sábado, junho 27, 2026

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS SÃO PEDRO E SÃO PAULO – Mt 16,13-19



Como tem acontecido nos últimos dois anos, também neste ano a Igreja no Brasil substitui a liturgia do décimo terceiro domingo do tempo comum pela solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Por isso, interrompe-se neste dia a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, embora a passagem lida seja também de Mateus. Para esta solenidade, o evangelho é o mesmo em todos os anos: Mt 16,13-19. Esse texto é muito rico e significativo, pois contém o relato do clássico episódio de Cesareia de Filipe, cujo ápice é a confissão de fé de Pedro, que reconhece e proclama Jesus como o Cristo, ou seja, o Messias. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (Mt 16,13-19; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), sendo que a versão de Mateus apresenta mais elementos próprios, como veremos no decorrer da reflexão. E foi exatamente por causa dos seus elementos próprios que o texto de Mateus foi mais valorizado, ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo católico. Como fazemos em todos os domingos, concentraremos a reflexão no texto bíblico em si, sem transformá-la em mera apologia devocional aos santos apóstolos recordados. No entanto, reconhecemos que a recordação dos apóstolos é sempre importante para a vida da Igreja, porque a ajuda a manter-se alinhada às suas origens, não obstante os desgastes históricos.

Os apóstolos Pedro e Paulo foram imprescindíveis para o cristianismo das origens conservar os ensinamentos de Jesus e, ao mesmo tempo, para se espalhar e crescer, extrapolando os limites culturais e geográficos do judaísmo e da Palestina. Olhando para o exemplo dos dois, a Igreja, de hoje e de sempre, é interpelada, cada vez mais, a renovar-se e edificar-se somente pela fé em Jesus Cristo, sem tomar como parâmetro nenhuma instituição terrena. A recordação dos dois no mesmo dia é também sinal da unidade na diversidade, características da comunidade cristã desde as origens, que devem ser reconhecidas permanentemente. O Novo Testamento mostra divergências e até conflitos entre eles. Pedro, um pescador do pequeno mar da Galileia, foi transformado em pescador de seres humanos; Paulo, um fariseu zeloso, até fanático, perseguidor da comunidade cristã, transformado em apóstolo das nações. Cada um foi transformado pelo encontro com Jesus, passando a viver em contínua conversão a partir de então, com atitudes muitas vezes contraditórias. Ambos assumiram um protagonismo incomparável nas primeiras décadas do cristianismo, a ponto de alguns estudiosos defenderem que o livro de Atos dos Apóstolos poderia tranquilamente ser chamado de Atos de Pedro e Paulo, uma vez que são os principais personagens humanos da obra. Por caminhos e métodos diferentes, como eram tão diferentes em personalidade e história de vida, tiveram em comum a paixão por Jesus Cristo e o zelo pelo seu Evangelho, recebendo como prêmio a coroa do martírio.

Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. Convém recordar que esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (Mt 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (Mt 16,21-23; 17,22). Na verdade, pode-se dizer que esses acontecimentos são consequência do episódio narrado no evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza dessa. Recordamos acima o que sucede ao texto no conjunto do evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: houve uma controvérsia de Jesus com os fariseus, que lhe pediram um sinal do céu (Mt 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo fermento dos fariseus e saduceus (Mt 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam. Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, síntese do programa de Jesus, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: «Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”» (v. 13). Como se vê, o texto começa com um indicativo espacial. Cesareia de Filipe estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica (homenagem a César), era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização. Ora, longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos da influência do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. O distanciamento físico, portanto, é sinal do distanciamento da ideologia que Jerusalém representa. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus se torna um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos Céus, e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova, e a continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial. Portanto, pode-se dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas tradicionais do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano. Isso torna a confissão de Pedro um ato extremamente subversivo.

A expressão “Filho do Homem” ao invés do pronome pessoal “eu” é a primeira particularidade de Mateus em relação às versões de Marcos e Lucas, deste episódio. Porém, o sentido aqui é o mesmo. A pergunta de Jesus sobre o que diziam a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Àquela altura da sua vida pública, ele já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que ele realizava. Foi como consequência disso que ele fez a pergunta: «Que dizem os homens ser o Filho do Homem?» (v. 13b). E a resposta dada pelos discípulos revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava diante do povo; certamente, o povo simples, com quem ele interagia e por quem lutava. Eis a resposta: «alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas» (v. 14). A menção a Jeremias entre os personagens com os quais o povo identificava Jesus é outra exclusividade de Mateus. Marcos e Lucas nomeiam apenas João Batista e Elias. O acréscimo de Mateus é significativo, pois Jeremias foi o profeta mais “parecido” com Jesus, em relação ao estilo de vida, o teor da pregação e a perseguição sofrida.

A resposta mostra o quanto Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. Mas ele era e é muito mais. Logo, trata-se de uma resposta incompleta. Ora, embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. E a comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado, pois isso a impede de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Apesar de importante, a pergunta de Jesus sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, o que ele queria saber mesmo era o que os seus discípulos pensavam de si, qual imagem tinham a seu respeito. Por isso, lhes perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que «Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”» (v. 16). Certamente, também os outros discípulos também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade, da qual Pedro se faz porta-voz.

A resposta de Pedro é complexa e profunda: Jesus é «o Messias, o Filho e do Deus vivo». A tradução litúrgica traz a palavra “Messias”, porém, é mais apropriado o termo “Cristo”, conforme o texto na língua original (em grego: Χριστός – Christós). É muito significativo que Jesus seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: «o Filho do Deus vivo». Além de definir a qualidade da messianidade de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade. Por sinal, a expressão «Filho do Deus vivo», na resposta de Pedro, é outra exclusividade de Mateus. Em Marcos, a resposta é apenas «Tu és o Cristo!» (Mc 8,), e em Lucas é «Tu és o Cristo de Deus» (Lc 9,20). Logo, a resposta em Mateus é mais profunda e, sobretudo, universalista. Ora, o título “Cristo” (ou Messias) correspondia às mais profundas expectativas do judaísmo, bastante enraizado na comunidade de Mateus, o que seria um incentivo à preservação da ideologia nacionalista.

Com a expressão «o Filho do Deus vivo», o evangelista ensina que a messianidade de Jesus não corresponde às expectativas de Israel; trata-se de um Messias diferente, que não veio apenas para Israel, mas para a inteira humanidade. Ora, Israel esperava um Messias filho de Davi, cujo título evoca um programa estritamente restauracionista, reformador, visando a restauração da monarquia e do reino davídico-salomônica. Por isso, a afirmação de Pedro é altamente revolucionária e comprometedora. Ora, essa resposta compromete a(s) comunidade(s) cristã(s), em todos os tempos e lugares, a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo, é o Filho do Deus vivo, ou seja, o seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus do templo de Jerusalém, completamente desfigurado pela aristocracia sacerdotal de lá, eram privados de vida, eram agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído que era explorado diariamente. Portanto, a convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas religiosos e políticos que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.

Jesus aprovou a resposta de Pedro, por isso o proclamou bem-aventurado: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu» (v. 17). De agora em diante, até o versículo 19, o texto passa a ser exclusivo de Mateus. O paralelismo com Marcos e Lucas só volta no versículo 20, que já não faz parte da seleção escolhida para a esta liturgia. Considerando que Mateus teve Marcos como fonte para este episódio, os versículos 17-19 são um acréscimo da sua comunidade como resposta a necessidades concretas, sobretudo em relação à diferenciação da comunidade com a sinagoga. A bem-aventurança dirigida a Pedro não é um elogio por um mérito particular, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz, então, é uma constatação: parece que as coisas começam a funcionar bem na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; e como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (Mt 10,21), e Pedro estava falando a partir do que o Pai lhe revelou, logo ele estava demonstrando adesão plena ao projeto do Reino, inserindo-se no mundo dos pequeninos! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição de pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro, portanto, consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por ela.

Na continuidade, Jesus declara: «Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (v. 18a). Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade – a Igreja –, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas, pessoas de fé. E Pedro foi uma destas pedras escolhidas por Jesus, a primeira, sem dúvidas. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável à fé que Pedro tinha acabado de professar. É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: (Πέτρος) “Petros” (πέτρα) “petra”. Embora muito próximas, é possível distingui-las: “Petros”, que foi transformada no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Jesus diz que Pedro (petros) é uma pedra-tijolo da construção, e a pedra-rocha (petra) é a fé que ele professou, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada.

A proclamação de Jesus como Cristo e Filho de Deus é a base da comunidade cristã, a Igreja. Por sinal, essa é a primeira vez que aparece a palavra igreja (em grego: ἐκκλησία – ekklesia) no Evangelho de Mateus, o único que a emprega, e somente duas vezes (Mt 16,18; 18,17); o significado da palavra é assembleia convocada, reunião, comunidade. Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que havia na região de Cesaréia de Filipe, construídos sobre pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, ele declara: «e o poder do inferno nunca poderá vencê-la» (v. 18b). Aqui, ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a instauração do Reino aqui na terra, razão da sua existência. O “poder do inferno”, portanto, significa as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso. Essas forças retardam a concretização do Reino, mas não impedirão a sua realização. Para superá-las é imprescindível uma fé viva e comprometida, como a fé de Pedro e Paulo, e de tantos outros irmãos que doaram a vida pelo Reino.

No último versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: «Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (v. 19). Mais do que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer. No judaísmo, a imagem das “chaves” correspondia à capacidade de interpretação e aplicação da Lei pelos rabinos e escribas. Inclusive, o próprio Jesus vai denunciá-los por terem “fechado” o Reino dos Céus: «Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam!» (Mt 23,13). As chaves confiadas a Pedro e a toda a comunidade, portanto, são para abrir o Reino a todas as pessoas, a começar pelas marginalizadas e sofridas, os pobres, as vítimas das mais variadas formas de exclusão. Portanto, Mateus não emprega a imagem das chaves como símbolo de uma instituição, mas como sinal de uma nova relação com Deus. A antiga religião tinha bloqueado, escondido o rosto desse Deus, mas Jesus dá a chave de acesso a ele: a vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), que são a síntese de toda a sua mensagem. Logo, a função de “ligar e desligar” representa a responsabilidade da comunidade, e não propriamente poder. Inclusive, no discurso sobre a comunidade, essa mesma função será atribuída a toda a comunidade (Mt 18,18). Isso exige profunda fidelidade da Igreja para viver em perfeita sintonia com Jesus e o Pai, para que tudo o que essa venha a realizar e viver seja referendado por eles.

Se a comunidade/Igreja viver fielmente o Evangelho, sintetizado nas bem-aventuranças, que são as chaves de leitura de toda a obra de Mateus, e de acesso ao Reino, não resta dúvidas de que Jesus e o Pai confirmarão as suas decisões e pleitos lá nos céus. Pedro e Paulo são exemplos concretos de quem fez essa experiência. Eles abriram o Evangelho ao mundo, fazendo o mundo abrir-se ao Evangelho, cada um à sua maneira. Por sinal, pegando essa deixa, é oportuno concluir a reflexão com o seguinte trecho do prefácio desta solenidade: «Hoje, vós nos concedeis a alegria de festejar os Apóstolos São Pedro e São Paulo. Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual veneração.» (Prefácio de São Pedro e São Paulo, apóstolos).

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, junho 19, 2026

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 10,26-33 (ANO A)

 


A liturgia do décimo segundo domingo do tempo comum prossegue com a leitura do discurso missionário de Jesus no Evangelho de Mateus, iniciada no domingo passado. Naquela ocasião, tivemos a oportunidade de ler a parte inicial desse discurso (vv. 1-8), compreendendo a convocação dos doze discípulos e o envio deles como apóstolos, após receberem autoridade para fazer o mesmo que Jesus fazia, e ainda as primeiras instruções para a missão. O texto lido hoje – Mt 10,26-33 – já se aproxima do final do discurso, pois foram saltados alguns versículos. Convém recordar que o discurso missionário é o segundo dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, e ocupa todo o décimo capítulo. Como se sabe, de todos os evangelistas, Mateus é aquele que mais priorizou a dimensão do ensino e a função de mestre na vida de Jesus, distribuindo os principais aspectos do seu ensinamento (em grego: διδασκαλία – didascalía) em cinco grandes discursos que delineiam a estrutura de todo o seu Evangelho, a saber: o discurso da montanha (Mt 5–7); o discurso missionário (Mt 10); o discurso em parábolas (Mt 13); o discurso comunitário (Mt 18) e o discurso escatológico (Mt 24–25).

Como indica o próprio título, o segundo discurso trata da missão, e foi motivado pelo inconformismo de Jesus diante da situação das multidões que estavam cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, ou seja, abandonadas e exploradas pelos chefes dos poderes político, econômico e religioso da época. Em suas andanças, Jesus constatou um mundo abandonado, desumanizado, um povo vulnerável. E ele não aceitou isso, pois sabia que aquela realidade não correspondia ao projeto do seu Pai, o Criador. Por isso, diante do que viu, ele teve compaixão, ou seja, sentiu contorcerem-se as suas entranhas (Mt 9,36) e, inconformado, tomou uma atitude: chamou os seus discípulos e os enviou em missão, autorizando-os a fazer o mesmo que ele fazia: restituir vida, dignidade e esperança, anunciando o Reino e denunciando tudo o que impedia o ser humano de viver com dignidade. Isso indica que a missão cristã é uma verdadeira intervenção no mundo para humanizá-lo; por isso, exige atitudes transformadoras em prol do bem do ser humano. Os discípulos-apóstolos de Jesus, portanto, não são portadores de uma doutrina estática ou de um código moral, mas de uma mensagem transformadora e altamente comprometedora. Assim como Jesus, também eles não podem assistir passivamente às injustiças e sofrimentos do povo.

Anunciar que o “Reino dos Céus está próximo” exige a luta, o empenho e o compromisso ativo para que tudo o que se opõe a esse Reino seja suprimido deste mundo. Isso indica o quanto é árdua a militância do Reino. Por Reino dos Céus, entende-se um mundo solidário, justo e fraterno, sem violência e nem ódio; um mundo humanizado. Quem assume essa causa, inevitavelmente, está sujeito a incompreensões, sendo vítima de perseguições e hostilidades, como previu o próprio Jesus (Mt 10,16-25). E sobre isso ele advertiu bastante os seus discípulos, inclusive, disse que estava enviando-os como cordeiros no meio de lobos (v. 16), uma imagem que sintetiza toda a hostilidade e perigo implicado na missão. Por isso, após alertar os discípulos sobre a quase certeza da perseguição, Jesus os encoraja para não desanimarem. E é isso o que compreende o texto lido hoje: o convite à coragem, à confiança no Pai e no próprio Jesus. Como última observação a nível de contexto, convém recordar que toda essa lógica e estrutura do texto correspondem mais à época da redação do evangelho e à situação da comunidade do evangelista, que já sofria perseguições, tanto do judaísmo oficial quanto da administração imperial romana, do que mesmo à época de Jesus. O evangelista recolheu os principais ensinamentos de Jesus e os distribuiu conforme suas intenções teológicas, habilidades literárias e as necessidades da sua comunidade, transmitindo-os como válidos para todos os tempos.

Tendo previsto a perseguição como inevitável na vida dos seus discípulos missionários, Jesus procura encorajá-los. Por isso, o imperativo negativo “Não tenhais medo” aparece três vezes no evangelho de hoje, funcionando como uma espécie de refrão; essa expressão é muito significativa em toda a Bíblia; nos dois testamentos, ela aparece com frequência nos contextos de vocação e missão. Sempre que Deus chama alguém e recebe objeção na resposta, ele encoraja e garante sua assistência, sua presença. Olhemos então o início do texto, o qual é todo composto de palavras atribuídas a Jesus, conforme a construção narrativa do evangelista: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!» (v. 26-27). A primeira motivação à coragem diz respeito ao anúncio. Como a mensagem de Jesus é transformadora e comprometedora, não pode ser anunciada por quem tem medo, pois é certo que trará consequências. Ao invés do medo que paralisa e acomoda, os discípulos devem proclamar o que Deus revela por meio de Jesus. Inclusive com os mesmos sentimentos de inconformismo e compaixão, como sentiu Jesus, diante do sofrimento e abandono das multidões.

O que havia de encoberto até então, e que não poderia mais permanecer, era o que Jesus já tinha ensinado somente aos discípulos. Não se trata de planos secretos e mistérios, mas da mensagem de Jesus, até então pouco conhecida, devido às circunstâncias de tempo e espaço. Tinha chegado o momento de tornar público, fazer espalhar o que os discípulos estavam aprendendo com o mestre, especialmente o seu jeito de viver. Por isso é um anúncio que não tem sentido se não for acompanhado pelo testemunho. O estilo de vida de Jesus, retratado nas bem-aventuranças (Mt 5,1-12), já é uma grande denúncia do sistema, e a única maneira de anunciá-lo com credibilidade é vivendo à sua maneira. As expressões “o que vos digo na escuridão” e “o que vos digo no pé do ouvido” significam tudo aquilo que somente os discípulos ouviram e viram Jesus fazer, até então; é o aprendizado que somente a convivência e a intimidade favorecem. Na verdade, tudo de Jesus deve ser anunciado sem medo, com palavras e testemunho, de modo que se torne conhecido por todo o mundo. Por isso, o imperativo “proclamai-o sobre os telhados”, que é um convite ao esforço e à criatividade no anúncio. Na época da redação do evangelho, a comunidade de Mateus estava em processo de separação do judaísmo oficial; era um grupo completamente marginalizado. Os discípulos não tinham as tribunas das sinagogas à disposição, como os rabinos da época tinham, nem podiam acomodar-se a estruturas estáticas e cômodas, tampouco poderiam recuar do anúncio por medo. Por isso, deveriam buscar alternativas para o anúncio, com ousadia e criatividade, transformando até mesmo os telhados da casa em púlpitos, se fosse necessário.

Na sequência, o convite à coragem é recordado novamente: «Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!» (v. 28). Dessa vez, Jesus alerta para a real possibilidade do martírio na vida dos seus discípulos missionários. Um pouco antes, tinha alertado que eles sofreriam açoites, seriam entregues nas sinagogas e nos tribunais (10,17). Agora, alerta que até a morte é provável, mas apesar disso eles não devem ter medo, pois a vida em sua totalidade pertence somente a Deus. Aqueles que imaginam matar, na verdade só podem destruir o corpo; eles não têm poder sobre a alma, que significa a totalidade do ser da pessoa; é a vida mesma em sua inteireza. Aqui, essa distinção não corresponde exatamente ao dualismo corpo–alma, típico do pensamento grego. Para a mentalidade hebraica, a alma (em grego: ψυχή – psiquê) é a totalidade do ser da pessoa, é a própria vida; o corpo não é o seu oposto, mas um elemento integrante que, ao perecer, não significa o fim da vida. Portanto, Jesus está encorajando os discípulos a não terem medo e, ao mesmo tempo, garantindo que a vida deles está nas mãos de Deus, o Pai. O que os discípulos devem temer é a perda total da vida, o que não é um castigo, mas consequência das próprias escolhas. O termo grego empregado pelo evangelista e traduzido por inferno (γέεννα – ghéena) descreve o “lixão” de Jerusalém: o local onde era jogado e queimado todo o lixo da cidade, incluindo os restos de animais, o que aumentava consideravelmente durante as festas religiosas; isso gerava um fogo permanente, com odor desagradável, e passou a ser usado por muitos pregadores como imagem do inferno, o destino dos pecadores. Mateus emprega tal imagem com uma conotação mais amena: não vê como castigo, mas como sinônimo do que não tem sentido, o que é inútil. E, para ele, inútil e sem sentido é a vida de quem tem medo de anunciar o Evangelho e assumir as suas consequências.  

O encorajamento à missão passa pela confiança na providência do Pai, o que vem ilustrado pelo exemplo dos pardais e dos fios de cabelo, elementos considerados insignificantes, conforme a mentalidade da época: «Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais» (vv. 29-31). De fato, só é possível superar o medo com a confiança no Pai. Os pardais eram os pássaros de menor valor, inclusive considerados nocivos para as plantações, pois devoravam os grãos antes da colheita. Também serviam de alimentação para os pobres, sendo comercializados como a carne mais barata. Não obstante essa aparente insignificância, eles fazem parte da criação e estão também sob os cuidados do Pai, por isso, são também importantes. Um fio de cabelo era considerado o menor e mais inútil elemento do corpo humano e, mesmo assim, cada um é contado pelo Pai, logo, também tem a sua importância. Ora, se até com coisas aparentemente tão insignificantes Deus tem cuidado, muito mais tem com a vida dos discípulos e discípulas do seu Filho, os anunciadores do seu Reino e construtores de um mundo novo.

É preciso, portanto, coragem para anunciar e testemunhar, declarando-se a favor de Jesus e do seu projeto de vida e libertação: «Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus» (vv. 32-33). Declarar-se a favor de Jesus significa ser no mundo sinal da sua própria presença; indignando-se ao contemplar pessoas abandonadas e sofridas, e buscar soluções transformadoras como ele; é agir com misericórdia diante do sofrimento das pessoas, denunciando as injustiças e todos os impedimentos ao florescer do Reino dos Céus. É ser agente de humanização do mundo. Negar Jesus diante dos homens, portanto, não é deixar de proclamar uma fórmula de fé ou doutrina, mas deixar de viver o seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças. Tudo isso, é claro, gera consequências, o que não deve ser interpretado como prêmio ou castigo, mas apenas como fruto de escolhas e opções feitas. Declara-se a favor de Jesus, portanto, quem se empenha na humanização do mundo, quem age em favor da vida em todas as suas dimensões, incluindo a inteira criação. Por outro lado, a conivência com qualquer forma de injustiça e a indiferença diante do sofrimento do próximo constituem formas graves de negação dele diante dos homens.

Pela intimidade entre Jesus e o Pai, obviamente, o declarar-se a seu favor é também receber o seu testemunho diante do Pai. Quem tem intimidade com Jesus se torna íntimo do Pai que lhe enviou. E essa intimidade se constrói fazendo as mesmas opções de Jesus e vivendo como ele. Para isso, é preciso, acima de tudo, coragem e perseverança, pois essas opções comportam exigências e, inevitavelmente, trazem consequências, como a doação da própria vida.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, junho 12, 2026

REFLEXÃO PARA O 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 9,36–10,8 (ANO A)



Neste décimo primeiro domingo do tempo comum, a liturgia continua a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, retomada no domingo passado, após o ciclo pascal e série de solenidades seguintes. O texto proposto para hoje – Mt 9,36–10,8 – compreende o envio dos doze apóstolos em missão, por Jesus, para sanar a situação de abandono em que se encontrava o povo de Israel, devido à negligência e corrupção de seus líderes, os dirigentes políticos e religiosos, que fugiram das responsabilidades, deixando de agir como verdadeiros pastores, como deveriam ser. Esse envio é consequência do olhar compassivo de Jesus, que não fica indiferente diante das situações de abandono e opressão que afligem qualquer pessoa. Com efeito, os evangelhos ensinam que Jesus sempre toma iniciativas que visam a transformação de todas as situações de ameaça à vida. E essa postura deve ser a mesma da comunidade cristã em todos os tempos, pois é exatamente para isso que ele continua a enviar seus discípulos pelo mundo.

A nível de contexto, podemos observar que se trata de um texto de transição entre uma seção narrativa e um discurso de Jesus. Por sinal, a alternância entre narrativa e discurso é uma das principais características literárias do Evangelho segundo Mateus, conforme já recordamos no domingo passado, ao contextualizar o texto daquele dia. A passagem lida hoje compreende, pois, a conclusão da seção narrativa que sucedeu ao discurso da montanha (Mt 8,1–9,38) e a introdução de um novo discurso, o chamado “discurso missionário” ou “apostólico” (Mt 10), composto do envio missionário e uma série de instruções e advertências sobre a missão. A Igreja distribui a leitura desse discurso ao longo de três domingos seguidos, um dado que ilustra a importância que lhe vem atribuída – 11º, 12º e 13º domingos do tempo comum no ano A. Por ocasião da solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo, a liturgia do 13º domingo será saltada, neste ano.

O discurso missionário é o segundo dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus no Evangelho Mateus, o evangelista que mais se preocupou em apresentar Jesus como o mestre que ensina com autoridade. Nesse discurso, em particular, são apresentadas as diretrizes da missão da Igreja para todos os tempos e lugares. Sensível ao Espírito Santo, ela deve aplicá-las a cada realidade conforme as circunstâncias e exigências de cada época histórica. Para compreender melhor o texto de hoje, é importante recordar também o que afirma o versículo que o antecede, o qual sintetiza a missão de Jesus até então: «Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade» (9,35). O que Jesus irá fazer nos versículos seguintes, correspondentes ao evangelho de hoje, é habilitar os seus discípulos como cooperadores da sua missão, para fazer o mesmo que ele fazia. E o que ele fazia era proclamar o Evangelho do Reino, cujo efeito primordial é a humanização do mundo.

Ao longo dos Evangelhos, podemos perceber que são sempre as situações concretas que motivam a ação e a pregação de Jesus. Ele nunca parte de meras abstrações, mas da realidade concreta, a partir do que via e sentia. O texto de hoje é uma boa demonstração disso. Olhemos, então, para o início, compreendendo os três primeiros versículos: «Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: (v. 36) “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. (v. 37) Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”» (v. 38). A itinerância da atividade de Jesus (Mt 9,35) lhe permitia conhecer com profundidade as situações em que o povo se encontrava. Seu olhar nunca era superficial, mas sempre profundo, e amparado na realidade. Por isso, suas propostas eram e continuam sendo tão concretas para sanar qualquer situação de ameaça à vida e à dignidade que lhe é inerente.

Como mostra o texto, Jesus contempla um povo abandonado, oprimido e maltratado; é isso o que significa a expressão «as multidões estavam cansadas e abatidas»; não se trata de um cansaço físico e desânimo, apenas, mas de uma situação deplorável de total abandono e miséria, consequência da indiferença, ganância e exploração. A comparação com ovelhas que não têm pastor é a prova disso. Com efeito, para a mentalidade semita, a ovelha era considerada o animal símbolo de vulnerabilidade e dependência; não possuía nenhum mecanismo próprio de defesa; por isso, dependia essencialmente dos cuidados dos pastores. Logo, ovelha sem pastor é imagem de completo abandono. Com essa imagem, portanto, Jesus descreve a situação do povo e, ao mesmo tempo, faz uma dura denúncia às classes dirigentes da época, tanto religiosas quanto políticas, responsáveis pelo abandono do povo. Em todo o antigo oriente, a figura do pastor designava a pessoa que possuía autoridade sobre as demais; em Israel, particularmente, era aplicada às lideranças políticas e religiosas, principalmente reis e sacerdotes, desde o Antigo Testamento.

Ao ver as multidões abandonadas, Jesus compadeceu-se, ou seja, sentiu compaixão, misericórdia, o que não se trata de um mero sentimento, mas de algo muito mais profundo. O evangelista emprega aqui o verbo que expressa a máxima misericórdia de Deus (em grego: σπλαγχνίζομαι – splanknízomai), que significa literalmente “contorcer-se nas entranhas”. Para a mentalidade hebraica, as entranhas ou vísceras constituem o núcleo mais íntimo e profundo do ser humano. É uma realidade mais profunda até do que o coração, e é de lá que brota a misericórdia de Deus. E, mais do que sentimento, a misericórdia de Deus é ação libertadora. Portanto, é do núcleo mais íntimo de Deus que é desencadeada a missão, inicialmente de Jesus, e compartilhada por ele com toda a comunidade cristã, tendo em vista a libertação do povo abandonado e explorado pelos sistemas dominantes nos âmbitos da economia, da política e da religião. Em suma, se pode dizer que a missão nasce da compaixão, ou seja, da misericórdia de Deus, manifestada em plenitude na pessoa de Jesus, o seu Filho.

Compadecido com a situação das multidões, Jesus não se desespera nem se conforma; e é muito importante essa sua postura. Antes de tudo, ele reforça sua confiança no Pai, o dono da messe. Por sinal, a messe é outra imagem que Jesus aplica às multidões, a exemplo de ovelhas. Com efeito, a messe é a lavoura que está pronta para ser colhida, não pode mais esperar, pois corre o risco de se perder, caso a colheita não aconteça logo. Aplicada às multidões abandonadas, significa que aquela situação exigia uma atitude urgente, não podia mais esperar. Sem uma intervenção libertadora urgente, o povo perece. É importante que os discípulos e discípulas de todos os tempos tenham a sensibilidade de perceber as situações que necessitam de intervenção urgente, como a fome, as doenças, as manipulações ideológicas e tantos outros males, como Jesus identificou e não permaneceu indiferente. De fato, como mostra o relato, diante da situação contemplada, Jesus concilia a confiança no Pai com atitudes concretas: a designação de operários para a colheita, o que ele faz com o envio dos discípulos, transformados em apóstolos.

A messe é de Deus, quer dizer, é a Deus que o povo pertence, mas para que não se perca é necessária a colaboração humana. Por isso, o evangelista diz que «Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsar os espíritos maus e para curar todo tipo de doença e enfermidade» (10,1). A iniciativa de chamar os discípulos é uma advertência: o discipulado não é puro voluntarismo nem é hereditário, como era o sacerdócio do templo de Jerusalém; a iniciativa é sempre de Deus. Jesus está pondo em prática os efeitos da oração exigida antes: que os discípulos pedissem ao dono da messe que enviasse operários para a colheita. Como o enviado de Deus, por excelência, e intérprete autêntico da sua vontade, Jesus mesmo chama e envia, compartilhando com seus discípulos a mesma autoridade recebida de Deus, o seu Pai. 

A expressão sintetizadora da missão – «Expulsar espíritos maus e curar todo tipo de enfermidade» – é uma imagem que significa o compromisso dos discípulos e discípulas de Jesus, em todos os tempos, de lutar contra todo o tipo de mal que ameaça a vida humana em sua integridade. De fato, funciona como verdadeira síntese da missão libertadora que deve caracterizar a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus, e essa consiste essencialmente em eliminar o mal e aliviar as dores da humanidade. Dessa missão depende a humanização do mundo. Por isso, não deve ser confundida com propaganda religiosa nem proselitismo. Trata-se do esforço da comunidade cristã para abolir as forças do mal presentes no mundo, tornando a vida sempre mais viável, com menos dor e sofrimento.

O evangelista faz questão de citar nominalmente os primeiros enviados de Jesus, antes de tudo para mostrar que ele chama pelo nome, envolve-se com a pessoa chamada, nutrindo uma verdadeira intimidade. Assim diz o texto: «Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, Filipe e Bartolomeu, Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus» (10,2-3). Aqui, pela primeira e única vez, Mateus chama os doze primeiros discípulos de apóstolos, um termo que significa “enviados”. Literalmente, apóstolo é uma pessoa enviada para representar fisicamente aquele que lhe enviou, inclusive em processos judiciais, se for necessário. Mas, antes de serem apóstolos, os que Jesus chama são discípulos. Também é a primeira e única vez em que ele elenca os nomes dos doze, começando por Simão, chamado Pedro, e terminando com Judas, o qual se desintegrará do grupo após a traição, durante o processo. Não se trata de uma lista hierárquica, bem como a passagem da designação de discípulos para apóstolos não é uma promoção, mas um compromisso: é a responsabilidade de todos os cristãos e cristãs de estar com Jesus e, ao mesmo tempo, ser a sua presença no mundo, especialmente restituindo vida e dignidade a quem se encontra em estado de abandono.

Após o elenco dos nomes, o evangelista passa às atribuições dos doze, enquanto enviados, iniciando a sequência de instruções que se estenderá por todo o décimo capítulo, e hoje temos a oportunidade de ler as primeiras: «Jesus enviou estes doze com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!’» (10,5-6). As primeiras recomendações dizem respeito à circunscrição da primeira missão: os discípulos devem ir exclusivamente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Contudo, a designação de Israel como primeiro destinatário da missão apostólica não significa um privilégio histórico, tampouco uma tentativa de reconstrução do povo da aliança, como algumas interpretações apontam. Antes de tudo, trata-se de uma necessidade maior, uma verdadeira urgência. E foi assim que Jesus percebeu. Obviamente, Jesus não está excluindo os pagãos nem os samaritanos dos seus cuidados; de fato, também eles serão contemplados posteriormente pela missão cristã, como todas as nações da terra (Mt 28,19-20).

Mais do que qualquer outro povo, eram os israelitas que estavam abandonados, o que significa que, de todos os dirigentes do mundo, eram os líderes de Israel os mais pervertidos. Por isso, era Israel o povo mais abandonado e, consequentemente, o mais necessitado de libertação e humanização. Seus líderes tinham fugido das responsabilidades de cuidar do povo, o que já era motivo de denúncias há muitos séculos, desde os antigos profetas, a exemplo de Ezequiel, que denunciou os pastores que cuidaram de si mesmos, em vez de cuidar do rebanho (Ez 34). Ora, de todas as formas de dominação, a pior é a dominação religiosa, e Jesus tinha consciência disso. Por isso, sua primeira iniciativa foi promover a libertação de quem estava sendo explorado em nome de Deus. Como as ovelhas da casa de Israel estavam literalmente perdidas, abandonadas e sem pastor, Jesus assume o pastoreio e o estende aos seus discípulos, a fim de sanar uma situação que exigia atitudes urgentes.

Na sequência, o evangelista descreve o conteúdo e o agir dos apóstolos, deixando claro que não se trata de uma teoria ou doutrina, mas de um anúncio acompanhado de consequências práticas: «Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios» (10,7-8a). A mensagem que os discípulos devem anunciar é a mesma de Jesus, desde o início do seu ministério (Mt 4,17): a chegada do Reino dos Céus; o “estar próximo”, aqui, não significa a temporalidade, mas a materialidade: na pessoa de Jesus, o Reino se instaura e, enquanto apóstolos, os discípulos são uma extensão da sua pessoa, logo, neles também o Reino começa a se realizar. Esse Reino é dos Céus porque sua origem é o amor misericordioso de Deus, mas começa já aqui, onde há pessoas abandonadas e exploradas, para quem a libertação não pode mais ser adiada. Como a missão compreende palavras e ações, também os gestos que os apóstolos devem cumprir são os mesmos que Jesus já estava cumprindo (Mt 4,23; 8,16; 9,35), o que já tinha sido antecipado no início deste segundo discurso (Mt 10,1): curas, ressurreição, purificação e expulsão de demônios, ações que evidenciam um mundo sem males, um mundo onde a vida prevalece, ou seja, um mundo humanizado.

Os discípulos-apóstolos ou missionários são responsáveis pela transformação do mundo, sanando as multidões abandonadas e exploradas, restituindo vida e dignidade. Isso só é possível colocando em prática o programa de Jesus. Por isso, o evangelista não se cansa de dizer que Jesus envia os seus discípulos para anunciar e realizar o mesmo que ele fez e pregou, sem distorções, mas também sem esquecer dos sinais dos tempos. A última recomendação do evangelho de hoje diz respeito à gratuidade do Reino: «De graça recebestes, de graça deveis dar!» (8b). Os discípulos e discípulas de Jesus não são mercadores do sagrado, como se tinham tornado as antigas lideranças de Jerusalém, uma prática que continua presente hoje em muitos templos e ambientes digitais. Eles são semeadores do amor compassivo de Deus, e é disso que o mundo necessita para tornar-se plenamente humanizado.

Tudo o que a comunidade cristã tem a oferecer ao mundo é o que recebeu gratuitamente de Jesus. E tudo o que Jesus recebeu do Pai, como dom, compartilhou com os seus seguidores e seguidoras que, por sua vez, também devem compartilhar gratuitamente com o mundo para sanar as situações de degradação e negação da vida, muitas vezes provocadas por ações e omissões de falsos pastores. É necessário, portanto, olhar o mundo com o mesmo olhar de Jesus, sentir compaixão e buscar a transformação, na gratuidade do amor misericordioso de Deus.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

quinta-feira, junho 11, 2026

BARNABÉ: O FIADOR DE PAULO NA IGREJA NASCENTE

 

Neste dia em que a Igreja celebra a Festa de São Barnabé, reconhecendo-o como verdadeiro apóstolo, apesar de não ter composto o “grupo dos doze”, convém recordar alguns pequenos detalhes que demonstram a grandeza deste personagem.

As primeiras informações sobre ele no Novo Testamento, considerando a ordem canônica dos livros, aparecem em At 4,36-37. Nessa passagem, são revelados alguns dados biográficos básicos, como o nome e o lugar de origem, informações que poderiam servir até como atestado de idoneidade na antiguidade. Lembremos que uma das razões para Jesus ser desacreditado entre certas castas da época foi justamente o fato de ser natural de Nazaré, um lugar sem prestígio, de onde não deveria sair “coisa boa” (cf. Jo 1,46). Portanto, quando, na Bíblia, se diz o nome de uma pessoa e seu lugar de origem revela-se a sua identidade.

Este personagem chamava-se José, um nome prestigioso para a cultura bíblica, da mesma raiz consonantal de Josué e de Jesus – Js. Seu lugar de origem era a ilha de Chipre, o que não pesava positiva nem negativamente. Ele recebeu o apelido de Barnabé, que significa literalmente “filho da profecia”, pelos apóstolos, o que revela proximidade com eles. Enfim, Barnabé era um judeu da diáspora que rapidamente aderiu ao movimento de Jesus, tornando-se o primeiro exemplo concreto de quem viveu profundamente o ideal cristão da partilha: “Ele tinha um campo, vendeu-o, trouxe o dinheiro e o depositou aos pés dos apóstolos” (At 4,37). Até então, o autor de Atos tinha apresentado essas atitudes como um ideal, sem mostrar um exemplo concreto de quem tinha feito tal experiência. Com Barnabé, o ideal se torna realidade.

A maior colaboração de Barnabé, no entanto, para a Igreja nascente, não foi sua generosidade caritativa, mas sua coragem de ser o “fiador” de Paulo. Ora, devido ao seu histórico de perseguidor, Saulo (Paulo) teve muita dificuldade de ser aceito pelos apóstolos, afinal ele “respirava ameaça” contra a Igreja (cf. At 9,1). Foi Barnabé, portanto, quem o apresentou aos apóstolos (cf. 9,27). Isso revela a credibilidade deste homem, descrito pelo autor de Atos como um “homem bom e cheio do Espírito Santo” (At 11,24). O Novo Testamento é muito econômico na aplicação do adjetivo “bom” (em grego: ἀγαθός – agathós) a pessoas, pois a bondade é uma característica essencialmente de Deus.

Se Paulo não tivesse sido apresentado aos apóstolos por um homem bom, dificilmente teria sido aceito. Diante disso, se pode dizer que a contribuição de Barnabé para a Igreja nascente foi inestimável. Sem dúvidas, fez um trabalho de bastidores, talvez muitas vezes, tenha sido o principal responsável por conter os ânimos “vulcânicos” de Paulo. Sem Barnabé, portanto, dificilmente a Igreja tivesse conhecido Paulo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS SÃO PEDRO E SÃO PAULO – Mt 16,13-19

Como tem acontecido nos últimos dois anos, também neste ano a Igreja no Brasil substitui a liturgia do décimo terceiro domingo do tempo co...