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sábado, janeiro 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do segundo domingo do empo comum emprega um texto do Evangelho segundo João, convencionalmente chamado também de Quarto Evangelho, devido à sua posição na ordem canônica do Novo Testamento. O trecho selecionado varia anualmente, conforme a dinâmica cíclica do ano litúrgico (ano A: Jo 1,29-34; ano B: Jo 35-42; Ano C: Jo 2,1-11). Concretamente, esse domingo constitui a verdadeira abertura solene do tempo comum, uma vez que não existe um primeiro domingo do tempo comum no calendário litúrgico. Como se sabe, ao longo do ano, a liturgia do tempo comum faz uma apresentação contínua do ministério de Jesus, desde os seus primórdios na Galileia até o seu final, em Jerusalém. Recorre-se, portanto, ao Evangelho de João no segundo domingo, porque é esse o que introduz a vida pública de Jesus de modo mais aprofundado. Por ocasião do Ano Litúrgico A, o trecho lido neste domingo é Jo 1,29-34. Nessa passagem, aparecem declarações bastante relevantes sobre a identidade e missão de Jesus, de grande profundidade teológica, que só serão bem compreendidas ao longo do tempo, acompanhando cada passo da sua vida pública, como propõe a dinâmica do ano litúrgico, sobretudo o tempo comum. É importante recordar que, ao contrário dos sinóticos (Mt-Mc-Lc), o Quarto Evangelho não narra o batismo de Jesus, mas faz alusões implícitas a esse acontecimento, como se vê no evangelho de hoje.

O texto lido neste dia faz parte da primeira seção narrativa do Evangelho de João, convencionalmente chamada pelos estudiosos de “semana inaugural” (Jo 1,19–2,21). Trata-se de uma sequência narrativa na qual o evangelista introduz a vida pública de Jesus com indicações temporais que indicam a duração de uma semana. Com isso, o autor pretende apresentar a obra de Jesus como uma nova criação, em alusão à criação originária, desenvolvida também em uma semana (Gn 1,1–2,3). O primeiro dia da “semana inaugural” do evangelho joanino foi marcado por uma comitiva fiscalizadora, enviada pelas autoridades religiosas de Jerusalém para interrogar João sobre sua identidade (Jo 1,19-28), e o último dia ou sétimo é marcado pelas bodas de Caná (Jo 2,1), o qual é introduzido pela expressão “no terceiro dia”, mas em relação aos quatro dias anteriores e, portanto, é o sétimo da primeira semana. O episódio narrado no evangelho de hoje corresponde ao segundo dia da semana. Porém, isso não se percebe na tradução do lecionário litúrgico, que substituiu o dado temporal do texto original pela genérica fórmula de introdução “naquele tempo”.

E iniciamos a nossa reflexão, portanto, recordando o dado temporal com o qual o evangelho de hoje é introduzido, na língua original. Ora, ao invés da genérica fórmula de introdução “naquele tempo”, o texto começa com uma expressão que poderia ser traduzida como “no dia seguinte” ou “um dia depois” (em grego: τῇ ἐπαύριον – té epaurion). A princípio, pode parecer uma observação pouco relevante, mas na verdade se trata de algo bastante significativo. Ora, se o evangelista emprega essa expressão quer dizer que o episódio a ser narrado possui relação com o anterior, como de fato tem. Desse modo, a forma correta do primeiro versículo é: «No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”» (v 29). O Evangelho de hoje, portanto, apresenta o segundo dia da nova criação, ou seja, do novo tempo que o autor do Quarto Evangelho quer apresentar. Um dia após ter sido interrogado pelos comissários de Jerusalém, «João viu Jesus aproximar-se dele» (v. 29a). É necessário perceber a importância da ação de Jesus: vir, aproximar-se, caminhar em direção de alguém, no caso, de João. Uma nova ordem na história da salvação está sendo inaugurada, e João a contempla como testemunha privilegiada: é Deus quem vem ao encontro dos homens e mulheres, ou seja, ao encontro da humanidade. À humanidade, cabe o papel de ver e, por consequência, reconhecer, acolher e testemunhar, como fez João.

A propósito de João, é importante recordar que, no Quarto Evangelho, ele é identificado como testemunha, bem mais do que que pela atividade batizadora, como acontece nos sinóticos. Inclusive, no evangelho joanino ele não é sequer chamado de Batista, mas apenas de João, embora se afirme que ele também batizava, como diz o evangelho de hoje (v. 33). Também não se identifica com a tradicional figura do precursor, outra característica sua predominante nos sinóticos. Conforme a perspectiva teológica do Quarto Evangelho, João é a testemunha, bem como sua missão é dar testemunho, e isso é suficiente para demonstrar sua importância. De fato, esse dado é bastante relevante, pois o testemunho (em grego: μαρτυρία – martyría) é uma categoria teológica de grande importância para a comunidade joanina e, nesse sentido, a figura de João se torna paradigmática para o discipulado de Jesus em todos os tempos. Ora, João reconheceu Jesus; reconhecendo-o, deu testemunho dele, como o evangelista havia antecipado no prólogo (Jo 1,6-8). E os discípulos de Jesus, por sua vez, além de reconhecê-lo, devem também manifestá-lo por meio do testemunho, inclusive, reconhecendo-o nas situações mais adversas: nos pobres, pecadores e pessoas marginalizadas de um modo geral. Portanto, o que João fez em relação a Jesus, muito mais devem fazer os cristãos, em todos os tempos.

E a reação de João diante do que estava contemplando foi decisiva e corajosa. Ao afirmar que Jesus é «o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!», ele fez uma das declarações mais revolucionárias de toda a Bíblia. Com essa afirmação, ele desmascarou e decretou a falência de todo um sistema religioso e político sustentado pela exploração que o sistema sacrificial do templo de Jerusalém promovia. Essa declaração revela um novo rosto de Deus e anuncia, acima de tudo, uma nova maneira de se relacionar com ele. E a maneira nova de se relacionar com Deus corresponde ao fim do sistema cultual centralizado no templo de Jerusalém, símbolo de corrupção e exploração. A expressão “Cordeiro de Deus” (em grego: ἀμνὸς τοῦ θεοῦ – amnós tu Theú) é uma das maiores novidades do Evangelho de João; em toda a Bíblia, aparece somente duas vezes (Jo 1,29.36). No Novo Testamento, somente dois livros aplicam a imagem do Cordeiro a Jesus: o Quarto Evangelho e o Apocalipse. Devido à novidade que comporta, muitas possibilidades de interpretação foram sugeridas para essa expressão, ao longo da história, umas convincentes e outras não, umas condizentes com a lógica do Quarto Evangelho e outras não. Portanto, diversas perspectivas podem ser apresentadas.

Uma primeira perspectiva para a compreensão da definição de Jesus como “Cordeiro de Deus” é a messiânica. Ora, estava consolidada no imaginário do judaísmo da época a imagem de um messias valente, guerreiro, rei forte e potente, com garras semelhantes às de um leão – o leão de Judá (Gn 49,9; Os 5,14; Mq 5,7-8; Is 31,4). Como o leão era um dos símbolos do poder régio no antigo Oriente, em Israel compartilhava-se o mesmo imaginário, projetando tais traços em seu esperado Messias. Havia, portanto, muita expectativa para a chegada desse personagem. Mesmo que essa expectativa messiânica não fosse uniforme em todo o judaísmo, era suficientemente difundida para moldar o imaginário popular. João, por sua vez, desconstrói completamente essa imagem, pois o cordeiro era símbolo da mansidão e fragilidade, o oposto das expectativas do povo. Com isso, o evangelista quer dizer que o messias autêntico não é um guerreiro lutador, mas homem manso e não violento. Porém, mansidão não quer dizer resignação, como Jesus vai mostrar ao longo de sua vida pública, lutando incessantemente pela ruptura total com os costumes e tradições que oprimem e matam, mas sem jamais empunhar as armas da violência. Outra perspectiva de leitura, que não exclui a primeira, mas a complementa, é a releitura da imagem do cordeiro no Antigo Testamento, especificamente em duas ocasiões: o cordeiro pascal (Ex 12,1-28), e o Servo sofredor que é comparado a um cordeiro (Is 53,6-7). E nessas duas ocasiões o cordeiro evoca libertação: na primeira, simboliza a libertação da escravidão no Egito; na segunda, indica que o sofrimento do povo no exílio da Babilônia estava acabando, ou seja, a libertação estava próxima. Em ambas as situações, a libertação simbolizada pelo cordeiro era parcial, destinada apenas ao povo de Israel. Em Jesus o horizonte é ampliado: ele traz libertação para o mundo inteiro.

Para a instituição religiosa de Israel, a função do Cordeiro Jesus apontada por João era um verdadeiro golpe mortal: tirar o pecado do mundo. Ora, todo o aparato religioso de Israel era sustentado “às custas do pecado” do povo. Quanto mais o povo pecasse, mais sacrifícios precisaria oferecer no templo, mais ofertas deveria dar e, assim, mais ricas ficariam as autoridades religiosas. Sendo Jesus o Cordeiro, é ele mesmo quem se oferece, quem se doa, logo, não há mais necessidade de oferecer cordeiros e touros no templo. Em Jesus, Deus veio ao encontro definitivo da humanidade, oferecendo-se por inteiro, fazendo-se carne e habitando no mundo (Jo 1,1-18). Não há mais distância entre Deus e a humanidade, por isso, os sacrifícios do templo não mais necessários. E o Cordeiro Jesus não apenas “expia” pecados, mas elimina definitivamente o pecado do mundo. E a eliminação do pecado do mundo representa a falência total do templo. Jesus não veio para expiar os pecados, mas para abolir o pecado e, não apenas de Israel, mas da humanidade inteira, ou seja, o pecado do mundo.

Tirar o pecado do mundo significa restabelecer na humanidade a sua capacidade de comunicação com Deus e imprimir nela o amor. A visão de pecado do Quarto Evangelho é completamente diferente daquela que a religião de Israel tinha imposto; não é a transgressão individual de preceitos criados pela própria religião, mas a falta de comunicação com Deus, o fechamento e a dureza de coração. E, quem tinha distanciado Deus da humanidade e, portanto, impossibilitado essa comunicação, tinha sido a própria religião. A novidade que Jesus veio trazer ao mundo – ou seja, o seu “Evangelho” – é um projeto de vida plena, marcado pela igualdade, fraternidade, justiça, solidariedade e amor; é nesse projeto que Deus se revela e, portanto, faz desaparecer o pecado. Onde se vive à maneira de Jesus, Deus se faz presente e, por isso, o pecado desaparece, o mal perde o vigor. Logo, os sistemas cultuais expiatórios perdem seu sentido e seu valor quando o projeto de Jesus é assimilado. Para quem vivia “às custas do pecado” do povo, como o templo de Jerusalém, essa nova ordem é altamente prejudicial; na verdade, é destruidora, por isso, será tão combatida.

E o evangelista continua mostrando o testemunho de João. E é um testemunho importante porque reconhece a necessidade de vir depois dele alguém que já existia antes: «Dele é que eu disse: “Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim”» (v. 30). Aqui, João faz uma espécie de retrospecto do testemunho que já estava dando há certo tempo, inclusive, parte dessa afirmação está na resposta dada no interrogatório dos enviados de Jerusalém (v. 27). Assim, ele reconhece o quanto são maravilhosos os desígnios de Deus: a humanidade não poderia permanecer nem perecer daquela forma e naquele estágio em que se encontrava antes do Cordeiro se manifestar. O que preexistia, como fora evidenciado pelo evangelista no prólogo (Jo 1,1-18), deveria se manifestar, e João teve a graça de testemunhar essa manifestação que marcou o início de uma nova humanidade e uma nova criação. João tinha consciência de que, embora a salvação agora contemplada, tivesse um alcance universal, seria manifestada primeiro a Israel, através do sinal exterior do seu batismo com água: «Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel» (v. 31). Portanto, se no momento da eleição foi por privilégio, no tempo de João já era por necessidade. Israel não poderia deixar de ser o primeiro campo de manifestação dessa nova ordem ou etapa da história da salvação. O desenrolar do Evangelho, contudo, vai mostrar que, embora tenha sido o primeiro destinatário, Israel não reconheceu.

A continuidade do testemunho de João atesta sua autenticidade: ele mesmo fez a experiência e viu «O Espírito descer como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele» (v. 32). Com essa imagem, João atesta a provisoriedade do seu batismo e da religião do seu tempo: o Espírito desceu do céu e permaneceu em Jesus; logo, a morada do divino na terra não é mais o templo, mas todo ser humano que acolhe e assimila o jeito de viver de Jesus, uma vez que, após a ressurreição, esse mesmo Espírito será enviado a toda a humanidade. João proclama que Jesus é a morada do Espírito e, assim, a humanidade é transformada e reordenada, tornando-se plenamente humanizada. E é a contemplação da descida e permanência do Espírito em Jesus (v. 33) que dá a João a certeza de que Jesus é, inclusive, mais do que Cordeiro: «Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!» (v. 34). Ora, se isolada, a simples imagem do Cordeiro, apesar de revolucionária, ainda poderia ser confundida com a figura do servo. Por isso, o reconhecimento de Jesus como o Filho de Deus é tão decisiva.

Com efeito, a declaração de que Jesus é o Filho de Deus não revela apenas um traço da sua identidade, mas aponta para um novo jeito de se relacionar com Deus. Revela a comunhão e o amor recíprocos entre os dois – o Pai e o Filho. Sendo Filho de Deus, Jesus é “igual” ao Pai e, portanto, herdeiro; por ter em si o Espírito, somente ele poderá doá-lo, transmitindo-o a toda a humanidade, como fará após a ressurreição. Assim, acolhendo esse Espírito, todos podem tornar-se também filhos de Deus (Jo 1,12) e, consequentemente, também doadores do Espírito Santo. Por sinal, o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus é o objetivo principal de todo o Quarto Evangelho, como vem afirmado na primeira conclusão da obra: «Esses sinais foram escritos para crerdes que Jesus é o Filho de Deus» (Jo 20,31a). Por isso, logo no início, o evangelista apresenta uma testemunha privilegiada desse reconhecimento: João (Jo 1,6-8.19.29.32.34); e no final, toda a comunidade dos discípulos e discípulas (Jo 20,1-31). A comunidade cristã, portanto, é chamada ser continuadora da missão testemunhal de João.

Esperava-se um Messias valente para exterminar os pecadores... Deus enviou um Messias manso como um cordeiro, para tirar o pecado do mundo, através de uma proposta nova de vida para todos, principalmente os pecadores e todas as pessoas marginalizadas. A condição de Jesus como Cordeiro e Filho de Deus representam a humanização completa que ele veio oferecer ao mundo. É a superação do Deus distante e rígido que exigia sacríficios, pelo Deus que manifesta sua glória na fragilidade da carne humana, como celebramos no Natal e cujos ecos se sentem ainda na liturgia de hoje e devem estender-se por todo o tempo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, junho 21, 2025

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 9,18-24 (ANO C)

 


Com a retomada do tempo comum, retoma-se também a leitura semi-contínua do Evangelho de Lucas, como prescreve a liturgia dominical do Ano C. Por tratar-se já do décimo segundo domingo, a leitura do referido Evangelho está bastante avançada. O texto lido hoje – Lc 9,18-24 – encontra-se já no final da primeira grande seção narrativa da obra, que corresponde ao ministério de Jesus na Galileia (Lc 4,14–9,50). É importante considerar este dado para compreender adequadamente o episódio de hoje que, embora curto, possui uma riqueza extraordinária, pois concentra elementos importantes para a compreensão da identidade e missão de Jesus, bem como do seu discipulado em todos os tempos. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc), embora cada um deles o apresente com características próprias, que correspondem às respectivas intenções teológicas e ao plano literário de cada obra. Hoje, particularmente, nos interessa o contexto do episódio na obra de Lucas, como mostraremos a seguir.

O nono capítulo do Evangelho de Lucas possui uma importância singular, pois marca a transição entre as duas grandes seções narrativas da obra, que são, respectivamente, o ministério de Jesus na Galileia (Lc 4,14–9,50) e o longo caminho em direção a Jerusalém (Lc 9,51–19,44). Este capítulo é iniciado com o envio missionário dos Doze, de povoado em povoado para proclamar o Reino de Deus e libertar (curar) as pessoas (9,1-6). A repercussão da missão dos Doze foi tanta que chegou aos ouvidos de Herodes, deixando-o confuso e também curioso sobre a identidade de Jesus (9,7-9). O retorno dos discípulos foi marcado pelo entusiasmo, fazendo aumentar ainda mais a multidão que acompanhava Jesus, culminando com o episódio da partilha dos pães (9,10-17). O entusiasmo forte, tanto dos discípulos, pelo que tinham feito na missão (cf. Lc 9,10), quando do povo que estava se beneficiado dos milagres, foi um alerta para Jesus. Em todos os três sinóticos, este episódio de hoje está relacionado à partilha dos pães, mas somente em Lucas possui relação direta também com a missão dos doze. O texto pode ser dividido em três pequenas unidades temáticas distintas, embora interligadas: a) a pergunta de Jesus sobre a sua própria identidade, cuja resposta mais completa é a confissão de Pedro (vv. 18-21); b) o primeiro anúncio da paixão (v. 22); as exigências para o discipulado, que se tornam profecia da identidade cristã no mundo (vv. 23-24).

A situação criada desde envio dos Doze até a partilha dos pães levou Jesus à reflexão. E os momentos de reflexão de Jesus, no Evangelho de Lucas, são sempre marcados pela oração, quando ele expressa a sua intimidade e confiança no Pai. Por isso, para o autor do Terceiro Evangelho, todos os momentos marcantes da vida de Jesus são precedidos pela oração (6,12; 9,28; 11,1-2; 22,40ss). A primeira afirmação do texto de hoje, portanto, é um indicativo da importância que este episódio possui, pois assim começa: «Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?”»  (v. 18). De início, é importante recordar uma primeira particularidade deste episódio em Lucas, além da oração: ele não localiza precisamente o acontecimento, como fazem Marcos e Mateus, que identificam a cena na região de Cesareia de Filipe. Mais importante do que o lugar geográfico, para Lucas, é que a situação favoreça o clima de oração. Como se sabe, a oração é o meio para cultivar a intimidade com o Pai, por isso, é instrumento de humanização, pois, quanto mais próximo de Deus estiver a pessoa, mais humana se torna. Isso torna a atitude orante de Jesus paradigmática, expressando uma necessidade concreta para a vida de seus discípulos em todos os tempos. De fato, para Jesus, as relações com Deus e com o próximo são inseparáveis. Por isso, da oração, que é intimidade com o Pai, Ele passa a um diálogo confidencial, sincero e transparente com os discípulos, seus amigos.

Como tinham sido enviados há pouco tempo para anunciar o Reino de Deus – o projeto de vida de Jesus –, os discípulos também ouviram as impressões do povo a seu respeito. Por isso, Jesus quis saber qual a imagem que o povo tinha dele até então. É claro que a preocupação de Jesus não era com sua popularidade, mas com a compreensão da sua mensagem, a assimilação do seu projeto. Ora, até aquela ocasião, Jesus já tinha feito muita coisa, tendo andado bastante pelas cidades e povoados da Galileia, anunciando o Reino de Deus com palavras e gestos de libertação, humanizando tantas pessoas e situações, mediante o seu amor. Era justo que ele quisesse saber como estava sendo acolhido e compreendido. E as respostas não demonstram fracasso, mas são insuficientes: «Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”» (v. 19). Como se vê, essa resposta mostra que, em geral, o povo tinha uma boa impressão sobre Jesus; o considerava um grande profeta, e os profetas constituíam o que tinha surgido de mais autêntico na história religiosa de Israel, dentre todas as figuras de mediação. Porém, aplicada a Jesus, a imagem do profeta é insuficiente e até equivocada, pois ele é muito mais do que profeta. Ora, tanto João Batista quanto Elias foram profetas reformadores. João Batista, com a sua austeridade, preferiu isolar-se no deserto, ao invés de enfrentar diretamente as estruturas do seu tempo; inclusive, acreditava que apenas a passagem pelo rito do batismo já era suficiente para uma verdadeira conversão. Elias era muito zeloso, mas fanático e intolerante, pregava a violência e o extermínio dos adversários (1Rs 18,40; 19,1). Colocar Jesus nessa linha é um grande equívoco, inclusive, porque ele não veio propor reformas, mas uma mudança radical de mentalidades e de estruturas, na sociedade, começando pela religião.

Como os discípulos já tinham feito um longo percurso com Ele, é de se esperar que tivessem uma visão mais aprofundada do que o povo a seu respeito. Por isso, «Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”» (v. 20). Da resposta dos discípulos, Jesus saberia como tinha sido o anúncio deles, enquanto estiveram em missão. Isso torna a questão ainda mais relevante. Pedro responde em nome de todo o grupo; a sua resposta é coletiva, sintetiza a opinião e a fé da comunidade. Que o povo conhecesse Jesus apenas superficialmente, seria compreensível, mas dos discípulos esperava-se que o conhecessem mais verdadeiramente, ou seja, de modo mais profundo. Formalmente, a resposta de Pedro é correta, mas é suficiente também; Jesus é, de fato, o Cristo, e veio de Deus; confessá-lo assim é reconhecê-lo como o messias esperado. Ele é o messias sim, mas não conforme as expectativas do seu povo. O messias esperado pelos judeus era um personagem glorioso, um guerreiro nacionalista, alguém que iria restaurar o reino davídico-salomônico com o uso da força, do poder e da violência. E Jesus não veio para restaurar a realeza em Israel, mas para instaurar o Reino de Deus. Sua mensagem não é direcionada a um povo apenas, mas a toda a humanidade. Contudo, é compreensível que Pedro e os demais discípulos ainda estivessem condicionados à mentalidade antiga do seu povo. A mudança de mentalidade, indispensável para compreender e acolher a mensagem de Jesus, é um processo, aliás, um caminho. E ainda faltava muito a ser percorrido.

Conhecendo a mentalidade dos discípulos, «Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém» (v. 21). É importante reconhecer a relevância dessa “proibição” para o discipulado de outrora e de hoje. Jesus não manda somente anunciar, mas manda também calar. A comunidade deve procurar todos os meios eficientes para o anúncio do Reino chegar a todas as pessoas e em todos os lugares; mais tarde, Jesus vai ordenar que os discípulos deverão pregar até sobre os telhados (Lc 12,3), mas quando o anúncio é distorcido, quando há proselitismo, quando há pretensões de glória e poder, é necessário calar. O desejo de glória e poder estava implícito na resposta de Pedro. Por isso, Jesus o proibiu de anunciá-lo daquela forma. A urgência da evangelização, em qualquer época, não pode levar a comunidade a anunciar o Evangelho de qualquer forma, sem antes conhecê-lo em profundidade, sem criar a devida intimidade com ele. Anunciar Jesus distorcendo ou omitindo a essência libertadora da sua mensagem é mais danoso do que mesmo o silêncio. Talvez, essa consciência seja um dos elementos de mais urgência que o evangelho de hoje evidencia e, infelizmente, passa quase despercebida. Os instrumentos para o anúncio têm se multiplicado cada vez mais, com o avanço da tecnologia e o advento de novas demandas. Contudo, o mais importante no anúncio é a convicção e o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus de Nazaré. São muitos os riscos de instrumentalização e distorção da sua mensagem. Muitas vezes, a imagem de Jesus que é anunciada não corresponde à do Nazareno que morreu de tanto amar. E amou lutando, humanizando, libertando.

Diante da compreensão ainda não muito clara que os discípulos tinham da sua identidade messiânica, Jesus acrescentou, a modo de esclarecimento: «O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (v. 22). Temos aqui uma espécie de complemento e correção à resposta de Pedro. Com essa afirmação, Jesus faz a sua primeira grande autorrevelação, deixando clara a especificidade da sua messianidade. Com isso, Ele antecipa o seu destino dramático, fazendo o primeiro dos três anúncios da paixão (9,22; 9,43-45; 18,31-34). Esses anúncios são formas de dizer que Ele não é um Messias conforme as expectativas do povo e da própria religião, que era quem controlava a mentalidade do povo. Um messias sofredor era inadmissível para a tradição. Por isso, Ele irá repetir bastante este anúncio, pois não era fácil de ser assimilado. Ele deverá ser morto porque levará a cumprimento o projeto do Pai. Obviamente, não era a vontade do Pai que seu Filho fosse assassinado tão cruelmente como foi. Mas, a vontade de Deus é que seu Reino se instaure na terra, mesmo que isso custe o sangue do seu Filho. A morte de Jesus na cruz, portanto, não é predestinação, mas consequência de suas opções, marcadas sempre pela fidelidade aos desígnios do Pai que o enviou; é fruto da cobiça e da maldade humana, sobretudo das lideranças religiosas, que não aceitavam um messias tão cheio de amor e próximo das pessoas, sobretudo das mais necessitadas. Mas o Pai reverte essa situação em salvação para a humanidade, com a ressurreição. Para Lucas, os responsáveis pela morte de Jesus são as autoridades religiosas. Inclusive, os autores da violência que ele sofrerá na paixão são claramente mencionados, são os grupos componentes do sinédrio, o máximo órgão jurídico de Israel: anciãos, sacerdotes e doutores da Lei. Essas categorias simbolizam o ter, o poder e o saber, tudo aquilo que foi prometido por satanás no episódio das tentações, mas Jesus rejeitou (Lc 4,1-13).

Tendo esclarecido que não é um messias conforme as expectativas do povo e nem mesmo dos seus discípulos, Jesus também esclarece quais são as exigências básicas para o seu seguimento. Ora, Ele está terminando o seu ministério na Galileia; em pouco tempo irá iniciar o caminho para Jerusalém, onde viverá o drama da paixão. Para continuarem no seu seguimento, é necessário que os discípulos tenham clareza do destino e dos riscos que estão correndo, como seguidores de um messias ao revés. De fato, a messianidade revelada por Jesus é todo contrário do que esperavam. Por isso, o esclarecimento: «Então chamou a multidão com seus discípulos e disse: “Depois Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz a cada dia, e siga-me”» (v. 23). Antes de tudo, Jesus deixa claro que o discipulado é uma adesão pessoal e livre: «se alguém me quer seguir»; Ele não obriga e nem impõe; apenas propõe. E o seguimento exige rupturas. E a primeira ruptura é com a própria pessoa. Renunciar a si mesmo não significa odiar-se, mas é deixar de lado o egoísmo e todas as convicções pessoais que não estejam em sintonia com a mensagem libertadora do Evangelho; pretensões de poder, conquista e bem-estar pessoal, devem ser deixadas de lado. A cruz de cada dia corresponde às consequências de tal escolha. A cruz, como a mais temida das penas na época, era sinal de perigo; era a pena reservada aos considerados desordeiros, subversivos; com isso, Jesus deixa claro que os seus discípulos, à medida em que viverem o Evangelho com fidelidade, estarão em perigo constante, pois as opções do Evangelho contradizem os pretensões dos detentores de poder deste mundo, o que torna, inevitavelmente, os seus autênticos discípulos em subversivos, pessoas consideradas perigosas para o sistema. Também quanto ao tomar a cruz, o de Lucas se destaca em relação aos demais evangelhos: somente nele se diz que a cruz deve ser tomada a cada dia, ou seja, é uma realidade do cotidiano, não um evento e muito menos um adorno; é a situação cotidiana de quem assume com seriedade o seguimento de Jesus.

O último versículo é uma profecia em forma de provérbio, na qual são reforçadas as exigências para o discipulado, com suas consequências: «Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará» (v. 24). Há aqui um jogo de palavras, recurso retórico bastante usado por pregadores itinerantes, e neste, especificamente, são contrapostos os verbos salvar e perder à luz da lógica reversa da messianidade de Jesus. Já na época da redação do Evangelho de Lucas, os cristãos eram considerados pessoas que tinham perdido a vida, conforme a lógica do sistema vigente, devido às renúncias que tinham feito e à disposição de abraçar a cruz como consequência das opções assumidas. Abrir mão de uma mentalidade individualista, deixando de lado projetos e ambições pessoais para viver a utopia do Reino, ou seja, aderir a um projeto igualitário, com relações gratuitas e movidas pelo amor, era visto como perda e loucura. Para Jesus, contudo, quem faz isso salva a sua vida, quer dizer, dá sentido à existência. A salvação não é simplesmente a preservação ou repouso eterno da alma, mas a vida e a mensagem libertadora de Jesus, o salvador. Se salva, portanto, quem assimila essa mensagem e faz dela vida, deixando-se humanizar por meio dela.

Somos convidados hoje, de modo especial, a procurar conhecer cada vez mais a identidade autêntica de Jesus, para poder continuar no seu seguimento. Segui-lo é confrontar-se com as estruturas do mundo que impedem a realização, desde já, do Reino de Deus. O seguimento e o anúncio devem ser frutos de uma relação de intimidade com Ele e com o Pai. Sem convicção e conhecimento da sua pessoa, o anúncio tende a ser distorcido.

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

  Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua ...