sábado, agosto 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

 


Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, propondo para este décimo oitavo domingo o relato do episódio conhecido popularmente como a “multiplicação do pães” – Mt 14,13-21. De todos os gestos de Jesus considerados milagres, esse é o único relatado nos quatro evangelhos, com seis versões ao todo, já que em Mateus e Marcos aparece duas vezes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,30-44; 8,1-9; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13). Esses dados indicam a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, preferiu-se contá-lo integralmente várias vezes, embora cada uma das versões apresente certas particularidades. Com o progresso da exegese, o título convencional de “multiplicação dos pães” tem caído em desuso, preferindo-se expressões alternativas como “a multidão saciada” ou simplesmente “milagre da partilha dos pães”.

Hoje, lemos a primeira versão de Mateus e, como sempre, iniciamos considerando o seu contexto. O texto localiza-se praticamente na metade do evangelho; além da importância que esse dado evidencia, quer dizer também que Jesus já realizou muita coisa, pois o seu ministério já estava bem avançado, basta olhar um pouco para trás e perceber isso: três dos cinco discursos já foram proferidos (Mt 5–7; 10; 13), os discípulos já foram enviados em missão, muitas curas já foram realizadas. Portanto, mesmo que não se compreendesse totalmente o que ele fazia e nem se aceitasse completamente o que Jesus proponha, a sua mensagem se popularizava cada vez mais, e as multidões que o seguiam atestam isso. Logo, tornava-se cada vez mais necessário que Jesus deixasse clara a natureza do seu messianismo, que não correspondia aos anseios nacionalistas e triunfalistas da época. Por isso, ele procurava cada vez mais evitar atitudes que pudessem insinuar triunfalismos em seu ministério. Tudo isso aponta para o cuidado com que esse episódio chamado de “multiplicação dos pães” deve ser lido e interpretado.

O contexto imediato é fornecido pelo próprio texto, na versão litúrgica, que recorda o evento anteriormente narrado, a morte de João, o Batista, por ordem de Herodes: «Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado» (v. 13a). Com efeito, a expressão inicial – “quando soube da morte de João Batista” – não pertence propriamente ao texto, mas foi acrescentada pela liturgia, com claros fins didáticos, a fim de situar o ouvinte-leitor e o pregador, sobretudo. Na língua original, se diz apenas que Jesus ouviu, o que vem expresso pela forma verbal grega “akússas” – ἀκούσας. Lendo diretamente na Bíblia, o leitor percebe que aquilo que Jesus ouviu foi a notícia da morte do Batista. Ora, apesar das diferenças, era inegável a proximidade entre Jesus e João Batista. Com efeito, Jesus nutria grande afeto por João, mesmo não correspondendo ao ideal de messias violento e justiceiro que ele tinha anunciado (Mt 3,1-12). Inclusive, o reconheceu como o maior entre os nascidos de mulher e como profeta (Mt 11,7-14). Na verdade, Jesus reconhecia a continuidade entre a sua missão e a de João e o considerava seu mentor, não obstante as divergências. Por isso, inevitavelmente, a morte de João mexeu com Jesus, ainda mais pela forma cruel como aconteceu. Daí, a necessidade de retirar-se, não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para esse recolhimento que, certamente, seria marcado pela oração profunda, pela reflexão e, talvez, até pelo choro.

O detalhe do “lugar deserto e afastado” é muito significativo na tradição bíblica. Como se sabe, o deserto não é apenas um espaço geográfico; é lugar de silêncio, prova e encontro com Deus. Foi no deserto que Israel aprendeu a depender do Senhor e recebeu o maná para o caminho (Ex 16). Ao retirar-se para o deserto e ali alimentar a multidão, Jesus se apresenta como aquele que inaugura um novo êxodo: reúne um povo disperso e o alimenta com o pão que vem de Deus. Jesus não conseguiu ficar sozinho com seus discípulos porque «quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé» (v. 13b). O movimento das multidões em busca de Jesus demonstra o quanto ele já estava conhecido e o bem que ele fazia. As multidões o seguem porque ele tinha respostas para as suas necessidades. Abandonadas e exploradas pelas lideranças religiosas e políticas, as multidões recebiam atenção e cuidado de Jesus (Mt 9,36–10). O seu olhar era diferente, marcado pela compaixão: «Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes» (v. 14). As multidões até se anteciparam, chegando primeiro ao lugar deserto. Ao vê-las, Jesus não foge e nem as expulsa, mas se enche de compaixão. Numa ocasião anterior, o evangelista disse que ele sentiu compaixão ao ver as multidões abandonadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36); agora, ele diz que Jesus encheu-se de compaixão. Quer dizer que a compaixão ocupa todo o ser de Jesus, faz parte da sua essência.

Compaixão significa um amor visceral; é um comover-se no mais profundo do ser que resulta em ação concreta de libertação. O verbo empregado pelo evangelista é muito expressivo. Mateus usa o grego splanknízomai (σπλαγχνίζομαι), derivado de splánkna (σπλάγχνα), “entranhas” ou “vísceras”. Na mentalidade bíblica, as entranhas eram consideradas a sede dos afetos mais profundos. Por isso, dizer que Jesus “encheu-se de compaixão” significa afirmar que ele foi tocado nas profundezas do seu ser. Não se trata de uma emoção superficial, mas de um estremecimento interior que o move imediatamente à ação em favor dos necessitados. Esse olhar compassivo revela também o modo como Deus olha a humanidade. Enquanto as estruturas sociais costumam avaliar as pessoas a partir do poder, do mérito ou da utilidade, Jesus as vê a partir da necessidade e da dignidade. Seu olhar antecede qualquer exigência moral: primeiro acolhe, cura e alimenta; depois convida ao discipulado. Essa ordem é fundamental para compreender o Evangelho. Por isso, ele “curou os que estavam doentes”. Por doentes, o evangelista emprega um termo (em grego: arostos – άρρωστος) que compreende todas as pessoas frágeis, e não apenas os doentes fisicamente. São todas as pessoas destinatárias privilegiadas da misericórdia de Deus: doentes, aflitas, pobres, abandonadas, exploradas. Como o Evangelho de Jesus é um programa de vida completo, que contempla a vida em todas as suas dimensões, todas essas classes de pessoas são as primeiras contempladas. Por isso, a reação de Jesus ao ver essas pessoas foi encher-se de compaixão.

Diferente de Jesus foi o que os discípulos sentiram: «Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”» (v. 15). Pela referência ao entardecer, supõe-se muita coisa já realizada naquele dia. Certamente, muito contato físico de Jesus com o povo, muito toque, muita escuta e muitas palavras proferidas; tudo ao contrário de quem estava procurando ficar sozinho. A reação dos discípulos parece ser de preocupação e cuidado com Jesus, mas na verdade é de indiferença e pouco compromisso com as multidões. A tendência deles é lavar as mãos diante das necessidades dos outros. Aconselham Jesus a mandar as multidões embora e que cada um “se virasse” para conseguir o alimento necessário, propondo, desse modo, a lógica do mercado. A atitude dos discípulos permanece muito atual. Também hoje, diante da pobreza, da fome e das diversas formas de exclusão, é comum pensar que cada pessoa deve resolver sozinha os seus problemas. Jesus, porém, rompe essa mentalidade e convoca os discípulos a assumirem responsabilidade concreta. A comunidade cristã não pode limitar-se ao espaço do culto; deve tornar-se lugar de solidariedade concreta.

Apesar do tempo de convivência e aprendizado, os discípulos ainda não tinham absorvido a mentalidade de Jesus; ainda não tinham assimilado a lógica da partilha e da solidariedade. Diante disso, a resposta de Jesus é praticamente uma repreensão: «Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”» (v. 16). Como se vê, Jesus compromete os discípulos. Em vez de lavar as mãos diante das necessidades dos outros, os seus discípulos devem sentir-se responsáveis. A comunidade cristã não pode assistir indiferente ou passivamente à fome no mundo. Biblicamente, a fome é também uma doença que deve ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. A mensagem de Jesus é um programa de vida que contempla também a dimensão material, inegavelmente. Portanto, saúde e pão devem ser prioridades na comunidade cristã.

Talvez indignados ou envergonhados com a advertência de Jesus, «Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”» (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa, provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. A quantidade era pequena, mas total, era tudo o que tinham. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade. Logo, não se trata de números reais, mas de simbologia. Independentemente da quantidade, é como se os discípulos dissessem a Jesus que tudo o que tinham era insuficiente para o grande número de pessoas que estavam ali. Porém, Jesus não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que têm: «Jesus disse: “Trazei-os aqui”» (v. 18). O problema começa a ser solucionado aqui, quando Jesus pede que os discípulos coloquem à disposição tudo o que têm, apesar de pouco. É isso o que Jesus espera das comunidades de todos os tempos. O pouco que cada um possui deve ser colocado a serviço de todos e, assim, o que é pouco se torna muito. Quando cada um apresenta o seu pouco, é premissa de fartura.

É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome, o que se faz pela partilha, mas tudo deve passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Na continuação, diz o evangelista que «Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões» (v. 19). Como se vê, Jesus toma a iniciativa e age como verdadeiro pastor, ao contrário dos líderes religiosos e políticos que tinham explorado e abandonado as multidões (Mt 9,36). Inclusive, todo este relato tem como pano de fundo o Sl 22(23), no qual o salmista reconhece Deus como o pastor que alimenta o povo e o faz descansar num prado verdejante (grama), como aqui.

O gesto de fazer a multidão sentar-se na grama também merece atenção. Sentar-se à mesa, na cultura bíblica, é sinal de comunhão e igualdade. Jesus não distribui alimento a uma massa anônima; ele constitui uma assembleia. De fato, no Reino de Deus ninguém come isoladamente. A refeição partilhada antecipa a comunhão fraterna que deve caracterizar a Igreja. Os gestos de Jesus com os pães e os peixes antecipam a eucaristia, mas vão muito além de um rito: olhar para o céu – abençoar – (re)partir – dar/distribuir. São os passos que a comunidade cristã não pode parar de dar, não apenas como rito semanal, mas como vivência cotidiana, sobretudo onde e quando há multidões famintas de pão. Por isso, a dimensão eucarística do relato não pode ser separada da partilha concreta. A mesma comunidade que celebra o pão repartido no altar é chamada a repartir o pão da mesa cotidiana. Quando a Eucaristia não transborda em solidariedade, corre-se o risco de reduzir o gesto de Jesus a um rito sem consequências históricas concretas, sem efeito humanizante.

Como resultado da partilha, aliás, de todo um processo, o resultado foi este: «Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios» (v. 20). Recordemos que houve todo um processo, o que não seria necessário caso se tratasse de um puro gesto sobrenatural de Jesus. De seu olhar compassivo, Jesus conferiu responsabilidade aos discípulos, provocou neles a disposição de colocar em comum tudo o que tinham, gesto que inevitavelmente motivaria também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, até a partilha que deixou todos satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o alimento, o pão de cada dia. No final, ainda sobrou, o que foi tudo recolhido. O alimento é sempre um dom de Deus, e o que é dom de Deus não pode ser desperdiçado. O recolhimento das sobras ensina ainda o cuidado com os dons recebidos. A abundância gerada pela partilha não autoriza o desperdício. Num mundo marcado simultaneamente pela fome de milhões e pelo descarte excessivo de alimentos, esse detalhe do Evangelho adquire forte atualidade ética. Respeitar o alimento é respeitar o trabalho humano, a criação e o Deus que sustenta a vida. O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, há alimento para todos e todas. Essa não deve ser uma prática ocasional, mas um modo permanente de viver.

No final, a referência ao número dos que se alimentaram, o que também é um número simbólico que significa uma grande quantidade: «E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças» (v. 21). Entre o número inicial de dons disponíveis para a partilha e a multidão alimentada há uma enorme diferença. Com isso, o evangelista quer ensinar que os resultados são sempre surpreendentes quando se põe em prática o que Jesus ensinou, e reforça o convite para a comunidade não ter medo de partilhar o que tem. O último dado considerado é a menção do evangelista às mulheres e crianças, o que reforça ainda mais a importância da partilha, pois significa que havia uma multidão incontável, e que a partilha gera sempre abundância. Somente Mateus faz essa observação. Apesar de sutil, é um aceno à inclusão. Mulheres e crianças eram consideradas categorias insignificantes, na época. O evangelista ensina, com isso, que a comunidade cristã é aberta a todos. Na verdade, as pessoas historicamente marginalizadas são as preferidas no programa do Reino.

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome. A comunidade não pode esperar ter todas as condições ideais para viver o programa do Reino; é vivendo-o que ela cria condições de vida, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso! Sem negar as outras dimensões da existência humana, o evangelista insiste que a fé não pode ignorar a fome concreta de pão. Jesus não separa cuidado espiritual e cuidado material: ele cura, acolhe e alimenta. A comunidade que o segue é chamada a fazer o mesmo, confiando que Deus continua gerando abundância quando seus filhos e filhas aprendem a repartir.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, julho 24, 2026

REFLEXÃO PARA O 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,44-52 (ANO A)



Com a liturgia deste décimo sétimo domingo do tempo comum, conclui-se a leitura do discurso em parábolas do Evangelho de Mateus, iniciada há dois domingos. Como temos sempre recordado, o discurso em parábolas é o terceiro dos cinco grandes discursos de Jesus em Mateus, ocupando, assim, uma posição central, o que evidencia a sua importância para a teologia do respectivo Evangelho. Isso corresponde à centralidade do tema do Reino na pregação de Jesus, pois o tema desse discurso é exatamente o Reino dos Céus e sua dinâmica, descrito simbolicamente a partir de sete parábolas. O texto específico que a liturgia oferece para este domingo é Mt 13,44-52, o qual contém as últimas três das sete parábolas, uma vez que as quatro primeiras já foram lidas nos dois últimos domingos. Convém recordar que, de acordo com o contexto narrativo do Evangelho de Mateus, os destinatários primeiros do discurso foram os discípulos e as multidões que se reuniram à beira-mar para ouvir Jesus (Mt 13,1-2). Porém, mais do que reconstituir e descrever fielmente um acontecimento concreto da vida de Jesus, o evangelista organizou o discurso para responder às necessidades da sua comunidade, que vivia um momento de crise, como já contextualizamos nos domingos anteriores.

Tendo em vista que o contexto já foi bastante evidenciado nos dois últimos domingos, podemos dispensar hoje uma contextualização mais ampla, embora seja necessário recordar alguns elementos. Ora, tendo já apresentado as diversas características do Reino dos Céus por meio das quatro parábolas anteriores – do semeador; do joio e o trigo; do grão de mostarda; do fermento –, nas três de hoje o objetivo do evangelista é motivar os seguidores e seguidoras de Jesus e a própria comunidade a fazer uma opção absoluta pelo Reino, preferindo-o a qualquer outra realidade ou bem. Por isso, as parábolas de hoje são mais motivadoras do que descritivas, propriamente. Isso se evidencia, sobretudo, nas duas primeiras, principalmente, a do tesouro e a do comprador de pérolas (vv. 44-46), respectivamente. Elas ilustram, acima de tudo, motivações para a acolhida do Reino, muito mais do que uma mera descrição comparada desse. Ora, o encontro com o Reino e seus valores exige uma decisão e tomada de posição radicais e inadiáveis. Por sua vez, a terceira parábola do texto de hoje e última do discurso retoma a descrição, evidenciando as contradições e a diversidade que compõem o Reino dos Céus, prevenindo a comunidade cristã de qualquer tendência ao puritanismo e segregação, convidando-a à aceitação da diversidade e à inclusão. Certamente, essa era uma das principais preocupações de Jesus e do evangelista Mateus, que via o risco da mentalidade separatista do farisaísmo se instalar na sua comunidade.

Feitas as devidas observações a nível de contexto, olhamos para o texto, começando pela primeira parábola, que é bastante curta, pois ocupa apenas o primeiro versículo: «O Reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo» (v. 44). Um tesouro no contexto da época era um vaso de argila cheio de moedas valiosas e joias que os proprietários enterravam em suas propriedades quando percebiam perigo de guerras, invasões ou saques. Apesar de não se tratar de um acontecimento tão frequente, a descoberta de um tesouro na antiguidade era uma possibilidade bem real, de modo que os primeiros ouvintes-leitores do Evangelho compreendiam muito bem a imagem. Ora, quando um proprietário de terras tinha de fugir às pressas por causa de uma invasão, enterrava o seu tesouro, imaginando um dia voltar para recuperá-lo. No entanto, dificilmente retomava a posse da terra; essa passava para outros proprietários que não sabiam da existência de um tesouro escondido na propriedade. Por isso, geralmente, esses tesouros eram encontrados muito tempo depois de enterrados, por pessoas que não sabiam da sua existência; daí a ideia de surpresa subentendida no texto, seguida da mencionada alegria. Por sinal, uma palavra-chave no Evangelho de hoje é exatamente alegria, como uma característica essencial de quem encontrou o Reino e a ele aderiu plenamente.  

A respeito do homem que encontra o tesouro, o texto não diz muita coisa. Não sabemos o que fazia antes, se estava no campo por acaso ou se estava trabalhando a terra. O que sabemos é que ele encontrou um motivo para mudar a sua vida. Encontrou algo pelo qual valia a pena renunciar a tudo o que possuía para ficar somente com ele. A chamada de atenção de Jesus para os discípulos e a multidão, e de Mateus para a sua comunidade, visa deixar ainda mais claro que o Reino deve ser a primeira opção de quem o encontra.  O Reino desestabiliza a normalidade das coisas, é reviravolta, é subversão, é o revés da ordem estabelecida, tanto no campo político quanto no religioso, embora comece de modo acanhado e silencioso, como a postura do homem ao encontrar o tesouro, que não fez alarde, o manteve escondido até à posse definitiva. Essa discrição inicial do Reino já havia sido mostrada nas parábolas anteriores, sobretudo na da semente de mostarda e na do fermento na massa, lidas no domingo passado. O homem encontrou o tesouro por acaso, ou seja, sem fazer esforço algum. Essa é uma das possibilidades de encontro com o Reino, pois como já tinha dito o próprio Jesus, «o Reino dos céus está próximo» (Mt 10,17), ou seja, é ele quem vem ao encontro das pessoas, embora sejam feitas exigências para experimentá-lo: «convertei-vos» (Mt 10,17)A decisão do homem da parábola significa uma verdadeira conversão, pois foi fruto de uma mudança de mentalidade. Ele se deu conta que não valia a pena continuar com os bens que possuía, tendo encontrado algo muito mais valioso. Ao desfazer-se de todos os bens para possuir um único bem mais valioso do que tudo, ele demonstrou grande desapego, fruto de discernimento, certamente. Com efeito, não basta contemplar nem saber que o Reino dos céus chegou, é necessário fazer esforço para nele entrar; esse esforço consiste em deixar de lado tudo o que não é compatível com ele, como fez o homem dessa primeira parábola e vai fazer o personagem da segunda

A segunda parábola tem muita semelhança com a primeira. Também nela se evidencia a necessidade de uma tomada de decisão radical, embora sejam bem evidentes também as diferenças. Na segunda, o Reino é comparado à pessoa que procura e encontra algo, e não ao objeto encontrado, propriamente. Eis o que diz o texto: «O Reino dos céus é como um comprador de pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola» (vv. 45-46). Também nessa, as informações sobre o homem envolvido são poucas. Tudo indica que se trata de um homem experiente e inquieto, capaz de distinguir o que é valioso daquilo que é vulgar. É alguém que sabe avaliar as coisas, examinando-as de modo minucioso, como fruto da experiência e da busca constante. Assim como o da parábola anterior, também esse homem encontra algo que lhe faz tomar uma decisão radical. Porém, ao contrário do homem que encontrou o tesouro por acaso, na primeira parábola, nessa segunda se trata de um homem que já buscava. Lidas juntas, as duas parábolas mostram que não há contradição entre dom e esforço. A conquista do Reino exige esses dois elementos. O Reino é dom gratuito de Deus ao mundo, mas não se entra nele sem esforço, pois, para fazer parte dele, há exigências indispensáveis.

Na primeira parábola, o tesouro foi encontrado como puro dom, sem nenhuma busca: o homem simplesmente encontrou. Na segunda, o personagem é alguém que procura, seleciona criteriosamente o que tem grande valor e o que não tem. O importante em ambas as situações é a decisão tomada ao encontrar algo que pode mudar o sentido da vida. O mais relevante não é a forma como cada coisa foi encontrada, mas a decisão tomada para possuí-la, conforme a linguagem das parábolas, o que corresponde à busca pelo Reino e a inserção nele. Em cada situação, a decisão tomada de vender todos os bens para possuir o objeto encontrado recorda a decisão dos primeiros discípulos chamados por Jesus, as duas duplas de pescadores às margens do mar da Galileia: ao ouvir o chamado de Jesus, eles deixaram tudo para segui-lo (Mt 4,18-22). Naquela ocasião, não houve venda e compra, mas a decisão de deixar tudo. É claro que a participação no Reino não depende de um processo de compra e venda. Não se trata de relação comercial nem de lógica mercadológica. Os exemplos das parábolas do tesouro e do comprador de pérolas visam apenas ilustrar a necessidade de tomada séria de decisão para entrar no Reino. Por sinal, os objetos de valor em questão – tesouro e pérola preciosa – são imagens tradicionais da Bíblia, sobretudo da tradição sapiencial, para representar realidades de valor imensurável, como a sabedoria e a própria Lei, no Antigo Testamento. Portanto, a decisão dos dois personagens de vender todos os bens corresponde ao deixar tudo dos discípulos e discípulas de Jesus, em todos os tempos, para viver uma vida pautada pelos valores do Reino: justiça, amor, solidariedade, acolhimento, sinceridade, alegria e coragem para lutar contra tudo o que impede o seu crescimento.

A última parábola do discurso, a terceira do evangelho de hoje, é aquela da rede jogada ao mar: «O Reino dos céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam os que não prestam» (vv. 47-48). Muitos estudiosos insistem em relacioná-la com aquela do joio e do trigo, refletida no domingo passado (Mt 13,24-30). É certo que existem semelhanças entre as duas, mas as diferenças são bem maiores. Naquela do joio e do trigo, quem semeou a semente nociva foi um inimigo, enquanto o dono do campo e da semente boa dormia. Nessa da rede, os peixes bons e ruins têm uma mesma origem, não são frutos da ação de dois personagens diferentes. Essa diferença é muito importante. Ora, desde a comunidade apostólica, havia na Igreja a tendência equivocada de querer ser uma comunidade de santos, justos ou eleitos, ou seja, uma comunidade separada e isolada. Essa tendência, comum no judaísmo da época, era e é um entrave para a concretização do Reino. Com essa parábola da rede, bem mais do que com a do joio e o trigo, Jesus apresenta o universalismo do Reino, marcado pela diversidade e inclusão, e sua exposição aos perigos. Como as parábolas respondem a uma situação de crise da comunidade, é interessante retornar às origens, ao primeiro chamado: «Vinde, segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens» (v. 4,19). Essa parábola é, portanto, um convite para os discípulos retornarem às origens do chamado. Ora, Jesus não os chamou para irem à procura de pessoas boas e santas, mas simplesmente para “pescar seres humanos”, ou seja, ir ao encontro da humanidade inteira, sem distinção nem classificação, como uma rede que apanha todo tipo de peixe.

Com a parábola do joio e o trigo Jesus pedia tolerância e paciência. Com essa da rede, Ele vai além: pede inclusão, aceitação e abertura constante, pois a rede envolve, junta, mistura tudo. A semente era jogada em um terreno conhecido, mesmo que não fosse previamente preparado. O mar onde é lançada a rede, ao contrário, é sempre imprevisível, pois o movimento dos ventos e das águas foge de qualquer controle. Isso significa um desafio para a comunidade e uma advertência a qualquer tendência separatista e segregadora. Na comunidade cristã não pode ter juízes, mas apenas irmãos e irmãs. Por isso, a explicação alegórica da parábola projeta, em linguagem apocalíptica, a separação definitiva para o final dos tempos, e diz que essa será feita por anjos, seres de outra esfera, e não pelas lideranças da comunidade: «Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos. E lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes» (v. 50). As explicações das parábolas são sempre acréscimos do evangelista ou dos continuadores de suas tradições. Aqui, faz-se uma advertência aos membros da comunidade, provavelmente às lideranças, para evitar julgamentos, preconceitos e condenações. É uma forma de dizer que ninguém pode julgar o outro na comunidade. No final do Evangelho de Mateus, quando retomar o tema do juízo, Jesus dirá que o critério no julgamento será a opção pelos pequenos, pobres e marginalizados. 

No final, após contar toda a série de parábolas, Jesus faz uma pergunta simples, mas profunda, aos discípulos, os primeiros destinatários de todo o discurso: «Compreendestes tudo isso?» (v. 51). Ora, Jesus apresentou o Reino dos céus em sete parábolas; como o número sete evoca perfeição e totalidade, é como se Jesus dissesse que tinha dito tudo sobre o Reino, e que é necessário compreendê-lo em sua totalidade. A compreensão aqui significa a aceitação da sua mensagem com as consequências que essa implica; não se trata da abstração teórica de um conteúdo, mas de assimilar um jeito novo de viver. Embora a resposta dos discípulos tenha sido positiva, a história e a própria continuação do Evangelho de Mateus mostram que, na verdade, eles ainda não tinham compreendido tudo. O importante, no entanto, é a disposição para compreender e, para isso, é necessário fazer da vida uma busca constante pelo maravilhoso tesouro que é «o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6,33). A conclusão do discurso é um convite reforçado ao discernimento: «Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”» (v. 52). Alguns estudiosos consideram esse versículo como uma nova parábola, mas a aceitação dessa ideia é mínima atualmente, sobretudo porque elevaria para oito o número de parábolas do discurso, o que comprometeria a ideia de perfeição da exposição de Jesus sobre o Reino, representada pelo número de sete parábolas. Para muitos estudiosos, esse versículo é também um traço autobiográfico do próprio autor Mateus: ele seria um exemplo de escriba (mestre da Lei) que se tornou discípulo, conservou e soube tirar coisas novas e velhas do grande tesouro que são as tradições de Israel. Inclusive, é o evangelista que mais teve cuidado de buscar elementos da Escritura (Antigo Testamento) para justificar e fundamentar a mensagem de Jesus. Nessa perspectiva, as coisas velhas são a Lei e os profetas, enquanto as coisas novas são os ensinamentos de Jesus, que ele mesmo considerou como o pleno cumprimento da Lei e dos profetas (Mt 5,17). No entanto, trata-se apenas de uma linha interpretativa entre muitas, sem gozar de unanimidade entre os estudiosos, embora não seja carente de plausibilidade.

Considerando o evangelho de hoje e o dos últimos domingos, nos quais foi tão bem apresentado o Reino dos Céus com sua dinâmica e suas características essenciais, urge pensar e repensar o agir cristão atual e as estruturas de nossas comunidades com seus planos e propósitos. É importante questionar se as prioridades assumidas contribuem para a construção do Reino e se evidenciam a sua presença no mundo. Muitas vezes, o que se tem buscado é manter estruturas enrijecidas, obsoletas, incapazes de transmitir vida, amor e humanização. É importante, portanto, despertar o interesse pelo Reino como bem absoluto, com coragem de abrir mão de tudo o que não condiz com a sua dinâmica.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, julho 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43 (ANO A)

 


A liturgia deste décimo sexto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do discurso em parábolas, localizado no capítulo treze do Evangelho de Mateus. Como afirmado no domingo passado, quando fora lida a primeira parábola, esse é o terceiro dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus pelo evangelista Mateus, e tem como tema principal o Reino dos Céus, o qual vem apresentado a partir de sete parábolas. A passagem específica que a liturgia selecionou para esse domingo – Mateus 13,24-43 – contém três parábolas: do joio e o trigo (vv. 24-30), a da semente de mostarda (vv. 31-32), e a do fermento na massa (v. 33). Além das três parábolas mencionadas, o texto contém ainda uma justificativa para o discurso em parábolas, com fundamentação na Escritura (vv. 34-35), e a explicação da parábola do joio e o trigo (vv. 36-43). Certamente, essa explicação é um acréscimo posterior da comunidade de Mateus, provavelmente para amenizar um pouco o impacto causado pela mensagem provocativa da parábola em específico e de todo o discurso.

Para compreender adequadamente qualquer trecho desse discurso, devemos sempre considerar o seu contexto, como já o fizemos no domingo passado, ao iniciar a leitura com a parábola do semeador (Mt 13,1-23), e hoje o recordamos de novo, pelo menos parcialmente. Ora, no contexto narrativo do Evangelho de Mateus, o discurso em parábolas reflete um momento delicado do ministério de Jesus. Faz parte das reações à rejeição sofrida pela sua atuação na Galileia, junto com seus discípulos, tendo sido desacreditado até mesmo pelo seu mentor, João, o Batista (Mt 11,2-19). Além da rejeição, havia também a falta de compreensão da sua mensagem, principalmente da parte dos discípulos, uma vez que o modelo de Reino anunciado e proposto por Jesus não correspondia às expectativas e esperanças alimentadas por eles. Com efeito, eles nutriam as expectativas por um messias glorioso, poderoso e guerreiro, conforme a ideologia nacionalista vigente, ancorada no messianismo davídico. Diante disso, começavam a sentir-se decepcionados com Jesus, o qual se apresentava como manso e humilde de coração (Mt 11,29), traços característicos incompatíveis com o ideal messiânico esperado.

Mateus retoma esse momento da vida de Jesus para responder também ao contexto de crise pelo qual passava a sua comunidade, há cerca de cinco décadas da morte de Jesus. Com efeito, a crise vivida pela comunidade de Mateus, respondida pelas três parábolas de hoje, girava em torno de três grandes problemas ou tentações incompatíveis com a mensagem de Jesus, que se tinham instalado em seu meio, a saber: 1) puritanismo – pretensão de constituir uma comunidade separada, formada apenas por pessoas puras, santas e justas;  2) projeto de grandeza – havia, sobretudo nas lideranças da comunidade, muita sede de poder e desejo de sobreposição sobre os demais grupos; 3) desânimo – vontade de desistir por não ver resultados nem efeitos gerados pela pregação e a forma de vida cristã. Apesar de incompatíveis com a Boa Nova do Reino, essas três tendências têm marcado a história da comunidade cristã, desde as suas origens com os Doze, até hoje. Isso torna o texto de Mateus sempre atual e necessário. 

Ao primeiro problema, Jesus, e posteriormente Mateus, responderam com a parábola do joio e o trigo, um relato exclusivo do Primeiro Evangelho. Tudo indica que essa tenha sido uma das parábolas de mais difícil aceitação pelas primeiras comunidades, tornando necessário o acréscimo de uma explicação atribuída ao próprio Jesus. Eis o início dessa parábola: «O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora» (vv. 24-25). A introdução da parábola apresenta o Reino em uma realidade de tensão e hostilidade. Essa tensão é marcada pela presença simultânea da semente boa e da semente nociva no mesmo terreno, representando o mal e o bem, o amor e o ódio, a vida e a morte presentes na vida da comunidade do Reino e no mundo. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam o Reino como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. Jesus mostra o contrário: quem adere ao seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o diferente e até mesmo com o mal, sem compactuar com ele, obviamente.

O joio (em grego: ζιζάνια– zizânia) semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), era uma planta muito parecida com o trigo, cujos grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumir. Comparável ao mal, é obra das trevas, por isso, foi «semeado enquanto todos dormiam», ou seja, à noite, o que na Bíblia significa aquilo que está longe de Deus. É um sinal de perigo e, portanto, uma ameaça à colheita da boa semente semeada no mesmo campo. Por isso, a ideia dos servos zelosos é arrancar o quanto antes, para que não chegue a contaminar a plantação boa: «Queres que vamos arrancar o joio?» (v. 28b). A esses servos, correspondem as pessoas muito religiosas de todos os tempos, dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje, e de outras religiões também. São as pessoas intolerantes que, por causa de um falso zelo, alimentam e disseminam ódio e violência. Quem pensa dessa maneira, obviamente, não está em sintonia com o projeto de Jesus, mesmo que use o seu nome como motivação para as práticas de intolerância.

A resposta prudente do dono do campo revela a atitude que Jesus espera de seus seguidores: «Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita» (vv. 29-30a). Jesus quer mostrar que, antes de tudo, o cristão não pode apresentar-se como juiz de ninguém. Ora, julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos. Enquanto não chegar o tempo da colheita, não é possível distinguir o bem do mal, o saudável daquilo que é nocivo. Somente pelos frutos é possível conhecer a árvore. A pressa daqueles servos em arrancar logo o joio poderia comprometer toda a colheita. Trata-se de uma atitude que revela extremismo, intolerância, falta de capacidade para conviver com as diferenças. Essa tendência continua presente ainda em muitos seguimentos da religião cristã, infelizmente. O Reino dos céus proposto por Jesus não é uma sociedade de pessoas perfeitas, alheia à história e às contradições da existência, não é uma comunidade de puros. O Reino só pode ser construído no meio do conflito. Por isso, exige capacidade de diálogo, respeito às diferenças, paciência e tolerância.

A segunda parábola, ainda relacionada ao mundo agrícola, a do grão de mostarda (vv. 31-32) é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Essa parábola encontra-se também em Marcos e Lucas (Mc 4,30-32; Lc 13,18-19). Diante da estrutura imperial e da organização do judaísmo, com uma verdadeira rede de sinagogas espalhadas por todo o império romano, o projeto de Jesus se apresentava praticamente invisível. Os discípulos, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. Diante disso, a resposta de Jesus foi desconcertante: «O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo» (v. 31). Com isso, ele ensina que a comunidade dos discípulos deve aceitar a condição de pequenez em que se encontra e deve reconhecer essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino e se inserir nele. Ora, o Reino não pode impor-se por sinais de grandeza nem de espetáculo. O importante é que esse seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com a mostarda: depois que a planta cresce «os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos» (v. 32b). De fato,  a única preocupação dos que lutam pelo Reino deve ser se estão sendo abrigo e serviço para os mais necessitados, pois é isso que atesta a fidelidade a Jesus.

À terceira tentação ou problema, o desânimo e falta de paciência, Jesus dá como resposta a parábola do fermento, a mais difícil de ser aceita e compreendida entre as três, pelos discípulos de então: “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Essa parábola se encontra também no Evangelho de Lucas (Lc 13,20-21) e é considerada uma das mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento, e com a atividade típica de uma mulher, conforme as convenções sociais de então. Ora, para a cultura e tradição da época, a mulher pouco teria a contribuir com um projeto de sociedade como era o Reino dos céus e, no entanto, Jesus apresenta o seu agir como imagem da construção do seu Reino. Isso deve ter sido considerado um escândalo para os primeiros ouvintes e leitores, pois esperava-se a instauração do Reino como uma intervenção divina extraordinária na história, cuja colaboração humana imaginável seria apenas de valentes soldados. Enquanto isso, Jesus mostra o Reino como uma construção que surge nas bases, a partir das coisas simples e das pessoas pouco importantes.

O fermento era símbolo da subversão, porque tinha a capacidade de, mesmo em pequena quantidade, transformar a massa, dando-lhe nova forma e fazer crescer. O uso do pão fermentado era, inclusive, proibido para o uso litúrgico dos judeus (Ex 12,19; 13,7; Dt 16,3). Além de adulterar a massa, ainda exigia bastante paciência até que seu efeito se tornasse visível no pão. E era exatamente a paciência que estava acabando nos discípulos e levando-os ao desânimo. Ora, como não viam efeito algum na pregação deles e de Jesus, pois o mundo continuava do mesmo jeito, estavam propensos a desistir, à medida que aumentavam as exigências de coragem e disposição, diante da ameaça de perseguição que marcava os anos oitenta do primeiro século, época em que foram escritos os evangelhos de Mateus e Lucas. Com uma parábola como essa, o evangelista mostra Jesus injetando ânimo e perseverança em seus discípulos; ao mesmo tempo, aproveita a mensagem para desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores. O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade. Ninguém vê o fermento agindo dentro da massa. Uma vez que ele é injetado, se torna invisível ao misturar-se com a massa. No entanto, quem tiver paciência de esperar o seu efeito, o verá, e até de modo surpreendente.

No mundo, a comunidade cristã tem um papel semelhante ao do fermento na massa: de modo subversivo, ou seja, mesmo contra a legalidade, irradiar um jeito alternativo de viver, a partir de relações de solidariedade, igualdade, justiça e amor, até contagiar toda a massa, ou seja, as sociedades com seus padrões convencionais de comportamento. Esse trabalho de injetar fermento na massa é inclusivo, deve ser feito por todos e todas, mas começa pelos mais excluídos e desprezados da história, como as mulheres, conforme o exemplo da parábola. Enfim, são os gestos pequenos e simples, de pessoas humildes, marginalizadas, como era a mulher na época do texto, que podem transformar o mundo e torná-lo apto à vivência do Evangelho. São os pequenos e humildes os agentes privilegiados de Deus para introduzir o seu Reino no mundo. A última parte do texto é a explicação da parábola do joio e do trigo (vv. 36-43), considerada um acréscimo redacional da comunidade. Ao todo, somente duas parábolas recebem uma explicação atribuída a Jesus: a do semeador, lida no domingo passado, e a do joio e o trigo, lida hoje. A explicação da do joio e o trigo deve-se à dificuldade de aceitação nas primeiras comunidades, pois seu ensinamento visa estimular a paciência e a tolerância com todas as adversidades que possam aparecer na comunidade e na vida de cada pessoa, incluindo o próprio mal. 

Com essas três parábolas de hoje, de modo brilhante, Mateus respondeu aos questionamentos da sua comunidade, recordando como Jesus também reagia às crises do grupo dos Doze. Certamente, essas respostas são válidas para todos os momentos da história. É preciso reforçar sempre que no Reino dos céus não há espaço para classificação entre bons e maus, puros e impuros, porque é uma comunidade de iguais, cujos distintivos são apenas os frutos; é uma comunidade pequena, mas acolhedora e servidora e, sobretudo, transformadora, para aqueles que aceitam ser subvertidos pelo Evangelho.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, julho 11, 2026

REFLEXÃO PARA O 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-23 (ANO A)


A liturgia do décimo quinto domingo do tempo comum marca o início da leitura do “discurso em parábolas”, que se estenderá por mais dois domingos. Trata-se do terceiro dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de Mateus. Nesse discurso, o Reino dos Céus é ilustrado a partir de sete parábolas, que ocupam praticamente todo o capítulo treze do Evangelho. A liturgia propõe a leitura desse capítulo por três domingos consecutivos, começando hoje. O texto proposto especificamente para esse domingo é Mt 13,1-23. Como se vê, trata-se de um texto bastante extenso, o qual contém a primeira parábola do discurso (vv. 1-9), as motivações do discurso em parábolas (vv. 10-17), e a explicação da parábola para os discípulos (vv. 18-23). Considerando a extensão do texto, não comentaremos versículo por versículo. Procuramos colher a mensagem central do texto em seu conjunto. Para uma compreensão mais adequada do texto, é necessário fazer uma pequena contextualização introdutória, sobretudo por se tratar de uma nova fase na vida e no ministério de Jesus, com uma nova metodologia, como veremos a seguir.

A mudança de metodologia e perspectiva que o texto reflete faz parte da reação de Jesus às rejeições sofridas pela sua mensagem em algumas cidades da Galileia após o discurso missionário e o envio dos discípulos (Mt 11–12). Ora, tinha ficado claro que nem todos se interessaram pelo anúncio da Boa Nova do Reino, anunciado tanto por Jesus quanto pelos discípulos por ele enviados. Diante disso, Jesus apresenta o Reino e seus mistérios a partir de uma série de sete parábolas, visando tornar a sua mensagem ainda mais acessível, especialmente para as pessoas simples e humildes, que já lhe tinham dado sinal de adesão, ao contrário dos sábios e entendidos que não se interessavam pela sua mensagem libertadora (Mt 11,25). Certamente, diante do aparente fracasso da missão de Jesus até então, seus discípulos lhe questionaram a respeito da eficácia e até mesmo da utilidade do seu anúncio: por que anunciar, se poucos escutam, e dos que escutam, poucos compreendem e acreditam? Por que o anúncio da Boa Nova do Reino praticamente não causa efeito algum no mundo? Vale a pena continuar? Sem dúvidas, o conjunto de parábolas do capítulo treze, e sobretudo a de hoje, faz parte da tentativa de Jesus e o evangelista responderem a questionamentos desse tipo.

Por trás dos prováveis questionamentos dos discípulos estava também uma concepção distorcida de messianismo, já que o perfil de Jesus fugia dos padrões e das expectativas mais convencionais do judaísmo da época: ao invés de um messias potente e guerreiro, Jesus se apresenta simples, manso e humilde de coração (Mt 11,29); ao invés de reconstruir o antigo reino de Davi, Ele propõe o Reino dos Céus como alternativa de sociedade, cujas características principais são a igualdade, o amor fraterno, a justiça e a solidariedade. Com as parábolas, a dinâmica Reino poderia ser mais bem compreendida pelos discípulos e pelas comunidades destinatárias de todos os tempos, desde que aceitem a condição de pequeninos e pequeninas (Mt 11,25), disposição essencial para conhecer a mensagem de Jesus e conduzir a existência a partir dela. Além dos mistérios do Reino em si, as parábolas também ajudam a compreender a dinâmica de aceitação e rejeição, o que mais inquietava os discípulos naquele momento de crise vivido pelo grupo. Por último, ainda do ponto de vista do contexto, convém recordar que o texto reflete mais a situação da comunidade do evangelista do que mesmo a do grupo dos primeiros discípulos de Jesus.

Feitas as observações em nível de contexto, voltamos a atenção diretamente para o texto, que começa dessa maneira: «Naquele dia, Jesus saiu de casa para sentar-se às margens do mar da Galileia» (v. 1). Jesus já estava radicado em Cafarnaum, cidade localizada às margens do lago da Galileia, chamado de mar pelo evangelista por motivos teológicos. O mar evoca perigo e hostilidade, é onde habitavam as forças do mal, segundo a mentalidade semita da época. As margens do mar significam lugar de movimento, fluxo de pessoas, abertura, contato com o diferente e exposição aos perigos. Permanecer em casa é sinal de segurança, fechamento e comodismo. Logo, o deslocamento de Jesus da casa para as margens do mar significa que, mesmo em um contexto de hostilidades à pregação do anúncio do Reino, a comunidade cristã não pode fechar-se em si nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens. Portanto, com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, Jesus convida a Igreja de todos os tempos a estar sempre em saída, sem medo de expor-se aos perigos e contradições do mundo.

Se Jesus permanecesse em casa, somente seus discípulos o ouviriam, ou seja, poucos teriam acesso à sua mensagem. Uma vez que saiu de casa, «uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé na praia. E disse muitas coisas em parábolas» (vv. 2-3). Para romper as bolhas e chegar às multidões é necessário colocar-se em saída e assumir os riscos de tal opção. Inclusive, o gesto de sentar-se na barca é a confirmação desses riscos; a mensagem libertadora de Jesus não é um mero conteúdo para ser explicado de cátedras ou púlpitos, mas um programa de vida que comporta riscos para quem se dispõe a vivê-lo. Por isso, a barca se tornou, desde os primórdios, uma das principais imagens da Igreja, evocando sempre os riscos, a instabilidade e o colocar-se em movimento. Embora já tivesse contado várias parábolas (Mt 7,24-27; 9,15; 12,43-45), essa é a primeira vez que o evangelista usa propriamente o termo “parábola” (em grego: παραβολή – parabolê), cujo significado é pôr lado a lado duas realidades e compará-las; literalmente, significa comparação. E é isso o que Jesus faz, de fato. Ele apresenta o Reino a partir de comparações com elementos do cotidiano das pessoas, o que não significa que, necessariamente, será melhor compreendido por isso, mas pelo menos instigará a reflexão.

A primeira das parábolas que compõe o discurso é aquela que o Evangelho de hoje nos apresenta: «o semeador saiu para semear» (v. 3b). Essa parábola é considerada a “parábola mãe” de todas as parábolas. Inclusive, está presente nos três evangelhos sinóticos (Mt; Mc; Lc), o que demonstra tratar-se de uma parábola com ampla aceitação e circulação entre as primeiras comunidades cristãs. Conforme vem descrito, esse semeador lança a semente em quatro tipos diferentes de terrenos: caminho, pedra, espinho e terra boa (vv. 4-8), sem distinção. Certamente há, aqui, uma grande discrepância com as práticas agrícolas modernas, facilmente perceptível aos leitores de hoje. Na antiga Palestina, cenário dos evangelhos, a terra não era preparada com antecedência para a plantação. Jogava-se a semente na terra e só se começava a prepará-la quando as plantas nasciam e cresciam, a ponto de distinguir a planta boa da árvore daninha (ver o exemplo da parábola do joio e do trigo, Mt 13,24-30, a qual será lida no próximo domingo). Perder sementes jogadas em terrenos duvidosos era visto como natural. O importante era a confiança e a certeza de que em algum lugar a semente haveria de nascer, crescer e frutificar em abundância.

É importante recordar que, mesmo tendo a multidão como auditório, o público-alvo principal da parábola e de todo ensinamento de Jesus é sempre os discípulos, tanto aqueles de primeira chamada quanto a comunidade cristã de todos os tempos. E uma das primeiras lições da parábola é que a comunidade anunciadora do Reino não deve escolher a quem anunciar, assim como o semeador não escolhe o terreno antes de lançar a semente. Inclusive, a maioria das interpretações fixam a atenção no significado da semente, fazendo passar despercebida a figura do semeador que, aqui na parábola, é o próprio Jesus. É ele o semeador que espalha sementes de amor e esperança em todos os tipos de terreno, sem preocupar-se com os resultados e, por isso, é o modelo para os discípulos. Isso faz dessa parábola uma das mais autobiográficas. Ora, diante dos fracassos recentes na missão evangelizadora de Jesus com os Doze, a tendência mais sensata, humanamente falando, seria selecionar melhor os destinatários do anúncio para não se perder mais tempo. Jesus está, com essa parábola, advertindo a Igreja de todos os tempos que na sua missão, estará mais presente o fracasso do que o sucesso, afinal, de quatro tipos de terreno, somente em um deles a semente frutificou. A comunidade deve confiar na eficácia da Palavra e, ao mesmo tempo, conscientizar-se das diversas oposições que essa recebe e que podem impedir o seu crescimento.

Apesar dos fracassos constatados na semeadura, de uma coisa a comunidade não pode duvidar: a Palavra tem uma força transformadora incrível; ela é mesmo viva e eficaz, o que é demonstrado na parábola pela imagem da semente caída em terra boa, que «é capaz de produzir à base de cem, sessenta e de trinta frutos por semente» (v. 8). Essa imagem exageradamente abundante dos frutos é importante e confortante a uma comunidade, sobretudo quando essa se sentir esgotada, fracassada, devido aos poucos resultados da evangelização. Ora, convencionalmente, o máximo que se esperava de um cacho (ou espiga) de trigo era trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. O que parecia ser muito (trinta frutos) passa a ser mínimo diante da beleza e abundância que é a vida de quem se deixou conduzir pelos frutos do Reino. A colheita surpreendente – cem frutos por semente – só é possível para quem confia na Palavra e se abre completamente aos valores do Reino. O que parecia muito, conforme a lógica da colheita nos tempos de Jesus, é o mínimo na dinâmica do Reino. Diante da abundância da colheita gerada pela semente caída em terra boa, a perda das sementes perdidas caídas nos terrenos inapropriados se torna insignificante. Com isso, confirma-se, mais uma vez, a lógica do Reino: é preciso perder para poder ganhar.

Após contar a primeira das sete parábolas do discurso, o evangelista diz que «os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “por que falas ao povo em parábolas?”» (v. 10). A resposta de Jesus é bastante longa e enigmática (vv. 11-17), usando, inclusive, o profeta Isaías (Is 6,9-10). Assim como havia níveis diferentes de adesão à pregação de Jesus e ao seu Evangelho, posteriormente, também havia diferenças no modo de compreender a sua Palavra nas comunidades. Nem toda a multidão estava apta a compreender por que isso não é possível sem uma experiência autêntica com Ele. Inclusive, ele deixa claro que não serve um conhecimento superficial da sua pessoa: ou se conhece profundamente ou não se conhece nada d’Ele. Por conhecimento de Jesus, compreende-se a experiência de amor que se faz com a sua pessoa, e não a abstração de ideias e teorias a seu respeito. No gesto dos discípulos aproximarem-se dele está o modelo para o discipulado de todos os tempos: não basta ouvi-lo, é necessário aproximar-se dele, estar ao seu lado e vice-versa, para a palavra, enquanto semente, enraizar no coração e frutificar. Quanto mais a comunidade se aproximar dele, mais compreenderá a sua palavra. Por isso, o sentido de comunidade também é profundamente evidenciado pelo evangelista nessa passagem. A comunidade reunida é o espaço privilegiado para questionar, tirar dúvidas e aprofundar o sentido dos ensinamentos de Jesus.

Ao esclarecer os motivos pelos quais falava em parábolas, Jesus aprofunda, em estilo sapiencial, o sentido da Palavra: ela transforma, cria raízes no coração, por isso «à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem» (v. 12). É claro que Jesus não está falando de bens ou riquezas materiais, mas do conhecimento da sua pessoa, dos mistérios do Reino e da Palavra. Quem o conhece superficialmente, na verdade não o conhece; quem o conhece verdadeiramente, o conhecerá ainda mais, à medida que aprofunda com Ele a relação. Ora, no coração onde a Palavra apenas tocou sem criar raízes, ela logo desaparecerá. Mas, onde ela de fato enraíza e frutifica, os frutos são cada vez mais abundantes. O desejo de Jesus é que a Palavra seja acolhida por todos e todas, mas a experiência estava mostrando que não era possível. Nem todos a acolhiam. Uns faziam de conta, ou seja, ouviam, mas não se deixavam transformar por ela. A apresentação do Reino em parábolas é, portanto, um convite à reflexão: através das imagens usadas, as pessoas podem refletir com mais calma depois de ouvi-la e, assim, decidir se querem aderir ou não à sua proposta de vida.

A explicação da parábola aos discípulos (vv. 18-23) é, sem dúvida, um acréscimo posterior da comunidade, como forma de manter a mensagem de Jesus sempre atualizada. Novamente, são reforçados o valor e a importância da comunidade para a compreensão e vivência dos ensinamentos de Jesus. Quando está reunida ao redor da Palavra, a comunidade encontra sentido para a sua situação concreta e para os ensinamentos de Jesus. Ora, não basta recordar o que Jesus falou, é necessário ler a realidade atual à luz da sua mensagem e aplicá-la. Nessa explicação, Mateus adverte sua comunidade e as comunidades de todos os tempos para a importância de saber lidar com as diferenças e a paciência no modo de anunciar e acolher a Palavra. O certo é que a escuta deve ser seguida de uma aproximação. Com efeito, quanto mais se escuta Jesus, mais vontade se tem de aproximar-se dele e continuar escutando-o, sempre de modo mais aprofundado, à medida que aumenta a intimidade com ele. Mais do que descrever quatro categorias de pessoas, os quatro terrenos da parábola são advertências e indicações de que cada discípulo e discípula pode comportar em si as quatro situações de acolhida ou resistência à Palavra que é destinada a todas as pessoas, sem distinção, enquanto caminho de humanização e vida abundante. Por isso, os quatro tipos de terrenos evocam também a universalidade do evangelho: todas as pessoas têm direito de ter acesso a ele, sem imposição, com liberdade de aceitá-lo ou não.

Estrada, pedra, espinhos e terra boa, portanto, estão presentes no coração de cada pessoa. Que a Igreja seja estimulada a sair constantemente de si mesma para lançar as sementes do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de deixar a casa e assumir as margens do mar, sem medo. E cada cristão e cristã em particular deve sentir motivação para viver um processo de conversão permanente e, assim, a terra boa se sobreporá no coração, possibilitando que a Palavra produza frutos de amor, justiça, paz e solidariedade. Quanto mais terra boa houver em nosso coração, mais aptos estaremos a ser também semeadores, como Jesus. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

  Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua ...