Páginas

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 13,24-43 (ANO A)



Neste décimo sexto domingo do tempo comum, continuamos a leitura do discurso em parábolas de Jesus, no capítulo treze do Evangelho segundo Mateus. Esse é o terceiro dos cinco discursos de Jesus nesse Evangelho, e tem como tema principal o Reino dos Céus, o qual vem apresentado a partir de sete parábolas. O texto específico que a liturgia propõe para esse domingo, Mateus 13,24-43, contém três parábolas: do joio e o trigo (vv. 24-30), do grão de mostarda (vv. 31-32), e do fermento (v. 33). Além das três parábolas, o texto contém ainda a explicação de uma das parábolas, a do joio e o trigo (vv. 36-43). Essa explicação é um acréscimo posterior da comunidade de Mateus, provavelmente para amenizar um pouco o impacto causado pela mensagem provocativa das parábolas.

Como já contextualizamos nos domingos anteriores, desde que iniciamos a leitura do capítulo treze de Mateus, esse discurso em parábolas é uma resposta de Jesus à rejeição sofrida pela sua pregação na Galiléia, tendo sido desacreditado até mesmo pelo seu mentor, João, o Batista (cf. Mt 11,2-19). Além, da rejeição, havia também a falta de compreensão da sua mensagem, principalmente da parte dos discípulos, uma vez que o modelo de Reino anunciado e proposto por Jesus não correspondia às expectativas e esperanças alimentadas na época. Mateus retoma esse momento da vida de Jesus para responder também ao contexto de crise vivido pela sua comunidade.

A crise vivida pela comunidade de Mateus, respondida pelas três parábolas de hoje, girava em torno de três grandes problemas ou tentações incompatíveis com a mensagem de Jesus: 1) puritanismo (querer ser uma comunidade separada de santos e justos); 2) grandeza (desej0 de poder e sobreposição sobre os demais grupos); 3) desânimo (vontade de desistir por não ver resultados nem efeitos gerados pela pregação e a forma de vida cristã). Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, essas três tendências têm marcado a história da comunidade cristã, desde as suas origens com os doze, até os dias atuais.

Ao primeiro problema, Jesus, e posteriormente Mateus, responderam com a parábola do joio e o trigo: “O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). A introdução da parábola apresenta o Reino em uma realidade de tensão e hostilidade. Essa tensão é marcada pela presença simultânea da semente boa e da semente nociva, o mal e o bem, o amor e o ódio, a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam o Reino como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. Jesus mostra o contrário: quem adere ao seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o diferente e até mesmo com o mal, sem compactuar com ele, obviamente.

O joio semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), era uma planta muito parecida com o trigo, cujos grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumir. É obra das trevas, por isso, semeado enquanto todos dormiam, ou seja, à noite. É um sinal de perigo e, portanto, uma ameaça à colheita da boa semente semeada no mesmo campo. Por isso, a ideia dos servos zelosos é arrancar o quanto antes: “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). A esses servos, correspondem as pessoas muito religiosas de todos os tempos, dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje, e de outras religiões também. Por causa da intolerância, se pode colocar em risco todo o Reino.

A resposta prudente do dono do campo revela a atitude que Jesus quer de seus seguidores: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Jesus quer mostrar que, antes de tudo, o cristão não pode apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos. Enquanto não chegar o tempo da colheita, não é possível distinguir o bem do mal, o saudável do nocivo. Somente pelos frutos é possível conhecer a árvore. A pressa daqueles servos em arrancar logo o joio poderia comprometer toda a colheita. Isso revela extremismo, intolerância, falta de capacidade para conviver com as diferenças. Essa tendência continua presente ainda em muitos seguimentos da religião cristã, infelizmente. O Reino dos céus proposto por Jesus não é uma sociedade de pessoas perfeitas, alheia à história e às contradições da existência, não é uma comunidade de puros. O Reino só pode ser construído no meio do conflito. Por isso, exige capacidade de diálogo, respeito às diferenças e paciência.

A segunda parábola, ainda relacionada ao mundo agrícola, a do grão de mostarda (vv. 31-32) é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da força da sinagoga, o projeto de Jesus era praticamente invisível. Os discípulos, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. A resposta de Jesus foi desconcertante: “O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo” (v. 31). É necessário que a comunidade dos discípulos aceite a condição de pequenez em que se encontra e reconheça essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino. Esse, o Reino, não pode impor-se por sinais de grandeza nem de espetáculo. O importante é que esse seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com a mostarda: depois que a planta cresce “os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v. 32b). A única preocupação dos que lutam pelo Reino é se estão sendo abrigo e serviço para os mais necessitados.

À terceira tentação ou problema, o desânimo e falta de paciência, Jesus dá como resposta a parábola do fermento, a mais difícil de ser aceita e compreendida entre as três, pelos discípulos de então: “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Essa é uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento, e como a atividade de uma mulher. Ora, para a cultura e tradição da época, a mulher pouca teria a contribuir com um projeto de sociedade como era o Reino dos céus.

O fermento era símbolo da subversão, porque tinha a capacidade de, mesmo em pequena quantidade, transformar a massa, dando-lhe nova forma e fazer crescer. O uso do pão fermentado era, inclusive, proibido para o uso litúrgico dos judeus (cf. Ex 12,19; 13,7; Dt 16,3). Além de adulterar a massa, ainda exigia bastante paciência até que seu efeito se tornasse visível no pão. E era exatamente a paciência que estava acabando nos discípulos e levando-os ao desânimo. Como não viam efeito algum na pregação deles e de Jesus, pois o mundo continuava do mesmo jeito, estavam propensos a desistir, à medida em que aumentavam as exigências de coragem e disposição. Com uma parábola como essa, Jesus quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores. O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade. Ninguém vê o fermento agindo dentro da massa. Uma vez que ele é injetado, se torna invisível ao misturar-se com a massa. No entanto, quem tiver paciência de esperar o seu efeito, o verá, e até de modo surpreendente.

A comunidade cristã tem o papel do fermento: de modo subversivo, ou seja, mesmo contra a legalidade, irradiar um jeito alternativo de viver, a partir de relações de solidariedade, igualdade, justiça e amor, até contagiar toda a massa, ou seja, as sociedades com seus padrões convencionais de comportamento. Esse trabalho de injetar fermento na massa é inclusivo, deve ser feito por todos e todas, mas começa pelos mais excluídos e desprezados da história, como as mulheres, conforme o exemplo da parábola.

Com essas três parábolas, de modo brilhante, Mateus respondeu aos questionamentos da sua comunidade, recordando como Jesus também reagia às crises do grupo dos doze. Certamente, essas respostas são válidas para todos os momentos da história. É preciso reforçar sempre que no Reino dos céus não há espaço para classificação entre bons e maus, puros e impuros, porque é uma comunidade de iguais, cujos distintivos são apenas os frutos; é uma comunidade pequena, mas acolhedora e servidora e, sobretudo, transformadora, para aqueles que aceitam ser subvertidos pelo Evangelho!

Mossoró-RN, 22/07/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues





ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 13,1-23 (ANO A)



Com a liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum, iniciamos a leitura do terceiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, o chamado “Discurso em Parábolas”. Nesse, o Reino dos céus é apresentado a partir de sete parábolas, ocupando praticamente todo o capítulo treze do Evangelho. A liturgia propõe a leitura desse capítulo por três domingos consecutivos. O texto proposto especificamente para esse domingo é Mt 13,1-23. Se trata de um texto bastante extenso, o qual contém a primeira parábola do discurso (vv. 1-9), as motivações do discurso em parábolas (vv. 10-17), e a explicação da parábola para os discípulos (vv. 18-23). Considerando a extensão do texto, não comentaremos versículo por versículo. Procuramos colher a mensagem geral do texto em seu conjunto.

Para uma compreensão mais adequada do texto, é necessário fazer uma pequena contextualização introdutória, sobretudo por se tratar de uma nova fase na vida e no ministério de Jesus com uma nova metodologia. Essa mudança faz parte da reação de Jesus às rejeições sofridas pela sua mensagem em algumas cidades da Galileia após o discurso missionário (cf. Mt 11 – 12). Tinha ficado nítido que nem todos tinham se interessado pelo anúncio da Boa Nova do Reino. Diante disso, Jesus apresenta o Reino e seus mistérios a partir de uma série de sete parábolas distribuídas ao longo do capítulo treze. Certamente, diante do aparente fracasso da missão de Jesus, seus discípulos lhe questionaram a respeito da eficácia e até mesmo da utilidade do seu anúncio: porque anunciar, se poucos escutam, e dos que escutam, poucos compreendem e acreditam? Porque o anúncio da Boa Nova do Reino não causa praticamente efeito algum? Vale a pena continuar?

Não temos dúvidas de que as parábolas do capítulo treze, e principalmente a de hoje, são tentativas de Jesus responder a questionamentos desse tipo. Daí a necessidade de apresentar uma série de parábolas que mostram a dinâmica do Reino dos céus, uma vez que por trás dos prováveis questionamentos dos discípulos estava também uma ideia distorcida de messianismo, já que o perfil de Jesus fugia dos padrões das expectativas mais convencionais do judaísmo da época: ao invés de um messias potente e guerreiro, Jesus se apresenta simples, manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29). Ao invés de reconstruir o antigo reino de Davi, Ele propõe o Reino dos Céus. Com as parábolas, o Reino pode ser melhor compreendido pelos discípulos, desde que aceitem a condição de pequeninos (cf. Mt 11,25), essencial para conhecer a mensagem de Jesus. Além dos mistérios do Reino em si, as parábolas também ajudam a compreender a dinâmica de aceitação e rejeição, o que mais inquietava os discípulos naquele momento de crise vivido pelo grupo.

Assim, voltamos a nossa atenção diretamente para o texto: “Naquele dia, Jesus saiu de casa para sentar-se às margens do mar da Galiléia” (v. 1). Jesus já estava radicado em Cafarnaum, cidade localizada no lago da Galiléia, chamado de mar pelo evangelista por motivos teológicos. O mar evoca perigo e hostilidade, é onde habitavam as forças do mal, segundo a mentalidade da época. As margens do mar significam lugar de movimento, fluxo de pessoas, abertura, contato com o diferente e exposição aos perigos. Permanecer em casa é sinal de segurança, fechamento e comodismo. Mesmo em um contexto de hostilidades à pregação do anúncio do Reino, a comunidade cristã não pode fechar-se em si nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens. Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, Jesus convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída!

Se permanecesse em casa, somente os discípulos ouviriam a pregação de Jesus. Uma vez que saiu de casa, “uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé na praia. E disse muitas coisas em parábolas” (vv. 2-3). Para romper as bolhas e chegar às multidões é necessário colocar-se em saída e assumir os riscos de tal opção. Embora já tivesse contado várias parábolas (cf. Mt 7,24-27; 9,15; 12,43-45), essa é a primeira vez que o evangelista usa o termo mesmo “parábola” (em grego parabolh. – parabolê), cujo significado é pôr lado a lado, ou seja, fazer uma comparação. Ele vai, portanto, apresentar o Reino a partir de comparações com elementos do cotidiano das pessoas, o que não significa que, necessariamente, será melhor compreendido por isso, mas pelo menos instigará a reflexão.

A primeira das parábolas que compõe o discurso é aquela que o Evangelho de hoje nos apresenta: “o semeador saiu para semear” (v. 3b). Conforme vem descrito, esse semeador lança a semente em quatro tipos diferentes de terrenos: caminho, pedra, espinho e terra boa (vv. 4-8), sem distinção. Certamente há, aqui, uma grande discrepância com as práticas agrícolas modernas. Na antiga Palestina, a terra não era preparada com antecedência para a plantação. Jogava-se a semente na terra e só se começava a prepará-la quando as plantas nasciam e cresciam, a ponto de distinguir a planta boa da árvore daninha (cf. Parábola do joio e do trigo, Mt 13,24-30). Perder sementes jogadas em terrenos duvidosos era visto como natural. O importante era a confiança e a certeza de que em algum lugar, haveria de nascer, crescer e frutificar em abundância.

Mesmo tendo a multidão como auditório, o público alvo da parábola é o grupo dos discípulos de outrora e a comunidade cristã de todos os tempos. A comunidade anunciadora do Reino não pode escolher a quem anunciar, assim como o semeador não escolhe o terreno antes de lançar a semente. Diante dos fracassos recentes na missão evangelizadora de Jesus com os doze, a tendência nos discípulos era selecionar melhor os destinatários do anúncio e não perder mais tempo. Jesus está, com essa parábola, advertindo a Igreja de todos os tempos que na sua missão, estará mais presente o fracasso que o sucesso, afinal, de quatro tipos de terreno, somente em um a semente frutificou. A comunidade deve confiar na eficácia da Palavra, e ao mesmo tempo conscientizar-se das diversas oposições que essa recebe e que podem impedir o seu crescimento.

De uma coisa a comunidade não pode duvidar: a Palavra tem força transformadora incrível! Quando “cai em terra boa, é capaz de produzir à base de cem, sessenta e de trinta frutos por semente” (v. 8). Essa imagem exageradamente abundante dos frutos é importante: convencionalmente, o máximo que se esperava de um cacho (ou espiga) de trigo era trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. O que parecia ser muito (trinta frutos) passa a ser mínimo diante da beleza que é a vida de quem se deixou conduzir pelos frutos do Reino. A colheita surpreendente (cem frutos por semente) só é possível para quem confia na Palavra e se abre completamente aos valores do Reino. O que parecia muito fora da mentalidade nova proposta por Jesus, é o mínimo na dinâmica do Reino.

Após contar a primeira das sete parábolas, “os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: porque falas ao povo em parábolas?” (v. 10). A resposta de Jesus é bastante longa e enigmática (vv. 11-17), usando, inclusive, o profeta Isaías (cf. Is 6,9-10). Assim como havia níveis diferente de adesão à pregação de Jesus, também havia diferenças no modo de compreender a sua Palavra. Nem toda a multidão estava apta a compreender porque isso não é possível sem uma experiência autêntica com Ele. Não há conhecimento superficial de Jesus: ou se conhece profundamente ou não se conhece nada d’Ele!

A Palavra transforma, cria raízes no coração, por isso “aquele que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem” (v. 12). É claro que Jesus não está falando de bens ou riquezas, mas do conhecimento de si e dos mistérios do Reino. Quem o conhece superficialmente, na verdade não o conhece; quem o conhece verdadeiramente, o conhecerá ainda mais. No coração onde a Palavra apenas tocou sem criar raízes, ela logo desaparecerá. Mas, onde ela de fato frutificou, os frutos serão cada vez mais abundantes. O desejo de Jesus é que a Palavra seja acolhida por todos, mas a experiência estava mostrando que não era possível. Nem todos a acolhiam, uns faziam de conta, ou seja, ouviam, mas não se deixavam transformar por Ela. A apresentação do Reino em parábolas era um convite à reflexão: através das imagens usadas, as pessoas poderiam refletir com mais calma depois da pregação e, assim, decidir aderir ou não.

A explicação da parábola aos discípulos (vv. 18-23) é um acréscimo da comunidade mateana, como forma de manter a mensagem de Jesus sempre atualizada. Não basta recordar o que o Mestre falou, é necessário ler a realidade atual à luz da sua mensagem e aplicá-la. Nessa explicação, Mateus adverte sua comunidade e as comunidades de todos os tempos para a importância de saber lidar com as diferenças e a paciência no modo de anunciar e acolher a Palavra. Mais que descrever quatro categorias de pessoas, os quatro terrenos da parábola são advertências e indicações de que cada discípulo e discípula pode comportar em si as quatro situações de acolhida ou resistência à Palavra.

Estrada, pedra, espinhos e terra boa está no coração de um. Que isso não impeça a Igreja a sair constantemente de si mesma e lançar as sementes do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias! O importante é ter coragem de deixar a casa e assumir as margens sem medo!

Mossoró-RN, 16/07/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues



ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 11,25-30 (ANO A)




O Evangelho deste décimo quarto domingo do tempo comum (Mateus 11,25-30) nos apresenta a resposta de Jesus à insensibilidade dos seus conterrâneos galileus aos seus ensinamentos, após proferir o discurso missionário. É um texto pequeno, porém muito profundo e significativo para a comunidade cristã de todos os tempos. Nele, Jesus faz importantes revelações. Mais que qualquer outro, esse texto não pode ser compreendido sem antes observarmos o seu contexto. E é partindo desse que iniciamos a nossa reflexão.

Os discursos de Jesus sempre foram seguidos de muito trabalho e ação em prol da implantação do Reino dos céus na terra. Assim como aconteceu após o discurso da montanha (cf. 8,1ss), também ao concluir o discurso missionário, Jesus mesmo saiu em missão, conjugando discurso e práxis, como nos relata o evangelista Mateus: “Quando Jesus terminou de dar instruções aos seus doze discípulos, partiu dali para ensinar e pregar nas cidades deles” (cf. Mt 11,1). Essas instruções foram dadas no décimo capítulo, em forma de discurso. Eram recomendações práticas sobre o conteúdo e o modo de proceder no anúncio.

Jesus não se contentou em enviar os discípulos, mas Ele mesmo, como enviado do Pai, foi o primeiro a sair levando a mensagem libertadora do Reino. Porém, as respostas dos seus destinatários não foram positivas. Pelo contrário, houve rejeição e hostilidade, a começar pelo próprio João Batista que, já prisioneiro, desconfiou da autenticidade do ministério de Jesus, a ponto de enviar seus discípulos para tirar algumas dúvidas, afinal, o comportamento de Jesus não correspondia às suas expectativas (cf. Mt 11,2-19). Ora, João tinha anunciado um messias juiz e vingador, alguém que vinha ao mundo para premiar os bons e condenar os pecadores (cf. Mt 3,7-12), enquanto Jesus se misturava com os pecadores, bebendo e comendo com eles (cf. Mt 11,18).

Além das dúvidas de João, o evangelista registra o desgosto de Jesus com as cidades que Ele escolheu como destinatárias do seu anúncio: “Então começou a recriminar as cidades onde tinha realizado a maioria dos seus milagres, porque elas não tinham se convertido” (cf. Mt 11,20-24). Essas cidades eram Corazim, Betsaida e Cafarnaum, escolhidas a dedo para o anúncio da chegada do Reino dos céus! Com a sua reputação posta em dúvidas pelo seu próprio mentor, o Batista, e a rejeição de seus compatriotas galileus, Jesus tinha tudo para decretar a falência do seu projeto. É esse o contexto do Evangelho de hoje.

Feita a devida contextualização, voltamos nossa atenção para o texto de hoje, que apresenta a resposta de Jesus a tudo isso: “Naquele tempo, Jesus respondendo, disse: Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra” (v. 25a). Antes de prosseguirmos na reflexão, fazemos duas observações importantes: a expressão “Naquele tempo”, dessa vez, faz parte mesmo do texto bíblico, e tem uma importância relevante. Como a liturgia praticamente banalizou essa expressão, colocando-a sempre como introdução ao Evangelho, corremos o risco de não perceber seu real significado no texto de hoje. Ora, ao precisar temporalmente o episódio, “Naquele tempo” (em grego VEn evkei,nw| tw/| kairw/| - En ekeíno tô kairô), o evangelista praticamente obriga seu leitor a lê-lo dentro do seu contexto. Isso quer dizer que se trata de uma continuidade entre o que o diz o texto de hoje e o que lhe antecede. A outra observação diz respeito a uma omissão grave no texto litúrgico: a omissão da expressão verbal “respondendo” (em grego avpokriqei.j – apocrithéis), presente no texto original e, por sinal, muito significativa, porque nos dá a certeza de que as palavras de Jesus no texto de hoje são uma resposta precisa a uma situação concreta de rejeição à sua mensagem.

E qual foi a resposta de Jesus? Uma oração de louvor e ação de graças ao Pai: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (v. 25)! Ao invés de sentir-se falido em seu projeto, surpreendentemente, Jesus sente-se realizado porque, de fato, os propósitos de Deus, o Pai, estão começando a concretizar-se: o mundo novo só pode ser construído a partir da adesão dos pequenos!

O Reino dos céus, que é ameaça para os grandes, os detentores de poder político e religioso, só tem sentido e só é possível se o programa de vida de Jesus for abraçado. Esse programa consiste na vivência das bem-aventuranças” (cf. Mt 5,1-12). Os pequeninos que estão conhecendo “estas coisas” são: os pobres, os mansos, os aflitos, os famintos e sedentos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os promotores da paz e os perseguidos, ou seja, os bem-aventurados.

Quanto aos “sábios e entendidos”, os valores do Reino permanecem ocultos devido à soberba, orgulho, avareza, legalismo e uso da força e da violência da parte deles. Esses são os dirigentes, a elite política e religiosa, principalmente. São aqueles que não tem coragem de tornar-se pequenos e, por isso, não entrarão no Reino dos céus (cf. Mt 18,3). Quem assume o poder como meio de dominação, seja econômica ou ideológica, tende a rejeitar um projeto de sociedade igualitária, como é o Reino dos céus.

Não resta dúvida de que a crítica de Jesus aqui se aplica mais ao campo religioso: os “sábios e entendidos” que não conhecem “as coisas do Pai” são os representantes oficiais da doutrina e da lei, aqueles que passam a vida impondo normas e vigiando quem está cumprindo ou não. Esses, como representantes de um Deus juiz, severo e vingativo, não estão aptos a aceitar os propósitos de um Deus-Pai, o Deus de Jesus, que não impõe nenhuma lei, senão aquela do amor.

Diante disso, Jesus não se desespera, pois compreende que “assim foi do agrado do Pai” (v. 26), ou seja, nos desígnios do Pai já estava a previsão de rechaço à sua vontade, ao seu projeto. De fato, a serenidade com que Jesus lia os acontecimentos da vida só se explica pela sua íntima comunhão com o Pai. Ora, é do agrado do Pai que ninguém pode ter acesso ao Reino dos céus pela observância das prescrições da lei. Ninguém pode conhecer o Pai e seus desígnios a partir de códigos e doutrinas, mas somente amando e sentindo-se amado, fazendo-se pequeno para sentir a grandeza do amor do Pai.

Jesus fala do seu Deus-Pai com propriedade porque é o Filho. Por isso, Ele pode dizer: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (v. 27). Essa declaração reforça sua intimidade com o Pai e ao mesmo tempo denuncia a ilegitimidade da religião vivida pelos considerados grandes da sua época, os fariseus, mestres da lei e sacerdotes. Aquela religião era falsa porque anunciava sem conhecer, pois, se baseava em códigos legais e doutrinais e, assim, ao invés de revelar, escondia o rosto do verdadeiro Deus.

Consciente de que aquela religião só distanciava as pessoas do amor do Pai, e querendo que esse amor se tornasse conhecido e experimentado por todos, principalmente os explorados e marginalizados, Jesus faz um belo e ousado convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (v. 28). A ousadia de Jesus aqui consiste em convidar à ruptura com todos os sistemas de negação da vida plena e da liberdade. E era exatamente a religião quem mais deixava o povo cansado e fatigado, impondo fardos que nem mesmo os chefes religiosos conseguiam carregar (cf. Mt 23,4).

Além da opressão do império romano, o povo ainda era submetido à coerção de uma religião vazia e hipócrita. Daí o convite de Jesus para a verdadeira libertação: “Vinde a mim... e eu vos darei descanso”. É claro que o descanso que Jesus promete não é uma vida cômoda e fácil, mas sim uma vida livre das prescrições da lei e do peso da doutrina. Em outras palavras, esse descanso é a liberdade e a capacidade de amar e sentir-se amado, é sinal de realização do Reino dos céus, pois evoca a perfeição e a completude de uma obra boa, como a criação (cf. Gn 2,2).

O convite é ampliado: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (v. 29). Tomar o jugo de Jesus é trocar a observância da lei pela prática das bem-aventuranças. É preciso aprender de Jesus porque somente Ele, como Filho, pode revelar plenamente o rosto amoroso do Pai, e somente fazendo uma experiência profunda de amor-comunhão, é possível libertar-se do jugo imposto pelos guardiões da lei e da doutrina.

Se as bem-aventuranças em si resumem o perfil de Jesus, as duas que Ele cita aqui constituem a síntese máxima da sua personalidade: manso e humilde de coração! É importante ressaltar que a mansidão vivida por Jesus não pode ser confundida com resignação, nem comodismo. Pelo contrário, essa consiste na coragem de lutar pelo Reino mesmo na adversidade, sem, no entanto, recorrer aos mecanismos do opressor, como a violência e o ódio. Obviamente, ninguém consegue fazer isso se não aprender com Jesus.

Ao contrário do peso das prescrições legais impostas pela religião do seu tempo, Jesus dá uma garantia aos seus seguidores: “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (v. 30). É claro que Jesus não está prometendo facilidades na vida para aqueles que abraçarem o seu projeto. O seu fardo consiste exatamente na vivência das bem-aventuranças, o que implica muitas dificuldades e desafios. Inclusive, o principal critério para reconhecer se alguém está vivendo as bem-aventuranças é exatamente a perseguição (cf. Mt 5,11-12).

Portanto, o jugo e o fardo de Jesus são suave e leve porque não consistem em regras a cumprir, mas em um amor a ser experimentado. Esse amor só pode ser acolhido por quem abrir mãos de todos os fardos impostos pela religião e por qualquer sistema de dominação. Por isso, o Reino dos céus é uma proposta de mundo novo, de uma sociedade alternativa fundada em relações de igualdade, justiça, solidariedade... enfim, é uma sociedade guiada por uma única lei: o amor!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – MATEUS 16,13-19


Neste domingo em que celebramos a solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo, a liturgia nos oferece Mateus 16,13-19 para o Evangelho, texto que contém a famosa confissão de fé de Pedro na região de Cesaréia de Filipe. Esse é um relato comum aos três Evangelhos Sinóticos (cf. Mt 16,13-19; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), embora a versão mateana apresente certos elementos próprios, o que lhe rendeu uma supervalorização na reflexão teológica ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo católico.

Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. Esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (cf. 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (cf. 16,21-23; 17,22). Na verdade, podemos dizer que tais acontecimentos são consequência do episódio narrado no Evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza.

Recordamos o que sucede o nosso texto no conjunto do Evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: uma controvérsia com os fariseus, os quais pediam sinais a Jesus (cf. 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo fermento dos fariseus e saduceus (cf. 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam.

Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade. É claro que esse cuidado continua válido ainda para os dias atuais, uma vez que são cada mais perigosos os fermentos farisaicos de hoje: retorno ao ritualismo, indiferença às necessidades do próximo, fundamentalismo, espiritualismos vazios e tantos outros. Isso se dá por falta de clareza da identidade de Jesus e carência de experiência verdadeira com Ele.

Agora podemos, portanto, direcionar nosso olhar para o texto que liturgia nos oferece: “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?’” (v. 13). O texto começa com um indicativo geográfico de grande importância: Cesaréia de Filipe estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica, era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização.

Longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos de qualquer influência da tradição religiosa judaica, ou seja, livres do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus seria um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos céus e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova e continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial. Podemos dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas religiosos do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano. Em outras palavras, é optar por uma sociedade alternativa, como é o Reino de Deus.

A pergunta de Jesus sobre o que dizem a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Até então, Jesus já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia sua verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que Ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que Ele realizava. Ele percebia isso, por isso fez essa pergunta: “Que dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v. 13b).

A resposta dos discípulos à pergunta de Jesus revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual Jesus já gozava entre o povo, certamente o povo simples, com quem Ele interagia e por quem lutava. Eis a resposta: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). Sem dúvidas, Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. De fato, os personagens citados foram grandes profetas, homens que acenderam a esperança de libertação, anunciando, denunciando e testemunhando. Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Foi esse risco que Mateus quis combater ao recordar esse episódio da vida de Jesus.

A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, Jesus queria saber mesmo era o que seus discípulos pensavam de si. Por isso, lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que “Simão Pedro resp0ndeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Não resta dúvida que também os demais discípulos componentes do grupo dos doze também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade.

A resposta é complexa e profunda: Jesus é Messias e Filho e do Deus vivo. É muito significativo que Ele seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: o Filho do Deus vivo (em grego o` ui`o.j tou/ qeou/ tou/ zw/ntoj – hó hiós tú Theú tú zontos). Além de definir a qualidade e especificidade do messianismo de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade.

Com a resposta de Pedro, a comunidade cristã é chamada a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo (termo mais fiel ao texto grego que Messias), é o Filho do Deus vivo, ou seja, seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus oferecido pelo templo de Jerusalém eram privados de vida e agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído. A convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas, religiosos e políticos, que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.

Jesus se alegra com a resposta de Pedro e o proclama bem-aventurado: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17).  Não se trata de um elogio por um mérito particular de Pedro, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz é uma constatação: as coisas parecem começar a funcionar na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (cf. 10,21), e Pedro está falando a partir do que o Pai lhe sugere, ele está demonstrando adesão plena ao projeto do Reino! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição pertencer ao mundo dos pequeninos.

Na continuidade, Jesus declara: “Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas. Pedro é uma destas pedras escolhidas por Jesus. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável a fé que Pedro tinha acabado de professar.

Muita controvérsia já foi gerada a partir desse versículo. É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: Pe,troj Petros e pe,tra| - petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las: Petros, transformado no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível; petra designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção sólida. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Vale lembrar que essa é a primeira ocorrência da palavra Igreja no Evangelho (em grego evkklhsi,a – eclesía), cujo significado é assembléia convocada.

Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que haviam na região de Cesaréia de Filipe, construídos com pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, Ele declara: “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (v. 18b). Aqui Ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a realização plena do Reino aqui na terra. São as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso.

No último versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será desligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (v. 19). Não se trata de uma delegação de superpoderes à Igreja como muitos propagam. Mais que conferindo poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer já aqui na terra. A comunidade recebe “as chaves do Reino dos céus” porque é nela que se faz a experiência da fé e da comunhão profunda com Deus através da prática das bem-aventuranças (cf. 5,1-12) e é isso que torna alguém apto para entrar nos céus. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças tem a chave de acesso ao Reino. “Ligar e desligar” é, portanto, responsabilidade e não poder: se a comunidade cristã viver profundamente o que Jesus ensinou, não haverá diferença entre o céu e a terra!

Infelizmente, ao longo história, muitos abusos já foram praticados devido as más interpretações aplicadas a esse texto. Jesus não instituiu nenhum poder monárquico. Com essas imagens tão fortes (chaves – ligar – desligar) Jesus convida a sua Igreja, comunidade do Reino, a viver sempre em perfeita sintonia com Ele mesmo e com o Pai, de modo que o que a comunidade experimentar será referendado pelos céus! Ele dá as chaves para a sua comunidade abrir para todos o Reino que os escribas e fariseus tinham trancado (cf. 23,13).

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 10,26-33 (ANO A)



Neste décimo segundo domingo do tempo comum, a liturgia nos propõe Mateus 10,26-33 como texto evangélico. O décimo capítulo do Evangelho segundo Mateus contém o segundo discurso de Jesus, chamado discurso missionário ou apostólico. O Evangelho de hoje, portanto, faz parte desse discurso.

No domingo passado (XI Domingo do Tempo Comum), nós contemplamos o inconformismo de Jesus com a situação do povo: estava violentado e abandonado como ovelhas que não tem pastor (cf. Mt 9,36). Diante daquela situação, Jesus não encontrou outra saída senão convocar os seus discípulos e convertê-los em apóstolos, ou seja, em enviados, para tirar o povo da situação deplorável em se encontrava por causa da violência, corrupção e indiferença dos detentores de poder na época, a religião oficial judaica e o império romano.
O discurso missionário é um conjunto de instruções e recomendações práticas para a missão. Se trata de advertências quanto ao modo de apresentar-se e comportar-se num mundo hostil aos valores do Reino dos céus. O desafio dos discípulos consiste exatamente em anunciar que “o Reino dos céus está próximo” (cf. 10,7) onde predomina o “anti reino”, ou seja, os projetos de morte e negação da vida, impostos por Roma e pela religião.

No final dos anos 70 do primeiro século, a comunidade de Mateus vivia situações de perigo e perseguição. Sabendo que é exatamente em situações assim que os valores do Reino precisam ser corajosamente anunciados, aquela comunidade resgatou as instruções que Jesus deu aos doze primeiros discípulos, atualizando e colocando por escrito, fazendo delas normas para as comunidades cristãs de todos os tempos e lugares do mundo. Foi nesse contexto que surgiu o Evangelho segundo Mateus.

Das tantas recomendações dadas por Jesus aos discípulos, a comunidade mateana recordou mais aquelas a respeito das perseguições e da necessidade de resistência da comunidade, para que, de fato, o Reino pudesse acontecer e as situações de sofrimento e opressão fossem transformadas em situações de paz, liberdade e vida em abundância.

No trecho escolhido pela liturgia de hoje, predomina exatamente o encorajamento: “Não tenhais medo dos homens, pois não há nada de encoberto que não seja revelado e nada há de escondido que não seja conhecido” (v. 26). A expressão “não tenhais medo” (em grego μη φοβηθητε – mé fobethete) ocorre três vezes no texto de hoje (versículos 26, 28 e 31), o que a constitui numa chave de leitura para todo o trecho: indica que coragem, testemunho e anúncio são inseparáveis. É também uma expressão muito usada em toda a Bíblia, compreendendo os dois testamentos. Está sempre relacionada a contextos de vocação e missão.

O medo é um mal do qual a comunidade cristã deve se libertar. O que havia de encoberto e escondido era o mistério do Reino, aquilo que até então somente os discípulos tinham aprendido com o Mestre, sobretudo o seu jeito de viver. Não se trata de planos secretos, como algumas interpretações propõe. A convivência com Jesus era muito enriquecedora para os discípulos e eles aprendiam muito com isso. Necessitavam, pois, de coragem para anunciar e revelar ao mundo a vivência da Boa Nova do Reino, o amor que emanava de Jesus e que os contagiava. O jeito de Jesus viver precisava ser conhecido por todos, não podia mais ser privilégio de um grupo pequeno ou de uma comunidade exclusiva. No entanto, como a vida de Jesus ia de encontro ao que os sistemas da época propunham, tornava-se arriscado para os discípulos anunciar e, principalmente, viver como Jesus vivia.

Uma comunidade amedrontada tende a fechar-se em si mesma e restringir o anúncio às quatro paredes e a grupos muito reduzidos de pessoas. Por isso, o apelo de Jesus: “o que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados” (v. 27). Jesus, condicionado à existência humana, não podia anunciar o Reino sozinho, por isso, convoc0u os doze e os enviou (cf. 10,1-8). A expressão “O que disse na escuridão”, portanto, significa aquilo que somente os discípulos viram e ouviram. Chegou o momento de tornarem público, anunciando sem medo e fazendo uso de todos os meios lícitos possíveis. 

“Proclamar sobre os telhados” é, de fato, o convite à criatividade e à eficácia: os discípulos não podem abrir mão de nenhum meio que possa fazer o Reino dos céus acontecer. As multidões violentadas e abandonadas (cf. 9,36) não podiam esperar que as condições dos discípulos melhorassem para chegarem até elas. A comunidade cristã deve, mesmo sendo perseguida, fazer de tudo, o possível e o impossível, para o anúncio de libertação e vida plena chegar a todos. 

Marginalizada pela sinagoga e por qualquer espaço oficial, a comunidade deve buscar meios alternativos para o anúncio do Reino acontecer, até os telhados, se for necessário. O importante é que a mensagem libertadora não fique restrita a um pequeno grupo, como se tratasse de um conhecimento teórico. O Evangelho é uma proposta de vida que deve ser comunicada a todos e todas sem exceção, independente das circunstâncias. Não há tempo a perder.

Como a maior necessidade da comunidade naquele momento era a coragem, Jesus exorta mais uma vez: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (v 28a). Pouco tempo antes, Jesus tinha alertado os discípulos de que eles seriam açoitados entregues às sinagogas e tribunais (cf. 10,17), por isso pede para que, mesmo assim, não tenham medo. De fato, quem tem medo da morte não está apto para o seguimento de Jesus. Quem faz experiência de comunhão profunda com Ele, “mesmo que morra, viverá” (cf. Jo 11,25). Os que matam não conhecem a vida em plenitude, pensam que a vida se restringe ao corpo. 

A oposição entre alma e corpo aqui é a distinção entre uma vida restrita à dimensão biológica (corpo) e uma vida plena (alma), uma vida com sentido, própria de quem vive os valores do Reino. Essa não ninguém a tira. Nada tem a ver com o dualismo grego corpo-alma. A alma (em grego ψυχη – psykê) para a comunidade de Mateus significa a totalidade do ser humano que encontra sentido para a vida na experiência de amor-comunhão com Jesus. 

O único temor que deve haver na comunidade cristã é “daquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno” (v. 28b). Essa é uma expressão ambígua. A quem ela se refere? Com certeza não é a Deus! O discípulo só deve ter medo de si mesmo. Deve ter medo de agir covarde e incoerentemente com a Palavra que anuncia. Em outras palavras, o discípulo de Jesus deve ter medo de ter medo. É o medo que destrói a vida. Inferno não significa apenas condenação eterna, mas significa também a inutilidade. A palavra grega que é traduzida por inferno (γεεννa – gheena) se referia ao lixão de Jerusalém, o qual mantinha um fogo permanente, em decorrência da quantidade de lixo que a cidade produzia. Era para lá que iam as coisas inúteis. Um discípulo medroso é tão inútil a ponto de ser comparado a essa realidade desprezível. 

Não é possível superar o medo sem confiança no Pai. Nesse sentido, Jesus usa dois exemplos de coisas aparentemente insignificantes: os pardais e o cabelo (versículos 29 e 30). Os pardais eram os pássaros comestíveis comercializados por menor valor, e o cabelo a unidade do corpo mais insignificante. Se até essas coisas são merecedoras da atenção do Pai, muito mais será a vida do discípulo que levar a sério o seguimento de Jesus e a missão de fazer o Reino dos céus acontecer na terra. 

A comunidade que levar a sério a mensagem de Jesus, superando suas dificuldades e medos, anunciando com determinação a chegada do Reino, transformando situações de morte em vida, terá, não como prêmio, mas como consequência, a certeza do testemunho do próprio Jesus diante do Pai (versículos 32 e 33). De fato, receber o testemunho de Jesus diante do Pai é a certeza de que a vida foi levada a sério. Levar a vida a sério e conduzi-la de acordo com o Evangelho é um ato de coragem. 

Que o Evangelho seja vivido corajosamente e anunciado com alegria!

Mossoró-RN, 24 de junho de 2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 9,36 – 10,8 (ANO A)


Com a retomada do tempo comum, retomamos também à leitura, quase contínua, do Evangelho segundo Mateus na liturgia dominical. Neste décimo primeiro domingo, o texto evangélico que a liturgia oferece é Mt 9,36 – 10,8. Se trata de um texto de transição entre uma seção narrativa e um discurso de Jesus. Por sinal, a alternância entre narrativa e discurso é uma característica da obra mateana.

O texto compreende, portanto, a conclusão da seção narrativa que seguiu-se ao discurso da montanha (9,36-38), e a introdução de um novo discurso (10,1-8), o chamado discurso missionário ou apostólico. Em seu conjunto, o texto mostra Jesus constatando uma situação e tomando iniciativa para transformá-la. Essa postura de Jesus deve ser a mesma da comunidade cristã em todos os tempos.

Consideramos importante recordar o versículo que antecede o nosso texto, para o compreendermos melhor: “Jesus percorria todas as cidades e povoados ensinando em suas sinagogas e pregando o Evangelho do Reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades” (9,35). Esse versículo sintetiza a missão de Jesus até então e, ao mesmo tempo, prepara o leitor para o que o texto de hoje irá apresentar: a continuidade e a extensão da missão de Jesus pela comunidade cristã.

Por se tratar de um texto relativamente longo, não nos deteremos na análise de cada versículo, mas procuraremos colher a mensagem global, embora seja imprescindível enfatizar alguns versículos específicos, como por exemplo, o de abertura do texto: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (9,36). É a partir dessa constatação que Jesus vai tomar iniciativa para transformar a realidade.

A itinerância da atividade de Jesus (cf. 9,35) lhe dava propriedade para ver em profundidade a situação de miséria das multidões. Sua visão das realidades não era superficial, mas muito real e profunda. Como a miséria é a privação da vida, Ele sabia que aquela situação era o maior entrave para a implantação do Reino. Portanto, era necessário transformá-la para o Reino ser implantado. Daí nascia o sentimento de Jesus diante do que contemplou nas multidões: “compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas”.

Compadecer-se é o mesmo que sentir compaixão. Não se trata de um mero sentimento, mas é algo muito mais profundo, é um “mexer-se por dentro”. O verbo grego usado pelo evangelista (σπλαγχνίζομαι splanknizomai) deriva de um substantivo que significa vísceras (σπλαγχνoν splanknon). Sentir compaixão é, portanto, contorcer-se nas entranhas, o núcleo mais profundo e íntimo do ser humano, conforma a mentalidade hebraica. Mais profundo até que o coração. É a expressão máxima da misericórdia do Pai.

O que fazia Jesus contorcer-se até as entranhas era a situação das multidões: “estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não tem pastor”. Não se trata de um simples cansaço físico, o qual poderia ser sanado com algumas horas de repouso. O evangelista usa uma palavra grega que se traduz melhor por molestadas ou violentadas (εσκυλμενοι eskilmemoi). E ao invés de abatidas, a melhor tradução seria dispersas ou abandonadas. Portanto, Jesus constata que o povo foi violentando e abandonado pelo poder dominante, religioso e político.

A comparação com “ovelhas que não tem pastor” reflete o grau máximo de abandono e de degradação do qual as multidões eram vítimas. E revela, ao mesmo tempo, a corrupção e hipocrisia dos dirigentes, causa principal da situação de miséria do povo. A imagem da ovelha é sinônimo de mansidão e vulnerabilidade; a ausência de um pastor que a conduza e proteja significa exposição aos perigos. Assim era a situação das multidões. É claro que a falta de pastores que cuidem das multidões é uma nítida crítica aos dirigentes religiosos, principalmente. Poderíamos recorrer a muitas passagens do Antigo Testamento e a outras do Novo para melhor fundamentar essa imagem. Preferimos não fazer isso para evitar um maior prolongamento.

Diante de uma situação de calamidade, vendo o povo ser violentado e completamente abandonado, Jesus não se conforma nem se desespera. Reforça sua confiança no Pai e pede a colaboração aos seres humanos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a colheita” (9,37-38). No discurso da montanha, Ele já tinha recomendado aos discípulos que confiassem no Pai através da oração (cf. Mt 6,4.9-15.26). Aqui novamente Ele recomenda.

Consciente de que a missão será árdua, a imagem da “messe grande” significa isso, Ele sabe que a confiança no Pai e o trabalho humano são indispensáveis e inseparáveis para que a vida violentada pelo sistema dominante seja restaurada. A comunidade cristã não pode se acomodar e esperar apenas pelo Pai, muito menos confiar somente em suas próprias forças. Jesus pede que essas duas dimensões se unam para o resgate da vida violentada.

Se algo tem que ser feito, deve começar pelos mais próximos. Por isso, “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (10,1). Diante da situação deplorável em que se encontrava o povo, Jesus toma uma atitude libertadora, estendendo aos discípulos as mesmas prerrogativas que recebeu do Pai. Não se trata de poderes extraordinários para operar milagres. Dar poder ou autoridade aos discípulos significa autorizá-los a fazer o mesmo que Jesus fazia (cf. 9,35). “Expulsar os espíritos maus, curar doença e enfermidade” é apenas uma figura de linguagem que evoca a responsabilidade da comunidade cristã: restituir a vida e a dignidade às pessoas que tinham sido espoliadas pelo sistema dominante político e religioso, principalmente.

De discípulos, os doze passam a ser apóstolos, conforme o evangelista menciona todos os nomes, de Simão, chamado Pedro a Judas Iscariotes (10,2). Não é uma lista hierárquica, bem como a introdução da designação de apóstolos não corresponde a uma “mudança de patente”. É apenas uma mudança de estado: de meros seguidores de Jesus a enviados. Até então, no discipulado, eles apenas assistiam ao que Jesus fazia. De agora em diante, Jesus os envia para que façam o mesmo. A designação de apóstolos (em grego αποστολοι apóstolos) não significa um título de honra, mas um estado: enviado, um estado de missão.

Quando o evangelista diz que “Jesus enviou esses doze com as seguintes recomendações: ‘Não deveis ir aonde moram os pagãos nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!”, ele não está demonstrando nenhuma condição privilegiada de Israel, nem reforçando a exclusão dos samaritanos e pagãos. Israel não recebe o anúncio do Reino por ter sido o primeiro destinatário das promessas de Deus. É um grande equívoco imaginar que o Evangelho segundo Mateus visa a restauração do antigo Israel. Pelo, contrário, é o Evangelho que mais evidencia a ruptura da comunidade cristã com a religião judaica.

Quando ele apresenta “as ovelhas perdidas da casa de Israel” como destino primeiro da missão da comunidade cristã, ele está dizendo que, ao invés de privilegiado, Israel é o mais necessitado da Boa Nova e, portanto, da libertação. De todas dominações, a pior é a religiosa. Os samaritanos e os pagãos estavam, assim como os judeus, sob o domínio político do império romano, mas não submetidos ao templo de Jerusalém. O império romano será contestado também, obviamente. Porém, é mais urgente libertar o povo da dominação e alienação religiosa. Além do domínio político de Roma, os judeus sofriam também com a dominação religiosa, muito mais danosa que o império romano. Se o povo estava violentado e abandonado, a culpa principal era da religião, graças aos abusos e omissões daqueles que deveriam agir como pastores.

O conteúdo do anúncio não deve ser outro: é apenas o advento do “Reino dos céus” (em grego βασιλεια των ουρανων basileia ton uranon). De fato, o Reino dos céus, o qual se manifesta como vida em plenitude, justiça, solidariedade, amor e inclusão é o único antídoto e resposta aos reinos deste mundo. Esse Reino não pode ser imaginado como um evento futuro, porque é no presente que as multidões são mutiladas e maltratadas, exploradas e privadas de vida e dignidade.

Os discípulos, convertidos em apóstolos, são enviados na gratuidade e no amor, para recuperarem a vida ameaçada e explorada. Por isso, devem ser promotores da libertação, como pede Jesus. Não cumprindo gestos mágicos ou fantasiosos, mas sendo sinais de vida, com atuação profética e cristã.

Ainda h0je, são muitos os males que impedem a realização plena do Reino dos céus já aqui. A comunidade cristã é chamada, assim como fez Jesus, a olhar para as multidões, perceber suas necessidades e intervir para transformar. Isso só será possível se a Igreja se colocar cada vez mais em estado de saída, pois somente saindo de si é possível ver a necessidade do outro!


Mossoró-RN, 17 de junho de 2017, Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues 
ler notícia ›