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sábado, agosto 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

 


Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, propondo para este décimo oitavo domingo o relato do episódio conhecido popularmente como a “multiplicação do pães” – Mt 14,13-21. De todos os gestos de Jesus considerados milagres, esse é o único relatado nos quatro evangelhos, com seis versões ao todo, já que em Mateus e Marcos aparece duas vezes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,30-44; 8,1-9; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13). Esses dados indicam a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, preferiu-se contá-lo integralmente várias vezes, embora cada uma das versões apresente certas particularidades. Com o progresso da exegese, o título convencional de “multiplicação dos pães” tem caído em desuso, preferindo-se expressões alternativas como “a multidão saciada” ou simplesmente “milagre da partilha dos pães”.

Hoje, lemos a primeira versão de Mateus e, como sempre, iniciamos considerando o seu contexto. O texto localiza-se praticamente na metade do evangelho; além da importância que esse dado evidencia, quer dizer também que Jesus já realizou muita coisa, pois o seu ministério já estava bem avançado, basta olhar um pouco para trás e perceber isso: três dos cinco discursos já foram proferidos (Mt 5–7; 10; 13), os discípulos já foram enviados em missão, muitas curas já foram realizadas. Portanto, mesmo que não se compreendesse totalmente o que ele fazia e nem se aceitasse completamente o que Jesus proponha, a sua mensagem se popularizava cada vez mais, e as multidões que o seguiam atestam isso. Logo, tornava-se cada vez mais necessário que Jesus deixasse clara a natureza do seu messianismo, que não correspondia aos anseios nacionalistas e triunfalistas da época. Por isso, ele procurava cada vez mais evitar atitudes que pudessem insinuar triunfalismos em seu ministério. Tudo isso aponta para o cuidado com que esse episódio chamado de “multiplicação dos pães” deve ser lido e interpretado.

O contexto imediato é fornecido pelo próprio texto, na versão litúrgica, que recorda o evento anteriormente narrado, a morte de João, o Batista, por ordem de Herodes: «Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado» (v. 13a). Com efeito, a expressão inicial – “quando soube da morte de João Batista” – não pertence propriamente ao texto, mas foi acrescentada pela liturgia, com claros fins didáticos, a fim de situar o ouvinte-leitor e o pregador, sobretudo. Na língua original, se diz apenas que Jesus ouviu, o que vem expresso pela forma verbal grega “akússas” – ἀκούσας. Lendo diretamente na Bíblia, o leitor percebe que aquilo que Jesus ouviu foi a notícia da morte do Batista. Ora, apesar das diferenças, era inegável a proximidade entre Jesus e João Batista. Com efeito, Jesus nutria grande afeto por João, mesmo não correspondendo ao ideal de messias violento e justiceiro que ele tinha anunciado (Mt 3,1-12). Inclusive, o reconheceu como o maior entre os nascidos de mulher e como profeta (Mt 11,7-14). Na verdade, Jesus reconhecia a continuidade entre a sua missão e a de João e o considerava seu mentor, não obstante as divergências. Por isso, inevitavelmente, a morte de João mexeu com Jesus, ainda mais pela forma cruel como aconteceu. Daí, a necessidade de retirar-se, não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para esse recolhimento que, certamente, seria marcado pela oração profunda, pela reflexão e, talvez, até pelo choro.

O detalhe do “lugar deserto e afastado” é muito significativo na tradição bíblica. Como se sabe, o deserto não é apenas um espaço geográfico; é lugar de silêncio, prova e encontro com Deus. Foi no deserto que Israel aprendeu a depender do Senhor e recebeu o maná para o caminho (Ex 16). Ao retirar-se para o deserto e ali alimentar a multidão, Jesus se apresenta como aquele que inaugura um novo êxodo: reúne um povo disperso e o alimenta com o pão que vem de Deus. Jesus não conseguiu ficar sozinho com seus discípulos porque «quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé» (v. 13b). O movimento das multidões em busca de Jesus demonstra o quanto ele já estava conhecido e o bem que ele fazia. As multidões o seguem porque ele tinha respostas para as suas necessidades. Abandonadas e exploradas pelas lideranças religiosas e políticas, as multidões recebiam atenção e cuidado de Jesus (Mt 9,36–10). O seu olhar era diferente, marcado pela compaixão: «Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes» (v. 14). As multidões até se anteciparam, chegando primeiro ao lugar deserto. Ao vê-las, Jesus não foge e nem as expulsa, mas se enche de compaixão. Numa ocasião anterior, o evangelista disse que ele sentiu compaixão ao ver as multidões abandonadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36); agora, ele diz que Jesus encheu-se de compaixão. Quer dizer que a compaixão ocupa todo o ser de Jesus, faz parte da sua essência.

Compaixão significa um amor visceral; é um comover-se no mais profundo do ser que resulta em ação concreta de libertação. O verbo empregado pelo evangelista é muito expressivo. Mateus usa o grego splanknízomai (σπλαγχνίζομαι), derivado de splánkna (σπλάγχνα), “entranhas” ou “vísceras”. Na mentalidade bíblica, as entranhas eram consideradas a sede dos afetos mais profundos. Por isso, dizer que Jesus “encheu-se de compaixão” significa afirmar que ele foi tocado nas profundezas do seu ser. Não se trata de uma emoção superficial, mas de um estremecimento interior que o move imediatamente à ação em favor dos necessitados. Esse olhar compassivo revela também o modo como Deus olha a humanidade. Enquanto as estruturas sociais costumam avaliar as pessoas a partir do poder, do mérito ou da utilidade, Jesus as vê a partir da necessidade e da dignidade. Seu olhar antecede qualquer exigência moral: primeiro acolhe, cura e alimenta; depois convida ao discipulado. Essa ordem é fundamental para compreender o Evangelho. Por isso, ele “curou os que estavam doentes”. Por doentes, o evangelista emprega um termo (em grego: arostos – άρρωστος) que compreende todas as pessoas frágeis, e não apenas os doentes fisicamente. São todas as pessoas destinatárias privilegiadas da misericórdia de Deus: doentes, aflitas, pobres, abandonadas, exploradas. Como o Evangelho de Jesus é um programa de vida completo, que contempla a vida em todas as suas dimensões, todas essas classes de pessoas são as primeiras contempladas. Por isso, a reação de Jesus ao ver essas pessoas foi encher-se de compaixão.

Diferente de Jesus foi o que os discípulos sentiram: «Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”» (v. 15). Pela referência ao entardecer, supõe-se muita coisa já realizada naquele dia. Certamente, muito contato físico de Jesus com o povo, muito toque, muita escuta e muitas palavras proferidas; tudo ao contrário de quem estava procurando ficar sozinho. A reação dos discípulos parece ser de preocupação e cuidado com Jesus, mas na verdade é de indiferença e pouco compromisso com as multidões. A tendência deles é lavar as mãos diante das necessidades dos outros. Aconselham Jesus a mandar as multidões embora e que cada um “se virasse” para conseguir o alimento necessário, propondo, desse modo, a lógica do mercado. A atitude dos discípulos permanece muito atual. Também hoje, diante da pobreza, da fome e das diversas formas de exclusão, é comum pensar que cada pessoa deve resolver sozinha os seus problemas. Jesus, porém, rompe essa mentalidade e convoca os discípulos a assumirem responsabilidade concreta. A comunidade cristã não pode limitar-se ao espaço do culto; deve tornar-se lugar de solidariedade concreta.

Apesar do tempo de convivência e aprendizado, os discípulos ainda não tinham absorvido a mentalidade de Jesus; ainda não tinham assimilado a lógica da partilha e da solidariedade. Diante disso, a resposta de Jesus é praticamente uma repreensão: «Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”» (v. 16). Como se vê, Jesus compromete os discípulos. Em vez de lavar as mãos diante das necessidades dos outros, os seus discípulos devem sentir-se responsáveis. A comunidade cristã não pode assistir indiferente ou passivamente à fome no mundo. Biblicamente, a fome é também uma doença que deve ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. A mensagem de Jesus é um programa de vida que contempla também a dimensão material, inegavelmente. Portanto, saúde e pão devem ser prioridades na comunidade cristã.

Talvez indignados ou envergonhados com a advertência de Jesus, «Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”» (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa, provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. A quantidade era pequena, mas total, era tudo o que tinham. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade. Logo, não se trata de números reais, mas de simbologia. Independentemente da quantidade, é como se os discípulos dissessem a Jesus que tudo o que tinham era insuficiente para o grande número de pessoas que estavam ali. Porém, Jesus não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que têm: «Jesus disse: “Trazei-os aqui”» (v. 18). O problema começa a ser solucionado aqui, quando Jesus pede que os discípulos coloquem à disposição tudo o que têm, apesar de pouco. É isso o que Jesus espera das comunidades de todos os tempos. O pouco que cada um possui deve ser colocado a serviço de todos e, assim, o que é pouco se torna muito. Quando cada um apresenta o seu pouco, é premissa de fartura.

É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome, o que se faz pela partilha, mas tudo deve passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Na continuação, diz o evangelista que «Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões» (v. 19). Como se vê, Jesus toma a iniciativa e age como verdadeiro pastor, ao contrário dos líderes religiosos e políticos que tinham explorado e abandonado as multidões (Mt 9,36). Inclusive, todo este relato tem como pano de fundo o Sl 22(23), no qual o salmista reconhece Deus como o pastor que alimenta o povo e o faz descansar num prado verdejante (grama), como aqui.

O gesto de fazer a multidão sentar-se na grama também merece atenção. Sentar-se à mesa, na cultura bíblica, é sinal de comunhão e igualdade. Jesus não distribui alimento a uma massa anônima; ele constitui uma assembleia. De fato, no Reino de Deus ninguém come isoladamente. A refeição partilhada antecipa a comunhão fraterna que deve caracterizar a Igreja. Os gestos de Jesus com os pães e os peixes antecipam a eucaristia, mas vão muito além de um rito: olhar para o céu – abençoar – (re)partir – dar/distribuir. São os passos que a comunidade cristã não pode parar de dar, não apenas como rito semanal, mas como vivência cotidiana, sobretudo onde e quando há multidões famintas de pão. Por isso, a dimensão eucarística do relato não pode ser separada da partilha concreta. A mesma comunidade que celebra o pão repartido no altar é chamada a repartir o pão da mesa cotidiana. Quando a Eucaristia não transborda em solidariedade, corre-se o risco de reduzir o gesto de Jesus a um rito sem consequências históricas concretas, sem efeito humanizante.

Como resultado da partilha, aliás, de todo um processo, o resultado foi este: «Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios» (v. 20). Recordemos que houve todo um processo, o que não seria necessário caso se tratasse de um puro gesto sobrenatural de Jesus. De seu olhar compassivo, Jesus conferiu responsabilidade aos discípulos, provocou neles a disposição de colocar em comum tudo o que tinham, gesto que inevitavelmente motivaria também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, até a partilha que deixou todos satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o alimento, o pão de cada dia. No final, ainda sobrou, o que foi tudo recolhido. O alimento é sempre um dom de Deus, e o que é dom de Deus não pode ser desperdiçado. O recolhimento das sobras ensina ainda o cuidado com os dons recebidos. A abundância gerada pela partilha não autoriza o desperdício. Num mundo marcado simultaneamente pela fome de milhões e pelo descarte excessivo de alimentos, esse detalhe do Evangelho adquire forte atualidade ética. Respeitar o alimento é respeitar o trabalho humano, a criação e o Deus que sustenta a vida. O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, há alimento para todos e todas. Essa não deve ser uma prática ocasional, mas um modo permanente de viver.

No final, a referência ao número dos que se alimentaram, o que também é um número simbólico que significa uma grande quantidade: «E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças» (v. 21). Entre o número inicial de dons disponíveis para a partilha e a multidão alimentada há uma enorme diferença. Com isso, o evangelista quer ensinar que os resultados são sempre surpreendentes quando se põe em prática o que Jesus ensinou, e reforça o convite para a comunidade não ter medo de partilhar o que tem. O último dado considerado é a menção do evangelista às mulheres e crianças, o que reforça ainda mais a importância da partilha, pois significa que havia uma multidão incontável, e que a partilha gera sempre abundância. Somente Mateus faz essa observação. Apesar de sutil, é um aceno à inclusão. Mulheres e crianças eram consideradas categorias insignificantes, na época. O evangelista ensina, com isso, que a comunidade cristã é aberta a todos. Na verdade, as pessoas historicamente marginalizadas são as preferidas no programa do Reino.

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome. A comunidade não pode esperar ter todas as condições ideais para viver o programa do Reino; é vivendo-o que ela cria condições de vida, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso! Sem negar as outras dimensões da existência humana, o evangelista insiste que a fé não pode ignorar a fome concreta de pão. Jesus não separa cuidado espiritual e cuidado material: ele cura, acolhe e alimenta. A comunidade que o segue é chamada a fazer o mesmo, confiando que Deus continua gerando abundância quando seus filhos e filhas aprendem a repartir.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, julho 27, 2024

REFLEXÃO PARA O 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 6,1-15 (ANO B)

 


Neste décimo sétimo domingo do tempo comum, a liturgia inicia uma sequência de cinco domingos de leitura do capítulo sexto do Evangelho de João, dando uma pausa temporária na leitura de Marcos. Trata-se de uma particularidade do ano litúrgico B, em virtude da brevidade do Evangelho de Marcos, comparado aos outros sinóticos. Por não ter material suficiente para todo o ano, recorre-se ao Quarto Evangelho, como complemento. Para hoje, especificamente, a liturgia contempla os primeiros quinze versículos deste capítulo: Jo 6,1-15. É o relato do episódio chamado popularmente de “multiplicação dos pães”, embora esse não seja o título mais apropriado. Se a liturgia estivesse seguindo a sequência de Marcos, seria também esse o episódio lido, pois corresponde à sequência imediata do que fora lido domingo passado. Portanto, a liturgia trocou o livro, mas não alterou a sequência temática.

É importante recordar que, no domingo passado, o evangelho foi concluído com a afirmação que Jesus, ao ver a multidão, «teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas» (Mc 6,34). A primeira reação de Jesus, ao ver a multidão, foi a compaixão, e a primeira atitude foi ensinar. Mas, como não bastava o ensinamento, a esse seguiu-se o gesto da partilha dos pães (Mc 6,35-42), como resposta à situação de abandono e sofrimento vividos pela multidão. Ora, a primeira consequência do abandono vivido pelo povo era a fome, como continua sendo hoje, devido à negligência dos maus governantes. A passagem do ensinamento à partilha do alimento mostra como Jesus sabia associar bem o ensinamento com a práxis, como deve fazer a comunidade cristã em todos os tempos. Os sentimentos de Jesus eram acompanhados de respostas concretas aos sofrimentos das pessoas. Portanto, apesar de estarmos hoje lendo outro Evangelho, é importante que este episódio seja compreendido como consequência da compaixão de Jesus diante do abandono e sofrimento do povo.

O episódio da “condivisão dos pães”, expressão mais apropriada do que multiplicação, é o único milagre ou sinal de Jesus narrado pelos quatro Evangelhos, com seis versões (Mateus e Marcos narram duas vezes), sendo que a versão joanina é a mais rica em detalhes e, consequentemente, em teologia, sendo ainda completada por um longo discurso de revelação de Jesus, no qual ele se autoapresenta como pão vivo e alimento verdadeiro para todas as pessoas, como veremos nos domingos seguintes. Esse discurso é considerado uma verdadeira catequese eucarística. Convém recordar que o Evangelho de João é muito contido em relação aos milagres de Jesus. Narra somente sete, aos quais nem sequer chama de milagres, mas de sinais, o que revela bastante prudência e profundidade da parte do evangelista. Ora, o sinal não é um fim em si mesmo, mas aponta para uma realidade que lhe ultrapassa, que vai além do que se experimenta e se vê. E no conjunto do Quarto Evangelho, a condivisão dos pães (e peixes) é o quarto sinal; está localizado exatamente no meio dos sete, e no centro literário da primeira parte da obra, chamada de “Livro dos sinais” (Jo 1–11). Logo, é clara também a sua centralidade teológica.

O texto diz que «Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades» (v. 1). Como se sabe, o que os evangelhos chamam de mar da Galileia era apenas um grande lago. O único evangelista que o chama de lago mesmo é Lucas. Os demais chamam de mar, certamente, por razões teológicas, tendo em vista o significado de adversidade e hostilidade que o mar representava para a mentalidade semita, o qual era considerado a morada do mal e, por isso, era sinônimo de perigo. Logo, atravessá-lo significava superar o mal. Enquanto nos sinóticos a passagem para outra margem significa a abertura ao mundo pagão e o encontro com as pessoas marginalizadas, em João é mais uma recordação do êxodo. Essa abertura ao mundo pagão já estava consolidada na época da redação do Quarto Evangelho, por isso, já não entra em discussão aqui. A travessia de uma margem a outra do mar por Jesus recorda o primeiro êxodo, mas não como mera repetição, e sim como superação.

A superioridade do novo êxodo proposto por Jesus ficará mais evidente no evangelho do próximo domingo (Jo 6,24-35), quando ele fará a contraposição entre o pão dado por ele, que é a sua própria pessoa, e o pão dado aos antepassados no deserto (o maná), por intercessão de Moisés. Ora, mesmo vivendo na terra dado por Deus, o povo tinha perdido a verdadeira liberdade; logo, os efeitos do êxodo já não eram mais experimentados. O sistema religioso vigente, aliado ao sistema político dominante – o império romano – tinha assumido o papel do faraó do Egito, oprimindo o povo em todos os sentidos, desde o campo ideológico ao econômico. Por isso, a mensagem de Jesus é um convite à libertação porque o povo tinha se tornado escravo novamente. O destino do novo êxodo não é uma terra distante nem uma vida no além: é o Reino de Deus, uma sociedade alternativa, com um sistema baseado na partilha, solidariedade, amor, justiça e dignidade.

Jesus chamava a atenção das pessoas e atraía a multidão em seu seguimento «porque viam os sinais que ele operava a favor dos doentes» (v. 2). O termo que o texto litúrgico traduz por “doentes” significa muito mais, na língua original (em grego: ἀσθενούντων - asthenunton): significa as pessoas fracas, debilitadas, sem forças, fragilizadas, dentre as quais incluem-se os doentes; enfim, significa a totalidade das pessoas das marginalizadas, sendo que uma das principais causas da marginalização era mesmo a doença. Eram as pessoas que a religião tinha descartado, exatamente porque não tinham o que oferecer aos cofres do templo. E os sinais operados por Jesus eram, preferencialmente, em favor dessas pessoas, visando restituir-lhes a dignidade e o sentido para a vida. Portanto, as multidões se admiravam com Jesus, devido ao seu jeito de acolher, porque se sentiam representadas pela sua mensagem humanizadora e, é claro, porque também queriam aproveitar-se materialmente dos sinais realizados por ele, o que será advertido por ele mesmo no discurso seguinte, como veremos nos próximos domingos.

As multidões seguiam Jesus enquanto «estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus» (v. 4). Com isso, o evangelista enfatiza Jesus como único sinal autêntico de libertação e alternativa para aquele povo abandonado como ovelha sem pastor. A Páscoa, como “festa dos judeus”, tinha sido transformada em instrumento de exploração, dominação e manutenção da ordem vigente. Por isso, mesmo sutilmente, o evangelista apresenta uma grande ironia: aquela festa celebrada em Jerusalém já não era Páscoa de Iahweh, não era mais a celebração da libertação do povo pobre escravizado, mas a “festa dos judeus”. É importante recordar que quando João usa o termo judeus, e o faz com bastante frequência, não se refere a todo o povo, mas às classes e grupos dirigentes, principalmente aos sacerdotes do templo que, de fato, tinham desfigurado o rosto verdadeiro de Deus. Assim, Jesus é apresentado como a alternativa de Deus à religião opressora do templo, e os primeiros a perceber isso são as pessoas mais simples e humildes, os pobres e excluídos que o seguem, as pessoas que tinham sido abandonadas pelos maus pastores de Israel.

A multidão que segue Jesus é um povo com necessidades concretas que não podem ser ignoradas. E Jesus reconhece logo qual é a primeira necessidade: o alimento. De acordo com o texto, ninguém lhe pediu nada, ninguém lhe disse que estava com fome; foi ele mesmo quem percebeu e logo se solidarizou, se preocupou com a fome do povo. Jesus se sente responsável, junto com seus discípulos, e transmite essa responsabilidade para a sua comunidade cristã, ao longo da história. Ele percebeu que aquele seria um bom momento para medir o aprendizado e a maturidade dos seus discípulos, por isso, provocou Filipe, mesmo já sabendo o que iria fazer: «Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?» (v. 5). A resposta de Filipe é baseada em cálculos. Ele simplesmente apela para o campo da economia, avaliando a situação com as categorias do mercado: «Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um» (v. 7). Como se vê, a tentação de Filipe é de reproduzir na comunidade do Reino as relações do sistema econômico, baseado na lógica de compra e venda, enquanto a dinâmica da comunidade cristã deve ser outra: a partilha.

André, o outro discípulo que interage com Jesus e atua diretamente no episódio, parece começar a compreender a lógica de Jesus, embora ainda não tivesse muita convicção: «Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?» (v. 9). Ora, enquanto Filipe pensou em solucionar o problema com base na lógica do mercado, através das relações de compra-venda, André olhou para a própria comunidade, percebendo o que já tinha para ser colocado em comum, mesmo reconhecendo não ser suficiente. Aqui está a transição para a proposta de Jesus, que é a lógica do Reino: a solução dos problemas da comunidade deve ser buscada em seu próprio interior, ou seja, a partir de dentro. Os cristãos e cristãs não podem esperar chegarem as condições ideais para o Reino de Deus se estabelecer plenamente; devem começar a viver os valores do Reino, mesmo em condições desfavoráveis, com o pouco que tem, e é assim que o Reino vai se edificando na história, aos poucos, a tempo e contratempo.

Embora considerando insuficiente, a observação de André é muito importante e merece ser recordada: «um menino tem cinco pães de cevada e dois peixes». Um menino era uma figura muito pouco representativa na época, sem nenhum valor reconhecido, uma vez que não produzia. Para enfatizar ainda mais esse aspecto, o evangelista emprega o diminutivo: um menininho (em grego: παιδάριον – paidárion), embora a tradução do lecionário não favoreça a percepção desse detalhe. À luz da lógica vigente, um menininho era uma pessoa que nada nada teria a contribuir na solução de um grande problema. Pelo contrário, ele era visto como parte do problema, ao invés de iluminar a solução. Isso torna a ideia de André altamente revolucionária para o contexto, embora necessite aprimorá-la. O pão de cevada era o alimento dos pobres, pois a cevada era o grão mais barato; os ricos comiam o pão de trigo. Os dois peixes servem de complemento numérico para chegar a sete, número que evoca completude. Certamente, essa quantidade era tudo o que a família do menininho tinha levado. Com isso, o evangelista indica que, para resolver os problemas mais urgentes, é suficiente cada um colocar à disposição de todos o pouco que tem, o que André ainda não tinha compreendido suficientemente, mas estava a caminho da plena compreensão. O menininho com os cinco pães e os dois peixes é, portanto, a imagem ideal do discípulo/discípula e da comunidade cristã. Antes de tudo, para entrar na lógica do Reino é necessário fazer-se e reconhecer-se pequeno. Reino de Deus e grandeza são incompatíveis. Não importa a quantidade daquilo que se tem, mas a disposição de colocar a serviço do próximo é o que realmente conta. As soluções para os problemas da comunidade devem vir de dentro, e dependem essencialmente dos pequeninos. A comunidade é saciada quando o pouco que cada um tem é colocado em comum; isso ocorre quando cada um considera aquilo que tem como dom de Deus e, por isso, destina à partilha.

O menininho não mostrou resistências, entregou tudo o que tinha e «Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes» (v. 11). André lamentou que somente cinco pães e dois peixes não seriam suficientes. Jesus foi mais além: “tomou os pães e deu graças”, ou seja, agradeceu pelo pouco que se tinha! O evangelista usa aqui o verbo grego do qual originou-se a palavra eucaristia (verbo εὐχαριστέω – eukharistêo). Eucaristia é, portanto, agradecimento, ação de graças pelos dons partilhados. Logo, para ter sentido na vida das comunidades, a eucaristia deve estar relacionada à partilha, à vivência da comunhão fraterna, incluindo a condivisão do pão e de outras necessidades, conforme a realidade de cada comunidade. O pão aparece como primeiro sinal, porque a fome é o problema urgente, é algo que não pode esperar. Sem essa relação com as necessidades concretas, o que as comunidades chamam de Eucaristia pode não passar de teatro, sem sequer aproximar-se da Eucaristia de Jesus. Assim como o evangelista começava a distinguir a Páscoa dos judeus da páscoa de Jesus, nos tempos atuais pode-se distinguir a Eucaristia de Jesus do conjunto de ritos que certos grupos fechados chamam de eucaristia, onde os pequeninos não tem espaço.

Ainda sobre a(s) atitude(s) de Jesus, ao receber os pães e os peixes, merece atenção a sequência apresentada pelo evangelista, que indica a lógica do Reino e constitui uma verdadeira rede de solidariedade: «tomou os pães, deu graças e distribuiu-os», dito de maneira mais simples, temos: “receber – agradecer – partilhar”. É essa lógica que o evangelista quer imprimir em cada comunidade leitora da sua obra, à luz dos ensinamentos e atitudes de Jesus. Muitos pormenores e dúvidas ficam, certamente, nas entrelinhas do texto, o que não ofusca o grande ensinamento de Jesus para a sua comunidade. André observou que um menininho estava com cinco pães e dois peixes, mas não diz que era somente aquele que tinha algo que poderia ser partilhado. O importante é que alguém teve coragem de começar a colocar à disposição dos outros o pouco que tinha, e Jesus deu graças por aquilo. No final, todos ficaram satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade, e começando por quem menos parecia ter condições de ajudar a solucionar um grande problema: um menininho. Tendo ficado todos satisfeitos, percebendo o que ainda tinha sobrado, «Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” Recolheram os pedações e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido”» (v. 12-13). O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos e todas, ou seja, ninguém passaria fome se todos vivessem concretamente o espírito da partilha. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma prática constante na comunidade.

Assim como todos os sinais cumpridos por Jesus no Evangelho de João visam a manifestação da glória de Deus e o despertar da fé no Verbo Encarnado, também o sinal da condivisão dos pães despertou reação e reconhecimento: «Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo» (v. 14). Porém, essa é uma imagem insuficiente para descrever Jesus. Vê-lo como apenas como profeta é colocá-lo em continuidade com a antiga aliança e, portanto, negar a insuficiência e decadência daquela aliança que ele denuncia com os sinais cumpridos. Inclusive, a continuidade dos sinais ao longo do livro, mostra a necessidade de Jesus continuar revelando sua novidade messiânica e a superação da antiga aliança. A prova definitiva da incompreensão do povo em relação a Jesus está no último versículo: «Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte» (v. 15). Enquanto Jesus queria ver o povo livre e emancipado, ensinando inclusive a encontrar a solução para os problemas dentro da própria comunidade, o povo faz o contrário: ao invés de viver a liberdade, quer um soberano para si, alguém que o domine e governe. Para o problema da fome, por exemplo, Jesus mostrou que a comunidade tem capacidade de superar quando vive o espírito da partilha e da solidariedade. A proclamação de Jesus como rei seria uma deformação do seu messianismo, o que persistirá por muito tempo na comunidade, inclusive entre os discípulos, como mostrará João na última ceia, com a resistência de Pedro à atitude serviçal de Jesus no lava-pés (Jo 13,6ss).

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, e deve saber reconhecer as situações que não podem esperar, como a fome. O exemplo do menininho, colocando à disposição da comunidade os cinco pães e os dois peixes, e a atitude de Jesus rendendo graças pelo pouco que tinha, oferecem muitas luzes para os cristãos de todos os tempos. A comunidade não pode esperar ter condições necessárias para viver o programa do Reino, mas é ela mesma que tem de criar tais condições, encontrando dentro de si mesma a solução para os seus problemas, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, como veremos nos próximos domingos. Mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso!

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, agosto 01, 2020

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)


O evangelho que a liturgia propõe neste domingo, o décimo oitavo do tempo comum, corresponde ao primeiro relato do episódio conhecido popularmente como “multiplicação dos pães” no Evangelho segundo Mateus – Mt 14,13-21. De todos os gestos de Jesus considerados milagres, esse é o único relatado nos quatro evangelhos, com seis versões ao todo, já que em Mateus e Marcos aparece duas vezes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,30-44; 8,1-9). Esses dados indicam a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, preferiram narrá-lo integralmente várias vezes, embora cada uma das versões apresente certas particularidades.

Hoje, lemos a primeira versão de Mateus e, como sempre, iniciamos considerando o seu contexto. O texto localiza-se praticamente na metade do evangelho; mais do que importância, esse dado indica que Jesus já realizou muita coisa, o seu ministério já estava bem avançado, basta olhar um pouco para trás e perceber isso: três dos cinco discursos já foram proferidos (Mt 5–7; 10; 13), os discípulos já foram enviados em missão, muitas curas já foram realizadas. Portanto, mesmo que não compreendessem totalmente e nem aceitassem completamente o que Jesus proponha, a sua mensagem se popularizava cada vez mais, e as multidões que o seguiam atestam isso. Logo, tornava-se cada vez mais necessário que Jesus deixasse clara a natureza do seu messianismo, que não correspondia aos anseios nacionalistas e triunfalistas da época. Por isso, Jesus procurava cada vez mais evitar atitudes que pudessem insinuar triunfalismos em seu ministério. Tudo isso aponta para o cuidado com que esse episódio chamado de “multiplicação dos pães” deve ser interpretado.

O contexto imediato é fornecido pelo próprio texto, na versão litúrgica, que recorda o evento anteriormente narrado, a morte de João, o Batista, por ordem de Herodes: “Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Apesar das diferenças, era inegável a proximidade entre Jesus e João Batista. Jesus nutria grande afeto por ele, mesmo não correspondendo ao ideal de messias violento e justiceiro que João tinha anunciado (Mt 3,1-12). Inclusive, o reconheceu como o maior entre os nascidos de mulher e como profeta (Mt 11,7-14). Jesus reconhecia a continuidade entre a sua missão e a de João, o seu mentor, não obstante as divergências. Por isso, inevitavelmente, a morte de João mexeu com Jesus, ainda mais pela forma cruel como aconteceu. Daí, a necessidade de retirar-se, não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento.

O lugar deserto e afastado seria ideal para esse recolhimento que, certamente, seria marcado pela oração profunda, pela reflexão e, talvez, até pelo choro. Porém, não conseguiu ficar sozinho com seus discípulos porque “quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé” (v. 13b). O movimento das multidões em busca de Jesus demonstra o quanto ele já estava conhecido e o bem que ele fazia. As multidões o seguem porque ele tinha respostas para as suas necessidades. Abandonadas e exploradas pelas lideranças religiosas e políticas, as multidões recebiam atenção e cuidado de Jesus (Mt 9,36–10). O seu olhar era diferente, marcado pela compaixão: “Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (v. 14). As multidões até se anteciparam, chegando primeiro ao lugar deserto. Ao vê-las, Jesus não foge e nem as expulsa, mas se enche de compaixão. Numa ocasião anterior, o evangelista disse que ele sentiu compaixão, aos ver as multidões; agora, ele diz que Jesus encheu-se de compaixão. Quer dizer que a compaixão ocupa todo o ser de Jesus, faz parte da sua essência.

Compaixão significa um amor visceral; é um comover-se no mais profundo do ser – as vísceras ou entranhas – que resulta em ação concreta de libertação. Não se trata de um mero sentimento, mas de ação libertadora; é nisso que consiste a misericórdia de Deus, cuja expressão mais concreta é a própria pessoa de Jesus. Por isso, ele “curou os que estavam doentes”. Por doentes, o evangelista emprega um termo (em grego: arostos – άρρωστος) que compreende todas as pessoas frágeis, e não apenas os doentes fisicamente. São todas as pessoas destinatárias privilegiadas da misericórdia de Deus: doentes, aflitas, pobres, abandonadas, exploradas. Como o Evangelho de Jesus é um programa de vida completo, que contempla a vida em todas as suas dimensões, todas essas classes de pessoas são as primeiras contempladas. Por isso, a reação de Jesus ao ver essas pessoas foi encher-se de compaixão.

Diferente de Jesus foi o que os discípulos sentiram: “Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: ‘Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” (v. 15). Pela referência ao entardecer, supõe-se muita coisa já realizada. Certamente, muito contato físico de Jesus com o povo, muito toque, muita escuta e muitas palavras proferidas; tudo ao contrário de quem estava procurando ficar sozinho. A reação dos discípulos parece ser de preocupação e cuidado com Jesus, mas na verdade é de indiferença e pouco compromisso com as multidões. A tendência deles é lavar as mãos diante das necessidades dos outros. Aconselham Jesus a mandar as multidões embora e que cada um “se virasse” para conseguir o alimento necessário.

Apesar do tempo de convivência e aprendizado, os discípulos ainda não tinham absorvido a mentalidade de Jesus; ainda não tinham assimilado a lógica da partilha e da solidariedade. Diante disso, a resposta de Jesus é praticamente uma repreensão: “Jesus, porém, lhes disse: ‘Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Como se vê, Jesus compromete os discípulos. Ao invés de lavar as mãos diante das necessidades dos outros, os seus discípulos devem sentir-se responsáveis. A comunidade cristã não pode assistir indiferente ou passivamente à fome no mundo. Biblicamente, a fome é também uma doença que deve ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. A mensagem de Jesus é um programa de vida que contempla também a dimensão material, inegavelmente. Portanto, saúde e pão devem ser prioridades na comunidade cristã.

Talvez indignados ou envergonhados com a advertência de Jesus, “Os discípulos responderam: ‘Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa, provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. A quantidade era pequena, mas total, era tudo o que tinham. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade. Logo, não se trata de números reais, mas de simbologia. Independentemente da quantidade, é como se os discípulos dissessem a Jesus que tudo o que tinham era insuficiente para o grande número de pessoas que estavam ali. Porém, Jesus não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que tem: “Jesus disse: ‘Trazei-os aqui” (v. 18). O problema começa a ser solucionado aqui, quando Jesus pede que os discípulos coloquem a disposição tudo o que têm, apesar de pouco. É isso o que Jesus espera das comunidades de todos os tempos. O pouco que cada um possui deve ser colocado a serviço de todos e, assim, o que é pouco se torna muito. Quando cada um apresenta o seu pouco, é premissa de fartura.

É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome, o que se faz pela partilha, mas tudo deve passar por Jesus. Primeiro, devem a apresentar a ele o que têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Na continuação, diz o evangelista que “Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (v. 19). Como se vê, Jesus toma a iniciativa, e age como verdadeiro pastor, ao contrário dos líderes religiosos e políticos que tinham explorado e abandonado as multidões (Mt 9,36). Inclusive, todo este relato tem como pano de fundo o Sl 22(23), no qual o salmista reconhece Deus como o pastor que alimenta o povo e o faz descansar num prado verdejante (grama), como aqui. Os gestos de Jesus com os pães e os peixes antecipam a eucaristia, mas vão muito além de um rito: olhar para o céu – abençoar – (re)partir – dar/distribuir. São os passos que a comunidade cristã não pode parar de dar, não apenas como rito semanal, mas como vivência cotidiana, sobretudo onde e quando há multidões famintas de pão.

Como resultado da partilha, aliás, de todo um processo, o resultado foi este: “Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (v. 20). Recordemos que houve todo um processo, o que não seria necessário caso se tratasse de um puro gesto sobrenatural de Jesus. De seu olhar compassivo, Jesus conferiu responsabilidade aos discípulos, provocou neles a disposição de colocar em comum tudo o que tinham, um gesto que inevitavelmente motivaria também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, até a partilha que deixou todos satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o alimento, o pão de cada dia. No final, ainda sobrou, o que foi tudo recolhido. O alimento é sempre um dom de Deus, e o que é dom de Deus não pode ser desperdiçado. O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos e todas. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma prática constante na comunidade.

No final, a referência ao número dos que se alimentaram, o que também é um número simbólica que significa uma grande quantidade: “E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças” (v. 21). Entre o número inicial de dons disponíveis para a partilha e a multidão alimentada há uma enorme diferença. Com isso, o evangelista quer ensinar que os resultados são sempre surpreendentes quando se põe em prática o que Jesus ensinou, e reforça o convite para a comunidade não ter medo de partilhar o que tem. O último dado considerado é a menção do evangelista às mulheres e crianças, o que reforça ainda mais a importância da partilha, pois significa que havia uma multidão incontável, e que a partilha gera sempre abundância. Somente Mateus faz essa observação. Apesar de sutil, é um aceno à inclusão. Mulheres e crianças eram consideradas categorias insignificantes, na época. O evangelista acena, com isso, que a comunidade cristã é aberta a todos e todas.

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome, por exemplo. A comunidade não pode esperar ter condições necessárias para viver o programa do Reino, mas é ela mesma que tem que criar tais condições, encontrando dentro de si mesma a solução para os seus problemas, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso!

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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