sexta-feira, junho 05, 2026

REFLEXÃO PARA O 10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 9,9-13 (ANO A)



Com a retomada do tempo comum, a liturgia dominical retoma também a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, como é característico do ano litúrgico vigente, identificado pela letra A, após a longa interrupção para a vivência do ciclo pascal com as solenidades que lhe seguem. Como este já é o décimo domingo, a leitura do respectivo Evangelho já se encontra bastante avançada. O texto proposto para hoje – Mt 9,9-13 – faz parte da seção narrativa intermediária entre o primeiro e o segundo discurso de Jesus nesse Evangelho, a saber, o discurso da montanha (Mt 5–7) e o discurso missionário (Mt 10,5–11,1). A alternância entre narrativa e discurso constitui uma das principais características literárias da obra mateana, além de revelar importantes elementos da sua teologia. Como acontece em todos os livros da Bíblia, as estratégias literárias e narrativas empregadas estão sempre a serviço de uma intencionalidade catequética e teológica, de modo que não importa apenas o que está escrito, mas também a maneira como se escreveu é altamente relevante. Com os discursos, o evangelista mostra Jesus ensinando, apresentando sua mensagem libertadora, assumindo sua identidade e autoridade de mestre; com as narrativas, ele mostra Jesus em ação, manifestando o Reino dos Céus mediante o seu agir misericordioso, se relacionando com as pessoas, libertando-as e humanizando-as. Desse modo, o evangelista apresenta Jesus como um Messias que diz e faz, promete e cumpre, com total coerência entre o discurso e a prática.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar as características da seção narrativa da qual é tirado o texto de hoje (Mt 8,2 –10,4), para compreendê-lo melhor. Trata-se de uma seção marcada por uma série de curas, começando com um leproso e terminando com um mudo. De fato, nesse intervalo narrativo foram realizadas diversas atividades terapêuticas – curas –, que são gestos de libertação e humanização, nas quais Jesus, movido por seu amor misericordioso, restitui vida e dignidade às pessoas que se encontram oprimidas, tanto por condicionamentos físicos quanto pelos preconceitos e segregações impostas pela sociedade e a religião da época. É nesse contexto que se insere o evangelho deste domingo, o qual corresponde ao chamado de Mateus e suas consequências imediatas: o banquete festivo com cobradores de impostos e pecadores, a crítica dos fariseus e a declaração de Jesus sobre a misericórdia como essência do seu agir e finalidade principal da sua missão. É importante ter em mente tudo isso, pois o chamado de Mateus se insere num contexto de demonstração da grande misericórdia de Deus pela humanidade, e assim acontece com toda pessoa chamada a colaborar na edificação do Reino de Deus, que o Primeiro Evangelho prefere chamar de Reino dos Céus, por opção teológica.

Feita a devida contextualização, olhemos para o texto, buscando a sua compreensão. E começamos pelo primeiro versículo, que é muito significativo e até impactante: «Partindo dali, Jesus viu um homem chamando Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!”. Ele se levantou e seguiu a Jesus» (v. 9). Como se vê, Jesus se encontra em ação, andando, cumprindo sua missão de enviado de Deus como profeta itinerante. Isso lhe permite contemplar a realidade, ver as situações e, consequentemente, intervir para transformar, mediante o amor misericordioso. Enquanto passa, Jesus vê um homem chamado Mateus. É importante fazer algumas considerações a propósito desse primeiro dado. Ora, durante muitos séculos, esse episódio foi considerado um relato autobiográfico, por causa desse primeiro versículo, pois atribuía-se a autoria do Primeiro Evangelho ao próprio apóstolo Mateus, sem qualquer consideração crítica. Atualmente, considera-se essa teoria superada. Embora este Evangelho seja fruto de tradições ligadas ao apóstolo Mateus, é quase certo que ele não foi o escritor direto, tendo em vista a época em que a obra foi escrita: anos 80 do primeiro século, quando já não havia mais nenhum apóstolo vivo. Inclusive, nos outros evangelhos que narram esse mesmo episódio, o personagem aqui chamado de Mateus recebe o nome de Levi (Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). O nome Mateus significa “Dom de Deus” e, aqui, prefigura todas as pessoas acolhidas e chamadas para integrar e edificar o seu Reino de Deus. De todas essas pessoas, independentemente da época, exige-se que se reconheçam necessitadas da misericórdia de Deus. A autossuficiência e presunção de sentir-se justo são impedimentos para entrar no Reino e para tornar-se construtor dele.

O chamado de Mateus segue o modelo de vocação dos quatro primeiros discípulos chamados por Jesus, as duas duplas de irmãos pescadores: Simão – chamado Pedro – e André, Tiago e João (Mt 4,18-22; Mc 1,16-21; Lc 5,1-11). Isso evidencia a importância do personagem, pois a tradição sinótica narra o chamado vocacional de apenas cinco dos doze apóstolos: os quatro pescadores e ele, Mateus – o mesmo Levi dos relatos de Marcos e Lucas. Jesus passa, vê e chama. E a pessoa chamada deixa o que estava fazendo para segui-lo. Jesus não vai no espaço religioso, como a sinagoga, por exemplo, para recrutar as pessoas melhores, as mais devotas ou justas para o seu seguimento. Ele chama cada pessoa no seu cotidiano, na sua situação existencial própria, sem exigir um atestado de boa reputação ou conduta. Como eram pescadores os quatro primeiros, dois deles estavam lançando as redes ao mar, enquanto os outros dois estavam consertando as redes, quando Jesus passou e os chamou. No caso de Mateus, como era cobrador de impostos, estava sentado na coletoria quando Jesus passou, viu-o e o chamou, com o clássico imperativo vocacional: “segue-me” (em grego: ἀκολούθει μοι – akolúthei moi). Esse verbo não significa um mero caminhar atrás, mas um seguimento convicto e pleno. A primeira grande novidade do texto é, portanto, a profissão de Mateus: ele era um cobrador de impostos, um publicano.

Apesar do bem-estar econômico que a profissão propiciava, os cobradores de impostos (em grego: τελῶναι – telonai) eram pessoas totalmente rejeitadas em Israel. Eles eram colaboradores diretos do poder opressor, que na época era o império romano. Além das altas taxas exigidas pelo império, eles ainda cobravam grandes quantias a mais, enriquecendo ilicitamente às custas do povo mais pobre, principalmente. Além do salário, portanto, ainda retinham para si o que cobravam em excesso. Por isso, eram odiados pelo povo e totalmente excluídos da religião, pois a condição de servidores do poder dominante não permitia que observassem a Lei. Não eram sequer classificados entre os pecadores comuns. Eram tratados como ladrões públicos, tão rejeitados quanto as prostitutas, na época. Por isso, tanto é surpreendente a iniciativa de Jesus ao chamá-lo quanto a decisão de Mateus: «Ele se levantou e seguiu a Jesus». Aqui, percebemos a grande transformação provocada pelo olhar e o chamado inclusivo de Jesus. Mateus estava sentado, numa posição que indica comodismo e bem-estar, quer dizer que estava satisfeito com o que fazia e com seu modo de viver, até então. De repente, se põe em pé e passa a seguir Jesus. Mais do que um movimento corporal, o evangelista está mostrando uma mudança de estilo de vida. De uma vida cômoda e fraudulenta, ele passa a uma vida itinerante, desafiadora, pois passou a ser seguidor de alguém que não tinha sequer onde repousar a cabeça (Mt 8,20). Ele deixou o bem-estar econômico para viver da providência, em sinal de plena confiança em Jesus. Ele deixou tudo, abandonou a profissão para viver uma nova vida, tornando-se um autêntico discípulo de Jesus. Certamente, ele se sentiu amado pelo olhar e pelas palavras de Jesus. Ele recebeu o chamado como fonte de sentido para a vida e ressignificou a sua existência daquele momento em diante.

Para marcar o início da sua nova vida, Mateus ofereceu uma festa, um grande banquete. Esse banquete, por sinal, antecipa e sintetiza o modelo de Igreja desejado pelo evangelista Mateus para sua comunidade e as comunidades de todos os tempos, que é o modelo querido pelo próprio Jesus. Participaram da festa Jesus com seus discípulos e os antigos colegas de profissão de Mateus, com outras categorias de pecadores, conforme a classificação imposta pela religião da época, como informa o texto: «Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos» (v. 10). O chamado de Mateus abriu as portas para outras pessoas iguais a ele também se encontrarem com Jesus e, assim, experimentarem a misericórdia de Deus, sentindo-se acolhidas e amadas por ele. Com isso, quebram-se barreiras, superam-se distâncias. No mundo semita, a refeição não significa apenas uma simples degustação e consumo de alimentos; significa partilhar a própria vida. Sentar-se à mesa com alguém, conforme a mentalidade bíblica, é sentir-se próximo, é um gesto de intimidade. Na partilha dos alimentos e bebidas, todos tocavam na mesma comida e nos mesmos utensílios. Ao sentar-se com os cobradores de impostos e pecadores, portanto, Jesus se tornava impuro perante a Lei. Inclusive, esse era um dos principais motivos pelos quais ele era tão criticado pelos fariseus, como mostra o versículo seguinte. O importante para Jesus, no entanto, era acolher, transmitir amor, humanizar as pessoas. Por isso, ele não se importava com os rótulos e críticas que recebia.

Já fazia tempo que o comportamento de Jesus vinha sendo observado e denunciado pelos fariseus e outros grupos defensores da moral e dos bons costumes da época. Mas parece que chamar um cobrador de impostos para o seu seguimento e comer na casa dele com outros cobradores de impostos e pecadores foi visto como ápice de seu mau comportamento, conforme a mentalidade das pessoas mais devotas do seu tempo. Eis o que diz o evangelista: «Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”» (v. 11). Como se vê, Jesus é questionado e denunciado por causa de suas companhias, por se juntar com quem a religião e a sociedade tinham excluído. Enfim, por suas escolhas, Jesus estragava sua própria reputação perante as pessoas consideradas de bem na sua época, como eram os fariseus. Inclusive, os fariseus poderiam questioná-lo diretamente, mas não o fazem por covardia, e questionam os discípulos. No entanto, «Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes”» (v. 12). A pergunta foi feita aos discípulos, mas Jesus se antecipa para respondê-la, afinal, o tema do questionamento era sua própria pessoa com seu comportamento. E ele responde com um provérbio popular de grande circulação na época, que põe o médico a serviço dos doentes, como parábola do seu agir misericordioso em favor dos mais necessitados de acolhida, compreensão, perdão e amor. Nisso, ele se apresenta como o médico de um mundo doente, ferido, carente de humanização. E a doença mais grave identificada por ele foi a hipocrisia religiosa.

Na verdade, a resposta de Jesus à crítica dos fariseus é praticamente uma síntese da sua mensagem e da sua missão. Começa com um provérbio com valor de parábola (v. 12), passa por uma citação do profeta Oséias e termina com um esclarecimento do que ele veio fazer no mundo: «Aprendei, pois, o que significa: “Quero misericórdia e não sacrifício”. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”» (v. 13).  A citação de Oséias é exclusiva do Evangelho de Mateus. Quando Marcos e Lucas narram a vocação de Levi, personagem correspondente a Mateus no Primeiro Evangelho, eles não citam o texto profético. Isso revela uma familiaridade maior do primeiro evangelista com o Antigo Testamento, o que era também uma necessidade da sua comunidade. O comportamento de Jesus revela o rosto misericordioso do Pai, e Oséias foi o profeta que mais antecipou essa revelação, com sua pregação e sua própria experiência matrimonial. Com essa citação – “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6) –, Jesus revela quem é Deus e denuncia a hipocrisia dos fariseus: a religião deles, baseada no cumprimento dos preceitos e carente de misericórdia, não estava de acordo com a vontade de Deus. Acima de tudo, Deus quer amor, compaixão e misericórdia, ao invés de ritos, preceitos e sacrifícios. Com isso, ele indica que a misericórdia deve se sobrepor a qualquer rito ou preceito na comunidade cristã. Na conclusão, Jesus dá a razão da sua vinda ao mundo, o que justifica o seu comportamento: «eu não vim ao mundo para chamar os justos, mas os pecadores» (v. 13b). Ora, se sua missão é salvar, como indica o significado do seu nome – Jesus = O Senhor salva. É justo, portanto, que ele busque quem era considerado perdido, e foi isso o que ele fez em sua vida terrena. E a Igreja, como continuadora da sua missão, deve também fazer o mesmo. Por isso, é necessário agir com misericórdia, acima de tudo. Só se converte quem antes se sente amado, acolhido, compreendido. Foi assim que Mateus se sentiu quando Jesus olhou para ele. Com efeito, Deus não perdoa o pecador porque esse se converte, o perdoa porque ama, e só se converte quem se sente amado.

É muito relevante que, neste domingo de retomada do tempo comum, o evangelho seja exatamente esse. É um texto que nos adverte sobre o que é essencial na vida de uma comunidade cristã, recordando-nos que nenhum tipo de exclusão e preconceito condiz com a mensagem de Jesus. O chamado de Mateus é um alento de esperança. Significa mais uma demonstração de que o Reino dos Céus inaugurado por Jesus é aberto a todos e todas. Ninguém deve se sentir excluído e muito menos autorizado a excluir alguém. E, ainda inebriados pela beleza e sofisticação de tantas celebrações e cortejos em honra ao Corpo e Sangue de Jesus Cristo, a refeição festiva celebrada na casa de Mateus vem nos recordar o verdadeiro tipo de banquete em que o Senhor realmente quer se fazer presente, seja como alimento, seja como convidado.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

quarta-feira, junho 03, 2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO – ANO A



“PORQUE HÁ UM SÓ PÃO, NÓS TODOS SOMOS UM SÓ CORPO” (1Cor 10,17)

(Dt 8,2-3.14b-16a; Sl 147; 1Cor 10,16-17; Jo 6,51-58)

1.     Introdução

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo começou a ser celebrada na Bélgica, com o objetivo de reafirmar a presença real de Jesus na Eucaristia e promover a devoção ao Santíssimo Sacramento. Foi instituída oficialmente no século XIII pelo papa Urbano IV e se popularizou rapidamente em todo o mundo. Apesar de já ser celebrada no tempo comum, esta festa pode ser considerada a verdadeira conclusão do ciclo pascal e uma espécie de extensão da Quinta-Feira Santa. Por vários séculos, foi marcada por um aspecto mais devocional e apologético, tendo a solene e triunfante procissão como seu ponto mais alto. Com o passar do tempo, o sentido teológico foi aprimorado, sobretudo com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

Ao celebrar hoje esta solenidade, a Igreja reafirma e proclama solenemente a sua fé na Eucaristia como memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo, como alimento que sustenta e conduz para a vida eterna, e como presença permanente do Senhor junto a seu povo. Por isso, somos convidados neste dia a refletir também sobre os efeitos da Eucaristia celebrada em nossas comunidades e na vida de cada pessoa. O Senhor quis permanecer presente entre nós como alimento e é, portanto, alimentando-se dele, o único pão, que nos tornamos um único corpo.

2.     Compreendendo a Palavra

A primeira leitura de hoje é tirada do segundo dos três discursos de Moisés que compõem o livro do Deuteronômio (Dt 4,44–28,68). No contexto da leitura, o povo de Israel já se encontra às portas da terra prometida, após a longa e difícil caminhada pelo deserto. Em breve, o povo terá fartura, ao entrar na tão sonhada terra onde corre leite e mel. Nesse sentido, Moisés o exorta a não esquecer a providencial proteção de Deus, desde a saída do Egito, terra de escravidão, até a experiência do deserto (vv. 2.14). Ora, no deserto, Israel passou por diversas provações, como a fome, a sede, o perigo dos animais selvagens, como as serpentes, e todo o tipo de dificuldade. Sem a ajuda de Deus Israel não teria resistido a tudo isso (vv. 2-3.15).

Por isso, Moisés pede que o povo recorde tudo o que Deus fez em seu favor (v. 2.14). E de tudo o que Deus fez por Israel no deserto, o que o povo tinha mais vivo na memória era o dom do alimento, o maná (v. 16).  Contudo, apesar de importante no contexto do deserto, o maná era um alimento passageiro e supria apenas uma necessidade do povo: a fome de pão. E, como não se vive somente de pão, o verdadeiro nutrimento de Israel no deserto não foi apenas o maná, mas a força de toda a palavra que saía da boca de Deus (v. 3). Desse modo, o convite à recordação é acompanhado da exortação à observação dos mandamentos, que também são expressões da palavra que sai da boca de Deus e, portanto, fazem o homem viver.

A segunda leitura é tirada da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, o livro do Novo Testamento que contém o testemunho mais antigo e explícito sobre a fé da Igreja primitiva na Eucaristia como presença do Cristo ressuscitado na comunidade e comunhão com ele, mediante os sinais do pão e do vinho, consagrados e compartilhados fraternalmente.

O trecho lido nesta solenidade é muito breve, mas bastante claro, além de interpelante. Ora, quando Paulo escreveu essa Carta, a unidade da comunidade de Corinto estava seriamente ameaçada, por causa de divisões e rivalidades. Diante disso, o apóstolo recorda o sentido da Eucaristia como fonte de comunhão com Cristo e dos cristãos entre si. As referências ao “cálice da bênção” e ao “pão que partimos” (v. 16) evocam, obviamente, a última ceia de Jesus com seus discípulos, às vésperas da sua paixão, e demonstram que a celebração fraterna como memória daquela ceia já era uma tradição consolidada na comunidade de Corinto (cf. 1Cor 11,23-26).

O chamado à unidade parte da certeza de que há um só pão, que é Jesus Cristo (v. 17). Quem se alimenta deste pão, forma um único corpo, entrando em comunhão profunda com o Senhor e com os demais que participam do mesmo banquete. A comunhão com o corpo de Cristo, portanto, gera uma união profunda, não apenas com Jesus, mas também dos cristãos entre si. Daí, podemos dizer que Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis.

O evangelho de hoje corresponde à conclusão do chamado “Discurso sobre o pão da vida”, localizado no sexto capítulo do Evangelho de João (Jo 6,22-58). Esse discurso, que constitui a mais rica catequese eucarística do Novo Testamento, está ambientado na sinagoga de Cafarnaum e funciona como uma explicação teológica do milagre da multiplicação dos pães. Trata-se de um dos textos mais profundos de todo o Evangelho de João, inspirado em dois importantes acontecimentos do Antigo Testamento: a multiplicação dos pães, pelo profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), e o episódio do maná no deserto (Nm 11,13.22).

A multiplicação dos pães tinha deixado a multidão beneficiada bastante entusiasmada com Jesus. Inclusive, por causa do milagre, tinham reconhecido Jesus como “o Profeta que vem ao mundo” (v. 6,14). No entanto, percebendo que não estava sendo bem compreendido, Jesus procurou explicar a sua verdadeira identidade e missão. Por isso, o ponto alto do discurso explicativo é a autoafirmação de Jesus como “o pão vivo descido do céu” (v. 51).

Contudo, de acordo com o contexto do evangelho, ainda não se trata de uma referência ao pão eucarístico repartido na comunidade. Essa declaração indica, antes de tudo, que Jesus é o Verbo encarnado e o único que revela o Pai com perfeição. Logo, para alcançar a vida eterna é indispensável fazer experiência com ele, comendo a sua carne, o que significa assimilar a sua própria vida e acolher o dom do Espírito que ele comunica junto com o Pai. Para os judeus que o tinham escutado, a afirmação de Jesus como pão descido do céu pareceu embaraçante e até escandalosa (v. 52). Afinal, de alimento descido do céu, eles só tinham como referência o antigo maná comido pelos antepassados no deserto, e sabiam que era um alimento perecível (v. 58), ou seja, seus efeitos eram passageiros: saciava por um certo tempo, mas eles sentiam fome de novo.

Ao falar de um alimento que sacia para sempre, Jesus desperta curiosidade e embaraço, ao mesmo tempo, pois ele mesmo se apresenta como esse alimento, oferecendo sua carne, que significa o dom da sua vida. Trata-se de um ensinamento totalmente novo, inesperado pelo seu auditório. A declaração solene “em verdade, em verdade” (v. 53), indica a importância do que está sendo afirmado. A referência paralela à carne e ao sangue significa a condição humana em sua totalidade. É impressionante o salto de qualidade: de doador de um alimento perecível (Jo 6,1-13), em pouco tempo ele se apresenta como o próprio alimento para a vida eterna, doando-se completamente. E só participa da vida eterna quem o recebe como alimento.

Pela participação na vida de Jesus em sua totalidade, o ser humano recebe o dom da ressurreição (v. 54), pois é a assimilação da sua vida que gera uma comunhão indestrutível com ele. A Eucaristia, enquanto sacramento, é a expressão concreta desta comunhão. Através dela, temos a oportunidade de viver com Jesus uma relação semelhante à dele com o Pai (v. 57), o que deve gerar também a construção de relações saudáveis e fraternas na comunidade.

3.     Atualização

Um dos principais ensinamentos da liturgia da palavra de hoje é a certeza de que Deus alimenta e nutre as suas criaturas. A primeira leitura recorda que, no deserto, Deus alimentou o seu povo com a força da sua palavra e com o maná, considerado uma prefiguração da Eucaristia desde as primeiras gerações cristãs. No evangelho, Jesus mesmo, na totalidade da sua pessoa, se auto apresenta como o alimento doado por Deus para a vida do mundo. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo ensina que o pão repartido na comunidade é alimento e vínculo de união com Jesus Cristo e dos cristãos entre si. Diante disso, devemos refletir sobre a eficácia da Eucaristia enquanto alimento em nossas vidas. Jesus se fez alimento entregando sua vida por amor ao Pai e à humanidade.

Tanto a Palavra de Deus quanto a vida cotidiana atestam que o alimento é uma categoria essencial à vida. Assim, devemos sentir fome de Deus para o buscarmos como alimento que sacia e fortalece. Mas não podemos esquecer a fome de pão que continua matando milhões de pessoas no mundo e em nosso país. E, como cristãos, não podemos aceitar essa realidade. Devemos então contribuir, cada um à sua maneira, para que todas as pessoas sejam alimentadas de pão material e de tudo o que sai da boca de Deus, cujo ápice é a Eucaristia, corpo doado de Jesus, a Palavra que se fez carne.

4.     Conclusão

Além de saciar nossa fome e sede de Deus, a Eucaristia acende em nós o desejo de vida eterna; quando dela participamos, livres e conscientes, compreendemos melhor o sentido da vida, a ponto querermos torná-la eterna. E é somente a comunhão com a pessoa de Jesus Cristo que pode eternizar nossa vida. Sendo a Eucaristia sacrifício e refeição, quando dela participamos assimilamos o Senhor em nossa vida, entramos em comunhão profunda com ele e com a comunidade reunida, e nos abrimos para a eternidade, antecipando nossa participação no banquete celestial, na consumação dos tempos.

Não há sentido participar da refeição fraterna da comunidade sem a disposição de viver como irmão ou irmã. Compreendemos o sentido da eucaristia e fazemos verdadeira comunhão, quando assimilamos a vida de Jesus na nossa, vivendo à sua maneira. A celebração de hoje constitui um momento privilegiado para recordar a unidade entre as duas mesas: a da palavra e a do pão. Jesus é a Palavra que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). E ele fez da sua vida um dom, entregando-se totalmente por amor. Por isso, é importante que nossa fé na Eucaristia se traduza também em gestos concretos de amor e doação.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, maio 30, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Jo 3,16-18 (ANO A)

 


No primeiro domingo depois de Pentecostes, a Igreja celebra a solenidade da Santíssima Trindade. Os textos bíblicos empregados nesta solenidade se alternam conforme a dinâmica do ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, é Jo 3,16-18. Ao contrário das solenidades pascais, instituídas desde os primeiros séculos do cristianismo, essa festa já foi introduzida no calendário litúrgico em um período mais tardio. Em alguns países, começou a ser celebrada ainda por volta do séc. oitavo, mas só foi instituída oficialmente como festa universal pelo papa João XII, já no ano de 1334, como resposta a alguns movimentos heréticos que negavam a divindade de Jesus e/ou do Espírito Santo. Nela, recordamos o mistério da comunhão de amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Trindade Santa, em cujo nome somos batizados, batizadas e, consequentemente, salvos e salvas. É muito significativo que esta solenidade seja celebrada logo no primeiro domingo após Pentecostes. Como se sabe, em Pentecostes acontece o verdadeiro nascimento da Igreja. Desse modo, a Solenidade da Santíssima Trindade vem indicar que toda a ação da Igreja é trinitária, a começar pelo batismo, que se celebra em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Portanto, é em nome da Santíssima Trindade que ingressamos e participamos da comunidade cristã. Isso faz da comunidade o lugar privilegiado de comunhão com o Deus que é também comunidade. 

Como sempre, a nossa reflexão será pautada exclusivamente pelo evangelho, sem levar em consideração as afirmações dogmáticas a respeito da Santíssima Trindade. Por isso, ao invés de buscar definições e explicações para o mistério do Deus Uno e Trino, no qual cremos, procuraremos contemplar e assimilar a sua principal característica – o amor – revelada por Jesus, de acordo com o texto evangélico que a liturgia propõe neste ano: Jo 3,16-18. Apesar de curto, composto de apenas três versículos, esse texto possui uma profundidade e riqueza extraordinárias, como veremos no decorrer da reflexão. Como sempre, para o texto ser mais bem compreendido, é necessário conhecer o seu contexto, como faremos agora. Ora, esse texto está localizado ainda no início do Quarto Evangelho; faz parte do expressivo diálogo entre Jesus e Nicodemos, em Jerusalém. Naquela ocasião, Jesus se encontrava em Jerusalém por ocasião da festa da “páscoa dos judeus” (Jo 2,13.23). Durante sua estadia na grande cidade, Jesus realizou muitos sinais, despertando, além de oposição nas autoridades, adesão ao seu nome e curiosidade em alguns, como Nicodemos, com quem desenvolveu um prolongado e rico diálogo (Jo 3,1-21). Esse diálogo se desenvolve em três momentos: o reconhecimento da autoridade de Jesus por Nicodemos (3,1-3); a explicação de Jesus que para acolhê-lo como enviado do Pai é necessário nascer do alto (3,4-8), e a descrição do projeto divino de salvação (3,9-21). Embora se trate de um diálogo, Nicodemos pouco fala; a palavra é praticamente monopolizada por Jesus; Nicodemos quase só escuta. Inclusive, no texto de hoje só temos palavras de Jesus, segundo o evangelista.

E o evangelista descreve Nicodemos como um judeu importante, pertencente ao grupo dos fariseus (Jo 3,1), profundo conhecedor da Lei (Jo 7,50-52), e curioso pela novidade de Jesus. Sua curiosidade para conhecer melhor a mensagem de Jesus revela sinceridade e respeito, inclusive o reconhecimento de que Jesus “vem da parte de Deus” (Jo 3,2), o que muitos fariseus tinham dificuldade de reconhecer, conforme as informações fornecidas pelos quatro evangelhos. A leitura atenta do texto em seu conjunto (Jo 3,1-21) revela que Nicodemos não estava satisfeito com a religião oficial. Parece que a imagem do Deus pregado pela sua religião já não lhe convencia plenamente. Certamente, ele desejava uma profunda renovação, embora ainda não estivesse pronto para romper com o sistema e aderir ao projeto de Jesus. A simples curiosidade, no entanto, já é um passo importante para quem estava plenamente atrelado à estrutura religiosa da época, inclusive como uma das lideranças. Nicodemos aparecerá em mais duas ocasiões no Quarto Evangelho, e sempre tomando posições a favor de Jesus: defendendo-o da ira dos fariseus quando ele tinha se apresentado como fonte de água-viva, em alusão ao Espírito Santo (7,37-52), e ajudando em seu sepultamento (19,39). Se já tinha interesse em conhecer Jesus pelo que ouvia a seu respeito, certamente o interesse aumentou ainda mais ao dialogar com ele.

Como último aspecto a nível de introdução e contexto, recordamos as circunstâncias em que Nicodemos procurou Jesus: foi na “calada da noite” (Jo 3,2). Esse detalhe tem sido alvo de muitas tentativas de explicação pelos estudiosos. A explicação mais conhecida afirma que Nicodemos procurou Jesus à noite para não ser visto pelos seus colegas de doutrina, ou seja, os fariseus e os líderes religiosos de Jerusalém, uma vez que Jesus não era bem visto por esse meio. De fato, para quem defendia a moral e os bons costumes na época, a companhia de Jesus era desaconselhada. Porém, é provável que o evangelista tivesse intenções mais teológicas do que cronológicas para registrar esse detalhe, o que não convém aprofundarmos aqui, já que não é componente do evangelho de hoje, mas apenas um elemento do seu contexto. A noite, como imagem das trevas, poderia representar, na perspectiva do evangelista, o mundo em que Nicodemos vivia, com a mentalidade religiosa vigente.

Passemos, finalmente, ao estudo do texto, o qual começa com a seguinte afirmação de Jesus: «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna» (v. 16). Jesus apresenta Deus como aquele que ama incondicionalmente, e ao mesmo tempo se autoapresenta como a prova desse amor incondicional, já que é, ele mesmo, o Filho único doado ao mundo. Essa é a primeira vez em que aparece o verbo do amor por excelência, no Quarto Evangelho: o verbo grego “agapáo” (ἀγαπάω), o qual aparecerá mais trinta e cinco vezes. Vale recordar que, de quatro verbos correspondentes a amar na língua grega, somente “agapáo”, empregado aqui, expressa um amor incondicional e gratuito, que compreende a doação da vida.  E assim é o amor de Deus: Ele deu seu Filho ao mundo sem exigir reciprocidade; a resposta de amor a Ele da parte do mundo, ou seja, de cada ser humano, é simplesmente consequência de sentir-se amado, o que leva inevitavelmente a crer no seu Filho. Com essa afirmação, Jesus praticamente inverte o primeiro mandamento da Lei mosaica, uma vez que é Deus quem ama cada pessoa sobre todas as coisas. O mundo, para a teologia joanina, pode significar toda a humanidade, a criação inteira e, ainda, a oposição a Jesus e sua mensagem de salvação. Aqui, significa toda a humanidade; o gênero humano como destinatário do amor incondicional de Deus, o Pai.

A primeira finalidade da oferta de Jesus – o Filho – pelo Pai ao mundo é a vida eterna, o que não se trata de uma promessa para o além, mas de um dom já para o presente. O adjetivo “eterna”, aqui, não significa a duração, mas a qualidade da vida de cada pessoa que acolhe o dom do Pai, Jesus. Não é um prêmio reservado para os bons após a morte, mas a vida ressignificada de quem faz uma experiência autêntica de encontro com Jesus, deixando humanizar por ele. É a vida autêntica e plena, a ponto de nem a morte poder destruí-la. À medida em que o ser humano encontra sentido para a sua existência, a sua vida se eterniza. E o sentido pleno da vida só pode ser encontrado quando se consegue viver autenticamente como imagem e semelhança do Criador, à maneira de Jesus. E a humanidade tem a oportunidade de fazer essa experiência, pois o dom do Filho é acessível a ela toda, e não apenas a um povo, como imaginavam muitas correntes do judaísmo da época. Com efeito, o amor de Deus é ilimitado e universal.

O segundo versículo reforça o que diz o primeiro com maior precisão: «De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele» (v. 17). A primeira frase, em forma de negação, enfatiza ainda mais o projeto de salvação de Deus, dizendo o que o Filho não veio fazer no mundo: condenar ou julgar. Na verdade, o verbo empregado pelo evangelista, na língua original texto, traduzido pelo lecionário como como condenar, significa mesmo é julgar (em grego: κρίνω – kríno), um detalhe que ressalta ainda mais a intensidade do amor de Deus. Com efeito, o ato de condenar é consequência de um prévio julgamento. E aqui Jesus deixa claro que o amor de Deus pela humanidade é tão grande, a ponto de não a levar sequer a julgamento. Considerando que o interlocutor de Jesus é um fariseu, observante impecável da Lei, essa frase adquire um sentido ainda mais forte: Deus não condena e nem julga ninguém; o versículo seguinte deixará isso ainda mais claro, ao afirmar que o julgamento é opção pessoal de cada um(a). O pecado da humanidade não diminui o amor de Deus; tudo o que ele quer é que a humanidade seja salva; por isso, deu o seu Filho único. Salvar significa libertar, e é a missão que o Pai confiou a Jesus, ao enviá-lo ao mundo.

A mensagem de Jesus é uma proposta de libertação plena para o ser humano. E a primeira prisão da qual Jesus quer libertar o ser humano é de uma concepção equivocada de Deus: a passagem da ideia de um Deus como juiz e patrão, para um Deus que é Pai e “louco” de amor pelos seus filhos. É importante recordar esse diálogo com Nicodemos é, na verdade, o primeiro discurso de Jesus no Quarto Evangelho; e sua primeira preocupação foi revelar que Deus é Pai e só tem amor para oferecer à humanidade. Enquanto nos dois primeiros versículos Jesus falou da iniciativa de Deus, neste terceiro ele fala da resposta humana ao dom de Deus, com suas respectivas consequências: «Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito» (v. 18). Assim como foi livre a oferta do Pai, também deve ser livre a resposta do ser humano. Não é mais o Deus do templo, que exigia ofertas e sacrifícios como contrapartida a favores e bênçãos; é o da Deus da liberdade e da vida. O verbo crer no Quarto Evangelho tem um significado muito profundo, relacionado ao amor, inclusive. Significa responder positivamente ao amor de Deus, assimilando o programa de vida de Jesus. Para quem faz essa opção, obviamente, não há condenação; se torna uma pessoa livre e realizada, com uma vida plena de sentido, ou seja, eternizada. Quem rejeita essa oferta, perde a oportunidade de dar sentido à vida, e é essa a condenação da qual fala Jesus aqui; não se trata de um castigo futuro, mas de uma opção pessoal de viver fora da comunhão com Deus ainda aqui na presente existência. Em outras palavras, o evangelista diz que a mensagem de Jesus exige uma tomada de posição pró ou contra.

A certeza que temos é de um Deus Pai, que ama a humanidade incondicionalmente. É isso que o evangelho de hoje deixa claro. Ao amor, a única resposta convincente é também o amor. Mesmo que o Pai não exija que lhe amemos, se nos deixarmos envolver pelo seu amor revelado em Jesus, não poderemos reagir de outra maneira que não seja amando a ele e ao próximo como imagem sua. Portanto, sem condições e nem capacidades para descrever um Deus que é Um, mas que são três pessoas, arrisquemos a viver por amor como seu Filho viveu. Vivendo a seu modo, seremos agentes de humanização do mundo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, maio 22, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES – Jo 20,19-23



O evangelho da Solenidade de Pentecostes é sempre o mesmo, independentemente do ciclo litúrgico vigente:  Jo 20,19-23. Na verdade, a liturgia oferece também uma segunda opção de evangelho para este dia (Jo 15,26-27;16,12-15), mas tem sido pouco utilizado. O texto aqui tratado corresponde ao relato da primeira manifestação do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos, ao anoitecer do primeiro dia da semana, ou seja, o domingo mesmo da ressurreição. Inclusive, esse texto já foi lido na liturgia dominical deste tempo pascal, como parte do evangelho do segundo domingo, como também acontece todos os anos. Naquela ocasião, no entanto, este trecho fora lido como parte de uma sequência maior –Jo 20,19-31 –, que compreende a manifestação do Ressuscitado também no domingo seguinte à ressurreição, ou seja, «oito dias depois» (Jo 19,26). Portanto, embora estejamos de fato há cinquenta dias da Páscoa, o evangelho de hoje nos remete ao dia mesmo da ressurreição.

Pentecostes era uma das três maiores festas do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da Páscoa e das tendas. Era celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Na Bíblia hebraica é chamada de “festa das semanas” (שָּׁבֻעוֹת – shavuot), pois contavam-se sete semanas após a Páscoa, mais um dia, totalizando cinquenta dias (7x7=49+1=50). Por isso, recebeu o nome de “Pentecostes” (em grego: πεντηκοστή – pentecostê) a partir da dominação grega, cujo significado é simplesmente quinquagésimo dia (Tb 2,1; 2Mc 12,32). O fato de ser o resultado numérico da operação 7x7 indica a ideia de plenitude que essa festa transmite: o número perfeito – sete – multiplicado por ele mesmo. Quer dizer que Pentecostes é a festa da plenitude da Páscoa, tanto para a mundo hebraico quando para a fé cristã. Como todas as festas judaicas, também Pentecostes tem suas origens ligadas à vida agrícola do povo: era a festa da colheita. Os peregrinos iam a Jerusalém agradecer pela colheita, levando os melhores grãos e frutos da terra como oferta, em gratidão a Deus.

Com o passar do tempo, essa festa perdeu sua relação com a agricultura, e foi ganhando um novo significado, com uma conotação mais religiosa e histórica. O motivo da celebração passou, então, a ser o agradecimento a Deus pelo dom da Lei ao seu povo. Na época de Jesus e dos apóstolos, esse novo sentido já estava consolidado: os judeus de todas as partes do mundo, conforme as condições econômicas, iam a Jerusalém, para agradecer a Deus pelo dom da Lei, transmitida através de Moisés. Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, se serve desse contexto e faz coincidir o envio do Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes, como artifício literário e teológico, para ensinar às suas comunidades que a nova lei é o Espírito Santo, o dom pascal por excelência. Com isso, ele ensina que, para permanecer fiel a Jesus e à sua mensagem, a comunidade cristã já não necessita das prescrições da Lei de Moisés; deve apenas estar sensível e aberta aos dons do Espírito Santo.

Por outro lado, o autor do Evangelho de João faz de tudo para que os referenciais da sua comunidade não coincidam com os esquemas litúrgicos judaicos. Para ele, as grandes festas dos judeus em Jerusalém sempre foram muito conflituosas para Jesus; eram momentos de confronto e ameaça (2,13ss; 5,1.18; 7,1ss; 10,31; 11,56), além de sinônimo de exploração e comércio. Por isso, ele situa a doação do Espírito Santo por Jesus aos discípulos no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o esquema cronológico de Lucas, a perspectiva joanina tem mais sentido e responde melhor às necessidades dos discípulos, como mostra o Evangelho de hoje: «Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco!» (v. 19). Ora, amedrontada, fechada em si e sem poder de ação, essa comunidade não teria condições de esperar cinquenta dias para receber o Espírito Santo. É somente pela força do Espírito Santo que as portas são abertas e os dons comunicados pelo Ressuscitado podem ser experimentados por todos.

No contexto do evangelho, a comunidade dos discípulos estava em crise, profundamente abalada. Até aquele momento, somente Maria Madalena e o Discípulo Amado tinham convicção da ressurreição (Jo 20,8.16-18). A morte de Jesus na cruz foi um alerta para os discípulos: quem continuasse propagando ideias como as dele, poderia terminar da mesma forma. Por isso, estavam as portas trancadas, devido ao medo. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades que condenaram Jesus, e não de todo o povo; é típico de João usar o termo “judeus” referindo-se às autoridades de Jerusalém (Jo 9,22; 12,42; 16,16). Apesar do medo, o fato de estarem reunidos é um sinal de esperança; significava que não tinham perdido completamente as esperanças; o ideal que os unia não tinha ainda se apagado. Porém, não poderiam continuar naquela situação, ou seja, acuados pelo medo. Ora, o medo impede a missão, as portas fechadas bloqueiam o anúncio da Boa Nova. Enfim, o medo é falta de experiência com o Ressuscitado.

Ao medo dos discípulos, o Ressuscitado responde com o dom da sua paz. Aqui, a paz não significa simplesmente a saudação típica do povo judeu, o famoso “shalom” (שָׁלוֹם). Inclusive, a tradução correta da expressão não é “a paz esteja convosco”, como está no texto litúrgico, mas “paz a vós”, sem a forma verbal “esteja”. O Ressuscitado não transmite um desejo de paz, mas traz a paz efetivamente, ele faz a paz acontecer. E quem faz experiência com Ele já tem a paz dentro de si, embora seja uma paz inquieta, como aquela que ele mesmo viveu. E imediatamente os discípulos sentiram a paz neles e entre eles, pois passaram do medo à alegria (v. 20). A paz é plenitude de vida e equilíbrio, o bem-estar da pessoa em todas as suas dimensões, condição indispensável para a felicidade. Jesus comunica a sua paz estando no meio, quer dizer, no centro da comunidade. Para que os dons do Ressuscitado sejam realmente acolhidos, é necessário que a sua centralidade na comunidade seja respeitada; isso vale para todos os tempos e lugares. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado e somente Ele, pois é Ele o único ponto de referência e fator de unidade. Por isso, ao se manifestar, o Ressuscitado aparece sempre no meio.

Na continuidade da experiência, diz o texto que Jesus «mostrou-lhes as mãos e o lado» (v. 20a). Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Crucificado; se trata da mesma pessoa. O Ressuscitado traz as marcas do Crucificado, porque cruz e glória não se separam. Nas mãos e no lado de Jesus está a identidade de quem viveu plenamente para servir e amar. As mãos são símbolo e recordação do serviço e de todo o bem que Jesus fez: são as mãos que tocaram em leprosos, mesmo sendo proibido (Mc 1,40), mãos que deram carinho a crianças (Lc 18,15-16; Mt 19,13-15), mãos que abriram olhos de cegos (Jo 9,6), mãos que curaram enfermos e expulsaram demônios (Lc 4,40; 13,13), mãos que lavaram os pés dos discípulos (Jo 13,1-12); enfim, são mãos que promoveram a vida e combateram o mal. São mãos humanizadoras.

As marcas da cruz não apagaram a força das mãos de Jesus. Mesmo feridas na cruz, essas mãos continuam à disposição da comunidade, e a comunidade, por sua vez, tem a missão de fazer no mundo o mesmo que aquelas mãos do Ressuscitado fizeram, ou seja, servir infinitamente e sem distinção. Também o lado, ou seja, o peito aberto, tem o mesmo significado de continuidade: é o mesmo coração com o qual Ele amou até o fim (Jo 13,1). Um coração que se abriu, se dilatou, tamanho o amor que contém. Na cruz, esse amor é representado pelo sangue e a água que jorraram. Estes dois sinais significam, naquela cena, o amor pleno, total, que não pode ser contido, por isso, faz dilatar o coração. E esse coração continua amando da mesma forma. As mãos e o lado de Jesus são, portanto, a síntese da sua vida, da sua mensagem e da sua práxis. Ele doa o Espírito Santo aos discípulos para que suas mãos e o seu coração continuem presentes no mundo servindo e amando de modo ainda mais eficaz. Por isso, «os discípulos se alegraram por verem o Senhor» (v. 20b). Como fruto da paz transmitida pelo Ressuscitado, a alegria deve ser também uma das características da comunidade que deve viver para amar e servir, sem medo de deixar o coração sangrar de amor.

A paz como bem-estar do ser humano é novamente oferecida: «novamente Jesus disse: A paz esteja convosco» (v. 21a). Novamente, não é um desejo, mas a afirmação de um dom já presente, já verificável. A passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia, por isso a paz é doada novamente para equilibrar a comunidade. Aqui, a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas. Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: «Como o Pai me enviou, também eu vos envio» (v. 21b). É importante recordar que, embora cada evangelista narre as aparições do Ressuscitado à sua maneira, todos os quatro recordam um elemento comum: o envio missionário.  E trata-se de um elemento determinante para a construção da identidade da comunidade cristã, a Igreja. Não há seguimento de Jesus sem disposição para a missão. A Igreja nasceu para estar em saída. E a fonte da missão é o amor do Pai, manifestado plenamente pelo Filho, o que confere à comunidade cristã uma responsabilidade ímpar: fazer no mundo o mesmo que Jesus fez, pois ele está enviando seus discípulos de todos os tempos conforme fora enviado pelo Pai.

Como Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos na última ceia (Jo 14,16.26; 15,26), eis que a promessa é cumprida: «E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo» (v. 22). Aqui, o evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da primeira criação do ser humano: «O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente» (Gn 2,7). Com isso, o evangelista quer dizer que está sendo realizada uma nova criação. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo) significa doação de vida, um sopro vital. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira é recriada. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro e fundamento, colocando à disposição da humanidade mãos e coração para servir e amar continuamente. O Espírito Santo é força dinâmica e vivificadora; é movimento. Logo, a Igreja não pode parar no tempo, não pode acomodar-se em suas sólidas estruturas.

Na sequência, o Ressuscitado recorda os efeitos principais do Espírito Santo na vida da comunidade, conferindo-lhe uma grande responsabilidade: «A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos» (v. 23). Por muito tempo, esse versículo foi empregado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão. No entanto, não é um sacramento o que Jesus está instituindo, tampouco conferindo um poder aos seus discípulos para determinar se um pecado pode ser perdoado ou não. O que perdoa mesmo os pecados é o amor infinito de Deus que Jesus revelou. Logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de comunicar esse amor. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade, ou seja, quando essa deixar de produzir os frutos que Jesus pediu (Jo 15,1-17). Ora, Jesus envia os discípulos como Ele mesmo fora enviado pelo Pai (v. 21), confiando-lhes a continuidade da sua própria missão. E a missão de Jesus foi sintetizada pelo Batista como “tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29). Tirar o pecado do mundo significa promover intensamente o bem até eliminar o mal pela raiz, o que só se faz através do amor, com ousadia profética. Antes de tudo, trata-se de uma missão humanizante. E agora, é Jesus quem confia à sua comunidade de discípulos essa responsabilidade. Logo, os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz, animada pelo Espírito e fonte de humanização para o mundo. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada! Deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a comunidade atualiza e prolonga, no tempo e no espaço, a missão única do próprio Jesus de revelar o amor de Deus a todas as pessoas.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 9,9-13 (ANO A)

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