reino como algo precioso, pelo qual vale a pena fazer renúncias: “O Reino dos céus é como um comprador de pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (vv. 45-46). Também nessa, as informações sobre o homem envolvido são poucas. Tudo indica que se trata de um homem experiente e inquieto, capaz de distinguir o valioso do vulgar. Assim como o da parábola anterior, também esse homem encontra algo que lhe faz tomar uma decisão radical. É claro que Jesus não faz uma apologia ao comércio, nem compara o Reino a um negócio. O importante aqui é a decisão tomada ao encontrar algo que pode mudar o sentido da vida.

As duas parábolas mostram com muita clareza que o Reino não é conquistado por imposição, mas por decisões livres e conscientes. É importante o discernimento para perceber no que consiste realmente a vida em plenitude que só pode ser alcançada na comunidade do Reino. Não se trata de uma vida no além, mas da vida presente, carente de sentido porque os sistemas vigentes, religioso e político-econômico, lhe negaram. Esse Reino pode ser encontrado por busca e esforço, mas também por acaso, no cotidiano. O importante não é a forma como foi encontrado, mas a decisão tomada para inserir-se nele ou possui-lo, conforme a linguagem das parábolas. O que conta é viver uma vida pautada pelos valores do Reino: justiça, amor, solidariedade, acolhimento, sinceridade, alegria e coragem para lutar contra tudo o que impede o seu crescimento.

A terceira parábola é aquela da rede jogada ao mar: “O Reino dos céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam os que não prestam” (vv. 47-48). Muitos estudiosos insistem em relacioná-la com aquela do joio e do trigo, refletida no domingo passado (cf. Mt 13,24-30). É certo que existem semelhanças entre as duas, mas as diferenças são bem maiores. Naquela do joio e do trigo, quem semeou a semente nociva foi um inimigo, enquanto o dono do campo e da semente boa dormia. Nessa da rede os peixes bons e ruins têm uma mesma origem, não são frutos da ação de dois personagens diferentes. Essa diferença é muito importante, como veremos a seguir.

Desde a comunidade apostólica, havia na Igreja a tendência equivocada de querer ser uma comunidade de santos, justos ou eleitos, ou seja, uma comunidade separada e isolada. Essa tendência era e é um entrave para a concretização do Reino. Com essa parábola da rede, bem mais que com a do joio e o trigo, Jesus apresenta o universalismo do Reino, marcado pela diversidade e inclusão, e sua exposição aos perigos. Como as parábolas respondem a uma situação de crise da comunidade, é interessante retornar às origens, ao primeiro chamado: “Vinde, segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (v. 4,19). Essa parábola é, portanto, um convite para os discípulos retornarem às origens do chamado. Ora, Jesus não os chamou para irem à procura de pessoas boas e santas, mas simplesmente para “pescar seres humanos”, ou seja, ir ao encontra da humanidade inteira, sem distinção nem classificação.

Com a parábola do joio e o trigo, pedia-se tolerância e paciência. Com essa da rede, Ele vai além: pede inclusão, aceitação e abertura constante, pois a rede envolve, junta, mistura tudo. A semente era jogada em um terreno conhecido, previamente preparado. O mar, ao contrário, é sempre imprevisível, ninguém pode prepará-lo antes. É um desafio para a comunidade e uma advertência a qualquer tendência separatista e segregadora. Não existe comunidade de pessoas perfeitas. Uma vez recolhida a rede, exige-se a prudência e o discernimento para a comunidade tirar de si os sinais de morte. O que deve ser jogado fora não são necessariamente os peixes, ou seja, não são as pessoas. A comunidade deve acolher a todos; à medida que a convivência vai fluindo, tudo o que não tem vida deve ser trabalhado e descartado, mas não as pessoas em si. Na comunidade cristã não pode ter juízes, mas apenas pessoas que, entre si, se ajudando mutuamente, contribuem para que os sinais de vida se sobreponham aos sinais de morte. Isso se dá à medida em que vão sendo tomadas decisões livres e conscientes pelo Reino e seus valores.

No final, Jesus faz uma pergunta simples, mas profunda, aos discípulos: “Compreendestes tudo isso?” (v. 51). Jesus apresentou o Reino dos céus em sete parábolas; como o número sete tem a ver com perfeição e totalidade, é como se Jesus dissesse que já não tinha mais o que dizer sobre o Reino, tinha dito tudo. O que importa de agora em diante é viver e reconhecer os sinais desse Reino. A resposta dos discípulos é positiva, mas a história e o próprio Evangelho de Mateus mostram que na verdade ainda não tinham compreendido, tudo, uma vez que compreender no sentido bíblico vai além de uma apreensão de conteúdo ou informações, mas implica numa adesão à uma proposta, nesse caso, o Reino dos céus. A própria trajetória da comunidade dos discípulos, desde os doze primeiros, é uma demonstração da rede jogada ao mar e recolhida com sinais de vida e morte, bem e mal, amor e rivalidade.

A comunidade precisa admitir a coexistência dessas oposições e diversidades, lutando, obviamente, para a vida vencer e, assim, a alegria do Evangelho ser plenamente vivida. Para isso, é necessário discernimento e prudência para que, entre coisas novas e velhas (cf. v. 52), o Reino e seus valores sejam reconhecidos, valorizados e acatados, a partir de decisões corajosas e ousadas!

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 13,24-43 (ANO A)



Neste décimo sexto domingo do tempo comum, continuamos a leitura do discurso em parábolas de Jesus, no capítulo treze do Evangelho segundo Mateus. Esse é o terceiro dos cinco discursos de Jesus nesse Evangelho, e tem como tema principal o Reino dos Céus, o qual vem apresentado a partir de sete parábolas. O texto específico que a liturgia propõe para esse domingo, Mateus 13,24-43, contém três parábolas: do joio e o trigo (vv. 24-30), do grão de mostarda (vv. 31-32), e do fermento (v. 33). Além das três parábolas, o texto contém ainda a explicação de uma das parábolas, a do joio e o trigo (vv. 36-43). Essa explicação é um acréscimo posterior da comunidade de Mateus, provavelmente para amenizar um pouco o impacto causado pela mensagem provocativa das parábolas.

Como já contextualizamos nos domingos anteriores, desde que iniciamos a leitura do capítulo treze de Mateus, esse discurso em parábolas é uma resposta de Jesus à rejeição sofrida pela sua pregação na Galiléia, tendo sido desacreditado até mesmo pelo seu mentor, João, o Batista (cf. Mt 11,2-19). Além, da rejeição, havia também a falta de compreensão da sua mensagem, principalmente da parte dos discípulos, uma vez que o modelo de Reino anunciado e proposto por Jesus não correspondia às expectativas e esperanças alimentadas na época. Mateus retoma esse momento da vida de Jesus para responder também ao contexto de crise vivido pela sua comunidade.

A crise vivida pela comunidade de Mateus, respondida pelas três parábolas de hoje, girava em torno de três grandes problemas ou tentações incompatíveis com a mensagem de Jesus: 1) puritanismo (querer ser uma comunidade separada de santos e justos); 2) grandeza (desej0 de poder e sobreposição sobre os demais grupos); 3) desânimo (vontade de desistir por não ver resultados nem efeitos gerados pela pregação e a forma de vida cristã). Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, essas três tendências têm marcado a história da comunidade cristã, desde as suas origens com os doze, até os dias atuais.

Ao primeiro problema, Jesus, e posteriormente Mateus, responderam com a parábola do joio e o trigo: “O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). A introdução da parábola apresenta o Reino em uma realidade de tensão e hostilidade. Essa tensão é marcada pela presença simultânea da semente boa e da semente nociva, o mal e o bem, o amor e o ódio, a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam o Reino como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. Jesus mostra o contrário: quem adere ao seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o diferente e até mesmo com o mal, sem compactuar com ele, obviamente.

O joio semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), era uma planta muito parecida com o trigo, cujos grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumir. É obra das trevas, por isso, semeado enquanto todos dormiam, ou seja, à noite. É um sinal de perigo e, portanto, uma ameaça à colheita da boa semente semeada no mesmo campo. Por isso, a ideia dos servos zelosos é arrancar o quanto antes: “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). A esses servos, correspondem as pessoas muito religiosas de todos os tempos, dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje, e de outras religiões também. Por causa da intolerância, se pode colocar em risco todo o Reino.

A resposta prudente do dono do campo revela a atitude que Jesus quer de seus seguidores: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Jesus quer mostrar que, antes de tudo, o cristão não pode apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos. Enquanto não chegar o tempo da colheita, não é possível distinguir o bem do mal, o saudável do nocivo. Somente pelos frutos é possível conhecer a árvore. A pressa daqueles servos em arrancar logo o joio poderia comprometer toda a colheita. Isso revela extremismo, intolerância, falta de capacidade para conviver com as diferenças. Essa tendência continua presente ainda em muitos seguimentos da religião cristã, infelizmente. O Reino dos céus proposto por Jesus não é uma sociedade de pessoas perfeitas, alheia à história e às contradições da existência, não é uma comunidade de puros. O Reino só pode ser construído no meio do conflito. Por isso, exige capacidade de diálogo, respeito às diferenças e paciência.

A segunda parábola, ainda relacionada ao mundo agrícola, a do grão de mostarda (vv. 31-32) é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da força da sinagoga, o projeto de Jesus era praticamente invisível. Os discípulos, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. A resposta de Jesus foi desconcertante: “O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo” (v. 31). É necessário que a comunidade dos discípulos aceite a condição de pequenez em que se encontra e reconheça essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino. Esse, o Reino, não pode impor-se por sinais de grandeza nem de espetáculo. O importante é que esse seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com a mostarda: depois que a planta cresce “os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v. 32b). A única preocupação dos que lutam pelo Reino é se estão sendo abrigo e serviço para os mais necessitados.

À terceira tentação ou problema, o desânimo e falta de paciência, Jesus dá como resposta a parábola do fermento, a mais difícil de ser aceita e compreendida entre as três, pelos discípulos de então: “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Essa é uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento, e como a atividade de uma mulher. Ora, para a cultura e tradição da época, a mulher pouca teria a contribuir com um projeto de sociedade como era o Reino dos céus.

O fermento era símbolo da subversão, porque tinha a capacidade de, mesmo em pequena quantidade, transformar a massa, dando-lhe nova forma e fazer crescer. O uso do pão fermentado era, inclusive, proibido para o uso litúrgico dos judeus (cf. Ex 12,19; 13,7; Dt 16,3). Além de adulterar a massa, ainda exigia bastante paciência até que seu efeito se tornasse visível no pão. E era exatamente a paciência que estava acabando nos discípulos e levando-os ao desânimo. Como não viam efeito algum na pregação deles e de Jesus, pois o mundo continuava do mesmo jeito, estavam propensos a desistir, à medida em que aumentavam as exigências de coragem e disposição. Com uma parábola como essa, Jesus quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores. O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade. Ninguém vê o fermento agindo dentro da massa. Uma vez que ele é injetado, se torna invisível ao misturar-se com a massa. No entanto, quem tiver paciência de esperar o seu efeito, o verá, e até de modo surpreendente.

A comunidade cristã tem o papel do fermento: de modo subversivo, ou seja, mesmo contra a legalidade, irradiar um jeito alternativo de viver, a partir de relações de solidariedade, igualdade, justiça e amor, até contagiar toda a massa, ou seja, as sociedades com seus padrões convencionais de comportamento. Esse trabalho de injetar fermento na massa é inclusivo, deve ser feito por todos e todas, mas começa pelos mais excluídos e desprezados da história, como as mulheres, conforme o exemplo da parábola.

Com essas três parábolas, de modo brilhante, Mateus respondeu aos questionamentos da sua comunidade, recordando como Jesus também reagia às crises do grupo dos doze. Certamente, essas respostas são válidas para todos os momentos da história. É preciso reforçar sempre que no Reino dos céus não há espaço para classificação entre bons e maus, puros e impuros, porque é uma comunidade de iguais, cujos distintivos são apenas os frutos; é uma comunidade pequena, mas acolhedora e servidora e, sobretudo, transformadora, para aqueles que aceitam ser subvertidos pelo Evangelho!

Mossoró-RN, 22/07/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues





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REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 13,1-23 (ANO A)



Com a liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum, iniciamos a leitura do terceiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, o chamado “Discurso em Parábolas”. Nesse, o Reino dos céus é apresentado a partir de sete parábolas, ocupando praticamente todo o capítulo treze do Evangelho. A liturgia propõe a leitura desse capítulo por três domingos consecutivos. O texto proposto especificamente para esse domingo é Mt 13,1-23. Se trata de um texto bastante extenso, o qual contém a primeira parábola do discurso (vv. 1-9), as motivações do discurso em parábolas (vv. 10-17), e a explicação da parábola para os discípulos (vv. 18-23). Considerando a extensão do texto, não comentaremos versículo por versículo. Procuramos colher a mensagem geral do texto em seu conjunto.

Para uma compreensão mais adequada do texto, é necessário fazer uma pequena contextualização introdutória, sobretudo por se tratar de uma nova fase na vida e no ministério de Jesus com uma nova metodologia. Essa mudança faz parte da reação de Jesus às rejeições sofridas pela sua mensagem em algumas cidades da Galileia após o discurso missionário (cf. Mt 11 – 12). Tinha ficado nítido que nem todos tinham se interessado pelo anúncio da Boa Nova do Reino. Diante disso, Jesus apresenta o Reino e seus mistérios a partir de uma série de sete parábolas distribuídas ao longo do capítulo treze. Certamente, diante do aparente fracasso da missão de Jesus, seus discípulos lhe questionaram a respeito da eficácia e até mesmo da utilidade do seu anúncio: porque anunciar, se poucos escutam, e dos que escutam, poucos compreendem e acreditam? Porque o anúncio da Boa Nova do Reino não causa praticamente efeito algum? Vale a pena continuar?

Não temos dúvidas de que as parábolas do capítulo treze, e principalmente a de hoje, são tentativas de Jesus responder a questionamentos desse tipo. Daí a necessidade de apresentar uma série de parábolas que mostram a dinâmica do Reino dos céus, uma vez que por trás dos prováveis questionamentos dos discípulos estava também uma ideia distorcida de messianismo, já que o perfil de Jesus fugia dos padrões das expectativas mais convencionais do judaísmo da época: ao invés de um messias potente e guerreiro, Jesus se apresenta simples, manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29). Ao invés de reconstruir o antigo reino de Davi, Ele propõe o Reino dos Céus. Com as parábolas, o Reino pode ser melhor compreendido pelos discípulos, desde que aceitem a condição de pequeninos (cf. Mt 11,25), essencial para conhecer a mensagem de Jesus. Além dos mistérios do Reino em si, as parábolas também ajudam a compreender a dinâmica de aceitação e rejeição, o que mais inquietava os discípulos naquele momento de crise vivido pelo grupo.

Assim, voltamos a nossa atenção diretamente para o texto: “Naquele dia, Jesus saiu de casa para sentar-se às margens do mar da Galiléia” (v. 1). Jesus já estava radicado em Cafarnaum, cidade localizada no lago da Galiléia, chamado de mar pelo evangelista por motivos teológicos. O mar evoca perigo e hostilidade, é onde habitavam as forças do mal, segundo a mentalidade da época. As margens do mar significam lugar de movimento, fluxo de pessoas, abertura, contato com o diferente e exposição aos perigos. Permanecer em casa é sinal de segurança, fechamento e comodismo. Mesmo em um contexto de hostilidades à pregação do anúncio do Reino, a comunidade cristã não pode fechar-se em si nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens. Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, Jesus convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída!

Se permanecesse em casa, somente os discípulos ouviriam a pregação de Jesus. Uma vez que saiu de casa, “uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé na praia. E disse muitas coisas em parábolas” (vv. 2-3). Para romper as bolhas e chegar às multidões é necessário colocar-se em saída e assumir os riscos de tal opção. Embora já tivesse contado várias parábolas (cf. Mt 7,24-27; 9,15; 12,43-45), essa é a primeira vez que o evangelista usa o termo mesmo “parábola” (em grego parabolh. – parabolê), cujo significado é pôr lado a lado, ou seja, fazer uma comparação. Ele vai, portanto, apresentar o Reino a partir de comparações com elementos do cotidiano das pessoas, o que não significa que, necessariamente, será melhor compreendido por isso, mas pelo menos instigará a reflexão.

A primeira das parábolas que compõe o discurso é aquela que o Evangelho de hoje nos apresenta: “o semeador saiu para semear” (v. 3b). Conforme vem descrito, esse semeador lança a semente em quatro tipos diferentes de terrenos: caminho, pedra, espinho e terra boa (vv. 4-8), sem distinção. Certamente há, aqui, uma grande discrepância com as práticas agrícolas modernas. Na antiga Palestina, a terra não era preparada com antecedência para a plantação. Jogava-se a semente na terra e só se começava a prepará-la quando as plantas nasciam e cresciam, a ponto de distinguir a planta boa da árvore daninha (cf. Parábola do joio e do trigo, Mt 13,24-30). Perder sementes jogadas em terrenos duvidosos era visto como natural. O importante era a confiança e a certeza de que em algum lugar, haveria de nascer, crescer e frutificar em abundância.

Mesmo tendo a multidão como auditório, o público alvo da parábola é o grupo dos discípulos de outrora e a comunidade cristã de todos os tempos. A comunidade anunciadora do Reino não pode escolher a quem anunciar, assim como o semeador não escolhe o terreno antes de lançar a semente. Diante dos fracassos recentes na missão evangelizadora de Jesus com os doze, a tendência nos discípulos era selecionar melhor os destinatários do anúncio e não perder mais tempo. Jesus está, com essa parábola, advertindo a Igreja de todos os tempos que na sua missão, estará mais presente o fracasso que o sucesso, afinal, de quatro tipos de terreno, somente em um a semente frutificou. A comunidade deve confiar na eficácia da Palavra, e ao mesmo tempo conscientizar-se das diversas oposições que essa recebe e que podem impedir o seu crescimento.

De uma coisa a comunidade não pode duvidar: a Palavra tem força transformadora incrível! Quando “cai em terra boa, é capaz de produzir à base de cem, sessenta e de trinta frutos por semente” (v. 8). Essa imagem exageradamente abundante dos frutos é importante: convencionalmente, o máximo que se esperava de um cacho (ou espiga) de trigo era trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. O que parecia ser muito (trinta frutos) passa a ser mínimo diante da beleza que é a vida de quem se deixou conduzir pelos frutos do Reino. A colheita surpreendente (cem frutos por semente) só é possível para quem confia na Palavra e se abre completamente aos valores do Reino. O que parecia muito fora da mentalidade nova proposta por Jesus, é o mínimo na dinâmica do Reino.

Após contar a primeira das sete parábolas, “os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: porque falas ao povo em parábolas?” (v. 10). A resposta de Jesus é bastante longa e enigmática (vv. 11-17), usando, inclusive, o profeta Isaías (cf. Is 6,9-10). Assim como havia níveis diferente de adesão à pregação de Jesus, também havia diferenças no modo de compreender a sua Palavra. Nem toda a multidão estava apta a compreender porque isso não é possível sem uma experiência autêntica com Ele. Não há conhecimento superficial de Jesus: ou se conhece profundamente ou não se conhece nada d’Ele!

A Palavra transforma, cria raízes no coração, por isso “aquele que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem” (v. 12). É claro que Jesus não está falando de bens ou riquezas, mas do conhecimento de si e dos mistérios do Reino. Quem o conhece superficialmente, na verdade não o conhece; quem o conhece verdadeiramente, o conhecerá ainda mais. No coração onde a Palavra apenas tocou sem criar raízes, ela logo desaparecerá. Mas, onde ela de fato frutificou, os frutos serão cada vez mais abundantes. O desejo de Jesus é que a Palavra seja acolhida por todos, mas a experiência estava mostrando que não era possível. Nem todos a acolhiam, uns faziam de conta, ou seja, ouviam, mas não se deixavam transformar por Ela. A apresentação do Reino em parábolas era um convite à reflexão: através das imagens usadas, as pessoas poderiam refletir com mais calma depois da pregação e, assim, decidir aderir ou não.

A explicação da parábola aos discípulos (vv. 18-23) é um acréscimo da comunidade mateana, como forma de manter a mensagem de Jesus sempre atualizada. Não basta recordar o que o Mestre falou, é necessário ler a realidade atual à luz da sua mensagem e aplicá-la. Nessa explicação, Mateus adverte sua comunidade e as comunidades de todos os tempos para a importância de saber lidar com as diferenças e a paciência no modo de anunciar e acolher a Palavra. Mais que descrever quatro categorias de pessoas, os quatro terrenos da parábola são advertências e indicações de que cada discípulo e discípula pode comportar em si as quatro situações de acolhida ou resistência à Palavra.

Estrada, pedra, espinhos e terra boa está no coração de um. Que isso não impeça a Igreja a sair constantemente de si mesma e lançar as sementes do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias! O importante é ter coragem de deixar a casa e assumir as margens sem medo!

Mossoró-RN, 16/07/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues



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