sexta-feira, março 13, 2026

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 9,1-41 (ANO A)



Na liturgia deste quarto domingo da Quaresma, continuamos a sequência da leitura de textos do Quarto Evangelho, iniciada no domingo passado com o episódio do encontro de Jesus com a mulher Samaritana. Para este dia, é proposta a leitura do relato da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41), um episódio exclusivo do Evangelho de João. Trata-se de um texto bastante rico em teologia e arte literária, o qual reflete um verdadeiro caminho catecumenal. Convém recordar que os evangelhos sinóticos também apresentam relatos de cura de cegos (Mt 12,22-23; Mc 8,22-26; 10,46-52; Lc 18,35-43), mas em nenhum deles há um relato tão rico em detalhes como este de João, e isso o torna único. Devido à longa extensão do texto – quarenta e um versículos – não comentaremos versículo por versículo, mas procuraremos colher a mensagem central e enfatizar alguns aspectos e trechos mais importantes.

Antes de adentrarmos diretamente no conteúdo do texto, é importante fazer uma breve contextualização. O cenário do relato é a cidade de Jerusalém. Ora, Jesus tinha ido à “cidade santa” para a festa das tendas (Jo 7,1-2.14), uma das três grandes festas de peregrinação dos judeus, juntamente com a Páscoa e Pentecostes; foi com receio, certamente, uma vez que já estava “jurado de morte” (Jo 7,1) pelas autoridades judaicas, devido à fama que se tinha propagado em decorrência de sua mensagem e também por causa dos sinais que estava cumprindo e, sobretudo, pela ousadia dos seus gestos proféticos. Por falar em sinais, a cura do cego de nascença, relatada no evangelho de hoje, é o sexto dos sete sinais que Jesus realiza conforme a dinâmica do Quarto Evangelho, a saber: 1) a mudança da água em vinho – Jo 2,1-12; 2) a cura do funcionário real – Jo 4,46-54; 3) a cura do enfermo (paralítico) de Betesda – Jo 5,1-18; 4) a multiplicação dos pães – Jo 6,1-15; 5) a caminhada sobre o mar – Jo 6,16-21; 6) a cura do cego de nascença – Jo 9,1-41; 7) a ressurreição de Lázaro (reanimação) – Jo 11,1-44. Por sinal, esse último será lido na liturgia do próximo domingo.

Ao realizar os sinais, Jesus manifestava a glória de Deus, ganhava adesão ao seu projeto e confirmava ser o Cristo, o Filho de Deus (Jo 2,1; 21,30-31). Com isso, o poder religioso passava a vê-lo cada vez mais como uma ameaça e, por isso, queria eliminá-lo a todo o custo. Ora, por meio de seus sinais, Jesus mostrava que Deus não se deixa manipular pela instituição religiosa, qualquer que seja ela. De fato, Deus é maior que qualquer instituição. Ao mostrar isso, as autoridades religiosas viam desmoronar seus poderes e privilégios. Diante disso, queriam eliminar Jesus porque ele era uma pessoa perigosa para o sistema. Durante a festa das tendas, Ele tinha passado dos limites ao se autoproclamar a “luz do mundo” (Jo 8,12) e o “Filho eterno do Pai” (8,54-58). Por essa sua ousadia, as autoridades religiosas o consideraram “um samaritano e endemoniado” (Jo 8,48) e, por isso, queriam apedrejá-lo. É, portanto, recordando o último versículo do capítulo anterior que devemos ler o texto de hoje: «Eles pegaram, então, pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do templo» (Jo 8,59).

Uma vez contextualizados, voltemos a atenção para o texto de hoje, o qual começa com a seguinte afirmação: «Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença» (v. 1). Mesmo apressado, pois estava fugindo da tentativa de assassinato, como recordado acima, Jesus vê a necessidade do outro e age com solidariedade e compaixão. Ele não fica indiferente a nenhuma situação em que uma pessoa humana não esteja vivendo com dignidade. Por onde passa, ele vê, não importam as circunstâncias. Nada e nem ninguém é indiferente ao seu olhar, pois sua missão humanizante tinha primazia sobre tudo. É importante recordar que, conforme a mentalidade da época, todo o tipo de doença e deficiência era sinal de maldição e castigo, pois tudo isso era considerado consequência do pecado, ou da pessoa mesma ou dos antepassados. Acreditava-se também que uma criança pudesse pecar ainda no ventre materno. Inclusive, os próprios discípulos de Jesus comungavam dessa mentalidade, como se vê pela pergunta que fazem a Jesus sobre a situação do cego que Jesus acabou de ver: «Os discípulos perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?”» (v. 2). A cegueira se destacava entre todas as deficiências, pois impedia que a pessoa pudesse estudar e conhecer a Lei. Por isso, teologicamente, a cegueira era pior até mesmo do que a lepra, para o judaísmo da época. Ora, o leproso devia isolar-se completamente da sociedade, mas devido às aparências e a exposição das feridas; porém, um leproso poderia ter conhecido a Lei antes de contrair a lepra; já um cego de nascença, não. Como o homem visto por Jesus era cego de nascença, significa que ele nunca tinha tido contato com a Lei, portanto, era considerado condenado desde o nascimento. Nessa situação, uma pessoa não convivia nem vivia de fato, mas apenas vegetava, mesmo não sendo necessário o isolamento do convívio social, por não ter feridas expostas, como os leprosos.

É claro que Jesus não concordava com a mentalidade vigente, sustentada pela religião. Por isso, imediatamente corrige seus discípulos: «Nem ele nem seus pais pecaram» (v. 3a). Nenhuma doença, enfermidade ou deficiência tem a ver com o pecado! E ele expressa a sua pressa em sanar a situação de marginalização vivida pelo homem cego (vv. 3-4). A cegueira não é vontade de Deus e nem punição a possíveis pecados cometidos. Também não é condição para que a glória de Deus se manifeste, como poderia ser equivocada interpretada a segunda parte do v. 3: «isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele». Jesus não está dizendo que Deus quis que aquele homem nascesse cego para, depois de tantos anos, realizar um milagre e assim mostrar o seu poder. Pensar assim não corresponde ao coração de Deus. O que Jesus revela é algo muito mais profundo: mesmo diante do sofrimento e das limitações humanas, Deus continua agindo. A cegueira daquele homem não veio de um castigo, mas tornou-se ocasião para que a obra de Deus se manifestasse em sua vida. Quando Jesus lhe devolve a vista, não lhe dá apenas a visão dos olhos; conduz aquele homem a reconhecer a glória de Deus presente nele.

E, ao verem esse sinal, também outros são convidados a abrir os olhos e a reconhecer em Cristo a verdadeira luz do mundo. No entanto, onde a vida é escassa, quer dizer, onde a criação não encontrou sua plenitude, há espaço para que a glória de Deus se manifeste, completando a obra. Para isso, é necessário que toda a comunidade participe, juntando forças. Por isso, Jesus compartilha com os discípulos a sua responsabilidade de trabalhar para realizar as obras do Pai que o enviou (v. 4), aprimorando a criação. E isso deve ser feito com urgência, ou seja, «enquanto é dia» (v. 4). Considerando que seus dias estavam praticamente contados, depois de tantas ameaças, já não havia mais tempo a perder. A «chegada da noite» (v. 4) significa a sua morte que se tornava cada vez mais próxima. Ora, quando está em questão a liberdade e a dignidade do ser humano, os discípulos de Jesus devem agir com pressa, como Ele próprio agia, mesmo tendo de contrariar códigos e regras morais, sejam civis ou religiosas.

Destaca-se neste episódio, especialmente, a bondade e a compaixão de Jesus: o cego não pede nada, não lhe faz nenhuma súplica, ao contrário de outras curas em que as pessoas necessitadas lhe pedem que as cure. Para João, o olhar de Jesus já é suficiente para perceber a necessidade do outro, sentir compaixão e intervir, como faz aqui: «Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego, e disse-lhe: “Vai lavar-te na piscina de Siloé’”(que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando» (vv. 6-7). O gesto de cuspir no chão e fazer lama com a saliva é carregado de um forte simbolismo: o barro alude à criação, é a matéria-prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. De acordo com essa mesma mentalidade, a saliva é gerada pelo hálito, e esse é o sopro, o espírito. Com isso, o evangelista quer dizer que Jesus repete o gesto criador de Deus (Gn 2,7). Assim fazendo, ele aperfeiçoa a obra do Pai, tornando-a plena. O homem que até então apenas vegetava, passou a viver de verdade a partir do encontro com Jesus que lhe deu vida em forma de luz dos olhos. A ordem para o homem lavar-se na piscina de Siloé significa a participação e a responsabilidade humana na criação e na salvação. Deus não quer o ser humano passivo, mas participante ativo de sua obra. Como «luz do mundo» (v. 5), Jesus aponta o caminho e quem o segue encontra a luz, como o cego «voltou enxergando» da piscina ao cumprir a sua ordem. Quem segue a palavra de Jesus encontra luz e sentido para a vida. Ao ir à piscina, conforme a ordem de Jesus, o cego demonstrou adesão ao Evangelho; por isso, passou a enxergar. Por sinal, o relato poderia ser encerrado aqui, mas o evangelista pretende muito mais.

Entre aqueles que conheciam o cego, o espanto é geral: ao invés de um homem miserável e considerado amaldiçoado, eles passam a ver um homem novo, restaurado e íntegro (vv. 8-12). A admiração começa entre os vizinhos, passa pelos que o viam mendigando, até chegar nos fariseus e autoridades religiosas. O motivo de tamanho espanto é compreensível, considerando a afirmação do próprio homem ao defender-se das acusações: «Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença» (v. 32). De fato, em toda a Bíblia, não há registro de nenhum outro milagre de um cego de nascença. Há curas de cegos, sim, mas não com essa indicação. Diante disso, os fariseus, como representantes do sistema de dominação religiosa, reagem com rigor e até com violência, porque vêem que a luz de Deus, que eles e todo o sistema ofuscavam, brilha em Jesus e em quem cumpre a sua palavra. A face de Deus, que a religião tinha ofuscado e transformado em mercadoria, é restituída gratuitamente ao povo por Jesus, como verdadeiro dom. Por isso, inconformados, os líderes religiosos judeus submetem o homem curado a um longo interrogatório, sem aceitar nenhuma das respostas. E, tudo isso, por causa da rejeição a Jesus e o medo que o seu projeto libertador representava para as elites.

O fato de Jesus ter curado em dia de sábado já era, por si só, motivo de escândalo, ainda mais da forma como fez: «era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego» (v. 14). Ao tocar na terra para fazer lama, Jesus realizou um trabalho tido como braçal, em dia de sábado, um pecado abominável para os judeus. Esse foi o principal motivo do cerco contra o homem e contra o próprio Jesus. Várias correntes do judaísmo da época, principalmente o movimento dos fariseus, consideravam o mandamento do sábado como o maior de todos, sob a alegação de que até mesmo Deus, o criador, o observou, ao descansar no sétimo dia da criação. Era assim que eles ensinavam sobre a sacralidade do sábado, por isso, se tornou um dos temas mais recorrentes nas discussões com Jesus. Por isso, eles passaram a ter ainda mais motivos para rejeitar Jesus e o seu programa de plena libertação e humanização. É importante recordar que João usa o termo “judeus” referindo-se às autoridades religiosas, e não a todo o povo. Neste episódio ele varia entre judeus e fariseus (vv. 13; 15; 16; 18; 22; 24; 34; 40), mas sempre em referência às lideranças, e não a todo o povo.

O ex-cego é literalmente encurralado pelos líderes religiosos porque deixou de ser um dominado, não mais sujeito às leis de submissão impostas por eles. Uma vez libertado por Jesus, ou seja, curado, tornou-se um sujeito autônomo, um homem livre, ao receber a luz dos olhos de Jesus. A situação chega ao ponto de ser necessário o depoimento dos seus pais (vv. 18-23). Com medo da repressão, os pais passam a responsabilidade para o filho: é ele quem tem de responder por seus atos, pois já tem idade suficiente (v. 21). Reconhecendo-se incapazes de convencer com argumentos e testemunho, os chefes judeus apelam para a violência, como acontece com todos os sistemas opressores. Por isso, «expulsaram-no da comunidade» (v. 34b), ou seja, o baniram da sinagoga. É a religião agindo com tirania, banindo a vida, ao invés de protegê-la. É claro que não havia espaço para Jesus e seu projeto libertador numa religião como aquela. Na verdade, esse conflito reflete o ambiente das comunidades joaninas, e não propriamente o tempo de Jesus. Ora, escrito no final dos anos 90 d.C., o Evangelho de João testemunha a separação das comunidades cristãs da sinagoga. Os cristãos foram, de fato, expulsos da sinagoga ao declararem Jesus como o Messias (v. 22). E esse episódio foi a melhor oportunidade que João encontrou para retratar essa realidade, uma vez que «dar vista aos cegos» era um dos principais sinais messiânicos anunciados pelos profetas (Is 29,18; 42,7). Com isso, ele reforça na comunidade as convicções de que Jesus é o Messias verdadeiro, como os profetas anunciaram.

Jesus se manifesta novamente, ao saber que o homem tinha sido expulso da comunidade sinagogal e vem ao seu encontro (v. 35). Embora a versão litúrgica afirme que Jesus «encontrou» o homem, a tradução correta seria «foi encontrá-lo» (v. 35), o que significa que Jesus foi procurá-lo, saiu em busca do homem, como um pastor autêntico vai em busca das ovelhas, preocupado que elas se percam ou sejam raptadas ou devoradas. Como sempre, Jesus resgata o que a religião descartou. A religião exclui e Jesus inclui; os sistemas dominantes separam e Jesus junta; a religião do templo oprime e Jesus liberta, humaniza. No final da discussão, Jesus mostra a grande inversão de valores e de papéis: os verdadeiros cegos, mesmo que vejam, são os fundamentalistas que, apegados à Lei e aos mais diversos códigos de conduta, sufocam a vida do ser humano, privando-a da liberdade e da dignidade (v. 41). Para esse tipo de cegueira, não há justificativa, pois quem a possui é autossuficiente, não se considera necessitado, como os fariseus, por exemplo, dos tempos de Jesus e aqueles que se comportam como eles nos dias de hoje. Esses escolheram as trevas como estilo de vida, por isso tentam sufocar a luz irradiada por Jesus.

Assim como João escreveu pensando na sua comunidade, também devemos pensar nas comunidades de hoje: se essas não promovem a vida e a liberdade do ser humano, estão distantes da proposta de Jesus. Se prevalece a norma sobre a caridade, o Evangelho é esquecido. Se o conhecimento continua concentrado em um pequeno grupo que controla tudo, está mais para a sinagoga do que para a comunidade cristã. Se há imposição de ideias, decisões e normas, continua-se a gerar cegos, ao invés de pessoas conscientes, iluminadas e livres para o seguimento autêntico de Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, março 06, 2026

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 4,5-42 (ANO A)



Com a liturgia deste domingo, abre-se uma sequência de três domingos de leitura de textos de Evangelho de João, como é próprio do ano litúrgico A. Para este domingo, o primeiro da série e o terceiro da Quaresma, o texto proposto é Jo 4,5-42, o relato do episódio do encontro e o diálogo de Jesus com a mulher samaritana, um episódio exclusivo do Quarto Evangelho. Trata-se de um dos textos mais ricos de todo o Novo Testamento, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, considerado a obra-prima de João por inúmeros estudiosos. Devido à sua extensão, não o comentaremos versículo por versículo; procuraremos colher a mensagem central, destacando apenas alguns versículos e dados particulares mais significativos. Esse é um texto que corresponde muito bem aos propósitos da Quaresma, enquanto itinerário catequético e processo de descobrimento da identidade de Jesus para dar-lhe uma adesão decidida e convicta. Por sinal, neste episódio, o evangelista João mostra, mais do que nunca, o quanto o encontro com Jesus humaniza e liberta as pessoas, pois ele é mesmo fonte de vida e de sentido para a vida.

Como sempre, é imprescindível recordar o contexto, tanto literário quanto histórico, para chegarmos a uma compreensão mais adequada do texto. Do ponto de vista literário, convém recordar que o episódio relatado nesta passagem faz parte de uma série de acontecimentos importantes do início do ministério de Jesus no contexto do Quarto Evangelho, desde as bodas de Caná (Jo 2,1-22), passando pelo desmascaramento do templo, transformado em casa de comércio (Jo 2,13-21). Depois, na mesma sequência narrativa, acontece o encontro noturno com Nicodemos, um judeu ilustre e reto (Jo 3,1-30), culminando com o encontro, em plena luz do dia, com uma mulher sem reputação, como era aquela samaritana (Jo 4,1-42), que corresponde ao evangelho de hoje. Este episódio, portanto, é o coroamento de uma sequência de eventos significativos do Evangelho de João que visam revelar a identidade de Jesus enquanto Filho de Deus, que é, ao mesmo tempo, Messias de Israel e Salvador do mundo. Não pode passar despercebido o fato de que essa série de eventos começa e termina tendo uma mulher como principal interlocutora de Jesus: a mãe, em Caná, e a samaritana, na Samaria. Em nenhum dos casos o nome da mulher é mencionado, porque em ambas as situações ela é personificação da comunidade, tanto num estágio já de maturidade na fé – a mãe, nas bodas de Caná – quanto num processo ainda de descoberta – o caso da samaritana. A mulher é, portanto, a principal mediadora da descoberta de Jesus enquanto doador de vida em abundância, por ser a primeira a experimentá-lo como fonte de vida.

A nível de contexto histórico, é importante recordar a rivalidade secular que havia entre judeus e samaritanos, como o próprio texto menciona: «De fato, os judeus não se dão com os samaritanos» (v. 9b). Essa rivalidade teve a sua origem com o cisma que dividiu o único reino de Israel em dois, ficando Samaria como capital do reino do Norte, e Jerusalém como capital do reino do Sul. Após o cisma, Jeroboão I, o primeiro rei de Israel do Norte, construiu vários santuários em seu reino, para competir com o culto do templo de Jerusalém. Inclusive, se tinha até proibido que sua população se dirigisse a Jerusalém para participar das liturgias do grande templo. O culto praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos judeus. Essa ideia de ilegitimidade se acentuou ainda mais após a invasão assíria em 722 a.C.. Ora, além de deportar parte da população local, a Assíria levou povos de suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte, constituindo assim um povo mestiço, plural e sincrético. E os povos estrangeiros levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas práticas cultuais (2Rs 17,24-28). Tudo isso levou os habitantes de Judá e Jerusalém a considerarem os samaritanos como impuros e heréticos. Esse preconceito se estendeu ao longo dos séculos, de modo que ser chamado de samaritano se tornou uma ofensa para um judeu. Os dois povos, originalmente irmãos, se tornaram inimigos radicais, e isso estava consolidado na época de Jesus. É, portanto, considerando este contexto que devemos ler o evangelho de hoje. E Jesus veio para superar esse abismo histórico-ideológico, quebrando as barreiras, abrindo comunicação, ao revelar o verdadeiro rosto do Deus que é Pai de todas as pessoas, em todos os tempos e lugares.

Feitas as devidas considerações a nível de contexto, olhamos para o texto, o qual começa afirmando que «Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do poço que Jacó tinha dado ao seu filho José» (v. 5). A recordação dos patriarcas em si, associados a um lugar, já é sinal de que se trata de um local importante para o povo de Israel. De fato, trata-se de um lugar representativo, com significado expressivo para a fé do povo. O poço possui uma rica simbologia na Bíblia; é o lugar do encontro e da renovação das forças, símbolo de vida fecunda e transformação. Na Palestina e em todo o antigo Oriente, o poço constituía um ambiente verdadeiramente restaurador; era onde paravam caravanas de peregrinos e comerciantes, pessoas cansadas. Na Bíblia, tornou-se até o lugar tradicional de encontros pessoais que terminaram em casamento, como foram os casos de Isaque e Rebeca (Gn 24), Jacó e Raquel (Gn 29), Moisés e Séfora (Ex 2). Daí nasce a ideia da água como metáfora do amor, e o evangelista João a aprofunda com este episódio, no qual Jesus é apresentado também como noivo e esposo da humanidade inteira.

Ainda a propósito do poço como lugar de restauração, de renovação das forças para peregrinos, o evangelista acrescenta uma informação muito importante sobre o estado em que Jesus se encontrava naquela ocasião: «cansado da viagem» (v. 6b). Essa é a única vez que um evangelista afirma explicitamente o cansaço de Jesus. É um dado relevante, pois expressa a humanidade de Jesus em sua dimensão mais profunda: um homem cansado e sedento, embora portador de uma água-viva, que ao final do episódio será reconhecido como o salvador do mundo (v. 42). Enquanto cansado e sedento, ele está totalmente necessitado. Nesse estado, Jesus não tem medo de pedir ajuda. Sua missão consiste, acima de tudo, em oferecer, em dar amor ao mundo, mas antes precisa se encontrar com as pessoas, sentir suas sedes, para depois oferecer. Por isso, ele não tem medo de relacionar-se com as pessoas, mesmo as sem reputação, que a sociedade da época excluía. Assim, ele pede de beber a uma mulher samaritana que também se encontrava no poço (v. 7), demonstrando que não estava condicionado às barreiras impostas pela sociedade e a religião. Para os padrões da época, não era aconselhável para um homem conversar com uma mulher sozinha, ainda mais com uma mulher samaritana, personagem duplamente marginalizada: primeiro, por ser mulher, numa sociedade patriarcal; segundo, por ser samaritana, uma raça de gente desprezível, como os judeus consideravam os samaritanos.

A sede de Jesus, somada ao cansaço, indica sua mais intensa humanidade. E mais: numa terra quente, em pleno meio-dia, a sede é também sinal de fragilidade, impotência. A princípio, parece ser mais pretexto para abrir um diálogo transformador com aquela mulher, como ele mesmo revela que tinha uma água-viva para dar, mas é acima de tudo uma demonstração da sua humanidade (v. 10). Com isso, o evangelista revela a harmonia entre o humano e o divino na pessoa de Jesus: o homem que sente sede e pede água é o mesmo que possui uma água-viva, capaz de saciar eternamente os outros. É um paradoxo desconcertante que o evangelista João mostra com uma extraordinária habilidade teológica e narrativa. À medida em que o diálogo flui, a mulher chega a reconhecer Jesus como portador de um dom de Deus, a ponto de pedir-lhe da sua água-viva: «Senhor, dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir até aqui para tirá-la» (v. 15). Quanto mais o diálogo se estende, mais Jesus ganha a confiança da mulher, levando-a à sinceridade, inclusive, reconhecendo a ilegitimidade de sua união com um esposo ilegítimo, o sexto marido, o que é imagem das diversas divindades com as quais a Samaria já entrou em relação (vv. 16-18). De fato, entre os cinco maridos anteriores daquela mulher e o da época do encontro com Jesus, os estudiosos identificam a idolatria da Samaria, associando os países dominantes e as divindades adoradas.

Revelando sua identidade pecadora, a mulher demonstra também o desejo de conversão, embora a religião não lhe seja favorável, causando-lhe confusão acerca da verdadeira adoração; ela não sabe onde e nem como prestar o culto verdadeiro (vv. 19-20). Mas Jesus se interessa cada vez mais pela causa da mulher samaritana, como se interessa pela causa de toda pessoa marginalizada; declara que não importa o lugar do culto, mas a qualidade (vv. 21-24). Ora, independentemente do lugar de culto que frequentasse, aquela mulher seria vítima de preconceitos e discriminações. Consciente disso, Jesus lhe indica o culto verdadeiro: a «adoração em Espírito e Verdade» (v. 24). Ao contrário do que muitas interpretações afirmam, essa adoração não significa um culto intimista, pessoal e sincero, mas sim um culto ao Pai que passe pelo Espírito Santo e pelo próprio Jesus, e culmina em obras de amor. O “Espírito”, aqui, é o dom de Deus, a água-viva que Jesus possui e a destina a toda a humanidade, é o mesmo Espírito que ele, ressuscitado, soprará sobre os discípulos; a “Verdade” é a sua própria pessoa enquanto plenitude da revelação, ou seja, de tudo o que o Pai tem a dizer à humanidade inteira. A adoração em Espírito e em Verdade, portanto, é a relação nova que se inaugura entre Deus e a humanidade: não mais intermediada pela Lei e nem pelos sacerdotes dos templos, mas pelo Espírito Santo e Jesus. Esse culto é acessível a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares, e terá como sinal de autenticidade as obras de amor geradas a partir dele.

Enquanto a mulher samaritana dava adesão a Jesus, por meio do diálogo fluente, os discípulos que já conviviam com ele há mais tempo continuavam presos à mentalidade antiga, certamente imposta pela religião, por isso, se admiraram com sua atitude de falar com uma mulher (v. 27). Por sinal, o diálogo é a principal chave de leitura deste episódio e de toda mensagem e vida de Jesus. Enquanto Palavra eterna (Jo 1,1-18), ele veio ao mundo para o Pai dialogar com a humanidade de modo transparente, claro. E ele demonstrou isso com sua práxis, da qual o evangelho de hoje pode ser considerado uma síntese. Os discípulos ainda estavam condicionados aos preceitos da Lei e fechados ao Espírito. Andavam com Jesus, mas não tinham ainda sido saciados pela água-viva que ele tinha a oferecer, certamente porque não tinham ainda tanta disponibilidade para dialogar, pois só conhece Jesus quem dialoga com ele. Os discípulos estavam mais concentrados no fazer de Jesus, por isso, não tinham ainda experimentado o diálogo transformador com ele. A samaritana dialogou, por isso conheceu e se transformou, tornando-se modelo de conversão e discipulado. Nem ela nem Jesus tiveram medo de “começar do zero” um processo de partilha e escuta.

Convicta de ter encontrado sentido para a sua vida no encontro com Jesus, a mulher toma uma atitude decisiva e fundamental: «deixou o seu cântaro e foi à cidade» (v. 28) para anunciar a experiência vivida. Deixar o cântaro significa abandonar a Lei para aderir ao Espírito e ao programa de vida de Jesus. É a passagem ao discipulado; de mulher rejeitada e excluída, ela se tornou discípula e anunciou, convidando os demais a fazerem a mesma experiência que ela tinha acabado de fazer, convencendo toda a cidade a buscar o mesmo (v. 28-30). A fé autêntica e verdadeira é contagiante, inevitavelmente se espalha. É importante recordar que em momento algum Jesus a repreendeu pelos erros passados; levou-a a reconhecer quantos maridos teve, porém, sem incriminá-la; o resultado foi uma conversão autêntica, o que os discípulos pareciam ainda não ter experimentado, como dá a entender pela sutil advertência que Jesus lhes faz com uma pequena parábola da colheita (vv. 34-38). A colheita abundante é a fé dos samaritanos, a adesão dos que estavam distantes, confirmando que Jesus rompe barreiras e todos os muros de separação, religiosos e ideológicos, para quem se deixa encantar pela sua pessoa e a sua mensagem.

O desfecho da história é uma grande adesão causada, inicialmente, pelo testemunho da mulher (v. 39) e, em seguida, pela experiência pessoal que cada um fez (v. 42), culminando com o reconhecimento de Jesus como o Salvador do mundo. Os judeus esperavam um messias nacionalista, restaurador do reino de Israel; os samaritanos reconhecem Jesus como Salvador do mundo. São duas visões bem diferentes entre si, que revelam as diferenças entre quem permanece preso aos preceitos da Lei, sem coragem de abandonar o cântaro, ou seja, de mudar de vida, e quem reconhece a necessidade de beber da água-viva que Jesus doa. Enquanto o cântaro da Lei aprisiona, a água-viva que Jesus doa liberta e sacia. Os samaritanos, povo marginalizado e impuro para os judeus, proporcionam a primeira adesão comunitária à pessoa de Jesus: o testemunho da mulher contagiou a cidade inteira. Sentindo o peso da rejeição e marginalização impostas pela religião, os samaritanos acolheram o dom de Deus revelado por Jesus e destinado a todos e todas, especialmente aos mais rejeitados.

O encontro transformador de Jesus com a samaritana, portanto, deve ser parâmetro para nossa relação com ele e para todo processo de descoberta e crescimento na fé. A mulher samaritana progrediu na fé gradualmente. Inicialmente, Jesus era apenas um judeu viajante cansado e com sede, visto com suspeitas por ela, inclusive. Com a fluência do diálogo, ela foi transformando sua percepção sobre ele, chegando a reconhecê-lo como um profeta (v. 19), um homem de conhecimentos excepcionais (v. 29) e, finalmente, como o Messias. Ela fez a própria descoberta porque abriu diálogo e Jesus se deixa conhecer por quem dialoga com ele. Que a Quaresma nos ajude a encontrar Jesus e nos abra ao diálogo transformador, deixando-nos humanizar por ele.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 17,1-9 (ANO A)


Todos os anos, a liturgia do segundo domingo da Quaresma propõe a leitura de um dos relatos do episódio conhecido tradicionalmente como “Transfiguração do Senhor”. Trata-se de uma cena da vida de Jesus contada pelos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ano, conforme o ciclo litúrgico (A, B e C), sem necessariamente repeti-lo. Isso porque, mesmo se tratando do mesmo acontecimento, cada evangelista o narra à sua maneira, conforme as suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e, sobretudo, respondendo às necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos apresentem diferenças, apesar de serem muito parecidos, afinal, o fato contado é o mesmo. Por ocasião do ciclo litúrgico A, o texto proposto para este ano é o relato de Mateus – Mt 17,1-9. Por tratar-se de um texto muito rico em teologia e simbologia, torna-se indispensável uma breve contextualização, para uma compreensão mais adequada. E começamos pela definição do gênero literário ao qual pertence o texto, a teofania. Etimologicamente, teofania significa manifestação divina; é uma palavra de origem grega, formada da junção do substantivo “Theós” (Deus) com o verbo “faino” (aparecer, manifestar). Enquanto gênero literário, teofania designa o tipo de relato que descreve uma manifestação solene de Deus. Geralmente, são relatos carregados de elementos simbólicos, o que se vê no episódio da transfiguração, como a brancura, a nuvem e a voz celestial. Embora as teofanias sejam mais frequentes no Antigo Testamento, o Novo Testamento contém algumas, como o batismo de Jesus, a transfiguração, as aparições pascais e o relato de Pentecostes.

Ora, em Cesareia de Filipe, Jesus os tinha perguntado sobre a sua identidade: quem o povo imaginava que ele fosse e o que os próprios discípulos pensavam a seu respeito. Em nome dos Doze, Pedro respondeu, em forma de confissão, que Jesus é o Cristo – Messias –, o Filho de Deus. Embora correta, a resposta de Pedro poderia ser facilmente distorcida, pois contemplava as expectativas do messianismo nacionalista vigente: um messias (Cristo) glorioso e potente; por isso, Jesus ordenou que não contassem isso a ninguém (Mt 16,20). Em seguida, ele fez o primeiro anúncio da paixão, o que deixou os discípulos bastante assustados, pois a concepção de messias que eles tinham em mente não era compatível com o sofrimento e a cruz, como ele tinha acabado de anunciar (Mt 16,21). Ora, os discípulos esperavam um messias glorioso, valente e guerreiro, conforme as expectativas da época, fruto da ideologia nacionalista davídica, enquanto Jesus anunciou a doação da vida, comportando sofrimento e cruz, se necessário, para alcançar a glória e a vida em plenitude. Inclusive, impôs a disposição para carregar a cruz e doar a própria vida como condição para fazer parte do seu discipulado. A transfiguração é, portanto, a resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos acerca da sua identidade, e uma demonstração de que cruz e glória fazem parte de um mesmo caminho: o destino do ser humano é a glória, mas essa passa pela cruz.

Uma vez contextualizados, vamos olhar para o texto, começando pelo primeiro versículo: «Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha» (v. 1). Aqui, a versão litúrgica omitiu um indicativo temporal importante, substituindo-o pela genérica expressão “naquele tempo”. O texto original começa com a indicação cronológica “seis dias depois”, como sinal de relação e continuidade com o último episódio narrado: o primeiro anúncio da paixão e a contestação de Pedro, com as exigências para o discipulado (Mt 16,21-28). Ora, Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o até de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. Portanto, “seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude. Tal expressão cronológica pressupõe um dia anterior aos seis que vêm depois, e o resultado de tal operação é o número sete. Trata-se, portanto, do sétimo dia, o que significa a criação concluída e em plena harmonia com o Criador. Enquanto transfigurado, Jesus revela o ideal de humanidade, conforme Deus pensou, desde o início. Provavelmente, o evangelista evitou a referência explícita ao sétimo dia devido à relação hostil que se passava entre a sua comunidade e a sinagoga. Implicitamente, ele aplicou o sentido teológico do sétimo dia, mas evitou a menção, pois a comunidade vivia a conflituosa transição do sábado para o domingo como dia de culto.

O evangelista diz que Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. A escolha desses três discípulos não significa privilégio, como às vezes se diz, mas necessidade. Eles não eram os melhores, mas sim os três mais difíceis de lidar e os que mais tinham dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus enquanto Messias sofredor. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento; é o discípulo que Jesus mais repreende durante todo o seu itinerário. Como ele sempre se antecipa, sendo o primeiro a responder às perguntas de Jesus, é aquele que mais se expõe e, por isso, é o primeiro a ser corrigido. João e Tiago, conhecidos como “filhos do trovão” (Mc 3,17), eram os mais fanáticos e ambiciosos (Mc 10,35-45; Mt 20,20-28), de temperamento difícil, eram também os mais intolerantes. Pouco tempo após este episódio da transfiguração, Jesus repreenderá João por proibir a um homem que não fazia parte do grupo de pregar e expulsar demônios em seu nome (Mc 9,38-39). Os dois, João e Tiago, também foram repreendidos quando quiseram tocar fogo nos samaritanos que os rejeitaram (Lc 9,51-55). Portanto, Jesus os chama para estarem mais perto de si pela necessidade de cada um e por não desistir do ser humano, apesar das fraquezas e debilidades. Eles necessitavam estar mais próximos a Jesus e aprender mais com ele, como de fato estarão. Na Paixão, esses três – Pedro, João e Tiago – serão as testemunhas de Jesus durante a agonia no Getsêmani (Mt 26,36-37). Isso significa que eles mudaram com o tempo, não se tornando perfeitos, mas aprendendo a cada dia com Jesus, à medida em que conviviam com ele e ouviam seus ensinamentos.

Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro do ser humano com Deus. Tanto em Israel quanto nas culturas circunvizinhas, imaginava-se que para comunicar-se com a divindade, o ser humano precisava escalar um monte. Assim, a montanha funcionava como um espaço intermediário e necessário: o ser humano era incapaz de subir aos céus, e Deus grande demais para descer até a terra; daí a necessidade de um lugar intermediário para os dois se comunicarem. Por isso, a montanha tornou-se o lugar da revelação no Antigo Testamento (Ex 19,16; 24,15). Embora a tradição tenha identificado essa montanha com o monte Tabor, esse dado não possui fundamento nos evangelhos. Essa denominação começou com Cirilo de Jerusalém e foi consolidada por São Jerônimo, mas hoje é considerada sem fundamento. É preferível mantê-la anônima, como fizeram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.

E é justamente no Evangelho de Mateus que a montanha tem mais relevância no Novo Testamento, sendo o lugar onde ele diz que Jesus viveu momentos importantes do seu ministério: proclamou as bem-aventuranças (5,1), multiplicou os pães (15,29), e como Ressuscitado, aparecerá aos discípulos pela primeira vez (28,16). O texto de hoje diz que, no alto da montanha, Jesus «foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz» (v. 2). quer dizer que passou por uma transformação no seu aspecto, uma metamorfose. É esse o significado do verbo empregado pelo evangelista (em grego: μεταμορφόομαι – metamorfóomai). Diante da incredulidade e resistência dos discípulos em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nele. Não apenas o rosto brilhou, mas todo o seu ser, inclusive suas vestes. As mesmas imagens e cores da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida em que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova.

Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: «Nisto, apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus» (v. 3). Estes personagens representam a Lei e os Profetas, obviamente. Temos, com isso, mais uma iniciativa de Deus para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os Profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento. Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os Profetas encerram-se, chegam ao fim enquanto cumprimento e plenitude. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada têm a dizer para a comunidade cristã senão através de Jesus. Nesta cena, portanto, Moisés e Elias entregam a Jesus a revelação parcial que tinham recebido, própria da antiga aliança, e Jesus a aperfeiçoa, completando-a. Por isso, é necessário passar por ele.

Pedro, ousado como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas reprováveis, apesar das boas intenções: «Então, Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”» (v. 4). Três elementos são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo. O segundo elemento reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição e o não reconhecimento de Jesus como o centro da vida: «uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias». Jesus ainda não ocupava o centro da vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu evangelho como centro. O terceiro elemento reprovável na fala de Pedro é o não reconhecimento de Jesus como a verdadeira tenda. Ora, no Antigo Testamento, sobretudo no contexto do êxodo, a tenda é o lugar do encontro com Deus, o que agora é a pessoa de Jesus. A ideia de fazer tendas revela incompreensão e não aceitação de Jesus como o pleno revelador do Pai e o lugar definitivo do encontro com Deus.

Diante do absurdo da fala de Pedro, o próprio Deus intervém e o interrompe: «Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!”» (v. 5). A nuvem luminosa, ao longo da tradição bíblica é também sinal da manifestação e presença de Deus. Essa cena é, praticamente, uma repetição daquilo que aconteceu no episódio do batismo de Jesus: o Pai se manifesta, fala e dá testemunho do Filho. Ora, diante das dúvidas e falta de convicção nos discípulos sobre a identidade de Jesus, quem tem mais propriedade para esclarecer é o seu Pai. Essa voz reitera a autoridade de Jesus: o Pai o credencia como o único que tem autoridade para falar e ser ouvido pela comunidade. Pedro ainda estava propenso a ouvir mais Moisés e Elias do que a Jesus, por isso, Deus, o Pai, lhe corrige. Moisés e Elias já disseram o que tinham de dizer; à comunidade cristã, só interessa o Evangelho, ou seja, o que Jesus ensina e vive. E o que Jesus tem a dizer à comunidade é, acima de tudo, o seu jeito de ser, seu estilo de vida. Escutá-lo, portanto, significa viver como ele, pois sua voz não é um som, mas a própria vida, a qual ele doa livremente. Doando-se, fazendo-se servo de todos, ele fala, comunica vida, força de libertação e humanização para todas as pessoas e a inteira criação.

A primeira reação dos discípulos diante das palavras do Pai é de completa falência: «Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra» (v. 6). Ao longo de toda a Bíblia, é normal o medo e o temor dos seres humanos diante da presença Deus. Mas nesse caso o medo tem outra causa: as implicações e consequências de escutar. Ora, escutar Jesus significa aderir plenamente ao seu projeto de vida e libertação, o que comporta até mesmo a doação da vida. É isso o que causa medo nos discípulos que imaginavam seguir um messias guerreiro e glorioso. Diante do medo dos discípulos, eis a reação de Jesus: «se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”» (v. 7). É próprio de Jesus dar força aos caídos e encorajar os amedrontados. O gesto de tocar é o mesmo que ele faz ao curar os enfermos, restituindo-lhes vida e saúde (8,3.15; 9,25.29). O medo de assimilar e viver o Evangelho torna a comunidade doente, necessitada da força de Jesus que a impele a levantar-se. Para superar o medo, duas coisas são necessárias: escutar Jesus, como o Pai ordenou, e deixar-se tocar por ele.

O toque de Jesus, que é a sua própria palavra, levanta e transforma a comunidade dos discípulos: «Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus» (v. 8). Moisés e Elias desapareceram para que a atenção dos discípulos se voltasse somente para Jesus, o centro da vida e da comunidade que já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu evangelho. Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro.

Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e também por prudência, pois se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição. Eles deveriam anunciar Jesus, o Evangelho, mas da maneira certa, sem alimentar falsas ilusões, nem omitir as suas verdades. E somente à luz da ressurreição é que esse anúncio se torna eficaz e perfeito. É melhor silenciar do que anunciar de modo equivocado. O anúncio distorcido é, sem dúvidas, consequência de uma escuta superficial. Aqui está um dos ensinamentos mais importantes para as comunidades de todos os tempos: a necessidade da escuta de Jesus, o Filho Amado.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 4,1-11 (ANO A)

 


Após uma sequência de seis domingos, a liturgia interrompe, temporariamente, o tempo comum para vivenciar e celebrar um de seus tempos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas, com o solene convite à conversão, em preparação à Páscoa do Senhor, que é a razão de ser da fé cristã. Hoje, celebramos o primeiro domingo deste tempo especial, que é um verdadeiro itinerário catequético e espiritual. Como acontece todos os anos, o evangelho do primeiro domingo da Quaresma compreende sempre uma das narrativas das tentações pelas quais passou Jesus no deserto, logo após ser batizado, como preparação para o início de seu ministério. As tentações são um dos episódios presentes nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), um dado que confirma a sua grande importância para as primeiras comunidades cristãs. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, temos a oportunidade de ler a versão das tentações do Evangelho de Mateus – 4,1-11. Trata-se de um texto bastante rico, muito bem elaborado, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, com uso abundante de linguagem simbólica. 

Marcado por forte simbologia, o evangelho de hoje corre o sério risco de ser mal compreendido, devido a nossa tendência equivocada de considerar os evangelhos como livros de crônicas exatas da vida de Jesus, esquecendo o aspecto simbólico que predomina neste tipo de relato. Por isso, é necessário, a nível de introdução, fazer algumas considerações importantes para uma adequada compreensão. A fonte original deste relato é o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos evangelhos canônicos, o qual não oferece qualquer detalhe sobre o nível e a modalidade das tentações. Marcos apenas diz que «Jesus esteve no deserto durante quarenta dias sendo tentado por Satanás» (Mc 1,13); dessa informação simples e vaga narrativamente, embora bastante profunda teologicamente, o evangelista Mateus, com muita criatividade, e atendendo às necessidades da sua comunidade, ilustrou a história que lemos hoje na liturgia, como fez também Lucas (Lc 4,1-13). Certamente, ambos tiveram acesso a outras fontes que desenvolveram o enunciado de Marcos, transformando-o em uma verdadeira narrativa, ou seja, uma história com personagens em ação, com circunstâncias de espaço e tempo bem definidas. Apesar de muito parecidas, as versões de Lucas e Mateus apresentam pequenas divergências, que certamente correspondem ao ponto de vista teológico de cada um e às necessidades catequéticas de suas respectivas comunidades, destinatários primeiros de seus escritos.

A nível de contexto, é imprescindível recordar que o relato das tentações segue, imediatamente, ao relato do batismo – Mt 3,13-17 – e, por isso, ambos estão intrinsecamente relacionados. Ainda antes do batismo, João – o que batizava – tinha anunciado Jesus como o Messias, em sua pregação. Ora, no batismo o Espírito Santo desceu sobre Jesus e, do céu, o próprio Pai o declarou como o seu “Filho Amado”. Logo, o principal objetivo do evangelista com este episódio de hoje é apresentar o comportamento de Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto deste dia (Mt 3,17). E ele vai mostrar que Jesus permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo. Em sua liberdade de Filho, Jesus permanece fiel ao Pai, assumindo para si os mesmos propósitos. Desse modo, à condição de amado, ele corresponde amando, não só ao Pai, mas à inteira criação, a qual também é fruto do amor do seu Pai. Portanto, esse é um texto programático para a comunidade cristã, pois indica como se deve agir e resistir ao mal quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo, missão comum a todos os batizados e batizadas.

Iniciamos nossa reflexão considerando os dois primeiros versículos do texto, nos quais se diz o seguinte: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome» (vv. 1-2). Ora, o mesmo Espírito Santo que desceu em forma de pomba (Mt 3,16) no batismo, acompanhará Jesus em todos os seus passos e ações; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito Santo, e não apenas quando ele vai ao deserto, como acontece no episódio de hoje. Aqui, o deserto não é um indicativo geográfico, mas teológico. A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos pelos quais Israel passou, desde a saída do Egito até à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que ele, mesmo sendo o “Filho Amado” de Deus, é verdadeiramente ser humano, pois assumiu a humanidade em todas as suas dimensões. Na tradição bíblica, o deserto evoca a provação, a privação e a dificuldade, mas também representa lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Ora, uma vez que o deserto também é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada, mas é sempre exposto à prova. O autor das tentações é o diabo (em grego: διάβολος – diábolos), palavra grega que literalmente significa “aquele que divide” e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus; muitas vezes, é a própria estrutura das comunidades que teimam em ofuscar o Evangelho, fechando-se aos impulsos do Espírito Santo.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias” que Jesus lá passou não podem ser considerados como um dado cronológico exato. Mais uma vez, trata-se de um dado simbólico e teológico, por sinal, de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (Gn 7,4.12.17); Moisés passou quarenta dias sobre a montanha, em preparação para receber a Lei (Ex 32,28); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade e infidelidade, idolatria e prova (Ex 16,35; Dt 8,2-5; Sl 5,10); e o profeta Elias caminhou durante quarenta dias rumo ao monte Horeb (1Rs 19,8). Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer também uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração (quarenta anos). Quando se trata de dias, é o tempo necessário para assimilar um grande ensinamento. Quer dizer um tempo completo, mas não fechado em si mesmo; é sempre preparação para um acontecimento maior. Inclusive, foi a partir dessa simbologia que a Igreja determinou um período de quarenta dias como o tempo necessário de preparação para a Páscoa. A permanência de Jesus por quarenta dias no deserto, portanto, significa que toda a sua vida foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar todos os cristãos a uma vida vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder.

A primeira tentação diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas e consigo mesmo; a lógica do império incentivava o consumo e a satisfação imediatista dos desejos, o que Jesus rejeita com bastante veemência e segurança. Eis o que diz a primeira tentação: «Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”. Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”» (vv. 3-4). Embora faminto, Jesus percebe que não seria suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais do que pão. Por isso, com base na Escritura, ele não dispensa o pão, mas diz que o homem não pode viver “somente” dele (Dt 8,3). A vida digna e plena não depende somente do alimento material, mas de todos os valores do Reino contidos na «Palavra que sai da boca de Deus», que será explicitada no decorrer do seu ministério. O messianismo da época previa um messias milagreiro, além de guerreiro, ao que Jesus se opõe radicalmente. Ora, ele não veio ao mundo para resolver os problemas de maneira fácil e cômoda, como queriam e ainda querem muitos grupos e movimentos religiosos. Por sinal, essa é a  única vez em que o evangelista Mateus dá ao diabo o nome de “tentador” (em grego: πειράζων – peirazón), uma derivação do verbo tentar (em grego: πειράζω – peirázo), o mesmo verbo que ele aplica aos líderes religiosos, especialmente os fariseus, os que mais põem Jesus à prova durante o evangelho (Mt 16,1; 19,3; 22,18.35). Enquanto alimento, a Palavra de Deus é também força, fonte de resistência, como Jesus demonstra recorrendo a ela para desmascarar o tentador.

A segunda tentação chama a atenção para a relação com Deus, o que deve ser cuidadosamente cultivada pelo cristão. Eis o que diz o texto: «Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, mas para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”» (v. 5-7). Ora, no templo de Jerusalém, onde a religião dizia que Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo e por todos os mercados da fé; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus “filhos bons” e castigar os maus, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano. Como se vê, também o diabo recorre ao conhecimento da Escritura para camuflar sua condição de adversário e tentador, propondo uma leitura simplista, fundamentalista e individualista. Por ser a própria Palavra encarnada, Jesus conhece o real sentido da Escritura, por isso, encontra nela seu argumento de força para desmascarar o tentador, o qual continua presente e atuante também nos dias de hoje. Daí, a necessidade de uma compreensão sempre mais aprofundada e coerente das Escrituras nas comunidades cristãs, a fim de que a Palavra de Deus não seja instrumentalizada.

A terceira tentação diz respeito à relação com o próximo, sobretudo quanto à maneira de conceber e exercer o poder. Eis o que diz o texto: «Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, E lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’”» (vv. 8-10). A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante por prestígio e poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os “inimigos” de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal. Por sinal, quando supostamente exercido em nome de Deus, o poder tende a ser mais perigoso, mais opressivo, intolerante e intransigente, por isso, mais diabólico. O diabo apresenta a Jesus todos os reinos do mundo; isso significa que há muitos, enquanto Jesus falará de um único Reino, o Reino dos Céus, como sinal de unidade e fraternidade. A multiplicidade de reinos do mundo significa a falta de concórdia e harmonia, decorrente das formas tirânicas e ilegítimas do exercício do poder. Todos eles são expressões do anti-Reino.

Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade e fruto de suas convicções de Filho Amado do Pai. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através dos seus seguidores e seguidoras, ao testemunharem sua Palavra, em todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada por esse amor. É claro que o evangelista não descreve o diabo como dono do mundo; mas está denunciando que o poder exercido até então, em todos os reinos do mundo, marcado pela exploração, injustiça e opressão, segue a lógica diabólica, à qual o Evangelho se contrapõe com o Reino dos Céus anunciado por Jesus, marcado pelo amor, pelo serviço, pela justiça e pela fraternidade. 

Na conclusão, o evangelista apresenta a seguinte declaração: «Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus» (v. 11). O diabo se afastou porque não encontrou em Jesus um aliado. Devido à sua comunhão de amor com o Pai, Jesus sabia discernir e fazer opção pelo lado do amor e da justiça, inclusive, foi para isso que o Pai lhe enviou ao mundo. Ao falar do serviço dos anjos a Jesus, o evangelista emprega um verbo que significa especificamente o serviço de mesa, ou seja, o serviço do pão. É esse o sentido do verbo grego “diakonêo” (διακονέω), do qual deriva o termo diácono (em grego: διάκονος – diáconos). Ao invés de comer um pão fruto de uma espetacular demonstração de poder, Jesus recebe o pão como dom gratuito; e aquilo que é dom deve ser partilhado, como ele mesmo fará, seja partilhando o pão com as multidões famintas (Mt 15,32-39), seja doando a sua própria vida como alimento (Mt 26,26-30).

Concluindo, podemos dizer que as três tentações ou provas relatadas no evangelho de hoje são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com o próximo e com Deus. São como uma parábola da vida de Jesus. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas as formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo e os maiores conhecedores da Palavra de Deus na sua época, os fariseus e mestres da Lei. 

A resistência de Jesus, recorrendo sempre à Palavra de Deus, é uma indicação para as comunidades cristãs de todos os tempos: a perseverança e a fidelidade ao projeto de Jesus dependem essencialmente da atenção à Palavra. Ao mesmo tempo, há uma clara denúncia ao perigo do uso fundamentalista das Escrituras e tradições religiosas, pois também os argumentos do diabo são fundamentados na Palavra de Deus. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 9,1-41 (ANO A)

Na liturgia deste quarto domingo da Quaresma, continuamos a sequência da leitura de textos do Quarto Evangelho, iniciada no domingo passad...