sexta-feira, julho 12, 2024

REFLEXÃO PARA O 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,7-13 (ANO B)


O evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que relata o primeiro envio missionário dos Doze apóstolos por Jesus, sendo, por isso, paradigmático para a missão cristã em todos os tempos. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos, sendo a versão de Marcos considerada mais original, sobretudo por ser a mais antiga, servindo de base para os outros (Mt 10,1.9-14; Lc 9,1-6). Para compreendê-lo adequadamente, é necessário inseri-lo no devido contexto, como faremos a seguir. E começamos recordando o episódio anterior: a ida de Jesus com os discípulos à sua terra natal, Nazaré, num dia de sábado, quando ele foi desacreditado e rejeitado pelos seus conterrâneos, enquanto pregava na sinagoga (Mc 6,1-6), conforme refletimos no domingo passado. Ao sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito, os esforços deveriam ser ainda mais intensificados daquele momento em diante. Era necessário, portanto, que a missão fosse ampliada com urgência. Ora, Jesus sabia que a rejeição sofrida em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus conterrâneos na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o Israel. Diante disso, tomou a decisão de enviar seus discípulos, especialmente o grupo dos Doze, para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de Deus frutificassem com mais urgência.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que, quando constituiu o grupo dos Doze, Jesus lhes conferiu duas atribuições: «E constituiu Doze para estarem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios» (Mc 3,14). Como se vê, o discipulado comporta duas dimensões essenciais: o “estar com Jesus” e a missão. A missão, ou seja, o “ser enviado” é consequência do “estar com ele”. Ora, até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando a sua pregação e observando os sinais realizados. Em outras palavras, até então eles estavam aprendendo com Jesus, vivendo o indispensável processo formativo, o que revela as habilidades pedagógicas de Jesus e serve de advertência para a comunidade cristã em todos os tempos, pois o anúncio do Evangelho não pode ser improvisado. Antes do envio, os discípulos vivem um intenso processo de formação estando com Jesus, no qual, mais do que aprender conhecimentos teóricos, eles são humanizados pelo estilo de vida do mestre. O episódio de Nazaré fez Jesus perceber que tinha chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (Mc 8,33; 10,35), mas isso faz parte de todo processo pedagógico, daí a necessidade da formação permanente em todos os âmbitos da existência. Era necessário fazer uma primeira experiência de missão, tendo em vista as exigências das circunstâncias.

Como já foi acenado, ao invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da necessidade de ampliar o arco da sua missão, por isso, diz o evangelista que ele «chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois» (v. 7a). Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova chegar a mais lugares simultaneamente, o que reforça a urgência da instauração do Reino. Por isso, Jesus chama os Doze e os envia dois a dois para enfatizar a dimensão comunitária da fé. É significativo o emprego do verbo chamar, aqui, uma vez que o chamado vocacional já tinha acontecido há certo tempo. Com efeito, os Doze já eram discípulos, mas o evangelista quer apresentar o chamado como uma novidade contínua e é assim que o discípulo deve se sentir: chamado todos os dias para ser sinal do Reino no mundo, partilhando com todos a experiência fundante do discipulado que é o “estar com Jesus”. De fato, Jesus os chama para estar com ele e, em seguida, para enviá-los. O andar dois a dois já constitui uma primeira evangelização, pois significa fraternidade, é a superação do egoísmo e da autossuficiência. De acordo com a Lei, o testemunho de pelo menos duas pessoas era necessário para confirmar um fato (Dt 17,6; 19,15), mas não é esse o sentido aplicado nesta passagem, como alguns estudiosos chegaram a defender. Para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária da vivência da fé. Não há espaço para individualismos na vida da comunidade cristã. A fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja, comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos têm mais possibilidades de recordar que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.

E Jesus confere aos discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a sua própria presença durante a missão: «dando-lhes poder sobre os espíritos impuros» (v. 7b). Esses espíritos impuros são todas as forças do mal presentes no mundo, é tudo aquilo que gera violência, injustiça, exclusão, morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável com o Deus da vida, com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como obstáculos à realização do Reino de Deus. Logo, devem ser combatidos pelos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Muitas vezes, esses elementos são criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças físicas e psíquicas, bem como pela condição social. O poder (em grego: ἐξουσία – exousia) conferido sobre tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Na verdade, ao invés de poder, o termo mais apropriado é autoridade, o que significa ter liberdade e direito de agir. Nada tem a ver com domínio, força ou imposição. E como o próprio texto deixa claro, não se trata de um poder sobre as pessoas, mas de um poder sobre as forças do mal, que escravizam e privam o ser humano de sua liberdade e dignidade plenas. Portanto, Jesus não envia seus discípulos para dominarem nem submeterem as pessoas a uma doutrina, mas para atuarem com liberdade e pela liberdade das pessoas. Enfim, a autoridade e a missão dos discípulos de Jesus no mundo consistem em fazer-se agentes de humanização.

E o envio comporta algumas recomendações, das quais depende o êxito da missão: «Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas» (vv. 8-9). Essas recomendações refletem o estilo de vida que devem adotar os discípulos e discípulas de Jesus. A austeridade e simplicidade é exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus, pois foi assim que ele mesmo viveu, pobre entre os pobres. Somente vivendo assim se assemelha a ele, e ser discípulo é, acima de tudo, assemelhar-se ao mestre. Isso quer dizer que o discípulo não deve ter outra preocupação além do anúncio do Reino, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torná-lo sobrecarregado. E a simplicidade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial, além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de adaptação ao que lhes for oferecido. Especificamente nas recomendações práticas aos discípulos para a missão é onde se encontram mais particularidades de cada evangelista. Somente em Marcos consta a recomendação para que os discípulos levem um cajado e andem de sandálias. Ora, ao mandar que os discípulos andem de sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a como um constante caminhar. Com isso, ele ensina que o lugar do discípulo não é o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades, o que torna necessário também o uso do cajado, sobretudo para que os missionários se proteja de animais ferozes e se apoiem nos terrenos acidentados. A missão é desafiadora não apenas no contato com pessoas e realidades diferentes, mas também nos deslocamentos. Por isso, o cajado e as sandálias são essenciais. Ora, embora a casa tenha um lugar privilegiado na teologia de Marcos, essa não está relacionada a estabilidade ou conforto; significa o espaço de encontro fraterno, em oposição à sinagoga. Mas o verdadeiro lugar do discípulo de Jesus é a estrada, pois a Igreja nasceu para estar em saída, levando adiante o estilo de vida de Jesus.

Escrito cerca de três décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho de Marcos já reflete uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial, chamando a atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida que Jesus viveu e propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus sobre essa dimensão da vida cristã: «E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida”» (v. 10). Aqui, além de advertir os discípulos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como hospedagem, também chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e missionários nas casas. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos, permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado ou cidade. Permanecer quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida dos missionários, peregrinos e necessitados.

Tendo sido rejeitado em seu próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e possível também para os discípulos, por onde passassem, por isso os preveniu: «Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles» (v. 11). Essa recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado (Mc 6,6) com a rejeição ali recebida, em meio aos seus conterrâneos, ele alertou os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos devem estar disponíveis a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é portador da Boa Nova do Reino, como os discípulos missionários de Jesus. O «testemunho contra» não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, essenciais para o sentido da vida. Contudo, essa privação não se dá porque o amor de Deus diminua, mas porque a pessoa não quer experimentá-lo. O amor de Deus é sempre intenso por todas as pessoas, sendo acolhido ou não. Considerando a radicalidade do Evangelho, a rejeição ao anúncio sempre existirá. O gesto de sacudir a poeira dos pés recorda a prática dos judeus quando passavam por algum território pagão.

Dadas as instruções de envio, diz o texto que «Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem» (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de conversão. Ora, conversão (em grego: μετάνοια– metanoia) significa mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, sobretudo a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo passasse por um processo de conversão, passando a um jeito novo de conceber o mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados, propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga, conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de Deus. Embora o texto mencione apenas o chamado à conversão como objeto da pregação dos discípulos, certamente eles anunciaram o que tinham aprendido com Jesus até então, ou seja, os mistérios do Reino e a urgência da sua implantação, como Jesus tinha anunciado em parábolas (Mc 4,1-34). A conversão é pressuposto para acolhida do Reino com seus traços característicos essenciais: justiça, igualdade, fraternidade e amor.

Imediatamente, o evangelista já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: «Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo» (v. 13). Como se vê, o resultado da missão possui duas vertentes principais, além do anúncio: a dimensão exorcística e a terapêutica, ou seja, expulsão de demônios e cura de doentes. Tudo isso aponta para a humanização do mundo, meta do Evangelho. A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Ora, com muita probabilidade, o Evangelho de Marcos foi escrito em Roma, durante o reinado de Nero, quando os cristãos viveram a primeira grande perseguição. Era uma época em que o mal prevalecia explicitamente e a ação dos cristãos parecia ter pouco efeito no combate. Diante disso, o evangelista quis ensinar que, se as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão alcançados. O mal não tem a última palavra. A recomendação do uso do óleo neste episódio é mais um elemento recordado apenas por Marcos. Parece um detalhe proposital para diferenciar do agir de Jesus, o qual bastava impor as mãos, sem uso de qualquer recurso medicinal. Como se sabe, o uso do óleo como um elemento medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade e o cristianismo conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental (Lc 10,34; Tg 5,15). Os doentes são, em Marcos, a síntese da pessoa necessitada e excluída e, por isso, são os destinatários privilegiados do anúncio da Boa Nova, que não é a propagação de uma doutrina, mas um processo de humanização e emancipação por meio do amor.

Ao ler e meditar hoje esse trecho do Evangelho de Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao seu envio, para recuperar aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus, como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.

Se em apenas três décadas após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada vez mais urgente. Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem de viver radicalmente o que Jesus propõe, e combatê-los, para o Reino de Deus ser de novo experimentado e vivido.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, julho 06, 2024

REFLEXÃO PARA O 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,1-6 (ANO B)



Neste décimo quarto domingo do tempo comum, a liturgia retoma a leitura semi-contínua do Evangelho de Marcos, interrompida no último domingo, por ocasião da solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. O texto lido neste domingo – Mc 6,1-6 – corresponde ao episódio da visita de Jesus a Nazaré, em dia de sábado, acompanhado de seus discípulos. Na oportunidade, ele sofreu forte oposição dos seus conterrâneos, os quais tentaram desqualificar sua mensagem e o seu agir. Esse texto ocupa uma posição estratégica no conjunto do Evangelho de Marcos. O episódio retratado pode ser considerado até um divisor de águas no ministério de Jesus, pois o que vem logo após esse aponta para uma mudança de rumo e estratégia na sua missão, com o envio missionário dos Doze (6,7-13), o qual será lido na liturgia do próximo domingo. Contudo, antes de recordar o que vem depois, é importante lembrar o que vem antes do episódio de hoje: a cura da mulher hemorroíssa e a reanimação da filha de Jairo (5,21-43). Esses dois milagres aconteceram logo após Jesus fazer a travessia de retorno do território dos pagãos, junto com seus discípulos, cuja viagem de ida fora marcada pela tempestade que ameaçou a barca e ele a acalmou (4,35-41).

A localização estratégica de um episódio nos evangelhos é sempre um indicativo de importância para o conjunto do livro, o que se verifica no texto de hoje. Outro dado que aponta para a sua importância na vida de Jesus é o fato de tratar-se de um episódio transmitido também pelos outros sinóticos (Mt 13,53-58; Lc 4,16-30). No Evangelho de Lucas, por exemplo, esse episódio foi transformado no evento programático e inaugural do ministério de Jesus. Por isso, ele o transferiu para o início da obra. Contudo, é mais lógica e plausível a posição que este episódio ocupa em Marcos e Mateus, ou seja, quando a atividade de Jesus já estava em pleno desenvolvimento e as notícias sobre a sua mensagem e o seu agir libertador já tinham se espalhado pela Galileia e, por isso, tinham repercutido também em Nazaré. Inclusive, seus familiares já tinham recebido notícias sobre o seu agir pouco ortodoxo, por isso, certa vez, saíram à sua procura, com objetivo de prendê-lo, imaginando que estivesse louco (Mc 3,20-31). Também a hierarquia religiosa de Jerusalém já estava a par da sua atividade, fiscalizando e vigiando o seu agir, por considerá-lo subversivo e herético e, por isso, perigoso para o sistema.

Uma vez apresentados alguns elementos a nível de contexto, voltamos a atenção para o próprio texto, partindo do primeiro versículo, no qual se diz que «Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos foram com ele» (V. 1). Aqui, chamamos a atenção para uma primeira incoerência da tradução litúrgica, pois a palavra Nazaré não aparece no texto original. O que o evangelista diz é que Jesus foi à sua pátria (em grego: πατρίς – patrís), o que deve ser compreendido como a terra natal. Contudo, sabemos que a terra natal de Jesus era um pequeno vilarejo chamado Nazaré (Mc 1,9). Somente Lucas menciona Nazaré explicitamente neste episódio, certamente por razões mais teológicas do que históricas e geográficas (Lc 4,16). É muito provável que a ausência do nome Nazaré, neste contexto, em Marcos e Mateus, seja proposital, visando ampliar a dimensão do evento, transformando a rejeição dos nazarenos em projeção da rejeição de Israel à mensagem de Jesus. De fato, o apego exagerado às tradições e o fechamento às novidades do Reino foram as principais atitudes de Israel diante da mensagem libertadora e humanizante de Jesus. Por isso, na rejeição de um pequeno povoado, o evangelista prefigura a rejeição futura de todo o país, sobretudo das autoridades, cujo desfecho será a morte de Jesus.

Como era seu costume, «quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga» (v. 2a). Ao contrário de Lucas, Marcos não faz qualquer referência ao conteúdo do ensinamento de Jesus, mas o leitor do seu Evangelho já sabe que a pregação dele consistia no anúncio da chegada do Reino de Deus e o apelo à conversão (Mc 1,15). É importante recordar que essa é a última vez que Marcos mostra Jesus ensinando numa sinagoga. Isso reforça o quanto esse episódio é relevante, pois parece delimitar um antes e um depois na vida de Jesus. A reunião litúrgica do sábado na sinagoga, além da oração, era também uma ocasião para as pessoas se reencontrarem, se saudarem. Como fazia tempo que Jesus não retornava à sua terra, era de se esperar que fosse bem acolhido, saudado por todos, afinal, num povoado pequeno todos se conheciam, como o texto vai mostrar mais adiante. Quanto à acolhida, parece até que houve um certo entusiasmo, no início da pregação: «Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde ele recebeu tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”» (v. 2bc). Os questionamentos, enquanto consequência da admiração, confirmam que a fama de Jesus enquanto pregador e operador de milagres já tinha realmente se espalhado e os nazarenos estavam constatando, porém, sem acreditar ser possível, pois lhe faltavam credenciais razoavelmente aceitáveis, como uma origem que lhe rendesse prestígio social e religioso.

Ao questionarem precisamente a origem do conhecimento e da sabedoria de Jesus, bem como dos milagres realizados, seus conterrâneos preparam o rechaço, pois não o viam habilitado para fazer tudo aquilo, pois ele era apenas uma pessoa simples, como eles, como fica evidente no versículo seguinte: «“Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” E ficaram escandalizados por causa dele» (v. 3). Aqui são apresentados os traços comuns de Jesus, o que parece contradizer os atributos anteriormente identificados nele, para a mentalidade dos seus conterrâneos. A primeira característica é sua identificação como carpinteiro, embora não seja o termo mais adequado para traduzir a palavra grega empregada pelo evangelista (τέκτων – tékton). De fato, essa palavra significa artesão, o que pode incluir uma variedade de habilidades, incluindo, além de carpinteiro, marceneiro, pedreiro e construtor. Como era difícil a sobrevivência com apenas uma atividade, geralmente se fazia um pouco de tudo, sobretudo nos lugares pequenos como Nazaré. Anteriormente, os nazarenos tinham se admirado com os milagres feitos pelas mãos de Jesus, agora recordam sua condição de artesão, imaginando que de suas mãos simples, que deveriam estar cheias de calos, não era possível sair milagres, não poderiam conter força de salvação.

Da profissão como primeiro elemento de contraste com as qualidades identificadas, seus contestadores passam a citar os parentes conhecidos que viviam no lugar, também como contradição ao que ele estava demonstrando. O identificam pejorativamente como o “filho de Maria”, apenas. Para a mentalidade da época, referir-se a alguém sem mencionar o pai era uma demonstração de desprezo. As pessoas eram identificadas pelo nome do pai, o chefe do clã, mesmo quando esse já tivesse morrido. O nome da mãe não tinha importância alguma para a sociedade, na época. Inclusive, poderia tratar alguém a partir do nome da mãe era indicação de que o filho era ilegítimo. Porém, o evangelista se serve desse artifício para recordar a origem divina de Jesus, não o associando a um pai humano. Quer dizer que Jesus é filho de Maria porque seu Pai é somente Deus, e os isso os nazarenos não conseguiam compreender nem aceitar. A referência aos outros parentes próximos, chamados de irmãos e irmãs, só reforça a condição de homem comum que Jesus era, como viam seus conterrâneos. Imaginavam que, sendo Jesus parente de gente comum do povoado, não poderia ser um enviado de Deus, logo, não teria como ser o Messias esperado, que deveria vir ao mundo como um guerreiro e potente. O embate entre as diversas tradições cristãs sobre o grau de consanguinidade desses parentes mencionados é totalmente desnecessário e sem sentido.

Até então, Jesus tinha recebido oposição severa das autoridades religiosas e da família, apenas. Do povo, em geral, tinha recebido boa aceitação por onde passava. Esse episódio de Nazaré apresenta a primeira oposição coletiva à sua mensagem. Para a mentalidade provinciana dos habitantes de Nazaré, o que deveria ter nas mãos de um simples artesão seria calos, e não capacidade de operar sinais extraordinários. Embora ali não tenha feito milagres (v. 5), a sua fama já tinha chegado como milagreiro. Sendo Jesus uma pessoa simples, tendo crescido em um vilarejo simples, não era normal que ele tivesse tamanha sabedoria e, muito menos, que fosse o Messias. Jesus reage à oposição dos seus conterrâneos com um provérbio: «Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares» (v. 4). Para ele, não era surpresa um profeta ser rejeitado em sua terra, por parentes e conhecidos. Esse provérbio nasceu e amadureceu a partir da própria vivência dos profetas ao longo da história de Israel. Os principais exemplos dessa experiência de rejeição na própria terra foram Jeremias (cf. Jr 11,18-23; 12,6) e Ezequiel (cf. Ez 2,2-5). Com isso, ele prepara os seus discípulos para envio missionário que vai ser feito a seguir: também eles deverão sofrer rejeições por onde passarem. Ser rejeitado se torna a sina de quem permanece fiel a Deus e à missão por ele confiada. O que Marcos aqui constata em forma de narração, João antecipa poeticamente no prólogo do seu Evangelho, apresentando Jesus como a Palavra que se fez carne: «Veio para o que é seu, mas os seus não a acolheram» (Jo 1,11).

A rejeição a Jesus bloqueia a ação salvífica de Deus, o que significa que ele tenha se tornado impotente. O evangelista diz que «ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos» (v. 5). Isso quer dizer, acima de tudo, que ele não teve oportunidade, o clima criado ao possibilito que ele se revelasse plenamente como o verdadeiro enviado de Deus. Ora, os milagres de Jesus não eram meras demonstrações de poder e força, mas comunicação de Deus com a humanidade, e isso exigia interação e reciprocidade através da fé. Jesus se sentiu bloqueado, não imune de força, mas impedido de interagir, porque o Deus que ele veio revelar é alguém que se comunica, se relaciona com o ser humano de modo pessoal, e não através de sinais grandiosos. A fé é adesão à sua proposta de vida. Se a reação dos habitantes de Nazaré foi de perplexidade, também Jesus «admirou-se com a falta de fé deles» (v. 6a). A falta de fé é o fechamento ao seu amor humanizante, a incapacidade de adesão à sua mensagem; aqui, significa o fechamento e a dureza de coração, a insensatez. E, diante de toda essa rejeição recebida, a resposta de Jesus é a missão: «Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando» (v. 6b). Como em Nazaré ele diagnosticou que Israel todo padecia, eis que reagiu a isso indo ao encontro de mais povoados, e enviando também os Doze com a mesma autoridade com que ele mesmo agia, como refletiremos no próximo domingo.

Os habitantes de Nazaré rejeitaram Jesus porque ele lhes apresentou um Deus acolhedor, misericordioso, justo e simples, fora dos esquemas apresentados pelas tradições de Israel. O Deus de Jesus não age pela força, nem pela imposição, mas se revela na simplicidade e na pequenez. Os nazarenos não reconheceram a simplicidade e o cotidiano coo lugar privilegiado de revelação de Des. O erro dos habitantes de Nazaré é repetido pelos cristãos quando imaginam e desejam uma Igreja triunfante, forte e poderosa. Que o Evangelho de hoje nos ajude a compreender e viver o que é essencial para a nossa fé, e a acolher a grandeza de Deus que se revela na pequenez.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, junho 28, 2024

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO – MATEUS 16,13-19

 


A exemplo do que ocorreu no ano passado, também neste ano, a liturgia do décimo terceiro domingo do tempo comum é substituída pela solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Por isso, interrompe-se neste dia a leitura semi-contínua do Evangelho de Marcos. Para esta solenidade, o evangelho é o mesmo em todos os anos: Mt 16,13-19. Esse texto é muito rico e significativo, pois contém o relato do clássico episódio de Cesareia de Filipe, cujo ápice é a confissão de fé de Pedro, que reconhece e proclama Jesus como o Cristo, ou seja, o Messias. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (Mt 16,13-19; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), sendo que a versão de Mateus apresenta mais elementos próprios, como veremos no decorrer da reflexão. E foi exatamente por causa dos seus elementos próprios que o texto de Mateus foi mais valorizado, ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo católico. Como fazemos em todos os domingos, concentraremos a reflexão no texto bíblico em si, sem transformá-la em mera apologia devocional aos santos apóstolos recordados. No entanto, reconhecemos que a recordação dos apóstolos é sempre importante para a vida da Igreja, porque a ajuda a manter-se alinhada às suas origens, não obstante os desgastes históricos.

Os apóstolos Pedro e Paulo foram imprescindíveis para o cristianismo das origens conservar os ensinamentos de Jesus e, ao mesmo tempo, para se espalhar e crescer, extrapolando os limites culturais e geográficos do judaísmo e da Palestina. Olhando para o exemplo dos dois, a Igreja, de hoje e de sempre, é interpelada, cada vez mais, a renovar-se e edificar-se somente pela fé em Jesus Cristo, sem tomar como parâmetro nenhuma instituição terrena. A recordação dos dois no mesmo dia é também sinal da unidade na diversidade, características da comunidade cristã desde as origens, que devem ser reconhecidas permanentemente. O Novo Testamento mostra divergências e até coflitos entre eles. Pedro, um pescador do pequeno mar da Galileia, foi transformado em pescador de seres humanos; Paulo, um fariseu fanático, perseguidor da comunidade cristã, transformado em apóstolo das nações. Cada um foi transformado pelo encontro com Jesus, passando a viver em contínua conversão a partir de então, com atitudes muitas vezes contraditórias. Ambos assumiram um protagonismo incomparável nas primeiras décadas do cristianismo, a ponto de alguns estudiosos defenderem que o livro de Atos dos Apóstolos poderia tranquilamente ser chamado de Atos de Pedro e Paulo, uma vez que são os principais personagens humanos da obra. Por caminhos e métodos diferentes, como eram tão diferentes e personalidade e história de vida, tiveram em comum a paixão por Jesus Cristo e o zelo pelo seu Evangelho, recebendo como prêmio a coroa do martírio.

Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. Convém recordar que esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (Mt 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (Mt 16,21-23; 17,22). Na verdade, pode-se dizer que esses acontecimentos são consequência do episódio narrado no evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza dessa. Recordamos acima o que sucede ao texto no conjunto do evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: houve uma controvérsia de Jesus com os fariseus, que lhe pediram um sinal do céu (Mt 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo fermento dos fariseus e saduceus (Mt 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam. Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, síntese do programa de Jesus, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: «Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”» (v. 13). Como se vê, o texto começa com um indicativo espacial. Cesareia de Filipe estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica (homenagem a César), era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização. Ora, longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos da influência do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. O distanciamento físico, portanto, é sinal do distanciamento da ideologia que Jerusalém representa. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus se torna um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos Céus, e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova, e a continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial. Portanto, pode-se dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas tradicionais do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano. Isso torna a confissão de Pedro um ato extremamente subversivo.

A expressão “Filho do Homem” ao invés do pronome pessoal “eu” é a primeira particularidade de Mateus em relação às versões de Marcos e Lucas, deste episódio. Porém, o sentido aqui é o mesmo. A pergunta de Jesus sobre o que diziam a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Àquela altura da sua vida pública, ele já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que ele realizava. Foi como consequência disso que ele fez a pergunta: «Que dizem os homens ser o Filho do Homem?» (v. 13b). E a resposta dada pelos discípulos revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava diante do povo; certamente, o povo simples, com quem ele interagia e por quem lutava. Eis a resposta: «alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas» (v. 14). A menção a Jeremias entre os personagens com os quais o povo identificava Jesus é outra exclusividade de Mateus. Marcos e Lucas nomeiam apenas João Batista e Elias. O acréscimo de Mateus é significativo, pois Jeremias foi o profeta mais “parecido” com Jesus, em relação ao estilo de vida, o teor da pregação e a perseguição sofrida.

A resposta mostra o quanto Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. Mas ele era e é muito mais. Logo, trata-se de uma resposta incompleta. Ora, embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. E a comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado, pois isso a impede de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Apesar de importante, a pergunta de Jesus sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, o que ele queria saber mesmo era o que os seus discípulos pensavam de si, qual imagem tinham a seu respeito. Por isso, lhes perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que «Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”» (v. 16). Certamente, também os outros discípulos também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade, da qual Pedro se faz porta-voz.

A resposta de Pedro é complexa e profunda: Jesus é «o Messias, o Filho e do Deus vivo». A tradução litúrgica traz a palavra “Messias”, porém, é mais apropriado o termo “Cristo”, conforme o texto na língua original (em grego: Χριστός – Christós). É muito significativo que Jesus seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: «o Filho do Deus vivo». Além de definir a qualidade da messianidade de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade. Por sinal, a expressão «Filho do Deus vivo», na resposta de Pedro, é outra exclusividade de Mateus. Em Marcos, a resposta é apenas «Tu és o Cristo!» (Mc 8,), e em Lucas é «Tu és o Cristo de Deus» (Lc 9,20). Logo, a resposta em Mateus é mais profunda e, sobretudo, universalista. Ora, o título “Cristo” (ou Messias) correspondia às mais profundas expectativas do judaísmo, bastante enraizado na comunidade de Mateus, o que seria um incentivo à preservação da ideologia nacionalista.

Com a expressão «o Filho do Deus vivo», o evangelista ensina que a messianidade de Jesus não corresponde às expectativas de Israel; trata-se de um Messias diferente, que não veio apenas para Israel, mas para a inteira humanidade. Ora, Israel esperava um Messias filho de Davi, cujo título evoca um programa estritamente restauracionista, reformador, visando a restauração da monarquia e do reino davídico-salomônica. Por isso, a afirmação de Pedro é altamente revolucionária e comprometedora. Ora, essa resposta compromete a(s) comunidade(s) cristã(s), em todos os tempos e lugares, a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo, é o Filho do Deus vivo, ou seja, o seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus do templo de Jerusalém, completamente desfigurado pela aristocracia sacerdotal de lá, eram privados de vida, eram agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído que era explorado diariamente. Portanto, a convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas religiosos e políticos que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.

Jesus aprovou a resposta de Pedro, por isso o proclamou bem-aventurado: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu» (v. 17). De agora em diante, até o versículo 19, o texto passa a ser exclusivo de Mateus. O paralelismo com Marcos e Lucas só volta no versículo 20, que já não faz parte da seleção escolhida para a esta liturgia. Considerando que Mateus teve Marcos como fonte para este episódio, os versículos 17-19 são um acréscimo da sua comunidade como resposta a necessidades concretas, sobretudo em relação à diferenciação da comunidade com a sinagoga. A bem-aventurança dirigida a Pedro não é um elogio por um mérito particular, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz, então, é uma constatação: parece que as coisas começam a funcionar bem na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; e como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (Mt 10,21), e Pedro estava falando a partir do que o Pai lhe revelou, logo ele estava demonstrando adesão plena ao projeto do Reino, inserindo-se no mundo dos pequeninos! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição de pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro, portanto, consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por ela.

Na continuidade, Jesus declara: «Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (v. 18a). Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade – a Igreja –, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas, pessoas de fé. E Pedro foi uma destas pedras escolhidas por Jesus, a primeira, sem dúvidas. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável à fé que Pedro tinha acabado de professar. É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: (Πέτρος) “Petros” (πέτρα) “petra”. Embora muito próximas, é possível distingui-las: “Petros”, que foi transformada no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Jesus diz que Pedro (petros) é uma pedra-tijolo da construção, e a pedra-rocha (petra) é a fé que ele professou, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada.

A proclamação de Jesus como Cristo e Filho de Deus é a base da comunidade cristã, a Igreja. Por sinal, essa é a primeira vez que aparece a palavra igreja (em grego: ἐκκλησία – ekklesia) no Evangelho de Mateus, o único que a emprega, e somente duas vezes (Mt 16,18; 18,17); o significado da palavra é assembleia convocada, reunião, comunidade. Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que havia na região de Cesaréia de Filipe, construídos sobre pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, ele declara: «e o poder do inferno nunca poderá vencê-la» (v. 18b). Aqui, ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a instauração do Reino aqui na terra, razão da sua existência. O “poder do inferno”, portanto, significa as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso. Essas forças retardam a concretização do Reino, mas não impedirão a sua realização. Para superá-las é imprescindível uma fé viva e comprometida, como a fé de Pedro e Paulo, e de tantos outros irmãos que doaram a vida pelo Reino.

No último versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: «Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (v. 19). Mais do que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer. No judaísmo, a imagem das “chaves” correspondia à capacidade de interpretação e aplicação da Lei pelos rabinos e escribas. Inclusive, o próprio Jesus vai denunciá-los por terem “fechado” o Reino dos Céus: «Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam!» (Mt 23,13). As chaves confiadas a Pedro e a toda a comunidade, portanto, são para abrir o Reino a todas as pessoas, a começar pelas marginalizadas e sofridas, os pobres, as vítimas das mais variadas formas de exclusão. Portanto, Mateus não emprega a imagem das chaves como símbolo de uma instituição, mas como sinal de uma nova relação com Deus. A antiga religião tinha bloqueado, escondido o rosto desse Deus, mas Jesus dá a chave de acesso a ele: a vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), que são a síntese de toda a sua mensagem. Logo, a função de “ligar e desligar” representa a responsabilidade da comunidade, e não propriamente poder. Inclusive, no discurso sobre a comunidade, essa mesma função será atribuída a toda a comunidade (Mt 18,18). Isso exige profunda fidelidade da Igreja para viver em perfeita sintonia com Jesus e o Pai, para que tudo o que essa venha a realizar e viver seja referendado por eles.

Se a comunidade/Igreja viver fielmente o Evangelho, sintetizado nas bem-aventuranças, que são as chaves de leitura de toda a obra de Mateus, e de acesso ao Reino, não resta dúvidas de que Jesus e o Pai confirmarão as suas decisões e pleitos lá nos céus. Pedro e Paulo são exemplos concretos de quem fez essa experiência. Eles abriram o Evangelho ao mundo, fazendo o mundo abrir-se ao Evangelho, cada um à sua maneira. Por sinal, pegando essa deixa, é oportuno concluir a reflexão com o seguinte trecho do prefácio desta solenidade: «Hoje, vós nos concedeis a alegria de festejar os Apóstolos São Pedro e São Paulo. Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual veneração.» (Prefácio de São Pedro e São Paulo, apóstolos).

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, junho 22, 2024

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 4,35-41 (ANO B)


A liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum prossegue com a leitura semi-contínua do Evangelho de Marcos, como é característico do ciclo litúrgico em curso (ano B). O texto lido hoje – Mc 4,35-41 – é precisamente a continuação daquele do domingo passado (Mc 4,26-34). Naquela ocasião, fora lida a parte conclusiva do discurso em parábolas sobre o Reino de Deus em Marcos, que corresponde ao primeiro ensinamento de Jesus após a constituição da sua nova família, composta por todas as pessoas com disposição para fazer a vontade de Deus, tornando-se, por consequência, mãe, irmãos e irmãs suas (Mc 3,35). Ora, no discurso em parábolas, Jesus evidenciou o mistério paradoxal e complexo do Reino; trata-se de uma realidade tímida, a princípio, mas com grande força transformadora, tanto é que a imagem predominante nas parábolas foi a da semente: o discurso começou com a parábola do semeador (Mc 4,3) e terminou com a do grão de mostarda (Mc 4,30).

A adesão ao projeto de Reino apresentado por Jesus, portanto, exige mudança de mentalidade, passando pela ruptura e emancipação das pessoas em relações às estruturas, esquemas e instituições tradicionais, a começar pela família patriarcal e a religião do templo (Mc 3,20-35). O evangelho de hoje mostra um passo importante dessa ruptura: a travessia do lago de Genesaré, chamado pelos evangelistas de mar da Galileia. Trata-se de um texto de grande importância para o conjunto do Evangelho de Marcos, pois inaugura uma nova fase no ministério libertador de Jesus. É o ponto de partida para a sua missão fora dos limites de Israel, já que a “outra margem”, na linguagem evangélica, significa o mundo pagão. Pode-se dizer, por isso, que é o lançamento das bases de uma verdadeira “Igreja em saída”. Além disso, a “tempestade acalmada” inaugura uma série de quatro milagres de Jesus, concluída com a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,21-43), mostrando que o centro de todo o seu projeto é o triunfo da vida, objetivo da instauração do Reino. Para isso, é necessário vencer todos os obstáculos e impedimentos. Convém recordar, como sempre, que o objetivo do evangelista com o seu relato é ajudar a manter viva a fé de comunidade(s) em crise, seja por perseguição externa seja por divisões ou falta de entusiasmo interno.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: «“Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!”» (v. 35). É muito importante quando a versão litúrgica preserva o indicativo temporal do próprio texto, como hoje, o que é raro, sem substituir pela vaga e genérica expressão “naquele tempo”. Portanto, “aquele dia” foi o dia mesmo do discurso em parábolas, proclamado à beira-mar (Mc 4,1). O cair da tarde significa o início; para a mentalidade semita, é também o início de um novo dia, mas não era o momento ideal para começar uma viagem. A noite evoca perigo, conforme a maneira de pensar nos tempos bíblicos, por isso, era o momento de recolher-se em casa, ainda mais para quem tinha passado o dia inteiro ensinando e, por isso, estava cansado, como era o caso de Jesus. Portanto, o mais logico seria esperar o dia amanhecer para recomeçar as atividades. Porém, Jesus faz o contrário, e convida seus discípulos para uma empreitada desafiadora: «Vamos para a outra margem!». Já temos, assim, dois sinais de perigo, logo no primeiro versículo: a noite e o mar, imagens que simbolizam trevas e caos, ao mesmo tempo. Certamente, os discípulos pescadores estavam acostumados a essa realidade, mas nem todos eram pescadores. Além disso, a atividade pesqueira exigia familiaridade com o mar, mas não necessariamente a chegada à outra margem, embora não fosse difícil em termos de praticidade, uma vez que a largura máxima do lago chamado de mar da Galileia era dezesseis quilômetros.

O mar simboliza o caos, como afirmado acima. Para a mentalidade bíblica, era o lugar onde residiam as forças do mal. A outra margem significa o mundo pagão, considerado impuro pela religião judaica. Para um judeu devoto, era um mundo a ser evitado, mas é para esse mundo que Jesus convoca seus discípulos a andarem com ele. O que era evitado pela religião da época, torna-se prioridade na missão de Jesus, como os últimos se tornam primeiro, como indica sua clara opção preferencial pelos pobres e marginalizados. O mar da Galileia representava, então, uma barreira de separação entre o judaísmo e o mundo pagão, mas quebrar barreiras faz parte da missão de Jesus e da comunidade de seus seguidores e seguidoras. Por isso, discípulos obedeceram: «Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele» (v. 36). Os discípulos despedem a multidão que tinha se reunido para escutar Jesus, que já se encontrava na barca, uma vez que era da barca mesma que ele tinha ensinado durante todo o dia. Portanto, de púlpito improvisado, a barca (em grego: πλοῖον – ploion) se torna a outra imagem privilegiada da comunidade cristã no Evangelho de Marcos, junto com a casa. Enquanto a casa simboliza a vida fraterna, a irmandade, a barca simboliza a missão, o sair de si, a disposição e a coragem de correr perigos pelo Reino. Sem essas duas dimensões – irmandade e missão – não existe comunidade cristã. A menção a outras barcas que estavam com ele pode indicar que estavam num ponto de ancoragem às margens do lago e poderiam até terem sido usadas por pessoas que tinham vindo ao seu encontro, para ouvir seus ensinamentos.

A passagem para a outra margem não acontece sem riscos e perigos, mas é essencial para a comunidade manter-se fiel aos propósitos de Jesus. As turbulências são inevitáveis, pois essa passagem pressupõe um desestabilizar-se. É um sair de si, deixando de lado todo qualquer sinal de comodismo. E é isso o que mostra o texto: «Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher» (v. 37). A “ventania muito forte” é a síntese das principais dificuldades da comunidade do evangelista, na época da redação do Evangelho: a perseguição do império romano, sob o reinado de Nero (início dos anos 60 d.C.), a oposição das lideranças do judaísmo, e o medo/comodismo/desânimo dos próprios membros da comunidade. Tudo isso ameaçava a comunidade, tornando-a semelhante a uma barca em alto-mar durante uma tempestade. Surpreende que, durante a tempestade, «Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro» (v. 38a). Isso quer dizer que as turbulências da vida, as tempestades pelas quais passa a comunidade cristã não significam ausência de Jesus, mas pode levar as pessoas a não sentirem e nem reconhecerem a sua presença, e o texto visa chamar a atenção dos ouvintes-leitores sobre isso. Ora, o caminhar da Igreja em saída jamais será tranquilo. Pelo contrário, quanto mais a Igreja sair de si mais encontrará oposição e obstáculos, ou seja, ventanias contrárias muito fortes, a começar pelos seus próprios membros que não aceitam passar para as outras margens, onde estão os pobres e as pessoas marginalizadas em todos sentidos. Portanto, a imagem de Jesus dormindo aqui é uma advertência para a comunidade de todos os tempos. Ela corre o risco de negligenciar a presença do Cristo Ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma catequese pascal do evangelista para sua comunidade com dificuldade de encontrar o Ressuscitado e reconhecê-lo num momento histórico tão crítico como estavam vivendo.

O sono de Jesus lhe ocasiona uma repreensão pelos discípulos: «Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”» (v. 38b). É interessante que, aqui em Marcos, os discípulos não pedem uma intervenção propriamente, mas apenas questionam a aparente indiferença de Jesus. Em Mateus e Lucas, por outro lado, eles fazem um pedido explícito de socorro: “Senhor, salva-nos!” (Mt 8,25; Lc 8,24). Ora, o sono de Jesus não significa indiferença diante dos obstáculos vividos pela comunidade, mas sim que esses são inevitáveis. Faz parte da missão mesma a exposição aos perigos, por isso, não quer dizer que ele esteja ausente quando surgem as adversidades. Não há travessia tranquila. As dificuldades só podem ser vencidas se forem enfrentadas, como Jesus estava ensinando aos discípulos, com a proposta de passar à outra margem. Aos discípulos, estava faltando coragem para enfrentar a travessia. Essa é a primeira vez que os discípulos chamam Jesus de mestre, no Evangelho de Marcos, um dado bastante significativo. Aos poucos os discípulos iam compreendendo a posição de Jesus na comunidade e na vida de cada um, mas de maneira muito tímida, ainda. Reconhecê-lo como mestre já é um passo, mesmo que a motivação tenha sido uma situação desesperadora. Nos momentos mais difíceis da vida, saber com quem se pode contar e a quem se dirigir, já é um meio caminho para a solução.

Diante da pressão dos discípulos, eis que «Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” o vento cessou e houve uma grande calmaria» (v. 39). A intervenção de Jesus se dá unicamente por meio da palavra. O evangelista não relata nenhum gesto, além do levantar-se. A ordem dada é praticamente a mesma quando realiza exorcismos (Mc 1,25). Ao ordenar ao vento, ao mar ou a um espírito impuro que se calem, na verdade Jesus está é advertindo os seus discípulos para que não escutem outras palavras que não sejam as suas. A agitação do vento e do mar, neste episódio, simboliza todas as vozes e barulhos que se opõem ao Evangelho, impedindo-o de ser anunciado ou distorcendo-o. E o que fez o vento e o mar silenciarem foi a Palavra de Jesus, enquanto força humanizante. A comunidade precisa fazer essa Palavra ressoar no mundo, fazendo calar o mal. É claro que o evangelista está reforçando sua catequese de apresentação de Jesus como o Messias, o agente de Deus no mundo para destruir as forças do mal, pelo bem, pelo caminho do amor. De fato, no Antigo Testamento a capacidade de acalmar o mar e as tempestades era um sinal do poder de Deus (Sl 89,10; 106,9; Is 51,9-10). Jesus é, portanto, o agente autorizado de Deus para erradicar o mal do mundo e fazer a vida triunfar em plenitude, missão essa compartilhada com seus seguidores e seguidoras de todos os tempos.

Tendo acalmado a tempestade e o mar por meio de sua palavra que é força de vida, Jesus se dirige também aos discípulos em tom de reprovação: «Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tao medrosos? Ainda não tendes fé?”» (v. 40). Trata-se de uma reprovação muito forte. Inclusive, a tradução mais adequada para o termo grego traduzido aqui como “medrosos” seria covardes (em grego: δειλοί – deiloi). Ora, os discípulos imaginavam que o seguimento e a fé em Jesus os isentassem dos perigos e dificuldades que a vida e a missão comportam. Jesus ensina o contrário; a fé e a confiança na sua Palavra dão forças para superar os obstáculos, ou seja, as tempestades, mas não isentam a comunidade e os discípulos de enfrentá-las. Por isso, o questionamento tao duro: «ainda não tendes fé?». Certamente, esse questionamento impactou a comunidade de Marcos. Tanto é que, para amenizar o tom, Mateus trocou “não tendes fé” por “pouca fé” (Mt 8,26). Para Marcos, no entanto, a fé não permite meios termos: ou se tem, ou não se tem. Aqui, é preciso considerar de novo o contexto literário do texto: segue de imediato ao discurso das parábolas do Reino. Os discípulos tinham acabado de ouvir, não apenas as parábolas, mas também as explicações exclusivas que Jesus dava a eles (Mc 4,10). A covardia, portanto, consistia em não levar a sério as palavras de Jesus, e sem a Palavra não há fé. A semente da Palavra não estava germinando no coração dos discípulos, e sem isso o Reino não se instaura. Daí a dureza de Jesus na correção aos discípulos. É importante recordar que a fé reivindicada por Jesus nesta passagem não significa a confiança em seu poder de operar milagres. Significa a confiança da sua presença na missão, fazendo vencer a covardia e, assim, manter a comunidade sempre alinhada ao seu projeto. Por isso, esta é uma das passagens que melhor demonstra que o contrário da fé, para Jesus, não é a incredulidade, mas a covardia e o medo de assumir as consequências que o Evangelho do Reino implica.

A conclusão, porém, mostra um avanço importante na fé dos discípulos, o que significa uma adesão progressiva ao projeto de Jesus: «Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”» (v. 41). Aqui, já não se trata de medo, propriamente, de modo que o termo mais justo para a tradução seria temor. Trata-se do temor reverencial, a postura adequada do ser humano quando reconhece o agir de Deus. Diferentemente do medo, o temor não é o oposto da fé; ele não paralisa a comunidade. Pelo contrário, o temor instiga o ser humano a fortalecer a fé, tornando-a mais convicta, estimula a pessoa a conhecer melhor a vontade de Deus, à medida em que gera espanto, admiração e curiosidade. Nesta passagem específica, o temor se torna um estímulo para os discípulos buscarem compreender melhor a identidade de Jesus, à medida em que se questionam. Ora, como sabemos, todo o Evangelho de Marcos gira em torno da clássica pergunta «Quem é Jesus?». E o questionamento final dos discípulos, «Quem é este…?» é uma das variantes dessa mesma pergunta que é constantemente repetida ao longo do Evangelho, tanto por adeptos quanto por opositores ao projeto de Jesus (Mc 1,27; 2,7; 4,41; 6,2.14; 8,27; 11,27; 14,61-62; 15,31-32). A resposta definitiva só será dada no final do livro, por incrível que pareça, por um centurião romano, o qual reconhecerá que Jesus “era mesmo o Filho de Deus” (Mc 15,39). Até lá, os ouvintes-leitores devem um rico caminho de descobertas. À medida em que se avança nesse percurso, pessoa se humaniza constantemente, liberta-se, emancipa-se, passando a fazer parte da família nova de Jesus, cuja exigência é escutar sua Palavra.

O evangelho de hoje, portanto, é um convite à Igreja para que assuma cada vez mais a sua identidade missionária, reconhecendo que sua razão de existir consiste em estar sempre em estado de saída, mesmo enfrentando obstáculos. É preciso romper barreiras e alcançar as outras margens, compreendendo todas as periferias, existenciais e geográficas. E isso só é possível superando os medos, saindo do comodismo e, acima de tudo, confiando na força da Palavra de Deus, cuja revelação plena é Jesus de Nazaré com sua vida e missão.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,7-13 (ANO B)

O evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que relata o primeiro envio missionário dos Doze apóstolos por J...