quarta-feira, abril 01, 2026

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA, NA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15



Todos os anos, para a missa vespertina da Quinta-feira Santa, a liturgia propõe a leitura de Jo 13,1-15. Esse texto corresponde ao relato do lava-pés, um episódio exclusivo do Evangelho segundo João e, sem dúvidas, uma das passagens mais emblemáticas de todo o Novo Testamento. Trata-se de uma passagem altamente rica em significado teológico e arte narrativa, e tudo isso contribuiu bastante para a alta popularidade que possui. De fato, desde os primeiros séculos, esse texto tem marcado a história do cristianismo, inclusive, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um episódio profundamente comprometedor para os cristãos de todos os tempos, pois mostra que, no momento mais decisivo da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; a religião dos seguidores de Jesus, portanto, não pode ignorar esse fato. E tanto a localização quanto o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: conforme a divisão clássica do Quarto Evangelho em duas grandes partes – “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21) –, o relato do lava-pés inaugura o “Livro da Glória”, introduzindo a narrativa da paixão de Jesus.

A modo de introdução, apresentamos uma breve contextualização para, em seguida, voltarmos a atenção diretamente para o texto. A princípio, podemos dizer que chega a causar espanto a diferença entre a obra de João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mt, Mc e Lc), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica cinco capítulos inteiros: de 13 a 17, totalizando 155 versículos. Ao longo deste amplo material narrativo, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, em forma de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. É importante recordar que no Evangelho de João não há qualquer aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais evangelhos; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia feito em outra ocasião, precisamente após o sinal da “multiplicação dos pães” (6,1-15). Naquela ocasião, o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se autoapresentando como o “pão da vida” (6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal altamente relevante: «Antes da festa da Páscoa» (v. 1a). O evangelista não nega o contexto pascal no qual Jesus fez a ceia com seus discípulos pela última vez, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. Inclusive, desde muito cedo, o evangelista costumava referir-se à festa da Páscoa com a qualificação de “páscoa dos judeus” (2,13; 11,55), distanciando Jesus das instituições de Israel que tinham desfigurado o rosto de Deus. Agora, ele apresenta Jesus próximo da Páscoa, mas da sua própria Páscoa, tornando-a uma festa da vida, como sempre deveria ter sido. Por isso, Jesus celebra a Páscoa doando a sua própria vida, uma vez que é ele o verdadeiro Cordeiro de Deus, imolado por amor. A Páscoa de Jesus, portanto, não exige ofertas nem sacrifícios, não é instrumento de exploração como tinha se tornado o aparato ritual do templo. Celebrando sua Páscoa antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois da sua pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, já não tem mais sentido. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na Páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor. Nessa, não há morte, há vida, e vida doada por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova Páscoa, profundamente subversiva, por sinal. E é essa Páscoa que a comunidade cristã deve viver e celebrar sempre.

Ao longo de todo o seu Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à «hora de Jesus», anunciando que tudo o que Jesus fazia era preparação para esse momento, e sempre advertia o leitor que ainda não tinha chegado a hora (2,4; 7,30; 8,20; 12,23). De agora em diante, tanto o narrador quanto o próprio Jesus anunciam a chegada dessa hora. Mais do que um dado cronológico, a hora de Jesus é um indicativo teológico, por sinal, um dos mais significativos na obra de João. Essa hora é o cumprimento de todo o projeto de salvação oferecido por Deus, por meio de seu Filho, consumado na cruz e ressurreição. Finalmente, ele mostra que essa hora chegou: «sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai» (v. 1b). É a hora de Jesus retornar ao Pai, após cumprir plenamente sua missão de humanizar e salvar o mundo, por isso é também a consumação da constante glorificação do Pai que ele realizou, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, transformado em casa de comércio (Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço. A falta desse amor como motivação para o agir torna vazia qualquer prática cultual e devocional.

Continuando, diz o evangelista que «Estavam tomando a ceia» (v. 2a). A ceia para a mentalidade bíblica não representa apenas o consumo de alimentos e bebidas para matar a fome e a sede, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal. Com efeito, a ceia é o momento primordial da vivência do amor-comunhão; é o ápice da convivência humana sadia, fraterna. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; o rito é a própria vida, são tratadas as questões existenciais mais profundas da comunidade, por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da entrega de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos outros nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles «amados até o fim»; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante. O evangelista é enfático nesse sentido: «o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus» (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da entrega da parte de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam, já tinham feito várias tentativas de capturá-lo e até de apedrejá-lo; daquela Páscoa ele não passaria. O mal de Judas, portanto, foi ter sido aliado, se tornado cúmplice do poder que gera a morte e, ainda mais, por ter se deixado mover por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o «diabo seja posto em seu coração». O conluio com o poder é sempre um pacto diabólico. A história mostra que Judas não foi um caso isolado no cristianismo, infelizmente.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus é concretamente demonstrada quando ele «levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura» (v. 4). Certamente, foram grandes o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo explicitamente a condição de servo, de escravo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado e uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço deve sempre prevalecer sobre o rito. Em toda a sua vida, Jesus demonstrou que veio ao mundo para servir e, ao servir, ele glorificava o Pai, pois a motivação do seu serviço foi sempre o amor, e o Pai o enviou para espalhar amor sobre o mundo. Mas é nessa cena que o serviço amoroso se torna mais forte e até escandaloso, como será demonstrado pela reação de Pedro, mais adiante.

Tendo já deposto o manto e improvisado um avental, na sequência, o texto diz o que Jesus fez: «Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido» (v. 5). Assim como os leitores de hoje ainda ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais devem ter ficado os discípulos que estavam com Jesus à mesa. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica da época. Ora, lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, principalmente nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, as pessoas se sentavam em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era, acima de tudo, uma exigência básica de higiene.

Sendo uma necessidade básica, o lava-pés tornou-se um sinal de hospitalidade e acolhida, no antigo oriente. Ao receber uma visita, o dono da casa lhe oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés, junto ao copo d’água para beber. Nisso estava o grande sinal de hospitalidade, tão característico do antigo oriente, sobretudo nas culturas semitas. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: é o sujeito da ação o que causa perplexidade. No cotidiano, eram os escravos quem lavavam os pés dos membros da família e dos possíveis hóspedes. Em certas ocasiões, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa chegava a lavar os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia a dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores e as relações: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo – ou do discípulo. Com esse gesto, portanto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos seus discípulos, de outrora e de todos os tempos, que eles devem estar sempre dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia a dia, inclusive nas consideradas mais humilhantes, como lavar os pés uns dos outros.

É claro que houve reação dos discípulos diante da atitude tão revolucionária de Jesus. E o primeiro a protestar, como de costume, foi Simão Pedro: «Tu nunca me lavarás os pés» (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel” e um Messias glorioso, deve mesmo ter sido chocante, decepcionante, deparar-se com um que se faz escravo, servo de todos. Por isso, o espanto e o protesto de Pedro. Ora, o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também as possibilidades de resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes; essa mentalidade acaba naturalizando um mundo desigual, contrário aos desígnios de Deus. Jesus, com suas palavras e gestos, quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lavar os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: «Jesus respondeu: “Se eu não te lavar não terás parte comigo”» (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se tornar servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Sem essa disposição, não há possibilidade de se ter parte com ele! Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: «Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça» (v. 9). O exagero da resposta de Pedro revela a sua total incompreensão. Na verdade, com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta revolucionária de Jesus: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter de servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, Pedro estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com toda a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu ensinamento em forma de gesto: «Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo» (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Logo, para a mentalidade da época, sentar-se à mesa e, ao mesmo tempo, servir constituíam papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se à mesa, e quem sentava não deveria humilhar-se servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que se senta à mesa serve, e o que serve senta-se à mesa. O que era papel do escravo – lavar os pés – , é agora dever também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais exigentes, como dar a própria vida por amor. E Jesus realizou as duas coisas como prova que ele não media esforços para cumprir a sua missão e atender às necessidades das pessoas. Com o lava-pés, portanto, Jesus fez uma recapitulação de toda a sua existência neste mundo. Ele veio para servir e, por isso, viveu intensamente servindo.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos todos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos e dos sacerdotes do templo, que fossem eles, os discípulos do Messias, a controlar a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, cobrança de impostos, divisões de classe e uso da violência quando a “ordem” estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu entre os discípulos. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu próprio exemplo: «portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (vv. 14-15). Temos aqui a instituição do serviço como mandamento para a comunidade de Jesus.

A ordem para que os discípulos «façam a mesma coisa» em relação ao serviço, aqui no Quarto Evangelho, equivale ao «fazei isto em memória de mim» da tradição paulina/sinótica sobre a Eucaristia (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). «Fazer a mesma coisa» que fez Jesus, obviamente, não significa repetir o gesto de lavar os pés uns dos outros, o que já não é uma exigência sanitária dos dias atuais; significa a disponibilidade total para o serviço incondicional, motivado pelo amor, na comunidade cristã. A simples repetição do gesto seria transformá-lo em um rito a mais. O lava-pés que a comunidade deve fazer permanentemente é a vivência do amor fraterno que traz, como consequência, a disponibilidade para o serviço gratuito e sem distinção. Para isso, é necessário assimilar o estilo de vida de Jesus, com disposição para «amar até o fim», como ele fez. Sem isso, qualquer coisa que se faça em sua memória não passa de encenação.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, março 28, 2026

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – Mt 26,14–27,66 (ANO A)

 


Com a liturgia do Domingo de Ramos, a Igreja abre solenemente a Semana Santa, recordando a entrada decisiva de Jesus na cidade santa de Jerusalém e os últimos momentos da sua vida terrena, ao fazer memória da sua paixão e morte na cruz. Por isso, nesta celebração são lidas duas passagens do Evangelho, compreendidas como reciprocamente complementares. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, as duas passagens são tiradas do Evangelho de Mateus: 21,1-11 e 26,14–27,66. Apesar da considerável distância entre elas, ambas estão intrinsecamente relacionadas, tanto por afinidade quanto por contraste, afinal, aquele que morre na cruz, praticamente abandonado por todos, é o mesmo que foi euforicamente aclamado rei, ao entrar na cidade. Isso torna a liturgia deste domingo, como é a de toda a Semana Santa, altamente paradoxal. Por questão de espaço e relevância, concentraremos nossa reflexão apenas no relato da paixão, o qual é bastante longo, totalizando 128 versículos, embora as comunidades tenham a opção de escolher uma forma mais abreviada – Mt 27,11-54. Em nossa reflexão, consideraremos o texto completo, embora sua longa extensão não permita um comentário mais pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos colher o sentido global do texto, destacando alguns elementos específicos considerados mais relevantes, destacando alguns detalhes que pertencem exclusivamente ao relato de Mateus, partindo de uma ampla introdução contextualizadora.

Os relatos da paixão de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos Evangelhos. Foi a partir destes relatos que os Evangelhos surgiram enquanto livros. Um famoso teólogo alemão – Martin Kähler (1835-1912) – chegou a afirmar que «os Evangelhos são os relatos da paixão com ampla introdução». É claro que uma afirmação desse tipo possui exageros, mas ajuda a compreender e ilustrar a importância dos relatos da paixão no processo de formação dos Evangelhos e, sobretudo, no fortalecimento da fé das primeiras comunidades cristãs. Ora, como a catequese e a vida litúrgica das comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito, à medida em que as explicações iam-se tornando repetitivas e, consequentemente, insuficientes. Essas dúvidas se traduziam em perguntas como estas: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só pode ressuscitar quem antes passa pela morte. Diante disso, surgiu a necessidade de contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto das lideranças religiosas do judaísmo, a morte se tornava cada vez mais presente na vida das comunidades, não apenas enquanto tema, mas enquanto realidade e possibilidade concreta, pois o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passavam a ser sinal de perigo. Quando se fala do nome de Jesus, no contexto das primeiras comunidades, compreende-se todo o seu projeto de vida e libertação, ou seja, a sua mensagem. Diante disso, para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. E, para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e a sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso e, consequentemente, uma incômoda ameaça aos grupos privilegiados do seu tempo. Logo, seu desfecho final foi o rechaço por parte desses sistemas. Durante a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não priorizavam: o amor gratuito e incondicional ao próximo, a justiça, a gratuidade nas relações, o perdão ilimitado, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida aos excluídos e marginalizados, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação e nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estavam todas voltadas para o Pai do céu, tendo em vista a edificação do seu Reino na terra.

O relato é situado em Jerusalém, onde Jesus já se encontrava com seus discípulos para a celebração da Páscoa, a festa dos judeus por excelência. Ao entrar em Jerusalém, ele foi acolhido triunfantemente como o profeta de Nazaré da Galileia (Mt 21,1-11). Ali, desenvolveu o seu ministério por alguns dias em meio a tensões e conflitos com os comerciantes do templo (Mt 21,12-14) com os grupos e autoridades religiosas, especialmente os fariseus, saduceus, sacerdotes e escribas (Mt 21,23-27,45; 22,23-33; 23,13-36). Toda essa sequência de conflitos serviu como preparação para o confronto final, o que se tornava cada vez mais inevitável, devido à coragem de Jesus em não resistir, mas enfrentar às investidas sem hesitação. Foi, portanto, na cidade santa que Jesus foi condenado, o que não lhe surpreendera, pois ele mesmo já tinha alertado antes, em forma de lamento: «Jerusalém, Jerusalém, que matas profetas e apedrejas os que te são enviados» (Mt 23,37a). Sendo ele mais do que profeta, o enviado por excelência, seria inevitavelmente morto, caso se mantivesse fiel àquele que lhe enviou: o Pai. Inclusive, ele já tinha prevenido os seus discípulos com os três anúncios da paixão, que seria condenado e morto em Jerusalém, pelos sumos sacerdotes e escribas (Mt 16,21; 17,22-23; 20,17-19). Diante de tudo isso, ficava cada vez mais claro que a morte trágica de Jesus foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.

Ainda durante o seu ministério na Galiléia, houve muitos conflitos doutrinais com os fariseus e outros movimentos religiosos de então, inclusive, com seus próprios discípulos, sempre relutantes em compreender e aceitar sua mensagem e seu estilo de vida; mas é em Jerusalém que as disputas passam do campo doutrinal para a esfera do poder. A Páscoa, como sabemos, é a festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual se comia o cordeiro imolado, símbolo principal da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos, Jesus mesmo se apresenta como o cordeiro, doando a sua existência (Mt 26,26-30). Como um relato edificante para a comunidade, a narrativa da paixão serve de advertência e denúncia, não apenas às autoridades que executaram Jesus, mas também às incoerências internas da comunidade. Por isso, recordamos um dado bastante negativo que, certamente, levou a comunidade do evangelista a refletir e ponderar quando sofria perseguição, que é a dispersão e abandono dos discípulos no momento da sua prisão: «Então, todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram» (Mt 26,56). Os discípulos ficaram com medo e sentiram-se frustrados, ao perceber que o projeto de Jesus não correspondia às suas expectativas. São os mesmos que, no início do Evangelho, tinham deixado tudo para segui-lo: barco, família, redes e até coletoria de impostos (Mt 4,20.22; 9,9). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Isso constitui uma séria advertência à comunidade e, ao mesmo tempo, um consolo: deve haver resistência e força para não desistir, mas sendo composta de seres humanos, a comunidade será sempre passível de medos e incoerências.

O duplo julgamento de Jesus, um religioso e outro político, ou seja, diante do sinédrio (26,57-68) e de Pilatos (27,11-26), mostra a covardia e a hipocrisia da união das forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável. Aqui, é importante recordar um detalhe: como a comunidade de Mateus vivia mais tensões com o judaísmo do que qualquer outra, ele enfatiza mais a culpa do sinédrio do que a do poder romano. Um dado do texto que enfatiza isso é o fato de ser somente o seu evangelho a mencionar Pilatos lavando as mãos, querendo, com isso, isentar-se de culpa pela condenação de Jesus (27,24).

A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus (27,26.35). Em plena Páscoa, sua festa máxima, a religião oficial não hesita em ser conivente com a condenação de um inocente e justo. Os líderes religiosos, mais do que nunca, colocaram a Lei e a doutrina acima da vida, como muitos movimentos ditos cristãos continuam fazendo, assemelhando-se mais à religião que matou Jesus do que propriamente à religião que ele viveu. Não obstante tanto sofrimento, ele manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo a sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não abriu mão de suas convicções (27,46-48). Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido, por isso, perseverou, revelando ao mundo um amor ilimitado, fruto de sua íntima comunhão com o Pai.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz, ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade: «Ele era mesmo o mesmo Filho de Deus!» (27,54). Essa é uma das afirmações mais profundas do texto, do Evangelho e de todo o Novo Testamento. Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas daqueles que executaram a pena: o oficial e os soldados. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, puderam conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado. Morrendo como homem condenado e humilhado ao extremo, Jesus revela sua identidade divina.

O reconhecimento do oficial e dos soldados é mencionado logo após o evangelista dizer que «a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se abriram» (27,51). O rasgar-se do véu do santuário é um dado comum aos três sinóticos (Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 23,45); já o sucessivo terremoto, cuja descrição continua nos versículos seguintes (Mt 27,51-53), é exclusividade de Mateus. Esse dado simbólico significa a falência completa da religião e do sistema político que tinha acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo: somente os sacerdotes podiam ultrapassar a divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e pratica a Lei. A imagem do terremoto, exclusiva de Mateus, simboliza a instauração de uma nova ordem no mundo; significa a renovação completa da humanidade, compreendendo a destruição das antigas estruturas e o surgimento de um mundo novo, fundado no amor de Deus revelado por Jesus, fonte de libertação e humanização. Obviamente, a instauração do mundo novo, com uma nova ordem, implica a destruição do mundo antigo. Por isso, a imagem do terremoto é tão frequente na linguagem apocalíptica; evoca destruição, sim, mas comporta muita esperança, pois tudo o que é destruído dá lugar a realidades novas, com um mundo renovado e humanizado pelo amor.

Não poderia passar despercebida a presença das mulheres, uma das categorias sociais que recebeu mais atenção de Jesus ao longo de todo o seu ministério. Elas são apresentadas neste relato como as testemunhas mais fiéis e perseverantes (27,55-56). Por causa disso, serão também as primeiras testemunhas da ressurreição. O exemplo das mulheres contrasta completamente com o exemplo dos discípulos homens: eles abandonaram Jesus e fugiram logo após a prisão (26,56). Por sinal, os últimos discípulos homens mencionados neste relato, até aqui, foram Pedro e Judas, mas como contraexemplo: Pedro pelas negações, saiu de cena chorando (26,69-75); Judas, pelo remorso da traição, terminou se enforcando (26,3-5). As mulheres, que também eram discípulas, com igual dignidade, perseveraram até o fim. É importante ressaltar a condição de discípulas: desde a Galiléia, elas seguiam Jesus (27,55). A presença perseverante delas na paixão é mencionada em todos os evangelhos, mas, entre os sinóticos, Mateus é único evangelista que recorda algumas delas por nome, dentre elas Maria Madalena. Recordar pelo nome é sinal de importância, quer dizer que elas não eram meras figurantes no discipulado de Jesus, mas eram protagonistas também. Os nomes das que foram recordadas simbolizam a totalidade delas, de ontem e de hoje. A presença das mulheres na paixão indica perseverança, fidelidade e também reconhecimento por tudo o que Jesus tinha feito por elas. Ora, até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovendo a emancipação delas e as aceitado como discípulas em seu movimento. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimateia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois o sinédrio tinha sido o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Aqui, recordamos mais um dado exclusivo de Mateus, o único evangelista que diz que José de Arimateia se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57). Isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo grupo ou movimento ao qual pertence. E o papel de José de Arimatéia é muito importante. Ele alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (27,57-61), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto. O gesto de José de Arimatéia é tão importante que vai repercutir na ressurreição: o sepulcro aberto será reconhecido como o primeiro sinal pascal.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Celebrar o Domingo de Ramos, portanto, é declarar-se da parte de Jesus, assimilando a sua vida e suas posições com a própria vida. É reconhecer o seu amor como único caminho de humanização do mundo, com disposição para assumir as consequências que essa opção implica. 

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, março 20, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 11,1-45 (ANO A)



Com a liturgia deste quinto domingo da Quaresma, conclui-se a sequência de três domingos de leitura de textos exclusivos do Quarto Evangelho. A passagem proposta para este dia compreende o relato da ressurreição (animação) de Lázaro – Jo 11,1-45. Esse episódio corresponde ao sétimo dos sinais cumpridos por Jesus no Evangelho de João. Trata-se de um episódio altamente significativo para o conjunto de toda a obra joanina, pois marca a conclusão do ciclo dos sinais de Jesus, cujo desfecho é a manifestação da vida em abundância. É importante recordar que João não chama as obras extraordinárias de Jesus de milagres, mas de sinais. Os sete sinais narrados por João foram criteriosamente escolhidos, como ele mesmo afirma no final do Evangelho, para despertar a fé em Jesus e transmitir a vida em plenitude que dessa emana (Jo 20,30-31), sendo esse da ressurreição de Lázaro o maior de todos. Por isso, é o sétimo, cujo número evoca perfeição, e prefigura a ressurreição do próprio Jesus, o sinal por excelência. Como se trata de um texto de grande extensão, totalizando quarenta e cinco versículos, não analisaremos todos os versículos, mas procuramos colher a mensagem central e destacar apenas os versículos principais.

Logo de início, é importante recordar que o sinal realizado por Jesus neste episódio de Lázaro não é propriamente uma ressurreição, mas uma “reanimação” do corpo, considerando que ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, como consequência da ressurreição de Cristo. Portanto, o que João narra aqui é Jesus realizando a reanimação de um corpo que já se encontrava em estado de decomposição, foi recuperado, mas que continuou corruptível. A vida de Lázaro que Jesus recuperou continuou sendo uma vida limitada, sujeita à morte, mas ressignificada, obviamente. Na verdade, Jesus apenas prolongou os dias de Lázaro com esse grande sinal. É fato, conforme o relato, que Lázaro voltou à vida, graças à intervenção de Jesus, mas morreu de novo. Por sinal, convém recordar que esse não é o único milagre do gênero narrado na Bíblia, pois, ainda no Antigo Testamento, Elias e Eliseu realizaram prodígios semelhantes: Elias restituíra a vida ao filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,17-24), e Eliseu fizera o mesmo com o filho da sunamita (2Rs 4,8-37). Nos demais evangelhos, temos outros dois episódios semelhantes: Jesus reanima o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e a filha de Jairo (Mc 5,22-43).

Ainda a nível de contextualização, é importante recordar o lugar que este episódio ocupa no conjunto do Quarto Evangelho. Conforme já afirmado anteriormente, trata-se do ápice dos sinais realizados por Jesus, inclusive, o fato de ser o sétimo sinal já indicava a sua importância. Desde o primeiro sinal – mudança da água em vinho (Jo 2,1-11) – até o sexto – a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41) – Jesus revelou sua condição de Messias e Filho de Deus com poder sobre a natureza e sobre certas dimensões da vida humana. Com o sétimo sinal, portanto, ele se revela como o Senhor da vida toda, aquele que tem poder sobre a morte, como consequência. Além de ser o ponto alto do “livro dos sinais”, como convencionalmente é chamada a primeira parte do Evangelho de João (Jo 1–12), merece atenção a localização interna deste episódio da reanimação de Lázaro: está inserido entre duas ameaças de morte a Jesus da parte dos dirigentes ou chefes da religião oficial. Isso confirma uma certeza muito relevante para toda a mensagem cristã: Jesus responde à morte com o dom da vida. Ora, no capítulo anterior, por ocasião da festa da dedicação do templo, os judeus quiseram apedrejar Jesus, acusando-o de blasfemador (Jo 10,31-33), mas ele conseguiu escapar e fugiu (10,39-40). Após restituir a vida de Lázaro, os chefes judeus, incluindo o Sumo Sacerdote, fizeram o plano definitivo para o aniquilamento de Jesus, pois ele tinha ido longe demais dessa vez, revelando-se e demonstrando ser mesmo o Senhor da vida (Jo 11,46-54). Portanto, em meio a duas situações de morte, Jesus manifesta a vida e a apresenta como resposta a toda e qualquer situação em que essa é ameaçada.

Olhemos então para o texto, partindo do primeiro versículo: «Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta» (v. 1). O evangelista apresenta Betânia, cujo nome significa “casa do pobre” ou “casa do aflito”, como o espaço de uma comunidade cristã ideal, onde a fraternidade, de fato, reinava. Essa fraternidade é evidenciada pela apresentação que o evangelista faz de seus membros: Lázaro, Maria e Marta. Eles são apresentados apenas como irmãos, não há hierarquia entre eles, não há pai nem mãe, marido ou esposa, mas apenas pessoas que são irmão e irmãs, ou seja, pessoas iguais. Essa família funciona, portanto, como metáfora da comunidade cristã. Ninguém é superior a ninguém, todos são iguais, como deve ser a comunidade, o ambiente ideal para o cultivo do amor e das relações fraternas e sinceras. O único laço que une os membros da comunidade deve ser a fraternidade. Um dos membros da comunidade estava doente e, por causa disso, toda a comunidade estava abatida, como se vê pelo desespero das irmãs, mais adiante. Na autêntica comunidade cristã, todos se sentem responsáveis uns pelos outros; o que se passa com um dos membros importa a todos os demais; a dor de um se torna dor do outro, bem como a alegria e a felicidade. Por sinal, o desespero das irmãs diante da doença e da morte, injustificável do ponto de vista teológico, como o próprio Jesus irá corrigi-las, era bastante compreensível a nível econômico e social, pois, sendo Lázaro o único homem na família, e considerando o contexto patriarcal daquela sociedade, a sua morte era uma ameaça também à vida das duas irmãs.

Apesar de aparentemente desesperadas diante da situação, as irmãs sabiam com quem contar, e isso já é um sinal positivo. Não se tratava, portanto, de um desespero total, pois entre elas havia sinais de esperança. De fato, elas tinham confiança em Jesus, o conheciam bem e sabiam que ele poderia fazer algo por elas e, sobretudo, por Lázaro, a quem ele amava. Na verdade, Jesus amava toda a família (v. 5). Por isso, elas mandaram dizer a Jesus o que se passava na família: «Senhor, aquele que amas, está doente» (v. 3). Sentir-se amado ou amada por Jesus é condição indispensável para fazer parte da sua comunidade, do seu discipulado. A família de Betânia tinha essa consciência. E isso faz toda a diferença, pois gera confiança. As irmãs não se dirigiram a Jesus como um estranho, como faziam outras pessoas necessitadas da sua atenção, mas como alguém próximo, um amigo íntimo com quem se pode contar sempre, principalmente nos momentos mais difíceis da vida. No entanto, o desenrolar do relato mostra que as irmãs tinham muito a ser corrigido em relação à fé e à compreensão do poder de Jesus, sobretudo no que diz respeito à própria vida, com seus limites e potencialidades. Contudo, elas têm muito também a ensinar, até hoje, sobretudo, na maneira de se relacionar com Jesus, tendo-o como uma pessoa próxima, acessível, humana, enfim, como um companheiro, embora seja Senhor e Filho de Deus.

Ao recado das irmãs, Jesus reage com uma naturalidade tão grande, que beira à indiferença (vv. 4.6). Tudo o que ele deseja ensinar às irmãs de Lázaro e aos seus discípulos de todos os tempos é que a morte não tem a última palavra e, por isso, não se deve viver em função dela. Por isso, ele permaneceu mais dois dias no local onde se encontrava, após receber o recado (v. 6). Mas, finalmente, ele tomou a decisão de ir ao encontro dos amigos de Betânia, que ficava na Judeia, convocando seus discípulos a irem com ele: «Vamos de novo à Judeia» (v. 7b). Naquele momento, ele se encontrava no outro lado do rio Jordão, praticamente escondido, devido à última ameaça de morte sofrida (Jo 10,39-40). A decisão de ir de novo à Judeia, mais do que um deslocamento geográfico, significa, portanto, a decisão corajosa de enfrentar a morte, entregando a própria vida. Por isso, houve resistência nos discípulos, o que ocasionou um diálogo com eles (vv. 8-16). Nesse diálogo, os discípulos demonstraram mais incompreensão do que as próprias irmãs de Lázaro. Curiosamente, sobressai-se, entre eles, a figura de Tomé que, mesmo não compreendendo ainda o sentido da passagem da morte à vida, pelo menos demonstrou mais coragem do que os demais, ao afirmar convictamente sua disposição de estar do lado dele, mesmo que fosse para morrer: «Vamos nós também para morrermos com ele» (v. 16b). Nenhum dos discípulos aceitava a entrega da vida por amor. Tomé compreendia essa entrega como um mero ato de heroísmo, enquanto os outros nem desse modo aceitavam. Neste sentido, a morte de Lázaro é uma preparação para a morte de Jesus, assim como a sua reanimação prefigura a ressurreição do Senhor. Pode-se dizer que a reanimação de Lázaro foi uma vitória parcial sobre a morte, enquanto a ressurreição de Jesus foi a vitória definitiva.

Tendo tomado a decisão de ir ao encontro da família amiga de Betânia, somente dois dias após receber o recado, quando Jesus chegou ao destino já fazia quatro dias que Lázaro tinha sido sepultado (v. 17). Parece até que Jesus foi o último amigo a ir ao encontro da família. Inclusive, os judeus de Jerusalém tinham ido consolar as irmãs. Mas a chegada de Jesus junto às irmãs enlutadas já no quarto dia foi proposital: Ele tinha consciência do que deveria fazer e já tinha expressado isso aos discípulos mais próximos: «o nosso amigo Lázaro dorme» (v. 11). Na verdade, a chegada após quatro dias tinha como objetivo desmascarar uma falsa crença judaica de que, até três dias após a morte, ainda era possível que o defunto voltasse a viver, pois acreditava-se que o espírito do morto ainda pairava ao redor do cadáver. A partir do quarto dia, começava a decomposição e, portanto, o espírito ia embora. Realizando o sinal até o terceiro dia, a «glória do Filho de Deus» não seria manifestada, pois os presentes reconheceriam como algo natural, conforme a crença vigente. Portanto, Jesus foi ao encontro da família amiga porque amava e não abandona sua comunidade na aflição, mas foi com a intenção de catequizar, tanto às irmãs enlutadas quanto aos seus discípulos.

Ao saber da chegada de Jesus, Marta foi ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa (v. 20), duas atitudes diferentes que refletem um pouco o comportamento das personagens de mesmo nome no Evangelho de Lucas (Lc 10,38-42). Com as duas, abre-se um novo diálogo, também bastante revelador da identidade de Jesus e da sua visão sobre a morte e a vida. Em momentos diferentes, as duas irmãs começam lamentando o fato de Jesus não ter chegado antes, pois acreditavam que Lázaro não teria morrido, se ele tivesse chegado em tempo (vv. 21.32). É um lamento em forma de desabafo e de reprovação ao comportamento lento de Jesus, na perspectiva delas. Com isso, o evangelista mostra ainda mais o quanto as irmãs conheciam Jesus e realmente eram a ele. Com efeito, a amizade era tão sincera, a ponto de não terem medo de discordarem do mestre. Isso revela também o quanto Jesus era humano nas relações, conversava em pé de igualdade e não via problemas em ser questionado. Assim como fizera um pouco antes com os discípulos, Jesus aproveita o diálogo com as irmãs enlutadas para catequizá-las sobre o triunfo da vida sobre a morte e sobre toda forma de mal. Antes de tudo, Jesus lhes garante a vida: «Teu irmão ressuscitará» (v. 23). Embora seja uma garantia, não é fácil de assimilar, sobretudo, no momento de dor, como era a situação das irmãs naquelas circunstâncias. E elas tinham a fé judaica na ressurreição no final dos tempos, no último dia (v. 24), mas naquele momento pouca importância tinha, pois, a dor era mais forte; essa era uma afirmação doutrinal, defendida pelos fariseus, inclusive, mas na aflição causada pela morte, pouco peso tem a doutrina; o que importa é a vida e a presença de quem realmente pode comunicar vida, como Jesus (v. 24). E é exatamente como ressurreição e vida que Jesus se apresenta à Marta (v. 25).

Mesmo sem compreender e sem ter a dor aliviada, ainda, Marta demonstrou confiança e fé em Jesus, reconhecendo-o como o Cristo, o Filho de Deus (v. 27). Trata-se de uma das confissões de fé mais profundas do Evangelho de João e muito significativa, pois é feita antes mesmo da realização do sinal. Lázaro continua no túmulo, já cheirando mal, e Marta reconhece quem Jesus é. Diante disso, Jesus antecipa para ela a catequese do seu último discurso diante dos discípulos, na última ceia, e ela já se convence ali mesmo, antes de ver o sinal realizado. Os discípulos homens terão muito mais dificuldade de assimilação; após o longo discurso de despedida, na última ceia, eles ainda recuarão, seja negando, seja traindo. Desde a primeira que o Evangelho de João mostrou – a mãe, em Jo 2,1-12 –, as mulheres se antecipam sempre no reconhecimento da messianidade de Jesus, por isso são modelos para o discipulado. Também Maria, a outra irmã, foi ao encontro de Jesus (v. 32). Diante das duas irmãs, Jesus revela sua profunda humanidade, ficando abalado interiormente, ou seja, comovido (v. 33), e também chorando (v. 35). Essa é a única vez que um evangelista diz que Jesus literalmente chorou. Quer dizer que Jesus participa e experimenta plenamente as dores e lágrimas da humanidade sofredora. Fazendo-se humano, ele age humanamente, para revelar plenamente a glória de Deus. Porém, o choro de Jesus não é desesperado; é um choro de dor, sim, pois é consequência de um amor incondicional pela humanidade. Ele experimentou a dor da perda de uma pessoa querida, sendo ao mesmo tempo solidário com quem mais sentiria as consequências daquela perda: as irmãs Marta e Maria. O choro de Jesus aqui simboliza o choro de Deus por todo tipo de morte. O Deus da vida não evita a morte, mas chora quando a vida é destruída. Mesmo que a morte de Lázaro tenha sido “natural”, conforme a dinâmica narrativa do texto, ela serve de catequese para o evangelista mostrar o quanto a vida deve ser valorizada e vivida intensamente.

Comovido, envolvido completamente na situação, Jesus age em favor da vida do seu amigo Lázaro e de todas as pessoas. Na dor da perda causada pela morte, ele manifesta, paradoxalmente, a glória de Deus, e ordena que Lázaro saia: «Lázaro, vem para fora!» (v. 43). Mas, antes de ordenar que Lázaro saísse, ele ordenara aos presentes que retirassem a pedra que fechava o sepulcro. Quem tem o poder sobre a vida é Deus, e a vida de Jesus foi a maior demonstração disso. Mas ele quer que nos interessemos pela vida dos outros, tirando as pedras que sufocam, fecham, bloqueiam o florescimento da vida. É Deus quem dá a vida, mas precisamos remover os obstáculos que impedem a vida de florescer. E o último imperativo é ainda mais decisivo: «Desatai-o e deixai-o caminhar!» (v. 44c). Ora, Lázaro tinha saído vivo do sepulcro, mas ainda com sinais de morte que o impediam de caminhar, como as faixas que enrolavam seu corpo. A vida com sentido passa pela liberdade, por isso, as últimas palavras de Jesus no texto visam a libertação e o mover-se. Desatar significa tirar os sinais de morte, deixar caminhar significa a liberdade e o ser sujeito da própria história, com dignidade, plenamente humanizado.

O texto em seu conjunto é uma catequese sobre a vida e a ressurreição, que visava a preparação de catecúmenos para o batismo na vigília pascal. Entre a vida e a ressurreição, obviamente, aparece a morte, como parêntese. É uma realidade que precisa ser ressignificada à luz da vitória definitiva de Jesus sobre ela, com a ressurreição. A reanimação de Lázaro, portanto, enquanto sinal, não é uma demonstração espetacular do poder de Jesus, mas uma catequese sobre a vida. Por isso, é um convite a retirar as pedras que ofuscam o florescimento da vida e a desatar as amarras que impedem o ser humano de viver com liberdade e dignidade. É uma demonstração clara de que a glória de Deus é que o ser humano viva e viva abundantemente.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, março 13, 2026

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 9,1-41 (ANO A)



Na liturgia deste quarto domingo da Quaresma, continuamos a sequência da leitura de textos do Quarto Evangelho, iniciada no domingo passado com o episódio do encontro de Jesus com a mulher Samaritana. Para este dia, é proposta a leitura do relato da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41), um episódio exclusivo do Evangelho de João. Trata-se de um texto bastante rico em teologia e arte literária, o qual reflete um verdadeiro caminho catecumenal. Convém recordar que os evangelhos sinóticos também apresentam relatos de cura de cegos (Mt 12,22-23; Mc 8,22-26; 10,46-52; Lc 18,35-43), mas em nenhum deles há um relato tão rico em detalhes como este de João, e isso o torna único. Devido à longa extensão do texto – quarenta e um versículos – não comentaremos versículo por versículo, mas procuraremos colher a mensagem central e enfatizar alguns aspectos e trechos mais importantes.

Antes de adentrarmos diretamente no conteúdo do texto, é importante fazer uma breve contextualização. O cenário do relato é a cidade de Jerusalém. Ora, Jesus tinha ido à “cidade santa” para a festa das tendas (Jo 7,1-2.14), uma das três grandes festas de peregrinação dos judeus, juntamente com a Páscoa e Pentecostes; foi com receio, certamente, uma vez que já estava “jurado de morte” (Jo 7,1) pelas autoridades judaicas, devido à fama que se tinha propagado em decorrência de sua mensagem e também por causa dos sinais que estava cumprindo e, sobretudo, pela ousadia dos seus gestos proféticos. Por falar em sinais, a cura do cego de nascença, relatada no evangelho de hoje, é o sexto dos sete sinais que Jesus realiza conforme a dinâmica do Quarto Evangelho, a saber: 1) a mudança da água em vinho – Jo 2,1-12; 2) a cura do funcionário real – Jo 4,46-54; 3) a cura do enfermo (paralítico) de Betesda – Jo 5,1-18; 4) a multiplicação dos pães – Jo 6,1-15; 5) a caminhada sobre o mar – Jo 6,16-21; 6) a cura do cego de nascença – Jo 9,1-41; 7) a ressurreição de Lázaro (reanimação) – Jo 11,1-44. Por sinal, esse último será lido na liturgia do próximo domingo.

Ao realizar os sinais, Jesus manifestava a glória de Deus, ganhava adesão ao seu projeto e confirmava ser o Cristo, o Filho de Deus (Jo 2,1; 21,30-31). Com isso, o poder religioso passava a vê-lo cada vez mais como uma ameaça e, por isso, queria eliminá-lo a todo o custo. Ora, por meio de seus sinais, Jesus mostrava que Deus não se deixa manipular pela instituição religiosa, qualquer que seja ela. De fato, Deus é maior que qualquer instituição. Ao mostrar isso, as autoridades religiosas viam desmoronar seus poderes e privilégios. Diante disso, queriam eliminar Jesus porque ele era uma pessoa perigosa para o sistema. Durante a festa das tendas, Ele tinha passado dos limites ao se autoproclamar a “luz do mundo” (Jo 8,12) e o “Filho eterno do Pai” (8,54-58). Por essa sua ousadia, as autoridades religiosas o consideraram “um samaritano e endemoniado” (Jo 8,48) e, por isso, queriam apedrejá-lo. É, portanto, recordando o último versículo do capítulo anterior que devemos ler o texto de hoje: «Eles pegaram, então, pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do templo» (Jo 8,59).

Uma vez contextualizados, voltemos a atenção para o texto de hoje, o qual começa com a seguinte afirmação: «Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença» (v. 1). Mesmo apressado, pois estava fugindo da tentativa de assassinato, como recordado acima, Jesus vê a necessidade do outro e age com solidariedade e compaixão. Ele não fica indiferente a nenhuma situação em que uma pessoa humana não esteja vivendo com dignidade. Por onde passa, ele vê, não importam as circunstâncias. Nada e nem ninguém é indiferente ao seu olhar, pois sua missão humanizante tinha primazia sobre tudo. É importante recordar que, conforme a mentalidade da época, todo o tipo de doença e deficiência era sinal de maldição e castigo, pois tudo isso era considerado consequência do pecado, ou da pessoa mesma ou dos antepassados. Acreditava-se também que uma criança pudesse pecar ainda no ventre materno. Inclusive, os próprios discípulos de Jesus comungavam dessa mentalidade, como se vê pela pergunta que fazem a Jesus sobre a situação do cego que Jesus acabou de ver: «Os discípulos perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?”» (v. 2). A cegueira se destacava entre todas as deficiências, pois impedia que a pessoa pudesse estudar e conhecer a Lei. Por isso, teologicamente, a cegueira era pior até mesmo do que a lepra, para o judaísmo da época. Ora, o leproso devia isolar-se completamente da sociedade, mas devido às aparências e a exposição das feridas; porém, um leproso poderia ter conhecido a Lei antes de contrair a lepra; já um cego de nascença, não. Como o homem visto por Jesus era cego de nascença, significa que ele nunca tinha tido contato com a Lei, portanto, era considerado condenado desde o nascimento. Nessa situação, uma pessoa não convivia nem vivia de fato, mas apenas vegetava, mesmo não sendo necessário o isolamento do convívio social, por não ter feridas expostas, como os leprosos.

É claro que Jesus não concordava com a mentalidade vigente, sustentada pela religião. Por isso, imediatamente corrige seus discípulos: «Nem ele nem seus pais pecaram» (v. 3a). Nenhuma doença, enfermidade ou deficiência tem a ver com o pecado! E ele expressa a sua pressa em sanar a situação de marginalização vivida pelo homem cego (vv. 3-4). A cegueira não é vontade de Deus e nem punição a possíveis pecados cometidos. Também não é condição para que a glória de Deus se manifeste, como poderia ser equivocada interpretada a segunda parte do v. 3: «isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele». Jesus não está dizendo que Deus quis que aquele homem nascesse cego para, depois de tantos anos, realizar um milagre e assim mostrar o seu poder. Pensar assim não corresponde ao coração de Deus. O que Jesus revela é algo muito mais profundo: mesmo diante do sofrimento e das limitações humanas, Deus continua agindo. A cegueira daquele homem não veio de um castigo, mas tornou-se ocasião para que a obra de Deus se manifestasse em sua vida. Quando Jesus lhe devolve a vista, não lhe dá apenas a visão dos olhos; conduz aquele homem a reconhecer a glória de Deus presente nele.

E, ao verem esse sinal, também outros são convidados a abrir os olhos e a reconhecer em Cristo a verdadeira luz do mundo. No entanto, onde a vida é escassa, quer dizer, onde a criação não encontrou sua plenitude, há espaço para que a glória de Deus se manifeste, completando a obra. Para isso, é necessário que toda a comunidade participe, juntando forças. Por isso, Jesus compartilha com os discípulos a sua responsabilidade de trabalhar para realizar as obras do Pai que o enviou (v. 4), aprimorando a criação. E isso deve ser feito com urgência, ou seja, «enquanto é dia» (v. 4). Considerando que seus dias estavam praticamente contados, depois de tantas ameaças, já não havia mais tempo a perder. A «chegada da noite» (v. 4) significa a sua morte que se tornava cada vez mais próxima. Ora, quando está em questão a liberdade e a dignidade do ser humano, os discípulos de Jesus devem agir com pressa, como Ele próprio agia, mesmo tendo de contrariar códigos e regras morais, sejam civis ou religiosas.

Destaca-se neste episódio, especialmente, a bondade e a compaixão de Jesus: o cego não pede nada, não lhe faz nenhuma súplica, ao contrário de outras curas em que as pessoas necessitadas lhe pedem que as cure. Para João, o olhar de Jesus já é suficiente para perceber a necessidade do outro, sentir compaixão e intervir, como faz aqui: «Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego, e disse-lhe: “Vai lavar-te na piscina de Siloé’”(que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando» (vv. 6-7). O gesto de cuspir no chão e fazer lama com a saliva é carregado de um forte simbolismo: o barro alude à criação, é a matéria-prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. De acordo com essa mesma mentalidade, a saliva é gerada pelo hálito, e esse é o sopro, o espírito. Com isso, o evangelista quer dizer que Jesus repete o gesto criador de Deus (Gn 2,7). Assim fazendo, ele aperfeiçoa a obra do Pai, tornando-a plena. O homem que até então apenas vegetava, passou a viver de verdade a partir do encontro com Jesus que lhe deu vida em forma de luz dos olhos. A ordem para o homem lavar-se na piscina de Siloé significa a participação e a responsabilidade humana na criação e na salvação. Deus não quer o ser humano passivo, mas participante ativo de sua obra. Como «luz do mundo» (v. 5), Jesus aponta o caminho e quem o segue encontra a luz, como o cego «voltou enxergando» da piscina ao cumprir a sua ordem. Quem segue a palavra de Jesus encontra luz e sentido para a vida. Ao ir à piscina, conforme a ordem de Jesus, o cego demonstrou adesão ao Evangelho; por isso, passou a enxergar. Por sinal, o relato poderia ser encerrado aqui, mas o evangelista pretende muito mais.

Entre aqueles que conheciam o cego, o espanto é geral: ao invés de um homem miserável e considerado amaldiçoado, eles passam a ver um homem novo, restaurado e íntegro (vv. 8-12). A admiração começa entre os vizinhos, passa pelos que o viam mendigando, até chegar nos fariseus e autoridades religiosas. O motivo de tamanho espanto é compreensível, considerando a afirmação do próprio homem ao defender-se das acusações: «Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença» (v. 32). De fato, em toda a Bíblia, não há registro de nenhum outro milagre de um cego de nascença. Há curas de cegos, sim, mas não com essa indicação. Diante disso, os fariseus, como representantes do sistema de dominação religiosa, reagem com rigor e até com violência, porque vêem que a luz de Deus, que eles e todo o sistema ofuscavam, brilha em Jesus e em quem cumpre a sua palavra. A face de Deus, que a religião tinha ofuscado e transformado em mercadoria, é restituída gratuitamente ao povo por Jesus, como verdadeiro dom. Por isso, inconformados, os líderes religiosos judeus submetem o homem curado a um longo interrogatório, sem aceitar nenhuma das respostas. E, tudo isso, por causa da rejeição a Jesus e o medo que o seu projeto libertador representava para as elites.

O fato de Jesus ter curado em dia de sábado já era, por si só, motivo de escândalo, ainda mais da forma como fez: «era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego» (v. 14). Ao tocar na terra para fazer lama, Jesus realizou um trabalho tido como braçal, em dia de sábado, um pecado abominável para os judeus. Esse foi o principal motivo do cerco contra o homem e contra o próprio Jesus. Várias correntes do judaísmo da época, principalmente o movimento dos fariseus, consideravam o mandamento do sábado como o maior de todos, sob a alegação de que até mesmo Deus, o criador, o observou, ao descansar no sétimo dia da criação. Era assim que eles ensinavam sobre a sacralidade do sábado, por isso, se tornou um dos temas mais recorrentes nas discussões com Jesus. Por isso, eles passaram a ter ainda mais motivos para rejeitar Jesus e o seu programa de plena libertação e humanização. É importante recordar que João usa o termo “judeus” referindo-se às autoridades religiosas, e não a todo o povo. Neste episódio ele varia entre judeus e fariseus (vv. 13; 15; 16; 18; 22; 24; 34; 40), mas sempre em referência às lideranças, e não a todo o povo.

O ex-cego é literalmente encurralado pelos líderes religiosos porque deixou de ser um dominado, não mais sujeito às leis de submissão impostas por eles. Uma vez libertado por Jesus, ou seja, curado, tornou-se um sujeito autônomo, um homem livre, ao receber a luz dos olhos de Jesus. A situação chega ao ponto de ser necessário o depoimento dos seus pais (vv. 18-23). Com medo da repressão, os pais passam a responsabilidade para o filho: é ele quem tem de responder por seus atos, pois já tem idade suficiente (v. 21). Reconhecendo-se incapazes de convencer com argumentos e testemunho, os chefes judeus apelam para a violência, como acontece com todos os sistemas opressores. Por isso, «expulsaram-no da comunidade» (v. 34b), ou seja, o baniram da sinagoga. É a religião agindo com tirania, banindo a vida, ao invés de protegê-la. É claro que não havia espaço para Jesus e seu projeto libertador numa religião como aquela. Na verdade, esse conflito reflete o ambiente das comunidades joaninas, e não propriamente o tempo de Jesus. Ora, escrito no final dos anos 90 d.C., o Evangelho de João testemunha a separação das comunidades cristãs da sinagoga. Os cristãos foram, de fato, expulsos da sinagoga ao declararem Jesus como o Messias (v. 22). E esse episódio foi a melhor oportunidade que João encontrou para retratar essa realidade, uma vez que «dar vista aos cegos» era um dos principais sinais messiânicos anunciados pelos profetas (Is 29,18; 42,7). Com isso, ele reforça na comunidade as convicções de que Jesus é o Messias verdadeiro, como os profetas anunciaram.

Jesus se manifesta novamente, ao saber que o homem tinha sido expulso da comunidade sinagogal e vem ao seu encontro (v. 35). Embora a versão litúrgica afirme que Jesus «encontrou» o homem, a tradução correta seria «foi encontrá-lo» (v. 35), o que significa que Jesus foi procurá-lo, saiu em busca do homem, como um pastor autêntico vai em busca das ovelhas, preocupado que elas se percam ou sejam raptadas ou devoradas. Como sempre, Jesus resgata o que a religião descartou. A religião exclui e Jesus inclui; os sistemas dominantes separam e Jesus junta; a religião do templo oprime e Jesus liberta, humaniza. No final da discussão, Jesus mostra a grande inversão de valores e de papéis: os verdadeiros cegos, mesmo que vejam, são os fundamentalistas que, apegados à Lei e aos mais diversos códigos de conduta, sufocam a vida do ser humano, privando-a da liberdade e da dignidade (v. 41). Para esse tipo de cegueira, não há justificativa, pois quem a possui é autossuficiente, não se considera necessitado, como os fariseus, por exemplo, dos tempos de Jesus e aqueles que se comportam como eles nos dias de hoje. Esses escolheram as trevas como estilo de vida, por isso tentam sufocar a luz irradiada por Jesus.

Assim como João escreveu pensando na sua comunidade, também devemos pensar nas comunidades de hoje: se essas não promovem a vida e a liberdade do ser humano, estão distantes da proposta de Jesus. Se prevalece a norma sobre a caridade, o Evangelho é esquecido. Se o conhecimento continua concentrado em um pequeno grupo que controla tudo, está mais para a sinagoga do que para a comunidade cristã. Se há imposição de ideias, decisões e normas, continua-se a gerar cegos, ao invés de pessoas conscientes, iluminadas e livres para o seguimento autêntico de Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA, NA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15

Todos os anos, para a missa vespertina da Quinta-feira Santa, a liturgia propõe a leitura de Jo 13,1-15. Esse texto corresponde ao relato ...