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sexta-feira, julho 12, 2024

REFLEXÃO PARA O 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,7-13 (ANO B)


O evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que relata o primeiro envio missionário dos Doze apóstolos por Jesus, sendo, por isso, paradigmático para a missão cristã em todos os tempos. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos, sendo a versão de Marcos considerada mais original, sobretudo por ser a mais antiga, servindo de base para os outros (Mt 10,1.9-14; Lc 9,1-6). Para compreendê-lo adequadamente, é necessário inseri-lo no devido contexto, como faremos a seguir. E começamos recordando o episódio anterior: a ida de Jesus com os discípulos à sua terra natal, Nazaré, num dia de sábado, quando ele foi desacreditado e rejeitado pelos seus conterrâneos, enquanto pregava na sinagoga (Mc 6,1-6), conforme refletimos no domingo passado. Ao sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito, os esforços deveriam ser ainda mais intensificados daquele momento em diante. Era necessário, portanto, que a missão fosse ampliada com urgência. Ora, Jesus sabia que a rejeição sofrida em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus conterrâneos na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o Israel. Diante disso, tomou a decisão de enviar seus discípulos, especialmente o grupo dos Doze, para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de Deus frutificassem com mais urgência.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que, quando constituiu o grupo dos Doze, Jesus lhes conferiu duas atribuições: «E constituiu Doze para estarem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios» (Mc 3,14). Como se vê, o discipulado comporta duas dimensões essenciais: o “estar com Jesus” e a missão. A missão, ou seja, o “ser enviado” é consequência do “estar com ele”. Ora, até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando a sua pregação e observando os sinais realizados. Em outras palavras, até então eles estavam aprendendo com Jesus, vivendo o indispensável processo formativo, o que revela as habilidades pedagógicas de Jesus e serve de advertência para a comunidade cristã em todos os tempos, pois o anúncio do Evangelho não pode ser improvisado. Antes do envio, os discípulos vivem um intenso processo de formação estando com Jesus, no qual, mais do que aprender conhecimentos teóricos, eles são humanizados pelo estilo de vida do mestre. O episódio de Nazaré fez Jesus perceber que tinha chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (Mc 8,33; 10,35), mas isso faz parte de todo processo pedagógico, daí a necessidade da formação permanente em todos os âmbitos da existência. Era necessário fazer uma primeira experiência de missão, tendo em vista as exigências das circunstâncias.

Como já foi acenado, ao invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da necessidade de ampliar o arco da sua missão, por isso, diz o evangelista que ele «chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois» (v. 7a). Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova chegar a mais lugares simultaneamente, o que reforça a urgência da instauração do Reino. Por isso, Jesus chama os Doze e os envia dois a dois para enfatizar a dimensão comunitária da fé. É significativo o emprego do verbo chamar, aqui, uma vez que o chamado vocacional já tinha acontecido há certo tempo. Com efeito, os Doze já eram discípulos, mas o evangelista quer apresentar o chamado como uma novidade contínua e é assim que o discípulo deve se sentir: chamado todos os dias para ser sinal do Reino no mundo, partilhando com todos a experiência fundante do discipulado que é o “estar com Jesus”. De fato, Jesus os chama para estar com ele e, em seguida, para enviá-los. O andar dois a dois já constitui uma primeira evangelização, pois significa fraternidade, é a superação do egoísmo e da autossuficiência. De acordo com a Lei, o testemunho de pelo menos duas pessoas era necessário para confirmar um fato (Dt 17,6; 19,15), mas não é esse o sentido aplicado nesta passagem, como alguns estudiosos chegaram a defender. Para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária da vivência da fé. Não há espaço para individualismos na vida da comunidade cristã. A fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja, comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos têm mais possibilidades de recordar que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.

E Jesus confere aos discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a sua própria presença durante a missão: «dando-lhes poder sobre os espíritos impuros» (v. 7b). Esses espíritos impuros são todas as forças do mal presentes no mundo, é tudo aquilo que gera violência, injustiça, exclusão, morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável com o Deus da vida, com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como obstáculos à realização do Reino de Deus. Logo, devem ser combatidos pelos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Muitas vezes, esses elementos são criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças físicas e psíquicas, bem como pela condição social. O poder (em grego: ἐξουσία – exousia) conferido sobre tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Na verdade, ao invés de poder, o termo mais apropriado é autoridade, o que significa ter liberdade e direito de agir. Nada tem a ver com domínio, força ou imposição. E como o próprio texto deixa claro, não se trata de um poder sobre as pessoas, mas de um poder sobre as forças do mal, que escravizam e privam o ser humano de sua liberdade e dignidade plenas. Portanto, Jesus não envia seus discípulos para dominarem nem submeterem as pessoas a uma doutrina, mas para atuarem com liberdade e pela liberdade das pessoas. Enfim, a autoridade e a missão dos discípulos de Jesus no mundo consistem em fazer-se agentes de humanização.

E o envio comporta algumas recomendações, das quais depende o êxito da missão: «Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas» (vv. 8-9). Essas recomendações refletem o estilo de vida que devem adotar os discípulos e discípulas de Jesus. A austeridade e simplicidade é exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus, pois foi assim que ele mesmo viveu, pobre entre os pobres. Somente vivendo assim se assemelha a ele, e ser discípulo é, acima de tudo, assemelhar-se ao mestre. Isso quer dizer que o discípulo não deve ter outra preocupação além do anúncio do Reino, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torná-lo sobrecarregado. E a simplicidade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial, além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de adaptação ao que lhes for oferecido. Especificamente nas recomendações práticas aos discípulos para a missão é onde se encontram mais particularidades de cada evangelista. Somente em Marcos consta a recomendação para que os discípulos levem um cajado e andem de sandálias. Ora, ao mandar que os discípulos andem de sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a como um constante caminhar. Com isso, ele ensina que o lugar do discípulo não é o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades, o que torna necessário também o uso do cajado, sobretudo para que os missionários se proteja de animais ferozes e se apoiem nos terrenos acidentados. A missão é desafiadora não apenas no contato com pessoas e realidades diferentes, mas também nos deslocamentos. Por isso, o cajado e as sandálias são essenciais. Ora, embora a casa tenha um lugar privilegiado na teologia de Marcos, essa não está relacionada a estabilidade ou conforto; significa o espaço de encontro fraterno, em oposição à sinagoga. Mas o verdadeiro lugar do discípulo de Jesus é a estrada, pois a Igreja nasceu para estar em saída, levando adiante o estilo de vida de Jesus.

Escrito cerca de três décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho de Marcos já reflete uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial, chamando a atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida que Jesus viveu e propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus sobre essa dimensão da vida cristã: «E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida”» (v. 10). Aqui, além de advertir os discípulos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como hospedagem, também chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e missionários nas casas. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos, permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado ou cidade. Permanecer quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida dos missionários, peregrinos e necessitados.

Tendo sido rejeitado em seu próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e possível também para os discípulos, por onde passassem, por isso os preveniu: «Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles» (v. 11). Essa recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado (Mc 6,6) com a rejeição ali recebida, em meio aos seus conterrâneos, ele alertou os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos devem estar disponíveis a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é portador da Boa Nova do Reino, como os discípulos missionários de Jesus. O «testemunho contra» não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, essenciais para o sentido da vida. Contudo, essa privação não se dá porque o amor de Deus diminua, mas porque a pessoa não quer experimentá-lo. O amor de Deus é sempre intenso por todas as pessoas, sendo acolhido ou não. Considerando a radicalidade do Evangelho, a rejeição ao anúncio sempre existirá. O gesto de sacudir a poeira dos pés recorda a prática dos judeus quando passavam por algum território pagão.

Dadas as instruções de envio, diz o texto que «Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem» (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de conversão. Ora, conversão (em grego: μετάνοια– metanoia) significa mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, sobretudo a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo passasse por um processo de conversão, passando a um jeito novo de conceber o mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados, propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga, conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de Deus. Embora o texto mencione apenas o chamado à conversão como objeto da pregação dos discípulos, certamente eles anunciaram o que tinham aprendido com Jesus até então, ou seja, os mistérios do Reino e a urgência da sua implantação, como Jesus tinha anunciado em parábolas (Mc 4,1-34). A conversão é pressuposto para acolhida do Reino com seus traços característicos essenciais: justiça, igualdade, fraternidade e amor.

Imediatamente, o evangelista já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: «Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo» (v. 13). Como se vê, o resultado da missão possui duas vertentes principais, além do anúncio: a dimensão exorcística e a terapêutica, ou seja, expulsão de demônios e cura de doentes. Tudo isso aponta para a humanização do mundo, meta do Evangelho. A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Ora, com muita probabilidade, o Evangelho de Marcos foi escrito em Roma, durante o reinado de Nero, quando os cristãos viveram a primeira grande perseguição. Era uma época em que o mal prevalecia explicitamente e a ação dos cristãos parecia ter pouco efeito no combate. Diante disso, o evangelista quis ensinar que, se as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão alcançados. O mal não tem a última palavra. A recomendação do uso do óleo neste episódio é mais um elemento recordado apenas por Marcos. Parece um detalhe proposital para diferenciar do agir de Jesus, o qual bastava impor as mãos, sem uso de qualquer recurso medicinal. Como se sabe, o uso do óleo como um elemento medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade e o cristianismo conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental (Lc 10,34; Tg 5,15). Os doentes são, em Marcos, a síntese da pessoa necessitada e excluída e, por isso, são os destinatários privilegiados do anúncio da Boa Nova, que não é a propagação de uma doutrina, mas um processo de humanização e emancipação por meio do amor.

Ao ler e meditar hoje esse trecho do Evangelho de Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao seu envio, para recuperar aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus, como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.

Se em apenas três décadas após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada vez mais urgente. Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem de viver radicalmente o que Jesus propõe, e combatê-los, para o Reino de Deus ser de novo experimentado e vivido.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, julho 06, 2024

REFLEXÃO PARA O 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,1-6 (ANO B)



Neste décimo quarto domingo do tempo comum, a liturgia retoma a leitura semi-contínua do Evangelho de Marcos, interrompida no último domingo, por ocasião da solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. O texto lido neste domingo – Mc 6,1-6 – corresponde ao episódio da visita de Jesus a Nazaré, em dia de sábado, acompanhado de seus discípulos. Na oportunidade, ele sofreu forte oposição dos seus conterrâneos, os quais tentaram desqualificar sua mensagem e o seu agir. Esse texto ocupa uma posição estratégica no conjunto do Evangelho de Marcos. O episódio retratado pode ser considerado até um divisor de águas no ministério de Jesus, pois o que vem logo após esse aponta para uma mudança de rumo e estratégia na sua missão, com o envio missionário dos Doze (6,7-13), o qual será lido na liturgia do próximo domingo. Contudo, antes de recordar o que vem depois, é importante lembrar o que vem antes do episódio de hoje: a cura da mulher hemorroíssa e a reanimação da filha de Jairo (5,21-43). Esses dois milagres aconteceram logo após Jesus fazer a travessia de retorno do território dos pagãos, junto com seus discípulos, cuja viagem de ida fora marcada pela tempestade que ameaçou a barca e ele a acalmou (4,35-41).

A localização estratégica de um episódio nos evangelhos é sempre um indicativo de importância para o conjunto do livro, o que se verifica no texto de hoje. Outro dado que aponta para a sua importância na vida de Jesus é o fato de tratar-se de um episódio transmitido também pelos outros sinóticos (Mt 13,53-58; Lc 4,16-30). No Evangelho de Lucas, por exemplo, esse episódio foi transformado no evento programático e inaugural do ministério de Jesus. Por isso, ele o transferiu para o início da obra. Contudo, é mais lógica e plausível a posição que este episódio ocupa em Marcos e Mateus, ou seja, quando a atividade de Jesus já estava em pleno desenvolvimento e as notícias sobre a sua mensagem e o seu agir libertador já tinham se espalhado pela Galileia e, por isso, tinham repercutido também em Nazaré. Inclusive, seus familiares já tinham recebido notícias sobre o seu agir pouco ortodoxo, por isso, certa vez, saíram à sua procura, com objetivo de prendê-lo, imaginando que estivesse louco (Mc 3,20-31). Também a hierarquia religiosa de Jerusalém já estava a par da sua atividade, fiscalizando e vigiando o seu agir, por considerá-lo subversivo e herético e, por isso, perigoso para o sistema.

Uma vez apresentados alguns elementos a nível de contexto, voltamos a atenção para o próprio texto, partindo do primeiro versículo, no qual se diz que «Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos foram com ele» (V. 1). Aqui, chamamos a atenção para uma primeira incoerência da tradução litúrgica, pois a palavra Nazaré não aparece no texto original. O que o evangelista diz é que Jesus foi à sua pátria (em grego: πατρίς – patrís), o que deve ser compreendido como a terra natal. Contudo, sabemos que a terra natal de Jesus era um pequeno vilarejo chamado Nazaré (Mc 1,9). Somente Lucas menciona Nazaré explicitamente neste episódio, certamente por razões mais teológicas do que históricas e geográficas (Lc 4,16). É muito provável que a ausência do nome Nazaré, neste contexto, em Marcos e Mateus, seja proposital, visando ampliar a dimensão do evento, transformando a rejeição dos nazarenos em projeção da rejeição de Israel à mensagem de Jesus. De fato, o apego exagerado às tradições e o fechamento às novidades do Reino foram as principais atitudes de Israel diante da mensagem libertadora e humanizante de Jesus. Por isso, na rejeição de um pequeno povoado, o evangelista prefigura a rejeição futura de todo o país, sobretudo das autoridades, cujo desfecho será a morte de Jesus.

Como era seu costume, «quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga» (v. 2a). Ao contrário de Lucas, Marcos não faz qualquer referência ao conteúdo do ensinamento de Jesus, mas o leitor do seu Evangelho já sabe que a pregação dele consistia no anúncio da chegada do Reino de Deus e o apelo à conversão (Mc 1,15). É importante recordar que essa é a última vez que Marcos mostra Jesus ensinando numa sinagoga. Isso reforça o quanto esse episódio é relevante, pois parece delimitar um antes e um depois na vida de Jesus. A reunião litúrgica do sábado na sinagoga, além da oração, era também uma ocasião para as pessoas se reencontrarem, se saudarem. Como fazia tempo que Jesus não retornava à sua terra, era de se esperar que fosse bem acolhido, saudado por todos, afinal, num povoado pequeno todos se conheciam, como o texto vai mostrar mais adiante. Quanto à acolhida, parece até que houve um certo entusiasmo, no início da pregação: «Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde ele recebeu tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”» (v. 2bc). Os questionamentos, enquanto consequência da admiração, confirmam que a fama de Jesus enquanto pregador e operador de milagres já tinha realmente se espalhado e os nazarenos estavam constatando, porém, sem acreditar ser possível, pois lhe faltavam credenciais razoavelmente aceitáveis, como uma origem que lhe rendesse prestígio social e religioso.

Ao questionarem precisamente a origem do conhecimento e da sabedoria de Jesus, bem como dos milagres realizados, seus conterrâneos preparam o rechaço, pois não o viam habilitado para fazer tudo aquilo, pois ele era apenas uma pessoa simples, como eles, como fica evidente no versículo seguinte: «“Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” E ficaram escandalizados por causa dele» (v. 3). Aqui são apresentados os traços comuns de Jesus, o que parece contradizer os atributos anteriormente identificados nele, para a mentalidade dos seus conterrâneos. A primeira característica é sua identificação como carpinteiro, embora não seja o termo mais adequado para traduzir a palavra grega empregada pelo evangelista (τέκτων – tékton). De fato, essa palavra significa artesão, o que pode incluir uma variedade de habilidades, incluindo, além de carpinteiro, marceneiro, pedreiro e construtor. Como era difícil a sobrevivência com apenas uma atividade, geralmente se fazia um pouco de tudo, sobretudo nos lugares pequenos como Nazaré. Anteriormente, os nazarenos tinham se admirado com os milagres feitos pelas mãos de Jesus, agora recordam sua condição de artesão, imaginando que de suas mãos simples, que deveriam estar cheias de calos, não era possível sair milagres, não poderiam conter força de salvação.

Da profissão como primeiro elemento de contraste com as qualidades identificadas, seus contestadores passam a citar os parentes conhecidos que viviam no lugar, também como contradição ao que ele estava demonstrando. O identificam pejorativamente como o “filho de Maria”, apenas. Para a mentalidade da época, referir-se a alguém sem mencionar o pai era uma demonstração de desprezo. As pessoas eram identificadas pelo nome do pai, o chefe do clã, mesmo quando esse já tivesse morrido. O nome da mãe não tinha importância alguma para a sociedade, na época. Inclusive, poderia tratar alguém a partir do nome da mãe era indicação de que o filho era ilegítimo. Porém, o evangelista se serve desse artifício para recordar a origem divina de Jesus, não o associando a um pai humano. Quer dizer que Jesus é filho de Maria porque seu Pai é somente Deus, e os isso os nazarenos não conseguiam compreender nem aceitar. A referência aos outros parentes próximos, chamados de irmãos e irmãs, só reforça a condição de homem comum que Jesus era, como viam seus conterrâneos. Imaginavam que, sendo Jesus parente de gente comum do povoado, não poderia ser um enviado de Deus, logo, não teria como ser o Messias esperado, que deveria vir ao mundo como um guerreiro e potente. O embate entre as diversas tradições cristãs sobre o grau de consanguinidade desses parentes mencionados é totalmente desnecessário e sem sentido.

Até então, Jesus tinha recebido oposição severa das autoridades religiosas e da família, apenas. Do povo, em geral, tinha recebido boa aceitação por onde passava. Esse episódio de Nazaré apresenta a primeira oposição coletiva à sua mensagem. Para a mentalidade provinciana dos habitantes de Nazaré, o que deveria ter nas mãos de um simples artesão seria calos, e não capacidade de operar sinais extraordinários. Embora ali não tenha feito milagres (v. 5), a sua fama já tinha chegado como milagreiro. Sendo Jesus uma pessoa simples, tendo crescido em um vilarejo simples, não era normal que ele tivesse tamanha sabedoria e, muito menos, que fosse o Messias. Jesus reage à oposição dos seus conterrâneos com um provérbio: «Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares» (v. 4). Para ele, não era surpresa um profeta ser rejeitado em sua terra, por parentes e conhecidos. Esse provérbio nasceu e amadureceu a partir da própria vivência dos profetas ao longo da história de Israel. Os principais exemplos dessa experiência de rejeição na própria terra foram Jeremias (cf. Jr 11,18-23; 12,6) e Ezequiel (cf. Ez 2,2-5). Com isso, ele prepara os seus discípulos para envio missionário que vai ser feito a seguir: também eles deverão sofrer rejeições por onde passarem. Ser rejeitado se torna a sina de quem permanece fiel a Deus e à missão por ele confiada. O que Marcos aqui constata em forma de narração, João antecipa poeticamente no prólogo do seu Evangelho, apresentando Jesus como a Palavra que se fez carne: «Veio para o que é seu, mas os seus não a acolheram» (Jo 1,11).

A rejeição a Jesus bloqueia a ação salvífica de Deus, o que significa que ele tenha se tornado impotente. O evangelista diz que «ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos» (v. 5). Isso quer dizer, acima de tudo, que ele não teve oportunidade, o clima criado ao possibilito que ele se revelasse plenamente como o verdadeiro enviado de Deus. Ora, os milagres de Jesus não eram meras demonstrações de poder e força, mas comunicação de Deus com a humanidade, e isso exigia interação e reciprocidade através da fé. Jesus se sentiu bloqueado, não imune de força, mas impedido de interagir, porque o Deus que ele veio revelar é alguém que se comunica, se relaciona com o ser humano de modo pessoal, e não através de sinais grandiosos. A fé é adesão à sua proposta de vida. Se a reação dos habitantes de Nazaré foi de perplexidade, também Jesus «admirou-se com a falta de fé deles» (v. 6a). A falta de fé é o fechamento ao seu amor humanizante, a incapacidade de adesão à sua mensagem; aqui, significa o fechamento e a dureza de coração, a insensatez. E, diante de toda essa rejeição recebida, a resposta de Jesus é a missão: «Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando» (v. 6b). Como em Nazaré ele diagnosticou que Israel todo padecia, eis que reagiu a isso indo ao encontro de mais povoados, e enviando também os Doze com a mesma autoridade com que ele mesmo agia, como refletiremos no próximo domingo.

Os habitantes de Nazaré rejeitaram Jesus porque ele lhes apresentou um Deus acolhedor, misericordioso, justo e simples, fora dos esquemas apresentados pelas tradições de Israel. O Deus de Jesus não age pela força, nem pela imposição, mas se revela na simplicidade e na pequenez. Os nazarenos não reconheceram a simplicidade e o cotidiano coo lugar privilegiado de revelação de Des. O erro dos habitantes de Nazaré é repetido pelos cristãos quando imaginam e desejam uma Igreja triunfante, forte e poderosa. Que o Evangelho de hoje nos ajude a compreender e viver o que é essencial para a nossa fé, e a acolher a grandeza de Deus que se revela na pequenez.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,15-21 (ANO A)

  O evangelho lido na liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua ambientado em Jerusalém, mais precisamente nas dependên...