sexta-feira, outubro 30, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – Mt 5,1-12a


Neste ano, a liturgia do trigésimo primeiro domingo do comum é substituída pela solenidade de todos os santos, desta vez sem a necessidade de transferência, pois o dia primeiro de novembro coincide com o domingo. E o evangelho proposto para essa solenidade é Mt 5,1-12a, interrompendo, assim, a leitura semicontínua do Evangelho de Mateus. É um texto fixo, lido todos os anos, certamente porque nenhuma outra passagem expressa tão bem o sentido da santidade como essa. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha”. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido à repetição constante do termo grego makárioi (μακάριοι), cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados. Esse é, certamente, um dos trechos mais lidos e conhecidos de todo o Novo Testamento, apreciado por cristãos e não cristãos, pois contém o mais completo programa de humanização que o mundo já conheceu. Gandhi, por exemplo, definiu as bem-aventuranças como «as palavras mais altas que a humanidade já escutou».

As bem-aventuranças compreendem a síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, daquilo que seus discípulos e discípulas de todos os tempos devem viver. É um texto belo, mas muito fácil de ter seu sentido deformado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Ora, falar em todos os santos e santas tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta. Na verdade, todo o discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem evangélica, evitando que esta solenidade se transforme em mera apologia ao devocionismo fundamentalista que tanto tem se difundido nos últimos anos. Por isso, é preciso ter clareza do programa de vida de Jesus com seu projeto de sociedade e, consequentemente, das suas exigências.

De todas as palavras atribuídas a Jesus que encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Infelizmente, isso tem acontecido com muita frequência. Por isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de encorajamento e transformação. Na versão mateana, encontramos oito bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido à ocorrência do termo grego makárioi (μακάριοι) por nove vezes. Não consideramos a nona ocorrência do termo (v. 11) como uma nova bem-aventurança, mas como uma recapitulação e síntese das oito para os discípulos, reforçando a exigência para que eles de fato vivessem intensamente todas elas.

Para compreendermos as bem-aventuranças em seu sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já afirmamos anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é makárioi (μακάριοι), o qual pode ser traduzido por benditos, felizes ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É importante recordar que, embora escritos em grego, os evangelhos foram construídos segundo uma mentalidade semítica, sobretudo o de Mateus. Por isso, é importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o hebraico. Ora, o termo correspondente ao grego μακαριοι – makárioi, em hebraico é (אשרי) “ashrei”, o qual significa uma felicitação, mas é, ao mesmo tempo, uma forma imperativa do verbo caminhar, seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Expressivas correntes da exegese atual propõem que o evangelista pensou nos dois sentidos ao formular o seu texto. De fato, sem esse segundo sentido, as bem-aventuranças podem facilmente ser transformadas em discurso de conformismo ou resignação; com ele, passam a ser uma mensagem de transformação.

Olhemos, pois, para cada uma das situações contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Eis a primeira bem-aventurança: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança que tem recebido as interpretações mais equivocadas ao longo da história, infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à transformação. Na língua grega a palavra pobre (πτωχός – ptokós) deriva do verbo acocorar-se de medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de humilhação extrema. O convite de Jesus é para que não desanimem, mas sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em grego: πνεύμα – pneuma) é empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente, seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.

A segunda bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados» (v. 4). De todas as bem-aventuranças, certamente, essa é a mais paradoxal. Numa tradução mais literal, o termo aflitos seria substituído por “os que choram”, e essa bem-aventurança mistura felicidade com lágrimas e lágrimas com a consolação. É um paradoxo que escapa a qualquer lógica humana. É claro que Deus não compactua com as causas das aflições, mas ele está sempre do lado dos aflitos, daqueles que choram. Ora, jamais será consolado o aflito que se fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado por completo. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar, jamais recuar, para encontrar a consolação.

Na terceira bem-aventurança, Jesus diz: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (v. 5). O termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e, aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja, pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se ele dissesse: «não parem, continuem caminhando e lutando». Era muito comum os pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme ele mesmo o fizera, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão forte: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (v. 6). A fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais para a vida, também deve ser a luta por justiça entre seus discípulos. A comunidade cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta por justiça.

Na quinta bem-aventurança, temos: «Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia» (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia, não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem, pois é do bem que o bem é gerado. Quanto mais se ama mais possibilidades se tem de ser amado também. Isso faz parte da pedagogia divina e da própria essência do Deus revelado por Jesus, que é todo amor e misericórdia. De fato, a misericórdia é uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também para os seus seguidores. Seguir fazendo o bem ao próximo, sem distinção, é uma das principais exigências do discipulado.

Com a sexta bem-aventurança, Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o discípulo de Jesus deve marchar, avançar.

A sétima bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (v. 9). Na marcha da comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma, intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra (שלום) shalom: paz como bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamado filho de Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado seu filho.

A oitava bem-aventurança funciona como uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao Reino: «Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 10). A justiça, por excelência, é a prática de todas as bem-aventuranças anteriores. A quem adere plenamente à lógica do Reino, não há outra consequência a não ser a perseguição. Mas, mesmo diante da perseguição, a palavra de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando, marchando em busca do Reino que é vosso!

Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro, na sobreposição de uns sobre os demais e pela violência. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o seu projeto: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (vv. 11-12a). Alguns estudiosos veem essa afirmação como uma nova bem-aventurança, enquanto outros, a maioria, a veem como um reforço e síntese conclusiva das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo e discípula de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como ele mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver como ele.

Assim, recordando que Paulo e os demais cristãos de suas comunidades chamavam-se mutuamente de santos, e eram cristãos porque levavam a sério as bem-aventuranças, podemos compreender que celebrar todos os santos é recordar todos os que não aceitam as coisas como são impostas, mas sabem mover-se, avançar e seguir um outro caminho, não para fugir da realidade, mas para transformá-la à maneira de Jesus.

Para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha, caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é libertadora porque convida o discípulo e a discípula a saírem de si, colocarem-se em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Enfim, as bem-aventuranças constituem o mais completo programa de humanização que esse mundo já conheceu.

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, outubro 23, 2026

REFLEXÃO PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,34-40 (ANO A)


A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a etapa final do seu ministério, marcada por uma série de confrontos e disputas com as classes dirigentes e os grupos mais influentes da vida política e religiosa de Israel. O texto selecionado para este dia – Mt 22,34-40 – compreende a disputa sobre o maior dos mandamentos. Trata-se de um episódio pertencente à tradição sinótica, ou seja, consta nos três evangelhos sinóticos (Mt 22,34-40; Mc 12,28-34; Lc 10,25-28), embora cada versão possua características próprias, correspondentes às necessidades das comunidades destinatárias e às perspectivas teológicas dos respectivos evangelistas. Em Mateus e Marcos, o episódio localiza-se no contexto do ministério de Jesus em Jerusalém, sendo que em Mateus a tonalidade polêmica é mais evidenciada. Em Lucas, esse episódio situa-se no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém, funcionando como motivação para a famosa parábola do bom samaritano (Lc 10,30-35), omitindo-se também a tonalidade mais polêmica, tão evidenciada por Mateus. A ênfase mais polêmica em Mateus é consequência da situação das suas comunidades, na época da redação do seu Evangelho, em meados dos anos oitenta do primeiro século, quando havia forte disputa, e até rivalidade, entre os membros do nascente movimento cristão e os membros da sinagoga, quase todos pertencentes ao movimento dos fariseus.

A série de polêmicas entre Jesus e os grupos hegemônicos de Israel, em Jerusalém, começou com a corajosa denúncia da transformação do templo em casa de comércio e covil de ladrões (Mt 21,12-17), logo após sua entrada triunfante na cidade. Daquele momento em diante, cada passo de Jesus passou a ser milimetricamente vigiado, devido ao perigo que ele e sua mensagem representavam para a elite de Jerusalém. Havia uma espécie de consórcio entre os diversos grupos hegemônicos – sacerdotes, anciãos, herodianos, saduceus, fariseus, escribas – com o objetivo de colocar Jesus em situações constrangedoras, até encontrar motivos para condená-lo, seja por subversão política, seja por transgressão religiosa. Havia até rivalidades entre alguns desses grupos, mas tendo Jesus como inimigo comum, eles se uniam por conveniência, no intuito de derrotá-lo, como se viu no domingo passado, com o acordo entre os fariseus e herodianos. Os grupos se alternavam no confronto: quando um deles ficava sem argumentos, outro entrava em cena com uma questão ainda mais embaraçante. Os primeiros grupos a confrontá-lo diretamente foram os sacerdotes e anciãos, questionando com que autoridade Jesus ensinava no templo (Mt 21,23-27). A esses, Jesus respondeu com uma série de três parábolas (Mt 21,28–22,14), deixando-os sem argumentos, pelo menos momentaneamente. Em seguida, entraram em cena os fariseus e os herodianos, questionando a legitimidade do pagamento do imposto romano (Mt 22,15-22), a quem Jesus também deixou sem palavras. Depois, entraram em cena os saduceus perguntando sobre a ressurreição, com a estranha parábola da mulher que ficou viúva sete vezes, cujos maridos eram todos irmãos (Mt 22,23-33); também a eles, Jesus deixou calados. À exceção da disputa com os saduceus, todas as demais foram lidas na liturgia dos últimos domingos.

O texto lido hoje mostra uma nova investida dos fariseus, o grupo mais preparado em relação ao conhecimento da doutrina e da Lei. Inclusive, a maioria dos mestres da Lei pertenciam ao grupo dos fariseus. Como a questão tratada no evangelho de hoje refere-se à Lei, e o principal interlocutor de Jesus é um fariseu mestre da Lei, tudo aponta para um embate bastante acirrado. No entanto, a disputa é resolvida rapidamente, devido à prontidão e coerência de Jesus em sua resposta. Eis o início do texto: «Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo» (v. 34). As primeiras palavras do texto já denunciam o complô: os grupos agiam em comum acordo, de modo que se um deles falhasse, o outro já estaria pronto para agir, mostrando que havia um verdadeiro cerco a Jesus. Ele tinha feito calar os saduceus na disputa sobre a ressurreição (Mt 22,23-33), um episódio saltado pela liturgia dominical. Diante disso, os fariseus perceberam que estava ficando cada vez mais difícil vencê-lo com argumentos, por isso se prepararam melhor dessa vez, reunindo-se em grupo para traçar uma melhor estratégia, provavelmente para elaborar uma pergunta mais difícil e escolher o mais capacitado entre eles para perguntar. O fato de provocar uma reunião entre eles demonstra o quanto Jesus tinha se tornado perigoso para eles, devido à sua mensagem libertadora e humanizante.

E a intenção da reunião dos fariseus é logo denunciada pelo evangelista, ao informar o objetivo da pergunta: «e um deles – um mestre da Lei – perguntou a Jesus, para experimentá-lo» (v. 35). A tradução litúrgica omite a especificação “mestre da Lei” ou “legista” (em grego: νομικὸς - nomikós), mas é importante recordar, pois demonstra a relevância da pergunta e a intenção do grupo que queria emparedar Jesus. Não é qualquer fariseu que faz a pergunta, mas um especialista, alguém muito preparado, tendo em vista que nas questões anteriores Jesus tinha deixado seus interlocutores sem palavras. E a intenção da pergunta é muito clara: colocar Jesus à prova, ou seja, tentá-lo. Embora a tradução litúrgica empregue o verbo experimentar, o que melhor corresponde à língua original do texto é tentar. Inclusive, é o mesmo verbo empregado no episódio das tentações para descrever a ação de satanás (em grego: πειράζω – peirázo) no início da vida pública de Jesus (Mt 4,1). Com isso, o evangelista recorda que, do início ao fim, a vida de Jesus foi marcada pela tentação, pelo confronto com os inimigos, opositores do Reino, sendo que na maioria das vezes são as próprias pessoas religiosas que assumem o papel de satanás; com efeito, às vezes, também são os próprios discípulos que cumprem o papel de tentador, como fez Pedro, a quem Jesus chegou a chamar explicitamente de satanás (Mt 16,23).

Escolhido a dedo pelo grupo, o fariseu mestre da Lei faz uma pergunta interessante, teologicamente, mas ao mesmo tempo maliciosa, tendo em vista as intenções de tentar Jesus. Eis a pergunta: «Mestre, qual é o maior mandamento da lei?» (v. 36). A falsidade deles, pois aquele que interroga o faz em nome do grupo, já é perceptível pela introdução da pergunta: ele chama Jesus de mestre (em grego: διδάσκαλος – didáskalos) sem reconhecê-lo como tal. De fato, Jesus era mestre, mas seus opositores não o reconheciam como tal; pelo contrário, para eles Jesus não passava de um perigoso charlatão. A especialidade dos fariseus, sobretudo dos que se especializavam, era exatamente o estudo minucioso da Lei e dos mandamentos. Com essa pergunta, portanto, eles não pretendiam aprender algo novo, mas fazer Jesus cair em contradição até ser acusado de blasfemo e transgressor da Lei. Nas escolas rabínicas, essa pergunta era muito frequente e gerava grandes debates. Isso porque os rabinos tinham elaborado um catálogo com 613 mandamentos, encontrados na Torá, divididos entre 365 proibições, correspondentes à quantidade de dias do ano, e 248 obrigações, que correspondiam ao número de partes do corpo humano, conforme a mentalidade semítica vigente. Diante de um número tão alto, sendo difícil até a memorização, surgiam muitas perguntas a respeito. Ora, não sendo possível observar todos, quais seriam os essenciais? Sobre isso, havia uma diversidade de posições: entre os fariseus, predominava a ideia do sábado como o maior mandamento, com a alegação de que até Deus observava esse mandamento (Gn 2,2-3; Ex 20,8-11; Dt 5,12-15). Inclusive, já tinham entrado em conflito com Jesus, ainda no seu ministério na Galileia, acusando-o de relativizar o sábado (Mt 12,1-13). Outros grupos consideravam que o essencial era a observação minuciosa de todo o decálogo (Ex 19,3-17; Dt 5,6-21). E outros, ainda, defendiam a igualdade entre todos os mandamentos, uma vez que todos tinham a mesma origem divina.

Como se sabe, desde o início da sua vida pública, Jesus tinha demonstrado muita liberdade ao interpretar os mandamentos e toda a Lei, colocando sempre o bem da pessoa e da criação acima de qualquer preceito. E isso tinha comprometido a sua reputação no ambiente religioso da época. Por isso, os fariseus imaginavam que com essa pergunta teriam argumentos para deixá-lo em situação difícil, uma vez que Jesus já tinha fama de relativizar a Lei e até de transgredi-la. Mas, como sempre, em vez de ser incompleta, a resposta de Jesus vai muito além do que lhe fora perguntado, como se vê: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento!» (v. 37). Jesus encontra uma resposta que transcende o decálogo, ao mesmo tempo em que o sintetiza. Essa resposta encontra seu fundamento justamente no credo de Israel, o “Shemá”, que os fariseus tão bem conheciam: «Escuta, ó Israel: O senhor é nosso Deus e único Senhor! Por isso, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força» (Dt 6,4-5). Com pequenas modificações, Jesus confirma que o ser humano deve amar a Deus com o máximo de si. Como ele mesmo diz, «esse é o maior e o primeiro mandamento» (v. 38), qualificando-o com dois adjetivos de valor absoluto: maior (em grego: μεγάλη – megále) e primeiro (em grego: πρώτος – protos), significando aquilo que é essencial e irrenunciável. Porém, a resposta de Jesus não visa uma hierarquização dos mandamentos, mas uma denúncia: enquanto os fariseus buscavam classificar os mandamentos, Jesus diz que basta viver a genuína fé israelita, da qual eles se achavam os primeiros guardiões. O “Shemá”, enquanto credo de Israel, era proclamado duas vezes ao dia pelos fariseus, ao amanhecer e ao anoitecer, mas na verdade eles não viviam aquilo que proclamavam. Se vivessem em comunhão com Deus, não ficariam presos a preceitos e nem teriam Jesus como inimigo.

E Jesus continua sua resposta, demonstrando, como sempre, que vai além daquilo que lhe fora perguntado: «o segundo é semelhante a esse: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”» (v. 39). Ora, ninguém perguntou a Jesus qual era o segundo maior mandamento. Mas ele prossegue com a resposta para desmascarar os fariseus e esclarecer ainda mais a essência da sua mensagem, ensinando como deve ser a autêntica relação com Deus. Aqui, ele cita o livro do Levítico (Lv 19,18b). É importante perceber a introdução: “é semelhante”, quer dizer, é equivalente, está no mesmo nível. Para Jesus, o amor a Deus não pode ser separado do amor às pessoas; aqui está a singularidade e a novidade do seu ensinamento. É evidente que ele não inventa esse segundo mandamento, pois já estava na Lei. Mas ninguém antes dele tinha ousado considerar o amor ao próximo no mesmo nível do amor a Deus. Inclusive, o conceito de próximo na Lei era restrito ao compatriota, o membro do mesmo povo, embora as leis de Israel protegessem o estrangeiro melhor do que as leis de qualquer outra nação antiga. E Jesus já tinha ensinado que até aos inimigos se deve amar (Mt 5,44). Portanto, é inegável a novidade do seu ensinamento.

Enquanto os fariseus procuravam classificar os mandamentos, focando em minuciosidades, Jesus toma o todo da Lei e dos profetas e faz a sua própria síntese, conforme relata o evangelista, na conclusão: «Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos» (v. 40). Aqui, faz-se necessário mais um esclarecimento de nível semântico: o verbo traduzido por depender possui um significado ainda mais intenso. Literalmente, significa pendurar/tornar suspenso (em grego: κρέμαται – krematai). Inclusive, é o mesmo verbo empregado por Lucas, no discurso de Pedro na casa de Cornélio, ao afirmar que Jesus foi «pendurado/suspenso no madeiro» (At 10,39). Isso quer dizer que toda a Lei e os profetas estão pendurados no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo. Uma vez separados esses dois mandamentos, toda a Lei e os profetas desmoronam, caem por terra, ou seja, perdem o sentido. É na síntese desses dois mandamentos que a Lei e os profetas se apoiam e podem constituir regra de vida com sentido, não apenas para o povo judeu, mas para a humanidade inteira, em todos os tempos. Ora, os fariseus queriam distinguir preceitos, e Jesus mostrou a unidade e coerência da Lei e dos profetas. Sem essa visão de conjunto, a religião excluía e até matava. Ao mostrar que o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo, Jesus prega a unidade, coesão e coerência na comunidade. É provável que a conclusão da resposta também tenha sido ainda mais chocante para os fariseus, ao colocar os profetas no mesmo nível da Lei, no conjunto das Escrituras. Ora, por mais que os profetas fossem estimados pelos fariseus, para eles o valor da Lei era absoluto, incomparável a qualquer outro conjunto de livros sagrados. E Jesus os iguala, coloca-os no mesmo nível.

Jesus dá um passo muito importante com a sua resposta, o que já era referendado pelo seu jeito de viver. A sua vida foi toda marcada pelo amor intenso ao Pai e pelo amor concreto ao próximo, cuja demonstração fora mais visível na sua relação com as pessoas marginalizadas e excluídas da época, sobretudo pela religião. Por isso, respondeu de modo tão enfático, sobretudo no que diz respeito ao próximo: o ser humano é colocado em uma tríade, cujo centro é o próximo, conforme a ordem da resposta: Deus – Próximo – Eu. Essa relação tríade deve ser guiada por um amor semelhante, para ser verdadeiro. Com isso, Jesus deixa claro que só há uma maneira de demonstrar que amamos a Deus e a nós mesmos: quando o próximo ocupa o centro da nossa vida. O próximo é, portanto, o critério do amor a Deus e a si mesmo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN 

sexta-feira, outubro 16, 2026

REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,15-21 (ANO A)

 


O evangelho lido na liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua ambientado em Jerusalém, mais precisamente nas dependências do templo, onde Jesus viveu a fase mais tensa e intensa do seu ministério. Na verdade, até a conclusão do ano litúrgico, que já se aproxima, o evangelho será tirado desse contexto. O texto lido hoje – 22,15-21 – abre uma série de controvérsias ou disputas dos fariseus com Jesus. Trata-se da disputa sobre a legitimidade do imposto a César, um episódio que consta também em Marcos e Lucas (Mc 12,13-17; Lc 20,20-26), embora a versão de Mateus possua mais particularidades. Os fariseus já tinham sido os principais opositores de Jesus na Galileia, desde o início do seu ministério, e continuam atuando também em Jerusalém, juntando-se a outros grupos que fazem complô, até à aliança final com os romanos que terá a morte de cruz como desfecho. Esses grupos – fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos, herodianos – se alternavam nas tentativas de emparedar Jesus e silenciá-lo, até forjarem sua condenação. Enquanto nos últimos três domingos o confronto direto se deu com os sacerdotes e anciãos, que saem de cena momentaneamente, outros personagens entram em evidência; nesse caso, são os fariseus, mas sempre com os mesmos propósitos de questionar e deslegitimar a autoridade de Jesus para ensinar e agir de maneira tão livre, humanizante e libertadora.

Os questionamentos dos sacerdotes e anciãos tinham um viés mais político, pois viam o ensinamento de Jesus como uma ameaça ao poder que exerciam. Já as questões levantadas pelos fariseus são mais relacionadas à doutrina propriamente, sobretudo em relação à interpretação da Lei, embora o caso retratado no texto de hoje possua também uma acentuada dimensão política. Como sabemos, logo ao entrar na cidade de Jerusalém, Jesus fez uma grande denúncia contra a situação em que se encontrava o templo: uma casa de oração transformada em covil de ladrões (Mt 21,12-17), estendendo essa denúncia especialmente à casta sacerdotal e aos anciãos do povo, que mantinham a religião como instrumento de exploração e dominação. A primeira seção dessa denúncia foi ilustrada por três ricas parábolas, lidas na liturgia dos últimos três domingos: a) O pai, os dois filhos e a vinha – Mt 21,28-32; b) Os vinhateiros homicidas – Mt 21,33-43; c) A festa de casamento do filho do rei – Mt 22,1-14. Com essa série de parábolas, Jesus denunciou a ilegitimidade do poder exercido pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém, ao mesmo tempo em que afirmava sua condição de Messias e único autorizado a falar e agir em nome de Deus, o seu Pai. Ao desmascarar o sistema religioso vigente, Jesus deixava claro o seu projeto de restituir ao Pai aquilo que o poder político-religioso tinha roubado: o ser humano e sua dignidade em todas as dimensões. Para isso, ele propõe o Reino de Deus como única alternativa e realidade que possibilita ao ser humano viver em plenitude e abundância de vida.

A proposta de Jesus soava absurda para a elite de Jerusalém, de modo que quanto mais ele falava, mais essa elite se organizava para pôr fim à sua vida. Como as três parábolas recordadas deixaram os chefes – sacerdotes e anciãos – sem palavras, novos grupos entram em cena com o mesmo propósito: provocar em Jesus uma autocondenação, armando-lhe ciladas. Dessa vez, foram os fariseus que armaram a cilada, como atesta o texto: «Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra» (v. 15). O plano consistia em colocar Jesus em situação constrangedora e, assim, acusá-lo publicamente. Queriam eles que o próprio Jesus entrasse em contradição e fosse desmoralizado, dando motivo para ser acusado, seja no âmbito religioso, seja no campo político. Por isso, procuram aliados para a execução do plano: «Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes» (v. 16a). A existência de discípulos dos fariseus revela o quanto o movimento era organizado, inclusive com escolas de formação para rabinos. Esse dado é exclusivo de Mateus; nos outros dois sinóticos fala-se apenas dos fariseus junto com os partidários de Herodes, sem referência à categoria de “discípulos” dos fariseus. O dado reflete a situação da comunidade de Mateus, na época da redação do seu Evangelho, em meados dos anos oitenta, quando havia uma forte polarização entre as escolas rabínicas e o movimento dos discípulos de Jesus.

O que mais chama a atenção, no entanto, é a aliança dos fariseus com os partidários de Herodes, pois eram grupos rivais, considerados até inimigos. O acordo dos dois grupos ou movimentos mostra que a conveniência leva adversários a se unirem quando há um inimigo comum. Os herodianos, como eram chamados os membros do partido de Herodes, constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como uma abominação, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que restaurasse o antigo reino davídico-salomônico, para libertar Israel da dominação romana. Com efeito, eles não suportavam a presença dos romanos em seu meio, mas, mesmo assim, pagavam convenientemente todos os impostos exigidos por Roma para evitar o rótulo de rebeldes e subversivos, como os zelotas, por exemplo, um movimento que promovia até a luta armada para combater a dominação estrangeira. Portanto, apesar de contrários à dominação romana, os fariseus não apresentavam nenhum tipo de resistência, pois queriam manter a aparência de bons cidadãos. O jogo de conveniência entre fariseus e herodianos é imagem do plano futuro que levará Jesus à morte; significa a religião e o império unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado para os dois, como foi Jesus de Nazaré.

Como o plano era apanhar Jesus pela palavra, eis a investida deles: «Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências» (v. 16). Todas estas palavras elogiosas faziam parte do plano. São palavras que demonstram respeito, admiração e conhecimento da pessoa de Jesus, mas são pronunciadas ironicamente por pessoas falsas e mal-intencionadas. Se, de fato, reconhecessem Jesus como mestre, não estariam armando-lhe ciladas. Pelo contrário, aceitariam sua mensagem libertadora e sua proposta de vida. Com efeito, essa descrição correspondia mesmo à identidade humana de Jesus, pois ele era realmente um homem sincero, autêntico e verdadeiro, que não julgava pelas aparências. Inclusive, é o maior elogio que Jesus recebe no Evangelho de Mateus. Nem mesmo seus discípulos jamais lhe dirigiram palavras assim. Contudo, era um elogio falso, pois não correspondia ao que eles – os fariseus, sobretudo – pensavam de Jesus. Na verdade, o falso elogio não passava de um pretexto ou um passo a mais para chegarem ao golpe final, com a pergunta tendenciosa e maliciosa: «Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a César?» (v. 17). Era aqui que eles queriam chegar, imaginando estar colocando Jesus em um beco sem saída. E, realmente, a situação era desfavorável para Jesus, pois ele deveria opinar sobre um dos temas mais delicados da vida cotidiana do povo judeu da época.

Na verdade, a questão do imposto é uma questão difícil de lidar em todas as épocas. Já foi motivo de muitas guerras e rebeliões ao longo da história, sobretudo na antiguidade, inclusive em Israel. Por isso, os cobradores de impostos eram pessoas tão odiadas naquele tempo, como retratam os evangelhos. Poucos anos antes da atuação de Jesus, houve uma revolta na Galileia contra Roma, liderada por Judas, o Galileu, cuja motivação foi o aumento dos impostos. Dessa revolta, nasceu o movimento dos zelotas, que pregava a luta armada contra a dominação romana. Com a pergunta sobre o imposto, portanto, os adversários de Jesus imaginavam deixá-lo sem possibilidade de saída. Se respondesse que é lícito pagar imposto a César, Jesus estaria agradando aos herodianos e, consequentemente, sendo conivente com a dominação romana e seu sistema de exploração. Ao mesmo tempo, estaria ganhando a antipatia das multidões que até pouco tempo lhe tinham aclamado na entrada de Jerusalém (Mt 21,1-11), passando a ser considerado um traidor do seu povo. Além disso, estaria reconhecendo o senhorio de César, ou seja, do imperador romano. Se respondesse que não é lícito pagar o imposto, agradaria às multidões, ao povo simples que o acompanhava e, ao mesmo tempo, anteciparia a sua condenação como um rebelde e subversivo político. Com efeito, recusar pagar o imposto significava declarar guerra ao sistema dominante. O que seus adversários queriam era um motivo para condená-lo a partir da sua resposta: respondendo sim, seria condenado pelo povo e pela religião como traidor; respondendo não, seria preso e condenado imediatamente pelo império, por subversão. A pergunta, portanto, refletia um plano que parecia perfeito para deixá-lo sem saída.

Exatamente por ser verdadeiro e não julgar pelas aparências (v. 16), Jesus não caiu na armadilha dos seus adversários, e logo os repreendeu, desmascarando-os completamente: «Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?”» (v. 18). Como se vê aqui, o evangelista emprega duas palavras duras para caracterizar os adversários de Jesus, mediante o narrador e o próprio Jesus: maldade (em grego: πονηρία – poneria) e hipócritas (em grego: ὑποκριταί – hipocritai). Isso quer dizer que os fariseus e os herodianos, juntamente com os adversários da controvérsia anterior, eram pessoas más, falsas, dissimuladas, mascaradas e, por isso, não mereciam nenhuma credibilidade. Estavam agindo por conveniência para encontrar uma maneira de eliminar Jesus, esperando que ele mesmo pronunciasse palavras que servissem de prova para a sua condenação. Mas, como já tinha acontecido em outras ocasiões, Jesus se sobressai de uma situação desconfortável e termina deixando seus adversários em apuros: «“Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda» (v. 19). A moeda em questão era de um denário (em grego: δηνάριον – denárion). Trata-se da moeda mais comum em circulação no vasto território do império romano, cujo valor era equivalente a um dia de trabalho braçal, o que era suficiente para o sustento de uma família por um dia. Convém recordar que, diante de questões delicadas, Jesus nunca dava respostas simples como um “sim” ou um “não”, como queriam seus interlocutores, mas provocava uma reflexão mais profunda, como tinha feito pouco tempo antes com os sumos sacerdotes, contando-lhes três parábolas que denunciavam a conduta deles, ao invés de responder diretamente ao questionamento sobre a sua autoridade. Tanto naquela ocasião como nessa retratada no evangelho de hoje, o que os seus interlocutores queriam era uma resposta simples, como um sim ou um não.

Como estavam na área interna do templo, espaço considerado sagrado, não era permitido circular ali com a moeda romana. Por isso, havia as bancas de câmbio de moeda na entrada do templo. Jesus começa a desmascará-los daí, e eles, que tinham armado a cilada, são agora os que caem pois na moeda romana havia a figura e os títulos do imperador com o seu reconhecimento divino inscritos: “Tibério César, Augusto filho do divino Augusto”, em um lado, e “Pontífice Máximo” no outro lado. Logo, tanto a figura quanto a inscrição gravada na moeda eram consideradas objetos de idolatria, pois transgrediam o primeiro mandamento do decálogo (Ex 20,4), conforme a interpretação rígida dos fariseus, os mais fiéis observadores da Lei. Jesus, ao ver a moeda, perguntou-lhes: «De quem é a figura e a inscrição desta moeda?» (v. 20). Eles não tinham outra resposta senão admitir: «De césar» (v. 21a). Ora, os mesmos que demonstravam observar a Lei com tanta fidelidade eram os primeiros a transgredi-la, pois a moeda era uma forma de propaganda do império e da pessoa do imperador como ser divino e absoluto. Certamente, os adversários ficaram desconcertados, talvez até arrependidos da pergunta, uma vez que a armadilha tinha falhado. Como a pergunta tinha sido se era lícito ou não pagar o imposto, a resposta de Jesus vai muito além disso. Se seus adversários carregavam a imagem de César, participavam da sua dominação, eram adeptos do sistema. Logo, não havia motivo para questionar se era lícito ou não o imposto, pois eles já estavam a serviço de César. Aqui, César não é apenas um nome próprio, mas um título. É o símbolo do poder e da dominação romana.

Ao longo de seu ministério, Jesus já tinha manifestado sua posição frente ao império romano e a todo sistema injusto de poder, como a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. O embate anterior com os sumos sacerdotes demonstra isso. Sua resposta a tudo isso foi a proposta do Reino de Deus. Ele já tinha rejeitado a política falsa da “pax romana” logo no início de seu ministério, com a proclamação das bem-aventuranças, e na continuação do discurso da montanha tinha desmascarado a prática religiosa dos fariseus, ensinando o jeito certo de relacionar-se com Deus (Mt 5–7). Agora, deixa ainda mais claro o seu posicionamento com a sua resposta: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (v. 21). A tradução do lecionário se equivoca ao empregar o verbo dar; na verdade, o verbo empregado na língua original do texto corresponde a restituir ou devolver (em grego: ἀποδίδωμι – apodídomi), uma vez que a César nada deve ser dado, mas apenas devolvido, tendo em vista que nada dele é bom e, por isso, ninguém deve reter para si o que é dele. A resposta de Jesus parece complexa, à primeira vista, e fácil de ser distorcida, como foi por muito tempo e continua sendo.

Ora, com essa clássica afirmação, que na verdade é um imperativo, Jesus não estabeleceu duas esferas de poder, uma temporal e outra espiritual, nem traçou a harmonia das relações entre estado e igreja, como frequentemente se tem interpretado. A ordem para devolver a César o que lhe pertence consiste em abandonar tudo o que não condiz com o Reino. Nesse sentido, o imposto passa a ser apenas um aspecto de uma realidade muito mais ampla e complexa. É necessário deixar de compactuar com a lógica imperial de um modo geral. Isso exige uma consciência nova e uma atitude constante de vigilância. É necessário construir uma nova sociedade a partir de uma perspectiva e de uma lógica diferentes, substituindo o poder pelo serviço, com uma nova justiça baseada no amor. Devolver a César o que é dele exige um esforço da comunidade, a começar por uma autocrítica. Muitas lideranças religiosas parecem combater o poder de César para assumir o seu lugar. Essa mentalidade estava presente em alguns dos primeiros discípulos, na comunidade de Mateus e tem estado em muitos momentos da história do cristianismo.

Devolver a Deus o que lhe pertence é restituir o ser humano, imagem única de Deus, à sua dignidade originária, incluindo o cuidado com a criação inteira. A religião do templo de Jerusalém e o império romano tinham roubado o que Deus fez de melhor, que é o ser humano, transformando-o em produto, em mera mercadoria, pela combinação dos poderes político, econômico e religioso. A mercantilização do ser humano fere e nega a sua dignidade. Esse foi um problema observado pelos profetas desde os tempos de Amós, o qual denunciou que o ser humano tinha se tornado um produto comprado ou vendido por um par de sandálias (Am 2,6; 8,6). Esse ser humano que tem a imagem de Deus tem de ser, de novo, humanizado e devolvido a Deus, conforme o projeto originário da criação. A moeda com a figura de César, por sua vez, seja restituída a César, juntamente com toda a lógica perversa do império, da qual a religião do templo de Jerusalém era cúmplice, seja por imposição, seja por conveniência.

A opção pelo Reino apresentada por Jesus torna-se cada vez mais exigente, à medida que a sua vida vai sendo ameaçada. Longe de ser uma via conciliatória entre duas realidades, a frase imperativa de Jesus é um convite à reflexão e à tomada de posição. A comunidade cristã deve se posicionar diante dos acontecimentos, eliminando de suas bases e estruturas tudo o que não pertence à lógica do Reino, ou seja, o que não é de Deus. Se Jesus tivesse buscado conciliação entre o projeto de César e o de Deus, certamente não teria morrido na cruz.

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, outubro 09, 2026

REFLEXÃO PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,1-14 (ANO A)

 


A liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum propõe, para o evangelho, a leitura da parábola da festa de casamento do filho do rei – Mt 22,1-14. Com ela, conclui-se a série de três parábolas contadas por Jesus em seu primeiro confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Jerusalém. O contexto, portanto, é o mesmo dos dois últimos domingos: Jesus se encontrava em Jerusalém, vivendo a última etapa de seu ministério e, enquanto estava ensinando no templo, foi questionado pelos sacerdotes e anciãos a respeito da sua autoridade para ensinar e agir da maneira como agia (Mt 21,23-27). Em sua resposta, Jesus contou três parábolas sobre o Reino de Deus (ou dos Céus, como prefere chamar Mateus), sendo a de hoje a terceira, que é a mais interpelante de todas. Ao responder aos seus interlocutores, mais do que provar a sua autoridade, pois ele não tinha necessidade disso, Jesus queria mesmo era denunciar a hipocrisia e ilegitimidade com que os chefes de Israel exerciam o poder. O evangelista recorda isso como advertência para as comunidades do seu tempo e do futuro não reproduzirem o modelo de religião que Jesus contestou.

Como a contextualização já foi bastante enfatizada nos dois últimos domingos, não é necessário repeti-la minuciosamente hoje. Contudo, é importante recordar que a parábola lida hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a do pai e os dois filhos (Mt 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43). Nelas, o ambiente retratado, ao qual o Reino era comparado, pertencia ao mundo agrícola. Na de hoje, o Reino dos Céus é comparado a um banquete, mais precisamente a uma festa de casamento do filho de um rei. Portanto, retrata um ambiente urbano. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito, com mais poder de impacto para a cultura semita, a imagem de um banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas, embora o casamento em si seja uma imagem muito empregada para representar a relação entre Deus e Israel ao longo de toda a Bíblia. Convém recordar, ainda, que essa parábola se encontra também no Evangelho de Lucas, embora localizada num contexto diferente e com significativas diferenças internas (Lc 14,15-24).

O primeiro versículo nos insere diretamente no contexto e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso, ao afirmar que «Jesus voltou a falar em parábolas» (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme o contexto narrativo do Evangelho e a língua original do texto – o grego – a tradução mais adequada para essa expressão introdutória seria “Jesus continuou falando em parábolas”. Os destinatários principais são os mesmos das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém, e não houve interrupção entre a parábola anterior e a de hoje que conclui a sequência. Obviamente, havia um auditório maior ouvindo Jesus, certamente uma multidão, pois já era a semana da Páscoa e a cidade de Jerusalém estava repleta de peregrinos, além dos discípulos que acompanhavam Jesus desde a Galileia. A propósito do auditório, deve-se recordar sempre que, independentemente de quem sejam os interlocutores diretos de Jesus no contexto narrativo, neste caso os sacerdotes e anciãos, os destinatários primeiros do ensinamento são sempre os discípulos e discípulas de todos os tempos. À medida que continua falando em parábolas, Jesus provoca ainda mais os seus adversários, devido ao aspecto enigmático que as parábolas possuem, deixando-os pensativos.

Eis, então, a parábola: «O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho» (v. 2). Trata-se de uma imagem impactante para o imaginário semita, embora não chegue a ser novidade na linguagem bíblica, pois os profetas já tinham anunciado a consumação dos tempos messiânicos com a imagem do banquete (Is 25,6-10). Trata-se de uma imagem que evoca amor, alegria, fraternidade, paz e felicidade perene. Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa comum a todos os povos e culturas, embora com mais impacto no imaginário semita. Com efeito, a festa por excelência, na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições econômicas dos noivos. No caso da parábola, sendo o casamento do filho de um rei, a duração seria bem maior, assim como a comida e a bebida seriam abundantes e da melhor qualidade possível. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, algumas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.

A festa em si é sinônimo de alegria e fartura, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento lembra, antes de tudo, o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias ou mais, lembra a perenidade: um tempo completo e perfeito, que transmite uma ideia de eternidade. De fato, pelo costume de durar uma semana ou mais, as festas de casamento eram tidas como festas sem fim, tamanha a grandeza e o cuidado com que eram preparadas. Por isso, a festa de casamento, literalmente bodas – em grego: γάμος = gamos – era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. Com efeito, as pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exibir roupas, adornos e exagerar na alegria, inclusive na bebida (Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, em vez de uma reunião litúrgica, como uma vigília ou uma procissão.

Além de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira lição sobre a história da salvação aos seus interlocutores, considerando o significado da imagem e o próprio enredo da parábola. Diz ele que o rei «mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir» (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos, sendo até rechaçados. O povo de Israel, portanto, é representado na parábola pelos primeiros convidados, e suas lideranças são responsáveis pela não aceitação do convite. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel, sob a liderança de seus chefes, aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Mas, como Deus não desiste do seu povo nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 5-6). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre a não repetirem o mesmo.

Diante da recusa dos convidados, que agiram não apenas com indiferença, mas também com violência, chegando a matar os empregados que saíram para convidá-los (v. 6), o rei toma uma decisão drástica: «O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles» (v. 7). Esse versículo tem gerado muitas discussões entre os estudiosos. Certamente, é um acréscimo da comunidade de Mateus, pois não consta na versão desta parábola do Evangelho de Lucas. Alguns veem aqui uma alusão à destruição da cidade de Jerusalém e do seu templo pelos romanos, no início dos anos 70 d.C., um fato já consumado na época da redação do Evangelho de Mateus, escrito já em meados dos anos 80 d.C. De acordo com essa explicação, a destruição de Jerusalém teria sido um castigo a Israel por ter rejeitado o Messias. Contudo, o atual estágio da pesquisa já não admite tal hipótese, embora o conflito entre a comunidade cristã e a sinagoga estivesse muito aceso quando Mateus escreveu o seu Evangelho. Insistir com ela seria alimentar o antissemitismo. Os anúncios de castigo na linguagem bíblica funcionam como advertência. Aplicá-los a fatos históricos concretos não passa de oportunismo. A atitude do rei aqui descrita exprime sua indignação pela rejeição sofrida e, aplicada à comunidade, visa advertir os ouvintes/leitores de que a vida fora do banquete, ou seja, fora do Reino, é totalmente privada de sentido.

A parábola continua a sua sequência natural no versículo oitavo: «Em seguida, o rei disse aos empregados: “a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela”» (v. 8). A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento dos primeiros convidados – Israel – à não aceitação do convite, ou seja, à conversão. De fato, é notório, ao longo da história, o quanto a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas, como aquelas que estavam indignadas com o agir libertador de Jesus. A falta de dignidade dos convidados foi comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição dos primeiros convidados não muda os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira, ou seja, não leva o rei a desistir da festa. Ora, a imagem da festa de casamento expressa, de modo condensado, a totalidade dos bens messiânicos, com abundância de amor, alegria e fraternidade. É uma das melhores imagens aplicadas ao Reino, pois simboliza a vida plena. Por isso, o rei não desiste dela, assim como Deus não abre mão do seu projeto de Reino. Ser digno ou indigno de participar da festa é uma questão de aceitação dos valores do Reino, o que passa pela assimilação da mensagem dos profetas e de Jesus, para a comunidade cristã.

Tendo constatado a rejeição – indignidade – dos primeiros convidados, o rei toma uma decisão que corresponde à insistência de Deus e à perenidade de sua oferta de vida plena para toda a humanidade: «Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes» (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! O termo “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto significa literalmente a saída da cidade (em grego: διεξόδος – diecsódos). Portanto, faz parte do vocabulário do êxodo e evoca libertação. Era na saída da cidade que ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Quem não tinha acesso aos bens que a cidade oferecia, incluindo os serviços religiosos, ficava nas encruzilhadas. De fato, lá estavam as pessoas descartadas pela sociedade da época, mas destinatárias da libertação oferecida por Jesus, com sua mensagem humanizante. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens, para as periferias. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.

Com a ida dos emissários às encruzilhadas, finalmente, o convite tornou-se efetivo, quando foi endereçado a todos, sem distinção: a maus e bons. E o resultado foi este: «a sala ficou cheia de convidados» (v. 10c). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Maus e bons são convidados para o Reino. Porém, aceitar o convite-anúncio comporta exigências e compromissos da parte dos convidados. Considerando a trama da parábola, para a gente simples das encruzilhadas o convite para uma festa de casamento de um filho de rei não passava de um sonho muito distante, como foi a proximidade de Jesus com os pecadores, prostitutas, leprosos, crianças etc. Nunca um mestre tinha se misturado tanto com o povo simples quanto Jesus. Por isso, a parábola se torna metáfora do seu ministério inclusivo e próximo de todos. A sala cheia, portanto, é imagem de um mundo justo, fraterno e igual, como é o Reino de Deus.

Há espaço para todos no banquete do Reino, sobretudo depois de Jesus ter aberto as suas portas com sua mensagem e práxis humanizantes. Contudo, as pessoas são livres e podem se autoexcluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o «traje de festa» (v. 11), uma imagem importante, mas fácil de ser distorcida. Ora, caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. Através da percepção do rei, o evangelista chama a atenção da sua comunidade, fazendo uma advertência que serve para as comunidades de todos os tempos: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje de festa é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete e, portanto, dos membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças – síntese da justiça do Reino –, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus. Todas as pessoas são convidadas e podem entrar na sala de festa, mas só permanece quem se abre ao espírito das bem-aventuranças. É o “revestir-se” de Cristo, expressão que foi inserida nas fórmulas de batismo desde as primeiras comunidades cristãs (Rm 13,14; Gl 3,27).

A reação do rei ao convidado sem o traje de festa parece violenta (vv. 12-13), mas apenas reflete o uso do gênero literário apocalíptico, tão empregado na época entre os rabinos e utilizado também pelos pregadores cristãos das primeiras gerações. Equivale à destruição da cidade diante da rejeição dos primeiros convidados, como vimos anteriormente (v. 7). Não significa um castigo propriamente, mas, dentro da pedagogia divina, indica uma advertência. Visa evidenciar o perigo da autoexclusão do próprio convidado. A ausência do traje de festa é, portanto, a falta de abertura e disposição para “revestir-se” de Cristo, ou seja, é o fechamento ao espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). As bem-aventuranças são o caminho da felicidade e da realização plena. Quem as vive, permanece no banquete do Reino; quem não as vive, priva-se de viver plenamente feliz e realizado, e é isso o que a imagem tão forte indica: perder o sentido da vida. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida. Não se trata de uma descrição, mas de uma comparação, como é toda a parábola. Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é, portanto, privar-se da vida em plenitude.

O evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e põe em prática o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: «Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos» (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, lugar do início da concretização do Reino, há sérios riscos de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos são, indistintamente: bons e maus. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa de vida daquele que chama. Portanto, a expressão «poucos são os escolhidos» significa que nem todos escolhem participar e permanecer no banquete do Reino, porque nem todos têm a disposição de viver à maneira de Jesus. Com efeito, ir ao banquete, entrar na sala da festa não significa aptidão para participar. É necessário, antes de tudo, revestir-se de Jesus, sobretudo do seu amor.

Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para isso, as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas e fazer o convite com amor, alegria, diálogo e espírito de acolhimento. Ao oferecer o convite, a comunidade cristã deve proporcionar o revestimento de Cristo, anunciando com fidelidade e clareza o Evangelho que, longe de ser um código moralista, é um verdadeiro manifesto de humanização e libertação.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – Mt 5,1-12a

Neste ano, a liturgia do trigésimo primeiro domingo do comum é substituída pela solenidade de todos os santos, desta vez sem a necessidade...