domingo, abril 05, 2026

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Jo 20,1-9



A liturgia do Domingo da Páscoa mantém o mesmo evangelho para todos os anos, ao contrário da liturgia da Vigília Pascal, na qual alternam-se os textos, conforme o ciclo litúrgico vigente. O texto fixo é Jo 20,1-9, embora também se possa ler Lc 24,13-35 como alternativa, na missa vespertina. Trataremos aqui apenas da passagem de João, o texto oficial. E começamos por recordar que, em vez de ser um relato da ressurreição, como normalmente vem chamado, esse texto constitui, na verdade, um relato do «sepulcro encontrado vazio», pois a ressurreição em si não chega a ser narrada por nenhum evangelista, como já afirmamos em outras ocasiões, uma vez que se trata de um acontecimento indescritível, ao contrário da paixão e da morte de Jesus, as quais são descritas minuciosamente pelos evangelhos. Esse fato pode parecer estranho, considerando que é a ressurreição o evento fundante do cristianismo e, por isso, o centro da fé cristã, e foi exatamente em função dessa que os evangelhos foram escritos. Mesmo assim, os evangelistas não conseguiram descrevê-la. O texto proposto hoje – Jo 20,1-9 – é apenas a introdução daquilo que o Quarto Evangelho dedica à ressurreição, sem, no entanto, descrevê-la: a descoberta do sepulcro vazio, o que pode significar muita coisa ou quase nada, a depender de quem faz a constatação. Três personagens entram em cena nesse texto: Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado. O número três já é, por si, um grande e rico sinal; trata-se de um indicativo teológico: significa uma comunidade que, embora se encontre profundamente abalada, devido ao final trágico de seu líder, aos poucos vai sendo recomposta, à medida que a esperança vai sendo recuperada.

O primeiro versículo apresenta o retrato da comunidade antes de vivenciar a experiência da ressurreição: «No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo» (v. 1). O “primeiro dia da semana” é o dia seguinte ao sábado, último dia da antiga criação. Com essa expressão, o evangelista indica que há uma nova criação em curso; um novo tempo e um novo mundo estão sendo gestados, mas ainda está na etapa primordial, o caos, simbolizado pela expressão «quando ainda estava escuro»; o escuro, como sinônimo de caos, fora constatado também na primeira criação (Gn 1,1-2). Na verdade, o indicativo temporal «bem de madrugada» e seu complemento enfático «quando ainda estava escuro» não é apenas uma indicação temporal; significa o estado da comunidade naquelas circunstâncias. A ausência de Jesus e a procura pelo seu corpo na morada dos mortos – o túmulo – reflete uma realidade de trevas na comunidade. Essa situação de trevas não se deve à ausência da luz física, mas significa que a vida não está triunfando na comunidade, ou seja, a morte está prevalecendo. Trevas é ausência de vida e de esperança, sobretudo na teologia de João. E a primeira atitude de inconformismo diante das trevas é de Maria Madalena. Sua atitude vai despertar toda a comunidade a buscar uma saída para a superação das trevas.

Sem a experiência do Ressuscitado, a situação da comunidade é caótica, pois esta fica sem rumo, sem saber o que fazer, como vemos na postura de Maria Madalena: «Então, ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: ‘Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram’» (v. 2). A pressa e as palavras de Maria Madalena indicam uma situação de quase desespero. Embora o texto de João registre apenas a ida de Maria Madalena ao sepulcro, é mais provável que tenha sido um grupo de mulheres que tenha ido ao sepulcro, como consta nos evangelhos sinóticos (Mt 28,1; Mc 16,1; Lc 24,1); João cita somente a Madalena para recordar o protagonismo dela na comunidade primitiva e para delimitar o número três com os dois discípulos mencionados (Pedro e o Discípulo Amado), dando uma ênfase teológica maior ao fato, indicando uma comunidade, pois o número três significa completude.

Ir ao túmulo é a atitude de quem acredita que a morte triunfou, pois o túmulo é a morada dos mortos, é um depósito de cadáveres, mas é também uma manifestação de amor por aquele que julgava estar morto. A surpresa e o espanto de Maria Madalena são causados exatamente pela ausência do cadáver no túmulo. A cultura da morte e o desânimo estavam tão presentes na mente dos discípulos que nem mesmo a pedra removida do túmulo foi suficiente para animá-los. De fato, a remoção da pedra e a ausência do corpo de Jesus causaram, inicialmente, preocupação e espanto, ao invés de alegria e esperança. Na fala de Maria Madalena vem expressa a falência da comunidade: mesmo reconhecendo Jesus como “Senhor”, ela sente a falta de um cadáver; quer saber onde está o corpo morto para reverenciá-lo, provavelmente com os perfumes, e chorar junto dele. É a situação de quem ainda estava agindo na escuridão, sem reconhecer o novo dia que estava para nascer.

Com o aviso de Maria Madalena, também Pedro e o Discípulo Amado tomam a iniciativa de ir ao túmulo para conferir a veracidade da informação, uma vez que a palavra da mulher não era digna de credibilidade naquela sociedade: «Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo» (v. 3). Continuando, diz o texto que «Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo» (v. 4). A pressa do Discípulo Amado revela sua fidelidade, testada e comprovada aos pés da cruz (19,25-27), característica da pessoa amada. Somente quem fez uma autêntica e profunda experiência de amor com o Senhor é capaz de opor-se ao clima de morte reinante na comunidade, por isso, esse discípulo é anônimo; o evangelista não lhe dá um nome, mas apenas um adjetivo: amado.

Os personagens anônimos no Evangelho segundo João têm a função de paradigmas para a sua comunidade e os seus leitores de todos os tempos; assim, todo aquele que ler esse evangelho deve tornar-se um “discípulo amado” também. Ele, o Discípulo Amado chegou primeiro e comprovou que a informação da Madalena era verídica: «viu as faixas de linho no chão, mas não entrou» (v. 5). À pressa do Discípulo Amado opõe-se a lentidão e o desânimo de Pedro, após ter sido tão incoerente com o Mestre na fase final de sua vida: opôs-se a ele na ceia, no momento do lava-pés (Jo 13,6-8), e o negara durante o processo (Jo 18,15-27). A falta de motivação de Pedro foi, certamente, marcada pelo remorso da negação e outras incoerências, o que será transformado quando experimentar o Ressuscitado em sua vida.

O Discípulo Amado, embora tenha chegado primeiro, espera que Pedro também chegue e faça ele mesmo a sua experiência: «Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho no chão» (v. 6). Tendo entrado no túmulo, Pedro comprova a ausência do corpo de Jesus e, certamente, faz uma longa reflexão a respeito de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Embora a tradução litúrgica diga que ele “viu” as faixas de linho, o evangelista emprega um verbo de significado muito mais profundo do que um simples ver, o que seria mais adequado traduzir por “contemplar”. Com efeito, trata-se do verbo grego “theorêo” – θεωρέω –, do que deriva nossa palavra teoria, que é consequência de uma observação profunda, ou seja, de um olhar contemplativo, ruminante, processado na mente e no coração, antes de tornar-se uma ideia nova. Certamente, ao “teorizar” os sinais vistos no túmulo, Pedro fez memória do longo caminho até ali percorrido ao lado de Jesus, e tudo isso deve ter contribuído para o amadurecimento da sua futura fé ressignificada e fortalecida, sempre com a indispensável mediação da Escritura.  

Depois de Pedro, entra também o Discípulo Amado no túmulo. Tendo chegado primeiro, poderia ter entrado logo, mas preferiu esperar que Pedro chegasse e entrasse logo. Não se trata de uma preeminência de Pedro, como sugerem algumas interpretações, uma vez que na comunidade joanina ainda não havia espaço para hierarquia, como Jesus mesmo deixou claro no lava-pés; era na verdade uma questão de necessidade: quem, de fato, necessitava de uma experiência mais forte era Pedro, pois, depois de Judas, foi o discípulo que mais tinha fracassado até então, impondo sempre resistências aos propósitos de Jesus, além da negação durante o processo. Já o Discípulo Amado, por sua vez, tinha feito uma experiência autêntica com o Senhor durante toda a sua vida, por isso, «viu e acreditou» (v. 8), de imediato. Tendo se inclinado sobre o peito de Jesus durante a ceia, ele conhecia o bater do seu coração, por isso, não se deixou vencer pelos sinais de morte vistos dentro do túmulo, mas reforçou ali a sua fé. Com efeito, mais do que a crença em um evento extraordinário, a fé na ressurreição é consequência de uma relação de amor com o Ressuscitado, e o Discípulo Amado soube nutrir isso, amando e deixando-se amar.

Para Pedro, foi necessário um pouco mais de tempo, pelo menos algumas horas, para convencer-se de que o Senhor ressuscitou e vive (Jo 20,19ss). Mas, os sinais estão apontando para isso: interiormente, ele já estava “teorizando” sua fé, reconstruindo-a lentamente, uma vez que os acontecimentos do lava-pés ao julgamento de Jesus foram muito fortes e deixaram suas expectativas bastante comprometidas. Será o próprio Senhor Ressuscitado a ajudá-lo no processo de reconstrução da fé, posteriormente, com a tríplice pergunta: «Pedro, tu me amas?» (Jo 21,15-19). Sem amor, não há discipulado e, muito menos, experiência pascal. As percepções diferentes do sepulcro vazio por Maria, Pedro e o Discípulo Amado são sinais da diversidade que marca a comunidade cristã desde os seus primórdios. Os três viram o mesmo fenômeno, mas cada um reagiu à sua maneira: Maria com espanto e choro (Jo 20,11), Pedro com silêncio, e o Discípulo Amado com fé. Embora a dimensão comunitária da fé seja indispensável, as experiências de percepção e de reação diante do mistério são sempre pessoais e devem ser respeitadas.

É o conhecimento da Escritura que, gradativamente, vai habilitando a comunidade a crer na ressurreição (v. 9), pois é na Escritura que os planos de Deus são indicados e conhecidos. A fé de Pedro, de Maria Madalena e dos demais será reformulada aos poucos, a cada “primeiro dia” quando se reunirem para a comunhão fraterna, compreendendo a partilha do pão e a leitura da Escritura. A comunidade que não coloca a Escritura no centro da sua existência, tende a reproduzir a situação inicial desanimadora de Maria Madalena, pois sem a Escritura «não sabemos onde está o Senhor» (v. 2). A propósito de Maria Madalena, é necessário considerar o fato de todos os evangelistas mencionarem as mulheres como as primeiras personagens dos acontecimentos do “primeiro dia”; mesmo não acreditando em primeira hora, é a partir da visão e das palavras delas que a ressurreição vai se tornando realidade na vida da comunidade. Ora, se os evangelistas, e João em particular, pretendem apresentar uma nova criação, a gestação de um novo mundo e um novo tempo, é imprescindível que o papel da mulher seja evidenciado. Mulher é sinônimo de vida nova, pois ela é, por excelência, geradora de vida. Mesmo quando a vida nova não é gerada no ventre de uma mulher, como no caso extraordinário da ressurreição, mas é da intuição e da perspicácia de uma mulher (ou de várias, como nos evangelhos sinóticos) que brotam as razões para a constatação dessa nova vida. Se na antiga criação a mulher não passava de uma companheira para o homem, na nova criação ela assume um protagonismo ímpar: é a primeira a ver e a falar.

Além da compreensão da Escritura, é necessária a experiência do amor autêntico para a fé e o encontro com o Ressuscitado. O Discípulo Amado já tinha completado essas duas etapas, por isso, somente ele acreditou em primeira mão, pois foi capaz de ler os sinais do sepulcro aberto e o corpo ausente à luz do amor e das Escrituras. Só crê num primeiro momento quem ama e sente-se amado, como aquele Discípulo sem nome, ao qual o evangelista quer que todos os seus leitores se assemelhem! Assim, concluímos voltando para o nosso início: a ressurreição não pode ser descrita, pode apenas ser experimentada. Para isso, é necessário fazer a experiência do amor profundo e do conhecimento da Escritura. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, abril 03, 2026

REFLEXÃO PARA A VIGÍLIA PASCAL – Mt 28,1-10 (ANO A)



Enquanto o evangelho do domingo da ressurreição é sempre o mesmo – Jo 20,1-9 –, o da Vigília Pascal muda de acordo com o ciclo litúrgico vigente. A cada ano, a liturgia propõe a leitura de um dos relatos da ressurreição de Jesus a partir de um dos evangelhos sinóticos (Mt – Mc – Lc). Neste ano, por ocasião do ciclo A, temos a oportunidade de ler o relato de Mateus – Mt 28,1-10. Na verdade, mais do que relatos da ressurreição, os evangelhos trazem cenas que retratam a experiência das mulheres diante do sepulcro vazio na madrugada ou início da manhã do Domingo de Páscoa. A ressurreição em si, apesar de ser o evento fundante da fé cristã, não chega a ser narrada e nem descrita por nenhum dos evangelhos. De fato, nenhum evangelista conta como Jesus ressuscitou e deixou o sepulcro, nem o momento em que isso aconteceu. O que todos os evangelhos contam são apenas indícios, anúncios da ressurreição e experiências de encontro com a pessoa do ressuscitado. Nesse sentido, o Evangelho de Mateus se sobressai sobre os demais, pois contém a narrativa que mais se aproxima de um relato de ressurreição propriamente dito, pois é o que apresenta os indícios mais fortes, como veremos a seguir, em comparação com os outros evangelhos.

O relato lido nesta noite, obviamente, possui versão paralela nos outros dois sinóticos (Mc 16,1-8; Lc 24,1-8), e é por isso que se pode fazer comparações com eles. Possui certo paralelismo também com o relato de João (Jo 20,1-9), embora com menos pontos em comum. Os relatos parciais de ressurreição – em todos os evangelhos – fazem parte da seção narrativa que deu origem aos próprios evangelhos: as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao que tudo indica, foi a partir destas narrativas que os evangelhos ganharam corpo até se tornarem verdadeiros livros como aparecem em nossas Bíblias. Isso indica a importância que tais textos tiveram para as comunidades do cristianismo nascente. Trata-se, portanto, de textos fundantes. Posteriormente, cada evangelista, de acordo com as necessidades catequéticas e teológicas de suas respectivas comunidades, e suas próprias habilidades literárias, desenvolveram a história de Jesus, partindo de fontes orais e escritas, anteriores a eles. Mateus e Lucas, por exemplo, conseguiram reconstruir essa história da ressurreição até o nascimento. Porém, a pregação inicial se fundava no anúncio de que Jesus Cristo, o Messias e Filho de Deus, foi morto na cruz e ressuscitou. Por isso, a escrita dos evangelhos começou pelo final, ou seja, pelos relatos da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Iniciamos nosso olhar para o texto partindo do primeiro versículo, e nele já encontramos importantes particularidades do evangelista Mateus. Eis o início do texto: «Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro» (v. 1). Em todos os evangelhos, se diz que algumas mulheres se dirigiram ao sepulcro depois do sábado, logo ao amanhecer do primeiro dia da semana, que é o domingo. Ora, o sábado fora o último dia da antiga criação, e aqui o evangelista indica que há uma nova criação em curso. Neste primeiro dia da semana, um novo mundo e um novo tempo estão surgindo. É o começo de uma nova história. Na antiga criação, a obra de Deus no primeiro dia foi a luz (Gn 1,3-5). Na nova criação, continua sendo a luz, mas é a luz da ressurreição do seu Filho, é a vida plena, e as primeiras pessoas a contemplar essa luz nova foram as mulheres. Elas viram a vitória da luz sobre as trevas, logo ao «amanhecer do primeiro dia da semana». É nítido o contraste entre a atitude delas e a dos discípulos homens, que fugiram com medo, durante a paixão, logo após a prisão de Jesus (Mt 26,56). Portanto, as mulheres, também discípulas, que perseveraram e resistiram corajosamente ao drama da cruz, veem o romper das trevas, e não de modo passivo, mas com ativo protagonismo na história nascente. O evangelista cita apenas duas, mas como representantes de todas as discípulas e de todas as mulheres de todos os tempos.

A primeira diferença significativa entre o relato de Mateus e o dos outros evangelistas neste episódio é a finalidade da ida das mulheres ao sepulcro. Enquanto nos outros evangelhos se diz que elas foram para ungir o corpo de Jesus, levando perfumes e aromas, no Evangelho de Mateus se diz que elas foram ver o sepulcro. É um dado muito significativo, pois expressa mais afeto e atenção, e não o mero cumprimento de um preceito, como era típico dos judeus ungir os cadáveres. As mulheres não foram executar uma tarefa, simplesmente. Foram ver, contemplar, como já tinham feito no momento do sepultamento, e Mateus disse que elas se sentaram, diante do sepulcro, assistindo Jesus ser sepultado (Mt 27,61). Isso indica o afeto que elas tinham por Jesus; gostavam de estar perto dele, certamente, porque nunca tinham sido tão acolhidas, compreendidas e amadas por alguém como foram por ele. Sem dúvida, elas estavam com saudades dele, foram ver a tumba, chorar, refletir e repensar a vida após aqueles acontecimentos. Por sinal, o verbo empregado pelo evangelista indica mais do que ver, significa contemplação, um olhar reflexivo (verbo grego θεωρέω – theorêo); desse verbo deriva a palavra teoria, que significa literalmente a exposição sistemática de um argumento a partir da observação. Primeiro se observa, depois se fala a respeito. No caso da ressurreição de Jesus, primeiro se faz experiência com ele, depois se anuncia, como vai mostrar a sequência do texto.

No versículo seguinte, percebemos mais particularidades relevantes do relato de Mateus, que ressaltam ainda mais a importância das mulheres e seu respectivo testemunho: «De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela» (v. 2). Mateus foi o único evangelista que falou de um terremoto na hora da morte de Jesus, e agora no relato da ressurreição ele fala de um novo terremoto. Na linguagem apocalíptica empregada pelo evangelista, o terremoto é uma imagem que significa manifestação de Deus e transformação, evoca a passagem de um mundo velho para um mundo novo. O fim do mundo velho, marcado por injustiças, violência e hipocrisia, fora decretado na morte de Jesus, mediante a imagem do terremoto. A ressurreição marca o início do novo mundo, o começo de uma nova ordem, caracterizada pelo amor e seus derivados: paz, justiça, solidariedade, fraternidade, tolerância…. É o começo de uma nova história, de um mundo humanizado. Também isso ocasiona um tremor de terra, expresso pelo evangelista mediante o termo grego “seismós” (σεισμὸς), do qual originou-se a palavra sismo. Obviamente, trata-se de um símbolo empregado pelo evangelista. Com isso, ele enfatiza que o mundo não pode mais ser o mesmo depois da ressurreição de Jesus. Ressuscitando, Jesus inaugurou um novo mundo, uma nova história, com novos valores. Na nova história, a mulher tem vez e voz, enquanto síntese de todas as categorias de pessoas marginalizadas. Toda vez que a comunidade professa sua fé na ressurreição, portanto, ela renova o compromisso de empenhar-se na construção desse mundo novo.

A imagem do «anjo do Senhor» confirma que se trata de uma intervenção direta de Deus. O evangelista diz que o anjo «desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela». Nos outros evangelhos, quando as mulheres chegam ao sepulcro já encontram a pedra removida (Mc 16,4; Lc 24,2; Jo 20,1). Indiretamente, Mateus diz que as mulheres viram o anjo remover a pedra, apesar de também não descrever Jesus ressuscitando. Mas a diferença é considerável em relação aos demais. Após remover a pedra, o anjo se senta nela, uma imagem que significa o triunfo da vida sobre a morte. A pedra era o sinal de separação entre a vida e a morte. Essa separação é superada com a ressurreição de Jesus. Sentado na pedra, o anjo decreta que a morte foi vencida, a vida triunfou e o mundo novo começou. E as mulheres são as primeiras testemunhas dessa novidade. A descrição do aspecto do anjo confirma sua origem divina: a aparência luminosa – como um relâmpago – e as vestes brancas são imagem do mundo de Deus na linguagem bíblica, e são as mesmas características com as quais Jesus se revelou no momento da transfiguração (Mt 17,1-8; Mc 9,1-8; Lc 9,28-36). Aqui, funciona como uma confirmação para as mulheres e os leitores de todos os tempos.

A presença dos guardas também é outra exclusividade do Evangelho de Mateus. Como resultado de mais um acordo entre Pilatos e as autoridades religiosas, eles foram designados para vigiar o sepulcro, a fim de, posteriormente forjarem o boato do roubo do corpo de Jesus pelos seus discípulos (Mt 27,62-66). Tudo isso como fruto da ganância e do poder de quem não aceitava a mensagem libertadora de Jesus e quis silenciá-lo, embora sem sucesso, ao longo de todo o seu ministério. Impactados pelo medo da intervenção de Deus, os guardas ficaram como mortos (v. 4), por um momento, mas logo em seguida aceitarão o suborno das autoridades para negar a realidade da ressurreição e espalhar o boato do roubo do corpo de Jesus (Mt 28,11-15). A imagem dos guardas caídos como mortos contrasta com a do anjo sentado na pedra em sinal de triunfo. O contraste entre essas duas imagens ressalta a soberania de Deus e a vitória definitiva da vida. Com isso, evangelista reforça ainda mais a força da intervenção de Deus na história e a credibilidade do testemunho das mulheres, pois foram muitas as tentativas de desacreditar o anúncio da ressurreição de Jesus pelos mesmos poderosos que o tinham matado. Ao dizer que os guardas, enquanto representantes das forças de morte, «ficaram como mortos», o evangelista ressalta, paradoxalmente, o triunfo da vida: o projeto de morte foi derrotado, mesmo que insistam em negar a ressurreição, mediante o suborno.

Enquanto mensageiro de Deus, o anjo se dirige às mulheres, e começa encorajando-as, diante da novidade de todos estes acontecimentos: «Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado» (v. 5). O convite ao encorajamento, mediante o imperativo «não tenhais medo», é típico da comunicação de Deus com as pessoas escolhidas para desempenharem uma missão especial na história da salvação. Inclusive, nos relatos da anunciação do nascimento de Jesus, tanto a José quanto a Maria, o anjo disse a mesma coisa (Mt 1,20; Lc 1,30). Isso indica a importância do evento e da missão tratados aqui: a ressurreição de Jesus e o mandato das mulheres como primeiras mensageiras e apóstolas da ressurreição. O anjo sabia que as mulheres procuravam Jesus que foi crucificado. Ora, ninguém pode esquecer que Jesus foi crucificado. No anúncio do Ressuscitado não se pode omitir que ele foi crucificado. O Ressuscitado e o crucificado são a mesma pessoa: Jesus de Nazaré, o Messias e Filho de Deus. Recordar essa continuidade é essencial, pois representa a perenidade da sua mensagem libertadora e atualidade do seu jeito de viver como único paradigma para a comunidade. Tudo o que ele ensinou e viveu continua válido e sempre será. Inclusive, o Ressuscitado carregará as marcas da cruz, porque elas são provas de um amor infinito, mais do que lembranças de um acontecimento (Lc 24,39; Jo 20,27). A cruz de Jesus é um atestado de amor, por isso, a comunidade não pode esquecer que ele foi crucificado.

Finalmente, o anjo faz o grande anúncio: «Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava» (v. 6). Jesus ressuscitou! As mulheres são as primeiras a ouvir esse anúncio e, por consequência, serão as primeiras anunciadoras. A referência ao que ele «havia dito» é uma alusão aos três anúncios da paixão, que visavam preparar os seus seguidores, homens e mulheres, para a realidade da paixão e ressurreição (Mt 16,21; 17, 22; 20,17-19). O convite para as mulheres olharem o lugar que em que ele estava é, mais do que uma prova da ressurreição em si, uma demonstração do fracasso dos projetos de morte que os poderosos investiram contra a ele. O complô medíocre entre o sinédrio e o poder romano fracassou. Jesus ressuscitou e, por isso, a vida venceu, o amor triunfou. Diante disso, as mulheres recebem uma importante missão, confiada inicialmente pelo anjo: «Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galiléia. Lá o vereis. É o que tenho a dizer-vos» (v. 7). Temos aqui um verdadeiro mandato apostólico, missionário. As mulheres são as primeiras a receber a ordem “Ide anunciar”! E devem anunciar com pressa, com agilidade, o que reforça ainda mais a importância deste primeiro anúncio. Ora, ao fugir com medo, após a prisão de Jesus (Mt 26,56), os discípulos se dispersaram, obviamente. O anúncio das mulheres, portanto, tem a função também de reconstituir a comunidade que tinha ficado dispersa e fragmentada. A comunidade vai se recompor a partir do anúncio das mulheres, e não será uma tarefa fácil, pois o testemunho de mulheres não era válido nem aceito nas sociedades patriarcais como Israel. Aceitar o testemunho das mulheres era uma atitude subversiva, e mais subversivo ainda era delegá-las como testemunhas. Isso mostra o quanto Jesus e seu Deus, que é Pai, são surpreendentes! Para anunciar a mais bela das notícias ele escolhe as mensageiras menos credíveis, conforme a mentalidade da época. É a subversão do Evangelho rompendo barreiras com todo o vigor!

Mesmo sabendo que corriam o risco de não ser acreditadas, «as mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos» (v. 8). A pressa, num caso como esse, é uma necessidade. Era necessário o quanto antes encontrar os discípulos dispersos e transmitir essa notícia maravilhosa. O medo, numa situação dessa, também é compreensível. Elas tiveram medo, mas não ficaram paralisadas, e isso faz a diferença. Ainda mais porque dosaram o medo com alegria. O anúncio cristão tem de ser alegre, mesmo que as situações da vida provoquem medo, às vezes. Certamente, a missão destas mulheres foi a mais difícil de toda a história do cristianismo. o fato de serem mulheres já constituía a primeira dificuldade, depois por ser o primeiro anúncio da ressurreição, um dos aspectos mais difíceis de aceitação na doutrina cristã, em todos os tempos. Porém, a submissão das mulheres fazia parte do mundo velho, que acabou com o terremoto na hora da morte de Jesus. No mundo novo, inaugurado com a ressurreição, todos são iguais, não há espaço para discriminação ou preconceito de nenhum tipo; quem não tinha voz passa a ter, e a designação das mulheres como primeiras anunciadoras demonstra isso. Enquanto primeiras missionárias de Jesus Cristo, elas são a prova mais concreta de que um mundo novo surgiu, ratificando a mensagem do Evangelho, desde o início.

Enquanto iam com pressa, seguindo à risca o mandato conferido pelo anjo, «de repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: “Alegrai-vos!”. As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés» (v. 9). Aqui, novamente, Mateus se sobressai em relação aos demais evangelhos, pois é no seu relato que as mulheres fazem mais cedo a experiência do encontro com o Ressuscitado. E elas reconhecem Jesus imediatamente. Os discípulos homens serão mais lentos também em reconhecer e acreditar, quando Jesus se manifestar a eles, na Galileia (Mt 28,17). Essa manifestação tão cedo às mulheres indica que elas estavam no caminho certo e que Jesus está sempre presente na vida e no caminho de quem segue a sua mensagem. Funciona como uma espécie de confirmação. O evangelista diz que Jesus «foi ao encontro delas». Perceber isso é importante, pois significa que a iniciativa é dele; é ele quem deseja primeiro caminhar com conosco. Ele foi, vai e vem sempre ao encontro da humanidade. As mulheres se aproximaram e se prostraram, em adoração. A atitude delas aqui é a mesma dos magos, quando encontraram Jesus recém-nascido e logo o reconheceram como o rei dos judeus (Mt 2,11). Ao se prostrarem em adoração (verbo grego: προσεκύνησαν – prossekunêssan), as mulheres mostram plena convicção na ressurreição de Jesus e total adesão ao seu anúncio. Elas já tinham acreditado no anjo, pois saíram com pressa conforme ele tinha ordenado; o reconhecerem Jesus imediatamente, elas confirmam a veracidade do anúncio do anjo e renovam as convicções da fé e do sentido da vida, tudo agora ressignificado pela ressurreição. Certamente, após o encontro com o Ressuscitado elas ficaram ainda mais entusiasmadas com tudo o que estava acontecendo e isso deve ter repercutido na qualidade do anúncio.

As palavras de Jesus às mulheres praticamente ratificam o que o anjo já tinha anunciado: «Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”» (v. 10). As primeiras palavras de Jesus são também um convite à coragem. De fato, elas precisavam, pois sabiam que encontrariam resistência no anúncio. Quem ainda não tinha aderido ao mundo novo que estava surgindo, certamente, resistiria ao anúncio delas. Por isso, Jesus as encoraja e repete o mandato: «Ide anunciar!». E os primeiros destinatários do anúncio da ressurreição feito pelas mulheres são os discípulos homens, a quem Jesus chama de irmãos, mostrando que não desiste do ser humano. Isso também indica o seu projeto de fraternidade para a comunidade cristã. De fato, a fraternidade é um projeto de vida que deve nortear o mundo novo inaugurado pela ressurreição de Jesus. Confessar que ele ressuscitou e celebrar sua ressurreição implica compromisso e disposição de viver em fraternidade. Podemos dizer, portanto, que a fraternidade está entre os primeiros frutos da ressurreição, pois é condição para a participação no Reino de Deus, que corresponde ao mundo novo inaugurado pela ressurreição. Jesus especifica às mulheres a natureza do anúncio primordial aos discípulos: dirigir-se à Galileia, para lá se encontrarem com ele. O retorno à Galileia significa o reencontro com os fundamentos da vocação e da missão, sobretudo para os discípulos que se dispersaram. Eles precisavam se reencontrar com Jesus e se reencantarem com o seu Evangelho. Precisavam recomeçar, por isso, era necessário um encontro na Galileia, onde tudo começou. A Galileia como lugar de encontro com o ressuscitado significa também uma denúncia à Jerusalém, sede do poder e, por isso, lugar de morte, na perspectiva de Mateus.

Que a Páscoa imprima em nós o desejo de participar do mundo novo oferecido pela ressurreição de Jesus e renove nosso compromisso de lutar pela edificação do seu Reino vivendo a fraternidade, a justiça e o amor. No mundo novo, os últimos se tornam primeiros, como se vê pelo protagonismo das mulheres no primeiro anúncio. A vida venceu. Que possamos manifestar essa vitória vivendo à maneira de Jesus, o crucificado que ressuscitou e, por isso, não está mais no sepulcro. Ele quer estar na vida de cada pessoa, humanizando e libertando. Que nossas comunidades sejam pequenas Galileias, para onde possamos retornar quantas vezes for necessário para nos reencontrarmos com ele e recomeçarmos.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

quarta-feira, abril 01, 2026

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA, NA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15



Todos os anos, para a missa vespertina da Quinta-feira Santa, a liturgia propõe a leitura de Jo 13,1-15. Esse texto corresponde ao relato do lava-pés, um episódio exclusivo do Evangelho segundo João e, sem dúvidas, uma das passagens mais emblemáticas de todo o Novo Testamento. Trata-se de uma passagem altamente rica em significado teológico e arte narrativa, e tudo isso contribuiu bastante para a alta popularidade que possui. De fato, desde os primeiros séculos, esse texto tem marcado a história do cristianismo, inclusive, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um episódio profundamente comprometedor para os cristãos de todos os tempos, pois mostra que, no momento mais decisivo da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; a religião dos seguidores de Jesus, portanto, não pode ignorar esse fato. E tanto a localização quanto o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: conforme a divisão clássica do Quarto Evangelho em duas grandes partes – “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21) –, o relato do lava-pés inaugura o “Livro da Glória”, introduzindo a narrativa da paixão de Jesus.

A modo de introdução, apresentamos uma breve contextualização para, em seguida, voltarmos a atenção diretamente para o texto. A princípio, podemos dizer que chega a causar espanto a diferença entre a obra de João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mt, Mc e Lc), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica cinco capítulos inteiros: de 13 a 17, totalizando 155 versículos. Ao longo deste amplo material narrativo, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, em forma de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. É importante recordar que no Evangelho de João não há qualquer aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais evangelhos; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia feito em outra ocasião, precisamente após o sinal da “multiplicação dos pães” (6,1-15). Naquela ocasião, o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se autoapresentando como o “pão da vida” (6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal altamente relevante: «Antes da festa da Páscoa» (v. 1a). O evangelista não nega o contexto pascal no qual Jesus fez a ceia com seus discípulos pela última vez, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. Inclusive, desde muito cedo, o evangelista costumava referir-se à festa da Páscoa com a qualificação de “páscoa dos judeus” (2,13; 11,55), distanciando Jesus das instituições de Israel que tinham desfigurado o rosto de Deus. Agora, ele apresenta Jesus próximo da Páscoa, mas da sua própria Páscoa, tornando-a uma festa da vida, como sempre deveria ter sido. Por isso, Jesus celebra a Páscoa doando a sua própria vida, uma vez que é ele o verdadeiro Cordeiro de Deus, imolado por amor. A Páscoa de Jesus, portanto, não exige ofertas nem sacrifícios, não é instrumento de exploração como tinha se tornado o aparato ritual do templo. Celebrando sua Páscoa antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois da sua pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, já não tem mais sentido. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na Páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor. Nessa, não há morte, há vida, e vida doada por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova Páscoa, profundamente subversiva, por sinal. E é essa Páscoa que a comunidade cristã deve viver e celebrar sempre.

Ao longo de todo o seu Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à «hora de Jesus», anunciando que tudo o que Jesus fazia era preparação para esse momento, e sempre advertia o leitor que ainda não tinha chegado a hora (2,4; 7,30; 8,20; 12,23). De agora em diante, tanto o narrador quanto o próprio Jesus anunciam a chegada dessa hora. Mais do que um dado cronológico, a hora de Jesus é um indicativo teológico, por sinal, um dos mais significativos na obra de João. Essa hora é o cumprimento de todo o projeto de salvação oferecido por Deus, por meio de seu Filho, consumado na cruz e ressurreição. Finalmente, ele mostra que essa hora chegou: «sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai» (v. 1b). É a hora de Jesus retornar ao Pai, após cumprir plenamente sua missão de humanizar e salvar o mundo, por isso é também a consumação da constante glorificação do Pai que ele realizou, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, transformado em casa de comércio (Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço. A falta desse amor como motivação para o agir torna vazia qualquer prática cultual e devocional.

Continuando, diz o evangelista que «Estavam tomando a ceia» (v. 2a). A ceia para a mentalidade bíblica não representa apenas o consumo de alimentos e bebidas para matar a fome e a sede, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal. Com efeito, a ceia é o momento primordial da vivência do amor-comunhão; é o ápice da convivência humana sadia, fraterna. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; o rito é a própria vida, são tratadas as questões existenciais mais profundas da comunidade, por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da entrega de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos outros nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles «amados até o fim»; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante. O evangelista é enfático nesse sentido: «o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus» (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da entrega da parte de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam, já tinham feito várias tentativas de capturá-lo e até de apedrejá-lo; daquela Páscoa ele não passaria. O mal de Judas, portanto, foi ter sido aliado, se tornado cúmplice do poder que gera a morte e, ainda mais, por ter se deixado mover por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o «diabo seja posto em seu coração». O conluio com o poder é sempre um pacto diabólico. A história mostra que Judas não foi um caso isolado no cristianismo, infelizmente.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus é concretamente demonstrada quando ele «levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura» (v. 4). Certamente, foram grandes o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo explicitamente a condição de servo, de escravo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado e uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço deve sempre prevalecer sobre o rito. Em toda a sua vida, Jesus demonstrou que veio ao mundo para servir e, ao servir, ele glorificava o Pai, pois a motivação do seu serviço foi sempre o amor, e o Pai o enviou para espalhar amor sobre o mundo. Mas é nessa cena que o serviço amoroso se torna mais forte e até escandaloso, como será demonstrado pela reação de Pedro, mais adiante.

Tendo já deposto o manto e improvisado um avental, na sequência, o texto diz o que Jesus fez: «Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido» (v. 5). Assim como os leitores de hoje ainda ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais devem ter ficado os discípulos que estavam com Jesus à mesa. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica da época. Ora, lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, principalmente nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, as pessoas se sentavam em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era, acima de tudo, uma exigência básica de higiene.

Sendo uma necessidade básica, o lava-pés tornou-se um sinal de hospitalidade e acolhida, no antigo oriente. Ao receber uma visita, o dono da casa lhe oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés, junto ao copo d’água para beber. Nisso estava o grande sinal de hospitalidade, tão característico do antigo oriente, sobretudo nas culturas semitas. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: é o sujeito da ação o que causa perplexidade. No cotidiano, eram os escravos quem lavavam os pés dos membros da família e dos possíveis hóspedes. Em certas ocasiões, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa chegava a lavar os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia a dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores e as relações: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo – ou do discípulo. Com esse gesto, portanto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos seus discípulos, de outrora e de todos os tempos, que eles devem estar sempre dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia a dia, inclusive nas consideradas mais humilhantes, como lavar os pés uns dos outros.

É claro que houve reação dos discípulos diante da atitude tão revolucionária de Jesus. E o primeiro a protestar, como de costume, foi Simão Pedro: «Tu nunca me lavarás os pés» (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel” e um Messias glorioso, deve mesmo ter sido chocante, decepcionante, deparar-se com um que se faz escravo, servo de todos. Por isso, o espanto e o protesto de Pedro. Ora, o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também as possibilidades de resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes; essa mentalidade acaba naturalizando um mundo desigual, contrário aos desígnios de Deus. Jesus, com suas palavras e gestos, quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lavar os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: «Jesus respondeu: “Se eu não te lavar não terás parte comigo”» (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se tornar servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Sem essa disposição, não há possibilidade de se ter parte com ele! Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: «Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça» (v. 9). O exagero da resposta de Pedro revela a sua total incompreensão. Na verdade, com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta revolucionária de Jesus: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter de servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, Pedro estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com toda a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu ensinamento em forma de gesto: «Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo» (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Logo, para a mentalidade da época, sentar-se à mesa e, ao mesmo tempo, servir constituíam papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se à mesa, e quem sentava não deveria humilhar-se servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que se senta à mesa serve, e o que serve senta-se à mesa. O que era papel do escravo – lavar os pés – , é agora dever também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais exigentes, como dar a própria vida por amor. E Jesus realizou as duas coisas como prova que ele não media esforços para cumprir a sua missão e atender às necessidades das pessoas. Com o lava-pés, portanto, Jesus fez uma recapitulação de toda a sua existência neste mundo. Ele veio para servir e, por isso, viveu intensamente servindo.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos todos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos e dos sacerdotes do templo, que fossem eles, os discípulos do Messias, a controlar a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, cobrança de impostos, divisões de classe e uso da violência quando a “ordem” estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu entre os discípulos. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu próprio exemplo: «portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (vv. 14-15). Temos aqui a instituição do serviço como mandamento para a comunidade de Jesus.

A ordem para que os discípulos «façam a mesma coisa» em relação ao serviço, aqui no Quarto Evangelho, equivale ao «fazei isto em memória de mim» da tradição paulina/sinótica sobre a Eucaristia (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). «Fazer a mesma coisa» que fez Jesus, obviamente, não significa repetir o gesto de lavar os pés uns dos outros, o que já não é uma exigência sanitária dos dias atuais; significa a disponibilidade total para o serviço incondicional, motivado pelo amor, na comunidade cristã. A simples repetição do gesto seria transformá-lo em um rito a mais. O lava-pés que a comunidade deve fazer permanentemente é a vivência do amor fraterno que traz, como consequência, a disponibilidade para o serviço gratuito e sem distinção. Para isso, é necessário assimilar o estilo de vida de Jesus, com disposição para «amar até o fim», como ele fez. Sem isso, qualquer coisa que se faça em sua memória não passa de encenação.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, março 28, 2026

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – Mt 26,14–27,66 (ANO A)

 


Com a liturgia do Domingo de Ramos, a Igreja abre solenemente a Semana Santa, recordando a entrada decisiva de Jesus na cidade santa de Jerusalém e os últimos momentos da sua vida terrena, ao fazer memória da sua paixão e morte na cruz. Por isso, nesta celebração são lidas duas passagens do Evangelho, compreendidas como reciprocamente complementares. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, as duas passagens são tiradas do Evangelho de Mateus: 21,1-11 e 26,14–27,66. Apesar da considerável distância entre elas, ambas estão intrinsecamente relacionadas, tanto por afinidade quanto por contraste, afinal, aquele que morre na cruz, praticamente abandonado por todos, é o mesmo que foi euforicamente aclamado rei, ao entrar na cidade. Isso torna a liturgia deste domingo, como é a de toda a Semana Santa, altamente paradoxal. Por questão de espaço e relevância, concentraremos nossa reflexão apenas no relato da paixão, o qual é bastante longo, totalizando 128 versículos, embora as comunidades tenham a opção de escolher uma forma mais abreviada – Mt 27,11-54. Em nossa reflexão, consideraremos o texto completo, embora sua longa extensão não permita um comentário mais pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos colher o sentido global do texto, destacando alguns elementos específicos considerados mais relevantes, destacando alguns detalhes que pertencem exclusivamente ao relato de Mateus, partindo de uma ampla introdução contextualizadora.

Os relatos da paixão de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos Evangelhos. Foi a partir destes relatos que os Evangelhos surgiram enquanto livros. Um famoso teólogo alemão – Martin Kähler (1835-1912) – chegou a afirmar que «os Evangelhos são os relatos da paixão com ampla introdução». É claro que uma afirmação desse tipo possui exageros, mas ajuda a compreender e ilustrar a importância dos relatos da paixão no processo de formação dos Evangelhos e, sobretudo, no fortalecimento da fé das primeiras comunidades cristãs. Ora, como a catequese e a vida litúrgica das comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito, à medida em que as explicações iam-se tornando repetitivas e, consequentemente, insuficientes. Essas dúvidas se traduziam em perguntas como estas: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só pode ressuscitar quem antes passa pela morte. Diante disso, surgiu a necessidade de contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto das lideranças religiosas do judaísmo, a morte se tornava cada vez mais presente na vida das comunidades, não apenas enquanto tema, mas enquanto realidade e possibilidade concreta, pois o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passavam a ser sinal de perigo. Quando se fala do nome de Jesus, no contexto das primeiras comunidades, compreende-se todo o seu projeto de vida e libertação, ou seja, a sua mensagem. Diante disso, para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. E, para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e a sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso e, consequentemente, uma incômoda ameaça aos grupos privilegiados do seu tempo. Logo, seu desfecho final foi o rechaço por parte desses sistemas. Durante a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não priorizavam: o amor gratuito e incondicional ao próximo, a justiça, a gratuidade nas relações, o perdão ilimitado, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida aos excluídos e marginalizados, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação e nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estavam todas voltadas para o Pai do céu, tendo em vista a edificação do seu Reino na terra.

O relato é situado em Jerusalém, onde Jesus já se encontrava com seus discípulos para a celebração da Páscoa, a festa dos judeus por excelência. Ao entrar em Jerusalém, ele foi acolhido triunfantemente como o profeta de Nazaré da Galileia (Mt 21,1-11). Ali, desenvolveu o seu ministério por alguns dias em meio a tensões e conflitos com os comerciantes do templo (Mt 21,12-14) com os grupos e autoridades religiosas, especialmente os fariseus, saduceus, sacerdotes e escribas (Mt 21,23-27,45; 22,23-33; 23,13-36). Toda essa sequência de conflitos serviu como preparação para o confronto final, o que se tornava cada vez mais inevitável, devido à coragem de Jesus em não resistir, mas enfrentar às investidas sem hesitação. Foi, portanto, na cidade santa que Jesus foi condenado, o que não lhe surpreendera, pois ele mesmo já tinha alertado antes, em forma de lamento: «Jerusalém, Jerusalém, que matas profetas e apedrejas os que te são enviados» (Mt 23,37a). Sendo ele mais do que profeta, o enviado por excelência, seria inevitavelmente morto, caso se mantivesse fiel àquele que lhe enviou: o Pai. Inclusive, ele já tinha prevenido os seus discípulos com os três anúncios da paixão, que seria condenado e morto em Jerusalém, pelos sumos sacerdotes e escribas (Mt 16,21; 17,22-23; 20,17-19). Diante de tudo isso, ficava cada vez mais claro que a morte trágica de Jesus foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.

Ainda durante o seu ministério na Galiléia, houve muitos conflitos doutrinais com os fariseus e outros movimentos religiosos de então, inclusive, com seus próprios discípulos, sempre relutantes em compreender e aceitar sua mensagem e seu estilo de vida; mas é em Jerusalém que as disputas passam do campo doutrinal para a esfera do poder. A Páscoa, como sabemos, é a festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual se comia o cordeiro imolado, símbolo principal da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos, Jesus mesmo se apresenta como o cordeiro, doando a sua existência (Mt 26,26-30). Como um relato edificante para a comunidade, a narrativa da paixão serve de advertência e denúncia, não apenas às autoridades que executaram Jesus, mas também às incoerências internas da comunidade. Por isso, recordamos um dado bastante negativo que, certamente, levou a comunidade do evangelista a refletir e ponderar quando sofria perseguição, que é a dispersão e abandono dos discípulos no momento da sua prisão: «Então, todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram» (Mt 26,56). Os discípulos ficaram com medo e sentiram-se frustrados, ao perceber que o projeto de Jesus não correspondia às suas expectativas. São os mesmos que, no início do Evangelho, tinham deixado tudo para segui-lo: barco, família, redes e até coletoria de impostos (Mt 4,20.22; 9,9). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Isso constitui uma séria advertência à comunidade e, ao mesmo tempo, um consolo: deve haver resistência e força para não desistir, mas sendo composta de seres humanos, a comunidade será sempre passível de medos e incoerências.

O duplo julgamento de Jesus, um religioso e outro político, ou seja, diante do sinédrio (26,57-68) e de Pilatos (27,11-26), mostra a covardia e a hipocrisia da união das forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável. Aqui, é importante recordar um detalhe: como a comunidade de Mateus vivia mais tensões com o judaísmo do que qualquer outra, ele enfatiza mais a culpa do sinédrio do que a do poder romano. Um dado do texto que enfatiza isso é o fato de ser somente o seu evangelho a mencionar Pilatos lavando as mãos, querendo, com isso, isentar-se de culpa pela condenação de Jesus (27,24).

A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus (27,26.35). Em plena Páscoa, sua festa máxima, a religião oficial não hesita em ser conivente com a condenação de um inocente e justo. Os líderes religiosos, mais do que nunca, colocaram a Lei e a doutrina acima da vida, como muitos movimentos ditos cristãos continuam fazendo, assemelhando-se mais à religião que matou Jesus do que propriamente à religião que ele viveu. Não obstante tanto sofrimento, ele manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo a sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não abriu mão de suas convicções (27,46-48). Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido, por isso, perseverou, revelando ao mundo um amor ilimitado, fruto de sua íntima comunhão com o Pai.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz, ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade: «Ele era mesmo o mesmo Filho de Deus!» (27,54). Essa é uma das afirmações mais profundas do texto, do Evangelho e de todo o Novo Testamento. Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas daqueles que executaram a pena: o oficial e os soldados. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, puderam conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado. Morrendo como homem condenado e humilhado ao extremo, Jesus revela sua identidade divina.

O reconhecimento do oficial e dos soldados é mencionado logo após o evangelista dizer que «a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se abriram» (27,51). O rasgar-se do véu do santuário é um dado comum aos três sinóticos (Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 23,45); já o sucessivo terremoto, cuja descrição continua nos versículos seguintes (Mt 27,51-53), é exclusividade de Mateus. Esse dado simbólico significa a falência completa da religião e do sistema político que tinha acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo: somente os sacerdotes podiam ultrapassar a divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e pratica a Lei. A imagem do terremoto, exclusiva de Mateus, simboliza a instauração de uma nova ordem no mundo; significa a renovação completa da humanidade, compreendendo a destruição das antigas estruturas e o surgimento de um mundo novo, fundado no amor de Deus revelado por Jesus, fonte de libertação e humanização. Obviamente, a instauração do mundo novo, com uma nova ordem, implica a destruição do mundo antigo. Por isso, a imagem do terremoto é tão frequente na linguagem apocalíptica; evoca destruição, sim, mas comporta muita esperança, pois tudo o que é destruído dá lugar a realidades novas, com um mundo renovado e humanizado pelo amor.

Não poderia passar despercebida a presença das mulheres, uma das categorias sociais que recebeu mais atenção de Jesus ao longo de todo o seu ministério. Elas são apresentadas neste relato como as testemunhas mais fiéis e perseverantes (27,55-56). Por causa disso, serão também as primeiras testemunhas da ressurreição. O exemplo das mulheres contrasta completamente com o exemplo dos discípulos homens: eles abandonaram Jesus e fugiram logo após a prisão (26,56). Por sinal, os últimos discípulos homens mencionados neste relato, até aqui, foram Pedro e Judas, mas como contraexemplo: Pedro pelas negações, saiu de cena chorando (26,69-75); Judas, pelo remorso da traição, terminou se enforcando (26,3-5). As mulheres, que também eram discípulas, com igual dignidade, perseveraram até o fim. É importante ressaltar a condição de discípulas: desde a Galiléia, elas seguiam Jesus (27,55). A presença perseverante delas na paixão é mencionada em todos os evangelhos, mas, entre os sinóticos, Mateus é único evangelista que recorda algumas delas por nome, dentre elas Maria Madalena. Recordar pelo nome é sinal de importância, quer dizer que elas não eram meras figurantes no discipulado de Jesus, mas eram protagonistas também. Os nomes das que foram recordadas simbolizam a totalidade delas, de ontem e de hoje. A presença das mulheres na paixão indica perseverança, fidelidade e também reconhecimento por tudo o que Jesus tinha feito por elas. Ora, até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovendo a emancipação delas e as aceitado como discípulas em seu movimento. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimateia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois o sinédrio tinha sido o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Aqui, recordamos mais um dado exclusivo de Mateus, o único evangelista que diz que José de Arimateia se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57). Isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo grupo ou movimento ao qual pertence. E o papel de José de Arimatéia é muito importante. Ele alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (27,57-61), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto. O gesto de José de Arimatéia é tão importante que vai repercutir na ressurreição: o sepulcro aberto será reconhecido como o primeiro sinal pascal.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Celebrar o Domingo de Ramos, portanto, é declarar-se da parte de Jesus, assimilando a sua vida e suas posições com a própria vida. É reconhecer o seu amor como único caminho de humanização do mundo, com disposição para assumir as consequências que essa opção implica. 

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Jo 20,1-9

A liturgia do Domingo da Páscoa mantém o mesmo evangelho para todos os anos, ao contrário da liturgia da Vigília Pascal, na qual alternam-...