quarta-feira, junho 03, 2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO – ANO A



“PORQUE HÁ UM SÓ PÃO, NÓS TODOS SOMOS UM SÓ CORPO” (1Cor 10,17)

(Dt 8,2-3.14b-16a; Sl 147; 1Cor 10,16-17; Jo 6,51-58)

1.     Introdução

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo começou a ser celebrada na Bélgica, com o objetivo de reafirmar a presença real de Jesus na Eucaristia e promover a devoção ao Santíssimo Sacramento. Foi instituída oficialmente no século XIII pelo papa Urbano IV e se popularizou rapidamente em todo o mundo. Apesar de já ser celebrada no tempo comum, esta festa pode ser considerada a verdadeira conclusão do ciclo pascal e uma espécie de extensão da Quinta-Feira Santa. Por vários séculos, foi marcada por um aspecto mais devocional e apologético, tendo a solene e triunfante procissão como seu ponto mais alto. Com o passar do tempo, o sentido teológico foi aprimorado, sobretudo com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

Ao celebrar hoje esta solenidade, a Igreja reafirma e proclama solenemente a sua fé na Eucaristia como memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo, como alimento que sustenta e conduz para a vida eterna, e como presença permanente do Senhor junto a seu povo. Por isso, somos convidados neste dia a refletir também sobre os efeitos da Eucaristia celebrada em nossas comunidades e na vida de cada pessoa. O Senhor quis permanecer presente entre nós como alimento e é, portanto, alimentando-se dele, o único pão, que nos tornamos um único corpo.

2.     Compreendendo a Palavra

A primeira leitura de hoje é tirada do segundo dos três discursos de Moisés que compõem o livro do Deuteronômio (Dt 4,44–28,68). No contexto da leitura, o povo de Israel já se encontra às portas da terra prometida, após a longa e difícil caminhada pelo deserto. Em breve, o povo terá fartura, ao entrar na tão sonhada terra onde corre leite e mel. Nesse sentido, Moisés o exorta a não esquecer a providencial proteção de Deus, desde a saída do Egito, terra de escravidão, até a experiência do deserto (vv. 2.14). Ora, no deserto, Israel passou por diversas provações, como a fome, a sede, o perigo dos animais selvagens, como as serpentes, e todo o tipo de dificuldade. Sem a ajuda de Deus Israel não teria resistido a tudo isso (vv. 2-3.15).

Por isso, Moisés pede que o povo recorde tudo o que Deus fez em seu favor (v. 2.14). E de tudo o que Deus fez por Israel no deserto, o que o povo tinha mais vivo na memória era o dom do alimento, o maná (v. 16).  Contudo, apesar de importante no contexto do deserto, o maná era um alimento passageiro e supria apenas uma necessidade do povo: a fome de pão. E, como não se vive somente de pão, o verdadeiro nutrimento de Israel no deserto não foi apenas o maná, mas a força de toda a palavra que saía da boca de Deus (v. 3). Desse modo, o convite à recordação é acompanhado da exortação à observação dos mandamentos, que também são expressões da palavra que sai da boca de Deus e, portanto, fazem o homem viver.

A segunda leitura é tirada da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, o livro do Novo Testamento que contém o testemunho mais antigo e explícito sobre a fé da Igreja primitiva na Eucaristia como presença do Cristo ressuscitado na comunidade e comunhão com ele, mediante os sinais do pão e do vinho, consagrados e compartilhados fraternalmente.

O trecho lido nesta solenidade é muito breve, mas bastante claro, além de interpelante. Ora, quando Paulo escreveu essa Carta, a unidade da comunidade de Corinto estava seriamente ameaçada, por causa de divisões e rivalidades. Diante disso, o apóstolo recorda o sentido da Eucaristia como fonte de comunhão com Cristo e dos cristãos entre si. As referências ao “cálice da bênção” e ao “pão que partimos” (v. 16) evocam, obviamente, a última ceia de Jesus com seus discípulos, às vésperas da sua paixão, e demonstram que a celebração fraterna como memória daquela ceia já era uma tradição consolidada na comunidade de Corinto (cf. 1Cor 11,23-26).

O chamado à unidade parte da certeza de que há um só pão, que é Jesus Cristo (v. 17). Quem se alimenta deste pão, forma um único corpo, entrando em comunhão profunda com o Senhor e com os demais que participam do mesmo banquete. A comunhão com o corpo de Cristo, portanto, gera uma união profunda, não apenas com Jesus, mas também dos cristãos entre si. Daí, podemos dizer que Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis.

O evangelho de hoje corresponde à conclusão do chamado “Discurso sobre o pão da vida”, localizado no sexto capítulo do Evangelho de João (Jo 6,22-58). Esse discurso, que constitui a mais rica catequese eucarística do Novo Testamento, está ambientado na sinagoga de Cafarnaum e funciona como uma explicação teológica do milagre da multiplicação dos pães. Trata-se de um dos textos mais profundos de todo o Evangelho de João, inspirado em dois importantes acontecimentos do Antigo Testamento: a multiplicação dos pães, pelo profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), e o episódio do maná no deserto (Nm 11,13.22).

A multiplicação dos pães tinha deixado a multidão beneficiada bastante entusiasmada com Jesus. Inclusive, por causa do milagre, tinham reconhecido Jesus como “o Profeta que vem ao mundo” (v. 6,14). No entanto, percebendo que não estava sendo bem compreendido, Jesus procurou explicar a sua verdadeira identidade e missão. Por isso, o ponto alto do discurso explicativo é a autoafirmação de Jesus como “o pão vivo descido do céu” (v. 51).

Contudo, de acordo com o contexto do evangelho, ainda não se trata de uma referência ao pão eucarístico repartido na comunidade. Essa declaração indica, antes de tudo, que Jesus é o Verbo encarnado e o único que revela o Pai com perfeição. Logo, para alcançar a vida eterna é indispensável fazer experiência com ele, comendo a sua carne, o que significa assimilar a sua própria vida e acolher o dom do Espírito que ele comunica junto com o Pai. Para os judeus que o tinham escutado, a afirmação de Jesus como pão descido do céu pareceu embaraçante e até escandalosa (v. 52). Afinal, de alimento descido do céu, eles só tinham como referência o antigo maná comido pelos antepassados no deserto, e sabiam que era um alimento perecível (v. 58), ou seja, seus efeitos eram passageiros: saciava por um certo tempo, mas eles sentiam fome de novo.

Ao falar de um alimento que sacia para sempre, Jesus desperta curiosidade e embaraço, ao mesmo tempo, pois ele mesmo se apresenta como esse alimento, oferecendo sua carne, que significa o dom da sua vida. Trata-se de um ensinamento totalmente novo, inesperado pelo seu auditório. A declaração solene “em verdade, em verdade” (v. 53), indica a importância do que está sendo afirmado. A referência paralela à carne e ao sangue significa a condição humana em sua totalidade. É impressionante o salto de qualidade: de doador de um alimento perecível (Jo 6,1-13), em pouco tempo ele se apresenta como o próprio alimento para a vida eterna, doando-se completamente. E só participa da vida eterna quem o recebe como alimento.

Pela participação na vida de Jesus em sua totalidade, o ser humano recebe o dom da ressurreição (v. 54), pois é a assimilação da sua vida que gera uma comunhão indestrutível com ele. A Eucaristia, enquanto sacramento, é a expressão concreta desta comunhão. Através dela, temos a oportunidade de viver com Jesus uma relação semelhante à dele com o Pai (v. 57), o que deve gerar também a construção de relações saudáveis e fraternas na comunidade.

3.     Atualização

Um dos principais ensinamentos da liturgia da palavra de hoje é a certeza de que Deus alimenta e nutre as suas criaturas. A primeira leitura recorda que, no deserto, Deus alimentou o seu povo com a força da sua palavra e com o maná, considerado uma prefiguração da Eucaristia desde as primeiras gerações cristãs. No evangelho, Jesus mesmo, na totalidade da sua pessoa, se auto apresenta como o alimento doado por Deus para a vida do mundo. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo ensina que o pão repartido na comunidade é alimento e vínculo de união com Jesus Cristo e dos cristãos entre si. Diante disso, devemos refletir sobre a eficácia da Eucaristia enquanto alimento em nossas vidas. Jesus se fez alimento entregando sua vida por amor ao Pai e à humanidade.

Tanto a Palavra de Deus quanto a vida cotidiana atestam que o alimento é uma categoria essencial à vida. Assim, devemos sentir fome de Deus para o buscarmos como alimento que sacia e fortalece. Mas não podemos esquecer a fome de pão que continua matando milhões de pessoas no mundo e em nosso país. E, como cristãos, não podemos aceitar essa realidade. Devemos então contribuir, cada um à sua maneira, para que todas as pessoas sejam alimentadas de pão material e de tudo o que sai da boca de Deus, cujo ápice é a Eucaristia, corpo doado de Jesus, a Palavra que se fez carne.

4.     Conclusão

Além de saciar nossa fome e sede de Deus, a Eucaristia acende em nós o desejo de vida eterna; quando dela participamos, livres e conscientes, compreendemos melhor o sentido da vida, a ponto querermos torná-la eterna. E é somente a comunhão com a pessoa de Jesus Cristo que pode eternizar nossa vida. Sendo a Eucaristia sacrifício e refeição, quando dela participamos assimilamos o Senhor em nossa vida, entramos em comunhão profunda com ele e com a comunidade reunida, e nos abrimos para a eternidade, antecipando nossa participação no banquete celestial, na consumação dos tempos.

Não há sentido participar da refeição fraterna da comunidade sem a disposição de viver como irmão ou irmã. Compreendemos o sentido da eucaristia e fazemos verdadeira comunhão, quando assimilamos a vida de Jesus na nossa, vivendo à sua maneira. A celebração de hoje constitui um momento privilegiado para recordar a unidade entre as duas mesas: a da palavra e a do pão. Jesus é a Palavra que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). E ele fez da sua vida um dom, entregando-se totalmente por amor. Por isso, é importante que nossa fé na Eucaristia se traduza também em gestos concretos de amor e doação.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, maio 30, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Jo 3,16-18 (ANO A)

 


No primeiro domingo depois de Pentecostes, a Igreja celebra a solenidade da Santíssima Trindade. Os textos bíblicos empregados nesta solenidade se alternam conforme a dinâmica do ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, é Jo 3,16-18. Ao contrário das solenidades pascais, instituídas desde os primeiros séculos do cristianismo, essa festa já foi introduzida no calendário litúrgico em um período mais tardio. Em alguns países, começou a ser celebrada ainda por volta do séc. oitavo, mas só foi instituída oficialmente como festa universal pelo papa João XII, já no ano de 1334, como resposta a alguns movimentos heréticos que negavam a divindade de Jesus e/ou do Espírito Santo. Nela, recordamos o mistério da comunhão de amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Trindade Santa, em cujo nome somos batizados, batizadas e, consequentemente, salvos e salvas. É muito significativo que esta solenidade seja celebrada logo no primeiro domingo após Pentecostes. Como se sabe, em Pentecostes acontece o verdadeiro nascimento da Igreja. Desse modo, a Solenidade da Santíssima Trindade vem indicar que toda a ação da Igreja é trinitária, a começar pelo batismo, que se celebra em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Portanto, é em nome da Santíssima Trindade que ingressamos e participamos da comunidade cristã. Isso faz da comunidade o lugar privilegiado de comunhão com o Deus que é também comunidade. 

Como sempre, a nossa reflexão será pautada exclusivamente pelo evangelho, sem levar em consideração as afirmações dogmáticas a respeito da Santíssima Trindade. Por isso, ao invés de buscar definições e explicações para o mistério do Deus Uno e Trino, no qual cremos, procuraremos contemplar e assimilar a sua principal característica – o amor – revelada por Jesus, de acordo com o texto evangélico que a liturgia propõe neste ano: Jo 3,16-18. Apesar de curto, composto de apenas três versículos, esse texto possui uma profundidade e riqueza extraordinárias, como veremos no decorrer da reflexão. Como sempre, para o texto ser mais bem compreendido, é necessário conhecer o seu contexto, como faremos agora. Ora, esse texto está localizado ainda no início do Quarto Evangelho; faz parte do expressivo diálogo entre Jesus e Nicodemos, em Jerusalém. Naquela ocasião, Jesus se encontrava em Jerusalém por ocasião da festa da “páscoa dos judeus” (Jo 2,13.23). Durante sua estadia na grande cidade, Jesus realizou muitos sinais, despertando, além de oposição nas autoridades, adesão ao seu nome e curiosidade em alguns, como Nicodemos, com quem desenvolveu um prolongado e rico diálogo (Jo 3,1-21). Esse diálogo se desenvolve em três momentos: o reconhecimento da autoridade de Jesus por Nicodemos (3,1-3); a explicação de Jesus que para acolhê-lo como enviado do Pai é necessário nascer do alto (3,4-8), e a descrição do projeto divino de salvação (3,9-21). Embora se trate de um diálogo, Nicodemos pouco fala; a palavra é praticamente monopolizada por Jesus; Nicodemos quase só escuta. Inclusive, no texto de hoje só temos palavras de Jesus, segundo o evangelista.

E o evangelista descreve Nicodemos como um judeu importante, pertencente ao grupo dos fariseus (Jo 3,1), profundo conhecedor da Lei (Jo 7,50-52), e curioso pela novidade de Jesus. Sua curiosidade para conhecer melhor a mensagem de Jesus revela sinceridade e respeito, inclusive o reconhecimento de que Jesus “vem da parte de Deus” (Jo 3,2), o que muitos fariseus tinham dificuldade de reconhecer, conforme as informações fornecidas pelos quatro evangelhos. A leitura atenta do texto em seu conjunto (Jo 3,1-21) revela que Nicodemos não estava satisfeito com a religião oficial. Parece que a imagem do Deus pregado pela sua religião já não lhe convencia plenamente. Certamente, ele desejava uma profunda renovação, embora ainda não estivesse pronto para romper com o sistema e aderir ao projeto de Jesus. A simples curiosidade, no entanto, já é um passo importante para quem estava plenamente atrelado à estrutura religiosa da época, inclusive como uma das lideranças. Nicodemos aparecerá em mais duas ocasiões no Quarto Evangelho, e sempre tomando posições a favor de Jesus: defendendo-o da ira dos fariseus quando ele tinha se apresentado como fonte de água-viva, em alusão ao Espírito Santo (7,37-52), e ajudando em seu sepultamento (19,39). Se já tinha interesse em conhecer Jesus pelo que ouvia a seu respeito, certamente o interesse aumentou ainda mais ao dialogar com ele.

Como último aspecto a nível de introdução e contexto, recordamos as circunstâncias em que Nicodemos procurou Jesus: foi na “calada da noite” (Jo 3,2). Esse detalhe tem sido alvo de muitas tentativas de explicação pelos estudiosos. A explicação mais conhecida afirma que Nicodemos procurou Jesus à noite para não ser visto pelos seus colegas de doutrina, ou seja, os fariseus e os líderes religiosos de Jerusalém, uma vez que Jesus não era bem visto por esse meio. De fato, para quem defendia a moral e os bons costumes na época, a companhia de Jesus era desaconselhada. Porém, é provável que o evangelista tivesse intenções mais teológicas do que cronológicas para registrar esse detalhe, o que não convém aprofundarmos aqui, já que não é componente do evangelho de hoje, mas apenas um elemento do seu contexto. A noite, como imagem das trevas, poderia representar, na perspectiva do evangelista, o mundo em que Nicodemos vivia, com a mentalidade religiosa vigente.

Passemos, finalmente, ao estudo do texto, o qual começa com a seguinte afirmação de Jesus: «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna» (v. 16). Jesus apresenta Deus como aquele que ama incondicionalmente, e ao mesmo tempo se autoapresenta como a prova desse amor incondicional, já que é, ele mesmo, o Filho único doado ao mundo. Essa é a primeira vez em que aparece o verbo do amor por excelência, no Quarto Evangelho: o verbo grego “agapáo” (ἀγαπάω), o qual aparecerá mais trinta e cinco vezes. Vale recordar que, de quatro verbos correspondentes a amar na língua grega, somente “agapáo”, empregado aqui, expressa um amor incondicional e gratuito, que compreende a doação da vida.  E assim é o amor de Deus: Ele deu seu Filho ao mundo sem exigir reciprocidade; a resposta de amor a Ele da parte do mundo, ou seja, de cada ser humano, é simplesmente consequência de sentir-se amado, o que leva inevitavelmente a crer no seu Filho. Com essa afirmação, Jesus praticamente inverte o primeiro mandamento da Lei mosaica, uma vez que é Deus quem ama cada pessoa sobre todas as coisas. O mundo, para a teologia joanina, pode significar toda a humanidade, a criação inteira e, ainda, a oposição a Jesus e sua mensagem de salvação. Aqui, significa toda a humanidade; o gênero humano como destinatário do amor incondicional de Deus, o Pai.

A primeira finalidade da oferta de Jesus – o Filho – pelo Pai ao mundo é a vida eterna, o que não se trata de uma promessa para o além, mas de um dom já para o presente. O adjetivo “eterna”, aqui, não significa a duração, mas a qualidade da vida de cada pessoa que acolhe o dom do Pai, Jesus. Não é um prêmio reservado para os bons após a morte, mas a vida ressignificada de quem faz uma experiência autêntica de encontro com Jesus, deixando humanizar por ele. É a vida autêntica e plena, a ponto de nem a morte poder destruí-la. À medida em que o ser humano encontra sentido para a sua existência, a sua vida se eterniza. E o sentido pleno da vida só pode ser encontrado quando se consegue viver autenticamente como imagem e semelhança do Criador, à maneira de Jesus. E a humanidade tem a oportunidade de fazer essa experiência, pois o dom do Filho é acessível a ela toda, e não apenas a um povo, como imaginavam muitas correntes do judaísmo da época. Com efeito, o amor de Deus é ilimitado e universal.

O segundo versículo reforça o que diz o primeiro com maior precisão: «De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele» (v. 17). A primeira frase, em forma de negação, enfatiza ainda mais o projeto de salvação de Deus, dizendo o que o Filho não veio fazer no mundo: condenar ou julgar. Na verdade, o verbo empregado pelo evangelista, na língua original texto, traduzido pelo lecionário como como condenar, significa mesmo é julgar (em grego: κρίνω – kríno), um detalhe que ressalta ainda mais a intensidade do amor de Deus. Com efeito, o ato de condenar é consequência de um prévio julgamento. E aqui Jesus deixa claro que o amor de Deus pela humanidade é tão grande, a ponto de não a levar sequer a julgamento. Considerando que o interlocutor de Jesus é um fariseu, observante impecável da Lei, essa frase adquire um sentido ainda mais forte: Deus não condena e nem julga ninguém; o versículo seguinte deixará isso ainda mais claro, ao afirmar que o julgamento é opção pessoal de cada um(a). O pecado da humanidade não diminui o amor de Deus; tudo o que ele quer é que a humanidade seja salva; por isso, deu o seu Filho único. Salvar significa libertar, e é a missão que o Pai confiou a Jesus, ao enviá-lo ao mundo.

A mensagem de Jesus é uma proposta de libertação plena para o ser humano. E a primeira prisão da qual Jesus quer libertar o ser humano é de uma concepção equivocada de Deus: a passagem da ideia de um Deus como juiz e patrão, para um Deus que é Pai e “louco” de amor pelos seus filhos. É importante recordar esse diálogo com Nicodemos é, na verdade, o primeiro discurso de Jesus no Quarto Evangelho; e sua primeira preocupação foi revelar que Deus é Pai e só tem amor para oferecer à humanidade. Enquanto nos dois primeiros versículos Jesus falou da iniciativa de Deus, neste terceiro ele fala da resposta humana ao dom de Deus, com suas respectivas consequências: «Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito» (v. 18). Assim como foi livre a oferta do Pai, também deve ser livre a resposta do ser humano. Não é mais o Deus do templo, que exigia ofertas e sacrifícios como contrapartida a favores e bênçãos; é o da Deus da liberdade e da vida. O verbo crer no Quarto Evangelho tem um significado muito profundo, relacionado ao amor, inclusive. Significa responder positivamente ao amor de Deus, assimilando o programa de vida de Jesus. Para quem faz essa opção, obviamente, não há condenação; se torna uma pessoa livre e realizada, com uma vida plena de sentido, ou seja, eternizada. Quem rejeita essa oferta, perde a oportunidade de dar sentido à vida, e é essa a condenação da qual fala Jesus aqui; não se trata de um castigo futuro, mas de uma opção pessoal de viver fora da comunhão com Deus ainda aqui na presente existência. Em outras palavras, o evangelista diz que a mensagem de Jesus exige uma tomada de posição pró ou contra.

A certeza que temos é de um Deus Pai, que ama a humanidade incondicionalmente. É isso que o evangelho de hoje deixa claro. Ao amor, a única resposta convincente é também o amor. Mesmo que o Pai não exija que lhe amemos, se nos deixarmos envolver pelo seu amor revelado em Jesus, não poderemos reagir de outra maneira que não seja amando a ele e ao próximo como imagem sua. Portanto, sem condições e nem capacidades para descrever um Deus que é Um, mas que são três pessoas, arrisquemos a viver por amor como seu Filho viveu. Vivendo a seu modo, seremos agentes de humanização do mundo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, maio 22, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES – Jo 20,19-23



O evangelho da Solenidade de Pentecostes é sempre o mesmo, independentemente do ciclo litúrgico vigente:  Jo 20,19-23. Na verdade, a liturgia oferece também uma segunda opção de evangelho para este dia (Jo 15,26-27;16,12-15), mas tem sido pouco utilizado. O texto aqui tratado corresponde ao relato da primeira manifestação do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos, ao anoitecer do primeiro dia da semana, ou seja, o domingo mesmo da ressurreição. Inclusive, esse texto já foi lido na liturgia dominical deste tempo pascal, como parte do evangelho do segundo domingo, como também acontece todos os anos. Naquela ocasião, no entanto, este trecho fora lido como parte de uma sequência maior –Jo 20,19-31 –, que compreende a manifestação do Ressuscitado também no domingo seguinte à ressurreição, ou seja, «oito dias depois» (Jo 19,26). Portanto, embora estejamos de fato há cinquenta dias da Páscoa, o evangelho de hoje nos remete ao dia mesmo da ressurreição.

Pentecostes era uma das três maiores festas do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da Páscoa e das tendas. Era celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Na Bíblia hebraica é chamada de “festa das semanas” (שָּׁבֻעוֹת – shavuot), pois contavam-se sete semanas após a Páscoa, mais um dia, totalizando cinquenta dias (7x7=49+1=50). Por isso, recebeu o nome de “Pentecostes” (em grego: πεντηκοστή – pentecostê) a partir da dominação grega, cujo significado é simplesmente quinquagésimo dia (Tb 2,1; 2Mc 12,32). O fato de ser o resultado numérico da operação 7x7 indica a ideia de plenitude que essa festa transmite: o número perfeito – sete – multiplicado por ele mesmo. Quer dizer que Pentecostes é a festa da plenitude da Páscoa, tanto para a mundo hebraico quando para a fé cristã. Como todas as festas judaicas, também Pentecostes tem suas origens ligadas à vida agrícola do povo: era a festa da colheita. Os peregrinos iam a Jerusalém agradecer pela colheita, levando os melhores grãos e frutos da terra como oferta, em gratidão a Deus.

Com o passar do tempo, essa festa perdeu sua relação com a agricultura, e foi ganhando um novo significado, com uma conotação mais religiosa e histórica. O motivo da celebração passou, então, a ser o agradecimento a Deus pelo dom da Lei ao seu povo. Na época de Jesus e dos apóstolos, esse novo sentido já estava consolidado: os judeus de todas as partes do mundo, conforme as condições econômicas, iam a Jerusalém, para agradecer a Deus pelo dom da Lei, transmitida através de Moisés. Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, se serve desse contexto e faz coincidir o envio do Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes, como artifício literário e teológico, para ensinar às suas comunidades que a nova lei é o Espírito Santo, o dom pascal por excelência. Com isso, ele ensina que, para permanecer fiel a Jesus e à sua mensagem, a comunidade cristã já não necessita das prescrições da Lei de Moisés; deve apenas estar sensível e aberta aos dons do Espírito Santo.

Por outro lado, o autor do Evangelho de João faz de tudo para que os referenciais da sua comunidade não coincidam com os esquemas litúrgicos judaicos. Para ele, as grandes festas dos judeus em Jerusalém sempre foram muito conflituosas para Jesus; eram momentos de confronto e ameaça (2,13ss; 5,1.18; 7,1ss; 10,31; 11,56), além de sinônimo de exploração e comércio. Por isso, ele situa a doação do Espírito Santo por Jesus aos discípulos no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o esquema cronológico de Lucas, a perspectiva joanina tem mais sentido e responde melhor às necessidades dos discípulos, como mostra o Evangelho de hoje: «Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco!» (v. 19). Ora, amedrontada, fechada em si e sem poder de ação, essa comunidade não teria condições de esperar cinquenta dias para receber o Espírito Santo. É somente pela força do Espírito Santo que as portas são abertas e os dons comunicados pelo Ressuscitado podem ser experimentados por todos.

No contexto do evangelho, a comunidade dos discípulos estava em crise, profundamente abalada. Até aquele momento, somente Maria Madalena e o Discípulo Amado tinham convicção da ressurreição (Jo 20,8.16-18). A morte de Jesus na cruz foi um alerta para os discípulos: quem continuasse propagando ideias como as dele, poderia terminar da mesma forma. Por isso, estavam as portas trancadas, devido ao medo. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades que condenaram Jesus, e não de todo o povo; é típico de João usar o termo “judeus” referindo-se às autoridades de Jerusalém (Jo 9,22; 12,42; 16,16). Apesar do medo, o fato de estarem reunidos é um sinal de esperança; significava que não tinham perdido completamente as esperanças; o ideal que os unia não tinha ainda se apagado. Porém, não poderiam continuar naquela situação, ou seja, acuados pelo medo. Ora, o medo impede a missão, as portas fechadas bloqueiam o anúncio da Boa Nova. Enfim, o medo é falta de experiência com o Ressuscitado.

Ao medo dos discípulos, o Ressuscitado responde com o dom da sua paz. Aqui, a paz não significa simplesmente a saudação típica do povo judeu, o famoso “shalom” (שָׁלוֹם). Inclusive, a tradução correta da expressão não é “a paz esteja convosco”, como está no texto litúrgico, mas “paz a vós”, sem a forma verbal “esteja”. O Ressuscitado não transmite um desejo de paz, mas traz a paz efetivamente, ele faz a paz acontecer. E quem faz experiência com Ele já tem a paz dentro de si, embora seja uma paz inquieta, como aquela que ele mesmo viveu. E imediatamente os discípulos sentiram a paz neles e entre eles, pois passaram do medo à alegria (v. 20). A paz é plenitude de vida e equilíbrio, o bem-estar da pessoa em todas as suas dimensões, condição indispensável para a felicidade. Jesus comunica a sua paz estando no meio, quer dizer, no centro da comunidade. Para que os dons do Ressuscitado sejam realmente acolhidos, é necessário que a sua centralidade na comunidade seja respeitada; isso vale para todos os tempos e lugares. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado e somente Ele, pois é Ele o único ponto de referência e fator de unidade. Por isso, ao se manifestar, o Ressuscitado aparece sempre no meio.

Na continuidade da experiência, diz o texto que Jesus «mostrou-lhes as mãos e o lado» (v. 20a). Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Crucificado; se trata da mesma pessoa. O Ressuscitado traz as marcas do Crucificado, porque cruz e glória não se separam. Nas mãos e no lado de Jesus está a identidade de quem viveu plenamente para servir e amar. As mãos são símbolo e recordação do serviço e de todo o bem que Jesus fez: são as mãos que tocaram em leprosos, mesmo sendo proibido (Mc 1,40), mãos que deram carinho a crianças (Lc 18,15-16; Mt 19,13-15), mãos que abriram olhos de cegos (Jo 9,6), mãos que curaram enfermos e expulsaram demônios (Lc 4,40; 13,13), mãos que lavaram os pés dos discípulos (Jo 13,1-12); enfim, são mãos que promoveram a vida e combateram o mal. São mãos humanizadoras.

As marcas da cruz não apagaram a força das mãos de Jesus. Mesmo feridas na cruz, essas mãos continuam à disposição da comunidade, e a comunidade, por sua vez, tem a missão de fazer no mundo o mesmo que aquelas mãos do Ressuscitado fizeram, ou seja, servir infinitamente e sem distinção. Também o lado, ou seja, o peito aberto, tem o mesmo significado de continuidade: é o mesmo coração com o qual Ele amou até o fim (Jo 13,1). Um coração que se abriu, se dilatou, tamanho o amor que contém. Na cruz, esse amor é representado pelo sangue e a água que jorraram. Estes dois sinais significam, naquela cena, o amor pleno, total, que não pode ser contido, por isso, faz dilatar o coração. E esse coração continua amando da mesma forma. As mãos e o lado de Jesus são, portanto, a síntese da sua vida, da sua mensagem e da sua práxis. Ele doa o Espírito Santo aos discípulos para que suas mãos e o seu coração continuem presentes no mundo servindo e amando de modo ainda mais eficaz. Por isso, «os discípulos se alegraram por verem o Senhor» (v. 20b). Como fruto da paz transmitida pelo Ressuscitado, a alegria deve ser também uma das características da comunidade que deve viver para amar e servir, sem medo de deixar o coração sangrar de amor.

A paz como bem-estar do ser humano é novamente oferecida: «novamente Jesus disse: A paz esteja convosco» (v. 21a). Novamente, não é um desejo, mas a afirmação de um dom já presente, já verificável. A passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia, por isso a paz é doada novamente para equilibrar a comunidade. Aqui, a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas. Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: «Como o Pai me enviou, também eu vos envio» (v. 21b). É importante recordar que, embora cada evangelista narre as aparições do Ressuscitado à sua maneira, todos os quatro recordam um elemento comum: o envio missionário.  E trata-se de um elemento determinante para a construção da identidade da comunidade cristã, a Igreja. Não há seguimento de Jesus sem disposição para a missão. A Igreja nasceu para estar em saída. E a fonte da missão é o amor do Pai, manifestado plenamente pelo Filho, o que confere à comunidade cristã uma responsabilidade ímpar: fazer no mundo o mesmo que Jesus fez, pois ele está enviando seus discípulos de todos os tempos conforme fora enviado pelo Pai.

Como Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos na última ceia (Jo 14,16.26; 15,26), eis que a promessa é cumprida: «E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo» (v. 22). Aqui, o evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da primeira criação do ser humano: «O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente» (Gn 2,7). Com isso, o evangelista quer dizer que está sendo realizada uma nova criação. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo) significa doação de vida, um sopro vital. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira é recriada. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro e fundamento, colocando à disposição da humanidade mãos e coração para servir e amar continuamente. O Espírito Santo é força dinâmica e vivificadora; é movimento. Logo, a Igreja não pode parar no tempo, não pode acomodar-se em suas sólidas estruturas.

Na sequência, o Ressuscitado recorda os efeitos principais do Espírito Santo na vida da comunidade, conferindo-lhe uma grande responsabilidade: «A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos» (v. 23). Por muito tempo, esse versículo foi empregado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão. No entanto, não é um sacramento o que Jesus está instituindo, tampouco conferindo um poder aos seus discípulos para determinar se um pecado pode ser perdoado ou não. O que perdoa mesmo os pecados é o amor infinito de Deus que Jesus revelou. Logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de comunicar esse amor. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade, ou seja, quando essa deixar de produzir os frutos que Jesus pediu (Jo 15,1-17). Ora, Jesus envia os discípulos como Ele mesmo fora enviado pelo Pai (v. 21), confiando-lhes a continuidade da sua própria missão. E a missão de Jesus foi sintetizada pelo Batista como “tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29). Tirar o pecado do mundo significa promover intensamente o bem até eliminar o mal pela raiz, o que só se faz através do amor, com ousadia profética. Antes de tudo, trata-se de uma missão humanizante. E agora, é Jesus quem confia à sua comunidade de discípulos essa responsabilidade. Logo, os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz, animada pelo Espírito e fonte de humanização para o mundo. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada! Deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a comunidade atualiza e prolonga, no tempo e no espaço, a missão única do próprio Jesus de revelar o amor de Deus a todas as pessoas.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, maio 15, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Mt 28,16-20 (ANO A)



O evangelho da solenidade da ascensão do Senhor, neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, é Mt 28,16-20. Esse texto corresponde aos últimos versículos do Primeiro Evangelho. Por consequência, contém as últimas palavras de Jesus na respectiva obra, funcionando como uma espécie de testamento, pois consiste em uma espécie de despedida e um conjunto de recomendações práticas do Mestre aos seus discípulos. Dos pontos de vista litúrgico e teológico, pode-se dizer que a ascensão é a consumação da ressurreição, a plenitude da Páscoa: o Ressuscitado penetra no mundo do Pai e, ao mesmo tempo, garante a sua presença perene entre os seus seguidores, confiando-lhes a missão de continuarem a sua obra. É importante destacar, logo de início, que o evangelho segundo Mateus não chega a descrever a ascensão. Aliás, essa vem descrita apenas na obra lucana (Lc 24,50-51; At 1,6-11) e no acréscimo redacional de Marcos (Mc 16,19). Em Mateus, o que é narrado é a manifestação do Ressuscitado aos discípulos na Galileia, dando-lhes as últimas recomendações e garantindo continuar com eles para sempre. E esse detalhe é muito significativo para a compreensão de todo o Evangelho de Mateus e, consequentemente, para a vida da Igreja em todos os tempos.

Podemos dizer que o texto de hoje é uma síntese conclusiva de todo o Evangelho de Mateus. À medida que escreve suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fazem questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado ao longo da obra, sobretudo em relação aos ensinamentos de Jesus. É isso que percebemos hoje. Portanto, para compreendê-lo bem é necessário que o leitor esteja familiarizado com o conjunto da obra. Na impossibilidade de recordar o Evangelho todo, recordamos, pelo menos, os últimos acontecimentos narrados: o relato da ressurreição com a manifestação do anjo e do próprio Ressuscitado às mulheres (Mt 28,1-10), e o suborno dos guardas pelos sacerdotes com a mentira do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (Mt 28,11-15). O texto de hoje sucede imediatamente a esses acontecimentos. Tanto o anjo do Senhor (28,5-7), quanto o próprio Jesus (28,10) ordenaram às mulheres que avisassem aos discípulos que retornassem à Galileia para ali fazerem também eles a experiência do encontro com o Ressuscitado. Por isso, além de recordar, é importante ressaltar que o encontro dos discípulos com o Ressuscitado, narrado no evangelho de hoje, é também fruto do anúncio das primeiras apóstolas da ressurreição: aquelas mulheres que, na madrugada do primeiro dia, foram visitar o sepulcro e receberam o mandato de convencer os discípulos a retornarem à Galileia para ali encontrarem o Ressuscitado (Mt 28,1-10).

É à luz das informações recordadas anteriormente que podemos compreender o que o evangelho de hoje diz já no seu primeiro versículo: «Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado» (v 16). A menção aos onze recorda a perda de Judas, que já não fazia mais parte do grupo dos discípulos, mas possui também um outro significado: o número doze representava um projeto de reconstituição do antigo Israel, alimentando a ideologia nacionalista e triunfalista. Esse projeto faliu, devido à rejeição de Israel ao projeto de Jesus, cujo ápice foi a morte escandalosa na cruz. À luz da ressurreição, a comunidade mateana, fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos, percebe que a missão universal confiada à Igreja não precisa mais ser configurada às tradições de Israel. O projeto do Reino dos Céus que Jesus anunciou ao longo do Evangelho não coincide com a restauração do reino de Israel. Por isso, o número onze não significa somente incompletude da comunidade, mas é sinal de uma nova perspectiva e ruptura com os antigos esquemas. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário abandonar os esquemas tradicionais do judaísmo. Evidentemente, a base fornecida por Israel – a Lei e os profetas – não perderam o seu valor, mas receberam o cumprimento (Mt 5,17). De Jesus em diante, o que conta é o anúncio e a construção do Reino, cujas bases são as bem-aventuranças.

Segundo a recomendação, os discípulos foram para a Galileia, ao monte indicado. Ora, em Jerusalém acontecera a grande tragédia para a comunidade dos discípulos. Além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado ali florescer. Basta recordar o conluio dos poderes religioso, militar e político para desacreditar a ressurreição, com a ideia do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (28,11-15). Aliás, Jerusalém foi hostil a Jesus desde o seu nascimento, com a matança dos inocentes decretada por Herodes (Mt 2,16). O retorno à Galileia, portanto, era essencial para a sobrevivência da comunidade e, ao mesmo tempo, para o reencontro dos discípulos com as motivações e bases originárias do chamado. Além das incompreensões ao longo da caminhada, marcada inclusive pela rivalidade entre os discípulos (Mt 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte de Jesus tinham deixado a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade de um retorno ao ideal primeiro para fazer a experiência do monte. Ora, de acordo com as tradições do Antigo Testamento, o monte é, por excelência, o lugar do encontro com Deus e com a sua palavra. 

Ao longo de todo o seu Evangelho, Mateus situou Jesus no monte em diversas ocasiões, desde as tentações (Mt 4,8-10) até a paixão (Mt 26,30). Inclusive, foi no monte que Jesus proferiu o primeiro e mais importante de seus cinco discursos: o discurso da montanha (Mt 5–7), conforme o respectivo Evangelho. Como se sabe, o discurso da montanha constitui o programa de vida proposto por Jesus, cujo centro são as bem-aventuranças (Mt 5,1-12). De fato, nas bem-aventuranças encontra-se o núcleo da mensagem de Jesus, isto é, a essência de tudo o que ele ensinou aos seus discípulos. Foi também no monte que Jesus se transfigurou diante de alguns discípulos, revelando antecipadamente sua identidade de crucificado-ressuscitado. Portanto, o convite para os discípulos retornarem à Galileia, ao monte, é exatamente para voltarem à essência do projeto de vida proposto por Jesus, percorrendo o seu mesmo caminho e fazendo as mesmas opções dele. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré, o galileu, e o Cristo Ressuscitado. E a Galileia como região desprezada entre os judeus é também uma advertência aos discípulos quanto aos primeiros destinatários da missão: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: «Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram» (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o mesmo verbo já empregado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (Mt 2,2.11) e para descrever o gesto das mulheres quando viram o Ressuscitado pela primeira vez (Mt 28,9). Esse verbo (em grego: προσκυνέω – proskinêo) tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar e sujeitar-se somente a Jesus e ao que ele deixou como ensinamento, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da Lei e às imposições do imperador romano. Assim como os magos e as discípulas mulheres, também os onze discípulos aceitam os valores do Reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos os lugares da terra, indistintamente. Ao contrário do que parece, a dúvida não faz mal à comunidade. Tanto é que Jesus não repreende os discípulos por isso. A dúvida é sinal de busca, e não de rejeição. Ao longo da missão universal da Igreja, muitas dúvidas surgirão, tanto em quem anuncia quanto nos destinatários do anúncio. As dúvidas abrem espaço para o Espírito Santo iluminar a comunidade e conduzi-la à verdade. Enquanto as certezas geram autoritarismos e imposições, as dúvidas dão margem ao diálogo, à abertura ao diferente. O antídoto à dúvida não é a certeza, mas a fé e o amor. Quanto maiores forem as dúvidas, maior será a necessidade da fé e do amor na comunidade.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso que, de certo modo, sintetiza todo o Evangelho de Mateus (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, mas de envio e comissionamento. Para Mateus, Jesus nunca se despediu da comunidade, pois na sua essência está sua presença, o “estar com”. Ao dizer «Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra» (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. Está também reivindicando para si a identificação com a figura do “Filho do Homem” (Dn 7,13-14) e, ao mesmo tempo, corrigindo-a: ao Filho do Homem do livro de Daniel, foram dados poder e domínio. Jesus trocou o domínio pelo serviço (Mt 20,28), preferindo exercer sua autoridade no amor. A verdadeira autoridade, motivada pelo amor, parte da periferia – a Galileia –, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá o poder é exercido com base na mentira, no medo, no suborno e na violência, conforme o relato da paixão mostrou claramente. “Céu e terra”, aqui, significam a totalidade da criação submetida a Jesus Ressuscitado; quer dizer que o Pai lhe entregou tudo. Significa que tudo o que é de Deus passa por Jesus e está com ele, porque foi entregue em suas mãos. Com isso, implicitamente, o evangelista recorda a plena humanidade de Jesus, em contraste com o primeiro homem, que a perdeu em virtude do pecado, sobretudo da ganância. Com efeito, o primeiro homem recebeu autoridade sobre a terra (Gn 1,28), mas a usurpou, ao querer ultrapassar seus limites. Jesus, enquanto Filho, recebe autoridade muito maior: sobre o céu e a terra. E, mesmo assim, se fez servo de todos, escolhendo o serviço como meio de exercício da sua autoridade. A autoridade sobre o céu e a terra, portanto, evoca a plena humanidade e divindade de Jesus.

O discurso prossegue com o envio universalista e inclusivo: «Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de poder. Ele não envia seus discípulos para impor nem dominar, mas para fazer novos discípulos, uma vez que no seu Reino não há súditos, mas irmãos. Essa é, sem dúvida, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de mundo. Não envia os discípulos para doutrinar ninguém, mas para apresentar um programa de vida, delineado ainda no início do Evangelho, com a proclamação das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Destacamos aqui a força do verbo empregado pelo evangelista para a expressão “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular” (μαθητεύω – matheteuô); com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. Gerar discípulos ou discipular é, antes de tudo, viver o discipulado plenamente para torná-lo fecundo e, consequentemente, gerar mais discípulos. Também é importante recordar que os discípulos enviados para formar mais discípulos não deixam de ser discípulos; não recebem títulos que os distinguem dos demais, novos e futuros discípulos. Sejam os de primeira hora, sejam os que vierem depois, os seguidores de Jesus não são mais do que discípulos, tendo em vista que Ele é o único mestre e Senhor.

O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos de primeira hora, os quais não são cumpridores de tarefas, mas seguidores de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado. O conjunto do ensinamento de Jesus é sua forma de viver. Logo, é vivendo à sua maneira que se ensina e, consequentemente, faz nascer novos discípulos e discípulas. À missão de “discipular”, é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade, obviamente, marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal externo além do batismo. A fórmula trinitária expressa a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial praticado por João Batista. A expressão “em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria identidade e essência, expressa a totalidade do seu ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência mesma de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais do que uma ordem: «E ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!» (v 20a). Em nenhum outro Evangelho essa expressão teria a profundidade que tem em Mateus.  Ora, Mateus é, por excelência, o Evangelho do ensinamento (em grego: διδαχή – didakê), tanto que está estruturado em torno de cinco discursos: o discurso da montanha (Mt 5–7); o discurso missionário (Mt 10); o discurso em parábolas (Mt 13); o discurso comunitário (Mt 18) e o discurso escatológico (Mt 24–25). Nesses cinco discursos, está a totalidade do ensinamento de Jesus, para a comunidade de Mateus, e é isso o que deve ser ensinado; dos cinco, destaca-se o primeiro, o discurso programático, chamado de “discurso da montanha”. A comunidade cristã tem a missão de ensinar tudo, sem distorção alguma, do que Jesus ensinou e ordenou. Essa totalidade do ensinamento de Jesus, no entanto, corresponde a um jeito de viver, ou seja, é um programa de vida. Por isso, não pode ser distorcido nem substituído por uma doutrina ou ideologia. E o efeito de ensinar a observar o conjunto da mensagem de Jesus é a construção de um mundo novo, uma humanidade nova. Em outras palavras, é a humanização do mundo.  

Finalmente, olhamos para a última frase de todo o evangelho, que é, na verdade, uma síntese da obra de Mateus enquanto livro e da missão mesma de Jesus: a certeza da sua presença permanente na comunidade: «Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo» (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo “estar” no futuro, o evangelista o emprega no presente, conforme o texto grego. Isso significa que Jesus nunca se ausentou da comunidade, ou seja, Ele não foi embora para voltar depois, mas permaneceu sempre. Aqui, ele diz «Eu estou convosco». Por sinal, a presença é um tema teológico central no Evangelho de Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. Por isso, com essa certeza, Mateus não tinha motivos para descrever Jesus subindo para o céu, como fez Lucas. O importante é que a comunidade possa sentir sua presença e que essa presença a estimule a viver e ensinar somente o que Ele ensinou.

O Ressuscitado está, de fato, presente na comunidade que vive o ideal de vida proposto nas bem-aventuranças. Nessa comunidade todos são discípulos e discípulas e, portanto, irmãos e irmãs. Essa comunidade celebra, acolhe, convence pelo testemunho e se coloca em saída para, com alegria, compartilhar tudo o que Ele ensinou. Ao colocar-se em saída, essa comunidade cumpre a missão de humanizar o mundo, não impondo doutrinas, mas vivendo intensamente o amor. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO – ANO A

“PORQUE HÁ UM SÓ PÃO, NÓS TODOS SOMOS UM SÓ CORPO” (1Cor 10,17) (Dt 8,2-3.14b-16a; Sl 147; 1Cor 10,16-17; Jo 6,51-58) 1.      Introdução...