sexta-feira, julho 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43 (ANO A)

 


A liturgia deste décimo sexto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do discurso em parábolas, localizado no capítulo treze do Evangelho de Mateus. Como afirmado no domingo passado, quando fora lida a primeira parábola, esse é o terceiro dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus pelo evangelista Mateus, e tem como tema principal o Reino dos Céus, o qual vem apresentado a partir de sete parábolas. A passagem específica que a liturgia selecionou para esse domingo – Mateus 13,24-43 – contém três parábolas: do joio e o trigo (vv. 24-30), a da semente de mostarda (vv. 31-32), e a do fermento na massa (v. 33). Além das três parábolas mencionadas, o texto contém ainda uma justificativa para o discurso em parábolas, com fundamentação na Escritura (vv. 34-35), e a explicação da parábola do joio e o trigo (vv. 36-43). Certamente, essa explicação é um acréscimo posterior da comunidade de Mateus, provavelmente para amenizar um pouco o impacto causado pela mensagem provocativa da parábola em específico e de todo o discurso.

Para compreender adequadamente qualquer trecho desse discurso, devemos sempre considerar o seu contexto, como já o fizemos no domingo passado, ao iniciar a leitura com a parábola do semeador (Mt 13,1-23), e hoje o recordamos de novo, pelo menos parcialmente. Ora, no contexto narrativo do Evangelho de Mateus, o discurso em parábolas reflete um momento delicado do ministério de Jesus. Faz parte das reações à rejeição sofrida pela sua atuação na Galileia, junto com seus discípulos, tendo sido desacreditado até mesmo pelo seu mentor, João, o Batista (Mt 11,2-19). Além da rejeição, havia também a falta de compreensão da sua mensagem, principalmente da parte dos discípulos, uma vez que o modelo de Reino anunciado e proposto por Jesus não correspondia às expectativas e esperanças alimentadas por eles. Com efeito, eles nutriam as expectativas por um messias glorioso, poderoso e guerreiro, conforme a ideologia nacionalista vigente, ancorada no messianismo davídico. Diante disso, começavam a sentir-se decepcionados com Jesus, o qual se apresentava como manso e humilde de coração (Mt 11,29), traços característicos incompatíveis com o ideal messiânico esperado.

Mateus retoma esse momento da vida de Jesus para responder também ao contexto de crise pelo qual passava a sua comunidade, há cerca de cinco décadas da morte de Jesus. Com efeito, a crise vivida pela comunidade de Mateus, respondida pelas três parábolas de hoje, girava em torno de três grandes problemas ou tentações incompatíveis com a mensagem de Jesus, que se tinham instalado em seu meio, a saber: 1) puritanismo – pretensão de constituir uma comunidade separada, formada apenas por pessoas puras, santas e justas;  2) projeto de grandeza – havia, sobretudo nas lideranças da comunidade, muita sede de poder e desejo de sobreposição sobre os demais grupos; 3) desânimo – vontade de desistir por não ver resultados nem efeitos gerados pela pregação e a forma de vida cristã. Apesar de incompatíveis com a Boa Nova do Reino, essas três tendências têm marcado a história da comunidade cristã, desde as suas origens com os Doze, até hoje. Isso torna o texto de Mateus sempre atual e necessário. 

Ao primeiro problema, Jesus, e posteriormente Mateus, responderam com a parábola do joio e o trigo, um relato exclusivo do Primeiro Evangelho. Tudo indica que essa tenha sido uma das parábolas de mais difícil aceitação pelas primeiras comunidades, tornando necessário o acréscimo de uma explicação atribuída ao próprio Jesus. Eis o início dessa parábola: «O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora» (vv. 24-25). A introdução da parábola apresenta o Reino em uma realidade de tensão e hostilidade. Essa tensão é marcada pela presença simultânea da semente boa e da semente nociva no mesmo terreno, representando o mal e o bem, o amor e o ódio, a vida e a morte presentes na vida da comunidade do Reino e no mundo. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam o Reino como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. Jesus mostra o contrário: quem adere ao seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o diferente e até mesmo com o mal, sem compactuar com ele, obviamente.

O joio (em grego: ζιζάνια– zizânia) semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), era uma planta muito parecida com o trigo, cujos grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumir. Comparável ao mal, é obra das trevas, por isso, foi «semeado enquanto todos dormiam», ou seja, à noite, o que na Bíblia significa aquilo que está longe de Deus. É um sinal de perigo e, portanto, uma ameaça à colheita da boa semente semeada no mesmo campo. Por isso, a ideia dos servos zelosos é arrancar o quanto antes, para que não chegue a contaminar a plantação boa: «Queres que vamos arrancar o joio?» (v. 28b). A esses servos, correspondem as pessoas muito religiosas de todos os tempos, dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje, e de outras religiões também. São as pessoas intolerantes que, por causa de um falso zelo, alimentam e disseminam ódio e violência. Quem pensa dessa maneira, obviamente, não está em sintonia com o projeto de Jesus, mesmo que use o seu nome como motivação para as práticas de intolerância.

A resposta prudente do dono do campo revela a atitude que Jesus espera de seus seguidores: «Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita» (vv. 29-30a). Jesus quer mostrar que, antes de tudo, o cristão não pode apresentar-se como juiz de ninguém. Ora, julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos. Enquanto não chegar o tempo da colheita, não é possível distinguir o bem do mal, o saudável daquilo que é nocivo. Somente pelos frutos é possível conhecer a árvore. A pressa daqueles servos em arrancar logo o joio poderia comprometer toda a colheita. Trata-se de uma atitude que revela extremismo, intolerância, falta de capacidade para conviver com as diferenças. Essa tendência continua presente ainda em muitos seguimentos da religião cristã, infelizmente. O Reino dos céus proposto por Jesus não é uma sociedade de pessoas perfeitas, alheia à história e às contradições da existência, não é uma comunidade de puros. O Reino só pode ser construído no meio do conflito. Por isso, exige capacidade de diálogo, respeito às diferenças, paciência e tolerância.

A segunda parábola, ainda relacionada ao mundo agrícola, a do grão de mostarda (vv. 31-32) é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Essa parábola encontra-se também em Marcos e Lucas (Mc 4,30-32; Lc 13,18-19). Diante da estrutura imperial e da organização do judaísmo, com uma verdadeira rede de sinagogas espalhadas por todo o império romano, o projeto de Jesus se apresentava praticamente invisível. Os discípulos, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. Diante disso, a resposta de Jesus foi desconcertante: «O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo» (v. 31). Com isso, ele ensina que a comunidade dos discípulos deve aceitar a condição de pequenez em que se encontra e deve reconhecer essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino e se inserir nele. Ora, o Reino não pode impor-se por sinais de grandeza nem de espetáculo. O importante é que esse seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com a mostarda: depois que a planta cresce «os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos» (v. 32b). De fato,  a única preocupação dos que lutam pelo Reino deve ser se estão sendo abrigo e serviço para os mais necessitados, pois é isso que atesta a fidelidade a Jesus.

À terceira tentação ou problema, o desânimo e falta de paciência, Jesus dá como resposta a parábola do fermento, a mais difícil de ser aceita e compreendida entre as três, pelos discípulos de então: “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Essa parábola se encontra também no Evangelho de Lucas (Lc 13,20-21) e é considerada uma das mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento, e com a atividade típica de uma mulher, conforme as convenções sociais de então. Ora, para a cultura e tradição da época, a mulher pouco teria a contribuir com um projeto de sociedade como era o Reino dos céus e, no entanto, Jesus apresenta o seu agir como imagem da construção do seu Reino. Isso deve ter sido considerado um escândalo para os primeiros ouvintes e leitores, pois esperava-se a instauração do Reino como uma intervenção divina extraordinária na história, cuja colaboração humana imaginável seria apenas de valentes soldados. Enquanto isso, Jesus mostra o Reino como uma construção que surge nas bases, a partir das coisas simples e das pessoas pouco importantes.

O fermento era símbolo da subversão, porque tinha a capacidade de, mesmo em pequena quantidade, transformar a massa, dando-lhe nova forma e fazer crescer. O uso do pão fermentado era, inclusive, proibido para o uso litúrgico dos judeus (Ex 12,19; 13,7; Dt 16,3). Além de adulterar a massa, ainda exigia bastante paciência até que seu efeito se tornasse visível no pão. E era exatamente a paciência que estava acabando nos discípulos e levando-os ao desânimo. Ora, como não viam efeito algum na pregação deles e de Jesus, pois o mundo continuava do mesmo jeito, estavam propensos a desistir, à medida que aumentavam as exigências de coragem e disposição, diante da ameaça de perseguição que marcava os anos oitenta do primeiro século, época em que foram escritos os evangelhos de Mateus e Lucas. Com uma parábola como essa, o evangelista mostra Jesus injetando ânimo e perseverança em seus discípulos; ao mesmo tempo, aproveita a mensagem para desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores. O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade. Ninguém vê o fermento agindo dentro da massa. Uma vez que ele é injetado, se torna invisível ao misturar-se com a massa. No entanto, quem tiver paciência de esperar o seu efeito, o verá, e até de modo surpreendente.

No mundo, a comunidade cristã tem um papel semelhante ao do fermento na massa: de modo subversivo, ou seja, mesmo contra a legalidade, irradiar um jeito alternativo de viver, a partir de relações de solidariedade, igualdade, justiça e amor, até contagiar toda a massa, ou seja, as sociedades com seus padrões convencionais de comportamento. Esse trabalho de injetar fermento na massa é inclusivo, deve ser feito por todos e todas, mas começa pelos mais excluídos e desprezados da história, como as mulheres, conforme o exemplo da parábola. Enfim, são os gestos pequenos e simples, de pessoas humildes, marginalizadas, como era a mulher na época do texto, que podem transformar o mundo e torná-lo apto à vivência do Evangelho. São os pequenos e humildes os agentes privilegiados de Deus para introduzir o seu Reino no mundo. A última parte do texto é a explicação da parábola do joio e do trigo (vv. 36-43), considerada um acréscimo redacional da comunidade. Ao todo, somente duas parábolas recebem uma explicação atribuída a Jesus: a do semeador, lida no domingo passado, e a do joio e o trigo, lida hoje. A explicação da do joio e o trigo deve-se à dificuldade de aceitação nas primeiras comunidades, pois seu ensinamento visa estimular a paciência e a tolerância com todas as adversidades que possam aparecer na comunidade e na vida de cada pessoa, incluindo o próprio mal. 

Com essas três parábolas de hoje, de modo brilhante, Mateus respondeu aos questionamentos da sua comunidade, recordando como Jesus também reagia às crises do grupo dos Doze. Certamente, essas respostas são válidas para todos os momentos da história. É preciso reforçar sempre que no Reino dos céus não há espaço para classificação entre bons e maus, puros e impuros, porque é uma comunidade de iguais, cujos distintivos são apenas os frutos; é uma comunidade pequena, mas acolhedora e servidora e, sobretudo, transformadora, para aqueles que aceitam ser subvertidos pelo Evangelho.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, julho 11, 2026

REFLEXÃO PARA O 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-23 (ANO A)


A liturgia do décimo quinto domingo do tempo comum marca o início da leitura do “discurso em parábolas”, que se estenderá por mais dois domingos. Trata-se do terceiro dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de Mateus. Nesse discurso, o Reino dos Céus é ilustrado a partir de sete parábolas, que ocupam praticamente todo o capítulo treze do Evangelho. A liturgia propõe a leitura desse capítulo por três domingos consecutivos, começando hoje. O texto proposto especificamente para esse domingo é Mt 13,1-23. Como se vê, trata-se de um texto bastante extenso, o qual contém a primeira parábola do discurso (vv. 1-9), as motivações do discurso em parábolas (vv. 10-17), e a explicação da parábola para os discípulos (vv. 18-23). Considerando a extensão do texto, não comentaremos versículo por versículo. Procuramos colher a mensagem central do texto em seu conjunto. Para uma compreensão mais adequada do texto, é necessário fazer uma pequena contextualização introdutória, sobretudo por se tratar de uma nova fase na vida e no ministério de Jesus, com uma nova metodologia, como veremos a seguir.

A mudança de metodologia e perspectiva que o texto reflete faz parte da reação de Jesus às rejeições sofridas pela sua mensagem em algumas cidades da Galileia após o discurso missionário e o envio dos discípulos (Mt 11–12). Ora, tinha ficado claro que nem todos se interessaram pelo anúncio da Boa Nova do Reino, anunciado tanto por Jesus quanto pelos discípulos por ele enviados. Diante disso, Jesus apresenta o Reino e seus mistérios a partir de uma série de sete parábolas, visando tornar a sua mensagem ainda mais acessível, especialmente para as pessoas simples e humildes, que já lhe tinham dado sinal de adesão, ao contrário dos sábios e entendidos que não se interessavam pela sua mensagem libertadora (Mt 11,25). Certamente, diante do aparente fracasso da missão de Jesus até então, seus discípulos lhe questionaram a respeito da eficácia e até mesmo da utilidade do seu anúncio: por que anunciar, se poucos escutam, e dos que escutam, poucos compreendem e acreditam? Por que o anúncio da Boa Nova do Reino praticamente não causa efeito algum no mundo? Vale a pena continuar? Sem dúvidas, o conjunto de parábolas do capítulo treze, e sobretudo a de hoje, faz parte da tentativa de Jesus e o evangelista responderem a questionamentos desse tipo.

Por trás dos prováveis questionamentos dos discípulos estava também uma concepção distorcida de messianismo, já que o perfil de Jesus fugia dos padrões e das expectativas mais convencionais do judaísmo da época: ao invés de um messias potente e guerreiro, Jesus se apresenta simples, manso e humilde de coração (Mt 11,29); ao invés de reconstruir o antigo reino de Davi, Ele propõe o Reino dos Céus como alternativa de sociedade, cujas características principais são a igualdade, o amor fraterno, a justiça e a solidariedade. Com as parábolas, a dinâmica Reino poderia ser mais bem compreendida pelos discípulos e pelas comunidades destinatárias de todos os tempos, desde que aceitem a condição de pequeninos e pequeninas (Mt 11,25), disposição essencial para conhecer a mensagem de Jesus e conduzir a existência a partir dela. Além dos mistérios do Reino em si, as parábolas também ajudam a compreender a dinâmica de aceitação e rejeição, o que mais inquietava os discípulos naquele momento de crise vivido pelo grupo. Por último, ainda do ponto de vista do contexto, convém recordar que o texto reflete mais a situação da comunidade do evangelista do que mesmo a do grupo dos primeiros discípulos de Jesus.

Feitas as observações em nível de contexto, voltamos a atenção diretamente para o texto, que começa dessa maneira: «Naquele dia, Jesus saiu de casa para sentar-se às margens do mar da Galileia» (v. 1). Jesus já estava radicado em Cafarnaum, cidade localizada às margens do lago da Galileia, chamado de mar pelo evangelista por motivos teológicos. O mar evoca perigo e hostilidade, é onde habitavam as forças do mal, segundo a mentalidade semita da época. As margens do mar significam lugar de movimento, fluxo de pessoas, abertura, contato com o diferente e exposição aos perigos. Permanecer em casa é sinal de segurança, fechamento e comodismo. Logo, o deslocamento de Jesus da casa para as margens do mar significa que, mesmo em um contexto de hostilidades à pregação do anúncio do Reino, a comunidade cristã não pode fechar-se em si nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens. Portanto, com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, Jesus convida a Igreja de todos os tempos a estar sempre em saída, sem medo de expor-se aos perigos e contradições do mundo.

Se Jesus permanecesse em casa, somente seus discípulos o ouviriam, ou seja, poucos teriam acesso à sua mensagem. Uma vez que saiu de casa, «uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé na praia. E disse muitas coisas em parábolas» (vv. 2-3). Para romper as bolhas e chegar às multidões é necessário colocar-se em saída e assumir os riscos de tal opção. Inclusive, o gesto de sentar-se na barca é a confirmação desses riscos; a mensagem libertadora de Jesus não é um mero conteúdo para ser explicado de cátedras ou púlpitos, mas um programa de vida que comporta riscos para quem se dispõe a vivê-lo. Por isso, a barca se tornou, desde os primórdios, uma das principais imagens da Igreja, evocando sempre os riscos, a instabilidade e o colocar-se em movimento. Embora já tivesse contado várias parábolas (Mt 7,24-27; 9,15; 12,43-45), essa é a primeira vez que o evangelista usa propriamente o termo “parábola” (em grego: παραβολή – parabolê), cujo significado é pôr lado a lado duas realidades e compará-las; literalmente, significa comparação. E é isso o que Jesus faz, de fato. Ele apresenta o Reino a partir de comparações com elementos do cotidiano das pessoas, o que não significa que, necessariamente, será melhor compreendido por isso, mas pelo menos instigará a reflexão.

A primeira das parábolas que compõe o discurso é aquela que o Evangelho de hoje nos apresenta: «o semeador saiu para semear» (v. 3b). Essa parábola é considerada a “parábola mãe” de todas as parábolas. Inclusive, está presente nos três evangelhos sinóticos (Mt; Mc; Lc), o que demonstra tratar-se de uma parábola com ampla aceitação e circulação entre as primeiras comunidades cristãs. Conforme vem descrito, esse semeador lança a semente em quatro tipos diferentes de terrenos: caminho, pedra, espinho e terra boa (vv. 4-8), sem distinção. Certamente há, aqui, uma grande discrepância com as práticas agrícolas modernas, facilmente perceptível aos leitores de hoje. Na antiga Palestina, cenário dos evangelhos, a terra não era preparada com antecedência para a plantação. Jogava-se a semente na terra e só se começava a prepará-la quando as plantas nasciam e cresciam, a ponto de distinguir a planta boa da árvore daninha (ver o exemplo da parábola do joio e do trigo, Mt 13,24-30, a qual será lida no próximo domingo). Perder sementes jogadas em terrenos duvidosos era visto como natural. O importante era a confiança e a certeza de que em algum lugar a semente haveria de nascer, crescer e frutificar em abundância.

É importante recordar que, mesmo tendo a multidão como auditório, o público-alvo principal da parábola e de todo ensinamento de Jesus é sempre os discípulos, tanto aqueles de primeira chamada quanto a comunidade cristã de todos os tempos. E uma das primeiras lições da parábola é que a comunidade anunciadora do Reino não deve escolher a quem anunciar, assim como o semeador não escolhe o terreno antes de lançar a semente. Inclusive, a maioria das interpretações fixam a atenção no significado da semente, fazendo passar despercebida a figura do semeador que, aqui na parábola, é o próprio Jesus. É ele o semeador que espalha sementes de amor e esperança em todos os tipos de terreno, sem preocupar-se com os resultados e, por isso, é o modelo para os discípulos. Isso faz dessa parábola uma das mais autobiográficas. Ora, diante dos fracassos recentes na missão evangelizadora de Jesus com os Doze, a tendência mais sensata, humanamente falando, seria selecionar melhor os destinatários do anúncio para não se perder mais tempo. Jesus está, com essa parábola, advertindo a Igreja de todos os tempos que na sua missão, estará mais presente o fracasso do que o sucesso, afinal, de quatro tipos de terreno, somente em um deles a semente frutificou. A comunidade deve confiar na eficácia da Palavra e, ao mesmo tempo, conscientizar-se das diversas oposições que essa recebe e que podem impedir o seu crescimento.

Apesar dos fracassos constatados na semeadura, de uma coisa a comunidade não pode duvidar: a Palavra tem uma força transformadora incrível; ela é mesmo viva e eficaz, o que é demonstrado na parábola pela imagem da semente caída em terra boa, que «é capaz de produzir à base de cem, sessenta e de trinta frutos por semente» (v. 8). Essa imagem exageradamente abundante dos frutos é importante e confortante a uma comunidade, sobretudo quando essa se sentir esgotada, fracassada, devido aos poucos resultados da evangelização. Ora, convencionalmente, o máximo que se esperava de um cacho (ou espiga) de trigo era trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. O que parecia ser muito (trinta frutos) passa a ser mínimo diante da beleza e abundância que é a vida de quem se deixou conduzir pelos frutos do Reino. A colheita surpreendente – cem frutos por semente – só é possível para quem confia na Palavra e se abre completamente aos valores do Reino. O que parecia muito, conforme a lógica da colheita nos tempos de Jesus, é o mínimo na dinâmica do Reino. Diante da abundância da colheita gerada pela semente caída em terra boa, a perda das sementes perdidas caídas nos terrenos inapropriados se torna insignificante. Com isso, confirma-se, mais uma vez, a lógica do Reino: é preciso perder para poder ganhar.

Após contar a primeira das sete parábolas do discurso, o evangelista diz que «os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “por que falas ao povo em parábolas?”» (v. 10). A resposta de Jesus é bastante longa e enigmática (vv. 11-17), usando, inclusive, o profeta Isaías (Is 6,9-10). Assim como havia níveis diferentes de adesão à pregação de Jesus e ao seu Evangelho, posteriormente, também havia diferenças no modo de compreender a sua Palavra nas comunidades. Nem toda a multidão estava apta a compreender por que isso não é possível sem uma experiência autêntica com Ele. Inclusive, ele deixa claro que não serve um conhecimento superficial da sua pessoa: ou se conhece profundamente ou não se conhece nada d’Ele. Por conhecimento de Jesus, compreende-se a experiência de amor que se faz com a sua pessoa, e não a abstração de ideias e teorias a seu respeito. No gesto dos discípulos aproximarem-se dele está o modelo para o discipulado de todos os tempos: não basta ouvi-lo, é necessário aproximar-se dele, estar ao seu lado e vice-versa, para a palavra, enquanto semente, enraizar no coração e frutificar. Quanto mais a comunidade se aproximar dele, mais compreenderá a sua palavra. Por isso, o sentido de comunidade também é profundamente evidenciado pelo evangelista nessa passagem. A comunidade reunida é o espaço privilegiado para questionar, tirar dúvidas e aprofundar o sentido dos ensinamentos de Jesus.

Ao esclarecer os motivos pelos quais falava em parábolas, Jesus aprofunda, em estilo sapiencial, o sentido da Palavra: ela transforma, cria raízes no coração, por isso «à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem» (v. 12). É claro que Jesus não está falando de bens ou riquezas materiais, mas do conhecimento da sua pessoa, dos mistérios do Reino e da Palavra. Quem o conhece superficialmente, na verdade não o conhece; quem o conhece verdadeiramente, o conhecerá ainda mais, à medida que aprofunda com Ele a relação. Ora, no coração onde a Palavra apenas tocou sem criar raízes, ela logo desaparecerá. Mas, onde ela de fato enraíza e frutifica, os frutos são cada vez mais abundantes. O desejo de Jesus é que a Palavra seja acolhida por todos e todas, mas a experiência estava mostrando que não era possível. Nem todos a acolhiam. Uns faziam de conta, ou seja, ouviam, mas não se deixavam transformar por ela. A apresentação do Reino em parábolas é, portanto, um convite à reflexão: através das imagens usadas, as pessoas podem refletir com mais calma depois de ouvi-la e, assim, decidir se querem aderir ou não à sua proposta de vida.

A explicação da parábola aos discípulos (vv. 18-23) é, sem dúvida, um acréscimo posterior da comunidade, como forma de manter a mensagem de Jesus sempre atualizada. Novamente, são reforçados o valor e a importância da comunidade para a compreensão e vivência dos ensinamentos de Jesus. Quando está reunida ao redor da Palavra, a comunidade encontra sentido para a sua situação concreta e para os ensinamentos de Jesus. Ora, não basta recordar o que Jesus falou, é necessário ler a realidade atual à luz da sua mensagem e aplicá-la. Nessa explicação, Mateus adverte sua comunidade e as comunidades de todos os tempos para a importância de saber lidar com as diferenças e a paciência no modo de anunciar e acolher a Palavra. O certo é que a escuta deve ser seguida de uma aproximação. Com efeito, quanto mais se escuta Jesus, mais vontade se tem de aproximar-se dele e continuar escutando-o, sempre de modo mais aprofundado, à medida que aumenta a intimidade com ele. Mais do que descrever quatro categorias de pessoas, os quatro terrenos da parábola são advertências e indicações de que cada discípulo e discípula pode comportar em si as quatro situações de acolhida ou resistência à Palavra que é destinada a todas as pessoas, sem distinção, enquanto caminho de humanização e vida abundante. Por isso, os quatro tipos de terrenos evocam também a universalidade do evangelho: todas as pessoas têm direito de ter acesso a ele, sem imposição, com liberdade de aceitá-lo ou não.

Estrada, pedra, espinhos e terra boa, portanto, estão presentes no coração de cada pessoa. Que a Igreja seja estimulada a sair constantemente de si mesma para lançar as sementes do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de deixar a casa e assumir as margens do mar, sem medo. E cada cristão e cristã em particular deve sentir motivação para viver um processo de conversão permanente e, assim, a terra boa se sobreporá no coração, possibilitando que a Palavra produza frutos de amor, justiça, paz e solidariedade. Quanto mais terra boa houver em nosso coração, mais aptos estaremos a ser também semeadores, como Jesus. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, julho 04, 2026

REFLEXÃO PARA 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 11,25-30 (ANO A)



Neste décimo quarto domingo do tempo comum, a liturgia retoma a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, interrompida no domingo passado, por ocasião da solenidade dos santos apóstolos Pedro e Paulo. O trecho proposto para este dia – Mt 11,25-30 – faz parte da seção narrativa intermediária entre o discurso missionário (Mt 10) e o discurso em parábolas (Mt 13). Embora curto, esse texto possui uma relevância ímpar no Evangelho de Mateus, tanto do ponto de vista literário quanto teológico. O que mais chama a atenção, logo de início, é o fato de apresentar a primeira vez em que Jesus se dirige a Deus como Pai, no relato de Mateus. Em ocasiões anteriores, como no discurso da montanha (Mt 5–7), ele já tinha feito referências a Deus como Pai, mas não tinha se dirigido diretamente a ele, ou seja, não tinha invocado Deus dessa forma. Isso confere grande importância a esse texto, considerado uma verdadeira pérola literária e teológica do Evangelho de Mateus, bem como uma espécie de síntese e aprofundamento do próprio discurso da montanha, que é o coração teológico da obra.  Contudo, apesar de toda peculiaridade que essa passagem possui no Evangelho de Mateus, não é totalmente exclusiva, pois a primeira parte está presente também no Evangelho de Lucas (Lc 10,21-22).

Como já afirmamos em outras ocasiões, a alternância entre discurso e narrativa é uma característica literária marcante do Evangelho de Mateus. A recordação desse aspecto é sempre importante, tanto para a compreensão da obra em seu conjunto quanto de cada texto lido em particular, como o de hoje, por exemplo. No discurso missionário (Mt 10), Jesus preparou seus discípulos e os enviou em missão como fruto do seu olhar compassivo, para ajudar a sanar a situação de abandono e exploração em que se encontravam as multidões (Mt 9,36–11,1). Diz o evangelista que, após instruir os discípulos para a missão, também Jesus saiu para ensinar e pregar nas cidades da Galileia (Mt 11,1). De fato, sempre que Jesus conclui um discurso, Mateus o mostra tomando iniciativas, agindo concretamente em favor da libertação do povo sofrido. Isso serve de advertência para as comunidades cristãs de todos os tempos: os discursos só têm sentido se forem acompanhados de gestos concretos e ações humanizantes. A maneira como Jesus conciliava discurso e práxis, portanto, deve ser o parâmetro para o agir cristão em todos os tempos.

Ainda a propósito do discurso missionário e envio dos discípulos, é importante recordar que, embora o evangelista não fale nada sobre o retorno deles e o resultado da missão, tudo indica que não foram bem-sucedidos. O contexto e as entrelinhas do texto sugerem que eles sofreram rejeição e hostilidades, segundo a perspectiva de Mateus. Os relatos de Marcos e Lucas, ao contrário, revelam um certo otimismo, dando a entender que aquela primeira missão fora exitosa (Mc 6,30; Lc 9,10). A versão de Mateus é bem menos otimista, certamente por causa da situação concreta das suas comunidades na época da redação do Evangelho (anos 80 do primeiro século), quando os conflitos entre a comunidade cristã e o judaísmo rabínico estavam muito acesos. Por isso, ele ressalta mais as adversidades encontradas na missão, não para desmotivar, mas para encorajar ainda mais a comunidade na perseverança e fidelidade ao Evangelho. Inclusive, para mostrar que as desconfianças, dúvidas e rejeições ao projeto de Jesus não são motivos para a comunidade desanimar, Mateus traz as dúvidas de João Batista sobre a messianidade de Jesus para esse mesmo contexto do discurso missionário e envio dos discípulos.

Com efeito, já preso, por ordem do rei Herodes, João Batista desconfiou da messianidade e autenticidade do ministério de Jesus, a ponto de enviar seus discípulos para tirar algumas dúvidas, afinal, o comportamento de Jesus não correspondia às suas expectativas (Mt 11,2-19). Ora, João tinha anunciado um messias juiz, severo e vingador, alguém que vinha ao mundo para premiar os bons e condenar os pecadores (Mt 3,7-12). Enquanto isso, Jesus se misturava com os pecadores, bebendo e comendo com eles (Mt 11,18), fazendo o contrário do que João e muitos da sua geração esperavam do Messias. Além das dúvidas de João, o evangelista registra também o desgosto de Jesus com as cidades que Ele escolheu como primeiras destinatárias da sua missão: «Então começou a recriminar as cidades onde tinha realizado a maioria dos seus milagres, porque elas não tinham se convertido» (Mt 11,20). Essas cidades eram Corazim, Betsaida e Cafarnaum, escolhidas a dedo para o anúncio da chegada do Reino dos céus, mas não acolheram a mensagem de Jesus e certamente dos seus discípulos enviados há pouco tempo.

Diante de tudo isso, com a sua reputação posta em dúvidas pelo seu próprio mentor, João Batista, e a rejeição de seus compatriotas galileus, Jesus tinha tudo para decretar a falência do seu projeto e até desistir dele, pois não se via qualquer sinal de êxito naquele momento, pelo menos humanamente falando. No entanto, fez exatamente o contrário: louvou o Pai por tudo o que estava acontecendo, mediante uma oração de louvor e ação de graças. É esse o contexto do evangelho de hoje. Jesus passava por um momento delicado na sua missão, sofrendo rejeição e hostilidade, com sua messianidade sendo posta em dúvida até por quem ele menos esperava. Mas sua resposta a essa situação não é de desânimo, pelo contrário, é de quem sente ainda mais necessidade de confiar em Deus e nos propósitos para os quais fora enviado. Renunciar a tais propósitos seria aceitar que as multidões continuassem abandonadas, como ovelhas que não têm pastor (Mt 9,36). E Jesus não fez isso, pois veio ao mundo para dar a sua própria vida por quem tem a vida ameaçada e a dignidade negada e ferida.

Feita a devida contextualização, voltamos nossa atenção para o próprio texto, que apresenta a resposta de Jesus a tudo isso que acabamos de recordar: «Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos pequeninos”» (v. 25). A primeira observação importante que fazemos diz respeito à expressão «Naquele tempo», que, dessa vez, faz parte mesmo do texto bíblico, e tem uma importância relevante. Como a liturgia praticamente banalizou essa expressão, colocando-a sempre como fórmula de introdução ao evangelho, corremos o risco de não perceber o seu real significado e importância no texto de hoje. Ora, ao precisar temporalmente o episódio, “Naquele tempo” (em grego: Ἐν ἐκείνῳ τῷ καιρῷ – en ekeíno tô kairô), o evangelista relaciona diretamente as palavras de Jesus aos acontecimentos anteriormente narrados. Isso quer dizer que as palavras e atitudes de Jesus são resposta concreta e reação direta aos últimos acontecimentos. E a reação de Jesus não foi o desespero e nem o desânimo, mas uma oração de louvor e ação de graças ao Pai, por ver seus propósitos sendo realizados, por mais paradoxal que o momento parecesse.

Ao invés de sentir-se falido em suas pretensões, diante das rejeições sofridas e a desconfiança do seu mestre João Batista, Jesus sente-se realizado porque, de fato, os propósitos de Deus, o Pai, começam a concretizar-se: o mundo novo, correspondente ao Reino por ele anunciado, só pode ser construído com a adesão dos pequeninos (em grego: νηπίοις – nêpióis), termo que compreende todas as categorias de pessoas pelas quais Jesus fez opção preferencial e que abraçaram o seu projeto: pobres, inocentes, indefesos, humildes, pecadores, mulheres, prostitutas, etc. Nesse termo está a síntese dos verdadeiros necessitados de vida nova e libertação. O Reino dos céus, que implica o desmoronamento dos sistemas de poder vigentes, por isso é ameaça para os ricos e poderosos, os detentores de poder político e religioso, só tem sentido e só é possível se o programa de vida de Jesus for abraçado. Esse programa consiste na vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Os pequeninos que estão conhecendo “estas coisas” são: os pobres, os mansos, os aflitos, os famintos e sedentos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os promotores da paz e os perseguidos, ou seja, os bem-aventurados. Essas pessoas, sim, percebem em Jesus o advento de um novo mundo e um novo tempo, por isso, o acolhem como a resposta humanizante de Deus ao mundo. Por “estas coisas” compreende-se o Evangelho em sua totalidade, cuja expressão mais concreta é o jeito de viver do próprio Jesus, incluindo, obviamente, sua maneira de se relacionar com Deus, o Pai, e tudo isso deve ser assimilado por todos os seus seguidores e seguidoras. Isso exige confiança na providência, arriscar-se por amor, o que os “sábios e entendidos” não têm coragem de fazer.

Ora, para os “sábios e entendidos” os valores do Reino permanecem ocultos devido à soberba, orgulho, avareza, legalismo e uso da força e da violência, tanto física quanto simbólica, incluindo os sistemas religiosos que se impõem pelo medo. Esses são os dirigentes, a elite política e religiosa, principalmente. São aqueles que não tem coragem de tornar-se pequenos e, por isso, não podem entrar no Reino dos Céus (Mt 18,3). Quem assume o poder como meio de dominação, seja econômica, política ou ideológica, tende a rejeitar um projeto de sociedade justa, igualitária e fraterna, como é o Reino dos Céus inaugurado por Jesus. Não resta dúvida de que a crítica de Jesus aqui se aplica mais ao campo religioso: os “sábios e entendidos” que não conhecem “as coisas do Pai” são os representantes oficiais da doutrina e da Lei – escribas, mestres da Lei, sacerdotes e fariseus – aqueles que passam a vida impondo normas e vigiando quem está cumprindo ou não, embora sejam eles os primeiros a não cumprir. Esses, como representantes de um Deus juiz, severo, vingativo e mercantilizado, não estão aptos a aceitar os propósitos de um Deus-Pai, como o Deus de Jesus, que nada impõe, mas apenas oferece amor. É interessante recordar que a sabedoria sempre foi um dos valores mais importantes para a mentalidade bíblica, da qual o próprio Jesus é representante. Porém, neste contexto, não se trata da sabedoria enquanto arte do viver bem. Os tratados como sábios aqui são os prepotentes e poderosos, os que se autoproclamavam sábios e, por isso, impunham suas próprias pretensões sobre os demais.

Jesus não se desespera com uma situação tão adversa, mas expressa mais uma vez a sua convicção de que os desígnios de Deus, o Pai, estão acontecendo: «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (v. 26)A palavra grega que o lecionário traduz por agrado (εὐδοκία – eudokía) significa muito mais: quer dizer propósito, projeto, decisão e até vontade. E tudo o que Jesus fazia estava em conformidade com o projeto de Deus, o seu Pai. E ele veio ao mundo exatamente para realizar esse projeto. O rechaço à vontade de Deus por quem deveria abraçá-la primeiro – os conhecedores da Lei – já era previsto. Por isso, Jesus não se admira diante dos fatos, mas vê neles a confirmação da sua fidelidade à missão que lhe foi confiada pelo Pai e que ele mesmo compartilha com seus discípulos e discípulas de todos os tempos. E o projeto do Pai é que os pequeninos conheçam cada vez mais os seus propósitos e a sua vontade. E, uma vez conhecendo, os pequeninos devem lutar, ajudados pela mensagem libertadora do Evangelho, para que o projeto de Deus se realize plenamente, o que resultará num mundo humanizado, com justiça, igualdade, fraternidade, solidariedade e, acima de tudo, amor. Os grandes – sábios e entendidos – veem isso como ameaça aos seus privilégios, por isso rechaçam o Evangelho de Jesus, que é a revelação máxima do projeto de Deus, o Pai.

Jesus conhecia em profundidade o projeto do Pai por causa da comunhão íntima vivida entre os dois. Com isso, ele ensina que ninguém pode conhecer o Pai e os seus propósitos a partir de códigos e doutrinas, como acreditavam os fariseus, escribas e sacerdotes, mas somente amando e sentindo-se amado, fazendo-se pequeno para sentir a grandeza do amor de Deus. E Jesus fala do seu Deus-Pai com propriedade porque é o Filho e o conhece em profundidade. Por isso, pode dizer convictamente: «Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (v. 27)Essa declaração reforça a intimidade de Jesus com o Pai e ao mesmo tempo denuncia a ilegitimidade da religião vivida pelos considerados grandes da sua época – os fariseus, mestres da lei e sacerdotes. Aquela religião não tinha legitimidade porque anunciava sem conhecer, pois, se baseava em códigos legais e doutrinas e, assim, ao invés de revelar, escondia o rosto verdadeiro de Deus. Na linguagem bíblica, o conhecimento não significa uma aquisição intelectual, mas uma relação de intimidade. Conhecer alguém, portanto, significa ser íntimo, relacionar-se com total transparência e cumplicidade. E assim é a relação de Jesus com o Pai e, consequentemente, com aqueles a quem ele quis revelar a si mesmo e ao Pai – os pequeninos. Quem quiser conhecer o Deus que é Pai, portanto, deve antes tornar-se íntimo de Jesus. E cultiva-se intimidade com Jesus fazendo-se seu discípulo, deixando-se humanizar pelo seu amor e abraçando seu programa de vida expresso de modo privilegiado e pleno nas bem-aventuranças.

Os pequeninos podem conhecer o que Jesus revela – o amor do Pai – porque não é fruto de especulações, mas de uma relação íntima entre um Pai e um Filho que se amam reciprocamente. Jesus não propõe uma teoria, mas o resultado de uma experiência de amor; por isso, é compreensível pelos pequeninos, os seus prediletos. Ainda a respeito dessa declaração que fala claramente da relação Pai-Filho, convém recordar a novidade que ela representa aqui, pois se trata de uma linguagem muito característica das tradições ligadas ao Evangelho de João, sobretudo no longo discurso de despedida (Jo 14–17). Por isso, é muito significativa a sua presença nesse texto de Mateus, exatamente quando Jesus expressa a sua satisfação em ver os pequeninos compreendendo a dinâmica do Reino. Esses pequeninos são aquelas mesmas multidões cansadas e abatidas, que despertaram a compaixão em Jesus, porque estavam como ovelhas que não têm pastor, ou seja, estavam abandonadas e exploradas, sobretudo pelas lideranças religiosas da época (Mt 9,36).

Inconformado com o abandono do povo e a exploração da qual era vítima, sobretudo pelo peso da Lei, Jesus faz um solene e ousado convite: «Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso» (v. 28). A ousadia de Jesus aqui consiste em convidar à ruptura com todos os sistemas de opressão, que negam liberdade e vida plena. E era exatamente a religião quem mais deixava o povo cansado e fatigado, impondo fardos que nem mesmo seus chefes conseguiam carregar (Mt 23,4). Além da opressão do império romano, com a cobrança excessiva de impostos, o povo ainda era submetido à coerção de uma religião rígida, com muitas normas, mas vazia de conhecimento de Deus, por isso, imperava a hipocrisia. Daí o convite de Jesus para a verdadeira libertação: «Vinde a mim... e eu vos darei descanso»É claro que o descanso que Jesus promete não é uma vida cômoda e fácil, mas sim uma vida livre das imposições da Lei e do peso da doutrina, o que gerava sentimentos de culpa e terror na vida das pessoas. Em outras palavras, esse descanso é a humanização plena, a liberdade e a capacidade de amar e sentir-se amado; é sinal de realização do Reino dos céus e da vocação originária do ser humano, pois evoca a perfeição e a completude de uma obra boa, como a criação (Gn 2,2): também Deus descansou após completar a criação, sentindo-se realizado. A realização do ser humano, portanto, leva-o ao descanso, não por comodismo ou um mero repouso, mas pela certeza da realização da missão e vocação originárias.

E, na sequência, Jesus amplia o convite, tornando-o ainda mais explícito: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso» (v. 29)Tomar o jugo de Jesus é trocar a observância rígida da Lei pela vivência das bem-aventuranças. É preciso aprender de Jesus porque somente Ele, como Filho, pode revelar plenamente o rosto amoroso do Pai, e somente fazendo uma experiência profunda de amor-comunhão com ambos, é possível libertar-se do jugo imposto pelos guardiões da lei e da doutrina. Se as bem-aventuranças em si constituem o verdadeiro retrato de Jesus, as duas características que Ele cita aqui formam a mais perfeita síntese da sua pessoa: «manso e humilde de coração». É importante ressaltar que a mansidão vivida por Jesus não pode ser confundida com resignação nem comodismo. Pelo contrário, essa consiste na coragem de lutar pelo Reino, mesmo na adversidade, sem, no entanto, recorrer aos mecanismos do opressor, como a violência e o ódio, sobretudo. Portanto, não significa um alívio passageiro diante das provações cotidianas da vida. Assimilar a mansidão e humildade de Jesus significa abraçar o desafio da construção de um mundo novo, humanizado, com justiça, fraternidade, igualdade e muito amor. É nisso que consiste o verdadeiro descanso. Significa fazer a criação inteira recuperar o seu estado primordial, pois foi assim que o próprio Deus descansou.

Ao contrário do peso das prescrições legais impostas pela religião do seu tempo, Jesus dá uma garantia aos seus seguidores: «O meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (v. 30). É claro que ele não está prometendo facilidades nem comodismo na vida para aqueles que abraçarem o seu projeto, como já foi ressaltado anteriormente. O seu fardo, que é leve, consiste exatamente na vivência das bem-aventuranças, o que implica muitas exigências e desafios, sobretudo no campo ético. Inclusive, o principal critério para reconhecer se alguém está vivendo as bem-aventuranças é exatamente a perseguição (Mt 5,11-12). Isso reforça que a leveza prometida aqui não significa comodismo. A proposta de Jesus é suave e leve porque não consiste em preceitos a cumprir, mas em um amor a ser experimentado e, consequentemente, compartilhado. E nisso consiste a missão cristã no mundo: compartilhar o amor, fazer o mundo conhecer um amor que humaniza e faz viver, que liberta plenamente. E só é leve e suave o que é livre.

O evangelho deste dia, portanto, ressoa como recordação e advertência sobre a essência da vida cristã, a partir da experiência daquele que é o verdadeiro modelo a ser seguido: o próprio Jesus. Ele convida a uma experiência profunda de comunhão com ele e, consequentemente, com o seu Pai. Essa experiência só pode ser feita a partir do coração.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, junho 27, 2026

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS SÃO PEDRO E SÃO PAULO – Mt 16,13-19



Como tem acontecido nos últimos dois anos, também neste ano a Igreja no Brasil substitui a liturgia do décimo terceiro domingo do tempo comum pela solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Por isso, interrompe-se neste dia a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, embora a passagem lida seja também de Mateus. Para esta solenidade, o evangelho é o mesmo em todos os anos: Mt 16,13-19. Esse texto é muito rico e significativo, pois contém o relato do clássico episódio de Cesareia de Filipe, cujo ápice é a confissão de fé de Pedro, que reconhece e proclama Jesus como o Cristo, ou seja, o Messias. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (Mt 16,13-19; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), sendo que a versão de Mateus apresenta mais elementos próprios, como veremos no decorrer da reflexão. E foi exatamente por causa dos seus elementos próprios que o texto de Mateus foi mais valorizado, ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo católico. Como fazemos em todos os domingos, concentraremos a reflexão no texto bíblico em si, sem transformá-la em mera apologia devocional aos santos apóstolos recordados. No entanto, reconhecemos que a recordação dos apóstolos é sempre importante para a vida da Igreja, porque a ajuda a manter-se alinhada às suas origens, não obstante os desgastes históricos.

Os apóstolos Pedro e Paulo foram imprescindíveis para o cristianismo das origens conservar os ensinamentos de Jesus e, ao mesmo tempo, para se espalhar e crescer, extrapolando os limites culturais e geográficos do judaísmo e da Palestina. Olhando para o exemplo dos dois, a Igreja, de hoje e de sempre, é interpelada, cada vez mais, a renovar-se e edificar-se somente pela fé em Jesus Cristo, sem tomar como parâmetro nenhuma instituição terrena. A recordação dos dois no mesmo dia é também sinal da unidade na diversidade, características da comunidade cristã desde as origens, que devem ser reconhecidas permanentemente. O Novo Testamento mostra divergências e até conflitos entre eles. Pedro, um pescador do pequeno mar da Galileia, foi transformado em pescador de seres humanos; Paulo, um fariseu zeloso, até fanático, perseguidor da comunidade cristã, transformado em apóstolo das nações. Cada um foi transformado pelo encontro com Jesus, passando a viver em contínua conversão a partir de então, com atitudes muitas vezes contraditórias. Ambos assumiram um protagonismo incomparável nas primeiras décadas do cristianismo, a ponto de alguns estudiosos defenderem que o livro de Atos dos Apóstolos poderia tranquilamente ser chamado de Atos de Pedro e Paulo, uma vez que são os principais personagens humanos da obra. Por caminhos e métodos diferentes, como eram tão diferentes em personalidade e história de vida, tiveram em comum a paixão por Jesus Cristo e o zelo pelo seu Evangelho, recebendo como prêmio a coroa do martírio.

Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. Convém recordar que esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (Mt 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (Mt 16,21-23; 17,22). Na verdade, pode-se dizer que esses acontecimentos são consequência do episódio narrado no evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza dessa. Recordamos acima o que sucede ao texto no conjunto do evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: houve uma controvérsia de Jesus com os fariseus, que lhe pediram um sinal do céu (Mt 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo fermento dos fariseus e saduceus (Mt 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam. Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, síntese do programa de Jesus, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: «Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”» (v. 13). Como se vê, o texto começa com um indicativo espacial. Cesareia de Filipe estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica (homenagem a César), era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização. Ora, longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos da influência do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. O distanciamento físico, portanto, é sinal do distanciamento da ideologia que Jerusalém representa. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus se torna um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos Céus, e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova, e a continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial. Portanto, pode-se dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas tradicionais do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano. Isso torna a confissão de Pedro um ato extremamente subversivo.

A expressão “Filho do Homem” ao invés do pronome pessoal “eu” é a primeira particularidade de Mateus em relação às versões de Marcos e Lucas, deste episódio. Porém, o sentido aqui é o mesmo. A pergunta de Jesus sobre o que diziam a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Àquela altura da sua vida pública, ele já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que ele realizava. Foi como consequência disso que ele fez a pergunta: «Que dizem os homens ser o Filho do Homem?» (v. 13b). E a resposta dada pelos discípulos revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava diante do povo; certamente, o povo simples, com quem ele interagia e por quem lutava. Eis a resposta: «alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas» (v. 14). A menção a Jeremias entre os personagens com os quais o povo identificava Jesus é outra exclusividade de Mateus. Marcos e Lucas nomeiam apenas João Batista e Elias. O acréscimo de Mateus é significativo, pois Jeremias foi o profeta mais “parecido” com Jesus, em relação ao estilo de vida, o teor da pregação e a perseguição sofrida.

A resposta mostra o quanto Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. Mas ele era e é muito mais. Logo, trata-se de uma resposta incompleta. Ora, embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. E a comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado, pois isso a impede de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Apesar de importante, a pergunta de Jesus sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, o que ele queria saber mesmo era o que os seus discípulos pensavam de si, qual imagem tinham a seu respeito. Por isso, lhes perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que «Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”» (v. 16). Certamente, também os outros discípulos também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade, da qual Pedro se faz porta-voz.

A resposta de Pedro é complexa e profunda: Jesus é «o Messias, o Filho e do Deus vivo». A tradução litúrgica traz a palavra “Messias”, porém, é mais apropriado o termo “Cristo”, conforme o texto na língua original (em grego: Χριστός – Christós). É muito significativo que Jesus seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: «o Filho do Deus vivo». Além de definir a qualidade da messianidade de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade. Por sinal, a expressão «Filho do Deus vivo», na resposta de Pedro, é outra exclusividade de Mateus. Em Marcos, a resposta é apenas «Tu és o Cristo!» (Mc 8,), e em Lucas é «Tu és o Cristo de Deus» (Lc 9,20). Logo, a resposta em Mateus é mais profunda e, sobretudo, universalista. Ora, o título “Cristo” (ou Messias) correspondia às mais profundas expectativas do judaísmo, bastante enraizado na comunidade de Mateus, o que seria um incentivo à preservação da ideologia nacionalista.

Com a expressão «o Filho do Deus vivo», o evangelista ensina que a messianidade de Jesus não corresponde às expectativas de Israel; trata-se de um Messias diferente, que não veio apenas para Israel, mas para a inteira humanidade. Ora, Israel esperava um Messias filho de Davi, cujo título evoca um programa estritamente restauracionista, reformador, visando a restauração da monarquia e do reino davídico-salomônica. Por isso, a afirmação de Pedro é altamente revolucionária e comprometedora. Ora, essa resposta compromete a(s) comunidade(s) cristã(s), em todos os tempos e lugares, a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo, é o Filho do Deus vivo, ou seja, o seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus do templo de Jerusalém, completamente desfigurado pela aristocracia sacerdotal de lá, eram privados de vida, eram agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído que era explorado diariamente. Portanto, a convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas religiosos e políticos que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.

Jesus aprovou a resposta de Pedro, por isso o proclamou bem-aventurado: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu» (v. 17). De agora em diante, até o versículo 19, o texto passa a ser exclusivo de Mateus. O paralelismo com Marcos e Lucas só volta no versículo 20, que já não faz parte da seleção escolhida para a esta liturgia. Considerando que Mateus teve Marcos como fonte para este episódio, os versículos 17-19 são um acréscimo da sua comunidade como resposta a necessidades concretas, sobretudo em relação à diferenciação da comunidade com a sinagoga. A bem-aventurança dirigida a Pedro não é um elogio por um mérito particular, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz, então, é uma constatação: parece que as coisas começam a funcionar bem na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; e como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (Mt 10,21), e Pedro estava falando a partir do que o Pai lhe revelou, logo ele estava demonstrando adesão plena ao projeto do Reino, inserindo-se no mundo dos pequeninos! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição de pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro, portanto, consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por ela.

Na continuidade, Jesus declara: «Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (v. 18a). Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade – a Igreja –, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas, pessoas de fé. E Pedro foi uma destas pedras escolhidas por Jesus, a primeira, sem dúvidas. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável à fé que Pedro tinha acabado de professar. É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: (Πέτρος) “Petros” (πέτρα) “petra”. Embora muito próximas, é possível distingui-las: “Petros”, que foi transformada no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Jesus diz que Pedro (petros) é uma pedra-tijolo da construção, e a pedra-rocha (petra) é a fé que ele professou, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada.

A proclamação de Jesus como Cristo e Filho de Deus é a base da comunidade cristã, a Igreja. Por sinal, essa é a primeira vez que aparece a palavra igreja (em grego: ἐκκλησία – ekklesia) no Evangelho de Mateus, o único que a emprega, e somente duas vezes (Mt 16,18; 18,17); o significado da palavra é assembleia convocada, reunião, comunidade. Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que havia na região de Cesaréia de Filipe, construídos sobre pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, ele declara: «e o poder do inferno nunca poderá vencê-la» (v. 18b). Aqui, ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a instauração do Reino aqui na terra, razão da sua existência. O “poder do inferno”, portanto, significa as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso. Essas forças retardam a concretização do Reino, mas não impedirão a sua realização. Para superá-las é imprescindível uma fé viva e comprometida, como a fé de Pedro e Paulo, e de tantos outros irmãos que doaram a vida pelo Reino.

No último versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: «Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (v. 19). Mais do que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer. No judaísmo, a imagem das “chaves” correspondia à capacidade de interpretação e aplicação da Lei pelos rabinos e escribas. Inclusive, o próprio Jesus vai denunciá-los por terem “fechado” o Reino dos Céus: «Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam!» (Mt 23,13). As chaves confiadas a Pedro e a toda a comunidade, portanto, são para abrir o Reino a todas as pessoas, a começar pelas marginalizadas e sofridas, os pobres, as vítimas das mais variadas formas de exclusão. Portanto, Mateus não emprega a imagem das chaves como símbolo de uma instituição, mas como sinal de uma nova relação com Deus. A antiga religião tinha bloqueado, escondido o rosto desse Deus, mas Jesus dá a chave de acesso a ele: a vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), que são a síntese de toda a sua mensagem. Logo, a função de “ligar e desligar” representa a responsabilidade da comunidade, e não propriamente poder. Inclusive, no discurso sobre a comunidade, essa mesma função será atribuída a toda a comunidade (Mt 18,18). Isso exige profunda fidelidade da Igreja para viver em perfeita sintonia com Jesus e o Pai, para que tudo o que essa venha a realizar e viver seja referendado por eles.

Se a comunidade/Igreja viver fielmente o Evangelho, sintetizado nas bem-aventuranças, que são as chaves de leitura de toda a obra de Mateus, e de acesso ao Reino, não resta dúvidas de que Jesus e o Pai confirmarão as suas decisões e pleitos lá nos céus. Pedro e Paulo são exemplos concretos de quem fez essa experiência. Eles abriram o Evangelho ao mundo, fazendo o mundo abrir-se ao Evangelho, cada um à sua maneira. Por sinal, pegando essa deixa, é oportuno concluir a reflexão com o seguinte trecho do prefácio desta solenidade: «Hoje, vós nos concedeis a alegria de festejar os Apóstolos São Pedro e São Paulo. Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual veneração.» (Prefácio de São Pedro e São Paulo, apóstolos).

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43 (ANO A)

  A liturgia deste décimo sexto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do discurso em parábolas, localizado no capítulo tr...