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quarta-feira, junho 03, 2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO – ANO A



“PORQUE HÁ UM SÓ PÃO, NÓS TODOS SOMOS UM SÓ CORPO” (1Cor 10,17)

(Dt 8,2-3.14b-16a; Sl 147; 1Cor 10,16-17; Jo 6,51-58)

1.     Introdução

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo começou a ser celebrada na Bélgica, com o objetivo de reafirmar a presença real de Jesus na Eucaristia e promover a devoção ao Santíssimo Sacramento. Foi instituída oficialmente no século XIII pelo papa Urbano IV e se popularizou rapidamente em todo o mundo. Apesar de já ser celebrada no tempo comum, esta festa pode ser considerada a verdadeira conclusão do ciclo pascal e uma espécie de extensão da Quinta-Feira Santa. Por vários séculos, foi marcada por um aspecto mais devocional e apologético, tendo a solene e triunfante procissão como seu ponto mais alto. Com o passar do tempo, o sentido teológico foi aprimorado, sobretudo com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

Ao celebrar hoje esta solenidade, a Igreja reafirma e proclama solenemente a sua fé na Eucaristia como memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo, como alimento que sustenta e conduz para a vida eterna, e como presença permanente do Senhor junto a seu povo. Por isso, somos convidados neste dia a refletir também sobre os efeitos da Eucaristia celebrada em nossas comunidades e na vida de cada pessoa. O Senhor quis permanecer presente entre nós como alimento e é, portanto, alimentando-se dele, o único pão, que nos tornamos um único corpo.

2.     Compreendendo a Palavra

A primeira leitura de hoje é tirada do segundo dos três discursos de Moisés que compõem o livro do Deuteronômio (Dt 4,44–28,68). No contexto da leitura, o povo de Israel já se encontra às portas da terra prometida, após a longa e difícil caminhada pelo deserto. Em breve, o povo terá fartura, ao entrar na tão sonhada terra onde corre leite e mel. Nesse sentido, Moisés o exorta a não esquecer a providencial proteção de Deus, desde a saída do Egito, terra de escravidão, até a experiência do deserto (vv. 2.14). Ora, no deserto, Israel passou por diversas provações, como a fome, a sede, o perigo dos animais selvagens, como as serpentes, e todo o tipo de dificuldade. Sem a ajuda de Deus Israel não teria resistido a tudo isso (vv. 2-3.15).

Por isso, Moisés pede que o povo recorde tudo o que Deus fez em seu favor (v. 2.14). E de tudo o que Deus fez por Israel no deserto, o que o povo tinha mais vivo na memória era o dom do alimento, o maná (v. 16).  Contudo, apesar de importante no contexto do deserto, o maná era um alimento passageiro e supria apenas uma necessidade do povo: a fome de pão. E, como não se vive somente de pão, o verdadeiro nutrimento de Israel no deserto não foi apenas o maná, mas a força de toda a palavra que saía da boca de Deus (v. 3). Desse modo, o convite à recordação é acompanhado da exortação à observação dos mandamentos, que também são expressões da palavra que sai da boca de Deus e, portanto, fazem o homem viver.

A segunda leitura é tirada da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, o livro do Novo Testamento que contém o testemunho mais antigo e explícito sobre a fé da Igreja primitiva na Eucaristia como presença do Cristo ressuscitado na comunidade e comunhão com ele, mediante os sinais do pão e do vinho, consagrados e compartilhados fraternalmente.

O trecho lido nesta solenidade é muito breve, mas bastante claro, além de interpelante. Ora, quando Paulo escreveu essa Carta, a unidade da comunidade de Corinto estava seriamente ameaçada, por causa de divisões e rivalidades. Diante disso, o apóstolo recorda o sentido da Eucaristia como fonte de comunhão com Cristo e dos cristãos entre si. As referências ao “cálice da bênção” e ao “pão que partimos” (v. 16) evocam, obviamente, a última ceia de Jesus com seus discípulos, às vésperas da sua paixão, e demonstram que a celebração fraterna como memória daquela ceia já era uma tradição consolidada na comunidade de Corinto (cf. 1Cor 11,23-26).

O chamado à unidade parte da certeza de que há um só pão, que é Jesus Cristo (v. 17). Quem se alimenta deste pão, forma um único corpo, entrando em comunhão profunda com o Senhor e com os demais que participam do mesmo banquete. A comunhão com o corpo de Cristo, portanto, gera uma união profunda, não apenas com Jesus, mas também dos cristãos entre si. Daí, podemos dizer que Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis.

O evangelho de hoje corresponde à conclusão do chamado “Discurso sobre o pão da vida”, localizado no sexto capítulo do Evangelho de João (Jo 6,22-58). Esse discurso, que constitui a mais rica catequese eucarística do Novo Testamento, está ambientado na sinagoga de Cafarnaum e funciona como uma explicação teológica do milagre da multiplicação dos pães. Trata-se de um dos textos mais profundos de todo o Evangelho de João, inspirado em dois importantes acontecimentos do Antigo Testamento: a multiplicação dos pães, pelo profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), e o episódio do maná no deserto (Nm 11,13.22).

A multiplicação dos pães tinha deixado a multidão beneficiada bastante entusiasmada com Jesus. Inclusive, por causa do milagre, tinham reconhecido Jesus como “o Profeta que vem ao mundo” (v. 6,14). No entanto, percebendo que não estava sendo bem compreendido, Jesus procurou explicar a sua verdadeira identidade e missão. Por isso, o ponto alto do discurso explicativo é a autoafirmação de Jesus como “o pão vivo descido do céu” (v. 51).

Contudo, de acordo com o contexto do evangelho, ainda não se trata de uma referência ao pão eucarístico repartido na comunidade. Essa declaração indica, antes de tudo, que Jesus é o Verbo encarnado e o único que revela o Pai com perfeição. Logo, para alcançar a vida eterna é indispensável fazer experiência com ele, comendo a sua carne, o que significa assimilar a sua própria vida e acolher o dom do Espírito que ele comunica junto com o Pai. Para os judeus que o tinham escutado, a afirmação de Jesus como pão descido do céu pareceu embaraçante e até escandalosa (v. 52). Afinal, de alimento descido do céu, eles só tinham como referência o antigo maná comido pelos antepassados no deserto, e sabiam que era um alimento perecível (v. 58), ou seja, seus efeitos eram passageiros: saciava por um certo tempo, mas eles sentiam fome de novo.

Ao falar de um alimento que sacia para sempre, Jesus desperta curiosidade e embaraço, ao mesmo tempo, pois ele mesmo se apresenta como esse alimento, oferecendo sua carne, que significa o dom da sua vida. Trata-se de um ensinamento totalmente novo, inesperado pelo seu auditório. A declaração solene “em verdade, em verdade” (v. 53), indica a importância do que está sendo afirmado. A referência paralela à carne e ao sangue significa a condição humana em sua totalidade. É impressionante o salto de qualidade: de doador de um alimento perecível (Jo 6,1-13), em pouco tempo ele se apresenta como o próprio alimento para a vida eterna, doando-se completamente. E só participa da vida eterna quem o recebe como alimento.

Pela participação na vida de Jesus em sua totalidade, o ser humano recebe o dom da ressurreição (v. 54), pois é a assimilação da sua vida que gera uma comunhão indestrutível com ele. A Eucaristia, enquanto sacramento, é a expressão concreta desta comunhão. Através dela, temos a oportunidade de viver com Jesus uma relação semelhante à dele com o Pai (v. 57), o que deve gerar também a construção de relações saudáveis e fraternas na comunidade.

3.     Atualização

Um dos principais ensinamentos da liturgia da palavra de hoje é a certeza de que Deus alimenta e nutre as suas criaturas. A primeira leitura recorda que, no deserto, Deus alimentou o seu povo com a força da sua palavra e com o maná, considerado uma prefiguração da Eucaristia desde as primeiras gerações cristãs. No evangelho, Jesus mesmo, na totalidade da sua pessoa, se auto apresenta como o alimento doado por Deus para a vida do mundo. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo ensina que o pão repartido na comunidade é alimento e vínculo de união com Jesus Cristo e dos cristãos entre si. Diante disso, devemos refletir sobre a eficácia da Eucaristia enquanto alimento em nossas vidas. Jesus se fez alimento entregando sua vida por amor ao Pai e à humanidade.

Tanto a Palavra de Deus quanto a vida cotidiana atestam que o alimento é uma categoria essencial à vida. Assim, devemos sentir fome de Deus para o buscarmos como alimento que sacia e fortalece. Mas não podemos esquecer a fome de pão que continua matando milhões de pessoas no mundo e em nosso país. E, como cristãos, não podemos aceitar essa realidade. Devemos então contribuir, cada um à sua maneira, para que todas as pessoas sejam alimentadas de pão material e de tudo o que sai da boca de Deus, cujo ápice é a Eucaristia, corpo doado de Jesus, a Palavra que se fez carne.

4.     Conclusão

Além de saciar nossa fome e sede de Deus, a Eucaristia acende em nós o desejo de vida eterna; quando dela participamos, livres e conscientes, compreendemos melhor o sentido da vida, a ponto querermos torná-la eterna. E é somente a comunhão com a pessoa de Jesus Cristo que pode eternizar nossa vida. Sendo a Eucaristia sacrifício e refeição, quando dela participamos assimilamos o Senhor em nossa vida, entramos em comunhão profunda com ele e com a comunidade reunida, e nos abrimos para a eternidade, antecipando nossa participação no banquete celestial, na consumação dos tempos.

Não há sentido participar da refeição fraterna da comunidade sem a disposição de viver como irmão ou irmã. Compreendemos o sentido da eucaristia e fazemos verdadeira comunhão, quando assimilamos a vida de Jesus na nossa, vivendo à sua maneira. A celebração de hoje constitui um momento privilegiado para recordar a unidade entre as duas mesas: a da palavra e a do pão. Jesus é a Palavra que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). E ele fez da sua vida um dom, entregando-se totalmente por amor. Por isso, é importante que nossa fé na Eucaristia se traduza também em gestos concretos de amor e doação.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, junho 14, 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – JOÃO 16,12-15 (ANO C)



No primeiro domingo depois de Pentecostes, a Igreja celebra a solenidade da Santíssima Trindade. Os textos bíblicos empregados nesta solenidade se alternam conforme a dinâmica do ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, é Jo 16,12-15. Ao contrário das solenidades pascais, instituídas desde os primeiros séculos do cristianismo, essa festa já foi introduzida no calendário litúrgico em um período mais tardio. Em alguns países, começou a ser celebrada ainda por volta do séc. oitavo, mas só foi instituída oficialmente como festa universal pelo papa João XII, já no ano de 1334, como resposta a alguns movimentos heréticos que negavam a divindade de Jesus e/ou do Espírito Santo. Nela, recordamos o mistério da comunhão de amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Trindade Santa, em cujo nome somos batizados, batizadas e, consequentemente, salvos e salvas. É muito significativo que esta solenidade seja celebrada logo no primeiro domingo após Pentecostes. Como se sabe, em Pentecostes acontece o verdadeiro nascimento da Igreja. Desse modo, a Solenidade da Santíssima Trindade vem indicar que toda a ação da Igreja é trinitária, a começar pelo batismo, que se celebra em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Portanto, é em nome da Santíssima Trindade que ingressamos e participamos da comunidade cristã. Isso faz da comunidade o lugar privilegiado de comunhão com o Deus que é também comunidade. Como sempre, a nossa reflexão será pautada exclusivamente a partir do evangelho, sem levar em consideração as afirmações dogmáticas a respeito da Santíssima Trindade.

O contexto do Evangelho de hoje ainda é o da última ceia, ambientada no cenáculo em Jerusalém, e vivenciada por Jesus com seus discípulos, às vésperas da Páscoa. Como já afirmamos em outras ocasiões, pois durante quase todo o tempo pascal o evangelho dos domingos foi tirado desse mesmo contexto, a ceia no Quarto Evangelho não significa apenas o consumo de alimentos, nem a vivência de um rito, tampouco uma mera confraternização. Para a comunidade joanina a ceia é autorrevelação de Jesus, sendo o momento mais forte da sua catequese. Por isso, conforme o respectivo evangelho, foi na ceia que Jesus apresentou o seu “testamento”, como é convencionalmente chamado o seu longo discurso de despedida, do qual faz parte o evangelho de hoje. A centralidade da ceia em João já é evidenciada pelo amplo espaço narrativo que ocupa: são cinco capítulos (Jo 13 –17), totalizando cento e cinquenta e cinco versículos, o que corresponde a um quarto de todo o Evangelho. Esse momento foi iniciado com o lava-pés (13,1-15), e continuado pelo discurso de Jesus, com algumas interrupções dos discípulos (13,36-38; 14,5.8.22). Jesus sabia do que estava para acontecer: em pouco tempo, seria condenado à morte; os discípulos também imaginavam o que estava para acontecer, embora não tivessem ainda tanta clareza. Havia um clima de tensão e medo entre os discípulos, o que era inevitável para as circunstâncias. Por isso Jesus procurou tranquilizá-los em diversos momentos (14,1.27; 16,6.22). Por cinco vezes, durante o discurso, Jesus prometeu enviar o Espírito Santo quando retornasse para o mundo do Pai (14,16-17.26; 15,26; 16,7-8.13), de modo que os discípulos não permaneceriam sozinhos, pois através do Espírito, a presença de Jesus se eternizaria no meio deles. O Evangelho de hoje contém a quinta e última promessa do Espírito Santo.

Durante o seu ministério, Jesus apresentou todo o seu programa aos discípulos, ou seja, o seu “Evangelho”, compreendendo palavras e sinais; não escondeu nada, conforme Ele disse nesse mesmo discurso: «já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor, mas vos chamo de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer» (Jo 15,15). Ser discípulo(a) de Jesus é entrar no seu círculo de profunda intimidade, é ser contado entre os seus amigos. E dos amigos, ele nada esconde. A princípio, o primeiro versículo do evangelho de hoje parece contradizer a afirmação acima, que ele já disse tudo, pois, de repente, ele diz: «Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora» (v. 12). Ora, Jesus já disse tudo; não há novas coisas para dizer ou ensinar. Logo, aqui, ele não se refere a novos ensinamentos, mas à capacidade de compreensão dos discípulos, que não tinham assimilado tudo o que ouviram dele.

Muita coisa da vida e da mensagem de Jesus ainda não tinha sido assimilada pelos discípulos, porque a chave de interpretação da sua vida é a cruz e ressurreição. Na verdade, aqui o evangelista nem usa o verbo compreender, empregado equivocadamente pela tradução litúrgica, mas o verbo “suportar” (em grego: βαστάζω – bastázo); a tradução mais justa, portanto, seria: “não sois capazes de suportar agora”. Antes da experiência da ressurreição, e sem o dom maior do Ressuscitado, que é o Espírito Santo, os discípulos não teriam forças para suportar a sua mensagem de libertação e vida em plenitude, sobretudo porque essa mensagem compreende a passagem pela cruz, como consequência de um amor incondicional. Inclusive, alguns acontecimentos durante o processo de Jesus demonstram a incapacidade dos discípulos de suportar a sua mensagem com suas consequências; a traição de Judas e a tríplice negação de Pedro atestam isso.

Para compreender e suportar o peso da mensagem de Jesus, principalmente a cruz, os discípulos necessitam de uma força especial, de uma energia que os tire do medo e do comodismo. Por cruz não se compreende apenas a crucifixão sofrida uma vez no calvário, mas o conjunto da obra. Em toda a sua vida, Jesus viveu um crucificar-se contínuo. Cada atitude de rejeição sofrida, desde os primeiros momentos do seu ministério, já apontava para a cruz como desfecho. Diante disso, conhecendo seus discípulos, ele sabia que não estavam ainda preparados para suportar tudo o que ele estava suportando. Por isso, para que pudessem continuar sua missão com fidelidade, ele garante que receberão a força necessária, o Espírito Santo, para sustentá-los e conduzi-los: «Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará» (v. 13). Ora, a Verdade é o próprio Jesus, como Ele mesmo se autointitulara antes: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6). A “Verdade plena”, portanto, é o Cristo glorificado no mundo do Pai, tendo já passado pela cruz e ressurreição, realidade que só pode ser assimilada por quem se deixa conduzir pelo Espírito; significa o “conjunto da obra”: da preexistência do Verbo (Jo 1,1) à encarnação (Jo 1,14), passando pela cruz, até o retorno ao mundo do Pai.

A função do Espírito é manter a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, que é a Verdade em pessoa. O Espírito não falará por si mesmo, será a voz do Pai e do Filho no coração das pessoas e na vida da Igreja. Transmitirá ao mundo a comunhão de amor que envolve o Pai e o Filho, como força de humanização para a humanidade inteira. E o Espírito é o próprio amor que une o Pai e o Filho; mediante seu sopro, esse amor irradia-se sobre o mundo, fecundando-o de vida , e vida em abundância. As “coisas futuras” que serão anunciadas não são novas revelações ou visões; significa a capacidade de ler os eventos futuros à luz da mensagem de Jesus. A comunidade cristã – a Igreja – sempre encontrará situações novas e surpreendentes ao longo da história, não previstas por Jesus e seu pequeno grupo de discípulos, durante os aproximados três anos de ministério. Ao longo da história, a comunidade cristã necessita do dom do Espírito Santo para discernir e aplicar o ensinamento de Jesus, que já disse tudo, mas preciso ser compreendido de modo novo, a cada dia, diante das novas realidades que surgem continuamente. Independentemente da época, a comunidade deverá interpretar tais situações à luz de tudo o que Jesus ensinou. E só é possível fazer isso deixando-se conduzir pelo Espírito da Verdade. Por isso, guiada pelo Espírito Santo, a comunidade mantém a atualidade da mensagem de Jesus em qualquer que seja a situação e a época histórica.

Continuando a explicação sobre os efeitos do Espírito Santo para a vida da comunidade, Jesus afirma: «Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará» (v. 14). Ora, o Espírito irá iluminar os discípulos para compreenderem e viverem o que Jesus já disse. Assim como Jesus glorificou o Pai fazendo a sua vontade, também o Espírito glorifica Jesus conduzindo a comunidade em conformidade com o Evangelho. Aqui, cabe destacar um aspecto importante da teologia do Quarto Evangelho. Ora, ao contrário dos sinóticos, que preveem uma vinda gloriosa de Jesus no final dos tempos, João segue outra perspectiva. Para o autor do Quarto Evangelho, a glória de Jesus é que Ele mesmo esteja permanentemente presente na comunidade através do Espírito. À medida em que a comunidade se deixa conduzir pelo Espírito Santo, ela põe em prática o programa de Jesus, cuja síntese é o novo mandamento do amor (Jo 13,34). Fazendo assim ela revela Jesus presente no mundo. Fazer isso é glorificá-lo. Portanto, o efeito “glorificante” do Espírito Santo em relação a Jesus confere séria responsabilidade à comunidade.

A promessa do Espírito é concluída com uma afirmação muito profunda que enfatiza a comunhão de Jesus com o Pai: «Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu» (v. 15). O Pai é a fonte originária de tudo. O que Jesus tem a oferecer ao mundo, o amor ilimitado e incondicional, pertence ao Pai; mas como Ele e o Pai são Um (Jo 10,30), tudo o que é do Pai é também seu. Logo, o que o Espírito recebe de Jesus, recebe também do Pai. Aqui, nesse último versículo temos, de fato, um eco trinitário bastante evidente, pois revela a comunhão dos três: o Espírito comunica à comunidade tudo o que recebe de Jesus, e tudo o que Jesus concede ao Espírito recebeu do Pai. Por isso, pode-se dizer que os Três são Um. Acolhendo, o Espírito, a comunidade vive o que Jesus ensinou e, assim, revela ao mundo o rosto de um Pai que é todo amor.

Portanto, a presença perene de Jesus na comunidade, através do Espírito, é também presença do Pai. É essa relação que torna sempre novo e atual tudo o que Jesus viveu e ensinou. Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo é entrar também nessa comunhão profunda com o Pai e o Filho. O resultado da acolhida a essa comunhão é a humanização do mundo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,33-43 (ANO A)

  O evangelho do vigésimo sétimo Domingo do Tempo Comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a última fase do seu ministério,...