sexta-feira, março 28, 2025

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 15,1-3.11-32 ANO C



A liturgia do quarto domingo do tempo da Quaresma, deste ano C, nos dá a oportunidade de ler mais uma passagem exclusiva do Terceiro Evangelho: Lc 15,1-3.11-32. Trata-se da mais conhecida de todas as parábolas de Jesus, que é também a mais rica, tanto do ponto de vista literário quanto teológico. É a verdadeira obra prima de Lucas. Chamada convencionalmente de “parábola do filho pródigo”, ela é considerada a obra-prima de Lucas. O título de “parábola do filho pródigo” foi dado por São Jerônimo, que viveu entre os séculos IV e V, mas nas últimas décadas tem sido bastante questionado, sendo atualmente considerado já inadequado, uma vez que não expressa a verdadeira riqueza do texto, nem exprime a sua totalidade; pelo contrário, até reduz e esconde o seu amplo significado, uma vez que considera apenas um dos personagens. Diante disso, tem sido feitas diversas tentativas de intitulá-la de maneira mais apropriada, tais como “parábola do pai misericordioso” e “parábola do pai e os dois filhos”. O mais importante, no entanto, não é o título, uma vez que esse será sempre insuficiente, tamanha é a riqueza do texto. Por isso, devemos olhar para a parábola em sua inteireza e contemplar a sua riqueza.

É importante perceber que, à medida em que o tempo quaresmal se afunila, o tema da necessidade de conversão também se aprofunda, tornando-se mais explícito na liturgia da Palavra. De antemão, é importante recordar que a primeira necessidade de conversão diz respeito à imagem e à concepção de Deus. A verdadeira conversão, em seu sentido mais profundo, enquanto mudança radical de mentalidade é, sobretudo, a aceitação de um Deus que é pai, cheio de misericórdia e amor, deixando de lado a imagem de um Deus patrão e vingativo, que faz distinção de pessoas. A parábola de hoje visa exatamente isso: apresentar uma nova imagem de Deus, bem diferente daquela que os adversários de Jesus – fariseus e mestres da Lei – tinham em mente. O tema é tão importante, que Jesus conta três parábolas seguidas, denominadas convencionalmente de “parábolas da misericórdia”, ocupando um capítulo inteiro, o que justifica, ainda mais, que Lucas é mesmo o evangelho da misericórdia: “parábola da ovelha perdida e reencontrada” (Lc 15,4-7), “parábola da moeda perdida e reencontrada” (Lc 15,8-10), e a do “pai e os dois filhos”. O ideal é lê-las em conjunto, e a liturgia deste ano nos dará essa oportunidade mais adiante, precisamente no vigésimo quarto domingo do tempo comum. Hoje, nos interessa somente a terceira parábola, que é a mais longa de todo o Novo Testamento, bem como a mais profunda teologicamente, a ponto de ser considerada por grandes estudiosos como o “Evangelho do Evangelho”.

O contexto da parábola é dado pelo próprio texto, em sua introdução, correspondente aos dois primeiros versículos: «Os publicanos e os pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”» (vv. 1-2). Jesus se encontra diante de dois grupos bem distintos entre si: pessoas de má reputação – publicanos e pecadores –, e pessoas muito religiosas e fiéis – fariseus e mestres da lei –. Um desses grupos se destacava pelo mau exemplo, e o outro pelo comportamento exemplar. Esses grupos também se distinguem pelas atitudes opostas diante de Jesus: o primeiro grupo se aproxima dele para o escutá-lo e fazer refeição em comum, enquanto o segundo se aproxima dele para observar seu comportamento e criticá-lo. Os “publicanos e pecadores”, como síntese de todas as pessoas rejeitadas, sobretudo pela religião, se aproximavam de Jesus para escutá-lo porque, finalmente, tinham encontrado, alguém que os acolhia sem discriminações nem preconceitos, sem julgamentos, sem apontar o dedo. Isso terminava comprometendo a reputação de Jesus diante dos representantes e praticantes da religião oficial, “os fariseus e os mestres da lei”, considerados justos, devido à fiel obediência aos mandamentos. Conforme os versículos introdutórios, eles identificam duas atitudes inaceitáveis no comportamento de Jesus: acolher e comer com os pecadores.

Das atitudes de Jesus reprovadas pelos seus adversários, a mais grave, sem dúvidas, era fazer refeição com os pecadores, conforme as normas impostas pela religião judaica da época. Ora, para a mentalidade semita, a refeição não significava apenas o consumo de alimentos para saciar-se, mas um sinal de comunhão, de partilha de vida. As pessoas que sentavam à mesma mesa estavam colocando em comum suas existências, com o jeito de ser e de viver. Além disso, no mundo antigo oriental, as refeições eram servidas em um único prato, que poderia ser colocado no centro da mesa, de onde todos se serviam, ou poderia ir passando de mão em mão, entre os convivas. Logo, quando havia pessoas consideradas impuras na mesa, todos se contaminavam. E os pecadores eram considerados impuros. Por sinal, o termo “pecadores” (em grego: ἁμαρτωλός – hamartolós) possui um significado bastante amplo neste contexto. Alem dos membros da religião que não observavam minuciosamente os mandamentos, designa todas as pessoas que não pertenciam ao povo de Israel e, consequentemente, não faziam parte do judaísmo; inclui também as pessoas que exerciam profissões indecentes, como os cobradores de impostos, os pastores e as prostitutas, bem como os portadores de doenças ou deficiências, como os leprosos, epiléticos, cegos, etc., independentemente de serem de origem judaica ou não. No entanto, era com essas pessoas que Jesus mais se relacionava, no meio delas ele se sentia mais à vontade, pois sabia que estava cumprindo sua verdadeira missão, designada por Deus, o seu Pai. Por isso, seu comportamento era considerado herético, abominável, pelas pessoas religiosas, fiéis defensoras da moral e dos bons costumes na época. Assim, identificamos, de imediato, os destinatários primeiros da parábola:  os fariseus e os mestres da lei. Embora eles fossem considerados justos, reconhecidos pelo comportamento exemplar eram, para Jesus, os primeiros necessitados de conversão.

Passada a contextualização, olhemos para a parábola, que começa com um dado que já identifica que o título de “filho pródigo” não é insuficiente: «Um homem tinha dois filhos» (v. 11). Na verdade, esse versículo é o verdadeiro título da parábola. Com este dado inicial o evangelista já sinaliza que vai apresentar uma relação polêmica, pois, quase sempre, as histórias bíblicas que envolvem dois filhos ou dois irmãos ou irmãs são conflituosas, como por exemplo: Caim e Abel, Isaac e Ismael, Esaú e Jacó, todos no Antigo Testamento, até o episódio de Marta e Maria, no Novo, que também é exclusivo de Lucas (Lc 10,38-42). O grande drama do pai da parábola é ter dois filhos que não se sentem irmãos. Pelas linhas e entrelinhas, a parábola mostra que nenhum dos dois filhos viviam uma relação de amor com o pai, nem entre si. O mais novo, bem mais ousado, toma uma decisão inusitada: «O filho mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”. E o pai dividiu os bens entre eles» (v. 12). Embora não fosse comum para o mundo judeu, era possível que a herança fosse dividida com o pai ainda em vida. Porém, isso significava o rompimento total das relações: era como se o filho morresse para o pai e vice-versa. Quando um filho pedia a parte da herança estava dizendo, embora com outras palavras, que já considerava seu pai morto. Por isso, era uma prática pouco comum, pois causava muito desconforto na família. De acordo com a lei, ao filho mais novo correspondia somente um terço da herança, enquanto dois terços pertenciam ao primogênito (Dt 21,17).

Além de se desligar da família, o filho mais novo rompe também com os laços culturais e religiosos, ao ir para «um lugar distante» (v 13). Aqui já aparece o primeiro traço que identifica o pai da parábola com o Deus-Pai de Jesus: a concessão da liberdade aos filhos. O pai poderia opor-se ao filho, impedindo sua partida e até negando a parte da herança. O filho experimenta a liberdade, mas não mede as consequências de suas escolhas e, com o tempo, sente os efeitos delas (v. 14). A sua degradação chega ao ápice quando ele se torna praticamente escravo de um estrangeiro, submetendo-se a cuidar de porcos (v. 15). Ora, o porco era um animal impuro para os judeus; cuidar desses animais era uma verdadeira humilhação. Passando fome, tem vontade de comer, mas não tem direito sequer à comida dos porcos (v. 16). O reconhecimento da situação de completa penúria e degradação, leva o filho mais novo a uma profunda reflexão, seguida de uma decisão: «Então caiu em si e disse: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”» (vv. 17-19). Aqui, não temos nenhum sinal de conversão, ao contrário do que afirmam as interpretações mais tradicionais. Por isso, é inadequado o uso dessa passagem para fundamentar o sacramento da confissão (reconciliação). As motivações para a reflexão e decisão do rapaz voltar para casa foram meramente materiais: ele não sentiu falta do amor do pai, mas da mesa farta. Por isso, não pensa em reconquistar a dignidade de filho, mas a oportunidade de ser um empregado, pois até aos empregados ele sabe que seu pai trata dignamente. É importante recordar que, mesmo não se tratando de uma conversão propriamente, o filho mais novo reconhece que seu pai é um homem bom, e isso já é um sinal importante, pois nem isso o filho mais velho reconhece, como vai mostrar o final da parábola. 

A decisão do retorno do filho, embora não seja ainda uma conversão, como recordamos anteriormente, é um primeiro passo. Certamente, houve conversão, não tenhamos dúvida, o que deve ter acontecido como resposta natural à acolhida que o pai lhe proporcionou: «Quando ele ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos» (v. 20). A misericórdia e o amor de Deus precedem à conversão, como já tinha ensinado o profeta Oséias e Jesus reforça, sobretudo, com a mensagem desta parábola. Só se converte verdadeiramente quem se sente abraçado e beijado por um pai assim. Merece atenção a intensidade dos verbos empregados no texto para expressar o comportamento do pai: viu, compadeceu-se, correu ao encontro, abraçou e beijou. Tudo é expressivo na maneira do pai comportar-se com o retorno do filho. Contudo, destacamos apenas duas atitudes: correr ao encontro e beijar. Correr era um gesto considerado humilhante; quem tinha dignidade reconhecida não corria ao encontro de ninguém, pois eram os outros quem deviam correr em sua direção. Neste caso, humanamente falando, quem tinha razão para correr era o filho, ao perceber de longe que o pai estava disposto a acolhê-lo novamente. Mas é o pai quem corre, como demonstração do seu imenso amor. A outra atitude surpreendente do pai é “cobrir o filho de beijos”. Num mundo patriarcal, esse gesto era impensável para um pai, pois designava uma atitude tipicamente feminina. Era comum o beijo de saudação a uma visita ilustre, o ósculo da paz (Lc 7,45), mas cobrir o outro de beijos era impensável. No contexto familiar patriarcal da época, um pai beijar um filho homem era sinal de fraqueza, renúncia à autoridade; um comportamento assim só era esperado das mulheres. Tudo isso ajuda a desconstruir a imagem do Deus severo dos fariseus e mestres da Lei. O Deus de Jesus é cheio de amor, não tem outra coisa a oferecer senão amor e compaixão, os meios mais eficazes de humanização. Por isso, representado pelo pai da parábola, ele corre ao encontro e cobre seus filhos de beijos, sobretudo os que se afastaram do seu amor. Nesse gesto, ele se apresenta como pai e mãe, ao mesmo tempo. Por sinal, a parábola não menciona a mãe. Certamente, porque a figura da mãe está fundida na do pai. O pai e a mãe são uma coisa só, como é o Deus de Jesus: seu amor é tão grande, que ele só pode ser mãe também. 

Acolhido pelo pai, o filho começa a fazer sua declaração-confissão (v. 21), como tinha ensaiado (v. 18), mas essa já não tem efeito, pois ele foi amado e perdoado antes. O pai não pede garantia de arrependimento nem promessa de bom comportamento daquele momento em diante. Para ele, não importa o que o filho fez, nem o que disse, nem o que fará; importa apenas que esteja na sua presença, sentindo seu abraço; importa que tenha vida e dignidade. Por isso, quando o filho ainda está fazendo sua ensaiada confissão, o pai o interrompe, pois tem pressa em restituir sua dignidade e festejar o seu retorno: «O pai disse a um dos empregados: “Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”. E começaram a festa» (vv. 22-24). Túnica, anel e sandália são sinais de dignidade e representam a condição de filho reconquistada. Quer dizer que o filho não foi tratado como empregado, como ele mesmo queria, mas como filho intensamente amado. O banquete com o novilho gordo é sinal de grande festa e alegria, indicando a qualidade e a intensidade da acolhida do pai a um filho que se aproxima do seu amor.

Se a parábola fosse mesmo do “filho pródigo”, poderia ter sido concluída logo no versículo 24. De fato, esse versículo constitui o ápice do ensinamento: a passagem da morte para a vida e do perdido para o encontrado; essa dinâmica resume a missão e a vida de Jesus. Por isso, a história termina em banquete. Inclusive, é a festa pelo que foi perdido e reencontrado o que une as três parábolas da sequência narrativa do inteiro capítulo quinze (da ovelha perdida, da moeda perdida, do filho perdido), a ponto de serem apresentadas pelo narrador como se fossem apenas uma. Por meio delas, Jesus justificou aos seus interlocutores diretos – fariseus e mestres da lei – o seu comportamento e acolhida para com os pecadores e publicanos, considerados casos perdidos pelos mais devotos judeus. A misericórdia infinita do Pai já foi mostrada até aqui, quer dizer, o que Deus tem a oferecer a seus filhos: amor, alegria, compaixão. Mas Jesus quer ensinar mais; não basta sabermos que Deus é Pai e nos ama; é preciso vivermos como irmãos. Por isso, a segunda parte da parábola visa o restabelecimento da fraternidade, a começar pela denúncia e superação da autossuficiência e do orgulho dos fariseus e mestres da lei, representados na parábola pelo filho mais velho: «O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança» (v. 25). A presença do filho mais velho no campo significa que ele estava cumprindo seus deveres; é a imagem dos fariseus cumprindo minuciosamente as prescrições da Lei; para eles, qualquer comportamento diferente é inaceitável. A Lei, como obrigação, é privada de alegria, por isso, o som da música, sinal de festa, o incomoda. Ainda a propósito do filho mais velho, chama a atenção que, das diversas palavras gregas que significam velho, o evangelista escolhe exatamente “presbyteros” (πρεσβύτερος), o termo que designava as lideranças nas comunidades judaicas e começava a designar também as lideranças das comunidades cristãs, que viviam uma fase intensa de institucionalização. Com isso, o evangelista denuncia e adverte, ao mesmo tempo, para que as lideranças do cristianismo não reproduzam o modelo de religião que Jesus tanto combateu. 

Curioso, mas precavido, o filho mais velho não enfrenta diretamente a situação, talvez com medo de se contaminar, como os fariseus. Pede informações a um dos criados (v. 26), o qual lhe deixa à par da situação: «É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde» (v. 27). Ao invés de se alegrar com essa notícia, o filho mais velho fica com raiva, o que faz o Pai sair em sua procura (v. 28). É importante como Jesus e o evangelista reforçam os traços do Pai: ele sai em busca de todos, pois a sua casa pertence a todos os seus filhos. Saiu correndo ao encontro do filho menor, e sai também para encontrar o filho maior, que se negava a participar da festa. A queixa do filho mais velho diante do Pai é de quem vivia uma relação retributiva, baseada no mérito, como ele mesmo expressa: «Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado» (vv. 29-30). Além da presunção em reivindicar seus méritos – trabalhar tanto –, o filho mais velho ainda denuncia os erros do outro. Essa é a imagem de quem não se sente filho de Deus, mas servo. Quem não se sente filho, tem dificuldade de reconhecer o outro como irmão, por isso, o filho mais velho chama o mais novo apenas de “esse teu filho”. É a mesma postura dos fariseus e mestres da lei que não se conformam porque Jesus acolhe os pecadores e come com eles (v. 1-2).

Assim como Pai deu liberdade para o filho mais novo ir embora, também não obriga o filho mais velho a entrar na festa; apenas deixa claro que suas relações são livres e gratuitas, não considera os méritos, mas apenas a disposição de deixar-se abraçar por ele, mostrando que tudo o que é seu é também de quem se sente ou quer ser filho seu: «Então o pai lhe disse: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”» (v. 31). Sempre que alguém decide retornar para a casa do pai, a recepção será festiva, porque se trata de uma verdadeira ressurreição: «Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado» (v. 32). Como se vê, o evangelista deixa a parábola aberta, sem conclusão. E isso é uma característica muito marcante das parábolas exclusivas de Lucas. O narrador não diz se o filho mais velho entrou na festa, se reconheceu o outro filho como irmão. Na verdade, o autor quis mostrar, partindo do auditório de Jesus e da sua comunidade, que a conversão é uma necessidade constante de cada pessoa, sendo que, muitas vezes, quem mais necessita é quem se sente mais justo e perfeito. Por isso, a interpretação mais comum atualmente é que nessa parábola o Pai é Deus, indiscutivelmente, Israel é o filho mais velho, o qual tem dificuldade de aceitar os pagãos e pecadores na comunidade, e o filho mais novo é a imagem dos pagãos e pecadores que a comunidade cristã deve acolher sem distinção e sem obrigá-los a observar os preceitos da Torá.

Como nenhum dos dois filhos correspondem ou corresponderam ao amor do Pai, o evangelista convida o leitor e a leitora a ser um terceiro filho, capaz de aprender dos erros e acertos dos dois irmãos da parábola, sobretudo na concepção da imagem de Deus-Pai: alguém que acolhe a todos, independentemente de onde vem e do que fez. É dessa síntese de pagãos e judeus que Lucas construirá a primeira imagem do cristianismo em sua segunda obra (Atos dos Apóstolos). Encontrar-se como filho ou filha, sentindo-se amado ou amada por um Deus que é Pai e ama como mãe, talvez seja o maior ato de conversão que a Quaresma possa proporcionar. Quem acolhe o amor desse Deus se humaniza por meio dele. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


sábado, março 22, 2025

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 13,1-9 (ANO C)



Enquanto nos dois primeiros domingos da Quaresma, a liturgia apresentou episódios comuns aos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas): as tentações e a transfiguração, respectivamente. O episódio relatado no evangelho deste terceiro domingo é exclusivo de Lucas – 13,1-9. Com esse texto, a liturgia evidencia o tema principal da espiritualidade quaresmal: a necessidade de conversão. Como esse tema ainda não havia sido tratado diretamente nos evangelhos dos dois primeiros domingos, podemos dizer que somente hoje a liturgia dominical da Quaresma encontra seu foco principal: o chamado à conversão. Partindo dessa constatação, é correto afirmar que o primeiro e o segundo domingo foram verdadeiras introduções, que nos ajudaram a conhecer a identidade de Jesus enquanto Filho de Deus, para, de agora em diante, ouvirmos o que ele tem a nos dizer, conforme as palavras do próprio Deus, o seu Pai, no evangelho do domingo passado: «Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que Ele diz!» (Lc 9,35). E, hoje, especificamente, ele nos diz que todos temos necessidade de conversão e de produzir frutos.

Como sempre, é necessário contextualizar o texto lido, situando-o no conjunto do Evangelho para uma compreensão mais adequada. E começamos recordando que a passagem de Lc 13,1-9 faz parte da grande seção do caminho de Jesus com seus discípulos para Jerusalém; essa é a maior seção narrativa do Evangelho de Lucas, compreendendo dez capítulos (Lc 9,51–19,27). Enquanto caminha, Jesus ensina, cura, reza, interage com as pessoas, independentemente da condição social, entra em conflitos e aprofunda a formação dos seus discípulos. Enfim, é no caminho que ele apresenta com mais clareza e profundidade seu projeto de libertação, que visa, antes de tudo, a humanização do mundo. O texto de hoje está inserido numa sequência de ensinamentos após um dos tantos conflitos com os fariseus e mestres da Lei (Lc 11,53; 12,1). Jesus tinha sido convidado por um fariseu para almoçar em sua casa e aceitou o convite (Lc 11,37). Durante a refeição, aconteceu uma ferrenha disputa com o anfitrião e os demais convidados. Esse encontro acirrou ainda mais os ânimos entre Jesus e os fariseus. Logo que saiu da casa do fariseu, Jesus chamou a atenção dos discípulos para terem cuidado com “o fermento dos fariseus” (Lc 12,1). Certamente, essa é uma das maiores precauções que a comunidade cristã deve ter em todos os tempos: ter cuidado para não reproduzir aquilo que Jesus reprovou e condenou em seus tradicionais adversários, sobretudo a concepção de Deus. O evangelho de hoje ajuda a evitar isso, indicando que a necessidade mais urgente de conversão é a ressignificação da imagem de Deus. Assim como os fariseus do tempo de Jesus, muitos segmentos do cristianismo continuam ignorando o Deus Pai que ele veio revelar, preferindo o Deus mercantilista, vingativo e intolerante dos seus adversários.

Olhemos então para o texto, que começa dessa maneira: «Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam» (v. 1). Desta vez, a expressão introdutiva “Naquele tempo” faz parte mesmo do texto, o que é um fato raro, pois, na maioria das vezes, ela é colocada genericamente e, com muita frequência, até atrapalha a compreensão do texto. Nesse versículo, como indicação de tempo, o evangelista emprega o termo “kairós” (καιρός), que significa precisamente o momento oportuno. Jesus estava ensinando às multidões (Lc 12,54), e a maneira como o episódio é introduzido passa a impressão de que ele foi interrompido por algumas pessoas que relataram um acontecimento trágico. Como um bom mestre e catequista, Jesus não monopolizava a palavra quando ensinava; dava espaço para os ouvintes fazerem observações, perguntas, e até críticas. Como mestre de humanização, ele sabia ouvir. Aqui, Lucas revela uma de suas grandes habilidades narrativas: dosar história com teologia. As pessoas que interagem com Jesus trazem notícias de um fato histórico, certamente, embora não haja registro em outras fontes. De fato, somente Lucas fala desse acontecimento, entre os evangelistas, e não há atestação do mesmo em fontes extra-bíblicas. Como Pilatos era conhecido pela crueldade, gostava de humilhar o povo judeu e não perdia uma oportunidade para mostrar a força do império romano, a veracidade do fato mencionado não pode ser descartada. A notícia é de um acontecimento trágico, chocante, não apenas pela matança dos galileus, mas pelo contexto: provavelmente, foram mortos na Páscoa e nas dependências do templo; é o que se deduz da expressão «misturando seu sangue com o dos sacrifícios». Trata-se, portanto, de um fato abominável em todos os sentidos.

Como se sabe, somente os sacerdotes podiam imolar os animais e oferecer os sacrifícios no templo de Jerusalém; porém, na semana da Páscoa, abria-se uma exceção, devido ao grande número de peregrinos oferentes. Assim, os próprios peregrinos eram autorizados a realizar os sacrifícios, pois o número de sacerdotes não era suficiente. Sendo a Páscoa a memória do êxodo e, por isso, uma festa da libertação, ela se tornava um momento propício para motins e movimentos libertários de grupos inconformados com a dupla exploração: a romana e a religiosa, comandada pelo alto clero de Jerusalém. É muito provável que essa matança de Pilatos tenha sido repressão a um desses movimentos. Na época, a sede do procurador romano da Judeia era a cidade de Cesareia, mas durante a Páscoa, ele se transferia para Jerusalém, levando todo o seu aparato militar, com uma dupla finalidade: conter, através da repressão, qualquer revolta popular e, principalmente, humilhar os judeus, mostrando que eles não eram livres, pois era o imperador romano quem mandava neles. O termo “galileus” não designava apenas os habitantes da Galileia, mas era uma expressão pejorativa, designando as pessoas rebeldes, de um modo geral. Isso porque era na Galileia onde mais surgiam movimentos revolucionários, o que contribuía para o movimento de Jesus ser visto com desconfiança pelas autoridades, desde o seu início.   

Embora o texto não cite, supõe-se que a notícia da tragédia provocada por Pilatos tenha sido seguida de perguntas sobre o acontecimento e os envolvidos; é o que deduzimos pela sequência da narrativa: «Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa?”» (v. 2). Conforme a mentalidade da época, as causas de qualquer catástrofe eram atribuídas ao pecado. Predominava a teologia da retribuição: a ideia de um Deus que punia os pecadores com terríveis castigos, e premiava os bons. Por isso, todo sofrimento e desgraça que acontecia era visto como castigo. É claro que o que Jesus não concordava com essa mentalidade, por isso, imediatamente ele corrige, sem, no entanto, deixar de alertar para a necessidade de conversão: «Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo» (v. 3). Ora, os galileus não foram assassinados por serem pecadores, mas porque Pilatos era, de fato, cruel, o sistema era injusto e desumano. Assim, Jesus corrige uma falsa concepção de Deus, e o evangelista faz uma chamada de atenção para a sua comunidade não promover divisões ilusórias entre as pessoas “boas” e “más”. Todos devem ser acolhidos e a necessidade de conversão também é para todos.

Para reforçar seu ensinamento, Jesus recorda outra tragédia acontecida em Jerusalém: «E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo» (vv. 4-5). Também sobre esse acontecimento, não há registros históricos que o comprovem com exatidão, mas certamente estava na memória do povo, e era usado pelos pregadores da época para reforçar a falsa concepção de um Deus punitivo. Siloé era um bairro de Jerusalém, onde se localizava um grande reservatório de água, conhecido na Bíblia como “piscina de Siloé”; como era uma zona estratégica para a cidade, é quase certa a construção de uma ou mais torres nessa área. Ao negar a relação entre o acontecimento trágico e o pecado dos envolvidos, Jesus denuncia, de novo, a instrumentalização da religião para inculcar medo nas pessoas, o que continua acontecendo nos dias atuais, em muitas vertentes do cristianismo. 

Nem a crueldade de Pilatos, nem o desabamento da torre, bem como nenhuma outra fatalidade na história, são castigos de Deus para punir os pecadores. Existem governantes cruéis, como Pilatos, acontecem acidentes das mais variadas formas, advém catástrofes naturais, mas nada disso deve ser interpretado como castigo de Deus. Quem disser que tais eventos correspondem à vontade de Deus, não está anunciando o Deus de Jesus. Porém, sabendo que estamos imersos no mundo e na história, estamos sujeitos a tais acontecimentos, daí a importância de levar a sério o convite de Jesus à conversão. Após falar de cada um dos dois acontecimentos recordados, Jesus conclui com uma advertência: «...se não vos converterdes...». Conversão (em grego: μετάνοια – metánoia) não significa uma simples melhora no comportamento ou um avivamento nas devoções, mas uma mudança radical de mentalidade, culminando, obviamente em uma mudança também de comportamento. Na perspectiva do Evangelho, conversão significa assimilar e viver os ensinamentos de Jesus, compreendendo toda a sua radicalidade, para o Reino de Deus se tornar realidade. A necessidade de conversão, portanto, não é para evitar castigos, mas para dar sentido à vida enquanto há tempo. Todos morrem, de modo trágico ou natural, essa é uma verdade incontestável. Porém, como tudo é imprevisível, a conversão não pode ser adiada, uma vez que dela depende o sentido da vida. 

Como conclusão, diz Lucas que Jesus contou uma pequena parábola para ilustrar o que estava ensinando e, ao mesmo tempo, provocar os seus interlocutores. O evangelista faz essa recordação também para tranquilizar a sua comunidade, mostrando a paciência de Deus diante da resistência do ser humano no processo lento de mudança de mentalidade, ou seja, de conversão, bem como como advertência diante das frequentes distorções da imagem de Deus e do risco de esterilidade na comunidade. Eis a parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: “Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Porque está inutilizando a terra?”» (vv. 6-7). A imagem da figueira é clássica na cultura bíblica; inclusive, é a primeira árvore identificada pelo nome na Bíblia: segundo Gn 3,7, «Quando Adão e Eva perceberam que estavam nus, se cobriram com folhas de figueira». Junto com a videira e a oliveira, a figueira está entre as árvores mais apreciadas em Israel, devido à importância de seus frutos para a cultura e a economia da região. Por isso, são frequentemente usadas na Bíblia como imagens do povo e das instituições religiosas. Na literatura profética, prioriza-se mais a videira e a figueira (Os 2,14; Jer 5,17; Mq 7,1), enquanto a literatura sapiencial emprega mais a imagem da oliveira. Lucas, bom conhecedor das tradições proféticas de Israel, utiliza duas imagens ao mesmo tempo, nesta pequena parábola: a figueira está plantada dentro de uma vinha. Ao falar de uma figueira estéril, Jesus denuncia a situação de esterilidade da religião judaica na sua época, e Lucas adverte a sua comunidade e seus leitores de todos tempos a não reproduzirem aquele modelo de religião. 

Como são poucos, os personagens da parábola são facilmente identificáveis: o dono da vinha onde a figueira está plantada é Deus, e o vinhateiro é o próprio Jesus. Num primeiro momento, Jesus apresenta o proprietário com as características do Deus que o judaísmo do seu tempo anunciava: alguém que vem para acertar as contas, disposto a castigar quem não correspondesse aos seus planos, cortando a figueira. Mas Jesus faz isso por ironia, denunciando que se Deus fosse mesmo como a religião pregava, todos já teriam perecido, pois eram completamente estéreis. No segundo momento, Jesus mostra a intercessão do vinhateiro junto ao proprietário e, assim, a verdadeira face de Deus e Pai, um Deus que escuta: «Ele, porém, respondeu: “Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volto dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás”» (vv. 8-9). O pedido para a figueira ficar mais um ano é a oportunidade dada à humanidade de ouvir a Boa-Nova de Jesus. Com isso, o evangelista remete ao início da missão de Jesus, quando disse que ele veio anunciar «um ano da graça do Senhor» (Lc 4,19); não se trata de um ano cronológico, mas de um tempo favorável e propício para a libertação e humanização de todo o mundo, e sempre disponível. Todo dia é um ano a mais que o Senhor proporciona a cada pessoa, como oportunidade de encontro com o seu amor. E é a acolhida desse amor que gera a verdadeira conversão. 

Com essa parábola, Jesus se opõe ainda mais à teologia tradicional vigente na sua época, se distanciando, inclusive da pregação de João Batista, o seu mentor. Ora, a paciência com a figueira estéril contrasta com a pregação de João, o qual tinha dito que, com a chegada do messias, «toda árvore que não produzir fruto será cortada e queimada» (Lc 3,9). Jesus mostra o contrário: não veio para cortar árvores infrutíferas, mas para adubá-las e fazê-las produzir frutos. Embora denunciador, o evangelho de hoje é, muito mais, portador de esperança. O ser humano tem sempre diante de si “mais um ano”, porque Deus não desiste dele. Porém, sabendo dos riscos das fatalidades da vida, os dois casos citados no início são uma prova e servem de alerta, fica claro que a conversão é uma necessidade urgente e inadiável, pois dela depende a construção do Reino. Deus dá todo o tempo, mas o ser humano não conhece a durabilidade desse tempo. Por isso, é urgente aproveitar esse “ano a mais” e passar a produzir frutos, especialmente de amor e justiça, os sinais mais evidentes de conversão. 

A parábola não tem conclusão: ninguém sabe se a figueira produziu figos ou se continuou estéril. A conclusão, na verdade, deve ser a vida de cada um e cada uma, entre ouvintes de Jesus e leitores do Evangelho de Lucas. O objetivo de Jesus e do evangelista foi provocar a reflexão em cada pessoa sobre si mesma. Cada um e cada uma sabe e conhece seus frutos, bem como a necessidade de ser “adubado”(a) pelo Evangelho. Havia entre os interlocutores de Jesus, e também na comunidade de Lucas, a tendência de separar os “bons” e os “maus”, reforçando a errônea concepção de um Deus que premia ou castiga. Com o exemplo do vinhateiro, Jesus anuncia a misericórdia desse Deus, mas reforça a necessidade de conversão: o “ano a mais” é a oportunidade que o ser humano tem a cada dia de dar sentido à sua vida, assimilando os ensinamentos do Evangelho, pautando a sua vida no amor, na justiça e na solidariedade; são esses os frutos que ele espera de cada um e cada uma, e o que é necessário para a construção do Reino de Deus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


sábado, março 15, 2025

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 9,28b-36 (ANO C)



Todos os anos, a liturgia do segundo domingo da Quaresma propõe a leitura de um dos relatos do episódio chamado, tradicionalmente, de “Transfiguração do Senhor”. Esse é um episódio narrado pelos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ano, conforme o ciclo litúrgico (A, B e C), sem necessariamente repetir, uma vez que, mesmo se tratando do mesmo episódio, cada evangelista o narra à sua maneira, conforme as suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e, sobretudo, respondendo às necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos apresentem diferenças entre si, apesar de serem muito parecidos. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, o texto proposto é o relato de Lucas – Lc 9,28b-36. Todos os três relatos da transfiguração são altamente ricos em teologia e simbologia, o que torna indispensável uma breve contextualização, para uma compreensão mais adequada, a começar pela definição do gênero literário da teofania, ao qual pertence o texto. Etimologicamente, teofania significa manifestação divina; é uma palavra de origem grega, formada da junção do substantivo “Theós” (Deus) com o verbo “faino” (aparecer, manifestar). Enquanto gênero literário, teofania designa o tipo de relato que descreve uma manifestação solene de Deus. Geralmente, são relatos carregados de elementos simbólicos, o que se vê no episódio da transfiguração, como a brancura, a nuvem e a voz celestial. Embora as teofanias sejam mais frequentes no Antigo Testamento, o Novo Testamento contém algumas, como o batismo de Jesus, a transfiguração, as aparições pascais e o relato de Pentecostes. Apesar da semelhança entre os três relatos, a versão de Lucas se destaca sobre os demais por possuir mais elementos exclusivos, como recordaremos ao longo da nossa reflexão.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar o lugar que o relato da transfiguração ocupa no conjunto do Evangelho. Esse episódio é precedido por três importantes momentos da vida de Jesus e dos discípulos que o acompanhavam: a) a confissão de Pedro (Lc 9,18-21); b) o primeiro anúncio da paixão (Lc 9,22); c) a declaração de Jesus com as exigências para o discipulado (Lc 9,23-27). Se trata, portanto, de uma sequência narrativa altamente reveladora da identidade e do destino de Jesus. Por isso, os discípulos deveriam estar à par de tudo isso para decidirem se vale à pena continuar ou não no seu seguimento. Ora, Jesus tinha lhes perguntado sobre a sua identidade: o que dizia o povo e o que os próprios discípulos pensavam a seu respeito. Em nome dos Doze, Pedro respondeu que Jesus é “o Cristo de Deus”, ou seja, o Messias (Lc 9,18-22). Embora correta, a resposta de Pedro poderia ser facilmente distorcida, pois contemplava as expectativas do messianismo nacionalista vigente: um messias (Cristo) glorioso e potente; por isso, Jesus o repreendeu, mandando que não contassem nada a ninguém (Lc 9,21). Em seguida, ele fez o primeiro anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, para evitar falsos entusiasmos entre os seus discípulos e as multidões que também o acompanhavam. Lodo depois disso, ele tratou de deixar claro que o seu seguimento compreendia diversas exigências, tais como: renunciar à própria vida e carregar a cruz a cada dia. As palavras de Jesus pareciam não ser suficientes para a compreensão dos discípulos que, contagiados pela ideologia nacionalista, não imaginavam ser possível um Messias sofredor. Outro dado interessante, ainda a nível de contexto, é que a transfiguração antecede o segundo anúncio da paixão (Lc 9,43-45) e, prepara para a viagem decisiva a Jerusalém, a maior seção do Evangelho segundo Lucas (Lc 9,51 – 19,27). Isso confere ainda mais importância a este episódio.

Feitas as devidas observações contextuais, olhemos então para o texto, recordando que o lecionário omite a primeira parte do versículo de abertura, que traz um indicativo temporal importante e mostra a clara relação com os episódios anteriores: «Cerca de oito dias depois destas palavras» (v. 28a). É importante fazer essa recordação, pois ajuda a compreender melhor o episódio em seu conjunto. Ora, o discurso referido é o primeiro anúncio da paixão e da apresentação das exigências básicas para o discipulado (Lc 9,22-27). Sem uma adesão plena, capaz de corresponder às exigências propostas, não há seguimento nem discipulado. O indicativo temporal “oito dias depois” é uma clara alusão do evangelista ao dia da experiência profunda com o Ressuscitado – o domingo –, que vai marcar a vida das primeiras comunidades, e o evangelista faz questão de antecipar aqui. Lucas segue a maneira greco-romana de contar os dias da semana, na qual contavam-se oito dias, pois o domingo ocupava o lugar do primeiro e do oitavo dia, ao mesmo tempo, ao contrário da contagem judaica, que demarcava rigorosamente a semana em sete dias. Com essa sua opção, o evangelista ensina que, para os seguidores e seguidoras de Jesus, o dia de encontro e celebração já não é o sábado, mas o domingo. Antecipa-se, assim, o rompimento com a sinagoga, já praticamente consolidado na época da redação do evangelho, em meados dos anos 80 do primeiro século.

O que aconteceu “cerca de oito dias” após o primeiro anúncio da paixão e a apresentação das exigências indispensáveis para o discipulado foi o seguinte: «Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago e subiu à montanha para rezar» (v. 28b). É aqui que começa, de fato, o texto do lecionário. A princípio, é importante recordar que a escolha desses três discípulos não significa privilégio, como às vezes se diz, mas necessidade, embora mais tarde eles serão considerados as “colunas da Igreja” (Gl 2,9). Os evangelhos sinóticos mostram que eles não eram os melhores, mas sim os três mais difíceis de lidar e os que mais tinham dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento; é o discípulo que Jesus mais repreende durante todo o seu itinerário. Como ele sempre se antecipa, sendo o primeiro a responder às perguntas de Jesus, é aquele que mais se expõe e, por isso, é o primeiro a ser corrigido. João e Tiago, conhecidos como “filhos do trovão” (Mc 3,17), eram os mais fanáticos, ambiciosos (Mc 10,35-45), de temperamento difícil, eram também os mais intolerantes. Pouco tempo após este episódio da transfiguração, Jesus repreenderá João por proibir a um homem que não fazia parte do grupo de pregar e expulsar demônios em seu nome (Lc 9,49-50). Os dois, João e Tiago, também serão repreendidos no início da viagem ao proporem tocar fogo nos samaritanos que os rejeitaram (Lc 9,51-55). Portanto, Jesus os chama para estarem mais perto de si pela necessidade de cada um e por não desistir do ser humano, apesar das fraquezas e debilidades. Eles necessitavam estar mais próximos a Jesus e aprender mais com ele.

Já nesse primeiro versículo, encontramos um detalhe importante que distingue o relato de Lucas dos outros dois (Mateus e Marcos): a oração como motivo da subida à montanha. Mateus e Marcos dizem apenas que Jesus subiu à montanha com os discípulos, mas somente Lucas diz o que foram para rezar. A oração é um traço característico de Jesus em todo o Evangelho de Lucas, sobretudo quando antecede os momentos decisivos de sua vida: antes da escolha dos Doze (Lc 6,12), antes de perguntar aos discípulos sobre a sua identidade (Lc 9,18), durante o caminho para Jerusalém (Lc 11,1), e antes de ser preso (Lc 22,39-46). Lucas caracteriza Jesus como um homem de oração: «Ele costumava retirar-se em lugares desertos para rezar» (Lc 5,16). A montanha é, por excelência, na linguagem bíblica, o lugar do encontro com Deus. Essa montanha não é determinada em nenhum dos evangelhos, embora a tradição, a partir de Orígenes – teólogo que viveu entre os séculos II e III – a tenha identificado como o Monte Tabor, o que não se sustenta com dados da Bíblia. É melhor mantê-la anônima, como fizeram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.

A oração revela a verdadeira identidade de Jesus: «Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante» (v. 29). As vestes brancas e brilhantes são características do que é do céu (Lc 24,4; At 10,30), o que pertence a Deus. São elementos recorrentes na linguagem apocalíptica, muito típica nas teofanias. Com essa imagem, o evangelista revela que Jesus, embora homem, pertence também à esfera divina. Ele reflete a glória do Pai no seu rosto. Não se trata de um milagre; é uma maneira simbólica de dizer que, na oração, o ser humano se comunica claramente com Deus, rompendo as barreiras entre o humano e o divino. Também não se trata de uma antecipação da glória, como às vezes se diz, mas uma demonstração de que o humano e o divino se encontram e se fundem na oração, o que se comprova pela afirmação seguinte: «Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias» (v. 30). Moisés e Elias, representantes da antiga aliança, respectivamente da Lei e dos Profetas, também estavam revestidos de glória, porque já pertenciam ao âmbito do divino; Moisés é aquele que morreu, «mas ninguém sabe onde é a sua sepultura» (Ex 34,6), e isso é um modo de dizer que o seu corpo foi levado para junto de Deus; já Elias, nem sequer morreu para o povo judeu, pois de acordo com o relato de 2Rs 2,11, foi levado para o céu em uma carruagem de fogo. Portanto, de acordo com a tradição hebraica, Moisés e Elias pertenciam ao âmbito celestial e, por isso, se comunicam com Jesus que também pertence a esse âmbito. E é a oração que favorece essa comunicação.

Outra particularidade importante de Lucas é que somente ele diz o assunto da conversa entre Jesus, Moisés e Elias: «Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém» (v. 31); sobre isso, Mateus e Marcos silenciam. Porém, essa tradução não é suficiente; o evangelista diz que eles conversavam sobre o “êxodo” de Jesus, (em grego: ἔξοδος – êxodos), o que comporta não só a morte, mas todo o mistério pascal: paixão, morte, ressurreição, ascensão e envio do Espírito. Jesus não vai apenas morrer, mas percorrer um itinerário completo de libertação, que comporta sofrimento e morte, mas culminará com a ressurreição, cujo fruto maior é o dom do Espírito Santo para orientar e conduzir as comunidades ao longo da história. Os discípulos não participam da conversa porque se distraem, dormindo: «Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele» (v. 32). Aqui aparece outro detalhe exclusivo de Lucas, relacionado à oração: o sono dos discípulos. Esse detalhe é, na verdade, uma denúncia do evangelista: a falta de perseverança na oração pode privar a comunidade da experiência com Deus. Não se trata de um sono real, mas de uma imagem para descrever a desatenção e a falta de perseverança. No Monte das Oliveiras, já no contexto da paixão, Jesus irá repreendê-los exatamente porque estavam adormentados, quando deveriam estar rezando (Lc 22,45-46). Esse sono equivale à cegueira e fechamento de coração nos discípulos de Emaús, durante o caminho com o forasteiro desconhecido, Jesus ressuscitado. 

Sem perseverança na oração, as propostas da comunidade tendem a ser superficiais, pois não são geradas da intimidade com Deus, o que o evangelista denuncia com a ideia absurda e ingênua de Pedro: «E, quando estes homens iam se afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava dizendo» (v. 33). Antes de tudo, percebe-se a tentação do comodismo, pois ficar na montanha em oração é praticamente lavar as mãos para os problemas e sofrimentos do mundo, se trata, portanto, de uma fuga. Deve-se subir à montanha para fortalecer-se para a missão e os desafios que essa implica. No entanto, o mais grave na fala de Pedro, é revelar que Jesus ainda não era o centro da sua vida e nem do grupo dos discípulos: ele(s) continua(m) dando mais importância a Moisés! É esse o sentido de o nome de Moisés aparecer no centro: «uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias»; na mentalidade hebraica, o nome que aparece no centro é sempre o mais importante. Com isso, o evangelista está denunciando, as comunidades que colocam a Lei acima do Evangelho. Esse era um problema encontrado em muitas das comunidades primitivas, que Lucas e Paulo, sobretudo, combateram com muita ênfase em seus escritos (Atos dos Apóstolos e Cartas Paulinas). Onde o Evangelho não é o centro, não há discipulado nem cristianismo autênticos.

Diante do absurdo da fala de Pedro, o próprio Deus intervém e o interrompe: «Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”» (vv. 34-35). A nuvem com sua sombra, ao longo da tradição bíblica é sinal da manifestação e presença de Deus. Essa cena é, praticamente, uma repetição da cena do batismo de Jesus: o Pai se manifesta, fala e dá testemunho do Filho. Diante das dúvidas e falta de convicção nos discípulos sobre a identidade de Jesus, quem tem mais propriedade para esclarecer é o seu Pai. Por isso, o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: «Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!». Mateus e Marcos mantem a fórmula da cena do batismo; Lucas a modifica, trocando a qualificação do Filho de Amado para Escolhido. “Amado” tem um sentido mais amplo; na verdade, todas as pessoas são amadas pelo Pai; “Escolhido” tem um sentido mais específico, denota a unicidade da missão de Jesus, o que o habilita a ser o único portador de palavras dignas de atenção, daquele momento em diante. Daí, a ordem: «Escutai o que ele diz!».

Moisés e Elias, como representantes da Lei e dos Profetas, já disseram tudo o que tinham a dizer; de agora em diante, somente o Evangelho tem palavras adequadas para a comunidade cristã. O Evangelho não contradiz a Lei e os Profetas, mas é a sua plenitude, ao mesmo tempo em que é diferente e novo. Por isso, enquanto o Pai dá ordem aos discípulos para escutarem seu Filho, o Escolhido, Moisés e Elias desapareceram: «Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho» (v. 36a). Ora, nas primeiras comunidades, inclusive entre os apóstolos, insistiam em usar o Antigo Testamento, sobretudo a Lei, como norma, gerando divisões e exclusões, o que Lucas denuncia com mais clareza no segundo volume de sua obra – Atos dos Apóstolos. O uso do Antigo Testamento (a Lei e os Profetas) deveria ser feito para incluir, para mostrar que o Evangelho de Jesus é o seu pleno cumprimento, e não para separar. Havia uma tendência de reproduzir na comunidade cristã a mesma estrutura e mentalidade do modelo de religião que Jesus combateu: apego à lei e exclusivismo. Por isso, o evangelista ensina que é Jesus o único e autêntico interprete da Escritura (Antigo Testamento); Moisés e Elias falaram o que tinham de falar e, de agora em diante, só vale o que Jesus disser, ou seja, o seu Evangelho.

Marcos (a fonte principal utilizada por Lucas) diz que Jesus proibiu os discípulos de falar sobre essa experiência. Lucas omite a proibição, mas diz que «Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto» (v. 36b). O silêncio dos discípulos é fruto de uma necessidade: eles devem anunciar Jesus, o Evangelho, mas da maneira certa, sem alimentar falsas ilusões, nem omitir as suas verdades. É melhor silenciar do que anunciar de modo equivocado. Eles perceberam a necessidade de, antes de tudo, escutar, como o Pai ordenou. O anúncio distorcido é, sem dúvidas, consequência de uma escuta superficial. Aqui está um dos ensinamentos mais importantes para as comunidades de todos os tempos: a necessita da escuta de Jesus, o Filho Escolhido. É claro que sua voz ressoará de diversas maneiras, sobretudo onde há dor, injustiça, sofrimento e opressão. É preciso discernimento para reconhecer a sua voz nas vozes anônimas e sofridas dos marginalizados da história. Sem ouvir essas vozes, o Evangelho não será anunciado em sua essência.

Que a liturgia deste segundo domingo da Quaresma ajude a nos conscientizar mais sobre o que é essencial na vida de discípulos e discípulas de Jesus, tornando nossas comunidades sempre mais parecidas com o Reino de Deus, sendo espaços de humanização e fraternidade. Que o percurso da Quaresma favoreça uma escuta sempre mais atenta e profunda ao tudo o que Jesus tem a falar. Somente escutando bem poderemos tornar o mundo mais humanizado e mais parecido com o seu projeto.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, março 08, 2025

REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 4,1-13 (ANO C)



Após uma sequência de oito domingos, a liturgia interrompe, temporariamente, o tempo comum para viver e celebrar um de seus tempos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas, com o convite à conversão, em preparação à Páscoa do Senhor. Hoje, celebramos o primeiro domingo deste tempo especial. Como acontece todos os anos, o evangelho do primeiro domingo da Quaresma compreende a narrativa das tentações pelas quais Jesus passou, no deserto, logo após ser batizado, como preparação para o início de seu ministério. Esse é um episódio presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), um dado que confirma a sua grande importância para as primeiras comunidades cristãs. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, nós lemos a versão das tentações do Evangelho de Lucas – Lc 4,1-13. Se trata de um texto bastante rico, muito bem elaborado, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, com uso abundante de linguagem simbólica. 

Marcado por forte simbologia, o relato evangélico de hoje corre o sério risco de ser mal compreendido, devido a nossa tendência equivocada de considerar os evangelhos como livros de crônicas exatas da vida de Jesus, esquecendo o aspecto simbólico que predomina neste tipo de literatura. Por isso, é necessário, a nível de introdução, fazer algumas considerações importantes, visando uma compreensão mais adequada. E começamos recordando que a fonte original deste relato, o Evangelho de Marcos, não dá nenhum detalhe sobre o nível e a modalidade das tentações; mas apenas diz que «Jesus esteve no deserto durante quarenta dias sendo tentado por Satanás» (Mc 1,13); dessa informação simples e vaga, o evangelista Lucas, com muita criatividade e atendendo às necessidades das suas comunidades, ilustrou a história que lemos na liturgia de hoje, como fez também Mateus (Mt 4,1-11). Certamente, ambos tiveram acesso a outras fontes que desenvolveram o enunciado de Marcos, transformando em uma verdadeira narrativa, ou seja, uma história com personagens em ação, com circunstâncias de espaço e tempo bem definidas. Apesar de muito parecidas, as versões de Lucas e Mateus apresentam pequenas divergências, que correspondem ao ponto de vista teológico de cada um.

A nível de contexto, é imprescindível ainda recordar que o relato das tentações segue, imediatamente, o relato do batismo – Lc 3,21-22 – e, por isso, ambos estão intrinsecamente relacionados. Ainda antes do batismo, João – o que batizava – tinha anunciado Jesus como o Messias, em sua pregação. Ora, no batismo o Espírito Santo desceu sobre Jesus e, do céu, o próprio Pai o declarou como o seu “Filho Amado”. Logo, o principal objetivo do evangelista com este episódio de hoje é apresentar o comportamento de Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto de hoje (Lc 3,22), o qual permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo seu principal oponente: o diabo. Portanto, esse é um texto programático para a comunidade cristã, pois indica como deve agir e resistir ao mal quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo, missão comum a todos os batizados e batizadas.

O primeiro versículo já apresenta a principal chave de leitura de todo o texto: «Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito» (v. 1). Ora, o mesmo Espírito Santo que desceu em forma corpórea de pomba (Lc 3,22) no batismo, acompanhará Jesus em todos os seus passos e ações; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito Santo, e não apenas quando Ele vai ao deserto. Enquanto guia, pode-se dizer que o Espírito Santo é o grande pedagogo de Jesus, como deve ser dos seus seguidores e seguidoras de todos os tempos. Quanto ao deserto, aqui, convém recordar que, mais do que uma indicação geográfica, se trata de um indicativo teológico, por sinal, bastante relevante. A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos pelos quais Israel passou, desde a saída do Egito até à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do seu nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que Ele, mesmo sendo o “Filho Amado” de Deus, é verdadeiramente ser humano, pois assumiu a humanidade em todas as suas dimensões. 

Embora o deserto evoque a provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança, pois é o lugar onde Deus fala ao coração (Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Por sinal, na palavra deserto em hebraico - midbar- encontra-se a raiz do termo DABAR, que significa palavra, discurso, bem como acontecimento, uma vez que, quando Deus fala, ele faz, ele realiza por meio da palavra. Uma vez que o deserto também é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada. Por isso, o texto diz que Jesus «ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome» (v. 2). O protagonista da tentação é o diabo (em grego: διάβολος – diábolos), literalmente significa aquele que divide e atrapalha, o que age contra, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico que vem de outro mundo, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus que Jesus veio apresentar ao mundo e realizar. Muitas vezes, o diabo é a própria estrutura das comunidades que teimam em ofuscar o Evangelho.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias” que Jesus lá passou não podem ser considerados como um dado meramente cronológico. Mais uma vez, trata-se de um dado teológico, e também de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (Gn 7,4.12.17); Moisés passou quarenta dias sobre a montanha, antes de receber a Lei (Ex 32,28); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade e infidelidade, idolatria e prova (Ex 16,35; Dt 8,2-5; Sl 5,10); e o profeta Elias caminhou durante quarenta dias rumo ao monte Horeb (1 Rs 19,8). Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer também uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração (quarenta anos). Trata-se de um tempo de maturação. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos e cristãs a uma vida vigilante e atenta ao Evangelho, com plena abertura ao Espírito Santo, para não cair nos comodismos e percalços que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder.

A primeira tentação diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas; a lógica do império incentiva(va) o consumo e a satisfação dos desejos, enquanto Jesus propõe outro caminho. Eis o que diz a primeira tentação: «O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”» (vv. 3-4). Embora faminto, Jesus percebe que não é suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais do que pão. Por isso, com base na Escritura (Dt 8,3), Ele não dispensa o pão, mas diz que o ser humano não pode viver “somente” dele. A vida digna e plena não depende apenas do alimento material, mas de todos os valores do Reino contidos na “Palavra que sai da boca de Deus”, que será explicitada no decorrer do seu ministério. Pelas expectativas messiânicas da época, imaginava-se um messias milagreiro, ao que Jesus se opõe radicalmente. Ele não veio ao mundo para resolver os problemas de maneira fácil e cômoda, como queriam e ainda querem muitos grupos e movimentos religiosos. Enfim, Jesus não se opõe ao pão material e sabe que as pessoas não podem viver sem ele. Inclusive, quando percebe que tem uma multidão faminta ao seu redor, ele faz de tudo para que a fome seja erradicada (Lc 9,10-17), responsabilizando seus discípulos a também fazerem o mesmo. Logo, ninguém tem o direito de usar a resposta de Jesus à primeira tentação como justificativa para não se sentir responsável diante do problema da fome, que continua a matar ainda milhões de pessoas.

A segunda tentação diz respeito à relação com o próximo, sobretudo quanto à maneira de conceber e exercer o poder: «O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo, e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo será teu”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’”» (v. 5-8). A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante por prestígio e poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os ‘inimigos’ de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor, às avessas das expectativas. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal, ao cancelar o princípio básico da boa convivência: a igualdade.

Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade, e fruto de suas convicções de Filho Amado do Pai. Ao invés de ser servido, ele veio ao nosso meio para servir e dar sua vida (Lc 22,27). Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através dos seus seguidores e seguidoras, a todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada por esse amor, que é fonte de humanização. É claro que o evangelista não descreve o diabo como o dono do mundo; mas está denunciando que o poder exercido até então, em todos os reinos, marcado pela exploração, injustiça e opressão, segue a lógica diabólica, à qual o Evangelho se contrapõe com o Reino de Deus, marcado pelo amor, pelo serviço, a justiça e a fraternidade. Adorar e servir somente a Deus é a resposta à lógica desenfreada do mercado. Na linha dos grandes profetas de Israel, certamente, Jesus tinha em mente que a adoração e o serviço a Deus implicam em compromissos concretos com o próximo, especialmente os mais necessitados. Logo, também aqui, da segunda tentação, novamente vencida por Jesus, não se deve tirar motivos para uma religiosidade intimista e individualista, sem compromisso com o outro. 

A terceira tentação chama a atenção para a relação com Deus: «Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”» (v. 9-12) Ora, no templo de Jerusalém, onde a religião dizia que Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Era inimaginável ali a presença do diabo, pela sacralidade que era atribuída àquele lugar. O evangelista denuncia, contudo, que os lugares considerados santos podem ser os mais perigosos e propícios à ação diabólica, pois é neles que é mais fácil de desvirtuar os propósitos de Deus, usando seu nome em vão. Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus “filhos bons” e castigar os maus, como afirmava a religião da época; não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano, antes de tudo, humanizando-o.

Na conclusão, diz o evangelista que «Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno» (v. 13). O diabo se afastou, momentaneamente, porque não encontrou em Jesus um aliado. De imediato, o evangelista já liga às tentações à cruz, o tempo oportuno (em grego: καιρός – kairós) em que o diabo retornou; de fato, também no calvário, já crucificado, Jesus foi tentado três vezes, por três categorias que assumiram o papel do diabo e o puseram à prova: o povo (multidão); os soldados e um dos malfeitores crucificado com ele (Lc 23,35-39); esses três grupos tentaram Jesus na cruz com a mesma tática do diabo: “se és o Cristo ou o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo”. Também lá, Jesus resistiu. Assim, o evangelista mostra que as tentações são uma síntese da vida de Jesus, marcada pela sua incansável luta contra o mal, e uma clara antecipação da paixão. Do início do seu ministério, até a morte na cruz, ele foi tentado a abandonar o propósito de Deus, mas resistiu, ancorado na Palavra, que é fonte de vida, quando levada a sério, como levou Jesus, 

Concluindo, podemos dizer que as três tentações ou provas relatadas no evangelho de hoje são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com o próximo e com Deus. São como uma parábola da vida de Jesus. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo e os maiores conhecedores da Palavra de Deus na sua época, os fariseus e mestres da Lei. 

A resistência de Jesus, recorrendo sempre à Palavra de Deus é uma indicação para as comunidades cristãs de todos os tempos: a perseverança e a fidelidade ao projeto de Jesus dependem essencialmente da atenção à Palavra. Ao mesmo tempo, há uma clara denúncia ao perigo do uso fundamentalista das Escrituras e tradições religiosas, pois também os argumentos do diabo são fundamentados na Palavra de Deus. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, março 01, 2025

REFLEXÃO PARA O 8º DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 6,39-45 – ANO B


Pelo terceiro domingo consecutivo, o evangelho proposto pela liturgia é tirado do “discurso da planície” do Evangelho de Lucas. Como afirmamos em outras ocasiões, esse discurso é a versão paralela ao “discurso da montanha” do Evangelho de Mateus. Partindo de uma fonte comum – a chamada “Fonte Q” –, cada evangelista montou o discurso conforme suas próprias necessidades pastorais, tendências teológicas e habilidades literárias. Por isso, embora a mensagem central possua significado equivalente em ambos os evangelhos, e haja equivalência na maior parte do conteúdo, há também consideráveis diferenças, que refletem a posição de cada autor e a realidade das primeiras comunidades destinatárias. A passagem selecionada para hoje – o oitavo domingo do tempo comum – é Lc 6,39-45. Esse texto é a continuação imediata daquele do domingo passado (Lc 6,27-38), e já contém alguns dos elementos conclusivos respectivo discurso. Com este domingo, conclui-se a liturgia dominical da primeira fase do tempo comum, que será interrompido para a vivência do ciclo pascal, cujo início se dá na Quarta-feira de Cinzas, que abre o tempo da Quaresma. Com isso, interrompe-se temporariamente também a leitura semi-contínua do Evangelho de Lucas. 

O texto proposto para hoje compreende um conjunto de sentenças proverbiais usadas como advertências e incentivo para a comunidade cristã manter-se coerente e fiel aos ensinamentos de Jesus. O discurso da planície, desde o seu início com a proclamação dos pobres como bem-aventurados e a série de denúncias e lamentos contra os ricos, apresenta a necessidade de uma verdadeira revolução no jeito de viver dos seguidores e seguidoras de Jesus, cuja expressão mais comprometedora é a exigência de amor ilimitado, até para com os inimigos (Lc 6,27.35), e a regra de ouro que ensina a “fazer aos outros o que deseja para si” (Lc 6,31). De fato, se trata de um programa de vida altamente revolucionário, guiado pelo amor, cujo êxito ou fracasso depende essencialmente da adesão e coerência dos discípulos à mensagem de Jesus e ao seu jeito de viver, foco do evangelho de hoje. O modo enfático como o evangelista apresenta estes ensinamentos indica que na época da redação do evangelho, provavelmente nos anos 80 do primeiro século, as comunidades já apresentavam sinais de distanciamento do que é essencial na vida cristã; daí a necessidade de recordar as exigências básicas para o seguimento autêntico de Jesus de modo tão enfático. 

Embora Jesus se encontrasse diante de um auditório numeroso e heterogêneo, pois além dos discípulos havia uma grande multidão, composta por pessoas da Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidônia (Lc 6,17), os principais destinatários do discurso são os seus discípulos, os quais, no contexto narrativo do Evangelho, representam os cristão de todos os tempos. São eles, portanto, os que devem viver primeiro e de modo radical o programa de vida proposto por Jesus, que compreende o seu jeito mesmo de viver. Por isso, diz o evangelista que «Jesus contou uma parábola aos discípulos» (v. 39a). Como se vê, são os discípulos os que devem ouvir com atenção e pôr em prática o que Jesus está ensinando, como recorda o evangelista. É claro que o conteúdo do discurso da planície de Lucas, bem como o do equivalente discurso da montanha de Mateus (Mt 5–7), possui um alcance universal, é válido para todos povos e culturas, mas são os cristãos e cristãs de todos os tempos quem têm a responsabilidade de ser os primeiros a viver. Sobretudo, porque é a vivência dos ensinamentos desse discurso que atesta a verdadeira pertença a Jesus. De fato, nele estão as exigências básicas indispensáveis para o viver cristão. A maneira como começa o primeiro versículo indica uma chamada de atenção nos discípulos, os ouvintes principais, o que poderia ser visto como introdução a um novo ensinamento, como também o começo da conclusão de todo o discurso, o que de fato é. Começa aqui o arremate final do discurso, no qual Jesus começa a reivindicar a operacionalidade, a prática de tudo o que ensinou até então, desde que desceu da montanha à planície e ali começou a ensinar (Lc 6,17ss).

A primeira parte do discurso, como vimos há dois domingos, possui um estilo profético, com a proclamação das bem-aventuranças aos pobres e das denúncias e lamentos aos ricos, com a fórmula “ai de vós”. A segunda parte, cuja leitura fora iniciada no domingo passado e está sendo continuada hoje, aproximando-se da conclusão, possui um estilo sapiencial: comporta um conjunto de máximas proverbiais de grande impacto e importância nos ouvintes e leitores, a fim de levá-los à reflexão e à consequente adesão ao projeto de Jesus. No caso da sequência iniciada hoje, o evangelista chama de parábola (em grego: παραβολή – parabolê). Embora no mundo greco-romano a parábola signifique mais uma narrativa ou história, como são a maioria das histórias contadas por Jesus nos evangelhos, no mundo semita – ambiente sócio-cultural de Jesus – a parábola equivale também a provérbio ou máxima sapiencial, e é esse o sentido do termo no contexto do evangelho de hoje. Assim, com um provérbio bastante claro, Jesus chama a atenção dos seus seguidores e seguidoras a viverem como pessoas iluminadas e lúcidas e, sobretudo, abertas aos seus ensinamentos: «Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?» (v. 39b). Além da imagem impactante – um cego guiando outro cego –, Jesus recorre também à pergunta retórica como recurso literário, a fim de impactar os ouvintes leitores. Trata-se de um recurso muito apreciado nas culturas onde as tradições orais possuem grande importância, como era a cultura judaica na época, além de ser um instrumento de persuasão relevante também em ambientes mais refinados culturalmente, como o mundo greco-romano, que era o provável mundo do evangelista Lucas. 

A cegueira, em linguagem bíblica, equivale a trevas, significa ausência de Deus e dos seus mandamentos. Para a comunidade de Jesus, significa fechamento ao Evangelho, o que leva a pessoa ao egoísmo e suas danosas consequências. Se os cristãos são chamados a ser luz, logo devem esforçar-se para evitar a cegueira. Isso se faz vivendo e praticando o que ensina o Evangelho. Só pode ser luz para os outros quem já é portador de luz, ou seja, quem se deixa iluminar pelo Evangelho de Jesus. Quem se fecha ao Evangelho, por outro lado, deixa de ser iluminado, fechando-se em si mesmo e agindo como juiz de si e dos outros. Esse provérbio aparece também no Evangelho de Mateus, mas não no discurso da montanha, e sim numa polêmica de Jesus com os escribas e fariseus, considerados cegos por ele (Mt 15,14). Em Lucas, o provérbio chega a ser mais comprometedor, pois Jesus adverte que os cegos que se fazem de guias podem estar na própria comunidade, por isso é tão indispensável a vigilância pessoal, para não cair na cegueira que ele condena. Os cegos, portanto, apesar de estarem na comunidade, como membros, às vezes até como lideranças, o que é mais preocupante, são aquelas pessoas que não assimilam o jeito misericordioso de ser de Deus e, mesmo assim, reivindicam para si o direito de julgar os demais, ditando regras de comportamento, apresentando-se como defensores da moral e dos bons costumes. No coração do discurso está o amor ilimitado, até para com os inimigos, que sendo amados deixam de ser inimigos, e a misericórdia de Deus, que deve ser o parâmetro do agir humano, como indicava o evangelho do domingo passado (Lc 6,27-38). Na parte conclusiva, portanto, Jesus adverte sobre o perigo da falta de amor e misericórdia, o que torna o ser humano cego e, por isso, incapaz de ser guia para outras pessoas. 

Quando mantida, a cegueira denunciada por Jesus traz consequências sérias para a comunidade, podendo levá-la toda ao precipício, sobretudo quando cultivada pelas lideranças. Por isso, o segundo provérbio possui muita conexão com o primeiro, apesar de imagens empregar imagens tão diferentes.  Nele, temos uma forte uma denúncia aos sinais de divisão e também de prepotência que podem surgir na comunidade. Consequentemente, se torna um convite à humildade e ao reconhecimento dos limites e da própria posição na comunidade: «Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre» (v. 40). Provavelmente, esse versículo reflete mais a situação da comunidade de Lucas do que mesmo a do grupo inicial dos discípulos de Jesus. Tendo se passado quase cinquenta anos da morte de Jesus, já se sentia uma tendência de hierarquização e institucionalização no movimento cristão, o que comprometia bastante a vida comunitária, pois feria o princípio de uma comunidade fraterna, igualitária, como propôs Jesus. Para manter o princípio da igualdade é necessário que estejam todos numa mesma condição e ninguém se atreva a ocupar o lugar de mestre que pertence somente a Jesus. Ao invés de ocupar o lugar do mestre, os discípulos devem esforçar-se somente para ser como ele, vivendo como ele viveu, sobretudo, no jeito de amar, e sempre abertos a novos aprendizados conforme as necessidades de acompanharem os “sinais dos tempos”.

Com o segundo provérbio temos, portanto, um convite para se buscar conhecer Jesus e sua mensagem cada vez mais, para tornar-se semelhante a ele, sobretudo no amor, que é a essência do seu ensinamento. E ser como ele exige disposição de amar até os inimigos, antecipando-se em fazer o bem. Também esse provérbio se encontra em Mateus (Mt 10,24-25), mas deslocado do discurso da montanha. Na verdade, aparece já no discurso missionário, o segundo dos cinco grandes discursos de Jesus no primeiro Evangelho. Na ocasião, Jesus está preparando seus discípulos para a missão e, diante disso, uma recomendação básica é exatamente essa consciência, o que era muito caro ao ideal de discípulo para a mentalidade semita: o discípulo não poderia superar o mestre aprendendo novas doutrinas, o que seria uma desmoralização, pois passaria a ideia de que o ensinamento do mestre não tinha sido suficiente. É claro que, aplicando aos seus discípulos, a preocupação de Jesus não é tanto essa, e sim combater as tendências de carreirismo e competição que poderiam instalar-se na sua comunidade e, certamente, foi isso que Lucas percebeu na época da redação da sua obra. Numa comunidade cristã, quando alguém assume uma condição acima do discipulado, perde-se o princípio da igualdade e, consequentemente, o ideal de fraternidade. Ora, todos devem ser apenas discípulos, uma vez que há um único mestre: Jesus de Nazaré. 

Do risco de alguém na comunidade ocupar o lugar do mestre, emanam diversos outros riscos, como a arrogância e a prepotência, inclusive falsos ideais de perfeição e moralismos. De fato, tudo desmorona numa comunidade quando o discipulado é ignorado e distorcido; o cristianismo se torna peça de ficção. E isso não depende apenas das lideranças, pois também os demais membros podem alimentar, às vezes, projetos de poder e triunfalismos, além de falsos moralismos, talvez o pior dos males do cristianismo atual, distorcendo completamente a essência do que Jesus ensinou e deixou como legado maior: a primazia do amor e da misericórdia, em qualquer nível de relação interpessoal e comunitário. De males como carreirismo, falsos moralismos e puritanismos, emanam tantos outros, como divisões, rivalidades e as mais diversas formas de preconceito e segregação. E tudo isso, obviamente, é contrário ao projeto de Jesus. Por isso, sua séria advertência vai se tornando cada vez mais enfática e denunciadora: «Por que vês o cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?» (v. 41). Mais do que um risco, esse parece ser um problema já enraizado na comunidade, e combatido pelo evangelista, ao recordar a posição do próprio Jesus diante de tal situação. Existiam e ainda existem pessoas que se consideram puras e irrepreensíveis, atribuindo para si a capacidade e o direito de julgar os outros, escondendo-se em expressões perigosas de devocionismo e tradicionalismo. Esse tipo de comportamento é totalmente alheio ao ensinamento de Jesus e, por isso, inadequado à comunidade cristã. A advertência em forma de pergunta retórica, mais uma vez, ressalta a importância do que está sendo ensinado. 

O próprio Jesus reforça o combate a todas essas tendências, tão prejudiciais ao seu projeto, empregando imagens cada vez mais interpelantes e denunciadoras: «Como podes dizer a teu irmão: “Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho”, quando não percebes a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão» (v. 42). Essa é a primeira vez que Lucas emprega a palavra hipócrita no seu evangelho; esse termo (em grego: ὑποκριτής – hipocritês) significa literalmente “aquele que põe a máscara”, designa o ator ou intérprete no teatro grego. Enquanto Mateus, por exemplo, reserva essa palavra aos fariseus e mestres da Lei (Mt 6,2.5.16; 15,7;22,18), os mais tradicionais adversários de Jesus, Lucas reconhece o perigo da hipocrisia também no seio da comunidade cristã. Certamente, ele já constatava o enraizamento dessa tendência tão nociva na sua própria comunidade. Por isso, recorda tão bem a denúncia de Jesus, aplicando-a ao contexto da sua comunidade, uma vez que se trata de um ensinamento perene, válido para todos os tempos e lugares, inclusive, muito necessário para os dias atuais. Aliás, todos os ensinamentos de Jesus se aplicam a todos os tempos e lugares, sobretudo o conteúdo deste discurso – seja chamado da “montanha” ou da “planície” –, universalmente reconhecido como a maior lição de humanização que a humanidade já conheceu. Geralmente, quem mais vê defeitos no outro, quem se considera irrepreensível diante de Deus, quem tem facilidade em julgar o próximo, são as pessoas mais distantes dos verdadeiros valores do Evangelho. Essa tendência deve ser combatida e denunciada constantemente, pois fere o ideal de vida proposto por Jesus.

À medida em que o discurso se aproxima do final, o emprego de imagens fortes se intensifica ainda mais. Na sequência do texto de hoje, vem empregada a imagem da árvore com os frutos, com a finalidade de animar os cristãos a traduzir na vida concreta a relação com Cristo. Essa imagem é ainda mais significativa, tendo em vista que a relação entre árvore e fruto é muito clara e vital, acessível a todos, em qualquer cultura. Eis o que ele diz: «Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas» (vv. 43-44). A pertença de alguém a Cristo e a coerência aos seus ensinamentos serão reveladas naturalmente pelos frutos, ou seja, pelo agir concreto e cotidiano, jamais pelas aparências. De quem se alimenta do Evangelho, não podem brotar frutos que não sejam amor e misericórdia, justiça e solidariedade. Ao invés de julgar o próximo, conforme a advertência anterior (vv. 41-42), os seguidores e seguidoras de Jesus devem preocupar-se com a qualidade dos frutos gerados. A oposição entre frutos bons e ruins deve ajudar o ouvinte e leitor a perceber as consequências de suas ações e pensamentos, levando-os a uma reflexão mais profunda sobre a fonte de todo o agir humano, conforme a mentalidade bíblica: o coração. É claro que a relação entre árvore e fruto apresentada no texto não possui valor científico acerca do ciclo vital das árvores. É um modo figurado de ensinar que aquilo que fazemos e falamos é consequência daquilo que somos, o que torna a advertência tão pertinente. Enfim, é uma maneira de dizer que nosso agir e nossas palavras refletem aquilo que realmente somos, que é a nossa interioridade, ou seja, o coração e tudo o que se tem nele.

No versículo conclusivo – não do discurso em si, mas da passagem litúrgica –, o evangelista mostra Jesus contando, de fato, uma pequena parábola, no sentido de história ou narrativa, propriamente, como se lê: «O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio» (v. 45). Aqui ele emprega novas imagens, ensinando que, além do agir, também as palavras possuem grande importância para a vida cristã, pois revelam a qualidade da fonte que as origina, que é o coração humano. E o coração como um tesouro é uma imagem clássica na linguagem bíblica, sobretudo nos escritos sapienciais (Eclo 29,11), pois é o que o ser humano tem de mais precioso, para a mentalidade semita; é a sede do processamento de todos os sentimentos e pensamentos. Se o comportamento e o agir são importantes e decisivos para o bem da comunidade e da vida em si, cada um e cada uma deve estar atento ao que origina tal agir, que é o coração. Por isso, o cuidado com as disposições interiores, das quais dependem se os frutos produzidos serão bons ou ruins.

À guisa de conclusão, podemos afirmar que o ensinamento do evangelho de hoje já constitui uma verdadeira preparação para a Quaresma, cujo início se dará na próxima quarta-feira. A interrupção temporária da leitura semi-contínua do Evangelho de Lucas, texto característico do ano litúrgico vigente – ano C – acontece justamente no ponto mais alto do ensinamento de Jesus no respectivo livro. Sem a assimilação do jeito de ser de Jesus, tão bem expresso no discurso da planície, não se tornar realidade concreta na vida cotidiana, todas as práticas de penitência e devoção realizadas intensamente no tempo da Quaresma serão apenas teatro, ou seja, hipocrisia. Que as palavras de Jesus ressoadas em nossos ouvidos a partir do evangelho de hoje cure nossas cegueiras e nos leve a produzir frutos dignos do seu seguimento. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, fevereiro 22, 2025

REFLEXÃO PARA O 7º DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 6,27-38 (ANO C)

 


A liturgia deste sétimo domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do chamado “discurso da planície” do Evangelho de Lucas (Lc 6,17-49). Como se sabe, esse discurso é a versão lucana paralela e alternativa ao famoso “discurso da montanha” do Evangelho de Mateus (Mt 5–7). Certamente, ambos os evangelistas utilizaram a mesma fonte ou tradição – a chamada “Fonte Q” –, mas cada um adaptou-a às suas intenções teológicas e às necessidades de suas respectivas comunidades, de modo que são bem evidentes as diferenças entre as duas versões, conforme já acenamos na reflexão do domingo passado, a começar pelo cenário da cena: enquanto Mateus localiza o discurso no alto de uma montanha, Lucas diz que a proclamação se deu numa planície. Além das variações no conteúdo, talvez essa seja a principal diferença entre as duas perspectivas. Outra diferença considerável diz respeito aos destinatários de cada discurso. Em Mateus, o discurso da montanha é dirigido exclusivamente aos discípulos, enquanto o discurso da planície de Lucas tem, além dos discípulos, também as multidões como destinatárias, reforçando o enfoque universalista do respectivo evangelista.

O texto lido hoje – Lc 6,27-38 – é a sequência imediata daquele do domingo passado (Lc 6,17.20-26). Naquela ocasião, Jesus identificou um mundo escandalosamente dividido entre pobres e ricos: de um lado, os pobres, que passam fome, choram e sofrem perseguições; do outro, os ricos, que vivem na fartura, riem e são exaltados. Movido sempre por sua íntima relação com o Pai, ainda mais porque tinha acabado de descer da montanha, onde tinha orado ao Pai e escolhido os Doze, Jesus tinha certeza que aquele mundo tão desumanizado, dividido e desigual não correspondia aos propósitos de Deus. Por isso, certamente inspirado no exemplo dos grandes profetas do Antigo Testamento, ele tomou partido pelo lado mais fraco, o lado dos pobres e famintos, os que choram e são perseguidos, proclamando-os bem-aventurados e incentivando-os à luta perseverante e transformadora, para superar aquele abismo, garantindo-lhes a primazia no Reino de Deus, que se constrói desde agora. Por outro lado, aos ricos, risonhos, saciados e exaltados, Jesus proferiu sérias denúncias, com a proclamação das chamadas “maldições”, introduzidas pela fórmula profética de lamento e denúncia “ai de vós”. Portanto, é necessário recuperar essa imagem de um mundo dividido e desigual, diante do qual Jesus nunca se conformou, para compreender a mensagem do evangelho de hoje, que pode ser considerado um hino ao amor e ao perdão.

Antes de tudo, é interessante recordar que Jesus não se limitou a diagnosticar a situação. Ele foi bem mais além, propondo uma verdadeira reviravolta na história, com revolução de valores. A transformação querida por Jesus, obviamente, não pode se realizar pela força, e sim pelo amor. Claramente, ele escolheu um lado, o dos pobres e pequenos, e propôs um caminho de superação, correspondente aos propósitos do Pai: «A vós, que me escutais, eu digo: amais os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam» (27). O convite à observação daquilo que se escuta é um importante indicativo da transmissão oral do ensinamento, como acontecia no cristianismo primitivo, o que posteriormente deu origem aos principais escritos do Novo Testamento. A maneira como o convite é exposto funciona também como indício de importância da mensagem, que é destinada a todas as pessoas que, em qualquer época, tenham contato com o Evangelho. Inclusive, a sequência da mensagem vai revelar seu caráter universalista. Ora, diante de um mundo ferido pela ganância, desigual e dividido, o caminho de superação não pode ser outro senão o amor, a maior força de humanização encontrada por Jesus e tão radicalmente vivida. De fato, o amor é a base da sociedade alternativa proposta por Jesus, correspondente ao que ele mesmo chama de Reino de Deus, conforme mostram os evangelhos. 

Por “inimigos”, neste texto e neste primeiro versículo, sobretudo, compreende-se as pessoas que praticam o mal, aquelas que são prejudiciais e responsáveis pelo sofrimento do outro. À medida em que devem ser amadas, deixam de ser inimigas. São as pessoas que, segundo uma lógica puramente humana, deveriam ser odiadas e eternamente condenadas. Jesus, no entanto, propõe uma verdadeira revolução, pelo amor, e esse é o grande diferencial da sua mensagem. Para isso, não ilustra seu ensinamento com exemplos abstratos inalcançáveis, mas com situações bem concretas: «Bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva» (vv. 28-30). Essas são situações do dia-a-dia, acessíveis a todas as pessoas, embora altamente desafiadoras, pois exigem grande empenho na prática da tolerância e do amor. Provavelmente, eram situações já vividas pelas primeiras comunidades cristãs e agravadas nos tempos em que Mateus e Lucas compuseram suas obras, entre as décadas de 70 e 90 do primeiro século. Diante das hostilidades, era forte a tendência a distanciar-se da radicalidade exigida pela mensagem de Jesus, que é o seu próprio jeito de viver. Por isso, a insistência dos evangelistas. A resposta cristã ao ódio é o amor e a oração, em qualquer circunstância. E essa se constitui como um dos principais diferenciais da mensagem cristã em relação a qualquer outra experiência de vida religiosa e social. Oferecer a outra face é sinal de que não foi intimidado pela violência recebida, é uma forma sutil de denúncia. Obviamente, não é um convite à aceitação passiva do mal e da violência, mas uma alternativa que leva o próprio praticante do mal a reconhecer a ineficácia de suas práticas, sentindo-se ele mesmo humilhado. Na época, predominavam duas formas de responder ao mal e à violência: aceitar passivamente o mal sofrido ou reagir violentamente; Jesus propõe uma terceira via, a única capaz de fazer o malvado reconhecer a ineficácia e a covardia de suas práticas. É claro que não se trata de resignação diante da injustiça sofrida, mas sim de combatê-la da maneira mais eficaz, a ponto de desarmar os injustos. Com uma proposta tão ousada, Jesus está propondo o fim da corrente da violência, mostrando que o mal só pode ser combatido e vencido pelo bem. A violência sempre gera mais violência; por isso, ela é inaceitável, sejam quais forem as circunstâncias. 

Com esse discurso, se vê claramente que Jesus não ensina uma doutrina, mas apresenta uma proposta de vida, conforme a maneira dele mesmo viver, a fim de humanizar o mundo. E a regra de ouro para a realização dessa proposta é esta: «O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles» (v. 31). Essa regra é a resposta a todo movimento ou sistema que prega a violência ou até mesmo a reciprocidade nas relações. É dirigida a toda a humanidade, em todos os tempos. É considerada a regra de ouro da caridade e da vida cristã, inclusive, é o que mais faz o cristianismo ser tão admirado, enquanto estilo de vida, por pessoas de outras religiões e até por ateus. Embora tenha antecedentes parecidos no Antigo Testamento, a formulação de Jesus é totalmente original. Em Tb 4,15a, por exemplo, temos uma máxima muito parecida, embora formulada a partir da via negativa: «Não façais a ninguém o que não queres que te façam». Algumas escolas rabínicas da época de Jesus e das primeiras comunidades cristãs pregavam a partir dessa máxima. A originalidade da formulação de Jesus é a motivação a um agir concreto, a fazer o bem, e não apenas a não praticar o mal. Como se vê, o empenho exigido por Jesus é bem maior. Para ele, não basta não fazer o mal, mas é preciso fazer o bem, sempre. Com isso, ele está também combatendo todo tipo de indiferença. De fato, o conjunto da sua mensagem revela que a indiferença constitui um dos piores males na vida, tanto em âmbito pessoal quanto social, comunitário. 

O seguidor de Jesus deve fazer o bem sem exigir nada do outro, além de jamais retribuir com a mesma medida por uma ofensa recebida. Deve se colocar no lugar do outro, sem nada exigir, e refletir sobre as consequências de suas próprias ações, como será explicitado nos versículos seguintes: «Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim. E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia» (v. 32-34). Existe um nível de comportamento e de relações acessível a todos, e que é praticado em praticamente todas as sociedades: a reciprocidade. Por exemplo, amar alguém sabendo que é amado por esse alguém é uma atitude que não exige o conhecimento do Evangelho nem intimidade com Jesus. O mesmo vale para a prática de gestos caritativos, quando se sabe que haverá retribuição do outro. Isso é comum a todas culturas. Até os pecadores fazem isso, como ele afirma. “Os pecadores”, aqui, significa todas as categorias de quem não pauta a vida segundo o Evangelho; não quer dizer as pessoas más em si, e sim quem ainda não conhece a mensagem cristã. Mas também as pessoas más podem fazer isso, ou seja, agir segundo a lógica da retribuição, amando aqueles que sabem que lhes amam, e pagando pelo mesmo valor um bem ou um favor recebido. O princípio do amor se aplica também a outros tipos de relações, como o fazer o bem de um modo geral, e a prática dos empréstimos. Em qualquer que seja o grau ou o tipo de relação, o autêntico seguidor de Jesus deixa a sua marca, fazendo como ele mesmo fazia, ou seja, agindo de modo totalmente desinteressado, sem receber qualquer recompensa ou retribuição. 

Novamente no imperativo, o convite a amar os inimigos é reforçado, junto com o fazer o bem: «Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e maus» (v. 35). É necessário que o discípulo e a discípula de Jesus façam além do óbvio, que pratiquem o amor e a justiça de modo gratuito e desinteressado. Porém, inevitavelmente a recompensa virá, não como salário em forma material, mas em dignidade: tornar-se filhos ou filhas do Altíssimo. Ser filho, nessa perspectiva, significa ser parecido com o pai. É essa a dinâmica do amor proposto por Jesus: tornar o ser humano parecido com Deus, sendo bondoso como Ele é. E o caminho para isso é a assimilação da mensagem de Jesus, a mais eficaz fonte de humanização que a história já conheceu. Para reforçar ainda mais a necessidade de tornar-se parecido com Deus, Jesus parte da principal característica desse Deus: «Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso» (v. 36). Aqui, Jesus ousa reformular o solene mandamento de Levítico 19,2: «Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo». Esse mandamento fora decisivo para a construção da identidade de Israel e, por consequência, de seu orgulho e privilégio de povo eleito; compreendia-se a santidade como a separação dos outros povos. Jesus inova e faz uma reinterpretação decisiva para a sua comunidade, começando pela reformulação da imagem de Deus, que passa de santo a misericordioso, como passa também a ser compreendido como um Pai. Ora, o conceito de santo indica separação, por consequência, distância do ser humano, enquanto o traço da misericórdia recorda a atenção de Deus aos seres humanos, seus filhos. Sua misericórdia indica que ele está totalmente voltado para a humanidade, necessitada de amor e misericórdia. A partir dessa imagem é que deve ser imitado pelos seus filhos. Ser misericordioso significa ser bondoso, é cultivar somente bondade dentro de si e nas relações com o próximo, sem necessidade de separação; pelo contrário, é necessário misturar-se, como ele fez, com gente de “todo tipo”, para facilitar a irradiação do amor e, assim, tornar conhecido o verdadeiro rosto de Deus, o seu Pai. Amor e bondade são traços inseparáveis, e devem ser os sinais mais distintivos na vida dos seguidores e seguidoras de Jesus.

Ainda de acordo com a “regra de ouro” das relações – «O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles» (v. 31) – Jesus acrescenta outras exigências, como desdobramento, para que seu programa seja realmente vivido e, por consequência, o mundo seja transformado e plenamente humanizado. Por isso, ele diz: «Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque, com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos» (vv. 37-38). É claro que ele não está afirmando que o agir humano é critério para o agir de Deus. Pelo contrário, é Deus o critério, sobretudo na bondade e no amor, o que inclui a capacidade de perdoar. Porém, mais uma vez, ele reivindica a coerência de vida. Julgar e condenar não são prerrogativas de nenhum ser humano. Isso compete somente a Deus, que escolheu o amor misericordioso como meio e critério. É preciso assimilar o estilo de vida de Jesus, tornando-se artesão da paz e da humanização do mundo. E é exatamente no campo das relações com o próximo que os cristãos e cristãs revelam como se relacionam com Deus e como absorveram o Evangelho de Jesus.

Essa foi, portanto, a resposta e o caminho para um mundo ferido, injustiçado, dividido e desigual reencontrar o seu equilíbrio: acolhendo o ensinamento de Jesus sobre o amor e vivendo intensamente esse amor. Para isso, não é suficiente esperar passivamente a mudança de estruturas, mas cada um e cada uma deve, no dia-a-dia, experimentar esse amor e pautar a vida a partir dele, começando pelas relações com o próximo e as experiências concretas do cotidiano. Para concluir, é importante recordar que o amor e o perdão sem medidas, como ensina o evangelho de hoje, não se opõe à luta por justiça e pela superação das desigualdades. Ao pregar o amor aos inimigos, Jesus não está cancelando os “ai de vós” àqueles que fazem os pobres passar fome, chorar e ser perseguidos.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 15,1-3.11-32 ANO C

A liturgia do quarto domingo do tempo da Quaresma, deste ano C, nos dá a oportunidade de ler mais uma passagem exclusiva do Terceiro Evangel...