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sábado, setembro 13, 2025

REFLEXÃO PARA A FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ – JOÃO 3,13-17

 


Neste ano, a liturgia do vigésimo quarto domingo do tempo comum é substituída pela Festa da exaltação da Santa Cruz, cujo evangelho é Jo 3,13-17. Trata-se de uma das festas mais antigas da Igreja, cujas origens remontam aos primórdios da era constantiniana, quando, segundo a tradição, a cruz de Cristo foi descoberta por Helena, mãe do imperador Constantino, durante uma peregrinação à Jerusalém, por volta do ano 326. Logo após a suposta descoberta, o imperador mandou construir duas grandes basílicas em Jerusalém, nos lugares tradicionalmente identificados como locais da crucificação e do sepulcro de Jesus. Essas igrejas foram inauguradas nos dias treze e quatorze de setembro do ano 335. Assim nasceu a festa celebrada hoje. Tendo começado no Oriente, logo se espalhou pelo Ocidente e todo o mundo conhecido de então. Inicialmente, era considerada tão importante quanto a Páscoa, inclusive, a celebração costumava durar uma semana, sendo marcada por grandes procissões, expressando um aspecto altamente triunfalista. Por muitos séculos ela foi celebrada dessa maneira. Historicamente, o sucesso inicial da festa pode ser considerado positivo, pois ajudou a valorizar o sentido da cruz na vida cristã, embora, com o passar dos anos, tenha sido distorcido, devido ao excesso de devocionismo pouco reflexivo, que acabou transformando a cruz em símbolo de resignação e conformismo diante das situações de injustiças e sofrimentos.

No início do cristianismo, houve muita resistência à aceitação da cruz como símbolo e sinal de pertença a Jesus Cristo. Como se sabe, a cruz estava entre os instrumentos de execução e tortura mais temidos no império romano. Era usada para punir os piores criminosos, as pessoas que realmente representavam perigo para a ordem social, como os rebeldes, assaltantes e assassinos. A morte na cruz era lenta, humilhante e altamente dolorosa. À dor física, somavam-se a vergonha, a humilhação, uma vez que a execução na cruz era exposta, geralmente, acontecia em lugares altos, para que o maior número possível de pessoas pudesse ver e, assim, ficassem de sobreaviso sobre os riscos de cometer crimes e desafiar o sistema opressor. Tudo isso, obviamente, desencoraja muitas pessoas a aceitar Jesus como Messias e Senhor, afinal, a cruz era sinônimo de fracasso e, acima de tudo, de perigo. Logo, era difícil conceber que o Filho de Deus terminasse morto na cruz. Isso justifica a insistência dos autores do Novo Testamento em apresentar Jesus como o Filho de Deus que morreu na cruz, mas ressuscitou. Por isso, até os três primeiro séculos, os cristãos evitavam usar a cruz como símbolo, preferindo outras imagens como o peixe, o bom pastor e o cordeiro. O sucesso inicial da festa celebrada hoje ajudou na superação dessa visão. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II ressignificou seu sentido, fazendo a passagem de um culto à cruz enquanto objeto à contemplação do mistério da cruz como instrumento de salvação, de modo que, mais do que uma exaltação da cruz, pode-se falar de uma exaltação na cruz, como sugere o evangelho do dia.

Da contextualização histórica da festa, passamos para o contexto narrativo do evangelho nela empregado. Trata-se de Jo 3,13-17, uma passagem localizada na primeira parte do Evangelho de João, chamada tradicionalmente de “livro dos sinais” (Jo 1–12). Considerando um contexto mais imediato, esse texto faz parte do diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3,1-21), que é o primeiro dos grandes diálogos do Quarto Evangelho. Os diálogos constituem uma das principais características do Evangelho de João, sendo um dos instrumentos privilegiados de revelação da identidade de Jesus. Naquela ocasião, Jesus se encontrava em Jerusalém por ocasião da festa da “Páscoa dos judeus” (Jo 2,13.23). Durante sua estadia na grande cidade, ele realizou muitos sinais, despertando, além de oposição nas autoridades, adesão ao seu nome e curiosidade em alguns, como Nicodemos, com quem desenvolveu um prolongado e rico diálogo (Jo 3,1-21). O evangelista descreve Nicodemos como um judeu importante, pertencente ao grupo dos fariseus (Jo 3,1), profundo conhecedor da Lei (Jo 7,50-52), e curioso pela novidade de Jesus. Sua curiosidade para conhecer melhor a mensagem de Jesus revela sinceridade e respeito, inclusive o reconhecimento de que Jesus “vem da parte de Deus” (Jo 3,2), o que muitos fariseus tinham dificuldade de reconhecer, conforme as informações fornecidas pelos quatro evangelhos.

A leitura atenta do encontro com o diálogo em seu conjunto (Jo 3,1-21) revela que Nicodemos não estava satisfeito com a religião oficial. Parece que a imagem do Deus pregado pela sua religião já não lhe convencia plenamente. Certamente, ele desejava uma profunda renovação, embora ainda não estivesse pronto para romper com o sistema e aderir ao projeto de Jesus. A simples curiosidade, no entanto, já é um passo importante para quem estava plenamente atrelado à estrutura religiosa da época, inclusive como uma das lideranças. Nicodemos aparecerá em mais duas ocasiões no Quarto Evangelho, e sempre tomando posições a favor de Jesus: defendendo-o da ira dos fariseus quando ele tinha se apresentado como fonte de água-viva, em alusão ao Espírito Santo (7,37-52), e ajudando em seu sepultamento (19,39). Se já tinha interesse em conhecer Jesus pelo que ouvia a seu respeito, certamente o interesse aumentou ainda mais ao dialogar com ele. Como último aspecto a nível de introdução e contexto, recordamos as circunstâncias em que Nicodemos procurou Jesus: foi na “calada da noite” (Jo 3,2). Esse detalhe tem sido alvo de muitas tentativas de explicação pelos estudiosos. A explicação mais conhecida afirma que Nicodemos procurou Jesus à noite para não ser visto pelos seus colegas de doutrina, ou seja, os fariseus e os líderes religiosos de Jerusalém, uma vez que Jesus não era bem-visto por esse meio. De fato, para quem defendia a moral e os bons costumes na época, a companhia de Jesus era desaconselhada. Porém, é provável que o evangelista tivesse intenções mais teológicas do que cronológicas para registrar esse detalhe, o que não convém aprofundarmos aqui, já que não é componente do evangelho de hoje, mas apenas um elemento do seu contexto. A noite, como imagem das trevas, poderia representar, na perspectiva do evangelista, o mundo em que Nicodemos vivia, com a mentalidade religiosa vigente.

Feitas a devida contextualização, passemos então ao estudo do texto, o qual começa com a seguinte declaração de Jesus: «Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem» (v. 13). Sendo o mais enigmático dos quatro, o Evangelho de João é marcado por paradoxos, representados por antíteses como luz e trevas, vida e morte, carne e espírito. A esses, soma-se a referência aos movimentos de subida e descida e vice-versa, evidenciado no primeiro versículo da passagem lida neste domingo. Como “ninguém subiu ao céu”, ninguém pode falar das coisas de lá. Por céu compreende-se a pertença ao mundo de Deus, e Jesus, o Filho do Homem, é o único agente autorizado para falar dessa realidade, pois foi de lá que ele veio, enquanto o Verbo que se fez carne (Jo 1,14). No contexto da festa de hoje, essa afirmação se torna ainda mais relevante, pois, pelo mistério da cruz, sobretudo no Quarto Evangelho, Jesus concede à humanidade inteira o acesso ao mundo de Deus. Obviamente, não se trata de uma realidade física, mas espiritual, trata-se, antes de tudo, de uma vida de comunhão com ele. Ora, os fariseus, grupo ao qual pertencia Nicodemos, o interlocutor de Jesus, imaginavam ter acesso ao céu mediante a observação minuciosa da Lei de Moisés e, em resposta, Jesus diz que o acesso depende dele, o que desceu do céu. Somente ele conhece o caminho e, por isso, pode indicar para o mundo. Da cruz, Jesus retorna ao mundo do Pai, de onde veio; esse retorno se dá após ensinar a todas as pessoas o caminho, que é o amor incondicional e ilimitado, como ele amou.

Na continuação, vem apresentado um dado das Escrituras, aplicado por Jesus a si mesmo: «Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado» (v. 14). Ora, sabendo que Nicodemos conhecia bem a Escritura, afinal, era um fariseu de destaque, Jesus cita explicitamente um episódio do livro dos Números (Nm 21,4-9), para ilustrar o movimento de descida e subida ao céu realizado por Ele mesmo (Jo 3,13) e, ao mesmo tempo, para ajudar seu interlocutor a compreender como será a sua elevação: através da cruz, cujo mistério é aqui antecipado. Por sinal, essa é a primeira afirmação da elevação de Jesus no Evangelho de João acerca da sua elevação, e chama a atenção porque estamos ainda no início do livro. Se trata de um acontecimento tão indispensável para o seu plano salvífico, que ele começa a preparar a comunidade dos seus seguidores desde cedo. A citação do livro dos Números é, portanto, apenas ilustrativa. Na verdade, é o próprio evangelista insistindo com a sua comunidade para que aceite a cruz, pois, como consequência do amor, ela faz parte da vida conforme o programa de Jesus. Ser levantado se torna necessidade para Jesus, pois o seu projeto de comunicar vida em plenitude à humanidade inteira é irrenunciável. Porém, Ele não escolheu a cruz; escolheu ser fiel ao Pai, por amor, até as últimas consequências, e isso implicou passar pela cruz. Por isso, “ser levantado” se tornou necessário «Para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna» (v. 15). O importante é a doação do dom da vida em plenitude, por isso, eterna. Essa é a primeira vez que é mencionada a “vida eterna” no Quarto Evangelho. Crer nele não significa expressar uma fórmula de fé, mas deixar-se guiar pelo seu ensinamento e assumir a sua forma de vida.

Jesus apresenta Deus como aquele que ama incondicionalmente e, ao mesmo tempo, se auto apresenta como a prova desse amor incondicional de Deus, já que é, Ele mesmo, o Filho doado: «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna» (v. 16). Há estudiosos que consideram essa afirmação de Jesus o coração do Quarto Evangelho e de toda a teologia de tradição joanina (1Jo 4,7-8). Inclusive, aqui aparecem três dos verbos mais importantes do respectivo Evangelho, a saber, os verbos amar (em grego: ἀγαπάω – agapáo), dar ou oferecer (em grego: δίδωμι – didomi). Por meio deles, o autor reforça a gratuidade do amor de Deus pelo mundo. É um Deus que só tem amor para oferecer ao mundo, e o faz de modo livro e gratuito, exatamente porque ama infinitamente. E o mundo é o destinatário do amor de Deus. Esse mundo é a humanidade inteira. Com essa afirmação, Jesus toca numa ferida para os judeus mais devotos, pois declara o fim do exclusivismo de Israel como destinatário do amor e das promessas de Deus. Com Jesus, a pertença a Deus deixa de ser privilégio de um povo e passa a ser um direito da humanidade inteira. Jesus praticamente inverte o primeiro mandamento da Lei: foi Deus quem amou a humanidade sobre todas as coisas! A afirmação «Deus amou o mundo» é única em toda a Bíblia. É uma exclusividade do Quarto Evangelho. A prova maior desse amor da parte de Deus é o seu dom, a qualidade da sua oferta: o Filho unigênito doado ao mundo para que, ao ser acolhido, se estabeleça na humanidade a vida eterna.

É importante recordar e jamais esquecer que «Deus deu o seu Filho» para a humanidade. Quer dizer que o mundo inteiro é convidado a receber esse dom do Pai. Quem o acolhe e crê, recebe a vida eterna. Aqui, é importante recordar um terceiro verbo fundamental empregado neste versículo, que também possui relevância determinante em toda a teologia joanina; trata-se do verbo crer (em grego: πιστεύω – pistêuo). De fato, “crer” é um dos temas principais do Quarto Evangelho. Inclusive, no texto de hoje aparece duas vezes (vv. 15 e 16). Como já foi afirmado, mais do que expressar uma profissão de fé, crer significa, aqui, acima de tudo, a adesão plena à pessoa de Jesus e sua mensagem libertadora. Quem crê nele, conforme essa perspectiva, ressignifica a própria existência, por isso, passa a ter a vida eterna. Essa, a vida eterna, não significa uma vida no além. Eterna aqui não é apenas a duração, mas é a qualidade da vida de quem acolhe Jesus e seu Evangelho. Logo, a «vida eterna» não é um prêmio que os bons receberão no futuro, como pensavam os fariseus e ainda pensam muitos cristãos. A vida se torna eterna quando se faz opção por Jesus e seu projeto de mundo, o Reino de Deus. Essa vida é eterna porque é tão plena, a ponto de nem a morte poder destruí-la. E ela começa aqui na terra, é essa vida presente que não será destruída nem com a morte. À medida em que o ser humano encontra sentido para a sua existência, ele eterniza a sua vida. E o sentido pleno da vida só pode ser encontrado quando se consegue viver bem como imagem e semelhança do Criador, cujo exemplo completo é Jesus de Nazaré.

O versículo seguinte reforça o anterior: «De fato, Deus não enviou o seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele» (v. 17). Se o anterior (v. 16) declarava o que o Filho de Deus veio fazer entre nós, esse segundo diz o que não veio fazer: não veio julgar (condenar)! Aqui é necessário fazer uma pequena observação a respeito da tradução do texto litúrgico: ao invés do verbo “condenar”, é mais apropriado usar a expressão “dar sentença” ou o verbo “julgar”, conforme a língua original do texto, uma vez que a condenação seria o efeito do julgamento. E o verbo grego empregado pelo evangelista significa exatamente julgar (em grego: κρίνω – krino). Portanto, Deus não enviou seu Filho nem mesmo para julgar. Só condena quem antes julga. Como Deus só sabe amar, nem sequer julga e, portanto, não condena ninguém. Pelo contrário, ele justifica, ao invés de julgar, tamanho o seu amor. Mais uma vez Jesus contradiz a ortodoxia judaica, ao excluir a ideia de Deus como um juiz. Obviamente, quem esperava um messias juiz que viesse ao mundo para separar os bons dos maus, os puros dos impuros e, assim, salvar os primeiros e condenar os segundos, não poderia acreditar no Deus que Jesus veio revelar: um Pai cheio de amor, apaixonado pela humanidade, a ponto de dar o próprio Filho. Quem julga e condena são os próprios seres humanos com suas convicções e crenças falsamente fundadas em nome de Deus. O Deus de Jesus nem a juízo leva. Enquanto os homens julgam, Deus apenas justifica, ou seja, apenas salva, porque de quem é amor só pode sair amor. O mesmo Deus que doou livremente o seu Filho, deu também liberdade à humanidade, de modo que essa pode acolher ou não o seu Filho, Jesus. 

Celebrar a exaltação da Santa Cruz, portanto, é celebrar a exaltação do amor, da doação plena, da força humanizante que Deus ofereceu abundantemente ao mundo, com o dom do seu Filho. Como indicado na introdução, celebramos a exaltação na cruz, pois, apesar de marcada por gritos de dor, como Jesus gritou, são gritos de libertação.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, maio 10, 2025

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,27-30 (ANO C)

 


Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da Páscoa utiliza um trecho do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se auto apresenta como o único, autêntico e bom pastor. Por isso, este domingo foi declarado como o “domingo do bom pastor” e, oportunamente, instituído como o “Dia mundial de oração pelas vocações”, pelo Papa Paulo VI, no ano de 1964. Embora o evangelho deste dia seja sempre tirado do mesmo capítulo, alternam-se os textos, conforme o ciclo litúrgico vigente. O trecho lido neste “Ano C” é bastante breve, composto de apenas quatro versículos: Jo 10,27-30. Curiosamente, o termo pastor não aparece nessa passagem específica da liturgia de hoje. Mas, ao falar das ovelhas e de sua relação com elas, Jesus mostra também as características e as qualidades da sua condição de pastor. Como o texto faz parte de um amplo discurso que compreende o capítulo inteiro, muita coisa já foi afirmada nos versículos que antecedem o texto de hoje, o que torna ainda mais necessária uma contextualização, para ser compreendido adequadamente, como faremos a seguir. Também a brevidade do texto – apenas quatro versículos – torna a contextualização ainda mais necessária para uma boa compreensão.

De acordo com o evangelista, no momento do discurso, Jesus se encontra em Jerusalém, nas dependências do templo, participando da “festa da dedicação” (Jo 10,22). É importante ressaltar que as idas de Jesus ao templo de Jerusalém são sempre marcadas por polêmicas, nos quatro evangelhos. Toda vez que frequenta o espaço mais sagrados de Israel, como concebiam os judeus, ele entra em confronto com aqueles que tinham transformado ou permitido a transformação da casa do seu Pai em casa de comércio (Jo 2,16) e em covil de ladrões (Mt 21,13; Mc 11,17; Lc 19,46). Embora não figurasse entre as três maiores festas judaicas – Páscoa, Pentecostes e Tendas –, a festa da dedicação também era grande e atraía muitos peregrinos a Jerusalém. Esta festa foi estabelecida por Judas Macabeu no ano 165 a.C., para celebrar a vitória dos macabeus sobre a dominação grega e a nova dedicação do templo e do altar, que tinham sido profanados pelos gregos (1 Mc 4,36-59). Desde então, essa festa que entrou no calendário judaico oficial, era celebrada solenemente em Jerusalém, com duração de uma semana, sendo chamada também de “festa das luzes”. O principal texto bíblico utilizado na liturgia dessa festa era o capítulo 34 de Ezequiel, no qual o profeta faz uma enfática denúncia aos maus pastores de Israel. Estes, segundo o profeta, apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (Ez 34,1-2). Por isso, de acordo com o profeta, Deus iria destituir os maus pastores e cuidar ele mesmo do rebanho (Ez 34,11).

Foi a partir deste contexto que Jesus aplicou a si a imagem do bom pastor, aproveitando a ocasião em que o texto de Ezequiel estava muito vivo na memória das pessoas ali reunidas, uma vez que era lido e relido diversas vezes durante a festa. É importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel, devido às suas origens pastoris. Essa imagem foi aplicada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes. Foi a profissão dos principais personagens do Antigo Testamento: Moisés e Davi. Portanto, era muito presente no imaginário popular dos judeus. Atualizando a perspectiva do profeta Ezequiel, Jesus se apresenta como o único e autêntico pastor, e dirige à classe dirigente de Jerusalém, especialmente aos sacerdotes do templo, uma de suas mais pesadas críticas. Ora, ao afirmar ser o bom pastor (Jo 10,14), Jesus denunciava que os sacerdotes do templo eram aqueles maus pastores destituídos por Deus, como profetizou Ezequiel. Indiscutivelmente, suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus durante e após o seu discurso: primeiro, disseram que ele estava endemoniado (Jo 10,20), depois quiseram apedrejá-lo (Jo 10,31) e tentaram prendê-lo (Jo 10,39).

Feita a contextualização, olhemos para o texto, que começa com a seguinte declaração de Jesus: «As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem» (v. 27). No versículo anterior, que não consta no texto da liturgia, Jesus tinha dito aos seus interlocutores, os líderes do judaísmo, que eles não pertenciam às suas ovelhas (Jo 10,26). Isso porque não correspondiam aos critérios de pertença, ou seja, não lhe ouviam e nem lhe seguiam. É de suma importância essa afirmação de Jesus, pois revela quais são as características fundamentais do seu tipo de pastoreio e os critérios para pertencer ao seu rebanho: escutar e seguir. Esses dois verbos são as principais chaves de leitura para toda a mensagem de Jesus, sobretudo para a compreensão do seu discipulado. Escutar a voz de alguém, na linguagem bíblica, não significa simplesmente a percepção de um som ou ruído, mas é acima de tudo dar adesão completa àquele que fala, é deixar-se transformar e, consequentemente, conduzir-se pelas suas palavras. Por isso, a escuta vem acompanhada de um segundo elemento, que é a sua consequência: o seguimento. Os interlocutores de Jesus não viviam a dinâmica do “escutar-seguir”. Apegados aos ritos e preceitos, tinham sido instruídos a obedecer e cumprir normas, apenas. O seguimento proposto por Jesus, como consequência da escuta, significa seguir os mesmos caminhos dele, com liberdade e disposição. Logo, ao invés de cumpridores de ordens, fazer parte das ovelhas de Jesus é ser descobridores de estradas, buscadores de novos horizontes. O Deus pregado no templo era um soberano que, através de seus representantes ditos pastores, mas na verdade eram mercenários, a casta sacerdotal, ditava normas do alto. Apresentando-se como pastor, Jesus revela que Deus age de maneira completamente diferente: caminha à frente, não dá ordens, apenas aponta a direção; quem escuta a sua voz e o segue torna-se íntimo dele, deixa-se humanizar pelo seu amor cuidadoso.

A quem, motivado pela escuta, se coloca no seguimento de Jesus, o bom pastor, Ele garante o maior dos dons: «Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão» (v. 28). Os falsos pastores do templo, denunciados por Jesus, apenas pediam; Jesus, pelo contrário, é quem dá, e não dá qualquer coisa, mas a vida em plenitude, ou seja, a “vida eterna”. É importante recordar que a “vida eterna” dada por Jesus a quem lhe segue não é um prêmio que as pessoas boas receberão no futuro, mas a vida conduzida segundo a escuta da sua voz, desde agora. A adesão a Jesus e ao seu Evangelho, compreendida como a escuta da sua voz e o seu seguimento, eterniza a vida, humanizando-a. Vida eterna, portanto, segundo a perspectiva teológica do evangelista João, não é uma vida para o pós-morte, mas é uma vida tão plena, tão cheia de sentido e autêntica, tão humanizada, a ponto de nem a morte poder destruí-la, como não destruiu a de Jesus.  Por isso, mesmo após a passagem pelo inevitável fenômeno que chamamos de morte, essa “vida eterna” prosseguirá. É a vida presente que se torna eterna à medida em que a pessoa se deixa conduzir pela voz de Jesus. Ora, o próprio Jesus, mais adiante, afirmará que a vida eterna consiste no conhecimento dele e do Pai (Jo 17,2-3). Portanto, quem ouve a sua voz lhe conhece e, por sua vez, conhece também o Pai, já que Ele e o Pai são um (v. 30). Logo, a vida eterna é a vida de toda pessoa que escuta a voz de Jesus e abraça o seu seguimento.

Ninguém consegue arrancar as ovelhas da mão de Jesus (v 28b) porque tudo o que está em sua mão está também na mão do Pai. E Jesus tem profundo zelo por tudo o que recebeu do seu Pai. Sua missão neste mundo foi cuidar das coisas do Pai, e o que o Pai tem de mais precioso são os seus filhos e filhas, por isso, todo ser humano é profundamente amado por Jesus. Por isso, tendo recebido do Pai, Jesus cuida tão bem das ovelhas: «Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai» (v. 29). Ora, tudo o que Jesus tem, recebeu do Pai, porque o Pai, amando-lhe tanto, entregou-lhe tudo nas mãos (Jo 3,35), principalmente a vida dos seus filhos, as ovelhas que estavam nas mãos de mercenários (Ez 34; Jo 10,12-13). Quando o Pai decide cuidar ele mesmo das ovelhas, como tinha profetizado Ezequiel (Ez 34,11), na verdade, ele decide entregá-las ao seu Filho, que é Jesus, entregando-lhe em mãos. A mão, na linguagem bíblica, é uma metáfora do poder protetor de Deus, da sua força e dos seus cuidados paternais e maternos (Os 11,3; Dt 33,3; Is 43,13; 49,2; Sl 31,6; 95,4; Sb 3,1; Dn 5,23). As mãos que protegem são as mesmas que acariciam. Com essa imagem, Jesus diz que também é Deus; daí, a afirmação: «Eu e o Pai somos um» (v. 30). Por causa desta afirmação, seus interlocutores quiseram apedrejá-lo, acusando-o de blasfêmia, por fazer-se Deus, sendo apenas um homem (Jo 10,31-33), como eles imaginavam. Ora, Jesus sendo Deus e estando no mundo, é óbvio que aqueles que se diziam representantes de Deus – os sacerdotes do templo – estariam destituídos de suas funções, pois Deus já não necessita mais de ser representado, pois está pessoalmente presente, por meio do Filho. Com efeito, Jesus, o autêntico pastor, não é um representante de Deus, mas é Deus mesmo. Isso revela a superioridade do seu pastoreio e da sua messianidade em relação às expectativas messiânicas da época. E o mais importante é que ele compartilha com a humanidade inteira a sua intimidade com o Pai.

Quem se deixa acariciar pelas mãos de Jesus, é acariciado também pelo Pai. As mãos dos chefes religiosos de Israel faziam o contrário: oprimiam, exploravam, sugavam o povo, ao invés de proteger e acariciar. As mãos de Jesus cuidam, humanizam e salva. E, para receber o toque de suas mãos basta ouvir sua voz e segui-lo. Que o Bom Pastor, único e autêntico, inspire vocações que ajudem a ressoar sua voz no mundo e sejam extensões de sua mão que protege, cuida e defende, sobretudo, as ovelhas mais vulneráveis e necessitadas.  

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,1-14 (ANO A)

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