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quarta-feira, abril 01, 2026

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA, NA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15



Todos os anos, para a missa vespertina da Quinta-feira Santa, a liturgia propõe a leitura de Jo 13,1-15. Esse texto corresponde ao relato do lava-pés, um episódio exclusivo do Evangelho segundo João e, sem dúvidas, uma das passagens mais emblemáticas de todo o Novo Testamento. Trata-se de uma passagem altamente rica em significado teológico e arte narrativa, e tudo isso contribuiu bastante para a alta popularidade que possui. De fato, desde os primeiros séculos, esse texto tem marcado a história do cristianismo, inclusive, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um episódio profundamente comprometedor para os cristãos de todos os tempos, pois mostra que, no momento mais decisivo da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; a religião dos seguidores de Jesus, portanto, não pode ignorar esse fato. E tanto a localização quanto o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: conforme a divisão clássica do Quarto Evangelho em duas grandes partes – “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21) –, o relato do lava-pés inaugura o “Livro da Glória”, introduzindo a narrativa da paixão de Jesus.

A modo de introdução, apresentamos uma breve contextualização para, em seguida, voltarmos a atenção diretamente para o texto. A princípio, podemos dizer que chega a causar espanto a diferença entre a obra de João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mt, Mc e Lc), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica cinco capítulos inteiros: de 13 a 17, totalizando 155 versículos. Ao longo deste amplo material narrativo, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, em forma de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. É importante recordar que no Evangelho de João não há qualquer aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais evangelhos; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia feito em outra ocasião, precisamente após o sinal da “multiplicação dos pães” (6,1-15). Naquela ocasião, o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se autoapresentando como o “pão da vida” (6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal altamente relevante: «Antes da festa da Páscoa» (v. 1a). O evangelista não nega o contexto pascal no qual Jesus fez a ceia com seus discípulos pela última vez, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. Inclusive, desde muito cedo, o evangelista costumava referir-se à festa da Páscoa com a qualificação de “páscoa dos judeus” (2,13; 11,55), distanciando Jesus das instituições de Israel que tinham desfigurado o rosto de Deus. Agora, ele apresenta Jesus próximo da Páscoa, mas da sua própria Páscoa, tornando-a uma festa da vida, como sempre deveria ter sido. Por isso, Jesus celebra a Páscoa doando a sua própria vida, uma vez que é ele o verdadeiro Cordeiro de Deus, imolado por amor. A Páscoa de Jesus, portanto, não exige ofertas nem sacrifícios, não é instrumento de exploração como tinha se tornado o aparato ritual do templo. Celebrando sua Páscoa antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois da sua pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, já não tem mais sentido. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na Páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor. Nessa, não há morte, há vida, e vida doada por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova Páscoa, profundamente subversiva, por sinal. E é essa Páscoa que a comunidade cristã deve viver e celebrar sempre.

Ao longo de todo o seu Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à «hora de Jesus», anunciando que tudo o que Jesus fazia era preparação para esse momento, e sempre advertia o leitor que ainda não tinha chegado a hora (2,4; 7,30; 8,20; 12,23). De agora em diante, tanto o narrador quanto o próprio Jesus anunciam a chegada dessa hora. Mais do que um dado cronológico, a hora de Jesus é um indicativo teológico, por sinal, um dos mais significativos na obra de João. Essa hora é o cumprimento de todo o projeto de salvação oferecido por Deus, por meio de seu Filho, consumado na cruz e ressurreição. Finalmente, ele mostra que essa hora chegou: «sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai» (v. 1b). É a hora de Jesus retornar ao Pai, após cumprir plenamente sua missão de humanizar e salvar o mundo, por isso é também a consumação da constante glorificação do Pai que ele realizou, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, transformado em casa de comércio (Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço. A falta desse amor como motivação para o agir torna vazia qualquer prática cultual e devocional.

Continuando, diz o evangelista que «Estavam tomando a ceia» (v. 2a). A ceia para a mentalidade bíblica não representa apenas o consumo de alimentos e bebidas para matar a fome e a sede, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal. Com efeito, a ceia é o momento primordial da vivência do amor-comunhão; é o ápice da convivência humana sadia, fraterna. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; o rito é a própria vida, são tratadas as questões existenciais mais profundas da comunidade, por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da entrega de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos outros nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles «amados até o fim»; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante. O evangelista é enfático nesse sentido: «o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus» (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da entrega da parte de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam, já tinham feito várias tentativas de capturá-lo e até de apedrejá-lo; daquela Páscoa ele não passaria. O mal de Judas, portanto, foi ter sido aliado, se tornado cúmplice do poder que gera a morte e, ainda mais, por ter se deixado mover por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o «diabo seja posto em seu coração». O conluio com o poder é sempre um pacto diabólico. A história mostra que Judas não foi um caso isolado no cristianismo, infelizmente.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus é concretamente demonstrada quando ele «levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura» (v. 4). Certamente, foram grandes o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo explicitamente a condição de servo, de escravo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado e uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço deve sempre prevalecer sobre o rito. Em toda a sua vida, Jesus demonstrou que veio ao mundo para servir e, ao servir, ele glorificava o Pai, pois a motivação do seu serviço foi sempre o amor, e o Pai o enviou para espalhar amor sobre o mundo. Mas é nessa cena que o serviço amoroso se torna mais forte e até escandaloso, como será demonstrado pela reação de Pedro, mais adiante.

Tendo já deposto o manto e improvisado um avental, na sequência, o texto diz o que Jesus fez: «Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido» (v. 5). Assim como os leitores de hoje ainda ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais devem ter ficado os discípulos que estavam com Jesus à mesa. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica da época. Ora, lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, principalmente nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, as pessoas se sentavam em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era, acima de tudo, uma exigência básica de higiene.

Sendo uma necessidade básica, o lava-pés tornou-se um sinal de hospitalidade e acolhida, no antigo oriente. Ao receber uma visita, o dono da casa lhe oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés, junto ao copo d’água para beber. Nisso estava o grande sinal de hospitalidade, tão característico do antigo oriente, sobretudo nas culturas semitas. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: é o sujeito da ação o que causa perplexidade. No cotidiano, eram os escravos quem lavavam os pés dos membros da família e dos possíveis hóspedes. Em certas ocasiões, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa chegava a lavar os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia a dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores e as relações: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo – ou do discípulo. Com esse gesto, portanto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos seus discípulos, de outrora e de todos os tempos, que eles devem estar sempre dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia a dia, inclusive nas consideradas mais humilhantes, como lavar os pés uns dos outros.

É claro que houve reação dos discípulos diante da atitude tão revolucionária de Jesus. E o primeiro a protestar, como de costume, foi Simão Pedro: «Tu nunca me lavarás os pés» (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel” e um Messias glorioso, deve mesmo ter sido chocante, decepcionante, deparar-se com um que se faz escravo, servo de todos. Por isso, o espanto e o protesto de Pedro. Ora, o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também as possibilidades de resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes; essa mentalidade acaba naturalizando um mundo desigual, contrário aos desígnios de Deus. Jesus, com suas palavras e gestos, quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lavar os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: «Jesus respondeu: “Se eu não te lavar não terás parte comigo”» (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se tornar servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Sem essa disposição, não há possibilidade de se ter parte com ele! Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: «Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça» (v. 9). O exagero da resposta de Pedro revela a sua total incompreensão. Na verdade, com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta revolucionária de Jesus: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter de servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, Pedro estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com toda a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu ensinamento em forma de gesto: «Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo» (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Logo, para a mentalidade da época, sentar-se à mesa e, ao mesmo tempo, servir constituíam papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se à mesa, e quem sentava não deveria humilhar-se servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que se senta à mesa serve, e o que serve senta-se à mesa. O que era papel do escravo – lavar os pés – , é agora dever também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais exigentes, como dar a própria vida por amor. E Jesus realizou as duas coisas como prova que ele não media esforços para cumprir a sua missão e atender às necessidades das pessoas. Com o lava-pés, portanto, Jesus fez uma recapitulação de toda a sua existência neste mundo. Ele veio para servir e, por isso, viveu intensamente servindo.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos todos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos e dos sacerdotes do templo, que fossem eles, os discípulos do Messias, a controlar a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, cobrança de impostos, divisões de classe e uso da violência quando a “ordem” estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu entre os discípulos. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu próprio exemplo: «portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (vv. 14-15). Temos aqui a instituição do serviço como mandamento para a comunidade de Jesus.

A ordem para que os discípulos «façam a mesma coisa» em relação ao serviço, aqui no Quarto Evangelho, equivale ao «fazei isto em memória de mim» da tradição paulina/sinótica sobre a Eucaristia (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). «Fazer a mesma coisa» que fez Jesus, obviamente, não significa repetir o gesto de lavar os pés uns dos outros, o que já não é uma exigência sanitária dos dias atuais; significa a disponibilidade total para o serviço incondicional, motivado pelo amor, na comunidade cristã. A simples repetição do gesto seria transformá-lo em um rito a mais. O lava-pés que a comunidade deve fazer permanentemente é a vivência do amor fraterno que traz, como consequência, a disponibilidade para o serviço gratuito e sem distinção. Para isso, é necessário assimilar o estilo de vida de Jesus, com disposição para «amar até o fim», como ele fez. Sem isso, qualquer coisa que se faça em sua memória não passa de encenação.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, março 28, 2026

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – Mt 26,14–27,66 (ANO A)

 


Com a liturgia do Domingo de Ramos, a Igreja abre solenemente a Semana Santa, recordando a entrada decisiva de Jesus na cidade santa de Jerusalém e os últimos momentos da sua vida terrena, ao fazer memória da sua paixão e morte na cruz. Por isso, nesta celebração são lidas duas passagens do Evangelho, compreendidas como reciprocamente complementares. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, as duas passagens são tiradas do Evangelho de Mateus: 21,1-11 e 26,14–27,66. Apesar da considerável distância entre elas, ambas estão intrinsecamente relacionadas, tanto por afinidade quanto por contraste, afinal, aquele que morre na cruz, praticamente abandonado por todos, é o mesmo que foi euforicamente aclamado rei, ao entrar na cidade. Isso torna a liturgia deste domingo, como é a de toda a Semana Santa, altamente paradoxal. Por questão de espaço e relevância, concentraremos nossa reflexão apenas no relato da paixão, o qual é bastante longo, totalizando 128 versículos, embora as comunidades tenham a opção de escolher uma forma mais abreviada – Mt 27,11-54. Em nossa reflexão, consideraremos o texto completo, embora sua longa extensão não permita um comentário mais pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos colher o sentido global do texto, destacando alguns elementos específicos considerados mais relevantes, destacando alguns detalhes que pertencem exclusivamente ao relato de Mateus, partindo de uma ampla introdução contextualizadora.

Os relatos da paixão de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos Evangelhos. Foi a partir destes relatos que os Evangelhos surgiram enquanto livros. Um famoso teólogo alemão – Martin Kähler (1835-1912) – chegou a afirmar que «os Evangelhos são os relatos da paixão com ampla introdução». É claro que uma afirmação desse tipo possui exageros, mas ajuda a compreender e ilustrar a importância dos relatos da paixão no processo de formação dos Evangelhos e, sobretudo, no fortalecimento da fé das primeiras comunidades cristãs. Ora, como a catequese e a vida litúrgica das comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito, à medida em que as explicações iam-se tornando repetitivas e, consequentemente, insuficientes. Essas dúvidas se traduziam em perguntas como estas: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só pode ressuscitar quem antes passa pela morte. Diante disso, surgiu a necessidade de contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto das lideranças religiosas do judaísmo, a morte se tornava cada vez mais presente na vida das comunidades, não apenas enquanto tema, mas enquanto realidade e possibilidade concreta, pois o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passavam a ser sinal de perigo. Quando se fala do nome de Jesus, no contexto das primeiras comunidades, compreende-se todo o seu projeto de vida e libertação, ou seja, a sua mensagem. Diante disso, para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. E, para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e a sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso e, consequentemente, uma incômoda ameaça aos grupos privilegiados do seu tempo. Logo, seu desfecho final foi o rechaço por parte desses sistemas. Durante a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não priorizavam: o amor gratuito e incondicional ao próximo, a justiça, a gratuidade nas relações, o perdão ilimitado, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida aos excluídos e marginalizados, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação e nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estavam todas voltadas para o Pai do céu, tendo em vista a edificação do seu Reino na terra.

O relato é situado em Jerusalém, onde Jesus já se encontrava com seus discípulos para a celebração da Páscoa, a festa dos judeus por excelência. Ao entrar em Jerusalém, ele foi acolhido triunfantemente como o profeta de Nazaré da Galileia (Mt 21,1-11). Ali, desenvolveu o seu ministério por alguns dias em meio a tensões e conflitos com os comerciantes do templo (Mt 21,12-14) com os grupos e autoridades religiosas, especialmente os fariseus, saduceus, sacerdotes e escribas (Mt 21,23-27,45; 22,23-33; 23,13-36). Toda essa sequência de conflitos serviu como preparação para o confronto final, o que se tornava cada vez mais inevitável, devido à coragem de Jesus em não resistir, mas enfrentar às investidas sem hesitação. Foi, portanto, na cidade santa que Jesus foi condenado, o que não lhe surpreendera, pois ele mesmo já tinha alertado antes, em forma de lamento: «Jerusalém, Jerusalém, que matas profetas e apedrejas os que te são enviados» (Mt 23,37a). Sendo ele mais do que profeta, o enviado por excelência, seria inevitavelmente morto, caso se mantivesse fiel àquele que lhe enviou: o Pai. Inclusive, ele já tinha prevenido os seus discípulos com os três anúncios da paixão, que seria condenado e morto em Jerusalém, pelos sumos sacerdotes e escribas (Mt 16,21; 17,22-23; 20,17-19). Diante de tudo isso, ficava cada vez mais claro que a morte trágica de Jesus foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.

Ainda durante o seu ministério na Galiléia, houve muitos conflitos doutrinais com os fariseus e outros movimentos religiosos de então, inclusive, com seus próprios discípulos, sempre relutantes em compreender e aceitar sua mensagem e seu estilo de vida; mas é em Jerusalém que as disputas passam do campo doutrinal para a esfera do poder. A Páscoa, como sabemos, é a festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual se comia o cordeiro imolado, símbolo principal da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos, Jesus mesmo se apresenta como o cordeiro, doando a sua existência (Mt 26,26-30). Como um relato edificante para a comunidade, a narrativa da paixão serve de advertência e denúncia, não apenas às autoridades que executaram Jesus, mas também às incoerências internas da comunidade. Por isso, recordamos um dado bastante negativo que, certamente, levou a comunidade do evangelista a refletir e ponderar quando sofria perseguição, que é a dispersão e abandono dos discípulos no momento da sua prisão: «Então, todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram» (Mt 26,56). Os discípulos ficaram com medo e sentiram-se frustrados, ao perceber que o projeto de Jesus não correspondia às suas expectativas. São os mesmos que, no início do Evangelho, tinham deixado tudo para segui-lo: barco, família, redes e até coletoria de impostos (Mt 4,20.22; 9,9). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Isso constitui uma séria advertência à comunidade e, ao mesmo tempo, um consolo: deve haver resistência e força para não desistir, mas sendo composta de seres humanos, a comunidade será sempre passível de medos e incoerências.

O duplo julgamento de Jesus, um religioso e outro político, ou seja, diante do sinédrio (26,57-68) e de Pilatos (27,11-26), mostra a covardia e a hipocrisia da união das forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável. Aqui, é importante recordar um detalhe: como a comunidade de Mateus vivia mais tensões com o judaísmo do que qualquer outra, ele enfatiza mais a culpa do sinédrio do que a do poder romano. Um dado do texto que enfatiza isso é o fato de ser somente o seu evangelho a mencionar Pilatos lavando as mãos, querendo, com isso, isentar-se de culpa pela condenação de Jesus (27,24).

A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus (27,26.35). Em plena Páscoa, sua festa máxima, a religião oficial não hesita em ser conivente com a condenação de um inocente e justo. Os líderes religiosos, mais do que nunca, colocaram a Lei e a doutrina acima da vida, como muitos movimentos ditos cristãos continuam fazendo, assemelhando-se mais à religião que matou Jesus do que propriamente à religião que ele viveu. Não obstante tanto sofrimento, ele manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo a sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não abriu mão de suas convicções (27,46-48). Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido, por isso, perseverou, revelando ao mundo um amor ilimitado, fruto de sua íntima comunhão com o Pai.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz, ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade: «Ele era mesmo o mesmo Filho de Deus!» (27,54). Essa é uma das afirmações mais profundas do texto, do Evangelho e de todo o Novo Testamento. Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas daqueles que executaram a pena: o oficial e os soldados. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, puderam conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado. Morrendo como homem condenado e humilhado ao extremo, Jesus revela sua identidade divina.

O reconhecimento do oficial e dos soldados é mencionado logo após o evangelista dizer que «a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se abriram» (27,51). O rasgar-se do véu do santuário é um dado comum aos três sinóticos (Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 23,45); já o sucessivo terremoto, cuja descrição continua nos versículos seguintes (Mt 27,51-53), é exclusividade de Mateus. Esse dado simbólico significa a falência completa da religião e do sistema político que tinha acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo: somente os sacerdotes podiam ultrapassar a divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e pratica a Lei. A imagem do terremoto, exclusiva de Mateus, simboliza a instauração de uma nova ordem no mundo; significa a renovação completa da humanidade, compreendendo a destruição das antigas estruturas e o surgimento de um mundo novo, fundado no amor de Deus revelado por Jesus, fonte de libertação e humanização. Obviamente, a instauração do mundo novo, com uma nova ordem, implica a destruição do mundo antigo. Por isso, a imagem do terremoto é tão frequente na linguagem apocalíptica; evoca destruição, sim, mas comporta muita esperança, pois tudo o que é destruído dá lugar a realidades novas, com um mundo renovado e humanizado pelo amor.

Não poderia passar despercebida a presença das mulheres, uma das categorias sociais que recebeu mais atenção de Jesus ao longo de todo o seu ministério. Elas são apresentadas neste relato como as testemunhas mais fiéis e perseverantes (27,55-56). Por causa disso, serão também as primeiras testemunhas da ressurreição. O exemplo das mulheres contrasta completamente com o exemplo dos discípulos homens: eles abandonaram Jesus e fugiram logo após a prisão (26,56). Por sinal, os últimos discípulos homens mencionados neste relato, até aqui, foram Pedro e Judas, mas como contraexemplo: Pedro pelas negações, saiu de cena chorando (26,69-75); Judas, pelo remorso da traição, terminou se enforcando (26,3-5). As mulheres, que também eram discípulas, com igual dignidade, perseveraram até o fim. É importante ressaltar a condição de discípulas: desde a Galiléia, elas seguiam Jesus (27,55). A presença perseverante delas na paixão é mencionada em todos os evangelhos, mas, entre os sinóticos, Mateus é único evangelista que recorda algumas delas por nome, dentre elas Maria Madalena. Recordar pelo nome é sinal de importância, quer dizer que elas não eram meras figurantes no discipulado de Jesus, mas eram protagonistas também. Os nomes das que foram recordadas simbolizam a totalidade delas, de ontem e de hoje. A presença das mulheres na paixão indica perseverança, fidelidade e também reconhecimento por tudo o que Jesus tinha feito por elas. Ora, até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovendo a emancipação delas e as aceitado como discípulas em seu movimento. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimateia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois o sinédrio tinha sido o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Aqui, recordamos mais um dado exclusivo de Mateus, o único evangelista que diz que José de Arimateia se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57). Isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo grupo ou movimento ao qual pertence. E o papel de José de Arimatéia é muito importante. Ele alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (27,57-61), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto. O gesto de José de Arimatéia é tão importante que vai repercutir na ressurreição: o sepulcro aberto será reconhecido como o primeiro sinal pascal.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Celebrar o Domingo de Ramos, portanto, é declarar-se da parte de Jesus, assimilando a sua vida e suas posições com a própria vida. É reconhecer o seu amor como único caminho de humanização do mundo, com disposição para assumir as consequências que essa opção implica. 

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, março 22, 2024

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – MARCOS 14,1–15,47 (ANO B)


Todos os anos, na liturgia do Domingo de Ramos, faz-se a leitura de uma das narrativas da Paixão e morte de Jesus. Na mesma celebração, no entanto, se lê também uma das versões da entrada de Jesus em Jerusalém. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico B, temos a oportunidade de ler e refletir sobre os dois episódios a partir do Evangelho de Marcos. Por questão de espaço e relevância, concentraremos nossa reflexão no relato da paixão, apenas. No entanto, serão feitos acenos ao episódio da entrada de Jesus em Jerusalém, sobretudo na contextualização. O relato da paixão é um texto bastante longo – Mc 14,1–15,47 –, que compreende dois capítulos inteiros, totalizando cento e dezenove versículos, sendo que as comunidades têm a opção de ler a forma abreviada (Mc 15,1-39). Em nossa reflexão, consideraremos o texto completo, embora sua longa extensão não permita um comentário mais pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos colher o sentido global do texto, destacando alguns elementos específicos considerados mais relevantes, partindo de uma ampla introdução contextualizadora. Não trataremos do episódio da ceia com o abreviado relato da instituição da Eucaristia, embora faça parte do evangelho de hoje e possua grande relevância no quadro da paixão, devido ao destaque que a liturgia da Quinta-Feira Santa já reserva à Eucaristia, embora empregando um texto do Quarto Evangelho. 

Embora o nosso foco neste ano seja especificamente o relato de Marcos, os aspectos introdutórios que abordamos aqui valem também para os demais evangelhos. E iniciamos a contextualização recordando que os relatos da paixão de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos Evangelhos. Foi a partir destes relatos que os Evangelhos surgiram enquanto livros. Um famoso teólogo alemão – Martin Kähler (1835-1912) – chegou a afirmar que «os Evangelhos são os relatos da paixão com ampla introdução». É claro que uma afirmação desse tipo possui exageros, mas ajuda a compreender e ilustrar a importância dos relatos da paixão no processo de formação dos Evangelhos e, sobretudo, no fortalecimento da fé das primeiras comunidades cristãs. Ora, como a catequese e a vida litúrgica das comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito, à medida em que as explicações iam se tornando repetitivas e, consequentemente, insuficientes. Essas dúvidas se traduziam em perguntas como estas: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só pode ressuscitar quem antes passa pela morte. Diante disso, surgiu a necessidade de contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto das lideranças religiosas do judaísmo, a morte se tornava cada vez mais presente na vida das comunidades, não apenas enquanto tema, mas enquanto realidade e possibilidade concreta, pois o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passava a ser sinal de perigo. Quando se fala do nome de Jesus, no contexto das primeiras comunidades, compreende-se todo o seu projeto de vida e libertação, ou seja, a sua mensagem. Diante, isso, para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. E, para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e a sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso e, consequentemente, uma incômoda ameaça aos grupos privilegiados do seu tempo. Logo, seu desfecho final foi o rechaço por parte desses sistemas. Durante a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não priorizavam: o amor gratuito e incondicional ao próximo, a justiça, a gratuidade nas relações, o perdão ilimitado, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida aos excluídos e marginalizados, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação e nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estavam todas voltadas para o Pai do céu, tendo em vista a edificação do seu Reino na terra.

O cenário da paixão é a cidade de Jerusalém, obviamente, onde Jesus viveu os últimos dias do seu ministério, que por sinal, foram os mais polêmicos. Após uma entrada triunfante na grande cidade, para participar das festividades pascais (Mc 11,1-11), logo começaram os conflitos, tendo a denúncia do templo como ponto de partida (Mc 11,12-19). Na verdade, a chegada de Jesus em Jerusalém já prefigura o desfecho, ou seja, sua morte na cruz. Aquele povo que o saudou festivamente com mantos, ramos e cantos de Hosana (Mc 11,8-9) eram peregrinos que se sentiam explorados pela religião do templo e, por isso, sonhavam com mudanças a cada Páscoa celebrada. E viram em Jesus uma esperança. É claro que isso não passou despercebido pelos dirigentes romanos e judeus, os quais, sentindo-se ameaçados, já suspeitavam das aspirações de Jesus e vigiavam seus passou há bastante tempo. Fazia tempo que a Páscoa tinha deixado de ser uma festa de libertação e se transformado em comércio, tornando-se também mais um instrumento de exploração, ajudando a legitimar o abuso de poder exercido pelas autoridades de Jerusalém, principalmente a elite sacerdotal. Certamente, muitos dos que saudaram Jesus como Messias e rei não acreditavam em suas credenciais messiânicas, mas o fizeram por não suportar mais a maneira como estavam sendo governados e explorados.

Da entrada festiva, passa-se ao episódio da denúncia do templo, quando Jesus expulsou de lá os vendedores, compradores e cambistas, inconformado por ver a casa de oração transformado em covil de ladrões. Também esse gesto deve ter atraído a atenção e o interesse de muitos peregrinos que já se encontravam em Jerusalém e se sentiam explorados com o comércio praticado no templo. Da mesma forma, deve ter despertado ainda mais o ódio nas classes dirigentes, que viam com urgência a necessidade de eliminá-lo. Esse episódio desencadeou uma série de confrontos com os grupos político-religiosos hegemônicos, com Jesus se sobressaindo em todos eles, sobretudo nos debates em relação à interpretação da Lei. Por questão de prudência e medo da reação do povo, partiram para o confronto intelectual, inicialmente. Depois, percebendo que não conseguiam vencer Jesus no campo das ideias, estes grupos apelaram para a violência, formando um consórcio de morte junto ao poder imperial, para eliminá-lo. E quando o confronto se dá pela força e pela violência, Jesus já não reage, pois, as suas armas não são as do sistema. Por isso, o relato da paixão é tão dramático e doloroso, pois Jesus faz do silêncio e da aparente passividade a sua maneira de reagir e denunciar, deixando até mesmo seus discípulos desconcertados e decepcionados, ao perceber que sua messianidade não correspondia às suas expectativas e aspirações.

Olhemos então para o texto, recordando que, embora o cenário da paixão seja Jerusalém, a primeira cena do evangelho de hoje acontece ainda em Betânia, uma pequena aldeia localizada a cerca de três quilômetros de Jerusalém, e ponto de apoio de Jesus nos últimos momentos de sua vida terrena. É uma cena muito importante, pois apresenta a unção de Jesus por uma mulher desconhecida (14,3-9) que, associada ao final do relato (15,47), compõe a moldura de toda a narrativa da paixão, marcada, do começo ao fim, pela presença das mulheres, cuja coragem e perseverança contrapõe-se ao medo e covardia dos discípulos homens. A mulher que unge o corpo de Jesus é uma profetisa anônima. Ela deposita sobre Jesus uma carga de amor imensurável, representado pelo perfume, que nenhum discípulo de primeira hora fora capaz de fazer. Pelo contrário, até a repreenderam pelo gesto, com um falso discurso em favor dos pobres que, não passava de retórica, sendo corrigidos pelo próprio Jesus (14,7-9). Esse gesto não apenas prepara Jesus para a sepultura, como a prefigura: serão as mulheres as testemunhas da boa ação de José de Arimatéia, o responsável pelo sepultamento de Jesus, e é com elas que o relato da paixão se encerra: «Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus foi colocado» (15,47). Serão elas também as primeiras testemunhas da ressurreição. Isso mostra claramente que a comunidade de Jesus nasce fora dos padrões do patriarcado.

O segundo aspecto do relato que destacamos, por sinal negativo, é a dispersão da comunidade dos discípulos: «Então todos o abandonaram e fugiram» (14,50). Os discípulos, também sedentos por mudanças, sentem-se frustrados na medida em que percebem que o projeto de Jesus não corresponde às suas expectativas. No início do evangelho, Marcos tinha afirmado que, diante do chamado ao seguimento, «os discípulos abandonaram tudo e seguiram Jesus» (1,18.20). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Judas tinha acabado de entregá-lo, Jesus está sendo preso, e os discípulos lhe negam a mínima solidariedade. O mais resistente, o último a fugir, é um jovem anônimo, que foge nu (14,51-52), sendo que não fazia parte do seleto grupo dos doze. Por sinal, esse é um detalhe exclusivo do Evangelho de Marcos: um jovem que foge nu. Inclusive, muitos estudiosos vêem nesse jovem a figura do próprio evangelista Marcos. A fuga dos discípulos é sinônimo de medo e covardia, mas também de decepção com o pretenso Messias. Jesus os tinha advertido sobre sua condição de Messias sofredor, mas eles não tinham acreditado. Só acreditaram na última hora e não aceitaram. Por isso, não é de causar surpresa que as multidões tenham preferido Barrabás, quando interrogadas (15,6-15), pois nem mesmo os discípulos se mantiveram ao lado de Jesus no momento mais difícil da sua vida.

Além da traição de Judas e da fuga dos demais, outros aspectos negativos dos discípulos também são evidenciados por Marcos. Tendo já denunciado a falta de perseverança na oração (14,32-42), o evangelista denuncia também a superficialidade no seguimento deles, ao recordar esta atitude de Pedro, após a prisão: «Pedro seguiu Jesus de longe» (14,54a). Ora, seguir de longe é não se comprometer; significa acompanhá-lo fisicamente, até certo ponto, sem abraçar plenamente a sua causa. Embora os demais já não o estivessem seguindo nem mesmo de longe, não é admissível na comunidade um discipulado tão superficial assim. Quem segue de longe não suporta a pressão nem a perseguição, por isso está fadado à negação, como de fato aconteceu com Pedro. Ora, ao ser identificado como galileu e seguidor de Jesus, Pedro reagiu, dizendo: «Nem conheço esse homem de quem estais falando» (14,71b). O evangelista deixa claro, com isso, que não pretende denunciar com seu relato somente as forças externas que perseguiram Jesus e perseguem a comunidade. Também de dentro da comunidade podem surgir muitas forças tão danosas ao seu crescimento quanto os poderes externos. É claro que os discípulos não poderiam fazer muita coisa àquela altura; na verdade, não poderiam fazer nada, em termos de reação. Mas poderiam, pelo menos, manter-se solidários, acompanhando passo a passo o processo e a condenação.

O duplo julgamento de Jesus, um político e outro religioso, ou seja, diante do sinédrio e de Pilatos (14,53-65; 15,1-15), mostra a união das forças hostis, pois judeus e romanos não se suportavam. Mas, tendo identificado Jesus como um inimigo em comum, os dois poderes se uniram para eliminá-lo, pois seu anúncio de libertação e humanização oponha-se profundamente aos seus planos, denunciando seus privilégios e as injustiças que cometiam para obtê-los. A mensagem de Jesus desmascarava-os completamente. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, acusa Jesus de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei (15,2). Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável. A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus. Em plena Páscoa, a festa máxima dos judeus, a religião e o império não hesitam em condenar quem lhes parece ameaça. Não obstante tanto sofrimento, Jesus manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não renunciou às suas convicções. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia mais ser escondido.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, em Jesus, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade messiânica, como: «Na verdade, este homem era Filho de Deus!» (15,39c). Essa é uma das afirmações mais profundas do evangelho de hoje, do inteiro Evangelho de Marcos e até do Novo Testamento. Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas de um oficial do exército, um soldado romano e, portanto, um estrangeiro. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, podem conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado. Por isso, a confissão do oficial do exército romano é o ponto culminante de todo Evangelho de Marcos. Inclusive, é a revelação definitiva do chamado “segredo messiânico”, um dos temas teológicos e artifícios literários mais relevantes de Marcos. Só na cruz esse segredo é revelado, pois só na cruz se conhece verdadeiramente a identidade de Jesus. Tudo o que se dizia dele até então era parcial, inclusive a confissão de Pedro na região de Cesareia de Filipe também tinha sido parcial, pois ele tinha identificado Jesus como Messias, mas ignorou a natureza da sua messianidade (Mc 8,27). A confissão do centurião é completa.

O reconhecimento do centurião é mencionado após o evangelista dizer que «a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes» (15,38). Esse dado simbólico significa a falência completa da religião e do sistema que tinham acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo; somente os sacerdotes podiam ultrapassar a divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e oferece sacrifícios conforme as prescrições da Lei. A cortina do santuário rasgada é, portanto, o retrato de uma religião exploradora destroçada pela verdade e o amor que Jesus revela na cruz. As duas partes já não são símbolo de dois povos, mas de dois mundos: o mundo velho e o mundo novo. O mundo velho passou, chegou o mundo novo, do qual a cruz é semeadura. Aquela antiga religião, sobre a qual se sustentava o mundo velho, dividia, segregava e rotulava as pessoas, além de explorá-las economicamente. A cruz denuncia isso, mostrando que é só pelo amor que se relaciona verdadeiramente com Deus. Na cruz, Jesus mostra que Deus, o seu Pai, não tem outra coisa a oferecer ao mundo senão o amor.

A presença das mulheres é destacada como testemunhas da morte de Jesus (15,40), como consequência de um seguimento fiel e serviçal: «Elas haviam acompanhado e servido a Jesus quando ele estava na Galileia» (15,41). Dos discípulos homens, não se diz que eles serviam, mas apenas que seguiam, que acompanhavam Jesus; provavelmente, foi por isso que não perseveraram até o fim. E durante o seu ministério Jesus não cansou de mostrar a inseparabilidade entre seguimento e serviço. A perseverança das mulheres diante da cruz se explica porque, desde o início, elas abraçaram o seguimento como serviço, enquanto os discípulos colocaram aspirações triunfalistas como motivação para o seguimento. Sem pretensões de grandeza, motivadas pelo serviço, as mulheres testemunharam até o fim, acompanhando também o sepultamento: «Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus foi colocado» (15,47); elas foram também as primeiras testemunhas da ressurreição. Sem sonhos triunfalistas, elas não viram a morte de Jesus como fracasso ou falimento de um projeto; não se sentiram perdedoras, mas viram até a morte como ocasião de testemunhar e servir. Por isso, são modelos de discipulado para todos os tempos, pois foram aquelas que acompanharam Jesus em todos os momentos da sua vida.

A comunidade de Marcos foi edificada e fortalecida a partir deste relato. Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. A presença do Ressuscitado se tornou certeza na comunidade porque percebeu-se que Deus não abandona jamais um projeto quando esse é conduzido pelo amor. Também as comunidades de hoje são chamadas a fazer experiência semelhante àquela de Marcos: perseverar com os crucificados de hoje, todos os que lutam por um mundo de justo e humanizado, com igualdade e amor, para que o Ressuscitado de ontem continue a ressuscitar em cada coração hoje e sempre.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


sexta-feira, março 31, 2023

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – MATEUS 26,14–27,66 (ANO A)

 


Na liturgia do Domingo de Ramos, todos os anos se faz a leitura de uma das narrativas da paixão de Jesus. Neste ano, temos a oportunidade de ler e refletir a partir do relato de Mateus. Pela sua extensão, a liturgia salta alguns versículos, propondo a leitura já a partir da traição de Judas, e terminando com o sepultamento: Mt 26,14–27,66; mesmo assim, a leitura proposta continua longa, totalizando 128 versículos; essa longa extensão, obviamente, nos impede de fazer um comentário mais pormenorizado. Por isso, procuraremos colher a mensagem global do texto e, na medida do possível, enfatizar os aspectos mais relevantes, destacando alguns detalhes que pertencem exclusivamente ao relato de Mateus.

Os relatos da paixão e morte de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos evangelhos. Embora o nosso foco nesse ano seja especificamente o relato de Mateus, os aspectos introdutórios que abordaremos valem também para os demais evangelhos. Ora, as primeiras páginas escritas dos livros que hoje conhecemos como evangelhos foram exatamente as narrativas da paixão e morte de Jesus. Como a catequese e a vida litúrgica das primeiras comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito. Essas dúvidas se traduziam em perguntas deste tipo: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só ressuscita quem passa pela morte. Logo, era necessário contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto dos líderes religiosos judeus, a morte se tornava cada vez mais presente nas comunidades, e o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passava a ser sinal de perigo. Para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. Para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e sua resistência. E os evangelhos, enquanto livros, surgiram como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início, com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, nos casos de Mateus e Lucas desde o anúncio do nascimento de Jesus, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso. Logo, o seu desfecho final foi o rechaço da parte desses sistemas. Durante toda a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não aceitavam: o amor ao próximo, a justiça, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida às mulheres e excluídos em geral, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces pelos sistemas que não toleravam essa mensagem. É importante recordar que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação, nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estava toda voltada para o Pai do céu, tendo em vista a construção do seu Reino na terra.

O relato é situado em Jerusalém, onde Jesus já se encontrava com seus discípulos para a celebração da Páscoa, a festa dos judeus por excelência. Ao entrar em Jerusalém, Jesus foi acolhido triunfantemente como o profeta de Nazaré da Galileia (Mt 21,1-11). Ali, desenvolveu o seu ministério por alguns dias em meio à tensões e conflitos com os comerciantes do tempo (Mt 21,12-14) com os grupos e autoridades religiosas, especialmente os fariseus, saduceus, sacerdotes e escribas (Mt 21,23-27,45; 22,23-33; 23,13-36), como preparação para o confronto final. Foi, portanto, na cidade santa que Jesus foi condenado, o que não lhe surpreendera, pois ele mesmo já tinha alertado: «Jerusalém, Jerusalém, que matas profetas e apedrejas os que te são enviados» (Mt 23,37a). Inclusive, ele mesmo tinha prevenido os seus discípulos com os três anúncios da paixão, que seria condenado e morto em Jerusalém, pelos sumos sacerdotes e escribas (Mt 16,21; 17,22-23; 20,17-19).

Assim, a morte trágica de Jesus, foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências. Durante seu ministério na Galileia, houve conflitos doutrinais com os fariseus e outros grupos; mas é em Jerusalém que as disputas passam do campo doutrinal para a esfera do poder. A Páscoa, como sabemos, é a festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual comia-se o cordeiro imolado, símbolo da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos, Jesus mesmo se apresenta como cordeiro, doando a sua existência (Mt 26,26-30).

Como um relato edificante para a comunidade, a narrativa da paixão serve de alerta e denúncia, não apenas às autoridades que executaram Jesus, mas também às incoerências da comunidade. Por isso, recordamos um dado bastante negativo que, certamente, levou a comunidade do evangelista a refletir e ponderar quando sofria perseguição, que é a dispersão e abandono dos discípulos no momento da sua prisão: «Então, todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram» (Mt 26,56). Os discípulos ficam com medo e sentem-se frustrados ao perceber que o projeto de Jesus não corresponde às suas expectativas. São os mesmos que, no início do Evangelho, deixaram barco, família, redes e até coletoria de impostos para segui-lo (Mt 4,20.22; 9,9). Agora, é a Jesus que eles abandonam. É uma advertência à comunidade e, ao mesmo tempo, um consolo: deve haver resistência e força para não desistir, mas sendo composta de seres humanos, a comunidade será sempre passível de medos e incoerências.

O duplo julgamento de Jesus, um religioso e outro político, ou seja, diante do sinédrio (26,57-68) e de Pilatos (27,11-26), mostra a covardia e a hipocrisia da união das forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável. Aqui, é importante recordar um detalhe: como a comunidade de Mateus vivia mais tensões com o judaísmo do que qualquer outra, ele enfatiza mais a culpa do sinédrio do que a do poder romano. Um dado do texto que enfatiza isso é o fato de ser somente o seu evangelho a mencionar Pilatos lavando as mãos, querendo, com isso, isentar-se de culpa pela condenação de Jesus (27,24).

A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus (27,26.35). Em plena Páscoa, sua festa máxima, a religião oficial não hesita em ser conivente com a condenação de um inocente e justo. Os líderes religiosos, mais do que nunca, colocaram a Lei e a doutrina acima da vida. Não obstante tanto sofrimento, Jesus manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo a sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não abriu mão de suas convicções (27,46-48). Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz, ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade: «Ele era mesmo era o mesmo Filho de Deus!» (27,54). Essa é uma das afirmações mais profundas do texto, do Evangelho e de todo o Novo Testamento. Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas daqueles que executaram a pena: o oficial e os soldados. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, puderam conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado. Morrendo como homem condenado e humilhado ao extremo, Jesus revela sua identidade divina.

O reconhecimento do oficial e dos soldados é mencionado logo após o evangelista dizer que «a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se abriram» (27,51). O rasgar-se do véu do santuário é um dado comum aos três sinóticos (Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 23,45); já o sucessivo terremoto, cuja descrição continua nos versículos seguintes (Mt 27,51-53), é exclusividade de Mateus. Esse dado simbólico significa a falência completa da religião e do sistema político que tinham acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo: somente os sacerdotes podiam ultrapassar a divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e pratica a Lei. A imagem do terremoto, exclusiva de Mateus, simboliza a instauração de uma nova ordem no mundo; significa a renovação completa da humanidade, compreendendo a destruição das antigas estruturas e o surgimento de um mundo novo, fundado no amor de Deus revelado por Jesus. A instauração do mundo novo, com uma nova ordem, implica a destruição do mundo antigo. Por isso, a imagem do terremoto é tão frequente na linguagem apocalíptica; evoca destruição, mas comporta muita esperança, pois tudo o que é destruído dá lugar a realidades novas, com um mundo renovado e humanizado pelo amor.

Não poderia passar despercebida a presença das mulheres, uma das categorias sociais que recebeu mais atenção de Jesus ao longo de todo o seu ministério. Elas são apresentadas neste relato como as testemunhas mais fiéis e perseverantes (27,55-56). Por causa disso, serão também as primeiras testemunhas da ressurreição. O exemplo das mulheres contrasta completamente com o exemplo dos discípulos homens: eles abandonaram Jesus e fugiram logo após a prisão (26,56). Por sinal, os últimos discípulos homens mencionados neste relato, até aqui, foram Pedro e Judas, mas como contraexemplo: Pedro pelas negações, saiu de cena chorando (26,69-75); Judas, pelo remorso da traição, terminou se enforcando (26,3-5). As mulheres, que também eram discípulas, com igual dignidade, perseveraram até o fim. É importante ressaltar a condição de discípulas: desde a Galiléia, elas seguiam Jesus (27,55). A presença perseverante delas na paixão é mencionada em todos os evangelhos, mas, entre os sinóticos, Mateus é único evangelista que recorda algumas delas por nome, dentre elas Maria Madalena. Recordar pelo nome é sinal de importância, quer dizer que elas não eram meras figurantes no discipulado de Jesus, mas eram protagonistas também. Os nomes das que foram recordadas simboliza a totalidade delas, de ontem e de hoje. A presença das mulheres na paixão indica perseverança, fidelidade e também reconhecimento por tudo o que Jesus tinha feito por elas. Ora, até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovido a emancipação e as aceitado como discípulas. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimateia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois o sinédrio tinha sido o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Aqui, recordamos mais um dado exclusivo de Mateus, o único evangelista que diz que José de Arimateia se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57). Isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo grupo ou movimento ao qual pertence. E o papel de José de Arimateia é muito importante. Ele alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (27,57-61), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto. O gesto de José de Arimateia é tão importante que vai repercutir na ressurreição: o sepulcro aberto será reconhecido como o primeiro sinal pascal.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus.

 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35 (ANO A)

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