A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum
continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a etapa final do seu
ministério, marcada por uma série de confrontos e disputas com as classes
dirigentes e os grupos mais influentes da vida política e religiosa de Israel.
O texto selecionado para este dia – Mt 22,34-40 – compreende a disputa sobre o
maior dos mandamentos. Trata-se de um episódio pertencente à tradição sinótica,
ou seja, consta nos três evangelhos sinóticos (Mt 22,34-40; Mc 12,28-34; Lc
10,25-28), embora cada versão possua características próprias, correspondentes
às necessidades das comunidades destinatárias e às perspectivas teológicas dos
respectivos evangelistas. Em Mateus e Marcos, o episódio localiza-se no
contexto do ministério de Jesus em Jerusalém, sendo que em Mateus a tonalidade
polêmica é mais evidenciada. Em Lucas, esse episódio situa-se no contexto do
caminho de Jesus para Jerusalém, funcionando como motivação para a famosa
parábola do bom samaritano (Lc 10,30-35), omitindo-se também a tonalidade mais
polêmica, tão evidenciada por Mateus. A ênfase mais polêmica em Mateus é
consequência da situação das suas comunidades, na época da redação do seu
Evangelho, em meados dos anos oitenta do primeiro século, quando havia forte
disputa, e até rivalidade, entre os membros do nascente movimento cristão e os
membros da sinagoga, quase todos pertencentes ao movimento dos fariseus.
A série de polêmicas entre Jesus e os grupos hegemônicos
de Israel, em Jerusalém, começou com a corajosa denúncia da transformação do
templo em casa de comércio e covil de ladrões (Mt 21,12-17), logo após sua
entrada triunfante na cidade. Daquele momento em diante, cada passo de Jesus
passou a ser milimetricamente vigiado, devido ao perigo que ele e sua mensagem
representavam para a elite de Jerusalém. Havia uma espécie de consórcio entre
os diversos grupos hegemônicos – sacerdotes, anciãos, herodianos, saduceus,
fariseus, escribas – com o objetivo de colocar Jesus em situações
constrangedoras, até encontrar motivos para condená-lo, seja por subversão
política, seja por transgressão religiosa. Havia até rivalidades entre alguns
desses grupos, mas tendo Jesus como inimigo comum, eles se uniam por
conveniência, no intuito de derrotá-lo, como se viu no domingo passado, com o
acordo entre os fariseus e herodianos. Os grupos se alternavam no confronto:
quando um deles ficava sem argumentos, outro entrava em cena com uma questão
ainda mais embaraçante. Os primeiros grupos a confrontá-lo diretamente foram os sacerdotes
e anciãos, questionando com que autoridade Jesus ensinava no templo (Mt
21,23-27). A esses, Jesus respondeu com uma série de três parábolas (Mt
21,28–22,14), deixando-os sem argumentos, pelo menos momentaneamente. Em
seguida, entraram em cena os fariseus e os herodianos, questionando a
legitimidade do pagamento do imposto romano (Mt 22,15-22), a quem Jesus também
deixou sem palavras. Depois, entraram em cena os saduceus perguntando sobre a
ressurreição, com a estranha parábola da mulher que ficou viúva sete vezes,
cujos maridos eram todos irmãos (Mt 22,23-33); também a eles, Jesus deixou
calados. À exceção da disputa com os saduceus, todas as demais foram lidas na
liturgia dos últimos domingos.
O
texto lido hoje mostra uma nova investida dos fariseus, o grupo mais preparado
em relação ao conhecimento da doutrina e da Lei. Inclusive, a maioria dos
mestres da Lei pertenciam ao grupo dos fariseus. Como a questão tratada no
evangelho de hoje refere-se à Lei, e o principal interlocutor de Jesus é um
fariseu mestre da Lei, tudo aponta para um embate bastante acirrado. No
entanto, a disputa é resolvida rapidamente, devido à prontidão e coerência de
Jesus em sua resposta. Eis o início do texto: «Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os
saduceus. Então eles se reuniram em grupo» (v. 34). As
primeiras palavras do texto já denunciam o complô: os grupos agiam em comum
acordo, de modo que se um deles falhasse, o outro já estaria pronto para agir,
mostrando que havia um verdadeiro cerco a Jesus. Ele tinha feito calar os
saduceus na disputa sobre a ressurreição (Mt 22,23-33), um episódio saltado
pela liturgia dominical. Diante disso, os fariseus perceberam que estava
ficando cada vez mais difícil vencê-lo com argumentos, por isso se prepararam
melhor dessa vez, reunindo-se em grupo para traçar uma melhor estratégia,
provavelmente para elaborar uma pergunta mais difícil e escolher o mais
capacitado entre eles para perguntar. O fato de provocar uma reunião entre eles
demonstra o quanto Jesus tinha se tornado perigoso para eles, devido à sua
mensagem libertadora e humanizante.
E a
intenção da reunião dos fariseus é logo denunciada pelo evangelista, ao informar
o objetivo da pergunta: «e um deles – um mestre da Lei – perguntou a
Jesus, para experimentá-lo» (v. 35). A tradução litúrgica omite a
especificação “mestre da Lei” ou “legista” (em grego: νομικὸς - nomikós),
mas é importante recordar, pois demonstra a relevância da pergunta e a intenção
do grupo que queria emparedar Jesus. Não é qualquer fariseu que faz a pergunta,
mas um especialista, alguém muito preparado, tendo em vista que nas questões
anteriores Jesus tinha deixado seus interlocutores sem palavras. E a intenção
da pergunta é muito clara: colocar Jesus à prova, ou seja, tentá-lo. Embora
a tradução litúrgica empregue o verbo experimentar, o que melhor corresponde à
língua original do texto é tentar. Inclusive, é o mesmo verbo empregado no
episódio das tentações para descrever a ação de satanás (em grego: πειράζω –
peirázo) no início da vida pública de Jesus (Mt 4,1). Com isso, o evangelista
recorda que, do início ao fim, a vida de Jesus foi marcada pela tentação, pelo
confronto com os inimigos, opositores do Reino, sendo que na maioria das vezes
são as próprias pessoas religiosas que assumem o papel de satanás; com efeito, às
vezes, também são os próprios discípulos que cumprem o papel de tentador, como
fez Pedro, a quem Jesus chegou a chamar explicitamente de satanás (Mt 16,23).
Escolhido
a dedo pelo grupo, o fariseu mestre da Lei faz uma pergunta interessante,
teologicamente, mas ao mesmo tempo maliciosa, tendo em vista as intenções de
tentar Jesus. Eis a pergunta: «Mestre, qual é o maior mandamento da lei?» (v.
36). A falsidade deles, pois aquele que interroga o faz em nome do grupo, já é
perceptível pela introdução da pergunta: ele chama Jesus de mestre (em grego:
διδάσκαλος – didáskalos) sem reconhecê-lo como tal. De fato, Jesus era mestre,
mas seus opositores não o reconheciam como tal; pelo contrário, para eles Jesus
não passava de um perigoso charlatão. A especialidade dos fariseus, sobretudo
dos que se especializavam, era exatamente o estudo minucioso da Lei e dos
mandamentos. Com essa pergunta, portanto, eles não pretendiam aprender algo
novo, mas fazer Jesus cair em contradição até ser acusado de blasfemo e
transgressor da Lei. Nas escolas rabínicas, essa pergunta era muito frequente e
gerava grandes debates. Isso porque os rabinos tinham elaborado um catálogo com
613 mandamentos, encontrados na Torá, divididos entre 365 proibições,
correspondentes à quantidade de dias do ano, e 248 obrigações, que
correspondiam ao número de partes do corpo humano, conforme a mentalidade
semítica vigente. Diante de um número tão alto, sendo difícil até a
memorização, surgiam muitas perguntas a respeito. Ora, não sendo possível
observar todos, quais seriam os essenciais? Sobre isso, havia uma diversidade
de posições: entre os fariseus, predominava a ideia do sábado como o maior
mandamento, com a alegação de que até Deus observava esse mandamento (Gn 2,2-3;
Ex 20,8-11; Dt 5,12-15). Inclusive, já tinham entrado em conflito com Jesus,
ainda no seu ministério na Galileia, acusando-o de relativizar o sábado (Mt
12,1-13). Outros grupos consideravam que o essencial era a observação minuciosa
de todo o decálogo (Ex 19,3-17; Dt 5,6-21). E outros, ainda, defendiam a
igualdade entre todos os mandamentos, uma vez que todos tinham a mesma origem
divina.
Como
se sabe, desde o início da sua vida pública, Jesus tinha demonstrado muita
liberdade ao interpretar os mandamentos e toda a Lei, colocando sempre o bem da
pessoa e da criação acima de qualquer preceito. E isso tinha comprometido a sua
reputação no ambiente religioso da época. Por isso, os fariseus imaginavam que
com essa pergunta teriam argumentos para deixá-lo em situação difícil, uma vez
que Jesus já tinha fama de relativizar a Lei e até de transgredi-la. Mas, como
sempre, em vez de ser incompleta, a resposta de Jesus vai muito além do que lhe
fora perguntado, como se vê: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento!» (v. 37).
Jesus encontra uma resposta que transcende o decálogo, ao mesmo tempo em que o
sintetiza. Essa resposta encontra seu fundamento justamente no credo de Israel,
o “Shemá”, que os fariseus tão bem conheciam: «Escuta, ó Israel: O
senhor é nosso Deus e único Senhor! Por isso, amarás o Senhor teu Deus com todo
o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força» (Dt 6,4-5).
Com pequenas modificações, Jesus confirma que o ser humano deve amar a Deus com
o máximo de si. Como ele mesmo diz, «esse é o maior e o primeiro
mandamento» (v. 38), qualificando-o com dois adjetivos de valor
absoluto: maior (em grego: μεγάλη – megále) e primeiro (em grego: πρώτος –
protos), significando aquilo que é essencial e irrenunciável. Porém, a resposta
de Jesus não visa uma hierarquização dos mandamentos, mas uma denúncia:
enquanto os fariseus buscavam classificar os mandamentos, Jesus diz que basta
viver a genuína fé israelita, da qual eles se achavam os primeiros guardiões. O
“Shemá”, enquanto credo de Israel, era proclamado duas vezes ao dia pelos
fariseus, ao amanhecer e ao anoitecer, mas na verdade eles não viviam aquilo
que proclamavam. Se vivessem em comunhão com Deus, não ficariam presos a
preceitos e nem teriam Jesus como inimigo.
E
Jesus continua sua resposta, demonstrando, como sempre, que vai além daquilo
que lhe fora perguntado: «o segundo é semelhante a esse: “Amarás ao teu
próximo como a ti mesmo”» (v. 39). Ora, ninguém perguntou a Jesus qual
era o segundo maior mandamento. Mas ele prossegue com a resposta para
desmascarar os fariseus e esclarecer ainda mais a essência da sua mensagem,
ensinando como deve ser a autêntica relação com Deus. Aqui, ele cita o livro do
Levítico (Lv 19,18b). É importante perceber a introdução: “é semelhante”, quer
dizer, é equivalente, está no mesmo nível. Para Jesus, o amor a Deus não pode
ser separado do amor às pessoas; aqui está a singularidade e a novidade do seu
ensinamento. É evidente que ele não inventa esse segundo mandamento, pois já
estava na Lei. Mas ninguém antes dele tinha ousado considerar o amor ao próximo
no mesmo nível do amor a Deus. Inclusive, o conceito de próximo na Lei era
restrito ao compatriota, o membro do mesmo povo, embora as leis de Israel
protegessem o estrangeiro melhor do que as leis de qualquer outra nação antiga.
E Jesus já tinha ensinado que até aos inimigos se deve amar (Mt 5,44).
Portanto, é inegável a novidade do seu ensinamento.
Enquanto
os fariseus procuravam classificar os mandamentos, focando em minuciosidades,
Jesus toma o todo da Lei e dos profetas e faz a sua própria síntese, conforme
relata o evangelista, na conclusão: «Toda a Lei e os profetas dependem
desses dois mandamentos» (v. 40). Aqui, faz-se necessário mais um
esclarecimento de nível semântico: o verbo traduzido por depender possui um
significado ainda mais intenso. Literalmente, significa pendurar/tornar suspenso
(em grego: κρέμαται – krematai). Inclusive, é o mesmo
verbo empregado por Lucas, no discurso de Pedro na casa de Cornélio, ao afirmar
que Jesus foi «pendurado/suspenso no madeiro» (At 10,39). Isso quer dizer que
toda a Lei e os profetas estão pendurados no duplo mandamento do amor a Deus e
ao próximo. Uma vez separados esses dois mandamentos, toda a Lei e os profetas
desmoronam, caem por terra, ou seja, perdem o sentido. É na síntese desses dois
mandamentos que a Lei e os profetas se apoiam e podem constituir regra de vida
com sentido, não apenas para o povo judeu, mas para a humanidade inteira, em
todos os tempos. Ora, os fariseus queriam distinguir preceitos, e Jesus mostrou
a unidade e coerência da Lei e dos profetas. Sem essa visão de conjunto, a
religião excluía e até matava. Ao mostrar que o amor a Deus é inseparável do
amor ao próximo, Jesus prega a unidade, coesão e coerência na comunidade. É
provável que a conclusão da resposta também tenha sido ainda mais chocante para
os fariseus, ao colocar os profetas no mesmo nível da Lei, no conjunto das
Escrituras. Ora, por mais que os profetas fossem estimados pelos fariseus, para
eles o valor da Lei era absoluto, incomparável a qualquer outro conjunto de
livros sagrados. E Jesus os iguala, coloca-os no mesmo nível.
Jesus
dá um passo muito importante com a sua resposta, o que já era referendado pelo
seu jeito de viver. A sua vida foi toda marcada pelo amor intenso ao Pai e pelo
amor concreto ao próximo, cuja demonstração fora mais visível na sua relação
com as pessoas marginalizadas e excluídas da época, sobretudo pela religião.
Por isso, respondeu de modo tão enfático, sobretudo no que diz respeito ao
próximo: o ser humano é colocado em uma tríade, cujo centro é o próximo,
conforme a ordem da resposta: Deus – Próximo – Eu.
Essa relação tríade deve ser guiada por um amor semelhante, para ser
verdadeiro. Com isso, Jesus deixa claro que só há uma maneira de demonstrar que
amamos a Deus e a nós mesmos: quando o próximo ocupa o centro da nossa vida. O
próximo é, portanto, o critério do amor a Deus e a si mesmo.
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



