sábado, maio 13, 2017

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 14,1-12


Neste Quinto Domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece João 14,1-12 como texto do evangelho. Trata-se de um trecho do amplo discurso-testamento de Jesus na última ceia com seus discípulos, apresentado nos capítulos 13–17 do Quarto Evangelho. É importante recordar o que antecede o nosso texto para o compreendermos melhor. Em primeiro lugar, insistimos que, mais que uma simples degustação de comidas, a ceia é um momento de catequese, diálogo transparente, sincero e amável entre os participantes, no caso, Jesus e seus amigos.

Há quatro momentos importantes acontecidos na ceia que antecede o texto da liturgia de hoje: o lava pés ou o mandamento do serviço (cf. 13,1-15), o anúncio da traição de Judas (cf. 13,21-30), a entrega do mandamento do amor (cf. 13,31-35), e o anúncio da negação de Pedro (cf. 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (cf. 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como fim. Portanto, aquela ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperá-lo com a continuidade do seu discurso, tenta tornar suportável para seus discípulos a realidade de sua despedida, de seu adeus.

Podemos compreender a inquietação e a incompreensão dos seguidores de Jesus narrada por João. Por acusa desse mal-estar, Jesus pede: “Não se perturbe o vosso coração” (v. 1a). A palavra coração, no grego (h` kardi,a – hé kardia), encontra-se no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé; é o coração da comunidade que crê que deve estar tranquilo e não cada coração individualmente. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode abrir mão de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e mandamento. Mais que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Que esta estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões, já era sabido. Ele já havia confidenciado que havia entre eles um traidor, Judas, e um covarde, Pedro (cf. 13,21-30; 36-38), embora Judas já tivesse saído do ambiente da ceia, conforme relatado em 13,30.

O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus; por isso, ele pede que os discípulos renovem a adesão naquele que acompanharam até o momento derradeiro: “Tende fé em Deus, tende fé em mim também” (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao evangelho de João e aparece em todo o texto: o evangelista usa cinco vezes o verbo grego pisteu,w – pistêuô,  que significa confiar, acreditar ou ter fé (cf. vv. 1.11.12). O número cinco não é à toa; é o número da Torah. Não estaria João dizendo aos seus seguidores que a confiança deles deveria mudar de foco, que ele próprio é a Torah e que eles não precisavam mais das tábuas da Lei mas da Nova Lei (seu evangelho), inscrita em seus corações pelo Espírito? A fé da comunidade estava abalada: como confiar em um mestre que se fez escravo e lavou os pés de todos? (cf. 13,1-15). Para quem alimentava as esperanças messiânicas tradicionais, como Pedro, o gesto do lava-pés era inconcebível (cf. 13,6-9). Portanto, o que Jesus pede a eles é uma fé renovada e ressignificada, o que também é exigido de nós, discípulos de hoje.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga, o templo, fora transformada em casa de negócio (cf. Jo 2,16). Por isso, a afirmação categórica e firme: “Na casa do meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós” (v. 2); essa é, sem dúvidas, uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos pela tradição cristã católica, principalmente. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada eterna, nem o prometendo aos seus discípulos. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas.

No templo de pedras, a antiga casa do Pai, havia uma única morada; as pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar em espírito e em verdade (cf. Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (cf. Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Ao invés de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: “voltarei e vos levarei comigo, afim de que onde eu estiver, estejais também vós” (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo levá-los para o céu, mas dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será casa do Pai quando nela vigora a lei do amor e sua aplicação prática, o serviço.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho (v. 4) ou método para todo esse processo de ida-retorno-presença, ou seja, morte-ressurreição, melhor traduzido por amor-doação. No entanto, a incompreensão persiste neles, embora somente Tomé seja sincero o suficiente para confessar a ignorância: “Tomé disse a Jesus: Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (v. 5). Como sempre, a sinceridade de Tomé se torna notável, apesar do equívoco. De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade; ele vê a morte como fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado no episódio da reanimação de Lázaro: “Nós iremos para morrer com ele” (Jo 11,16).

À pergunta de Tomé, Jesus responde reivindicando a condição divina para si, acompanhada de três predicados e reforçando a certeza de que Ele é o único mediador entre Deus e a humanidade: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v. 6). “Eu sou”, em grego evgw, eivmi – egô eimí, é a fórmula típica da auto revelação de Deus ao longo da história (cf. Ex 13-15) e aplicada a Jesus no Quarto Evangelho. A tríplice predicação parece enigmática, mas na verdade é simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve uma regra, não estabelece uma lei nem deixa uma doutrina; as dúvidas nos discípulos surgem daí. Para simplificar, Jesus diz que é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa.

Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus apenas diz que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa; o itinerário a ser percorrido é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é o seu ensinamento e a vida a ser vivida é aquela que Ele deu em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida, em grego o`do.j – hodós, avlh,qeia – aletéia, e zwh, – zoé, respectivamente. Certamente, Jesus pensou no sentido prático dos termos: sem Ele a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai.

Como a unidade entre Jesus e o Pai já foi ressaltada na certeza das moradas em sua casa (vv. 2-3), e na sua resposta a Tomé, não nos prenderemos tanto à pergunta de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (v. 8). A resposta de Jesus mostra uma espécie de lamentação pela falta de conhecimento do Pai nos discípulos, considerando que tudo o que fizera até então fora mostrar o rosto do Pai através dos sinais realizados e, sobretudo, do amor transmitido. Por isso, a repreensão: “Há muito tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai.” (v. 9). É claro que as vozes de Filipe e Tomé representam a voz da comunidade toda.

A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades de hoje também. É perceptível que o Quarto Evangelho concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. Em João, discípulos secundários para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, tem um certo protagonismo (cf. 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo, o discípulo amado. Essa observação nos leva a concluir que, para a tradição joanina, o modelo de organização não está baseado em uma relação hierárquica, mas fraterna, tendo como base única o amor.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 11). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica em compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (cf. Jo 10,10).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, maio 06, 2017

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DE PÁSCOA – JOÃO 10,1-10


No IV Domingo da Páscoa, a liturgia da Palavra sempre adota um trecho do décimo capítulo do Quarto Evangelho, o que justifica o título de “Domingo do Bom Pastor”, embora possa o mesmo ser questionado, uma vez que leva muitos a confundirem a figura joanina do pastor com aquela usada por Lucas em uma das parábolas da misericórdia (cf. Lc 15,1-7). Para a comunidade joanina, o pastor é, sobretudo, aquele dá liberdade, aponta caminhos e, portanto, jamais alguém que conduz uma ovelha nos ombros, símbolo da dependência e privação da liberdade.

Neste ano, ano A do ciclo litúrgico, o texto adotado é João 10,1-10, a primeira parte do capítulo décimo, o qual não pode ser compreendido se não em relação com o capítulo anterior. Ora, o capítulo nono fora concluído com a corajosa denúncia de Jesus à cegueira dos fariseus, no caloroso conflito gerado em decorrência da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida, desmascarando-os.

A fórmula de introdução empregada pelo autor, em grego VAmh.n avmh.n – amém, amém, equivocadamente traduzida por “Em verdade, em verdade” (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus como uma chamada de atenção para o que será dito. Logo, o conceito de pastor apresentado em Jo 10 é vital para a comunidade joanina, algo que não pode ser esquecido.
À introdução solene, segue a declaração: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores, os fariseus (cf. 9,40-41); aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrão e bandido.

Como sempre, a tradução do texto litúrgico deixa a desejar: ao invés de redil, o termo mais apropriado seria átrio, correspondente ao termo grego usado pelo evangelista auvlh. – aulê; aqui, não se trata de curral, mas do átrio interno do templo de Jerusalém; outra incoerência da tradução é o uso do termo assaltante; o texto original traz o termo grego lh|sth,j – lestês, o qual designa “bandido”, aquele que assalta e faz uso da violência. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia.

As denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar “a casa do Pai em uma casa de negócio” no início do Evangelho (cf. 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta.

Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, Jesus “entra pela porta e, portanto, é o pastor das ovelhas” (v. 2). De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para, de fato, comunicar-se com as ovelhas, o povo. A Jesus, o único pastor autêntico, “o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3); é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho, não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso, mesmo que esse se autodenomine cristão. Assim como a comunidade joanina, também as de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem repulsar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico “chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3), ou seja, não trata o povo como massa, mas o tira do anonimato, valorizando a cada um em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz; o evangelista usa aqui o verbo grego evxa,gw – exagô, o mesmo verbo do êxodo. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão maligna quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, “ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para começar a dominar também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele “caminha à frente” e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica.

Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga religião, Jesus não propõe nenhuma forma de poder para sua comunidade; Ele quer apenas que essa seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado em seu nome. Por isso, Ele não tira o povo do sistema religioso judaico para inserir em um outro sistema, mas para a liberdade.
Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (cf. 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, “não entenderam o que Jesus queria dizer” (v. 6) com essa comparação. Embora a versão litúrgica afirme, não se trata de uma parábola, mas de uma comparação apenas, como consta no texto grego, o qual aplica o termo paroimi,a – paroimía, que quer dizer apenas comparação.

Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (cf. 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta (v. 7). De fato, como único mediador entre a humanidade e o Pai, Ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois é Ele e seu Evangelho o critério único de pertença ao Pai. A denúncia aos que se auto intitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema (v. 8); esses estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida que a voz de Jesus vai sendo ouvida, através do Evangelho.

À medida que repete sua autoafirmação como “a porta”, em grego h` qu,ra -  hé thyra, (v. 9), Jesus ressalta a falência da instituição religiosa; como o Evangelho e a lei são inconciliáveis, e “só será salvo quem entrar por Ele”, porque somente assim alguém poderá “entrar e sair”; aqui, Ele apresenta o grau máximo de liberdade, ou seja, só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por Ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, oposição à lei que aprisionava e até matava. A pastagem que se encontra quando passa por Ele é a liberdade e a vida plena e abundante que Ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona e da qual a lei privava o ser humano. Não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser humano em sua vida neste mundo.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de moral e doutrina pré-concebidos, mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam estão de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, abril 30, 2017

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DE PÁSCOA – LUCAS 24,13-35


A liturgia da Palavra deste III Domingo da Páscoa nos oferece o texto evangélico de Lucas 24,13-35. Esse é, sem dúvidas, um dos textos mais conhecidos de todo o Novo Testamento. Trata-se da narrativa da experiência do encontro de dois discípulos com o Cristo Ressuscitado no caminho de retorno de Jerusalém para um povoado chamado Emaús. Daí o título popular atribuído a esse episódio de “Os discípulos de Emaús”. É um texto bastante atrativo para o leitor, devido à sua vivacidade narrativa, à beleza literária e riqueza teológica.

Esse é um texto exclusivo de Lucas, e funciona como síntese e conclusão do seu Evangelho: síntese porque resume a dinâmica de Jesus e seu discipulado em todo o Evangelho, ou seja, a dinâmica do caminho, tema central da teologia lucana, desde a caminhada de Maria ao encontro com Isabel, (Lc 1,39-45) até a longa viagem de Jesus com os discípulos para Jerusalém (Lc 9,51 – 19,44); conclusão porque culmina com o encontro da comunidade com o Ressuscitado e o cumprimento da missão de anunciá-lo (24,33-35). Podemos dizer que, com esse episódio, Lucas conclui o Evangelho e, ao mesmo tempo, antecipa a sua segunda obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.

O texto é iniciado com um indicativo temporal importante: “Naquele mesmo dia, o primeiro da semana” (v. 13a); o evangelista faz questão de apresentar momentos diferentes de um mesmo dia: a ida das mulheres ao sepulcro nas primeiras horas (24,1), e depois a ida de Pedro (24,12) e, no final do dia, a viagem dos dois discípulos, conforme o nosso texto, até o encontro fraterno dos Onze e os demais discípulos (24,33ss). Portanto, o dia do acontecimento é o dia mesmo da Páscoa, o domingo da ressurreição.

Infelizmente, o texto litúrgico apresenta uma deficiência logo no início: a ausência da expressão “Eis que”, presente no texto original; a partícula grega ivdou. – idú, com a qual Lucas abre esse episódio, indica a importância do que vem a ser narrado, é um modo de chamar a atenção do leitor e, infelizmente, o texto que da liturgia omite. Assim, a expressão mais apropriada para abrir o texto seria: “Eis que que naquele mesmo dia...”, pois, além de enfatizar a importância do relato, o relaciona com os outros acontecimentos do mesmo dia.

Na sequência, diz o texto que “dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (v. 13); essa expressão nos traz informações muito importantes: se dois discípulos tinham saído de Jerusalém, e quando voltam encontram os Onze reunidos (v. 33), logo, o grupo de discípulos era muito mais vasto que o grupo dos apóstolos propriamente ditos. Ao apresentar esses dois, Lucas resgata a grande missão dos setenta e dois, quando Jesus os enviou dois a dois (cf. Lc 10,1-20). Esse é mais um passo em preparação aos Atos dos Apóstolos e um modo de dizer que a missão não é monopólio dos Doze menos um (os Onze após a saída de Judas), mas é aberta, inclusiva e universal.

Os dois discípulos “iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (v. 13); após toda uma vivência com Jesus, o retorno ao povoado é sinal de incompreensão e decepção, pois o povoado significa o fechamento de mentalidade, é o lugar onde o que vale é aquilo que está na Lei. O nome Emaús significa “gente desprezada”; esse povoado teve importância no tempo dos macabeus, pois fora palco de uma batalha dos judeus liderados por Judas Macabeu contra os pagãos, e vencida pelos judeus (cf. 1Mc 3,40 – 4,27). Por isso, Lucas enfatiza esse povoado como antítese ao seu projeto missionário: em Emaús se cultivava o ideal tradicional e triunfalista do judaísmo; logo, não era lugar para os discípulos de Jesus!

Nesse texto, Lucas preserva e reforça a função pedagógica do caminho na sua teologia: “Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido” (v. 14). Caminhar é aprender e ensinar; mais que percorrer uma distância, é a busca de um ideal. Obviamente, para quem tinha seguido Jesus, o assunto não poderia ser outro senão os últimos acontecimentos da sua vida. Caminhavam tristes, certamente discutiam sobre as esperanças perdidas e os sonhos frustrados, como gente que perdeu tempo seguindo a um fracassado que morreu na cruz; tudo isso fica claro na conversa a três, quando Jesus surge no caminho e passa a interagir com eles.

A presença de Jesus não é reconhecida de imediato, o que se explica pela cegueira recordada pelo evangelista (v. 16). Obviamente, não se trata de uma cegueira física, o que os impediria de caminhar sozinhos; é uma cegueira de mentalidade. É interessante perceber que, embora desiludidos e decepcionados, aqueles discípulos falavam de Jesus e tinham um bom conceito a seu respeito: “foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (v. 19); portanto, não estão longe da verdade. Lamentam ter que voltar ao “povoado”, pois já sabem que o mal está na tradição quando afirmam com muita clareza que foram “os sumos sacerdotes e os chefes que o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram” (v. 20); por isso, não querem mais submeter-se a ela. Outra característica da teologia lucana é aqui evidenciada: a responsabilidade dos judeus na morte de Jesus, praticamente inocentando o império romano.

O motivo da decepção e do não reconhecimento de Jesus em seu meio está na concepção equivocada de messias: eles “esperavam que Jesus fosse libertar Israel” (v. 21); ora, Jesus não veio ao mundo para libertar Israel, mas a humanidade inteira! Essa mentalidade equivocada só pode ser corrigida com uma boa revisão da Escritura, como faz o próprio Jesus: “E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (v. 27); é necessário abrir o horizonte da consciência para compreender e aceitar que a mensagem libertadora de Jesus é universal, e não destinada a um único povo. Essa revisão da Escritura não é tudo, mas é um passo importante no processo de reconhecimento do ressuscitado; a ela, deve-se acrescentar a experiência comunitária da partilha, da comunhão de mesa, como se dará, finalmente (vv. 30-31).

Mesmo não reconhecendo ainda a presença do ressuscitado, os discípulos parecem não ter perdido completamente a esperança; na verdade, a esperança parece que começou a renascer dentro deles depois que o forasteiro começou a caminhar com eles, tanto que “imploram” que permaneça com eles: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” (v. 29); ao invés do verbo “insistir” trazido pelo texto litúrgico, o mais apropriado seria “implorar” ou “forçar”, mais próximos do sentido de intensidade que o verbo grego, presente no texto original exprime: parebia,zomai – parabiazomai. Portanto, os discípulos perceberam que não podiam ficar sozinhos no povoado e, por isso, imploraram que o forasteiro permanecesse com eles, porque daquela conversa, a esperança estava voltando; por isso, querem evitar o retorno às trevas da vida no povoado, que significa o retorno ao julgo da lei. A expressão “a noite vem chegando” não é um dado cronológico, mas teológico: é a vida fechada, sem perspectivas e esperanças, da qual eles tinham saído e não queriam mais voltar.

Jesus, ainda como forasteiro, atende aos discípulos que imploram a sua presença e senta-se com eles à mesa (v. 30). A refeição tem um sentido muito profundo no Evangelho de Lucas e é, portanto, necessário perceber essa importância para não reduzirmos esse texto a uma mera descrição de uma celebração eucarística, como muitas interpretações reducionistas tem feito.

Ao longo de todo o Evangelho, Lucas apresentou Jesus sentando à mesa com pessoas de diferentes classes sociais e religiosas: fez refeição na casa de um fariseu de nome Simão (cf. 7,36-50); outra vez foi na casa de um dos chefes dos fariseus (cf. 14,1-6); ao hospedar-se na casa de Zaqueu, pecador público, também se sentou com ele à mesa e fez refeição (cf. 19,1-10). É necessário, pois, ter em mente que a mesa-refeição é, ao longo de todo o Evangelho de Lucas, um espaço-momento de revelação da identidade de Jesus, pois significa, partilha, fraternidade, companheirismo e acolhida.

Como tinham sido profundamente incomodados pela explicação da Escritura que Jesus tinha dado, o que os levou a uma revisão de conceitos e de compreensão da mesma, faltava pouco para seus olhos abrirem-se, ou seja, para saírem definitivamente da situação de trevas em que se encontravam. E, foi, portanto, a experiência da partilha que proporcionou a certeza da presença do ressuscitado no meio deles.

Essa é a resposta que Lucas quis dar às suas comunidades: o Ressuscitado está presente no dia-a-dia, quando a comunidade caminha, reflete a Palavra, partilha a mesa e dialoga; são essas as ocasiões propícias para a comunidade abrir os olhos (v. 31a). Quem segue esses passos, já não necessita mais de uma visão ou aparição (v. 31b). Finalmente, como último passo de uma comunidade que faz a experiência do encontro com o Ressuscitado, Lucas apresenta a missão, tema caro para a sua teologia e que será mais desenvolvido no livro dos Atos dos Apóstolos, antecipado no Evangelho de hoje pela iniciativa dos discípulos: “se levantaram e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Para Lucas, Jerusalém não significa chegada, mas o ponto de partida da missão universal.

Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados por Lucas a fazer um esforço constante de reconhecimento do ressuscitado, percebendo sua presença na comunidade para que jamais falte esperança, amor, partilha, solidariedade e companheirismo. Para isso, é necessário caminhar, aprofundar no conhecimento da Escritura e viver, acima de tudo, a partilha. De fato, o critério básico de reconhecimento da experiência com o Ressuscitado é a partilha do pão; essa, não pode ser reduzido a um rito ou gesto, mas deve ser a práxis da comunidade.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, abril 23, 2017

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 20,19-31


No segundo domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece João 20,19-31 como texto evangélico. É o relato da situação da comunidade nos dois primeiros domingos e, portanto, um dos textos mais conhecidos do Quarto Evangelho, pois é a continuidade da narrativa da experiência da comunidade dos discípulos no primeiro dia da semana, o domingo da ressurreição e, ao mesmo tempo, a quase repetição da mesma experiência uma semana depois, quando entra em cena Tomé, o discípulo rotulado injustamente de incrédulo.

Esse texto é também a conclusão do Evangelho segundo João (v. 31), uma vez que o capítulo seguinte é um acréscimo posterior. Não analisaremos cada versículo, e sim o texto em seu conjunto, embora seja necessário destacar alguns versículos específicos.

O primeiro versículo diz: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, entrou Jesus e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco” (v. 19). O dia em questão é aquele primeiro, o mesmo em que Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado foram ao túmulo logo no início da manhã (cf. Jo 20,1). A reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma natural dispersão.

Embora se recompondo, a comunidade estava em crise, o que se evidencia, sobretudo, pela situação de medo informada pelo evangelista. Esse medo é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns, uma vez que não havia ainda nenhuma perseguição da parte dos judeus, pois a ressurreição ainda não se confirmara. O medo é, portanto, a ausência do Senhor; sem a presença do Ressuscitado, toda comunidade perece.

Jesus se manifesta na comunidade reunida, colocando-se no meio dos discípulos e inicia neles o processo de transformação com o primeiro antídoto ao medo: a paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade, aparentemente, fracassada. Ressuscitado, Jesus reforça também o modelo de comunidade sonhado e praticado durante a sua vida: uma comunidade livre, igualitária, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio.

Na continuidade da experiência, Jesus mostra as mãos e o lado (v. 20a), ou seja, as marcas do sofrimento e do flagelo da cruz, garantindo a continuidade entre o crucificado e o ressuscitado. Com isso, Ele diz que a cruz não foi o fim e, assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o motivo da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. A cruz não foi um acidente nem algo a ser esquecido pela comunidade; pelo contrário, foi consequência de suas opções, e as opções da comunidade devem ser as mesmas dele. Portanto, é necessário que os discípulos estejam habituados com a cruz.

A reação dos discípulos ao verem o Senhor foi de alegria (v. 20b), e essa deve ser uma característica marcante da comunidade que vive e celebra a presença do ressuscitado. De uma situação de medo, a comunidade passa à alegria, como consequência da experiência com o ressuscitado.

A paz é novamente oferecida, muito mais que desejada (v. 21a). Só é possível viver plenamente os dons pascais com a paz oferecida por Jesus. Aqui, não podemos imaginar a paz como uma simples tranquilidade ou alívio, mas como sinal de liberdade e vida plena, e como capacidade de assumir as consequências das opções feitas. Em seguida, os envia, como fora Ele mesmo enviado pelo Pai (v. 21b). Sendo portadores da sua paz, seus discípulos são enviados com as mesmas credencias, pois Ele os envia como o “Pai o enviou” e, portando, devem fazer as mesmas opções e consequências.

Em seguida, Jesus confere à comunidade o mais sublime dos dons, conforme prometera durante na última ceia, o Espírito Santo, o Paráclito (cf. Jo 14,16.26; 15,26), o qual sustentará a comunidade enviada (v. 22). O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, é muito importante que o versículo 23 seja bem compreendido.

“A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23); por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão, equivocadamente. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do ressuscitado a todas as pessoas e de todos os lugares. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o ressuscitado e, portanto, amar e perdoar sem medida.

Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus. Jesus confere à comunidade essa responsabilidade árdua de fazer-se presente, pois dessa presença depende o bem da humanidade. Os pecados são perdoados à medida que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou.

A comunidade não estava completa naquele primeiro dia: como Judas não fazia mais parte do grupo, faltava Tomé, como atesta o texto (v. 24). É necessário destacar algumas características desse discípulo, considerando que o mesmo foi, injustamente, rotulado negativamente pela tradição. O motivo pelo qual os discípulos estavam reunidos a portas fechadas era o medo; ora, se Tomé não estava com eles é porque não tinha medo e, portanto, circulava livremente e sem temor algum; era, portanto, um discípulo corajoso, ao contrário dos demais.

A evidência maior da coragem de Tomé aparece no episódio da reanimação de Lázaro. Jesus já tinha sido alvo de diversas ameaças e tentativas de assassinato pelos judeus; quando decide ir à Galileia, onde ficava Betânia, Tomé foi o único a dispor-se a ir para morrer com Jesus (cf. Jo 11,16). Por isso, não ele tinha nenhum motivo para esconder-se dos judeus. Essa sua coragem foi ofuscada pelo rótulo inadequado de incrédulo.

Quanto à fé no ressuscitado, a diferença de Tomé para os outros dez deve-se a apenas ao intervalo de uma semana. Não estava reunido no primeiro dia e não acreditou no testemunho da comunidade. À exceção do Discípulo amado, o qual viu e acreditou ao contemplar o túmulo vazio (cf. Jo 20,8), os demais também só acreditaram após a manifestação do Senhor no meio deles. Nenhum deles acreditou no testemunho de Maria Madalena; esperaram o Senhor aparecer.

Quando, assim como os demais, Tomé teve certeza da ressurreição, superou a todos na intensidade e convicção da fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28); essa é a mais profunda profissão de fé de todos os evangelhos. Jesus já tinha sido reconhecido como Senhor, como messias, Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus, mas como Deus mesmo, essa foi a primeira vez.

A propósito, chamamos a atenção para um detalhe que não pode passar despercebido: diz o evangelista que Tomé era chamado Dídimo, em grego  Di,dumoj – dídimos, cujo significado é gêmeo. Isso significa um convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a tomarem Tomé como irmão gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto. É claro que se estivesse com a comunidade logo no primeiro dia, ele teria antecipado a sua profissão de fé.

A bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto” (v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, após a morte da maioria dos apóstolos. Os novos cristãos da comunidade joanina eram muito questionadores e chegavam a duvidar do anúncio. Por isso, o evangelista quis responder a essa necessidade.

A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado. O intervalo de uma semana para a manifestação do Senhor é sinal de que devemos desconfiar das tantas revelações e aparições contadas nos dias atuais.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, abril 16, 2017

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DA RESSURREIÇÃO – JOÃO 20,1-9



O texto evangélico que a liturgia propõe como primeira opção para o Domingo de Páscoa é João 20,1-9. Ao contrário da paixão e da morte, as quais são descritas minuciosamente pelos evangelhos, nenhuma descrição da ressurreição é feita, o que pode parecer estranho, considerando que é a ressurreição o evento fundante do cristianismo e o centro da fé cristã. Foi exatamente por causa da ressurreição que os evangelhos foram escritos e, mesmo assim, seus autores não conseguiram descrevê-la.

O nosso texto, Jo 20,1-9, é apenas a introdução do que o Quarto Evangelho dedica à Ressurreição: a descoberta do sepulcro vazio, o que pode significar muito ou quase nada, a depender de quem faz a constatação. Três personagens entram em cena: Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado; o número três já é, por si, um bom indicativo teológico: é uma comunidade, a qual encontra-se profundamente abalada, devido ao final trágico de seu líder, mas que vai, aos poucos, sendo recomposta.

O primeiro versículo é bastante significativo, pois apresenta o verdadeiro retrato da comunidade antes de vivenciar a experiência da ressurreição: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (v. 1). O “primeiro dia” é o dia seguinte ao sábado, o último dia; isso quer dizer que a comunidade ainda estava apegada à lei, cumprindo o repouso sabático; a observância da lei atrasa a experiência da ressurreição que é, na verdade, a nova criação que se instaura. Portanto, a ressurreição não se deu exatamente no domingo, o primeiro dia da semana, mas foi nesse dia que a comunidade começou a despertar e fazer a experiência de encontro com o Ressuscitado.

Após cumprir a lei do repouso, “Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro” (v. 1). Embora o texto joanino registre apenas a ida de Maria Madalena, é mais provável que tenha sido um grupo de mulheres, como consta nos sinóticos (cf. Mt 28,1; Mc 16,1; Lc 24,1). Ir ao túmulo é a atitude de quem acredita que a morte triunfou, pois o túmulo é a morada dos mortos, é um depósito de cadáver. A comunidade vai ao túmulo por reverência a Jesus e para chorar a sua morte.

O indicativo temporal “bem de madrugada” e seu complemento “quando ainda estava escuro” significam muito mais que um dado cronológico; é na verdade o indício da mentalidade da comunidade. O evangelista usa a palavra grega  skoti,a – skotia, cujo significado é trevas; por isso, a tradução mais adequada seria “de manhã cedo, ainda em trevas”; essa situação de trevas não se deve à ausência da luz física, mas significa que a vida não está triunfando na comunidade, ou seja, a morte está prevalecendo.

Enquanto observa a lei, como o repouso sabático, a comunidade permanece cega e incapaz de perceber os sinais do ressuscitado. A cultura da morte está tão presente na mente dos discípulos que nem mesmo a pedra do túmulo removida é suficiente para animá-la. De fato, a remoção da pedra e a suposta ausência do corpo de Jesus causa preocupação e espanto, ao invés de alegria. Por isso, Maria Madalena correu para comunicar a Pedro e ao Discípulo Amado: “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram” (v. 2b). Nessa fala da Madalena vem expressa a completa falência da comunidade: sentem a falta de um cadáver; querem saber onde está o corpo morto para reverenciá-lo e chorar junto dele.

Com o aviso de Maria Madalena, também Pedro e o Discípulo Amado tomam a iniciativa de ir ao túmulo para conferir a veracidade da informação (v. 3), uma vez que a palavra de uma mulher não era digna de credibilidade naquela sociedade. Afirma o texto que “Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo” (v. 4), o que revela o grau de desânimo de Pedro após ter sido tão incoerente com o Mestre na fase final de sua vida: opôs-se a ele na ceia, no momento do lava-pés (cf. 13,6-8), e o negara durante o processo (cf. 18,15-27).

A pressa do Discípulo Amado revela sua fidelidade, testada e comprovada aos pés da cruz (cf. 19,25-27), característica da pessoa amada; somente quem fez a experiência do amor com o Senhor é capaz de opor-se ao clima de morte reinante na comunidade. Ele chegou primeiro e comprovou que a informação da Madalena era verídica: “viu as faixas de linho no chão, mas não entrou” (v. 5).

O Discípulo Amado, embora tenha chegado primeiro, espera que Pedro também chegue e faça ele mesmo a sua experiência (v. 6-7). Tendo entrado no túmulo, Pedro comprova a ausência do corpo de Jesus e, certamente, faz uma longa reflexão a respeito de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Isso se atesta pelo uso do verbo grego qewrew – teorêo, que significa mais que simplesmente ver, mas contemplar; desse verbo origina-se a palavra teoria, como consequência de uma observação profunda.

Depois de Pedro, entra também o Discípulo Amado no túmulo. Tendo chegado primeiro, poderia ter entrado logo, mas preferiu esperar que Pedro chegasse e entrasse logo. Não se trata de preeminência, uma vez que na comunidade joanina não havia espaço para hierarquia; era na verdade uma questão de necessidade: quem, de fato, necessitava de uma experiência forte era Pedro, pois, depois de Judas, foi aquele que mais fracassou. Já o Discípulo Amado tinha feito uma experiência autêntica com o Senhor, por isso, “viu e acreditou” (v. 8); não se deixou vencer pelos sinais de morte vistos dentro do túmulo, mas reforçou ali a sua fé.

Para Pedro, será necessário um pouco mais de tempo, pelo menos algumas horas, para convencer-se de que o Senhor ressuscitou e vive. Mas, os sinais estão apontando para isso: interiormente, ele já estava “teorizando” sua fé, reconstruindo-a lentamente, uma vez que os acontecimentos do lava-pés ao julgamento de Jesus foram muito fortes e deixaram suas expectativas bastante comprometidas.

É o conhecimento da Escritura que, gradativamente, vai habilitar a comunidade à crença na ressurreição (v. 9). A fé de Pedro, de Maria Madalena e dos demais será reformulada aos poucos, a cada “primeiro dia” quando reunirem-se para a comunhão fraterna. Só crê num primeiro momento quem ama e sente-se amado, como aquele Discípulo sem nome, ao qual o evangelista quer que todos os seus leitores se assemelhem! Assim, concluímos voltando para o nosso início: a ressurreição não pode ser descrita, pode apenas ser experimentada. Para isso, é necessário fazer a experiência do amor profundo!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

quinta-feira, abril 13, 2017

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA – JOÃO 13,1-15



Na Quinta-Feira Santa, somos convidados pela liturgia da Palavra a refletir, meditar e compreender o rico texto joanino da cena do lava-pés: João 13,1-15. Não temos dúvidas de que essa é uma das passagens mais significativas de todo o Quarto Evangelho, e que marcou o cristianismo desde as suas origens. A princípio, pode nos causar espanto a distância entre João e os demais evangelhos quando o assunto é a última ceia de Jesus com seus discípulos.

Ao contrário dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) que dedicam poucos versículos à última ceia, João dedica nada menos que cinco capítulos: 13 – 17; é uma longa e profunda catequese ministrada com gestos e palavras, numa espécie de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, distintivos do cristão e da comunidade. Não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do vinho; por sinal, a menção ao pão é feita apenas na descrição da traição de Judas (cf. 13,17.26.27.30).

A ausência do tema do pão na última ceia pode ser explicada pelo fato de que João já havia apresentado esse tema em outra ocasião: após a multiplicação dos pães (cf. 6,1-15), o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus apresentando-se como o “pão da vida” (cf. 6,26-66); portanto, não havia mais necessidade, pois, a sua “catequese eucarística” já tinha sido feita.

O que mais chama a atenção no texto que hoje devemos refletir é o gesto de Jesus lavando os pés dos discípulos. O texto inicia-se com um indicativo teológico-temporal importante: “Antes da festa da Páscoa” (v. 1a). O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com os seus discípulos, mas quer apenas diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus não é mais a mesma do templo; celebrando antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois pelos praticantes da antiga religião, não vale mais nada, está vencida, caduca. Na Páscoa do templo, o centro é a morte, a imolação dos cordeiros, enquanto a Páscoa de Jesus celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais visível das manifestações do amor.

Ao longo de todo o Evangelho, João cria um clima de suspense em relação à “Hora de Jesus” (cf 2,4; 12,23). Pois bem, essa hora chegou! É a hora de “glorificar” ao Pai... o Pai que não se sentia glorificado pelo falso culto prestado no templo de Jerusalém, recebe de Jesus o verdadeiro culto: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1c). O amor de Jesus pelos seus é ilimitado e, por isso, “até o fim”, em grego  eivj te,loj – eis télos, significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou-os de modo extremo e continua amando, uma vez que continua vivo entre os seus na comunidade cristã.

“Estavam tomando a ceia” (v. 2a), ou seja, no momento primordial da vivência do amor-comunhão, uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; por isso, registra-se o episódio lamentável da traição de Judas (2b). A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora e, ainda, muitos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição.

A oferta do amor gratuito de Jesus pelos seus começou a se materializar quando Ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (v. 4). Certamente, não foi pequena a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto é privar-se da dignidade e prestígio pessoal; amarrar uma toalha na cintura é improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço. Está cada vez mais claro o combate à liturgia oficial: a indumentária dos sacerdotes do templo são um impedimento ao serviço; na comunidade de Jesus não se usa paramentos, mas avental, ou seja, não se executa ritos, mas serve-se ao irmão.

Na sequência, o texto diz o que Jesus fez após deixar de lado o manto e colocar-se em atitude de serviço: “Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha” (v. 5). Assim como os leitores, ainda hoje, ficam perplexos com a cena, muito mais ficaram os discípulos que estavam com Jesus. Aqui, devemos considerar o ambiente e a situação história da época: lavar os pés antes das refeições era uma regra básica de higiene; antes de tudo, porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples e, portanto, tudo isso deixava os pés muito sujos e empoeirados.

Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas nem os convivas sentavam em cadeiras, pelo menos nos ambientes mais simples. A mesa era apenas uma esteira colocada ao chão e, ao seu redor, sentava-se no chão; logo, a comida ficava muito próxima aos pés, e isso fazia da limpeza dos pés uma exigência antes das refeições. Portanto, o que Jesus fez foi uma necessidade básica de higiene, não instituiu nenhum rito.

A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: esse papel era próprio do escravo ou da mulher do dono da casa; Jesus inverte os valores ao fazer o serviço típico do escravo, sendo ele mesmo Mestre e Senhor (v. 13-14). Assim, uma nova ordem foi estabelecida na comunidade: a hierarquia foi abolida, a liturgia enquanto rito foi substituída pelo serviço.

É claro que houve reação da comunidade dos discípulos! O primeiro a protestar contra ousadia de Jesus foi Simão Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” (v. 8a). Para quem tinha deixado tudo imaginando seguir um “Rei de Israel”, deve ser mesmo chocante deparar-se com um “escravo”. Por isso, o espanto e a negação: isso é inaceitável! Aqui, Pedro revela também a resistência dos oprimidos no processo de libertação: a igualdade parece ser algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes. A resistência de Pedro revela isso.

O outro motivo para a resistência de Pedro é o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lava os pés dos outros, o seu discípulo deve fazer o mesmo! Por isso, Pedro só aceita a atitude de Jesus em última instância: ou aceita ou não pode mais continuar na comunidade, ou seja, não terá parte com Ele (v. 8b).

Após muita insistência de Jesus, Pedro aceita, mas não compreende: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (v. 9). Aqui, Pedro quer desviar o foco daquilo que Jesus está propondo: ele quer criar um novo rito, um a mais entre os tantos que os judeus praticavam e Jesus combatia. Ele não aceita a igualdade e não admite ter que servir ao próximo com a mesma intensidade com a qual Jesus servia. Transformando a atitude serviçal do lava-pés em um novo rito de purificação, ele estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica.

No final, após muita insistência e resistência, o gesto de Jesus conclui por si mesmo a catequese do serviço: “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo” (v. 12a). Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação da revolução de valores instaurada: no banquete da vida há espaço para todos, principalmente para o que serve; as divisões de classes estão superadas: o que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel do homem livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã porque nessa prevalece o movimento levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, às mais complexas.

Jesus em sua liberdade faz o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode mais haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como ainda hoje muitos resistem e preferem fechar-se na mentalidade antiga. Jesus celebrou a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa sem hierarquia, na qual reina somente o amor!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues