Todos os anos, a liturgia do segundo domingo da Quaresma propõe a leitura de um dos relatos do episódio conhecido tradicionalmente como “Transfiguração do Senhor”. Trata-se de uma cena da vida de Jesus contada pelos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ano, conforme o ciclo litúrgico (A, B e C), sem necessariamente repeti-lo. Isso porque, mesmo se tratando do mesmo acontecimento, cada evangelista o narra à sua maneira, conforme as suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e, sobretudo, respondendo às necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos apresentem diferenças, apesar de serem muito parecidos, afinal, o fato contado é o mesmo. Por ocasião do ciclo litúrgico A, o texto proposto para este ano é o relato de Mateus – Mt 17,1-9. Por tratar-se de um texto muito rico em teologia e simbologia, torna-se indispensável uma breve contextualização, para uma compreensão mais adequada. E começamos pela definição do gênero literário ao qual pertence o texto, a teofania. Etimologicamente, teofania significa manifestação divina; é uma palavra de origem grega, formada da junção do substantivo “Theós” (Deus) com o verbo “faino” (aparecer, manifestar). Enquanto gênero literário, teofania designa o tipo de relato que descreve uma manifestação solene de Deus. Geralmente, são relatos carregados de elementos simbólicos, o que se vê no episódio da transfiguração, como a brancura, a nuvem e a voz celestial. Embora as teofanias sejam mais frequentes no Antigo Testamento, o Novo Testamento contém algumas, como o batismo de Jesus, a transfiguração, as aparições pascais e o relato de Pentecostes.
Ora, em Cesareia de Filipe, Jesus os tinha perguntado
sobre a sua identidade: quem o povo imaginava que ele fosse e o que os próprios
discípulos pensavam a seu respeito. Em nome dos Doze, Pedro respondeu, em forma
de confissão, que Jesus é o Cristo – Messias –, o Filho de Deus. Embora
correta, a resposta de Pedro poderia ser facilmente distorcida, pois
contemplava as expectativas do messianismo nacionalista vigente: um messias
(Cristo) glorioso e potente; por isso, Jesus ordenou que não contassem isso a
ninguém (Mt 16,20). Em seguida, ele fez o primeiro anúncio da paixão, o que deixou os
discípulos bastante assustados, pois a concepção de messias que eles tinham em
mente não era compatível com o sofrimento e a cruz, como ele tinha acabado de
anunciar (Mt 16,21). Ora, os discípulos esperavam um messias glorioso, valente
e guerreiro, conforme as expectativas da época, fruto da ideologia nacionalista
davídica, enquanto Jesus anunciou a doação da vida, comportando sofrimento e
cruz, se necessário, para alcançar a glória e a vida em plenitude. Inclusive,
impôs a disposição para carregar a cruz e doar a própria vida como condição
para fazer parte do seu discipulado. A transfiguração é, portanto, a resposta
de Jesus à incompreensão dos discípulos acerca da sua identidade, e uma
demonstração de que cruz e glória fazem parte de um mesmo caminho: o destino do
ser humano é a glória, mas essa passa pela cruz.
Uma vez contextualizados, vamos olhar para o texto,
começando pelo primeiro versículo: «Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João,
seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha» (v.
1). Aqui, a versão litúrgica omitiu um indicativo temporal importante,
substituindo-o pela genérica expressão “naquele tempo”. O texto original começa
com a indicação cronológica “seis dias depois”, como sinal de relação e
continuidade com o último episódio narrado: o primeiro anúncio da paixão e a
contestação de Pedro, com as exigências para o discipulado (Mt 16,21-28). Ora,
Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o
caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o até de
satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. Portanto,
“seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a
vida em plenitude. Tal expressão cronológica pressupõe um dia anterior aos seis
que vêm depois, e o resultado de tal operação é o número sete. Trata-se,
portanto, do sétimo dia, o que significa a criação concluída e em plena
harmonia com o Criador. Enquanto transfigurado, Jesus revela o ideal de
humanidade, conforme Deus pensou, desde o início. Provavelmente, o evangelista
evitou a referência explícita ao sétimo dia devido à relação hostil que se
passava entre a sua comunidade e a sinagoga. Implicitamente, ele aplicou o
sentido teológico do sétimo dia, mas evitou a menção, pois a comunidade vivia a
conflituosa transição do sábado para o domingo como dia de culto.
O evangelista diz que Jesus tomou consigo três
discípulos: Pedro, Tiago e João. A escolha desses três discípulos não
significa privilégio, como às vezes se diz, mas necessidade. Eles não eram os
melhores, mas sim os três mais difíceis de lidar e os que mais tinham dificuldade
de assimilar os ensinamentos de Jesus enquanto Messias sofredor. Pedro é
sinônimo de dureza e fechamento; é o discípulo que Jesus mais repreende durante
todo o seu itinerário. Como ele sempre se antecipa, sendo o primeiro a
responder às perguntas de Jesus, é aquele que mais se expõe e, por isso, é o
primeiro a ser corrigido. João e Tiago, conhecidos como “filhos do trovão” (Mc
3,17), eram os mais fanáticos e ambiciosos (Mc 10,35-45; Mt 20,20-28), de
temperamento difícil, eram também os mais intolerantes. Pouco tempo após este
episódio da transfiguração, Jesus repreenderá João por proibir a um homem que
não fazia parte do grupo de pregar e expulsar demônios em seu nome (Mc
9,38-39). Os dois, João e Tiago, também foram repreendidos quando quiseram
tocar fogo nos samaritanos que os rejeitaram (Lc 9,51-55). Portanto, Jesus os
chama para estarem mais perto de si pela necessidade de cada um e por não
desistir do ser humano, apesar das fraquezas e debilidades. Eles necessitavam
estar mais próximos a Jesus e aprender mais com ele, como de fato estarão. Na
Paixão, esses três – Pedro, João e Tiago – serão as testemunhas de Jesus
durante a agonia no Getsêmani (Mt 26,36-37). Isso significa que eles mudaram
com o tempo, não se tornando perfeitos, mas aprendendo a cada dia com Jesus, à
medida em que conviviam com ele e ouviam seus ensinamentos.
Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o
lugar do encontro do ser humano com Deus. Tanto em Israel quanto nas culturas
circunvizinhas, imaginava-se que para comunicar-se com a divindade, o ser
humano precisava escalar um monte. Assim, a montanha funcionava como um espaço
intermediário e necessário: o ser humano era incapaz de subir aos céus, e Deus
grande demais para descer até a terra; daí a necessidade de um lugar
intermediário para os dois se comunicarem. Por isso, a montanha tornou-se o lugar
da revelação no Antigo Testamento (Ex 19,16; 24,15). Embora a tradição tenha
identificado essa montanha com o monte Tabor, esse dado não possui fundamento
nos evangelhos. Essa denominação começou com Cirilo de Jerusalém e foi
consolidada por São Jerônimo, mas hoje é considerada sem fundamento. É
preferível mantê-la anônima, como fizeram os evangelistas, porque não se trata
de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com
Deus é uma subida à montanha.
E é justamente no Evangelho de Mateus que a montanha tem
mais relevância no Novo Testamento, sendo o lugar onde ele diz que Jesus viveu
momentos importantes do seu ministério: proclamou as bem-aventuranças (5,1),
multiplicou os pães (15,29), e como Ressuscitado, aparecerá aos discípulos pela
primeira vez (28,16). O texto de hoje diz que, no alto da montanha, Jesus «foi
transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas
ficaram brancas como a luz» (v. 2). quer dizer que passou por uma
transformação no seu aspecto, uma metamorfose. É esse o significado do verbo
empregado pelo evangelista (em grego: μεταμορφόομαι – metamorfóomai). Diante da
incredulidade e resistência dos discípulos em aceitar a morte, Jesus antecipa
para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e,
portanto, de Deus nele. Não apenas o rosto brilhou, mas todo o seu ser,
inclusive suas vestes. As mesmas imagens e cores da glória de Deus ao longo da
história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida
em que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova.
Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na
tradição judaica entram em cena: «Nisto, apareceram-lhe Moisés e Elias,
conversando com Jesus» (v. 3). Estes personagens representam a Lei e
os Profetas, obviamente. Temos, com isso, mais uma iniciativa de Deus para
conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância
com tudo o que a Lei e os Profetas tinham afirmado a respeito do Messias.
Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as
Escrituras; é o seu pleno cumprimento. Os discípulos contemplam, mas somente
Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância
revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos
três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os Profetas
encerram-se, chegam ao fim enquanto cumprimento e plenitude. Jesus é o critério
de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por
Ele. Por isso, Moisés e Elias nada têm a dizer para a comunidade cristã senão
através de Jesus. Nesta cena, portanto, Moisés e Elias entregam a Jesus a
revelação parcial que tinham recebido, própria da antiga aliança, e Jesus a aperfeiçoa,
completando-a. Por isso, é necessário passar por ele.
Pedro, ousado como sempre, tomou a palavra e, mais uma
vez, disse coisas reprováveis, apesar das boas intenções: «Então, Pedro
tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer
aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”» (v.
4). Três elementos são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova
tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é
ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se
indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que
assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz
do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o
próprio Pai, ao interrompê-lo. O segundo elemento reprovável na fala de Pedro é
o seu apego à tradição e o não reconhecimento de Jesus como o centro da
vida: «uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias». Jesus
ainda não ocupava o centro da vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição
hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição
central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda
coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu
evangelho como centro. O terceiro elemento reprovável na fala de Pedro é o não
reconhecimento de Jesus como a verdadeira tenda. Ora, no Antigo Testamento,
sobretudo no contexto do êxodo, a tenda é o lugar do encontro com Deus, o que
agora é a pessoa de Jesus. A ideia de fazer tendas revela incompreensão e não
aceitação de Jesus como o pleno revelador do Pai e o lugar definitivo do
encontro com Deus.
Diante do absurdo da fala de Pedro, o próprio Deus
intervém e o interrompe: «Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem
luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu
Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!”» (v. 5). A
nuvem luminosa, ao longo da tradição bíblica é também sinal da manifestação e
presença de Deus. Essa cena é, praticamente, uma repetição daquilo que
aconteceu no episódio do batismo de Jesus: o Pai se manifesta, fala e dá
testemunho do Filho. Ora, diante das dúvidas e falta de convicção nos
discípulos sobre a identidade de Jesus, quem tem mais propriedade para
esclarecer é o seu Pai. Essa voz reitera a autoridade de Jesus: o Pai o
credencia como o único que tem autoridade para falar e ser ouvido pela
comunidade. Pedro ainda estava propenso a ouvir mais Moisés e Elias do que a
Jesus, por isso, Deus, o Pai, lhe corrige. Moisés e Elias já disseram o que
tinham de dizer; à comunidade cristã, só interessa o Evangelho, ou seja, o que
Jesus ensina e vive. E o que Jesus tem a dizer à comunidade é, acima de tudo, o
seu jeito de ser, seu estilo de vida. Escutá-lo, portanto, significa viver como
ele, pois sua voz não é um som, mas a própria vida, a qual ele doa livremente. Doando-se,
fazendo-se servo de todos, ele fala, comunica vida, força de libertação e
humanização para todas as pessoas e a inteira criação.
A primeira reação dos discípulos diante das palavras do
Pai é de completa falência: «Quando ouviram isto, os discípulos ficaram
muito assustados e caíram com o rosto em terra» (v. 6). Ao longo de
toda a Bíblia, é normal o medo e o temor dos seres humanos diante da presença
Deus. Mas nesse caso o medo tem outra causa: as implicações e consequências de
escutar. Ora, escutar Jesus significa aderir plenamente ao seu projeto de vida
e libertação, o que comporta até mesmo a doação da vida. É isso o que causa
medo nos discípulos que imaginavam seguir um messias guerreiro e glorioso.
Diante do medo dos discípulos, eis a reação de Jesus: «se aproximou,
tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”» (v. 7). É
próprio de Jesus dar força aos caídos e encorajar os amedrontados. O gesto de
tocar é o mesmo que ele faz ao curar os enfermos, restituindo-lhes vida e saúde
(8,3.15; 9,25.29). O medo de assimilar e viver o Evangelho torna a comunidade
doente, necessitada da força de Jesus que a impele a levantar-se. Para superar
o medo, duas coisas são necessárias: escutar Jesus, como o Pai ordenou, e
deixar-se tocar por ele.
O toque de Jesus, que é a sua própria palavra, levanta e
transforma a comunidade dos discípulos: «Os discípulos ergueram os
olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus» (v. 8).
Moisés e Elias desapareceram para que a atenção dos discípulos se voltasse
somente para Jesus, o centro da vida e da comunidade que já não precisa mais
deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem,
porque quem vê Jesus, vê o Pai (Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta
também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e
perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu evangelho. Não vendo
mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada
a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com
seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do
comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a
sugestão das tendas por Pedro.
Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que
experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam
esperar a Ressurreição, e também por prudência, pois se a notícia daquela
experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se
aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro
sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição. Eles deveriam anunciar
Jesus, o Evangelho, mas da maneira certa, sem alimentar falsas ilusões, nem omitir
as suas verdades. E somente à luz da ressurreição é que esse anúncio se torna
eficaz e perfeito. É melhor silenciar do que anunciar de modo equivocado. O
anúncio distorcido é, sem dúvidas, consequência de uma escuta superficial. Aqui
está um dos ensinamentos mais importantes para as comunidades de todos os
tempos: a necessidade da escuta de Jesus, o Filho Amado.
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



