sexta-feira, maio 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,1-12 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do quinto e do sexto domingo do tempo pascal utiliza textos do chamado «testamento de Jesus» do Quarto Evangelho (Jo 13–17). Esses capítulos, que correspondem à última ceia, contêm o ensinamento mais precioso de Jesus no contexto narrativo do Evangelho de João. Trata-se de um conjunto de diversos discursos que o evangelista reuniu como se fosse apenas um discurso, apresentado como síntese de tudo o que Jesus fez e ensinou durante a sua vida. Por isso, o conjunto começa com o gesto do lava-pés (Jo 13,1-12), expressão máxima do agir serviçal de Jesus, e é concluído com a oração sacerdotal (Jo 17,1-26), na qual Jesus expressa sua intimidade com o Pai, marcada pela confiança e entrega, e seu cuidado com a humanidade, suplicando unidade e fraternidade. Do lava-pés à oração de Jesus, portanto, está a síntese de toda a sua vida. O evangelista fez isso como resposta às necessidades da sua comunidade, que passava por crises, e das comunidades de todos os tempos.

À medida que o tempo pascal avança, e após lermos os diversos relatos das manifestações (aparições) do Ressuscitado junto aos seus discípulos(as), é interessante retornar à essência do que Ele ensinou, tendo em vista a proximidade da ascensão, para que essa não seja sinal de ausência, mas de presença e vivência dos seus ensinamentos. De fato, é através da vivência do que Jesus ensinou que se pode experimentar a sua presença de Ressuscitado ao longo da história. Neste quinto domingo do “Ano A”, o texto proposto é Jo 14,1-12. Para compreendê-lo melhor, é necessário recordar o que lhe antecede, no contexto narrativo da última ceia. E encontramos quatro acontecimentos precedentes que, de certo modo, condicionam o texto de hoje:  o lava-pés ou o mandamento do serviço (Jo 13,1-15), o anúncio da traição de Judas e seu desligamento do grupo (Jo 13,21-30), a entrega do mandamento do amor por Jesus (Jo 13,31-35) e o anúncio da negação de Pedro (Jo 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (Jo 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como ausência e fim. Tudo isso deixou os discípulos desanimados e inquietos; a ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperar a alegria e o entusiasmo dos discípulos com a continuidade do seu discurso, apesar de se encontrar às vésperas da paixão.

Olhando para o texto, percebemos que as palavras iniciais de Jesus denunciam a inquietação e o mal-estar que havia entre os discípulos naquele momento: «Não se perturbe o vosso coração» (v. 1a). A agitação no coração é sinal de tristeza e confiança abalada. Significa que há uma situação difícil de ser aceita e compreendida. É interessante que, embora fale para todo o grupo dos discípulos, Jesus se refere ao coração (em grego: καρδία – kardía) no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé na comunidade. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode desistir de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e um único mandamento. Na verdade, os discípulos até tinham certa razão de se encontrarem perturbados, humanamente falando, tendo em vista a certeza da morte próxima de Jesus. Mas Jesus os convida a superar o medo e deixar de ver a morte como o fim. Na verdade, ele quer ensinar que a morte não tem a palavra final, por isso, insiste que os discípulos não se perturbem com ela. Além disso, ele quer recordar tudo o que já tinha ensinado acerca do seu destino. E desde os primeiros momentos da sua pregação, ele tinha deixado claro qual seria o seu destino, tendo em vista sua extrema fidelidade ao Pai.

Mais do que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Ora, a comunidade estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões, além da tristeza pela sua aparente perda. Havia um clima de desconfiança entre eles, sobretudo após a saída de Judas e o anúncio da negação de Pedro (13,21-30; 36-38). O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus. Por isso, ele pede que os discípulos lhe renovem a adesão plena, com uma fé renovada: «Tendes fé em Deus, tende fé em mim também» (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao Evangelho de João. Somente nesse texto de hoje, o verbo que expressa fé e confiança (em grego: πιστεύω – pistêuo), aparece cinco vezes (vv. 1.11.12). O evangelista está ensinando também que a fé em Deus e a fé em Jesus são uma única fé. E somente a fé é capaz de fazer a comunidade superar o medo, a perturbação e criar coragem para enfrentar as adversidades que vêm como consequência da fidelidade ao projeto de Jesus. E a primeira adversidade é a cruz.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga casa, o templo, fora transformada em casa de negócios (Jo 2,16). Por isso, ele faz uma afirmação categórica e bastante firme: «Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós» (v. 2). Essa é uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada do Pai, e nem prometendo reservar lugares para os seus discípulos lá. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas. No templo de pedras, a antiga casa de Deus, havia uma única morada. As pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá, como ensinava a religião. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar a Deus somente em espírito e em verdade (Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Em vez de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: «E quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós» (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo transportar os discípulos de um lugar para outro, mas conduzi-los a uma nova condição de vida, dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais do que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será a casa do Pai quando nela vigorar a lei do amor e sua aplicação prática, que é o serviço, cuja demonstração ele fez há pouco tempo, com o gesto do lava-pés. Com isso, ele dá um significado novo para a vida presente: essa vida que vivemos agora não é apenas uma espera pela vida definitiva, mas ela já é eterna, pois já se pode experimentar nela a presença do eterno, que é ele mesmo, pois onde se vive como discípulo o Ressuscitado está presente. Portanto, o voltar de Jesus, após sua morte de cruz, ao encontro dos discípulos, significa muito mais do que o seu retorno glorioso no final dos tempos; no contexto do evangelho de hoje, significa sua inseparabilidade da comunidade após a ressurreição. A morte na cruz não tem força de separar Jesus dos seus porque, Ressuscitado, ele estará sempre presente. Por isso, essa sua afirmação expressa um retorno imediato: mediante o Espírito Santo, ele estará sempre presente entre os seus, e a ocasião privilegiada de experimentar essa presença é a comunidade reunida para a partilha do pão.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho, como ele mesmo afirma: «E para onde eu vou, vós conheceis o caminho» (v. 4); esse caminho é a sua própria vida, marcada pelo amor ilimitado e incondicional. No entanto, a incompreensão persiste nos discípulos, dominados pelos ideais messiânicos triunfalistas e incapazes de reconhecer o amor e a doação da vida como os únicos meios para uma relação autêntica com Deus. Com muita sinceridade, Tomé confessa a sua ignorância diante do que está sendo anunciado e vivido por Jesus: «Tomé disse a Jesus: ‘Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?’» (v. 5). De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade. Mas seu questionamento demonstra interesse em aprofundar e conhecer mais Jesus e sua relação com o Pai. Ele via a morte como o fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado já no episódio da reanimação de Lázaro, quando os outros discípulos queriam persuadir Jesus a não se aproximar de Jerusalém, pois já tinha sido ameaçado de morte. Naquela ocasião, Tomé desafiou aos demais discípulos e disse: «Nós iremos para morrer com ele» (Jo 11,16).

O questionamento de Tomé se torna uma oportunidade para Jesus fornecer uma das mais profundas revelações de si: «Jesus respondeu: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim’» (v. 6). Com a declaração “Eu sou” (em grego: Εγώ είμι – egô eimí) Jesus reafirma a sua condição divina, pois essa é a fórmula de revelação do Deus do Êxodo, o Deus libertador (Ex 3,13ss); por sinal, o uso dessa fórmula é muito frequente no Evangelho de João, mas essa é a única vez em que vem seguida de três predicativos: Caminho, Verdade e Vida. Essa é a afirmação em que Jesus mais revela traços da sua identidade. Embora pareça enigmática, essa tríplice predicação é bastante simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve nenhuma regra, não estabelece nenhuma lei e não deixa nenhuma doutrina. Isso gera dúvidas e medo nos discípulos: como se comportar após a partida de Jesus? Quais os parâmetros a seguir? Para simplificar, Jesus diz que ele mesmo é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa. Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus quer dizer que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa. O caminho a ser percorrido pela comunidade cristã é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é a sua própria pessoa e a vida a ser vivida é aquela que Ele viveu e doou em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida. Porém, o evangelista aplica aqui o sentido prático e conhecido dos termos. Quer dizer que, sem Jesus, a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai. Portanto, se auto declarando como Caminho, Verdade e Vida, Jesus diz que é tudo para a comunidade cristã e essa não pode alimentar-se de nada além da sua pessoa.

Na sequência, Jesus reafirma sua unidade com o Pai em tom de advertência e lamento pela falta de perspicácia dos discípulos: «Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes» (v. 7). Num único versículo, o mesmo verbo conhecer aparece três vezes. Não se trata de um conhecimento intelectual, mas de uma experiência de intimidade e amor. O conhecimento de Deus não é fruto do intelecto, mas de uma disposição para amar e ser amado. Jesus está denunciando a falta de amor nos discípulos, até aquele momento. Se ainda não conheciam a Jesus e ao Pai, é porque ainda não estavam amando verdadeiramente, o que se evidencia pela intervenção de Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!» (v. 8). Como se vê, persistia nos discípulos a incompreensão e não aceitação da unidade entre Jesus e o Pai. Isso mostra, mais uma vez, que eles tinham dificuldade de aceitar e assimilar um Deus presente na história e relacionando-se diretamente com o seu povo, e é exatamente esse Deus que Jesus nos revela. Por isso, a resposta a Filipe é uma espécie de desabafo de Jesus, em tom de lamentação e repreensão: «Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai?’» (v. 9). Ora, Filipe foi um dos primeiros discípulos chamados por Jesus (Jo 1,43); certamente, presenciou todos os sinais realizados, mesmo assim não tinha ainda assimilado Jesus como revelador do Pai e, consequentemente, não ainda deixado se humanizar por ele.

Toda a vida de Jesus é revelação de Deus; em tudo o que faz, ele revela o Pai porque os dois vivem uma unidade perfeita: «Não acreditas que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras» (v. 10). Os discípulos devem perceber essa unidade pelo amor incondicional de Jesus, expresso em suas palavras e ações. Como último critério, ou seja, quando a vida de Jesus marcada pelo amor incondicional não for capaz de convencer, que pelo menos considerem as suas obras, os sinais realizados, para reconhecê-lo como Um com o Pai: «Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras» (v. 11). É importante essa recomendação: as obras são o último critério para a fé. O primeiro critério é o amor envolvido e a certeza da vida abundante. A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades cristãs de todos os tempos. É perceptível que o Evangelho de João concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. No Quarto Evangelho, discípulos “secundários” para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, têm um certo protagonismo (Jo 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo: o discípulo amado. Esse detalhe revela um cuidado do evangelista em relação à organização da comunidade e uma precaução com as tendências hierarquizantes. Na comunidade onde reina o amor, todos têm espaço, inclusive para questionar. O que importa é que o amor fraterno seja vivido.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 12). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (Jo 10,10).

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, abril 24, 2026

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10,1-10 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da Páscoa emprega uma passagem do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se autoapresenta como o único, autêntico e bom pastor das ovelhas. Por isso, este domingo ficou conhecido como o “Domingo do bom pastor” e, oportunamente, instituído como o “Dia mundial de oração pelas vocações”, pelo então Papa Paulo VI, no ano de 1964. Embora o evangelho deste dia seja sempre tirado do mesmo capítulo – Jo 10 –, alternam-se os textos, conforme a dinâmica do ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, faz-se a leitura da primeira parte do capítulo – Jo 10,1-10 –, que funciona como introdução ao amplo discurso de Jesus, o qual ocupa praticamente todo o capítulo. Por sinal, nestes versículos lidos hoje, Jesus ainda não se apresenta explicitamente como o pastor, mas como a porta única por onde devem passar ovelhas e pastores. Com efeito, ele só começa a ser apresentado como pastor a partir do primeiro versículo que sucede ao texto de hoje (Jo 10,11). Por outro lado, o termo ovelhas (em grego: πρόβατα – próbata) aparece sete vezes no texto de hoje, e é em função das ovelhas que o pastor existe. Como sempre, recordamos que a compreensão adequada do texto exige uma consistente contextualização, como será feita a seguir.

Dadas as particularidades do texto, faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho. Como se sabe, a imagem de Jesus como bom pastor difundiu-se amplamente no cristianismo, desde os seus primórdios. Muito cedo, tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem muito bonita, que evoca proteção e cuidado. Por isso, sempre que se fala em bom pastor, recorda-se logo dessa imagem. No entanto, ela não corresponde ao que é retratado no décimo capítulo do Evangelho de João. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade, na perspectiva da comunidade joanina. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas. E Jesus, de fato, é um pastor que humaniza e educa para a liberdade.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Aliás, em praticamente todos os povos do Antigo Oriente Próximo, no qual Israel estava inserido, a imagem do pastor possuía essa mesma conotação. Desde o Antigo Testamento, essa figura foi associada a Deus e também aos líderes que exerciam funções de guia e governo sobre o povo, como reis e sacerdotes, sobretudo. Contudo, devido às infidelidades e ao descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, tornando-se alvo das denúncias proféticas. Uma das mais contundentes é a do profeta Ezequiel: ao lamentar-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, em vez de apascentar o rebanho (Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo de suas ovelhas (Ez 34,11). Jesus retoma e atualiza a perspectiva do profeta: ao apresentar-se como o único e autêntico pastor, coloca em xeque os sacerdotes do templo e os mestres da Lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque atingiam diretamente os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por agentes do sagrado que, em vez de pastores verdadeiros, buscavam a si mesmos. A prova do incômodo causado por seu discurso aparece na reação dos líderes judeus: alguns o acusavam de estar possuído por um demônio (Jo 10,20), enquanto outros procuravam prendê-lo (Jo 10,39). Assim, a mensagem de Jesus se revelou uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si mesmos e aos seus próprios interesses, explorando o povo em vez de protegê-lo.

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito entre Jesus e os fariseus (Jo 9,1-41). Por sinal, o episódio do cego de nascença – o sexto dos sete sinais realizados por Jesus no Evangelho de João – foi lido no quarto domingo da Quaresma deste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A. Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deixou intimidar por eles e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo. O cenário do episódio é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.

A fórmula solene de introdução empregada pelo autor (em grego: αμήναμήν – amén, amén) traduzida por «Em verdade, em verdade» (v. 1), já indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus, funcionando como uma chamada de atenção aos interlocutores para a relevância do que está para ser dito. Nos evangelhos sinóticos, emprega-se apenas um “em verdade” na fórmula, que também é bastante frequente e sempre introduz declarações importantes de Jesus. O duplo “em verdade”, portanto, é exclusividade de João. Tudo o que é introduzido por essa fórmula deve ser levado muito a sério pela comunidade cristã. É sempre um ensinamento com autoridade, irrevogável. Logo, o conceito de pastor apresentado no décimo capítulo de João é vital para a comunidade cristã; é algo que não pode ser esquecido e nem distorcido. À introdução solene, segue a primeira declaração: «Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante» (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores diretos, os fariseus (Jo 9,40-41); assim, ele aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrões e bandidos.

O termo que o texto do lecionário traduz por “redil” (em grego: αυλή – aulê) significa exatamente pátio ou átrio; com isso, percebe-se que Jesus se refere ao templo de Jerusalém, dominado por uma casta sacerdotal ilegítima e corrupta, que tinha tomado o lugar do verdadeiro pastor, que é o próprio Deus e seu Filho, Jesus. Também a palavra assaltante não corresponde à ideia do autor; inclusive a prática de assaltar já está contemplada na palavra ladrão. Ao invés de assaltante o termo mais adequado é “bandido”, pois corresponde melhor à palavra grega empregada pelo autor (ληστής – lestês), que designa mais a pessoa que pratica violência do que quem assalta. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia. Ora, as denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham transformado «a casa do Pai em uma casa de negócio» no início do Evangelho (Jo 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta, por isso, são ilegítimos e devem ser destituídos.

Categoricamente, ele afirma que «quem entra pela porta, é o pastor das ovelhas» (v. 2), ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, que eram ladrões e bandidos. Obviamente, o pastor é ele mesmo, como vai se autodefinir na continuação do discurso (vv. 11.14). Aqui, no entanto, trata-se de uma identificação ainda implícita. Contudo, é óbvio que é ele o pastor das ovelhas. Somente ele recebeu permissão do Pai para comunicar-se diretamente com as ovelhas, que é a humanidade inteira. E a comunicação estabelecida entre Jesus e as ovelhas é altamente libertadora e humanizante, marcada pela confiança e abertura. Por sinal, a Jesus, o único pastor autêntico, «o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora» (v. 3). Obviamente, é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O porteiro, nesta imagem, é o próprio Deus, o Pai. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida de modo privilegiado no Evangelho. Com efeito, quem realmente escuta o Evangelho não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso ou político, mesmo que esse se autodenomine cristão. Por isso, assim como a comunidade joanina, também as comunidades de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem rechaçar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico «chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora», ou seja, não trata o povo como massa de manobra, mas o tira do anonimato, valorizando a cada pessoa em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. Como se sabe, chamar alguém pelo nome significa conhecer a sua identidade e reconhecer seu valor e dignidade. E chamar pelo nome pressupõe o conhecimento recíproco, marcado pela intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz. Inclusive, o evangelista emprega aqui o mesmo verbo do êxodo (em grego: ἐξάγω – exagô), indicando que a ação de Jesus conduzir as ovelhas para fora é semelhante à de Deus libertando o povo hebreu da escravidão do Egito. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão nociva para o povo quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, «ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz» (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para também começar a dominar. Domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, ele “caminha à frente” sem controlar e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de vida e libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica. Antes de tudo, é para a liberdade que ele aponta e conduz. Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que nela não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores nem dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga instituição religiosa, Jesus não propõe nenhuma forma de poder e dominação para sua comunidade. Ele quer apenas que a comunidade seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado e imposto em seu nome.

Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (Jo 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, «não entenderam o que Jesus queria dizer» (v. 6) com essa comparação ou parábola. Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (Jo 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta: «Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas» (v. 7). Ao apresentar-se como a porta, ele revela sua identidade divina, o que se evidencia pelo uso da expressão “eu sou” (em grego: ἐγώ εἰμί – egô eimí). Trata-se do nome de Deus no Êxodo, ao revelar-se a Moisés (Ex 3,14). Naquela ocasião, Deus revelou-se como o “Eu sou” da libertação, garantindo fidelidade e presença junto ao seu povo, para vencer a opressão do Egito, sob a mediação de Moisés. No Novo Testamento, o Evangelho de João é o escrito que mais valoriza essa expressão como revelação da identidade divina de Jesus, sobretudo nos seus principais discursos. De fato, Jesus é a revelação plena do “Eu sou”, à medida em que, enquanto o Filho, é o único mediador entre o Pai e a humanidade. Por isso, ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois ele e seu Evangelho são o critério único de pertença ao Pai.

A denúncia aos que se autointitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema: «todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram» (v. 8). Os que vieram antes deles são os mesmos que o profeta Ezequiel já tinha denunciado, mas continuaram atuando mesmo depois da denúncia. Finalmente, eles estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida em que a voz de Jesus vai sendo ouvida no mundo, através do Evangelho. Portanto, quanto mais o Evangelho for ouvido, mais emancipada se torna a comunidade, e mais humanas se tornam as pessoas que se deixam conduzir pela única Palavra que liberta e gera vida. Por isso, é tão necessário o discernimento na vida cristã, para que a única voz a ser ouvida seja a de Jesus e essa voz se torne cada vez mais inconfundível.

À medida em que repete sua autoafirmação como a porta, Jesus ressalta a falência da instituição religiosa de Israel, incapaz de gerar vida e promover libertação: «Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem» (v. 9). Aqui, ao se autoafirmar como porta, mais uma vez, ele se apresenta implicitamente como o bom pastor, aquele que é capaz de fornecer boa pastagem às ovelhas, como retratado no conhecido Salmo 22. Como o Evangelho e a Lei são inconciliáveis, “só será salvo quem entrar por ele”; somente assim alguém poderá “entrar e sair” encontrando a pastagem necessária para a vida. Seu programa de vida é marcado pela liberdade e só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, significa extrema oposição à Lei e ao sistema religioso que aprisionava e até matava em nome de Deus. A pastagem encontrada quando se passa por ele é a liberdade e a vida plena e abundante que ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona, enquanto a Lei interpretada e aplicada pelos fariseus, mestres e sacerdotes impedia o acesso. A vida em abundância não significa uma vida para o além, mas a realização plena do ser humano em sua vida neste mundo, a qual não será destruída nem mesmo pela morte.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de normas e doutrinas pré-concebidas, mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação e nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam está de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente. Enfim, que nossas comunidades sejam espaço onde as pessoas possam viver em liberdade, caminhando com os próprios pés sob a orientação da única voz autêntica: o Evangelho de Jesus Cristo, o Crucificado que ressuscitou e caminha à nossa frente. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, abril 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DA PÁSCOA – Lc 24,13-35 (ANO A)



Do Evangelho de João, lido nos dois primeiros domingos da Páscoa, a liturgia do terceiro domingo passa para o Evangelho de Lucas, propondo a leitura de um dos seus textos mais profundos: Lc 24,13-35. O episódio narrado nesta passagem, conhecido popularmente como “os discípulos de Emaús”, retrata a experiência de encontro de dois discípulos com o Cristo Ressuscitado, enquanto retornavam de Jerusalém, desiludidos e tristes, após o drama da paixão e o escândalo da cruz. Além da profundidade teológica, esse texto se destaca também pela beleza; é uma verdadeira obra-prima de Lucas, o autor mais refinado do Novo Testamento na arte de narrar. Por isso, é um texto que sempre despertou atenção entre os leitores e leitoras de todos os tempos. Nele, o autor revelou suas qualidades de teólogo, catequista e narrador de modo quase exagerado. Pela extensão literária, não temos condições de comentá-lo versículo a versículo. Procuramos colher a mensagem central, destacando alguns versículos e informações mais relevantes.

Sendo um texto exclusivo de Lucas, esse episódio dos discípulos de Emaús funciona como síntese e conclusão do Terceiro Evangelho e já pode ser considerado também uma introdução ao segundo volume de sua obra, o livro de Atos dos Apóstolos. No contexto narrativo imediato, é apenas um episódio de transição entre a cena da descoberta do sepulcro vazio (Lc 24,1-12) e a manifestação do Cristo Ressuscitado aos discípulos reunidos em Jerusalém (Lc 24,36-49). Essa observação nos leva a reconhecer ainda mais a habilidade de Lucas, pois esse intervalo entre a descoberta do sepulcro vazio e a aparição do Ressuscitado aos discípulos reunidos constitui um vazio nos outros evangelhos. E Lucas, não apenas quis preencher um vácuo, mas o fez dando o melhor de si, construindo um episódio insuperável. É claro que ele fez isso pensando nas necessidades de suas comunidades e nos seus leitores e leitoras de todos os tempos. Primeiro, ele quis mostrar a intensidade daquele dia: não foi um dia qualquer, mas um dia especial, um dia repleto de novidades, enquanto começo de uma nova história. Um dia surpreendente em todos os sentidos, a ponto de ter sido reconhecido pelas primeiras gerações cristãs como o “Dia do Senhor”, o tão esperando “dia que o Senhor fez para nós” (Sl 117), tão cantado por séculos na liturgia de Israel e, finalmente realizado, com a ressurreição de Jesus de Nazaré, o Cristo e Filho de Deus.

É um texto que sintetiza todo Evangelho de Lucas porque resume o mistério da vida de Jesus, amplamente marcada pela dinâmica do caminho e pela continuidade com as profecias do Antigo Testamento. Desde a caminhada de Maria ao encontro de Isabel, no início do Evangelho (Lc 1,39-45), passando pelas andanças de Jesus na Galileia e seu longo caminho para Jerusalém com seus discípulos (Lc 9,51–19,44), Lucas apresentou o caminho como metáfora da história da salvação/libertação e de todo processo formativo e catequético. Agora, ele apresenta o caminho como meio indispensável para a experiência com o Ressuscitado. É um texto que pode ser considerado conclusão do Evangelho, não apenas por se tratar do último capítulo, literariamente falando, mas porque culmina com a experiência do encontro da comunidade reunida com o Ressuscitado e o cumprimento da missão de anunciá-lo. Depois dos eventos narrados neste episódio, a comunidade cristã, em todos os tempos, tem todas as chaves de leitura para experimentar o Ressuscitado em seu meio, sentindo a sua presença e compartilhando a experiência com ele. E o caminho é um meio indispensável para tudo isso. Por isso, percebemos nesse texto também uma introdução antecipada ao livro de Atos dos Apóstolos, no qual Lucas narra a expansão da experiência transformadora do encontro com o Ressuscitado até os confins da terra (At 1,8).

O texto começa com um indicativo temporal importante: «Naquele mesmo dia, o primeiro da semana» (v. 13a). Sobre o sentido deste dia, já acenamos um pouco na introdução. É importante perceber que o evangelista faz questão de apresentar momentos diferentes de um mesmo dia: a ida das mulheres ao sepulcro nas primeiras horas (24,1), e depois a ida de Pedro (24,12) e, no final do dia, a viagem dos dois discípulos, conforme o texto de hoje, até o encontro fraterno dos Onze e os demais discípulos em Jerusalém (24,33ss). Portanto, o dia do acontecimento é o dia mesmo da Páscoa, o domingo da ressurreição. Foi um dia intenso, único e irrepetível. Contudo, a comunidade tem a missão de estendê-lo para sempre, torná-lo perene. A vida cristã é um prolongamento contínuo daquele dia, que é hoje e todo novo dia; não a repetição, pois aquele dia não tem fim! Na sequência, diz o texto que, naquele mesmo domingo, «dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém» (v. 13); essa expressão também traz informações muito importantes: se dois discípulos tinham saído de Jerusalém, e quando voltam encontram os Onze reunidos (v. 33), logo, o grupo de discípulos era muito mais vasto que o grupo dos apóstolos propriamente ditos. Ao apresentar esses dois, Lucas resgata a grande missão dos setenta e dois, quando Jesus os enviou dois a dois (Lc 10,1-20). Esse é mais um passo em preparação aos Atos dos Apóstolos e um modo de dizer que a missão não é monopólio dos Doze menos um (os Onze após a saída de Judas), mas é aberta, inclusiva e universal.

Muito se tem discutido, na exegese atual, sobre a identidade desses dois discípulos. O texto vai informar o nome de um deles, apenas, chamado Cléofas (v. 18). Alguns estudiosos defendem a tese de que era um casal, logo, o outro discípulo seria uma mulher. Trata-se de uma hipótese considerável, mas não indispensável. Ao longo de todo o seu Evangelho, Lucas já deu demonstração suficiente da importância das mulheres na vida de Jesus e na missão da Igreja e, sobretudo, na sua perspectiva teológica. Por isso, essa suposição é indiferente para o valor do texto, sobretudo, porque não se trata de uma crônica, e sim de uma narrativa catequética. O lugar da mulher na teologia e visão de Igreja de Lucas já está assegurado. O destino dos discípulos antecipa o estado de ânimo em que se encontravam, e o texto vai revelar posteriormente: «iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém» (v. 13); após toda uma vivência com Jesus, o retorno ao povoado é sinal de incompreensão e decepção, pois o povoado significa o fechamento de mentalidade, é o lugar onde o que vale é aquilo que está na Lei. O nome Emaús significa «fonte quente»; esse povoado teve importância no tempo dos macabeus, pois fora palco de uma batalha dos judeus liderados por Judas Macabeu contra os pagãos, e vencida pelos judeus (1Mc 3,40–4,27). Se trata de um lugar que evoca nacionalismo, por isso, Lucas enfatiza esse povoado como antítese ao seu projeto missionário: em Emaús se cultivava o ideal tradicional e triunfalista do judaísmo; logo, não era lugar para os discípulos de Jesus! Isso se explica pelo fato de que eles não permanecerão em Emaús após o reconhecimento do Ressuscitado, mas voltarão imediatamente a Jerusalém.

Nesse texto, Lucas preserva e reforça a função pedagógica do caminho, presente em toda a sua teologia e amplamente confirmada aqui. Por isso, ele diz que, enquanto caminhavam, os discípulos «Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido» (v. 14). Caminhar é aprender e ensinar, é partilhar. Mais do que fazer um percurso físico, caminhar, na perspectiva de Lucas, significa assumir a condição de discípulo e discípula; representa a situação do aprendente. O caminho constitui um verdadeiro estilo de vida, por isso, em Atos dos Apóstolos será um dos nomes da Igreja. Obviamente, para quem tinha seguido Jesus, o assunto não poderia ser outro senão os últimos acontecimentos da sua vida. Para dizer que os discípulos conversavam, o evangelista emprega um verbo grego que significa literalmente «fazer homilia» (em grego: ὁμιλέω – homileô). Com isso, ele indica que é a vida de Jesus que deve ser o conteúdo do anúncio e de tudo o que se conversa na comunidade de fé. A vida de Jesus é o parâmetro. Os discípulos caminhavam tristes, certamente discutiam sobre as esperanças que imaginavam ter perdido e os sonhos frustrados, como gente que perdeu tempo seguindo a um fracassado que morreu na cruz; tudo isso fica claro na conversa a três, quando Jesus surge no caminho e passa a interagir com eles. O escândalo da cruz deixou os discípulos decepcionados, mas levavam as recordações, não tinham esquecido o que tinham vivido, apesar da desilusão e decepção. E isso é importante, pois será decisivo nas descobertas que ainda farão, à medida em que fluir o caminho e a discussão.

Durante o caminho, o evangelista diz que «Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles» (v. 15). A novidade do texto começa exatamente aqui. O Cristo Ressuscitado é um caminhante, um peregrino, como foi Jesus de Nazaré durante o seu curto ministério. Porém, em seu curto ministério, os caminhos percorridos por Jesus de Nazaré também foram curtos, condicionados às circunstâncias de tempo e espaço. O caminho do Ressuscitado, pelo contrário, é ilimitado e universal. Em qualquer lugar e em qualquer tempo, ele se aproxima e caminha junto, sobretudo, de quem já caminhava por causa dele, como os dois que retornavam para Emaús. Mas a presença de Jesus não é reconhecida de imediato, o que se explica pela cegueira dos discípulos, recordada pelo evangelista (v. 16). Obviamente, não se trata de uma cegueira física, o que os impediria de caminhar sozinhos; é uma cegueira de mentalidade. É interessante perceber que, embora desiludidos e decepcionados, aqueles discípulos falavam de Jesus e tinham um bom conceito a seu respeito: «Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo» (v. 19). Como se vê, os dois discípulos não estão longe da verdade. Eles mantêm a boa impressão sobre Jesus, o reconhecem como profeta e recordam a grandeza do seu agir e do seu ensinamento. Com efeito, a expressão “obras e palavras”, aplicada a Jesus, significa uma síntese da sua vida. Uma das dimensões irrenunciáveis da comunidade cristã consiste exatamente em fazer memória de tudo o que fez e ensinou (At 1,1). Isso quer dizer que, por meio da comunidade, ele continua agindo e ensinando. A propósito do reconhecimento de Jesus como profeta, trata-se de um traço particularmente relevante para Lucas, mesmo sabendo que Jesus é mais que profeta. Contudo, de todos as figuras de mediador presentes no Antigo Testamento a que mais se aproxima de Jesus é a figura do profeta. Por isso, Lucas insiste na identificação de Jesus como profeta, especialmente quando as pessoas ainda não tem clareza da sua real identidade de Messias e Salvador do mundo. 

Os dois discípulos lamentam ter de voltar ao “povoado”, pois já sabem que o mal está na tradição quando afirmam com muita clareza que foram «os sumos sacerdotes e os chefes que o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram» (v. 20); por isso, não querem mais submeter-se a ela. Estavam voltando por falta de perspectivas. Mas em nenhum momento foram pessoas fechadas, apesar da cegueira. O motivo da decepção e do não reconhecimento de Jesus em seu meio está na concepção equivocada de messias, como eles mesmos afirmam: «Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel» (v. 21). Ora, eles eram judeus nacionalistas e, por isso, esperavam o Messias restaurador, triunfalista e guerreiro. Como não tinham compreendido a mensagem libertadora de Jesus, também não compreenderam a sua morte de cruz. De fato, a cruz foi escândalo para eles e para todos os que alimentaram expectativas triunfalistas com a messianidade de Jesus. Ora, Jesus não veio ao mundo para libertar Israel, mas a humanidade inteira, não pelo uso da força, e sim por meio do seu amor humanizante! Essa mentalidade equivocada dos discípulos pode ser corrigida com uma boa interpretação da Escritura, como faz o próprio Jesus: «E, começando por Moisés e passando pelos profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele» (v. 27). Aqui começa a reviravolta no episódio. Jesus passa a explicar as Escrituras para convencer os discípulos decepcionados a mudar a mentalidade. É necessário abrir o horizonte da consciência para compreender e aceitar que a mensagem libertadora de Jesus é universal, e não destinada a um único povo. Essa nova compreensão da Escritura não é tudo, mas é um passo importante no processo de reconhecimento do Ressuscitado; a ela, deve-se acrescentar a experiência comunitária da partilha, da comunhão de mesa, como se dará, finalmente (vv. 30-31).

É importante perceber que a explicação de Jesus compreende a totalidade da Escritura, e não passagens isoladas. Ele faz uma leitura do complexo que constitui a Escritura – Moisés e os Profetas – para mostrar a continuidade da sua mensagem e sua conformidade aos planos de Deus. O verbo grego empregado pelo evangelista e traduzido por “explicar” significa literalmente “fazer hermenêutica” (em grego: διερμηνεύω – diermenuô). Com isso, Lucas diz que Jesus é o verdadeiro hermeneuta da Escritura. A mensagem de Moisés e dos Profetas só tem sentido para a comunidade cristã se passar por Jesus, enquanto critério de interpretação. Ora, os chefes de Israel – escribas, anciãos e sacerdotes – condenaram Jesus, em conluio com o poder romano, também com base numa interpretação da Escritura. Isso serve de advertência para a comunidade cristã em todos os tempos: é preciso aplicar à Escritura uma hermenêutica libertadora, que gere vida, ou seja, uma explicação que conduza para o bem e suscite amor na comunidade. O mau uso, a má explicação da Escritura gera fundamentalismo, fechamento e, por consequência, gera morte. E a hermenêutica – explicação – de Jesus mexeu com os discípulos. Mesmo não reconhecendo ainda a presença do Ressuscitado naquele desconhecido companheiro de viagem, os discípulos parecem não ter perdido completamente a esperança; na verdade, a esperança parece que começou a renascer dentro deles depois que o forasteiro começou a caminhar com eles, tanto que “imploram” que permanecesse com eles: «Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!» (v. 29). Portanto, os discípulos perceberam que não podiam ficar sozinhos no povoado e, por isso, imploraram que o forasteiro permanecesse com eles, porque daquela conversa, a esperança estava voltando; por isso, queriam evitar o retorno às trevas da vida no povoado, que significa o retorno ao julgo da Lei e a falta de qualquer perspetiva de transformação. Ficar sozinhos no povoado era o mesmo que permanecer nas trevas. A expressão «a noite vem chegando», mais do que um dado cronológico, é um dado teológico: é a vida fechada, sem perspetivas e esperanças, da qual eles tinham saído e não queriam mais voltar. Estavam voltando por força das circunstâncias, mas contra a vontade. Por isso, insistiram para que o peregrino forasteiro permanecesse com eles, pois a conversa franca com ele estava mexendo com o coração e consciência deles.

Jesus, ainda como forasteiro, atende aos discípulos que imploram a sua presença e senta-se com eles à mesa (v. 30). A refeição tem um sentido muito profundo no Evangelho de Lucas e é, portanto, necessário perceber essa importância para não reduzirmos esse texto a uma mera descrição de uma celebração eucarística, como muitas interpretações reducionistas tem feito. Ao longo de todo o Evangelho, Lucas apresentou Jesus sentando à mesa com pessoas de diferentes classes sociais e religiosas: fez refeição na casa de um fariseu de nome Simão (Lc 7,36-50); outra vez foi na casa de um dos chefes dos fariseus (Lc 14,1-6); ao hospedar-se na casa de Zaqueu, pecador público, também se sentou com ele à mesa e fez refeição (Lc 19,1-10). É necessário, pois, ter em mente que a mesa-refeição é, ao longo de todo o Evangelho de Lucas, um espaço-momento de revelação da identidade de Jesus, pois significa, partilha, fraternidade, companheirismo e acolhida. Como tinham sido profundamente incomodados pela explicação da Escritura que Jesus tinha dado, o que os levou a uma revisão de conceitos e de compreensão da mesma, faltava pouco para seus olhos abrirem-se, ou seja, para saírem definitivamente da situação de trevas em que se encontravam. E, foi, portanto, a experiência da partilha que proporcionou a certeza da presença do ressuscitado no meio deles.

Essa é a resposta que Lucas quis dar às suas comunidades: o Ressuscitado está presente no dia-a-dia, quando a comunidade caminha, reflete sobre a Palavra, dialoga e partilha o pão; são essas as ocasiões propícias para a comunidade abrir os olhos (v. 31a). Quem segue esses passos, já não necessita mais de uma visão ou aparição (v. 31b). Finalmente, como último passo de uma comunidade que faz a experiência do encontro com o Ressuscitado, Lucas apresenta a missão, tema caro para a sua teologia e que será mais desenvolvido no livro dos Atos dos Apóstolos, antecipado no Evangelho de hoje pela iniciativa dos discípulos: «se levantaram e voltaram para Jerusalém» (v. 33). Para Lucas, contudo, Jerusalém não significa apenas chegada, mas o ponto de partida da missão universal. O retorno dos discípulos para lá, portanto, significa que eles abraçaram o projeto de salvação universal de Jesus e, de lá, se comprometem a espalhar esse projeto para o mundo.

Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados por Lucas a fazer um esforço constante de reconhecimento do ressuscitado, percebendo sua presença na comunidade para que jamais falte esperança, amor, partilha, solidariedade e companheirismo. Para isso, é necessário caminhar, se aprofundar no conhecimento da Escritura e viver, acima de tudo, a partilha. De fato, o critério último e definitivo de reconhecimento da experiência com o Ressuscitado é a partilha do pão; essa, não pode ser reduzido a um rito ou gesto, mas deve ser o resultado de um estilo de vida que passa pela vivência da Palavra, o significado prático do conhecimento das Escrituras.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró

sexta-feira, abril 10, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DE PÁSCOA – Jo 20,19-31 (ANO A)

 


Como acontece no primeiro Domingo de Páscoa, também no Segundo Domingo a liturgia o mesmo evangelho é o mesmo para todos os anos. No caso do segundo, o trecho lido é Jo 20,19-31, passagem que narra a continuação dos eventos envolvendo a comunidade de discípulos no dia mesmo da ressurreição, e a sua quase repetição uma semana depois. Para compreendê-lo melhor, é necessário recordar alguns elementos do texto da liturgia do domingo passado, o qual apresentava a comunidade completamente desnorteada, não apenas porque o Senhor e mestre fora morto, mas porque até mesmo o seu cadáver parecia ter sido roubado (Jo 20,1-3). Naquela ocasião, o evangelista dava sinais de uma nova criação, embora ainda estivesse na fase do caos, simbolizado pelo escuro da madrugada (Jo 20,1). Três personagens protagonizaram aquele relato: Maria Madalena, Pedro e o Discípulo Amado; ambos fizeram a constatação do sepulcro vazio, mas somente um deles interpretou, de imediato, a ausência do corpo como sinal da ressurreição: o Discípulo Amado (Jo 20,8). Maria Madalena foi a segunda a acreditar, mas já durante o dia, após confundir o Senhor com o jardineiro (Jo 20,16-18), porém esse episódio já não constava no texto que fora lido no domingo.

Da madrugada do primeiro dia, a liturgia de hoje passa para o anoitecer do mesmo dia, como diz o texto: «Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: ‘A paz esteja convosco’» (v. 19). Não obstante as frustrações e decepções com o final trágico de seu líder, condenado e morto na cruz, a reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma normal dispersão. Certamente, o anúncio de Maria Madalena – «Eu vi o Senhor!» (Jo 20,18) – influenciou nesse processo de recomposição, junto à fé do Discípulo Amado, ao constatar o sepulcro vazio em companhia de Pedro, ainda na madrugada daquele dia. Embora se recompondo, a comunidade continuava em crise, o que se evidencia pela situação de medo informada pelo evangelista. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das lideranças religiosas que condenaram Jesus em conluio com o império. É típico de João usar o termo “judeus” em referência aos líderes, e não a todo o povo. Do início ao fim do Quarto Evangelho, eles são apresentados como verdadeiros antagonistas de Jesus, buscando impedir a realização da sua missão libertadora a qualquer custo. Porém, não conseguiram, mesmo tendo contribuído para sua morte na cruz. Por isso, o medo deles da parte dos discípulos é até compreensível, apesar de inaceitável. De fato, o medo é preocupante, é um impedimento para a missão; é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns. O principal motivo do medo era a possibilidade clara de perseguição; os discípulos temiam ter o mesmo final trágico do mestre, ou seja, a condenação à morte de cruz.

Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles um processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz, que, nesse texto, não significa apenas a típica saudação dos judeus (shalom), mas o cumprimento de uma promessa que, por sinal, responde às necessidades reais da comunidade acuada pelo medo. Ora, durante a ceia, vendo seus discípulos angustiados (Jo 14,1), Jesus encorajou-os e prometeu-lhes a paz: «Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz» (Jo 14,27a). Naquele contexto, no entanto, os discípulos não assimilaram esse dom, devido à angústia pela qual passavam. Na verdade, todo este relato do evangelho de hoje deve ser lido na perspectiva da dinâmica promessa–cumprimento: a própria manifestação (aparição) do Ressuscitado à comunidade é também cumprimento de uma promessa: «Vou e volto a vós» (Jo 14,28), como é a doação do Espírito Santo. O Ressuscitado não retorna ao mundo para fazer um julgamento ou prestação de contas, mas para continuar a sua obra de amor, cumprindo suas promessas e continuando a mostrar com gestos e palavras que o Pai lhe enviou ao mundo para, acima de tudo, amar sem medidas. O encontro com a paz de Jesus levanta o ânimo da comunidade que parecia fracassada. Ele comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade ideal: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado; é Ele o único ponto de referência e fator de unidade.

Na continuidade da experiência, diz o texto que Jesus «mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor» (v. 20). Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Crucificado: trata-se da mesma pessoa. Geralmente, esse gesto é interpretado apenas como uma demonstração material da ressurreição: as chagas do Crucificado continuam no Ressuscitado. No entanto, aqui, as mãos e o lado não são apenas as marcas da paixão; são os sinais da identidade de Jesus de Nazaré que continuam no Cristo Ressuscitado, porque é a mesma pessoa. E os principais traços da identidade de Jesus são o serviço e o amor; foi isso que ele demonstrou em toda a sua vida terrena. Portanto, Jesus diz, com esse gesto, que continua servindo e amando, e sua comunidade deve também viver dessa forma. As mãos são sinais do serviço, e o lado é sinal do amor, pois representa o coração. Estes sinais revelam elementos essenciais da identidade e missão da comunidade: amar e servir, servir e amar, não importa a ordem das palavras. O importante é que serviço e amor não podem faltar numa comunidade cristã. E a certeza da presença do Ressuscitado faz a comunidade superar definitivamente o medo, passando à alegria. De fato, os discípulos se alegram por verem o Senhor. Essa alegria é carregada de alívio e esperança, tornando-se também um sinal de encorajamento no processo de superação do medo.

Já estabelecido como centro da comunidade, «novamente Jesus disse: ‘A paz esteja convosco’» (v. 21a). A paz é novamente oferecida, porque a passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia nos discípulos; por isso a paz é doada novamente para enfatizar a serenidade e o equilíbrio que devem existir na comunidade. Só é possível acolher os dons pascais estando realmente em paz. Aqui, a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas. Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: «Como o Pai me enviou, também eu vos envio» (v. 21b). Ao contrário de Mateus e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (Mt 28,19; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: «Como o Pai me enviou, também eu vos envio». Jesus simplesmente os envia. Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, João pensa na comunidade, em primeiro lugar. É essa a primeira instância da missão, porque é nessa onde estão as situações de medo, de desconfiança, de falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado.  

O texto mostra, como sempre, a coerência de Jesus: «E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo» (v. 22). Ora, ele tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos durante a ceia (Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, o Espírito é comunicado e a promessa é cumprida. O evangelista usa o mesmo verbo/gesto do relato da primeira criação do ser humano (Gn 2,7). O Evangelho do domingo passado mostrava a nova criação em sua primeira fase; hoje, essa criação chega ao seu ponto alto com o sopro de vida comunicado pelo Ressuscitado. Nessa nova criação, o “Criador” já não age como um vigilante, olhando de cima, mas se faz presente no meio da comunidade, deixando-se tocar, vivendo como um igual entre as pessoas. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo) significa doação de vida. Literalmente, quer dizer soprar para dentro do outro, como fez Deus na criação, soprando dentro das narinas da escultura de barro e, assim, transformando-a em ser vivo. Desse modo, podemos dizer que Jesus, ao soprar sobre os seus discípulos, transmitiu-lhes vida, recriando a comunidade e, nessa, a humanidade inteira. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. E é o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro. E isso se faz através do amor e do serviço. Ao contrário da perspectiva de Lucas, que aguarda para o dia de Pentecostes (cinquenta dias após a páscoa), em João o Espírito Santo é doado no dia mesmo da ressurreição, o que parece mais lógico, tendo em vista a situação da comunidade paralisada pelo medo. A força do Espírito Santo era uma necessidade urgente para reanimar a comunidade.

O dom do Espírito Santo fortalece a comunidade e lhe confere uma grande responsabilidade: «A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos» (v. 23). Por muito tempo, essa passagem foi usada apenas para fundamentar o sacramento da penitência. Mas Jesus não está dando um poder aos discípulos, e sim confiando-lhes uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas, de todos os lugares e em todos os tempos. Não se trata, portanto, de um poder para determinar se um pecado pode ser perdoado ou não. É a responsabilidade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus e, assim, humanizado.  Os discípulos têm a missão de ser comunicadores desse Espírito em todas as realidades. Ora, Jesus fora definido pelo Batista como o «Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29); para isso fora enviado pelo Pai. E é à maneira do Pai que ele envia seus discípulos em todos os tempos: «Como o Pai me enviou, também eu vos envio» (v. 21). Portanto, os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se difundindo no mundo, e isso se dá pelo testemunho dos seus discípulos e pela força do Espírito Santo. Ficam pecados sem perdão, portanto, quando há omissão dos discípulos, quando eles deixam de amar e servir à maneira de Jesus.

A comunidade não estava completa naquele primeiro dia: assim como Judas não fazia mais parte do grupo, também «Tomé, chamado Dídimo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio» (v. 24). É necessário destacar algumas características desse discípulo, considerando que ele foi bastante rotulado negativamente ao longo da história. Ora, o motivo pelo qual os discípulos estavam reunidos com portas fechadas era o medo. Provavelmente, Tomé não estava trancado com eles porque não tinha medo. A evidência maior da coragem de Tomé aparece no relato da reanimação de Lázaro. Jesus estava ameaçado de morte, e quando decidiu ir à Judeia, onde ficava Betânia, a cidade de Lázaro, Tomé foi o único que se dispôs a ir para morrer com ele: «Tomé, chamado Dídimo, disse então aos condiscípulos: ‘Vamos também nós, para morrermos com ele!’» (Jo 11,16). Por isso, ele não tinha nenhum motivo para esconder-se. Essa sua coragem foi ofuscada pelo rótulo de incrédulo. Quanto à fé no Ressuscitado, a diferença de Tomé para os demais deve-se ao intervalo de uma semana. Não estava reunido no primeiro dia e não acreditou no testemunho da comunidade: «Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!”. Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”» (v. 25). Não dar credibilidade ao testemunho da comunidade foi o grande erro de Tomé, mas ao exigir evidências da ressurreição, ele agiu como os demais. Ora, à exceção do Discípulo Amado, o qual viu e acreditou logo ao contemplar o sepulcro vazio (Jo 20,8), os demais também só acreditaram após a manifestação do Senhor entre eles.

E mesmo sem acreditar ainda na ressurreição pelo primeiro anúncio dos companheiros, Tomé se reintegrou à comunidade. Assim, «Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”» (v. 26). Embora a reunião ainda aconteça às portas fechadas, o medo não é mais mencionado; certamente, fora superado, graças à paz e ao Espírito Santo comunicados pelo Ressuscitado no primeiro dia. Também é importante indicativo temporal «oito dias depois»; essa expressão significa uma semana depois; é explícita a referência ao domingo – o qual pode ser contado como o primeiro ou o oitavo dia da semana – como dia de reunião dos discípulos, como sinal de que a comunidade cristã já não está mais presa aos esquemas do judaísmo, e não necessita mais do sábado para fazer a sua experiência com o Senhor. Temos aqui um dado claro de ruptura entre a comunidade cristã e a sinagoga, embora nas primeiras décadas, por falta de clareza, muitos cristãos frequentavam as duas reuniões: a da sinagoga, no sábado, e a da comunidade de discípulos no domingo, na casa de um dos membros da comunidade. Mas o texto deixa claro que, no final da última década do primeiro século, data provável da redação deste evangelho, o domingo já estava consolidado como o dia de reunião e encontro da comunidade.

O Senhor se pôs de novo no meio dos discípulos, com a presença de Tomé, conferindo novamente o dom da paz, sem o qual a comunidade não se sustenta. Assim como fez com os demais, uma semana antes, também a Tomé Jesus dá os sinais da sua identidade de Ressuscitado-Crucificado, que só sabe servir e amar: «Depois disse a Tomé: ‘Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel!’» (v. 27). Quando, assim como os demais, Tomé teve certeza da ressurreição, superou aos demais na intensidade e na convicção da fé; provavelmente, não tocou as mãos e o lado, como aparece na maioria das pinturas. Certamente, não precisou disso. É mais provável que tenha se jogado aos pés de Jesus, com essa solene declaração de fé: «Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!”» (v. 28). Essa é a mais profunda profissão de fé de todos os evangelhos. Jesus já tinha sido reconhecido como Mestre, como Messias, Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus, mas como Deus mesmo, essa foi a primeira vez. Com isso, o evangelista ensina que não importa o tempo em que alguém adere à fé; o que conta é a intensidade e a convicção dessa fé, o que muitas vezes exige um certo tempo para amadurecer. Neste sentido, Tomé é o discípulo modelo.

Ainda sobre Tomé, diz o evangelista que ele era chamado Dídimo (em grego: Δίδυμος – dídimos), cujo significado é gêmeo. No entanto, o evangelista não apresenta o irmão gêmeo de Tomé, mas deixa no anonimato. E os personagens anônimos do Quarto Evangelho têm função paradigmática para a comunidade e os leitores de todos os tempos. Na verdade, o primeiro gêmeo de Tomé é o próprio Jesus, não biologicamente, mas teologicamente. Daí o convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a também tomarem Tomé como irmão gêmeo: questionador, corajoso, atento, sincero, perspicaz e convicto. É claro que se ele estivesse com a comunidade logo no primeiro dia, teria antecipado a sua profissão de fé. Mas é importante ser prudente e esperar, principalmente nos tempos atuais, com tantas visões, aparições e falsas certezas imediatas. Se muitos e muitas videntes dos tempos atuais, assumissem a sua consanguinidade com Tomé, ou seja, se o reconhecessem como gêmeo, teríamos um cristianismo mais evangélico e autêntico, com mais convicção e menos fantasia.

A bem-aventurança proclamada por Jesus: «Bem-aventurados os que creram sem terem visto» (v. 29), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, após a morte dos apóstolos e das demais testemunhas de primeira hora. Os novos membros da comunidade joanina eram muito questionadores e chegavam a duvidar do anúncio, exigindo provas concretas da ressurreição. Por isso, o evangelista quis responder a essa realidade, mostrando que não há necessidade de visões e aparições; basta integrar-se a uma comunidade de fé para experimentar a presença do Ressuscitado. Na verdade, o evangelista usou Tomé como personagem simbólico da transição entre duas fases distintas na vida da comunidade: a geração dos que viram pessoalmente o Senhor, e a dos que aderiram a ele pela fé e o anúncio-testemunho. E não há supremacia de uma sobre a outra. O que importa é crer, o que significa plena adesão ao Evangelho. A presença do Ressuscitado pode ser verificada quando uma comunidade tem o serviço e o amor como sinais distintivos; a ausência desses sinais significa que o Ressuscitado não é o centro da comunidade.

Os versículos finais mostram que esse texto é a conclusão original do Evangelho de João: «Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome» (vv. 30-31). Aqui está também a chave de leitura para todo o Evangelho: a promoção da vida; vida que para ser plena de sentido necessita do encontro com Jesus, o Cristo, o Ressuscitado que foi crucificado. O objetivo do Evangelho, portanto, é despertar a fé de pessoas e comunidades no Cristo que viveu para servir e amar. Animada pelo dom do Espírito Santo, a Igreja, em todos os tempos só pode se apresentar como pertencente a Jesus Cristo, o Filho de Deus Ressuscitado, com mãos abertas para servir e um coração capaz de sangrar por amor à humanidade. O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para responder a uma outra necessidade: o resgate da imagem de Simão Pedro, que tinha ficado bastante comprometida na comunidade devido à negação e outras incoerências; e para mostrar que sempre há a possibilidade de reabilitação e admissão à comunidade, não obstante os momentos de infidelidade e incoerência. 

A comunidade reunida é o lugar privilegiado de manifestação do Ressuscitado. Não importa o tempo e o lugar da adesão à fé; o que importa é acolher a paz que o Ressuscitado oferece e viver animado(a) pelo Espírito que ele transmite. E que o esse mesmo Espírito ajude a reconhecê-lo nos crucificados de sempre, ao longo da história: os pobres, feridos e marginalizados nas mais diversas situações. A fé no Ressuscitado é autêntica, de fato, quando há disponibilidade para amar e servir, como ele fez. A exigência de Tomé foi, na verdade, uma advertência do evangelista: o seguimento de Jesus exige que se toque em feridas. Tocar as feridas das pessoas necessitadas, sanando suas dores, é fazer experiência com o Ressuscitado.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,1-12 (ANO A)

Todos os anos, a liturgia do quinto e do sexto domingo do tempo pascal utiliza textos do chamado «testamento de Jesus» do Quarto Evangelho...