Com
a liturgia do Domingo de Ramos, a Igreja abre solenemente a Semana Santa,
recordando a entrada decisiva de Jesus na cidade santa de Jerusalém e os
últimos momentos da sua vida terrena, ao fazer memória da sua paixão e morte na
cruz. Por isso, nesta celebração são lidas duas passagens do Evangelho,
compreendidas como reciprocamente complementares. Neste ano, por ocasião do
ciclo litúrgico A, as duas passagens são tiradas do Evangelho de Mateus:
21,1-11 e 26,14–27,66. Apesar da considerável distância
entre elas, ambas estão intrinsecamente relacionadas, tanto por afinidade
quanto por contraste, afinal, aquele que morre na cruz, praticamente abandonado
por todos, é o mesmo que foi euforicamente aclamado rei, ao entrar na cidade.
Isso torna a liturgia deste domingo, como é a de toda a Semana Santa, altamente
paradoxal. Por questão de espaço e relevância,
concentraremos nossa reflexão apenas no relato da paixão, o qual é bastante
longo, totalizando 128 versículos, embora as comunidades tenham a opção de
escolher uma forma mais abreviada – Mt 27,11-54. Em nossa reflexão,
consideraremos o texto completo, embora sua longa extensão não permita um
comentário mais pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos
colher o sentido global do texto, destacando alguns elementos específicos
considerados mais relevantes, destacando alguns detalhes que pertencem
exclusivamente ao relato de Mateus, partindo de uma ampla introdução
contextualizadora.
Os relatos da paixão de Jesus constituem o núcleo de base
da redação dos Evangelhos. Foi a partir destes relatos que os Evangelhos
surgiram enquanto livros. Um famoso teólogo alemão – Martin Kähler
(1835-1912) – chegou a afirmar que «os Evangelhos são os relatos da paixão
com ampla introdução». É claro que uma afirmação desse tipo possui
exageros, mas ajuda a compreender e ilustrar a importância dos relatos da
paixão no processo de formação dos Evangelhos e, sobretudo, no fortalecimento
da fé das primeiras comunidades cristãs. Ora, como a catequese e a vida
litúrgica das comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado,
aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito, à medida em que as
explicações iam-se tornando repetitivas e, consequentemente, insuficientes.
Essas dúvidas se traduziam em perguntas como estas: «Como Jesus viveu e
morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais
questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de
Jesus, pois só pode ressuscitar quem antes passa pela morte. Diante disso,
surgiu a necessidade de contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da
paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.
Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades
romanas quanto das lideranças religiosas do judaísmo, a morte se tornava cada
vez mais presente na vida das comunidades, não apenas enquanto tema, mas
enquanto realidade e possibilidade concreta, pois o anúncio e a adesão ao nome
de Jesus passavam a ser sinal de perigo. Quando se fala do nome de Jesus, no
contexto das primeiras comunidades, compreende-se todo o seu projeto de vida e
libertação, ou seja, a sua mensagem. Diante disso, para quem não tinha convivido
com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu
nome e na sua ressurreição. E, para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada
pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da
perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai
e a sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como
resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que
toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante
para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira
necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato
da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.
Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos,
percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma
vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de
Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso e,
consequentemente, uma incômoda ameaça aos grupos privilegiados do seu tempo.
Logo, seu desfecho final foi o rechaço por parte desses sistemas. Durante a sua
trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema
político da época não priorizavam: o amor gratuito e incondicional ao próximo,
a justiça, a gratuidade nas relações, o perdão ilimitado, o cuidado com os mais
necessitados, a solidariedade, a acolhida aos excluídos e marginalizados, e o
bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter
outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não
compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das
penas aplicadas na época, não foi predestinação e nem acidente, mas
consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das
atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da
época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto
fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estavam
todas voltadas para o Pai do céu, tendo em vista a edificação do seu Reino na
terra.
O relato é situado em Jerusalém, onde Jesus já se
encontrava com seus discípulos para a celebração da Páscoa, a festa dos judeus
por excelência. Ao entrar em Jerusalém, ele foi acolhido triunfantemente como o
profeta de Nazaré da Galileia (Mt 21,1-11). Ali, desenvolveu o seu ministério
por alguns dias em meio a tensões e conflitos com os comerciantes do templo (Mt
21,12-14) com os grupos e autoridades religiosas, especialmente os fariseus,
saduceus, sacerdotes e escribas (Mt 21,23-27,45; 22,23-33; 23,13-36). Toda essa
sequência de conflitos serviu como preparação para o confronto final, o que se
tornava cada vez mais inevitável, devido à coragem de Jesus em não resistir,
mas enfrentar às investidas sem hesitação. Foi, portanto, na cidade santa que
Jesus foi condenado, o que não lhe surpreendera, pois ele mesmo já tinha
alertado antes, em forma de lamento: «Jerusalém, Jerusalém, que matas
profetas e apedrejas os que te são enviados» (Mt 23,37a). Sendo
ele mais do que profeta, o enviado por excelência, seria inevitavelmente morto,
caso se mantivesse fiel àquele que lhe enviou: o Pai. Inclusive, ele já tinha
prevenido os seus discípulos com os três anúncios da paixão, que seria
condenado e morto em Jerusalém, pelos sumos sacerdotes e escribas (Mt 16,21;
17,22-23; 20,17-19). Diante de tudo isso, ficava cada vez mais claro que a morte trágica de Jesus foi consequência de uma
inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a
quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.
Ainda durante o seu ministério na Galiléia, houve muitos conflitos
doutrinais com os fariseus e outros movimentos religiosos de então, inclusive,
com seus próprios discípulos, sempre relutantes em compreender e aceitar sua
mensagem e seu estilo de vida; mas é em Jerusalém que as disputas passam do
campo doutrinal para a esfera do poder. A Páscoa, como sabemos, é a festa em
que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como
ponto alto a ceia pascal, na qual se comia o cordeiro imolado, símbolo principal
da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos,
Jesus mesmo se apresenta como o cordeiro, doando a sua existência (Mt
26,26-30). Como um relato edificante para a comunidade, a
narrativa da paixão serve de advertência e denúncia, não apenas às autoridades
que executaram Jesus, mas também às incoerências internas da comunidade. Por
isso, recordamos um dado bastante negativo que, certamente, levou a comunidade
do evangelista a refletir e ponderar quando sofria perseguição, que é a
dispersão e abandono dos discípulos no momento da sua prisão: «Então,
todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram» (Mt 26,56). Os
discípulos ficaram com medo e sentiram-se frustrados, ao perceber que o projeto
de Jesus não correspondia às suas expectativas. São os mesmos que, no início do
Evangelho, tinham deixado tudo para segui-lo: barco, família, redes e até
coletoria de impostos (Mt 4,20.22; 9,9). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Isso
constitui uma séria advertência à comunidade e, ao mesmo tempo, um consolo:
deve haver resistência e força para não desistir, mas sendo composta de seres
humanos, a comunidade será sempre passível de medos e incoerências.
O duplo julgamento de Jesus, um religioso e outro
político, ou seja, diante do sinédrio (26,57-68) e de Pilatos (27,11-26),
mostra a covardia e a hipocrisia da união das forças hostis quando tem um
inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O
sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder
romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser
rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira;
mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de
suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a
repressão seria inevitável. Aqui, é importante recordar um detalhe: como a
comunidade de Mateus vivia mais tensões com o judaísmo do que qualquer outra,
ele enfatiza mais a culpa do sinédrio do que a do poder romano. Um dado do
texto que enfatiza isso é o fato de ser somente o seu evangelho a mencionar
Pilatos lavando as mãos, querendo, com isso, isentar-se de culpa pela
condenação de Jesus (27,24).
A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus
(27,26.35). Em plena Páscoa, sua festa máxima, a religião oficial não hesita em
ser conivente com a condenação de um inocente e justo. Os líderes religiosos,
mais do que nunca, colocaram a Lei e a doutrina acima da vida, como muitos
movimentos ditos cristãos continuam fazendo, assemelhando-se mais à religião
que matou Jesus do que propriamente à religião que ele viveu. Não obstante
tanto sofrimento, ele manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai.
Não hesitou, mesmo não escondendo a sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se,
mas não abriu mão de suas convicções (27,46-48). Em meio ao suplício e ao
abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim.
Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não
poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar
não poderia ser escondido, por isso, perseverou, revelando ao mundo um amor
ilimitado, fruto de sua íntima comunhão com o Pai.
A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda
marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a
cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua
pertença a Deus. Na cruz, ele foi escarnecido e humilhado, mas também
reconhecido em sua mais profunda identidade: «Ele era mesmo o mesmo
Filho de Deus!» (27,54). Essa é uma das afirmações mais profundas do
texto, do Evangelho e de todo o Novo Testamento. Surpreende que essa declaração
não saiu de nenhum discípulo, mas daqueles que executaram a pena: o oficial e
os soldados. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro,
porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada;
segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e
da religião, puderam conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho
amado. Morrendo como homem condenado e humilhado ao extremo, Jesus revela sua
identidade divina.
O reconhecimento do oficial e dos soldados é mencionado
logo após o evangelista dizer que «a cortina do santuário rasgou-se de
alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se abriram» (27,51).
O rasgar-se do véu do santuário é um dado comum aos três sinóticos (Mt 27,51;
Mc 15,38; Lc 23,45); já o sucessivo terremoto, cuja descrição continua nos
versículos seguintes (Mt 27,51-53), é exclusividade de Mateus. Esse dado
simbólico significa a falência completa da religião e do sistema político que
tinha acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória
do espaço sagrado do templo: somente os sacerdotes podiam ultrapassar a
divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue
abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante,
conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na
cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e pratica a
Lei. A imagem do terremoto, exclusiva de Mateus, simboliza a instauração de uma
nova ordem no mundo; significa a renovação completa da humanidade,
compreendendo a destruição das antigas estruturas e o surgimento de um mundo
novo, fundado no amor de Deus revelado por Jesus, fonte de libertação e
humanização. Obviamente, a instauração do mundo novo, com uma nova ordem,
implica a destruição do mundo antigo. Por isso, a imagem do terremoto é tão
frequente na linguagem apocalíptica; evoca destruição, sim, mas comporta muita
esperança, pois tudo o que é destruído dá lugar a realidades novas, com um
mundo renovado e humanizado pelo amor.
Não poderia passar despercebida a presença das mulheres,
uma das categorias sociais que recebeu mais atenção de Jesus ao longo de todo o
seu ministério. Elas são apresentadas neste relato como as testemunhas mais
fiéis e perseverantes (27,55-56). Por causa disso, serão também as primeiras
testemunhas da ressurreição. O exemplo das mulheres contrasta completamente com
o exemplo dos discípulos homens: eles abandonaram Jesus e fugiram logo após a
prisão (26,56). Por sinal, os últimos discípulos homens mencionados neste
relato, até aqui, foram Pedro e Judas, mas como contraexemplo: Pedro pelas
negações, saiu de cena chorando (26,69-75); Judas, pelo remorso da traição,
terminou se enforcando (26,3-5). As mulheres, que também eram discípulas, com
igual dignidade, perseveraram até o fim. É importante ressaltar a condição de
discípulas: desde a Galiléia, elas seguiam Jesus (27,55). A presença
perseverante delas na paixão é mencionada em todos os evangelhos, mas, entre os
sinóticos, Mateus é único evangelista que recorda algumas delas por nome,
dentre elas Maria Madalena. Recordar pelo nome é sinal de importância, quer
dizer que elas não eram meras figurantes no discipulado de Jesus, mas eram
protagonistas também. Os nomes das que foram recordadas simbolizam a totalidade
delas, de ontem e de hoje. A presença das mulheres na paixão indica
perseverança, fidelidade e também reconhecimento por tudo o que Jesus tinha
feito por elas. Ora, até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido
tanto às mulheres, promovendo a emancipação delas e as aceitado como discípulas
em seu movimento. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram
dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do
sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.
Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem,
surpreendente até, José de Arimateia, membro do sinédrio. É interessante esse
detalhe, pois o sinédrio tinha sido o principal responsável pela condenação de
Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Aqui,
recordamos mais um dado exclusivo de Mateus, o único evangelista que diz que
José de Arimateia se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57). Isso mostra que
as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo
grupo ou movimento ao qual pertence. E o papel de José de Arimatéia é muito
importante. Ele alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (27,57-61),
quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer
e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas
aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não
tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava
“lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto. O gesto de José de
Arimatéia é tão importante que vai repercutir na ressurreição: o sepulcro
aberto será reconhecido como o primeiro sinal pascal.
Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o
projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a
morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de
todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as
convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça,
igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto
amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio,
portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao
invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de
salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Celebrar
o Domingo de Ramos, portanto, é declarar-se da parte de Jesus, assimilando a
sua vida e suas posições com a própria vida. É reconhecer o seu amor como único
caminho de humanização do mundo, com disposição para assumir as consequências
que essa opção implica.
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
– Diocese de Mossoró-RN



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