sexta-feira, fevereiro 27, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 17,1-9 (ANO A)


Todos os anos, a liturgia do segundo domingo da Quaresma propõe a leitura de um dos relatos do episódio conhecido tradicionalmente como “Transfiguração do Senhor”. Trata-se de uma cena da vida de Jesus contada pelos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ano, conforme o ciclo litúrgico (A, B e C), sem necessariamente repeti-lo. Isso porque, mesmo se tratando do mesmo acontecimento, cada evangelista o narra à sua maneira, conforme as suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e, sobretudo, respondendo às necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos apresentem diferenças, apesar de serem muito parecidos, afinal, o fato contado é o mesmo. Por ocasião do ciclo litúrgico A, o texto proposto para este ano é o relato de Mateus – Mt 17,1-9. Por tratar-se de um texto muito rico em teologia e simbologia, torna-se indispensável uma breve contextualização, para uma compreensão mais adequada. E começamos pela definição do gênero literário ao qual pertence o texto, a teofania. Etimologicamente, teofania significa manifestação divina; é uma palavra de origem grega, formada da junção do substantivo “Theós” (Deus) com o verbo “faino” (aparecer, manifestar). Enquanto gênero literário, teofania designa o tipo de relato que descreve uma manifestação solene de Deus. Geralmente, são relatos carregados de elementos simbólicos, o que se vê no episódio da transfiguração, como a brancura, a nuvem e a voz celestial. Embora as teofanias sejam mais frequentes no Antigo Testamento, o Novo Testamento contém algumas, como o batismo de Jesus, a transfiguração, as aparições pascais e o relato de Pentecostes.

Ora, em Cesareia de Filipe, Jesus os tinha perguntado sobre a sua identidade: quem o povo imaginava que ele fosse e o que os próprios discípulos pensavam a seu respeito. Em nome dos Doze, Pedro respondeu, em forma de confissão, que Jesus é o Cristo – Messias –, o Filho de Deus. Embora correta, a resposta de Pedro poderia ser facilmente distorcida, pois contemplava as expectativas do messianismo nacionalista vigente: um messias (Cristo) glorioso e potente; por isso, Jesus ordenou que não contassem isso a ninguém (Mt 16,20). Em seguida, ele fez o primeiro anúncio da paixão, o que deixou os discípulos bastante assustados, pois a concepção de messias que eles tinham em mente não era compatível com o sofrimento e a cruz, como ele tinha acabado de anunciar (Mt 16,21). Ora, os discípulos esperavam um messias glorioso, valente e guerreiro, conforme as expectativas da época, fruto da ideologia nacionalista davídica, enquanto Jesus anunciou a doação da vida, comportando sofrimento e cruz, se necessário, para alcançar a glória e a vida em plenitude. Inclusive, impôs a disposição para carregar a cruz e doar a própria vida como condição para fazer parte do seu discipulado. A transfiguração é, portanto, a resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos acerca da sua identidade, e uma demonstração de que cruz e glória fazem parte de um mesmo caminho: o destino do ser humano é a glória, mas essa passa pela cruz.

Uma vez contextualizados, vamos olhar para o texto, começando pelo primeiro versículo: «Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha» (v. 1). Aqui, a versão litúrgica omitiu um indicativo temporal importante, substituindo-o pela genérica expressão “naquele tempo”. O texto original começa com a indicação cronológica “seis dias depois”, como sinal de relação e continuidade com o último episódio narrado: o primeiro anúncio da paixão e a contestação de Pedro, com as exigências para o discipulado (Mt 16,21-28). Ora, Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o até de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. Portanto, “seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude. Tal expressão cronológica pressupõe um dia anterior aos seis que vêm depois, e o resultado de tal operação é o número sete. Trata-se, portanto, do sétimo dia, o que significa a criação concluída e em plena harmonia com o Criador. Enquanto transfigurado, Jesus revela o ideal de humanidade, conforme Deus pensou, desde o início. Provavelmente, o evangelista evitou a referência explícita ao sétimo dia devido à relação hostil que se passava entre a sua comunidade e a sinagoga. Implicitamente, ele aplicou o sentido teológico do sétimo dia, mas evitou a menção, pois a comunidade vivia a conflituosa transição do sábado para o domingo como dia de culto.

O evangelista diz que Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. A escolha desses três discípulos não significa privilégio, como às vezes se diz, mas necessidade. Eles não eram os melhores, mas sim os três mais difíceis de lidar e os que mais tinham dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus enquanto Messias sofredor. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento; é o discípulo que Jesus mais repreende durante todo o seu itinerário. Como ele sempre se antecipa, sendo o primeiro a responder às perguntas de Jesus, é aquele que mais se expõe e, por isso, é o primeiro a ser corrigido. João e Tiago, conhecidos como “filhos do trovão” (Mc 3,17), eram os mais fanáticos e ambiciosos (Mc 10,35-45; Mt 20,20-28), de temperamento difícil, eram também os mais intolerantes. Pouco tempo após este episódio da transfiguração, Jesus repreenderá João por proibir a um homem que não fazia parte do grupo de pregar e expulsar demônios em seu nome (Mc 9,38-39). Os dois, João e Tiago, também foram repreendidos quando quiseram tocar fogo nos samaritanos que os rejeitaram (Lc 9,51-55). Portanto, Jesus os chama para estarem mais perto de si pela necessidade de cada um e por não desistir do ser humano, apesar das fraquezas e debilidades. Eles necessitavam estar mais próximos a Jesus e aprender mais com ele, como de fato estarão. Na Paixão, esses três – Pedro, João e Tiago – serão as testemunhas de Jesus durante a agonia no Getsêmani (Mt 26,36-37). Isso significa que eles mudaram com o tempo, não se tornando perfeitos, mas aprendendo a cada dia com Jesus, à medida em que conviviam com ele e ouviam seus ensinamentos.

Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro do ser humano com Deus. Tanto em Israel quanto nas culturas circunvizinhas, imaginava-se que para comunicar-se com a divindade, o ser humano precisava escalar um monte. Assim, a montanha funcionava como um espaço intermediário e necessário: o ser humano era incapaz de subir aos céus, e Deus grande demais para descer até a terra; daí a necessidade de um lugar intermediário para os dois se comunicarem. Por isso, a montanha tornou-se o lugar da revelação no Antigo Testamento (Ex 19,16; 24,15). Embora a tradição tenha identificado essa montanha com o monte Tabor, esse dado não possui fundamento nos evangelhos. Essa denominação começou com Cirilo de Jerusalém e foi consolidada por São Jerônimo, mas hoje é considerada sem fundamento. É preferível mantê-la anônima, como fizeram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.

E é justamente no Evangelho de Mateus que a montanha tem mais relevância no Novo Testamento, sendo o lugar onde ele diz que Jesus viveu momentos importantes do seu ministério: proclamou as bem-aventuranças (5,1), multiplicou os pães (15,29), e como Ressuscitado, aparecerá aos discípulos pela primeira vez (28,16). O texto de hoje diz que, no alto da montanha, Jesus «foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz» (v. 2). quer dizer que passou por uma transformação no seu aspecto, uma metamorfose. É esse o significado do verbo empregado pelo evangelista (em grego: μεταμορφόομαι – metamorfóomai). Diante da incredulidade e resistência dos discípulos em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nele. Não apenas o rosto brilhou, mas todo o seu ser, inclusive suas vestes. As mesmas imagens e cores da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida em que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova.

Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: «Nisto, apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus» (v. 3). Estes personagens representam a Lei e os Profetas, obviamente. Temos, com isso, mais uma iniciativa de Deus para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os Profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento. Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os Profetas encerram-se, chegam ao fim enquanto cumprimento e plenitude. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada têm a dizer para a comunidade cristã senão através de Jesus. Nesta cena, portanto, Moisés e Elias entregam a Jesus a revelação parcial que tinham recebido, própria da antiga aliança, e Jesus a aperfeiçoa, completando-a. Por isso, é necessário passar por ele.

Pedro, ousado como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas reprováveis, apesar das boas intenções: «Então, Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”» (v. 4). Três elementos são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo. O segundo elemento reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição e o não reconhecimento de Jesus como o centro da vida: «uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias». Jesus ainda não ocupava o centro da vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu evangelho como centro. O terceiro elemento reprovável na fala de Pedro é o não reconhecimento de Jesus como a verdadeira tenda. Ora, no Antigo Testamento, sobretudo no contexto do êxodo, a tenda é o lugar do encontro com Deus, o que agora é a pessoa de Jesus. A ideia de fazer tendas revela incompreensão e não aceitação de Jesus como o pleno revelador do Pai e o lugar definitivo do encontro com Deus.

Diante do absurdo da fala de Pedro, o próprio Deus intervém e o interrompe: «Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!”» (v. 5). A nuvem luminosa, ao longo da tradição bíblica é também sinal da manifestação e presença de Deus. Essa cena é, praticamente, uma repetição daquilo que aconteceu no episódio do batismo de Jesus: o Pai se manifesta, fala e dá testemunho do Filho. Ora, diante das dúvidas e falta de convicção nos discípulos sobre a identidade de Jesus, quem tem mais propriedade para esclarecer é o seu Pai. Essa voz reitera a autoridade de Jesus: o Pai o credencia como o único que tem autoridade para falar e ser ouvido pela comunidade. Pedro ainda estava propenso a ouvir mais Moisés e Elias do que a Jesus, por isso, Deus, o Pai, lhe corrige. Moisés e Elias já disseram o que tinham de dizer; à comunidade cristã, só interessa o Evangelho, ou seja, o que Jesus ensina e vive. E o que Jesus tem a dizer à comunidade é, acima de tudo, o seu jeito de ser, seu estilo de vida. Escutá-lo, portanto, significa viver como ele, pois sua voz não é um som, mas a própria vida, a qual ele doa livremente. Doando-se, fazendo-se servo de todos, ele fala, comunica vida, força de libertação e humanização para todas as pessoas e a inteira criação.

A primeira reação dos discípulos diante das palavras do Pai é de completa falência: «Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra» (v. 6). Ao longo de toda a Bíblia, é normal o medo e o temor dos seres humanos diante da presença Deus. Mas nesse caso o medo tem outra causa: as implicações e consequências de escutar. Ora, escutar Jesus significa aderir plenamente ao seu projeto de vida e libertação, o que comporta até mesmo a doação da vida. É isso o que causa medo nos discípulos que imaginavam seguir um messias guerreiro e glorioso. Diante do medo dos discípulos, eis a reação de Jesus: «se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”» (v. 7). É próprio de Jesus dar força aos caídos e encorajar os amedrontados. O gesto de tocar é o mesmo que ele faz ao curar os enfermos, restituindo-lhes vida e saúde (8,3.15; 9,25.29). O medo de assimilar e viver o Evangelho torna a comunidade doente, necessitada da força de Jesus que a impele a levantar-se. Para superar o medo, duas coisas são necessárias: escutar Jesus, como o Pai ordenou, e deixar-se tocar por ele.

O toque de Jesus, que é a sua própria palavra, levanta e transforma a comunidade dos discípulos: «Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus» (v. 8). Moisés e Elias desapareceram para que a atenção dos discípulos se voltasse somente para Jesus, o centro da vida e da comunidade que já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu evangelho. Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro.

Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e também por prudência, pois se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição. Eles deveriam anunciar Jesus, o Evangelho, mas da maneira certa, sem alimentar falsas ilusões, nem omitir as suas verdades. E somente à luz da ressurreição é que esse anúncio se torna eficaz e perfeito. É melhor silenciar do que anunciar de modo equivocado. O anúncio distorcido é, sem dúvidas, consequência de uma escuta superficial. Aqui está um dos ensinamentos mais importantes para as comunidades de todos os tempos: a necessidade da escuta de Jesus, o Filho Amado.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 4,1-11 (ANO A)

 


Após uma sequência de seis domingos, a liturgia interrompe, temporariamente, o tempo comum para vivenciar e celebrar um de seus tempos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas, com o solene convite à conversão, em preparação à Páscoa do Senhor, que é a razão de ser da fé cristã. Hoje, celebramos o primeiro domingo deste tempo especial, que é um verdadeiro itinerário catequético e espiritual. Como acontece todos os anos, o evangelho do primeiro domingo da Quaresma compreende sempre uma das narrativas das tentações pelas quais passou Jesus no deserto, logo após ser batizado, como preparação para o início de seu ministério. As tentações são um dos episódios presentes nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), um dado que confirma a sua grande importância para as primeiras comunidades cristãs. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, temos a oportunidade de ler a versão das tentações do Evangelho de Mateus – 4,1-11. Trata-se de um texto bastante rico, muito bem elaborado, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, com uso abundante de linguagem simbólica. 

Marcado por forte simbologia, o evangelho de hoje corre o sério risco de ser mal compreendido, devido a nossa tendência equivocada de considerar os evangelhos como livros de crônicas exatas da vida de Jesus, esquecendo o aspecto simbólico que predomina neste tipo de relato. Por isso, é necessário, a nível de introdução, fazer algumas considerações importantes para uma adequada compreensão. A fonte original deste relato é o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos evangelhos canônicos, o qual não oferece qualquer detalhe sobre o nível e a modalidade das tentações. Marcos apenas diz que «Jesus esteve no deserto durante quarenta dias sendo tentado por Satanás» (Mc 1,13); dessa informação simples e vaga narrativamente, embora bastante profunda teologicamente, o evangelista Mateus, com muita criatividade, e atendendo às necessidades da sua comunidade, ilustrou a história que lemos hoje na liturgia, como fez também Lucas (Lc 4,1-13). Certamente, ambos tiveram acesso a outras fontes que desenvolveram o enunciado de Marcos, transformando-o em uma verdadeira narrativa, ou seja, uma história com personagens em ação, com circunstâncias de espaço e tempo bem definidas. Apesar de muito parecidas, as versões de Lucas e Mateus apresentam pequenas divergências, que certamente correspondem ao ponto de vista teológico de cada um e às necessidades catequéticas de suas respectivas comunidades, destinatários primeiros de seus escritos.

A nível de contexto, é imprescindível recordar que o relato das tentações segue, imediatamente, ao relato do batismo – Mt 3,13-17 – e, por isso, ambos estão intrinsecamente relacionados. Ainda antes do batismo, João – o que batizava – tinha anunciado Jesus como o Messias, em sua pregação. Ora, no batismo o Espírito Santo desceu sobre Jesus e, do céu, o próprio Pai o declarou como o seu “Filho Amado”. Logo, o principal objetivo do evangelista com este episódio de hoje é apresentar o comportamento de Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto deste dia (Mt 3,17). E ele vai mostrar que Jesus permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo. Em sua liberdade de Filho, Jesus permanece fiel ao Pai, assumindo para si os mesmos propósitos. Desse modo, à condição de amado, ele corresponde amando, não só ao Pai, mas à inteira criação, a qual também é fruto do amor do seu Pai. Portanto, esse é um texto programático para a comunidade cristã, pois indica como se deve agir e resistir ao mal quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo, missão comum a todos os batizados e batizadas.

Iniciamos nossa reflexão considerando os dois primeiros versículos do texto, nos quais se diz o seguinte: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome» (vv. 1-2). Ora, o mesmo Espírito Santo que desceu em forma de pomba (Mt 3,16) no batismo, acompanhará Jesus em todos os seus passos e ações; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito Santo, e não apenas quando ele vai ao deserto, como acontece no episódio de hoje. Aqui, o deserto não é um indicativo geográfico, mas teológico. A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos pelos quais Israel passou, desde a saída do Egito até à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que ele, mesmo sendo o “Filho Amado” de Deus, é verdadeiramente ser humano, pois assumiu a humanidade em todas as suas dimensões. Na tradição bíblica, o deserto evoca a provação, a privação e a dificuldade, mas também representa lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Ora, uma vez que o deserto também é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada, mas é sempre exposto à prova. O autor das tentações é o diabo (em grego: διάβολος – diábolos), palavra grega que literalmente significa “aquele que divide” e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus; muitas vezes, é a própria estrutura das comunidades que teimam em ofuscar o Evangelho, fechando-se aos impulsos do Espírito Santo.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias” que Jesus lá passou não podem ser considerados como um dado cronológico exato. Mais uma vez, trata-se de um dado simbólico e teológico, por sinal, de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (Gn 7,4.12.17); Moisés passou quarenta dias sobre a montanha, em preparação para receber a Lei (Ex 32,28); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade e infidelidade, idolatria e prova (Ex 16,35; Dt 8,2-5; Sl 5,10); e o profeta Elias caminhou durante quarenta dias rumo ao monte Horeb (1Rs 19,8). Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer também uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração (quarenta anos). Quando se trata de dias, é o tempo necessário para assimilar um grande ensinamento. Quer dizer um tempo completo, mas não fechado em si mesmo; é sempre preparação para um acontecimento maior. Inclusive, foi a partir dessa simbologia que a Igreja determinou um período de quarenta dias como o tempo necessário de preparação para a Páscoa. A permanência de Jesus por quarenta dias no deserto, portanto, significa que toda a sua vida foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar todos os cristãos a uma vida vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder.

A primeira tentação diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas e consigo mesmo; a lógica do império incentivava o consumo e a satisfação imediatista dos desejos, o que Jesus rejeita com bastante veemência e segurança. Eis o que diz a primeira tentação: «Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”. Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”» (vv. 3-4). Embora faminto, Jesus percebe que não seria suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais do que pão. Por isso, com base na Escritura, ele não dispensa o pão, mas diz que o homem não pode viver “somente” dele (Dt 8,3). A vida digna e plena não depende somente do alimento material, mas de todos os valores do Reino contidos na «Palavra que sai da boca de Deus», que será explicitada no decorrer do seu ministério. O messianismo da época previa um messias milagreiro, além de guerreiro, ao que Jesus se opõe radicalmente. Ora, ele não veio ao mundo para resolver os problemas de maneira fácil e cômoda, como queriam e ainda querem muitos grupos e movimentos religiosos. Por sinal, essa é a  única vez em que o evangelista Mateus dá ao diabo o nome de “tentador” (em grego: πειράζων – peirazón), uma derivação do verbo tentar (em grego: πειράζω – peirázo), o mesmo verbo que ele aplica aos líderes religiosos, especialmente os fariseus, os que mais põem Jesus à prova durante o evangelho (Mt 16,1; 19,3; 22,18.35). Enquanto alimento, a Palavra de Deus é também força, fonte de resistência, como Jesus demonstra recorrendo a ela para desmascarar o tentador.

A segunda tentação chama a atenção para a relação com Deus, o que deve ser cuidadosamente cultivada pelo cristão. Eis o que diz o texto: «Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, mas para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”» (v. 5-7). Ora, no templo de Jerusalém, onde a religião dizia que Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo e por todos os mercados da fé; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus “filhos bons” e castigar os maus, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano. Como se vê, também o diabo recorre ao conhecimento da Escritura para camuflar sua condição de adversário e tentador, propondo uma leitura simplista, fundamentalista e individualista. Por ser a própria Palavra encarnada, Jesus conhece o real sentido da Escritura, por isso, encontra nela seu argumento de força para desmascarar o tentador, o qual continua presente e atuante também nos dias de hoje. Daí, a necessidade de uma compreensão sempre mais aprofundada e coerente das Escrituras nas comunidades cristãs, a fim de que a Palavra de Deus não seja instrumentalizada.

A terceira tentação diz respeito à relação com o próximo, sobretudo quanto à maneira de conceber e exercer o poder. Eis o que diz o texto: «Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, E lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’”» (vv. 8-10). A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante por prestígio e poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os “inimigos” de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal. Por sinal, quando supostamente exercido em nome de Deus, o poder tende a ser mais perigoso, mais opressivo, intolerante e intransigente, por isso, mais diabólico. O diabo apresenta a Jesus todos os reinos do mundo; isso significa que há muitos, enquanto Jesus falará de um único Reino, o Reino dos Céus, como sinal de unidade e fraternidade. A multiplicidade de reinos do mundo significa a falta de concórdia e harmonia, decorrente das formas tirânicas e ilegítimas do exercício do poder. Todos eles são expressões do anti-Reino.

Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade e fruto de suas convicções de Filho Amado do Pai. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através dos seus seguidores e seguidoras, ao testemunharem sua Palavra, em todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada por esse amor. É claro que o evangelista não descreve o diabo como dono do mundo; mas está denunciando que o poder exercido até então, em todos os reinos do mundo, marcado pela exploração, injustiça e opressão, segue a lógica diabólica, à qual o Evangelho se contrapõe com o Reino dos Céus anunciado por Jesus, marcado pelo amor, pelo serviço, pela justiça e pela fraternidade. 

Na conclusão, o evangelista apresenta a seguinte declaração: «Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus» (v. 11). O diabo se afastou porque não encontrou em Jesus um aliado. Devido à sua comunhão de amor com o Pai, Jesus sabia discernir e fazer opção pelo lado do amor e da justiça, inclusive, foi para isso que o Pai lhe enviou ao mundo. Ao falar do serviço dos anjos a Jesus, o evangelista emprega um verbo que significa especificamente o serviço de mesa, ou seja, o serviço do pão. É esse o sentido do verbo grego “diakonêo” (διακονέω), do qual deriva o termo diácono (em grego: διάκονος – diáconos). Ao invés de comer um pão fruto de uma espetacular demonstração de poder, Jesus recebe o pão como dom gratuito; e aquilo que é dom deve ser partilhado, como ele mesmo fará, seja partilhando o pão com as multidões famintas (Mt 15,32-39), seja doando a sua própria vida como alimento (Mt 26,26-30).

Concluindo, podemos dizer que as três tentações ou provas relatadas no evangelho de hoje são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com o próximo e com Deus. São como uma parábola da vida de Jesus. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas as formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo e os maiores conhecedores da Palavra de Deus na sua época, os fariseus e mestres da Lei. 

A resistência de Jesus, recorrendo sempre à Palavra de Deus, é uma indicação para as comunidades cristãs de todos os tempos: a perseverança e a fidelidade ao projeto de Jesus dependem essencialmente da atenção à Palavra. Ao mesmo tempo, há uma clara denúncia ao perigo do uso fundamentalista das Escrituras e tradições religiosas, pois também os argumentos do diabo são fundamentados na Palavra de Deus. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, fevereiro 14, 2026

REFLEXÃO PARA O 6º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,17-37 (ANO A)


Com a liturgia do sexto domingo do tempo comum, somos convidados a prosseguir com a leitura do discurso da montanha, o principal e mais longo dos cinco grandes discursos que Mateus atribui a Jesus em seu Evangelho, compreendendo três capítulos inteiros (Mt 5–7). A leitura litúrgica desse discurso começou há dois domingos – no 4º domingo do tempo comum – e deveria estender-se até o 9º domingo, mas não será possível devido à interrupção do tempo comum para a vivência do ciclo pascal. O texto proposto para hoje – Mt 5,17-37 – é bastante longo, o que nos impede de comentar versículo por versículo. Procuraremos, portanto, colher a mensagem central, embora seja indispensável evidenciar e aprofundar alguns versículos em particular. De início, recordamos que só é possível compreender qualquer trecho do discurso da montanha tendo em mente a sua introdução, o que compreende as bem-aventuranças (Mt 5,1-12), as quais correspondem ao programa de vida realizado plenamente por Jesus e proposto também para os discípulos. Tudo o que é apresentado ao longo do discurso da montanha é, portanto, desdobramento das bem-aventuranças, as quais constituem o verdadeiro retrato de Jesus, pois refletem seu jeito de viver.

A assimilação das bem-aventuranças e a consequente disposição de colocá-las em prática pressupõem uma maneira nova de interpretar a Lei de Moisés, bem como todo o conjunto das Escrituras hebraicas, sintetizadas no evangelho de hoje pela expressão “a Lei e os Profetas” (v. 17). De acordo com o evangelista, no discurso da montanha, Jesus apresenta uma interpretação nova de seis casos ou aspectos concretos da Lei, apresentados em sequência, diferente das interpretações vigentes na sua época, com o intuito de superar o mero legalismo e a interpretação literal tão defendida pelos fariseus e outras correntes mais rígidas do judaísmo. Destes seis casos, quatro são lidos hoje, enquanto os outros dois seriam lidos no próximo domingo, o 7º do tempo comum, mas não será possível, pois naquela ocasião já será celebrada a liturgia do 1º domingo da Quaresma. É oportuno recordar que, assim como em todo o Evangelho de Mateus, a interpretação da Lei atribuída a Jesus e as controvérsias com os fariseus refletem mais as questões da época da redação do evangelho – meados dos anos 80 do primeiro século – do que propriamente o tempo do ministério de Jesus. Diante dos problemas vividos pela sua comunidade, o evangelista recorda qual teria sido a posição de Jesus.

A sequência dos casos ou aspectos concretos da Lei tratados no discurso da montanha, logo após Jesus ter conferido aos discípulos a responsabilidade de “dar sabor ao mundo e iluminá-lo”, através das imagens do sal e da luz, como vimos no evangelho do domingo passado, Mt 5,13-16, é precedida de uma pequena introdução (vv. 17-20) que, de certo modo, ajuda a compreender o contexto e a mensagem de todo o texto. Eis o primeiro versículo: «Não penseis que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento» (v. 17). Essa afirmação dá a entender que tanto Jesus quanto os cristãos da comunidade de Mateus eram acusados pelo judaísmo oficial de relativizarem a Lei e até de a revogarem. Para os grupos mais rígidos do judaísmo, Jesus, com a sua práxis, tinha destruído a Lei. Diante disso, a comunidade de Mateus reage afirmando que, com a sua atividade libertadora, Jesus levava a Lei à plenitude, uma vez que sua interpretação colocava o bem do ser humano acima de qualquer legalismo. É importante observar que “cumprimento”, aqui, não se refere à simples execução de uma tarefa, mas tem o sentido de aperfeiçoamento, tornar algo pleno e perfeito. Ou seja, Jesus não veio ao mundo para destruir a Lei, e nem tampouco para cumprir preceitos e executar normas, mas para tornar perfeita a Lei de Deus; é isso que significa o verbo grego empregado pelo evangelista: (πληρόω) plerôo = aperfeiçoar, dar acabamento, tornar pleno. E ele faz isso dosando amor nas relações que a Lei visava regular apenas com obrigação ou proibição.

Na sequência, ainda em preparação à apresentação dos casos concretos da interpretação da Lei, temos mais afirmações que reforçam o apreço de Jesus pela Lei, afirmando inclusive a sua perenidade (v. 18), bem como a exclusão do Reino a quem deixar de observá-la e ensinar os outros a fazer o mesmo (v. 19), culminando com o confronto direto com os mestres da Lei e os fariseus: «Porque eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus» (v. 20). Ora, os mestres da Lei e os fariseus eram exemplo de fidelidade à Lei, obedecendo, quase cegamente, preceito por preceito. Para eles, a Lei era um fim em si mesma, pouco importando o bem das pessoas e as situações concretas do dia-a-dia. Dos seus discípulos, porém, Jesus espera muito mais, começando por uma adesão interior à vontade de Deus, o que corresponde à verdadeira justiça: conformidade à vontade de Deus, compreendendo a predileção pelos pecadores, pobres e marginalizados; é fazer o bem em qualquer circunstância, independentemente se há ou não um preceito que determine, e sem deixar de fazer, mesmo quando for necessário contrariar certos preceitos. Enquanto mera execução de preceitos, seria impossível superar os mestres da Lei e os fariseus, que eram referências em termos de devoção e moral, tanto para a religião quanto para a sociedade da época. Por isso, equivocadamente, se sentiam autorizados a vigiar a vida dos outros, apresentando-se como verdadeiros guardiões da moral e dos bons costumes da época. Mas, como Jesus conhecia cada pessoa a partir do coração, sabia que a religiosidade e a justiça deles era apenas fachada, o que não deveria se repetir em seus discípulos. Por isso, a advertência é tão séria.

E os seis exemplos (casos concretos) que seguem, dos quais leremos somente quatro na liturgia de hoje, mostram como é que a justiça dos discípulos e discípulas de Jesus deve superar a dos mestres da Lei e dos fariseus. Conforme o evangelista, Jesus apresenta um ponto específico da Lei que os fariseus interpretavam literalmente, e em seguida apresenta a sua interpretação pessoal, a qual ultrapassa a interpretação convencional. Muitos estudiosos do Evangelho de Mateus intitulam estes casos de “antíteses”, já que são construídos segundo a fórmula «Vós ouvistes o que foi dito...; Eu, porém vos digo...». No entanto, não se trata propriamente de antíteses, pois o ensinamento de Jesus não contradiz o convencional, ou seja, não se contrapõe ao que é determinado pela Lei, mas alarga o horizonte, inclusive, propondo uma interpretação até mais radical, com exigências muito mais profundas. De fato, ao invés de relativizar a Lei, levando-a ao pleno cumprimento, Jesus propõe uma vivência muito mais intensa, embora infinitamente mais leve, pois tem o amor como base de tudo. Portanto, o ensinamento de Jesus não é antitético à Lei, pois é dom de Deus, mas completamente antagônico ao uso instrumentalizado feito pelos mestres e escribas do seu tempo. Na verdade, o que Jesus propõe sobre a Lei se assemelha ao que já tinham feito os profetas do Antigo Testamento. Contudo, Jesus o faz com mais autoridade, por ser ele mesmo legislador e intérprete ao mesmo tempo.

O primeiro caso diz respeito ao quinto mandamento do decálogo (Ex 20,13): «Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal”» (v. 21). De acordo com uma interpretação literal, como faziam os fariseus, bastava não cometer homicídio para ser reconhecido como observador deste mandamento. Para Jesus e a dinâmica do seu Reino, contudo, não é suficiente não tirar a vida de outra pessoa para transgredir o mandamento, mas há muitas outras maneiras, as quais devem ser radicalmente observadas para agir em conformidade com a vontade de Deus, superando, assim, a justiça dos fariseus e mestres da Lei. Ora, o quinto mandamento é, por excelência, o mandamento da vida. Logo, tudo o que fere a vida é transgressão a ele. Alimentar ódio e preconceitos contra o próximo, bem como dirigir-lhe palavras ofensivas (v. 22), são também maneiras de transgredir o mandamento; na verdade, são maneiras diferentes de ameaçar a vida e a dignidade do outro e, por isso, é inadmissível que aconteçam, sobretudo na comunidade cristã. Uma boa relação com Deus passa necessariamente pela relação com o próximo. Na verdade, a relação com o próximo é tão indispensável, que tem primazia até mesmo sobre o culto e os ritos religiosos (vv. 23-24). Portanto, não basta não matar; é necessário amar, respeitar e viver reconciliado com o outro para estar bem também com Deus. Assim, de um mandamento que apenas proibia assassinatos, Jesus amplia o seu significado e faz uma ampla catequese sobre a importância de se cultivar relações harmoniosas e fraternas na comunidade, o que só é possível a partir do amor.

O segundo caso também parte de um mandamento do decálogo, o que neste caso é o sexto (Ex 20,14): «Ouvistes o que foi dito: “Não cometerás adultério”. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração» (vv. 27-28). Novamente, a interpretação de Jesus excede a prescrição, superando, assim, a justiça dos fariseus e dos mestres da Lei. Como se vê, para Jesus, o adultério não consiste somente na consumação do ato, mas os pensamentos e desejos, mesmo que não levem a nenhuma ação concreta, já constituem transgressão do mandamento. Novamente, é evidenciada a necessidade de relações saudáveis entre todas as pessoas, com pureza de coração, segundo o espírito das bem-aventuranças (Mt 5,8), especialmente entre os esposos. A perspectiva de Jesus também denuncia a cultura machista e patriarcal predominante na época, ao mostrar que a mulher não pode ser tratada como um objeto de desejo e consumo. O reconhecimento da dignidade da mulher é indispensável na comunidade cristã. Os olhares e pensamentos maliciosos devem ser evitados. É necessário cortar o mal pela raiz; a ordem para arrancar ou cortar os membros do corpo que levam a pessoa a pecar é simbólica (vv. 29-30), uma vez que é do coração que saem os desejos e as más intenções. Significa que a vida não tem sentido quando é marcada pelo mal, ou seja, pela ausência de amor verdadeiro, humanizado e humanizante, como o de Jesus.

O terceiro caso está relacionado ao segundo. Não é tirado do Decálogo, mas do chamado “código deuteronômico” (Dt 12–26), precisamente da lei sobre o divórcio (Dt 24,1-4), que dava liberdade ao homem para divorciar-se da mulher por qualquer motivo, inclusive se a achasse “sem graça”, ou seja, “feia” (Dt 24,1). Era uma lei totalmente favorável ao homem e altamente danosa para a mulher. De todos os exemplos levantados por Jesus, esse é de mais difícil compreensão, pois não é muito claro: «Foi dito também: “Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio”. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério» (v. 32). Aqui, infelizmente, a tradução litúrgica não favorece uma interpretação adequada; ao invés da expressão “faz com que ela se torne adúltera”, o correto seria “faz com que ela cometa adultério”, deixando claro que o homem é o verdadeiro culpado por isso. Dando a certidão de divórcio por qualquer motivo, o homem simplesmente abandona a mulher, a qual não possuía qualquer direito civil na época. Abandonada pelo marido, dificilmente seria acolhida pelos pais, e ainda carregava o peso do rótulo de adúltera. Na maioria das vezes, não lhe restava outro destino que não fosse a prostituição. O culpado por isso é o homem, na perspectiva de Jesus e da comunidade de Mateus, contrariando a interpretação dos fariseus e as práticas vigentes na época, que visavam preservar a figura do masculino de qualquer culpa. Visando manter a sacralidade do matrimônio, a interpretação de Jesus alivia o peso e a culpabilidade da mulher, responsabilizando também o homem. Em outras palavras, o homem deixa de ter poderes absolutos no matrimônio conforme a interpretação de Jesus.

O último caso lido hoje diz respeito à prática dos juramentos. No mundo antigo, onde prevalecia a cultura oral, como em Israel, os juramentos tinham muita importância. Embora não esteja diretamente no Decálogo, havia muitas prescrições sobre os juramentos em toda a Lei (Lv 19,12; Nm 30,3-15; Dt 5,20; 23,21), sobretudo exigindo fidelidade e cumprimento da palavra quando fosse feito um juramento. Era uma prática recorrente fazer juramentos como sinal de compromisso com Deus e com o próximo, em Israel. Isso acontecia em todos os âmbitos da vida: relações interpessoais, política, negócios e religião. A posição de Jesus é de total repúdio à prática dos juramentos: «Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: “Não jurarás falso”, mas “cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor”. Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus» (v. 34). É importante recordar que a Lei não determinava que as pessoas jurassem; porém dava permissão para tal, exigindo, no entanto, que, uma vez feitos, os juramentos fossem rigorosamente cumpridos. A necessidade de jurar, porém, pressupõe a desconfiança do outro. Exige-se que o outro jure quando não se confia plenamente, e o juramento passa a ser sinal de compromisso. Por isso, Jesus repudia completamente essa prática (vv. 35-37). Ora, na comunidade cristã, embrião do Reino dos céus, cuja regra de vida são as bem-aventuradas, todas as relações devem ser sinceras. Necessita-se de juramentos onde não há confiança absoluta; onde predomina a fraternidade, as relações são todas transparentes, fala-se somente a verdade em todas as circunstâncias. Por isso, não há necessidade de juramentos, pois todos devem viver segundo o amor recíproco, falando sempre a verdade com plena liberdade e convicção. Certamente, entre os fariseus e mestres da Lei os juramentos eram bastante normalizados, pois não compreendiam a vida como fraternidade e sim como concorrência, disputando até a condição de preferidos de Deus. Ao contrário deles, Jesus revela um Deus que é Pai, que conhece o coração de cada um dos seus filhos, por isso não necessita receber juramentos, quer apenas que entre seus filhos prevaleça o amor, a justiça e a fraternidade.

O evangelho lido neste dia é altamente interpelante e já serve de introdução à espiritualidade quaresmal. Jesus exige que a justiça dos seus discípulos e discípulas supere a dos fariseus e mestres da Lei. Como vimos, isso não se faz cumprindo com maior rigor os mínimos detalhes da Lei, mas superando-a, indo além daquilo que é prescrito, considerando sempre que o bem do ser humano deve estar acima de tudo. A assimilação das bem-aventuranças torna as normas da Lei até desnecessárias; é a vivência delas que permite a Lei chegar à sua plenitude, a ponto de não ser mais transgredida, pois, interiorizando as bem-aventuranças, já não há mais necessidade sequer de olhar para as normas e regras. Quem absorve no coração os ensinamentos de Jesus torna-se incapaz de fazer o mal.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,13-16 (ANO A)


A liturgia deste quinto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do grande discurso programático de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como o “discurso da montanha” (Mt 5–7). No domingo passado, fora lida a introdução desse discurso, passagem que compreende as bem-aventuranças – Mt 5,1-12 –, um texto que é considerado o coração do primeiro evangelho. De fato, trata-se da verdadeira “carta magna” do cristianismo, pois contém os princípios fundamentais do seguimento de Jesus Cristo. O texto proposto para hoje – Mt 5,13-16 – é exatamente o que sucede imediatamente às bem-aventuranças. Com efeito, toda a sequência do discurso é desdobramento das bem-aventuranças. Por isso, no evangelho de hoje, continuando um ensinamento vital para a comunidade de seus seguidores, Jesus emprega duas imagens bastante fortes e interpelantes, o sal e a luz, para demonstrar o quanto a vivência das bem-aventuranças é indispensável na vida dos seus discípulos e, consequentemente, para a comunidade cristã. Por conseguinte, é importante reforçar que tudo o que é desenvolvido ao longo do discurso da montanha é, na verdade, consequência ou expressão das bem-aventuranças.

Assim, consideradas pela maioria dos exegetas como o autorretrato de Jesus, as bem-aventuranças são, ao mesmo tempo, o programa de vida que ele propõe para os seus discípulos e discípulas de todos os tempos. Elas expressam o perfil de Jesus, revelando o seu estilo de vida. Com isso, ele mesmo conclui que a vivência delas deve ter um efeito transformador no mundo, comparável aos efeitos do sal e da luz, empregados em suas finalidades mais básicas: dar sabor e iluminar, respectivamente. Ora, é da vivência das bem-aventuranças que depende a instauração do Reino dos Céus na terra. Para que esse Reino, de fato, aconteça, é necessário que as pessoas, começando pelos discípulos, assumam um estilo de vida semelhante ao de Jesus, ou seja, que pratiquem as bem-aventuranças. E não há um outro meio de assemelhar-se a Jesus senão praticando as bem-aventuranças, ou seja, vivendo do seu jeito. Por isso, o emprego das imagens do sal e da luz são seguidos de advertência sobre o perigo de que estes elementos não sejam bem utilizados e, por consequência, deixem de produzir o esperado efeito transformador.

As imagens do sal e da luz são, assim, uma síntese da missão dos seguidores de Jesus e, ao mesmo tempo, uma demonstração do efeito dessa missão no mundo. Eis, pois, a primeira imagem com a consequente advertência: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens» (v. 13). Embora seja possível identificar diversas funções para o sal, sobretudo na antiguidade, o texto deixa muito claro que faz referência ao seu uso para a alimentação, seja como condimento seja enquanto conservante. Mesmo assim, é importante recordarmos também outras funções atribuídas ao sal ao longo da Bíblia. De fato, o sal era símbolo de qualquer coisa duradoura e preciosa, tornando-se, inclusive, sinal da indissolubilidade da aliança, de modo que uma aliança eterna era chamada de “aliança de sal” (Nm 18,19). Outro significado para o sal é a purificação, sendo um elemento utilizado nos sacrifícios cultuais (Lv 2,13; Ez 43,24), e empregado também por Eliseu para purificar as águas das fontes de Jericó (2Rs 2,19-22).

Aqui no texto de Mateus, no entanto, como já acenamos anteriormente, e considerando o inteiro versículo, a referência ao sal está relacionada ao seu uso no alimento, pois o texto indica o dar sabor como função primordial. É importante perceber também o universalismo atribuído aos seguidores de Jesus: ser sal de toda a terra, ou seja, marcar presença e fazer a diferença em todo o mundo, e não apenas dentro dos limites geográficos da Palestina. Essa dimensão universalista da missão cristã será evidenciada ao longo de todo o Evangelho de Mateus, e encontrará o seu ápice no envio missionário pós-pascal, quando o Ressuscitado ordenará que seus discípulos devem ir a todas as nações para ensinar, batizar e discipular (Mt 28,19-20). Seja para dar sabor, seja para conservar alimentos, o sal é indispensável na vida do ser humano. Assim também é indispensável a presença de cristãos e cristãs no mundo, para que o projeto libertador de Jesus seja realizado e o Reino se instaure. Ao falar do risco de o sal tornar-se insosso e, consequentemente, inútil, faz-se uma advertência ao risco de omissões e falta de testemunho dos cristãos no mundo. Assim como não tem sentido um sal sem sabor, também não tem sentido cristãos sem a prática das bem-aventuranças, ou seja, sem fome e sede de justiça, sem mansidão no coração, sem misericórdia e sem amor. O sal é, portanto, imagem da força humanizante da mensagem de Jesus no mundo.

A segunda imagem empregada ocupa todo o restante do texto e, aparentemente, é mais simples ou, pelo menos, mais compreensível, já que é uma imagem mais frequente ao longo da Bíblia: «Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte» (v. 14). A imagem da luz, de fato, atravessa toda a Bíblia, muito mais do que a do sal, bem como o seu efeito é muito mais claro, sem deixar margens para uma variedade maior de interpretações. Inclusive, a própria missão de Jesus na Galileia foi apresentada por Mateus como luz, como refletimos há dois domingos – evangelho do terceiro domingo do tempo comum: Mt 4,12-23. Aqui, o evangelista ensina que, como extensão e continuação da missão de Jesus, também a missão dos seus discípulos é apresentada como luz. Isso mostra que a missão dos discípulos é a mesma de Jesus. Novamente, a dimensão universalista da missão é recordada: os cristãos não devem ser luz somente para um determinado grupo de pessoas ou de uma determinada região, mas de todo o mundo. A segunda parte do versículo é, certamente, uma crítica à cidade de Jerusalém e às autoridades de Israel, como um todo. Ora, Jerusalém fora construída sobre um monte (Is 2,1) exatamente para de lá resplandecer a luz de Deus; porém, fora corrompida pelos poderes religioso e político, ofuscando a luz de Deus. Temos aqui, portanto, uma clara denúncia ao povo de Israel e, especialmente, à cidade de Jerusalém que falhara na sua missão de ser luz das nações (Is 42,6; 49,6). Por isso, Deus transferiu sua luz para a marginalizada Galileia dos pagãos, onde Jesus iniciou seu ministério como uma luz que brilha nas trevas (Mt 4,12-23). Como consequência, Jesus transfere a missão que outrora fora de Israel para os seus discípulos.

Na continuidade do texto, vemos novamente o tom de advertência, como no uso do sal: «Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos, que estão na casa» (v. 15). Tão inútil quanto um sal sem sabor e uma lâmpada escondida é a vida cristã sem testemunho, ou seja, sem a prática das bem-aventuranças. Aliás, isso nem vida cristã seria, mas apenas um teatro, um fingimento, sobretudo quando acobertada por um conjunto de ritos. Seria hipocrisia, como Jesus vai mostrar, com outras palavras, ao advertir a comunidade dos seus seguidores sobre a necessidade de diferenciar-se dos fariseus. Temos aqui mais um alerta sobre o risco da omissão dos cristãos no mundo, diante das injustiças e de todas as formas de manifestação do mal. O cristão não pode se omitir onde há trevas, onde há negação da vida, onde falta humanização. Uma lâmpada debaixo da mesa é a imagem do discípulo omisso e medroso, incapaz de denunciar as injustiças que estão ao seu redor, e conivente com as situações de opressão e negação da vida. Uma vez que a luz acesa não tem outra função que não seja iluminar, também os cristãos não podem omitir-se de testemunhar o Evangelho, cuja condição é a vivência das bem-aventuranças, uma vez que constituem o programa de Jesus, pois correspondem exatamente ao seu jeito de viver.

O versículo conclusivo consiste em mais uma exortação e advertência. Assim como houve em Israel, também havia na comunidade cristã uma tendência ao envaidecimento e ao orgulho, o que é totalmente incompatível com o ensinamento de Jesus. É necessário que os discípulos sejam sinal de luz diante das outras pessoas, mas que não sejam recompensados ou elogiados por isso, pois é ao Pai que está nos céus que devem ser dirigidos todos os louvores; é esse o sentido do versículo: «Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus» (v. 16). Os cristãos de todos os tempos devem cumprir boas obras, devem “fazer o bem” como fez Jesus (At 10,38), de modo que revelem o Deus em quem acreditam. Em outras palavras, o versículo quer dizer que o reconhecimento e o louvor de Deus pela humanidade dependem essencialmente do estilo de vida dos cristãos. E isso é uma grande responsabilidade. É na medida em que os cristãos dão sabor ao mundo e o iluminam com gestos e ações concretas que o mundo passa a conhecer a Deus. O Deus que é Pai, portanto, não o se torna conhecido pelo ensino de uma doutrina, e sim pelo testemunho dos cristãos. Vivendo as bem-aventuranças, os cristãos não devem esperar reconhecimento e elogios a eles mesmos, mas ao Pai celeste que enviou Jesus ao mundo como caminho, luz e guia para cada pessoa encontrar sentido para a vida, vivendo à sua maneira.

A liturgia deste dia, sobretudo o evangelho, conforme a reflexão aqui proposta, visa nos interpelar sobre a responsabilidade da vida cristã no mundo, chamando a atenção para os frutos essenciais e as consequências imediatas: dar sabor e iluminar. Ser cristão é abraçar um programa de vida, seguir Jesus e suas causas, dando-lhe adesão plena, muito mais do que cumprir normas e participar de um conjunto de ritos. A identificação com ele depende essencialmente da disposição de viver como ele viveu, aceitando as bem-aventuranças como regra de vida. Quem faz essa opção se torna, inevitavelmente, sal da terra e luz do mundo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 17,1-9 (ANO A)

Todos os anos, a liturgia do segundo domingo da Quaresma propõe a leitura de um dos relatos do episódio conhecido tradicionalmente como “Tra...