sábado, agosto 15, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA – Lc 1,39-56



A exemplo do ano passado, também neste ano a liturgia do vigésimo domingo do tempo comum é substituída pela solenidade da Assunção de Maria, repetindo o que aconteceu no ano passado. Como se sabe, independentemente do ano litúrgico em curso, o evangelho desta festa é sempre o mesmo: Lc 1,39-56. Trata-se de um dos textos mais conhecidos do Evangelho de Lucas, que compreende a visitação de Maria à sua parenta Isabel e o famoso cântico do Magnificat. Embora a assunção só tenha se tornado dogma em 1950, pelo papa Pio XII, as tradições relativas à festa em si são muito antigas. Inicialmente, celebrava-se essa festa com a denominação de “dormição de Nossa Senhora”, título que as igrejas do Oriente preservam até hoje. O sentido desta festa e do próprio dogma é fornecido pelo prefácio da missa: “Hoje, a virgem Maria, mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o povo ainda em caminho, pois preservastes da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável, vosso próprio Filho feito homem, autor da vida” (Prefácio da Assunção de Nossa Senhora). Trata-se, portanto, de uma festa que imprime muita esperança à Igreja e à humanidade inteira, pois expressa o cumprimento do amor de Deus pelo ser humano, levando-o ao seu verdadeiro destino, que é a participação na mesma glória de Jesus Cristo, seu Filho e nosso irmão. E Maria foi a primeira a gozar plenamente deste privilégio.

Como sempre, concentramos a nossa reflexão exclusivamente a partir do texto do evangelho proposto, o qual possui grande importância para o conjunto da obra de Lucas. E é importante começar considerando o contexto narrativo, que é o chamado “Evangelho da Infância”, formado pelos dois primeiros capítulos do Evangelho (Lc 1–2), que funcionam como introdução literária e síntese teológica de toda a obra. De fato, é praticamente unanimidade entre os estudiosos que, no “Evangelho da Infância”, Lucas antecipa as principais linhas teológicas da sua grande obra, composta também pelo livro de Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo em que sintetiza praticamente todo o Antigo Testamento e a história de Israel, construídos a partir do binômio “promessa-cumprimento”. E o trecho lido hoje é uma boa demonstração disso. De fato, os principais temas da obra lucana, como o protagonismo das mulheres, a opção pelos pobres, a força transformadora do Espírito Santo, a misericórdia de Deus e a natureza missionária da Igreja estão bem presentes no evangelho de hoje. Igualmente estão presentes as temáticas da fidelidade de Deus às suas promessas, ao longo da história, assim como o seu favorecimento aos pequenos e marginalizados, traços bem característicos do Antigo Testamento.

E o primeiro tema evidenciado no evangelho de hoje é exatamente o protagonismo feminino: a cena é dominada pelo encontro de duas mulheres que, em diálogo, expressam suas impressões sobre os últimos acontecimentos, reconhecendo neles o agir de Deus, e apontando um futuro novo. Ao longo de toda a Bíblia, são raras as cenas dessa natureza. Com isso, o evangelista preconiza o início de uma nova história para a humanidade, com novas perspectivas e esperanças; trata-se de uma história construída e escrita a partir dos pobres, desprezados e marginalizados da sociedade, como eram as mulheres na época em que o Evangelho foi escrito. O que Deus sempre propôs à humanidade começa a cumprir-se e a realizar-se definitivamente a partir do sim de Maria. Como pessoas simples e humildes, Maria e Isabel, protagonistas do episódio, são uma prova de que o Deus de Israel tem um lado na história: o lado dos pobres, humildes e marginalizados, a quem ele dirige o seu olhar misericordioso (v. 48). Na figura dessas duas mulheres, Lucas ilustra o encontro das duas alianças, dos dois testamentos, reforçando a presença de Deus como artífice e condutor da história.

Certamente admirada com tudo o que estava acontecendo consigo e com Isabel, pois o anjo lhe informara (Lc 1,36), Maria tomou a firme decisão de ir visitar sua parenta. Assim diz o texto: «Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia» (v. 39). Embora a maioria das interpretações apontedúv o desejo de servir a Isabel como o motivo da partida apressada de Maria, o texto não fornece nenhum indício a respeito disso. Sem dúvida, o serviço ao próximo sempre fez parte do estilo de vida de Maria, sobretudo após o seu decisivo sim a Deus. Inclusive, ao dar o sim ao projeto de Deus, ela se apresentou como verdadeira servidora (Lc 1,38). Mas aqui se pode ver algo além disso. Ora, quando Maria questionou o anjo no momento do anúncio, sobre como poderia engravidar se não tinha relação com homem algum (Lc 1,34), o anjo disse que tudo seria obra do Espírito Santo, e ainda deu um exemplo concreto como sinal e prova de que nada é impossível para Deus: Isabel, uma anciã estéril, estava grávida (Lc 1,36). A gravidez de uma anciã estéril seria tão surpreendente quanto a de uma jovem virgem. É, portanto, normal e compreensível que Maria tenha procurado Isabel para confirmar se aquilo que o anjo lhe dissera era verdade, afinal, ela era muito jovem para compreender temas dessa natureza, ainda mais por integrar uma sociedade marcada por inúmeros tabus, sobretudo para as mulheres. Também é normal que tenha procurado sua parenta para partilhar a alegria do que estava acontecendo com ambas, como sinal da fidelidade de Deus ao seu povo, Israel, de quem as duas são imagens.

Ao conceder tanto espaço a Maria no início do seu Evangelho, Lucas está criando o modelo ideal de discípulo e discípula para Jesus. Por isso, é importante apresentá-la em movimento, disposta a proclamar, até nos lugares mais distantes, as maravilhas de Deus e a certeza de que ele está construindo uma nova história, a partir das pessoas humildes e marginalizadas. A partida de uma jovem grávida de Nazaré, na Galileia, para a Judeia antecipa os desafios da missão e a necessidade de os discípulos de todos os tempos estarem sempre em estado de saída. Mesmo que a distância não fosse tão grande, as circunstâncias eram muito adversas para uma jovem mulher. É típico da obra lucana o movimento, o sair de si. Essa partida imediata de Maria faz dela um modelo de discípula e, ao mesmo tempo, inaugura o primeiro movimento de Jesus: ainda no ventre, Ele já estava inquieto e pronto a romper qualquer situação de estabilidade e tranquilidade, mesmo enfrentando adversidades e perigos, como Maria teria enfrentado no caminho, indo sozinha para uma região montanhosa e de difícil acesso.

O evangelista diz que, chegando ao destino, Maria «Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel» (v. 40). Muito mais do que cumprimentar, o verbo “saudar” seria mais apropriado na tradução do texto. A expressão hebraica para a saudação é o desejo de paz – o hebraico shalom. Mais tarde, ao enviar seus discípulos em missão, Jesus ordenou que eles desejassem a paz em cada casa em que entrassem (Lc 10,5). Isso mostra que, aqui, mais uma vez, Maria antecipa a atitude de cada discípulo e discípula de Jesus: ser portador(a) da paz! Maria é mesmo a imagem ideal de todo discípulo e discípula de Jesus. E a paz que Jesus comunica é sempre inquieta; não é tranquilidade nem resignação; é o acesso aos bens messiânicos, como a libertação de todas as cadeias de morte impostas pelos sistemas dominantes, é a conquista de um mundo com igualdade e bem-estar para todos. E o evangelista sempre apresenta Maria quebrando paradigmas: como mulher inovadora e corajosa, ela ignora a tradição patriarcal e saúda a mulher em vez do homem, ao entrar na casa (v. 40). Assim, ela provoca uma verdadeira revolução e inversão de valores nas relações sociais, como aprofundará mais adiante, no seu hino, o Magnificat. Na sociedade do seu tempo, quem deveria ser saudado era o dono da casa; saudando a mulher, ela afirma que um tempo novo está surgindo, com novas relações e uma nova ordem. Percebe-se que, apesar de poucos, cada gesto de Maria antecipa o futuro agir libertador de Jesus. O mesmo pode ser constatado com suas palavras que, embora também sejam poucas, antecipam toda a mensagem de Jesus. Isso quer dizer que, ao mesmo tempo em que Lucas a apresenta como modelo de discípula, ele reconhece que, na condição de mãe, ela foi também mestra de Jesus.

A saudação de Maria irradia paz no ambiente, a ponto de fazer até mesmo a criança, ainda no ventre, agitar-se (v. 41a), o que confirma que a paz de Jesus, que ela antecipa, não combina com tranquilidade, mas provoca inquietude. Isso porque Isabel também ficou «cheia do Espírito Santo» (v. 41b), como Maria já estava. Trata-se do mesmo Espírito prometido pelo anjo a Maria no momento do anúncio: «O Espírito Santo descerá sobre ti» (Lc 1,35a). Como força vital, o Espírito Santo é luz irradiante e interpelante, que pode ser sentido quando transmitido por pessoas cheias dele, como Maria. Quem recebe o Espírito Santo o irradia por onde passa e onde chega, como um contágio. A atitude de Isabel não poderia ser outra senão exclamar, gritando: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!» (v. 42). É a palavra profética que nela se atualiza. Sabendo que Maria carregava dentro de si o Messias, isso fazia dela a mais “bendita” entre todas as mulheres. Assim, Isabel torna-se a primeira a proclamar as “bem-aventuranças” no Evangelho de Lucas. Ora, gerar filhos, segundo a mentalidade bíblica, era sinal de bem-aventurança e bênção; uma confirmação de que se tinha Deus a seu favor. Logo, gerar o Messias tão esperado seria prova de uma dignidade inigualável.

Tendo composto seu Evangelho com muita atenção para a Escritura hebraica, o Antigo Testamento, Lucas procura atualizá-la no “evento Cristo”. Assim, na continuação da exclamação de Isabel, o evangelista desenha Maria como a nova “Arca da Aliança”. Como sabemos, na arca da aliança eram guardadas as tábuas da lei, sinal máximo da presença de Deus no meio do seu povo, conforme a fé do povo de Israel. Com esta exclamação de Isabel: «Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?» (v. 43), Lucas relembra e atualiza as palavras de Davi quando estava para receber a Arca em sua casa: «Como virá a Arca de Iahweh para minha casa?» (2 Sm 6,9). Portanto, Lucas percebe em Maria a arca da nova aliança, não mais portadora da Lei escrita em tábuas de pedra, e sim portadora do amor e da misericórdia de Deus, conforme Jesus veio manifestar ao mundo. E a Lei que Maria carrega em si é o próprio Jesus, com seu Evangelho libertador e o Espírito Santo, do qual ela estava cheia e, por isso, o irradiava, sendo a primeira a viver a experiência de Pentecostes, enquanto envio do Espírito Santo ao mundo. Convém recordar que Lucas compara os eventos do Antigo Testamento com os do Novo para mostrar a superioridade do Novo. Assim, enquanto diante da arca, Davi exclamou com medo (2 Sm 6,10), diante de Maria, Isabel exclamou de alegria, o que mostra que a Lei escraviza, enquanto o Espírito, que é amor, liberta, transforma, humaniza.

E, mais uma vez, Lucas faz Maria ser reconhecida como bem-aventurada: «Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu» (v. 45). O motivo do reconhecimento, desta vez, é a fé: ela é bem-aventurada porque acreditou. Além de exaltar a fé de Maria, as palavras de Isabel funcionam também como uma repreensão ao seu esposo Zacarias, o qual, ao contrário de Maria, não acreditou no anúncio do anjo (Lc 1,20), por isso ficou mudo até que o menino nascesse. Assim, Isabel combate a incredulidade do marido e reforça a sua fé renovada pela presença de Maria, como ela confessou: «Será cumprido o que o Senhor lhe prometeu» (v. 45b). Ao repreender a incredulidade do esposo Zacarias, um sacerdote, Isabel proclama a decadência da antiga religião oficial do templo, demonstrando que somente os pobres, simples e humildes são capazes de acolher as intuições do Espírito Santo, como fez Maria. Assim, a religião do rigor e da Lei estava superada, pois não capacitava o ser humano para perceber o agir de Deus na vida e na história. Isso quer dizer que, para o evangelista, o exemplo de fé não está nas autoridades religiosas, mas nas pessoas simples e humildes.

Na sequência do texto, finalmente, Maria toma a palavra, pois somente Isabel tinha falado até aqui. As entrelinhas apontam para um provável constrangimento de Maria, diante de tantos elogios. Por isso, o evangelista mostra-a praticamente interrompendo Isabel, para expressar a sua alegria e o louvor a Deus, com o seu magnífico cântico (vv. 46-54). Isto reflete, certamente, a preocupação do evangelista com a construção futura da imagem de Maria na Igreja: não é ela que deve ser louvada, mas o Deus que agiu nela. O centro do culto e da vida cristã é sempre Deus, pois é ele o autor das maravilhas operadas e, portanto, é a ele que o reconhecimento e o louvor devem ser dirigidos. O Magnificat é o primeiro dos cânticos que Lucas apresenta em seu Evangelho. Trata-se de uma composição que sintetiza todo o Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, antecipa a missão de Jesus. Lucas faz uma construção nova com pedras antigas, pois o texto é um verdadeiro mosaico de citações do Antigo Testamento. A estrutura básica é tomada do cântico de Ana (1Sm 2,1-10), o que se explica pela semelhança das duas situações, uma vez que, assim como Isabel, também Ana era considerada estéril e concebeu um profeta, Samuel, como Isabel concebeu João Batista. Se Isabel estava maravilhada por contemplar grandes coisas (vv. 42-45), Maria a ajuda a compreender melhor tal situação, convidando-a a olhar para a história e perceber que, na verdade, esse Deus de Israel nunca esqueceu o seu povo, sempre fez grandes coisas em seu favor e, portanto, é a Ele que o louvor deve ser dirigido. Tudo o que estava acontecendo era dom de Deus e prova da sua fidelidade.

Em seu cântico, Maria personifica Israel e resume os grandes feitos de Deus na história, destacando, sobretudo, a sua predileção pelos pobres, humildes e humilhados. Quando reconhece que «o Todo-Poderoso fez e faz grandes coisas» (v. 49), também se afirma que não há outros poderosos, exatamente porque devem ser derrubados de seus falsos tronos (v. 52). E essa é a primeira condição para o início da edificação do Reino de Deus: a queda dos poderosos, ou seja, de todos os detentores de um poder que oprime e mata. Um só é o Poderoso, Deus, e este destina seu poder em favor da libertação dos pequenos. Temos, então, o início do cumprimento das antigas promessas, agora sob a responsabilidade de Jesus e da comunidade dos seus discípulos, da qual Maria é modelo. Aqui, mais uma vez, Lucas faz Maria antecipar o programa messiânico de Jesus, que será anunciado na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-18) e confirmado no sermão da planície. De fato, a expressão «Encheu de bens os famintos» (v. 53a) antecipa as bem-aventuranças dirigidas aos pobres (Lc 6,20-21); já a expressão «Despediu os ricos de mãos vazias» (v. 53b) antecipa as maldições lançadas contra os ricos – “ai de vós” (Lc 6,24-25). O Magnificat é, sem dúvida, a síntese da oração de Israel que deverá ser continuada pela comunidade dos discípulos de Jesus, a comunidade cristã. É clara, portanto, a intenção de Lucas de antecipar a missão de Jesus. Isso mostra também que ele é o evangelista que mais retoma a mensagem profética de denúncia às injustiças sociais. A predileção de Deus pelos pequenos, tão clara no ministério de Jesus, é central na mensagem dos profetas do Antigo Testamento. E o Magnificat evidencia bem essa continuidade.

A conclusão do texto reafirma a imagem de Maria como nova arca da nova aliança, mas com uma dimensão completamente nova. Diz o evangelista que «Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa» (v. 56). No Antigo Testamento há uma expressão muito parecida com essa, em 2Sm 6,11, e certamente Lucas pensou nela, ao falar da permanência de Maria na casa de Isabel: «A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom e a toda a sua família». A presença de Maria na casa de Isabel foi, com certeza, a confirmação da bênção de Deus sobre ela, seu esposo Zacarias e o filho esperado, João. Mas a bênção que a presença de Maria inaugura é infinitamente superior a tudo o que até então se tinha experimentado, pois é o início da plenitude da presença de Deus em meio ao seu povo. Na arca da nova aliança já não há tábuas de pedra com a Lei inscrita, não há mais norma nem preceito; há o Espírito Santo e Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com toda a humanidade. O tempo de permanência de quem irradia o Espírito Santo e a alegria do Evangelho, como fez Maria e assim devem fazer os discípulos de todas as épocas, é o suficiente para ressignificar a vida e ler os acontecimentos do presente à luz de tudo o que Deus tem realizado ao longo da história, como cantado no Magnificat.

Mais do que um reforço à devoção, o evangelho deste dia é um convite e uma advertência à comunidade cristã a reencontrar-se com suas origens, com sua identidade missionária e sinodal, assumindo seu compromisso de ser presença do Reino, promovendo igualdade e fraternidade. Para isso, é necessário renovar a confiança no Espírito Santo, que é aquele que dá impulso à força transformadora dos pequenos e humildes. Um trecho do evangelho tão significativo como este, no qual apenas duas mulheres falam, discutindo um novo rumo para a humanidade, não pode deixar de ser visto também como um sinal de que a voz feminina precisa ser mais ouvida e valorizada na Igreja.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

quinta-feira, agosto 06, 2026

REFLEXÃO PARA 19º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,22-33 (ANO A)


A liturgia deste décimo nono domingo do tempo comum propõe, para o evangelho, a leitura de Mt 14,22-33. É a sequência imediata ao do domingo passado, que foi Mt 14,13-21. Trata-se do relato da manifestação de Jesus andando sobre o mar, indo ao encontro dos seus discípulos que corriam perigo na barca, devido à agitação das ondas. É um episódio narrado também por Marcos e João (Mc 6,45-52; Jo 6,12-21), sendo que a versão de Mateus se sobressai sobre as demais, possuindo mais elementos exclusivos. O fato de ser um episódio comum a Mateus, Marcos e João já constitui uma primeira novidade, pois, geralmente, quando uma cena é narrada apenas por três evangelhos, esses são Mateus, Marcos e Lucas, conhecidos como os três sinóticos. É sempre importante recordar que os evangelhos enquanto livros escritos não são relatos cronísticos da vida de Jesus, mas narrativas catequéticas para a formação do discipulado e a edificação das comunidades cristãs de todos os tempos, começando por aquelas onde atuavam os respectivos evangelistas (autores). No caso específico do Evangelho de Mateus, escrito cerca de cinco décadas após a morte e ressurreição de Jesus, ele visa responder a uma comunidade profundamente marcada por crises, causadas tanto por aspectos externos quanto internos. E o evangelista responde às crises da sua comunidade recordando momentos de crise vividos pelo próprio Jesus junto com seus primeiros discípulos, e ilustrando conforme a sua própria criatividade e o uso de tradições disponíveis. O evangelho de hoje é uma boa demonstração desse processo.

O capítulo quatorze de Mateus começa relatando a morte de João, o Batista, que fora decapitado a mando de Herodes (Mt 14,1-12). Apesar das divergências de mentalidade, Jesus e João eram muito próximos afetivamente, e eram conscientes da continuidade entre os dois. Inclusive, há fortes indícios de que, antes de constituir o seu próprio grupo de seguidores, Jesus fora discípulo de João. Contudo, apesar dessa proximidade, é certo que Jesus não correspondeu às expectativas de João, que esperava um messias guerreiro, justiceiro e até violento (Mt 3,1-12), conforme a ideologia nacionalista vigente, ancorada no messianismo davídico. Contudo, os dois eram próximos. Por isso, inevitavelmente, a morte trágica do Batista abalou profundamente Jesus e seus seguidores, tanto pelo afeto que os unia, quanto pela certeza de que ele tinha tudo para ser a próxima vítima da fúria imperial. Diante disso, Jesus sentiu a necessidade de um momento sozinho para rezar, meditar e, talvez, até chorar. Por isso, o evangelista diz que ele «foi a um lugar deserto para estar a sós» (Mt 14,13). Porém, ele não conseguiu de imediato esse desejado momento para estar sozinho porque as multidões o seguiam e até chegavam antes dele ao destino, pela ânsia que tinham de libertação e já tinham percebido que Jesus, de fato, era sinal de libertação e esperança, como agente humanizador no mundo, mediante o amor misericordioso de Deus que ele revelava.

O drama era total: comovido pela morte do seu mentor, o Batista, e sabendo que ele também não demoraria muito a ser condenado e morto, Jesus encontra-se no deserto diante de uma grande multidão faminta que foi ali somente para vê-lo e ouvi-lo. Diante disso, seu sentimento não poderia ser outro: «teve compaixão» (Mt 14,13). A compaixão em Jesus não era um mero sentimento; era motivação para uma ação concreta que restabelecesse a dignidade e a vida em plenitude nas pessoas. Essa vida em plenitude pressupõe a saúde do corpo e da alma. A compaixão de Jesus era força humanizante para as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, marginalizadas e pobres. Essa situação, inclusive, gerou um pequeno atrito entre Jesus e os discípulos: as multidões sentiram fome, pois encontravam-se numa região deserta, e os discípulos, por comodismo, sugeriram a Jesus que as mandasse embora e, assim, cada um se virasse por conta própria. Jesus, ao contrário, diz que são os discípulos que devem providenciar o alimento para as multidões famintas: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mt 14,16); os discípulos reclamam que aquilo que eles têm é muito pouco para tanta gente: apenas cinco pães e dois peixes; Jesus mostra que é exatamente daquilo que é pouco e pequeno que a mudança pode acontecer (Mt 14,21). Quando o pouco é colocado em comum, surge a abundância. Por isso, o milagre aconteceu e todos ficaram saciados. A partilha é sempre um milagre, sobretudo quando é motivada pelo amor. Certamente, o clima entre Jesus e os discípulos ficou pesado e o momento de solidão para a oração e reflexão se tornou ainda mais necessário. É esse o contexto do Evangelho de hoje: crise pessoal em Jesus, crise na sua relação com os discípulos e, sobretudo, crise entre os discípulos.

Feitas as devidas observações a nível de contexto, olhemos para o texto de hoje, partindo do primeiro versículo, que diz: «Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões» (v. 22). Nossa primeira observação é a respeito da tradução do texto litúrgico: ao invés de “Jesus mandou”, é mais correto e mais fiel ao texto original dizer que “Jesus obrigou” os discípulos a entrar na barca. Jesus não está dando uma sugestão, mas impondo uma condição para a comunidade: ir «para o outro lado do mar», ou seja, para a outra margem. Ora, ir para a outra margem significa abandonar o comodismo e expor-se aos perigos, aos riscos. A outra margem do mar da Galileia era o território dos pagãos, e essa ordem de Jesus significa a universalidade do seu Evangelho. A barca é a imagem da comunidade cristã, sobretudo no Evangelho de Mateus; ela só tem razão de existir se estiver em estado de travessia, enfrentando perigos e levando a mensagem de Jesus a todos os lugares, sem distinção. A uma situação de crise na comunidade, Jesus responde com novos desafios, não suavizando nem enganando. Com isso, o evangelista recorda que ser Igreja é estar sempre em saída. Sem movimentos de travessia não existe fidelidade ao projeto de Jesus. Talvez, os discípulos esperassem até um reconhecimento ou comemoração, após o milagre da partilha dos pães, afinal, eles tinham colaborado diretamente, pois o próprio Jesus ordenou que eles providenciassem o alimento das multidões, com a ordem «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mt 14,16). Mas o que Jesus faz é encaminhá-los para novos desafios, como enfrentar o mar e chegar nas terras dos pagãos, o que todo judeu observante queria evitar.

Jesus não renunciou ao seu momento de oração pessoal. Por isso, tendo despedido as multidões e os discípulos, ele «subiu ao monte para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho» (v. 23). A oração pessoal de Jesus é um tema bem menos frequente em Mateus, comparando-o a Lucas, por exemplo, mas indispensável. Na verdade, na narrativa de Mateus, Jesus só se retira para rezar duas vezes: aqui e, já no contexto da paixão, quando reza no Monte das Oliveiras (Mt 26,36). Trata-se de um dado que pode parecer simples, mas é muito significativo. Quer dizer que a oração, na perspectiva de Mateus, está sempre associada a momentos dramáticos da vida de Jesus, marcados por crises e necessidade de renovação das convicções da missão. Isso significa que o evangelista não ignora nem torna secundária a oração na vida de Jesus, mas a valoriza tanto, a ponto de reservá-la para momentos de grande relevância. Nesse primeiro momento, a oração está associada à crise provocada pela morte do Batista e o confronto com os discípulos; no segundo, já no contexto da paixão, está associada à própria morte de Jesus, que também ocasionará crise entre os discípulos, tanto durante o processo e condenação quanto até mesmo nos primeiros momentos após a ressurreição. A oração acontece no monte que, na tradição bíblica, é o lugar do encontro com Deus, lugar da intimidade com o Pai e Criador. Embora a fé cristã seja essencialmente comunitária, a necessidade de momentos para estar sozinho e em silêncio é indispensável. Jesus sentiu essa necessidade e nada lhe fez renunciar a ela. É importante recordar essa dimensão, até para evitar ativismos desenfreados. E ele tinha acabado de fazer um “milagre” maravilhoso: junto com os discípulos, tinha alimentado uma grande multidão de pessoas famintas. Certamente, sua oração foi também um agradecimento ao Pai por isso.

Logo nos dois primeiros versículos do evangelho de hoje, portanto, percebemos duas posturas indispensáveis para a comunidade cristã, ensinadas por Jesus e tão bem recordadas pelo evangelista: o cultivo da vida de oração e o colocar-se em estado de saída, em alto mar, enfrentando os riscos que isso comporta. Por isso, na continuidade do relato, o evangelista diz que, quando a barca já estava longe da terra, ou seja, em alto mar, ela «era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário» (v. 24). Essa imagem da barca agitada pelas ondas é exclusiva de Mateus. Nos outros evangelhos que possuem versão paralela do episódio, fala-se apenas do vento contrário e da dificuldade de os discípulos remarem na adversidade. Apenas Mateus diz que a barca estava agitada. Embora a barca seja imagem da Igreja em praticamente todas as tradições literárias e teológicas da Igreja nascente, é em Mateus que ela é mais valorizada. A barca agitada pelas ondas representa a situação da Igreja em saída em todos os momentos da história. O termo vento (em grego: άνεμος – ánemos) merece uma consideração especial: ele aparece três vezes no texto de hoje (vv. 24. 30. 32), e representa os três principais obstáculos que atrapalhavam a comunidade cristã no anúncio do Reino, na época da redação do Evangelho de Mateus, em meados dos anos 80 do primeiro século: 1) a oposição das lideranças da sinagoga (judaísmo oficial); 2) as forças do império romano; 3) o medo/comodismo dos próprios discípulos. São três obstáculos a serem enfrentados para o Evangelho alcançar a outra margem e chegar no mundo inteiro.

Dos três obstáculos que ameaçavam a comunidade em sua “travessia”, o principal era o medo/comodismo dos discípulos, ou seja, a resistência e a tentação do comodismo ou até mesmo a desistência. Isso quer dizer que a comunidade é desafiada constantemente por forças externas e internas, sendo as internas as mais perigosas. Mas, quando a comunidade está prestes a sucumbir, eis que Jesus se manifesta e vai ao seu encontro «andando sobre o mar» (v. 25). O mar, na mentalidade bíblica, evoca perigo, morte, domínio do mal, é sinônimo do que é caótico, algo que o ser humano não tem forças para controlar. Porém, conforme essa mesma mentalidade, Deus tem o controle de tudo e pode, de fato, controlar até o mar, como fizera outrora, ao libertar o seu povo da escravidão do Egito (Ex 14,24ss; Sl 77,16-20). Essa cena é um recado para a comunidade de Mateus, sufocada pelos três ventos mencionados anteriormente, e para a Igreja em todos os tempos: em Jesus, o Reino dos céus em pessoa, é possível superar o mal e todas as forças contrárias. Porém, só é possível vencer as hostilidades do mundo se enfrentá-las. Só vence o mar quem se arrisca nele. A imagem de Jesus andando sobre o mar, portanto, não é a crônica de mais um milagre, e sim a demonstração de que ele não se intimida diante do mal; ele enfrenta e vence. Por isso, esse texto é altamente carregado de ressonâncias pascais: faz memória do primeiro êxodo e antecipa o êxodo definitivo, que é a Ressurreição de Jesus, quando ele venceu definitivamente o mal e sua principal consequência, que é a morte.

Com a falta de confiança e convicção, a hostilidade só cresce na comunidade, como aconteceu com os discípulos: «Quando avistaram Jesus andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: “É um fantasma!”. E gritaram de medo» (v. 26). O medo (em grego: φόβος – fóbos) tem sido o maior obstáculo da Igreja em todos os tempos. O medo constrói fantasmas e gera terror. Foi esse medo que fez a Igreja criar “inimigos” para si ao longo da história, distanciando-se do Evangelho. O medo é o tipo de vento que mais impede a Igreja de alcançar a outra margem, ou seja, de chegar onde ninguém chega, onde estão os excluídos e marginalizados. Por isso, ao medo dos discípulos, Jesus responde com uma declaração e um imperativo: «Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!» (v. 27). É preciso coragem e confiança no Deus que, simplesmente, É! De fato, com a afirmação «Sou eu» (em grego: έγώ είμι – egô eimí), Jesus recorda e atualiza a ação do Deus libertador do Êxodo (Ex 3,14), o qual também fez o seu povo passar para a outra margem do mar, conquistando a libertação da escravidão. A libertação só pode ser alcançada quando o medo for superado. Toda vez que Jesus pronuncia a fórmula «Sou eu/Eu sou» ele está afirmando sua identidade divina. No Evangelho de Mateus, essa afirmação possui uma relevância ainda maior, pois recorda, além da identidade de Jesus, também a sua presença constante na vida da comunidade. No início do Evangelho, ele fora apresentado como «Deus é conosco» ou «Deus está conosco», e trata-se do mesmo Deus libertador e do êxodo. É o Deus que liberta e humaniza, não porque faz grandes prodígios, mas porque está presente, caminha e é.

Diante da presença de Jesus que anda sobre as águas, Pedro assume o papel de porta-voz do grupo e se manifesta: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água» (v. 28). É exatamente nessa passagem que Pedro assume o protagonismo entre os discípulos, especialmente no Evangelho de Mateus. A partir de agora, sempre que ele falar, será como síntese do grupo. Sua fé é parâmetro da fé da comunidade. Ele assume um protagonismo único, mas que nem sempre será um protagonismo positivo; na verdade, é cheio de contradições, cuja demonstração maior será a tríplice negação. De agora em diante, ele será sempre o primeiro a agir, a responder e a propor, e quase sempre será repreendido por Jesus. Mas é exatamente por isso que ele se torna modelo de discípulo válido para todos os tempos, pois as suas atitudes mostram que Jesus não busca pessoas perfeitas para o seu seguimento, mas homens e mulheres normais, com qualidades, defeitos e contradições. Inclusive aqui, nessa primeira intervenção como porta-voz dos discípulos, Pedro já começa de maneira bastante negativa, pondo Jesus à prova. A sua proposta aqui é a mesma do diabo no episódio das tentações (Mt 4,1-11), e dos zombadores no calvário (Mt 27,40): «se tu és...». Essa forma condicional de pedir sinais a Jesus é sempre uma tentação, além de ser também uma demonstração de falta de convicção e de fé sólida. Por isso, o próprio Pedro se sentirá afundando, como dirá a sequência do texto.

A resposta de Jesus ao pedido absurdo e tentador de Pedro é muito clara: «Vem!» (v. 29). É uma resposta-convite para o próprio Pedro perceber a sua fé imatura e contraditória. Jesus não chamou Pedro para dar uma prova do seu poder, mas para mostrar o quanto aquele discípulo ainda estava equivocado. Caminhar sobre as águas era, para Pedro, prova de poder sobre o mal e vitória sobre os obstáculos, uma ideia de triunfalismo, pois ele queria vencer sem lutar, como se a palavra de Jesus fosse mágica. Ao convidar Pedro a andar sobre a água, Jesus queria que ele se conscientizasse de sua vulnerabilidade, como, de fato, aconteceu: «Quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me’!» (v. 30). Pedro ainda estava incapacitado para enfrentar os ventos contrários. Por isso, queria vencê-los milagrosamente. Essa passagem específica também reforça a importância e a necessidade da comunidade na vivência da fé. Pedro começou a afundar porque deixou a barca, fez uma proposta individual, deixando os demais discípulos na barca, à mercê. No meio da tempestade, a barca se agitou pela força das ondas, mas resistiu, não afundou. Quando saiu da barca, Pedro começou a afundar. Os momentos de Jesus a sós com os discípulos são sempre ocasião para catequese e aprofundamento. E essa oportunidade não poderia passar desperdiçada. Por isso, ao ver Pedro afundar em sua falta de fé, «Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro e lhe disse: “Homem fraco na fé, porque duvidaste?”» (v. 31). A repreensão de Jesus a Pedro, chamando-o de homem de “pouca fé” ou “fraco na fé” (em grego: όλιγόπιστος – oligópistos), não foi porque ele começou a afundar enquanto caminhava, pois era impossível não afundar, mas pela mesquinhez de necessitar de um sinal para crer. Assim, Jesus repreende a Igreja e seus membros quando buscam sinais extraordinários e não se esforçam para contornar situações adversas, ou seja, quando se recusam a ir em direção à outra margem por medo e comodismo, apoiando-se em falsos triunfalismos. Quando a comunidade valoriza mais os sinais extraordinários e milagres do que a luta pela justiça, a inclusão e a superação das desigualdades, ela está, como Pedro, desempenhando a função de tentadora de Jesus, ao invés de ser edificadora do Reino.

Quando Jesus e Pedro subiram no barco, diz o texto que «o vento se acalmou» (v. 32). É a confiança que foi recuperada, a certeza de que, com Jesus, seguindo a sua palavra, a comunidade pode superar os obstáculos, vencer as barreiras e conseguir chegar à outra margem. Assim, «Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’»  (v. 33). Temos aqui uma atitude importante que mostra a necessidade de uma conversão contínua na vida da comunidade cristã, marcada pela renovação das convicções. A prostração, especialmente no Evangelho de Mateus, é a atitude de adoração, de reconhecimento da divindade de Jesus. Inclusive, os primeiros a fazer isso foram os magos estrangeiros (Mt 2,11), os quais também têm a oferecer e a ensinar. No encontro com o Ressuscitado, no final do Evangelho, os discípulos repetirão o gesto e, também ali, dirá o evangelista que alguns ainda duvidaram (Mt 28,17). Logo, a dúvida sempre estará presente na vida da comunidade; porém, não pode levar os discípulos a trocarem o compromisso de superar as adversidades com responsabilidade por sinais extraordinários e fantasiosos. As situações de perigo e provação devem levar a Igreja à autocrítica e, assim, perceber qual é o seu verdadeiro papel no mundo e qual o rumo que Jesus quer que ela tome. Com essa confissão comunitária, a qual será retomada por Pedro no episódio de Cesareia de Filipe (16,16), Mateus está mostrando um progresso na fé da sua comunidade: em um episódio anterior, quando também Jesus e os discípulos estavam num barco e foram ameaçados pela tempestade, Jesus agiu, salvou-os do perigo, e os discípulos, admirados, perguntaram: «Quem é este a quem até os ventos e o mar obedecem?» (8,27). A resposta foi dada agora, seis capítulos depois: é o Filho de Deus, aquele que é e está sempre presente, oferecendo amor e misericórdia, dando a mão aos necessitados, humanizando o mundo.

 O evangelho deste dia interpela a Igreja a tomar atitudes que podem colocá-la em perigo, mas essa é a razão da sua existência. É preciso alcançar outras margens, as periferias existenciais, os lugares onde só é possível chegar se perder o medo. Para isso, é necessário ter muita convicção da presença de Jesus em seu meio, mesmo que seja difícil reconhecê-lo, muitas vezes; e, na certeza dessa presença, enfrentar os mares com seus ventos, buscando uma fé madura para não se contentar com sinais ou espetáculos, mas para buscar sempre a construção do Reino de Deus, que também é nosso.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues - Diocese de Mossoró-RN

sábado, agosto 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

 


Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, propondo para este décimo oitavo domingo o relato do episódio conhecido popularmente como a “multiplicação do pães” – Mt 14,13-21. De todos os gestos de Jesus considerados milagres, esse é o único relatado nos quatro evangelhos, com seis versões ao todo, já que em Mateus e Marcos aparece duas vezes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,30-44; 8,1-9; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13). Esses dados indicam a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, preferiu-se contá-lo integralmente várias vezes, embora cada uma das versões apresente certas particularidades. Com o progresso da exegese, o título convencional de “multiplicação dos pães” tem caído em desuso, preferindo-se expressões alternativas como “a multidão saciada” ou simplesmente “milagre da partilha dos pães”.

Hoje, lemos a primeira versão de Mateus e, como sempre, iniciamos considerando o seu contexto. O texto localiza-se praticamente na metade do evangelho; além da importância que esse dado evidencia, quer dizer também que Jesus já realizou muita coisa, pois o seu ministério já estava bem avançado, basta olhar um pouco para trás e perceber isso: três dos cinco discursos já foram proferidos (Mt 5–7; 10; 13), os discípulos já foram enviados em missão, muitas curas já foram realizadas. Portanto, mesmo que não se compreendesse totalmente o que ele fazia e nem se aceitasse completamente o que Jesus proponha, a sua mensagem se popularizava cada vez mais, e as multidões que o seguiam atestam isso. Logo, tornava-se cada vez mais necessário que Jesus deixasse clara a natureza do seu messianismo, que não correspondia aos anseios nacionalistas e triunfalistas da época. Por isso, ele procurava cada vez mais evitar atitudes que pudessem insinuar triunfalismos em seu ministério. Tudo isso aponta para o cuidado com que esse episódio chamado de “multiplicação dos pães” deve ser lido e interpretado.

O contexto imediato é fornecido pelo próprio texto, na versão litúrgica, que recorda o evento anteriormente narrado, a morte de João, o Batista, por ordem de Herodes: «Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado» (v. 13a). Com efeito, a expressão inicial – “quando soube da morte de João Batista” – não pertence propriamente ao texto, mas foi acrescentada pela liturgia, com claros fins didáticos, a fim de situar o ouvinte-leitor e o pregador, sobretudo. Na língua original, se diz apenas que Jesus ouviu, o que vem expresso pela forma verbal grega “akússas” – ἀκούσας. Lendo diretamente na Bíblia, o leitor percebe que aquilo que Jesus ouviu foi a notícia da morte do Batista. Ora, apesar das diferenças, era inegável a proximidade entre Jesus e João Batista. Com efeito, Jesus nutria grande afeto por João, mesmo não correspondendo ao ideal de messias violento e justiceiro que ele tinha anunciado (Mt 3,1-12). Inclusive, o reconheceu como o maior entre os nascidos de mulher e como profeta (Mt 11,7-14). Na verdade, Jesus reconhecia a continuidade entre a sua missão e a de João e o considerava seu mentor, não obstante as divergências. Por isso, inevitavelmente, a morte de João mexeu com Jesus, ainda mais pela forma cruel como aconteceu. Daí, a necessidade de retirar-se, não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para esse recolhimento que, certamente, seria marcado pela oração profunda, pela reflexão e, talvez, até pelo choro.

O detalhe do “lugar deserto e afastado” é muito significativo na tradição bíblica. Como se sabe, o deserto não é apenas um espaço geográfico; é lugar de silêncio, prova e encontro com Deus. Foi no deserto que Israel aprendeu a depender do Senhor e recebeu o maná para o caminho (Ex 16). Ao retirar-se para o deserto e ali alimentar a multidão, Jesus se apresenta como aquele que inaugura um novo êxodo: reúne um povo disperso e o alimenta com o pão que vem de Deus. Jesus não conseguiu ficar sozinho com seus discípulos porque «quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé» (v. 13b). O movimento das multidões em busca de Jesus demonstra o quanto ele já estava conhecido e o bem que ele fazia. As multidões o seguem porque ele tinha respostas para as suas necessidades. Abandonadas e exploradas pelas lideranças religiosas e políticas, as multidões recebiam atenção e cuidado de Jesus (Mt 9,36–10). O seu olhar era diferente, marcado pela compaixão: «Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes» (v. 14). As multidões até se anteciparam, chegando primeiro ao lugar deserto. Ao vê-las, Jesus não foge e nem as expulsa, mas se enche de compaixão. Numa ocasião anterior, o evangelista disse que ele sentiu compaixão ao ver as multidões abandonadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36); agora, ele diz que Jesus encheu-se de compaixão. Quer dizer que a compaixão ocupa todo o ser de Jesus, faz parte da sua essência.

Compaixão significa um amor visceral; é um comover-se no mais profundo do ser que resulta em ação concreta de libertação. O verbo empregado pelo evangelista é muito expressivo. Mateus usa o grego splanknízomai (σπλαγχνίζομαι), derivado de splánkna (σπλάγχνα), “entranhas” ou “vísceras”. Na mentalidade bíblica, as entranhas eram consideradas a sede dos afetos mais profundos. Por isso, dizer que Jesus “encheu-se de compaixão” significa afirmar que ele foi tocado nas profundezas do seu ser. Não se trata de uma emoção superficial, mas de um estremecimento interior que o move imediatamente à ação em favor dos necessitados. Esse olhar compassivo revela também o modo como Deus olha a humanidade. Enquanto as estruturas sociais costumam avaliar as pessoas a partir do poder, do mérito ou da utilidade, Jesus as vê a partir da necessidade e da dignidade. Seu olhar antecede qualquer exigência moral: primeiro acolhe, cura e alimenta; depois convida ao discipulado. Essa ordem é fundamental para compreender o Evangelho. Por isso, ele “curou os que estavam doentes”. Por doentes, o evangelista emprega um termo (em grego: arostos – άρρωστος) que compreende todas as pessoas frágeis, e não apenas os doentes fisicamente. São todas as pessoas destinatárias privilegiadas da misericórdia de Deus: doentes, aflitas, pobres, abandonadas, exploradas. Como o Evangelho de Jesus é um programa de vida completo, que contempla a vida em todas as suas dimensões, todas essas classes de pessoas são as primeiras contempladas. Por isso, a reação de Jesus ao ver essas pessoas foi encher-se de compaixão.

Diferente de Jesus foi o que os discípulos sentiram: «Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”» (v. 15). Pela referência ao entardecer, supõe-se muita coisa já realizada naquele dia. Certamente, muito contato físico de Jesus com o povo, muito toque, muita escuta e muitas palavras proferidas; tudo ao contrário de quem estava procurando ficar sozinho. A reação dos discípulos parece ser de preocupação e cuidado com Jesus, mas na verdade é de indiferença e pouco compromisso com as multidões. A tendência deles é lavar as mãos diante das necessidades dos outros. Aconselham Jesus a mandar as multidões embora e que cada um “se virasse” para conseguir o alimento necessário, propondo, desse modo, a lógica do mercado. A atitude dos discípulos permanece muito atual. Também hoje, diante da pobreza, da fome e das diversas formas de exclusão, é comum pensar que cada pessoa deve resolver sozinha os seus problemas. Jesus, porém, rompe essa mentalidade e convoca os discípulos a assumirem responsabilidade concreta. A comunidade cristã não pode limitar-se ao espaço do culto; deve tornar-se lugar de solidariedade concreta.

Apesar do tempo de convivência e aprendizado, os discípulos ainda não tinham absorvido a mentalidade de Jesus; ainda não tinham assimilado a lógica da partilha e da solidariedade. Diante disso, a resposta de Jesus é praticamente uma repreensão: «Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”» (v. 16). Como se vê, Jesus compromete os discípulos. Em vez de lavar as mãos diante das necessidades dos outros, os seus discípulos devem sentir-se responsáveis. A comunidade cristã não pode assistir indiferente ou passivamente à fome no mundo. Biblicamente, a fome é também uma doença que deve ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. A mensagem de Jesus é um programa de vida que contempla também a dimensão material, inegavelmente. Portanto, saúde e pão devem ser prioridades na comunidade cristã.

Talvez indignados ou envergonhados com a advertência de Jesus, «Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”» (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa, provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. A quantidade era pequena, mas total, era tudo o que tinham. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade. Logo, não se trata de números reais, mas de simbologia. Independentemente da quantidade, é como se os discípulos dissessem a Jesus que tudo o que tinham era insuficiente para o grande número de pessoas que estavam ali. Porém, Jesus não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que têm: «Jesus disse: “Trazei-os aqui”» (v. 18). O problema começa a ser solucionado aqui, quando Jesus pede que os discípulos coloquem à disposição tudo o que têm, apesar de pouco. É isso o que Jesus espera das comunidades de todos os tempos. O pouco que cada um possui deve ser colocado a serviço de todos e, assim, o que é pouco se torna muito. Quando cada um apresenta o seu pouco, é premissa de fartura.

É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome, o que se faz pela partilha, mas tudo deve passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Na continuação, diz o evangelista que «Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões» (v. 19). Como se vê, Jesus toma a iniciativa e age como verdadeiro pastor, ao contrário dos líderes religiosos e políticos que tinham explorado e abandonado as multidões (Mt 9,36). Inclusive, todo este relato tem como pano de fundo o Sl 22(23), no qual o salmista reconhece Deus como o pastor que alimenta o povo e o faz descansar num prado verdejante (grama), como aqui.

O gesto de fazer a multidão sentar-se na grama também merece atenção. Sentar-se à mesa, na cultura bíblica, é sinal de comunhão e igualdade. Jesus não distribui alimento a uma massa anônima; ele constitui uma assembleia. De fato, no Reino de Deus ninguém come isoladamente. A refeição partilhada antecipa a comunhão fraterna que deve caracterizar a Igreja. Os gestos de Jesus com os pães e os peixes antecipam a eucaristia, mas vão muito além de um rito: olhar para o céu – abençoar – (re)partir – dar/distribuir. São os passos que a comunidade cristã não pode parar de dar, não apenas como rito semanal, mas como vivência cotidiana, sobretudo onde e quando há multidões famintas de pão. Por isso, a dimensão eucarística do relato não pode ser separada da partilha concreta. A mesma comunidade que celebra o pão repartido no altar é chamada a repartir o pão da mesa cotidiana. Quando a Eucaristia não transborda em solidariedade, corre-se o risco de reduzir o gesto de Jesus a um rito sem consequências históricas concretas, sem efeito humanizante.

Como resultado da partilha, aliás, de todo um processo, o resultado foi este: «Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios» (v. 20). Recordemos que houve todo um processo, o que não seria necessário caso se tratasse de um puro gesto sobrenatural de Jesus. De seu olhar compassivo, Jesus conferiu responsabilidade aos discípulos, provocou neles a disposição de colocar em comum tudo o que tinham, gesto que inevitavelmente motivaria também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, até a partilha que deixou todos satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o alimento, o pão de cada dia. No final, ainda sobrou, o que foi tudo recolhido. O alimento é sempre um dom de Deus, e o que é dom de Deus não pode ser desperdiçado. O recolhimento das sobras ensina ainda o cuidado com os dons recebidos. A abundância gerada pela partilha não autoriza o desperdício. Num mundo marcado simultaneamente pela fome de milhões e pelo descarte excessivo de alimentos, esse detalhe do Evangelho adquire forte atualidade ética. Respeitar o alimento é respeitar o trabalho humano, a criação e o Deus que sustenta a vida. O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, há alimento para todos e todas. Essa não deve ser uma prática ocasional, mas um modo permanente de viver.

No final, a referência ao número dos que se alimentaram, o que também é um número simbólico que significa uma grande quantidade: «E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças» (v. 21). Entre o número inicial de dons disponíveis para a partilha e a multidão alimentada há uma enorme diferença. Com isso, o evangelista quer ensinar que os resultados são sempre surpreendentes quando se põe em prática o que Jesus ensinou, e reforça o convite para a comunidade não ter medo de partilhar o que tem. O último dado considerado é a menção do evangelista às mulheres e crianças, o que reforça ainda mais a importância da partilha, pois significa que havia uma multidão incontável, e que a partilha gera sempre abundância. Somente Mateus faz essa observação. Apesar de sutil, é um aceno à inclusão. Mulheres e crianças eram consideradas categorias insignificantes, na época. O evangelista ensina, com isso, que a comunidade cristã é aberta a todos. Na verdade, as pessoas historicamente marginalizadas são as preferidas no programa do Reino.

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome. A comunidade não pode esperar ter todas as condições ideais para viver o programa do Reino; é vivendo-o que ela cria condições de vida, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso! Sem negar as outras dimensões da existência humana, o evangelista insiste que a fé não pode ignorar a fome concreta de pão. Jesus não separa cuidado espiritual e cuidado material: ele cura, acolhe e alimenta. A comunidade que o segue é chamada a fazer o mesmo, confiando que Deus continua gerando abundância quando seus filhos e filhas aprendem a repartir.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, julho 24, 2026

REFLEXÃO PARA O 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,44-52 (ANO A)



Com a liturgia deste décimo sétimo domingo do tempo comum, conclui-se a leitura do discurso em parábolas do Evangelho de Mateus, iniciada há dois domingos. Como temos sempre recordado, o discurso em parábolas é o terceiro dos cinco grandes discursos de Jesus em Mateus, ocupando, assim, uma posição central, o que evidencia a sua importância para a teologia do respectivo Evangelho. Isso corresponde à centralidade do tema do Reino na pregação de Jesus, pois o tema desse discurso é exatamente o Reino dos Céus e sua dinâmica, descrito simbolicamente a partir de sete parábolas. O texto específico que a liturgia oferece para este domingo é Mt 13,44-52, o qual contém as últimas três das sete parábolas, uma vez que as quatro primeiras já foram lidas nos dois últimos domingos. Convém recordar que, de acordo com o contexto narrativo do Evangelho de Mateus, os destinatários primeiros do discurso foram os discípulos e as multidões que se reuniram à beira-mar para ouvir Jesus (Mt 13,1-2). Porém, mais do que reconstituir e descrever fielmente um acontecimento concreto da vida de Jesus, o evangelista organizou o discurso para responder às necessidades da sua comunidade, que vivia um momento de crise, como já contextualizamos nos domingos anteriores.

Tendo em vista que o contexto já foi bastante evidenciado nos dois últimos domingos, podemos dispensar hoje uma contextualização mais ampla, embora seja necessário recordar alguns elementos. Ora, tendo já apresentado as diversas características do Reino dos Céus por meio das quatro parábolas anteriores – do semeador; do joio e o trigo; do grão de mostarda; do fermento –, nas três de hoje o objetivo do evangelista é motivar os seguidores e seguidoras de Jesus e a própria comunidade a fazer uma opção absoluta pelo Reino, preferindo-o a qualquer outra realidade ou bem. Por isso, as parábolas de hoje são mais motivadoras do que descritivas, propriamente. Isso se evidencia, sobretudo, nas duas primeiras, principalmente, a do tesouro e a do comprador de pérolas (vv. 44-46), respectivamente. Elas ilustram, acima de tudo, motivações para a acolhida do Reino, muito mais do que uma mera descrição comparada desse. Ora, o encontro com o Reino e seus valores exige uma decisão e tomada de posição radicais e inadiáveis. Por sua vez, a terceira parábola do texto de hoje e última do discurso retoma a descrição, evidenciando as contradições e a diversidade que compõem o Reino dos Céus, prevenindo a comunidade cristã de qualquer tendência ao puritanismo e segregação, convidando-a à aceitação da diversidade e à inclusão. Certamente, essa era uma das principais preocupações de Jesus e do evangelista Mateus, que via o risco da mentalidade separatista do farisaísmo se instalar na sua comunidade.

Feitas as devidas observações a nível de contexto, olhamos para o texto, começando pela primeira parábola, que é bastante curta, pois ocupa apenas o primeiro versículo: «O Reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo» (v. 44). Um tesouro no contexto da época era um vaso de argila cheio de moedas valiosas e joias que os proprietários enterravam em suas propriedades quando percebiam perigo de guerras, invasões ou saques. Apesar de não se tratar de um acontecimento tão frequente, a descoberta de um tesouro na antiguidade era uma possibilidade bem real, de modo que os primeiros ouvintes-leitores do Evangelho compreendiam muito bem a imagem. Ora, quando um proprietário de terras tinha de fugir às pressas por causa de uma invasão, enterrava o seu tesouro, imaginando um dia voltar para recuperá-lo. No entanto, dificilmente retomava a posse da terra; essa passava para outros proprietários que não sabiam da existência de um tesouro escondido na propriedade. Por isso, geralmente, esses tesouros eram encontrados muito tempo depois de enterrados, por pessoas que não sabiam da sua existência; daí a ideia de surpresa subentendida no texto, seguida da mencionada alegria. Por sinal, uma palavra-chave no Evangelho de hoje é exatamente alegria, como uma característica essencial de quem encontrou o Reino e a ele aderiu plenamente.  

A respeito do homem que encontra o tesouro, o texto não diz muita coisa. Não sabemos o que fazia antes, se estava no campo por acaso ou se estava trabalhando a terra. O que sabemos é que ele encontrou um motivo para mudar a sua vida. Encontrou algo pelo qual valia a pena renunciar a tudo o que possuía para ficar somente com ele. A chamada de atenção de Jesus para os discípulos e a multidão, e de Mateus para a sua comunidade, visa deixar ainda mais claro que o Reino deve ser a primeira opção de quem o encontra.  O Reino desestabiliza a normalidade das coisas, é reviravolta, é subversão, é o revés da ordem estabelecida, tanto no campo político quanto no religioso, embora comece de modo acanhado e silencioso, como a postura do homem ao encontrar o tesouro, que não fez alarde, o manteve escondido até à posse definitiva. Essa discrição inicial do Reino já havia sido mostrada nas parábolas anteriores, sobretudo na da semente de mostarda e na do fermento na massa, lidas no domingo passado. O homem encontrou o tesouro por acaso, ou seja, sem fazer esforço algum. Essa é uma das possibilidades de encontro com o Reino, pois como já tinha dito o próprio Jesus, «o Reino dos céus está próximo» (Mt 10,17), ou seja, é ele quem vem ao encontro das pessoas, embora sejam feitas exigências para experimentá-lo: «convertei-vos» (Mt 10,17)A decisão do homem da parábola significa uma verdadeira conversão, pois foi fruto de uma mudança de mentalidade. Ele se deu conta que não valia a pena continuar com os bens que possuía, tendo encontrado algo muito mais valioso. Ao desfazer-se de todos os bens para possuir um único bem mais valioso do que tudo, ele demonstrou grande desapego, fruto de discernimento, certamente. Com efeito, não basta contemplar nem saber que o Reino dos céus chegou, é necessário fazer esforço para nele entrar; esse esforço consiste em deixar de lado tudo o que não é compatível com ele, como fez o homem dessa primeira parábola e vai fazer o personagem da segunda

A segunda parábola tem muita semelhança com a primeira. Também nela se evidencia a necessidade de uma tomada de decisão radical, embora sejam bem evidentes também as diferenças. Na segunda, o Reino é comparado à pessoa que procura e encontra algo, e não ao objeto encontrado, propriamente. Eis o que diz o texto: «O Reino dos céus é como um comprador de pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola» (vv. 45-46). Também nessa, as informações sobre o homem envolvido são poucas. Tudo indica que se trata de um homem experiente e inquieto, capaz de distinguir o que é valioso daquilo que é vulgar. É alguém que sabe avaliar as coisas, examinando-as de modo minucioso, como fruto da experiência e da busca constante. Assim como o da parábola anterior, também esse homem encontra algo que lhe faz tomar uma decisão radical. Porém, ao contrário do homem que encontrou o tesouro por acaso, na primeira parábola, nessa segunda se trata de um homem que já buscava. Lidas juntas, as duas parábolas mostram que não há contradição entre dom e esforço. A conquista do Reino exige esses dois elementos. O Reino é dom gratuito de Deus ao mundo, mas não se entra nele sem esforço, pois, para fazer parte dele, há exigências indispensáveis.

Na primeira parábola, o tesouro foi encontrado como puro dom, sem nenhuma busca: o homem simplesmente encontrou. Na segunda, o personagem é alguém que procura, seleciona criteriosamente o que tem grande valor e o que não tem. O importante em ambas as situações é a decisão tomada ao encontrar algo que pode mudar o sentido da vida. O mais relevante não é a forma como cada coisa foi encontrada, mas a decisão tomada para possuí-la, conforme a linguagem das parábolas, o que corresponde à busca pelo Reino e a inserção nele. Em cada situação, a decisão tomada de vender todos os bens para possuir o objeto encontrado recorda a decisão dos primeiros discípulos chamados por Jesus, as duas duplas de pescadores às margens do mar da Galileia: ao ouvir o chamado de Jesus, eles deixaram tudo para segui-lo (Mt 4,18-22). Naquela ocasião, não houve venda e compra, mas a decisão de deixar tudo. É claro que a participação no Reino não depende de um processo de compra e venda. Não se trata de relação comercial nem de lógica mercadológica. Os exemplos das parábolas do tesouro e do comprador de pérolas visam apenas ilustrar a necessidade de tomada séria de decisão para entrar no Reino. Por sinal, os objetos de valor em questão – tesouro e pérola preciosa – são imagens tradicionais da Bíblia, sobretudo da tradição sapiencial, para representar realidades de valor imensurável, como a sabedoria e a própria Lei, no Antigo Testamento. Portanto, a decisão dos dois personagens de vender todos os bens corresponde ao deixar tudo dos discípulos e discípulas de Jesus, em todos os tempos, para viver uma vida pautada pelos valores do Reino: justiça, amor, solidariedade, acolhimento, sinceridade, alegria e coragem para lutar contra tudo o que impede o seu crescimento.

A última parábola do discurso, a terceira do evangelho de hoje, é aquela da rede jogada ao mar: «O Reino dos céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam os que não prestam» (vv. 47-48). Muitos estudiosos insistem em relacioná-la com aquela do joio e do trigo, refletida no domingo passado (Mt 13,24-30). É certo que existem semelhanças entre as duas, mas as diferenças são bem maiores. Naquela do joio e do trigo, quem semeou a semente nociva foi um inimigo, enquanto o dono do campo e da semente boa dormia. Nessa da rede, os peixes bons e ruins têm uma mesma origem, não são frutos da ação de dois personagens diferentes. Essa diferença é muito importante. Ora, desde a comunidade apostólica, havia na Igreja a tendência equivocada de querer ser uma comunidade de santos, justos ou eleitos, ou seja, uma comunidade separada e isolada. Essa tendência, comum no judaísmo da época, era e é um entrave para a concretização do Reino. Com essa parábola da rede, bem mais do que com a do joio e o trigo, Jesus apresenta o universalismo do Reino, marcado pela diversidade e inclusão, e sua exposição aos perigos. Como as parábolas respondem a uma situação de crise da comunidade, é interessante retornar às origens, ao primeiro chamado: «Vinde, segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens» (v. 4,19). Essa parábola é, portanto, um convite para os discípulos retornarem às origens do chamado. Ora, Jesus não os chamou para irem à procura de pessoas boas e santas, mas simplesmente para “pescar seres humanos”, ou seja, ir ao encontro da humanidade inteira, sem distinção nem classificação, como uma rede que apanha todo tipo de peixe.

Com a parábola do joio e o trigo Jesus pedia tolerância e paciência. Com essa da rede, Ele vai além: pede inclusão, aceitação e abertura constante, pois a rede envolve, junta, mistura tudo. A semente era jogada em um terreno conhecido, mesmo que não fosse previamente preparado. O mar onde é lançada a rede, ao contrário, é sempre imprevisível, pois o movimento dos ventos e das águas foge de qualquer controle. Isso significa um desafio para a comunidade e uma advertência a qualquer tendência separatista e segregadora. Na comunidade cristã não pode ter juízes, mas apenas irmãos e irmãs. Por isso, a explicação alegórica da parábola projeta, em linguagem apocalíptica, a separação definitiva para o final dos tempos, e diz que essa será feita por anjos, seres de outra esfera, e não pelas lideranças da comunidade: «Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos. E lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes» (v. 50). As explicações das parábolas são sempre acréscimos do evangelista ou dos continuadores de suas tradições. Aqui, faz-se uma advertência aos membros da comunidade, provavelmente às lideranças, para evitar julgamentos, preconceitos e condenações. É uma forma de dizer que ninguém pode julgar o outro na comunidade. No final do Evangelho de Mateus, quando retomar o tema do juízo, Jesus dirá que o critério no julgamento será a opção pelos pequenos, pobres e marginalizados. 

No final, após contar toda a série de parábolas, Jesus faz uma pergunta simples, mas profunda, aos discípulos, os primeiros destinatários de todo o discurso: «Compreendestes tudo isso?» (v. 51). Ora, Jesus apresentou o Reino dos céus em sete parábolas; como o número sete evoca perfeição e totalidade, é como se Jesus dissesse que tinha dito tudo sobre o Reino, e que é necessário compreendê-lo em sua totalidade. A compreensão aqui significa a aceitação da sua mensagem com as consequências que essa implica; não se trata da abstração teórica de um conteúdo, mas de assimilar um jeito novo de viver. Embora a resposta dos discípulos tenha sido positiva, a história e a própria continuação do Evangelho de Mateus mostram que, na verdade, eles ainda não tinham compreendido tudo. O importante, no entanto, é a disposição para compreender e, para isso, é necessário fazer da vida uma busca constante pelo maravilhoso tesouro que é «o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6,33). A conclusão do discurso é um convite reforçado ao discernimento: «Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”» (v. 52). Alguns estudiosos consideram esse versículo como uma nova parábola, mas a aceitação dessa ideia é mínima atualmente, sobretudo porque elevaria para oito o número de parábolas do discurso, o que comprometeria a ideia de perfeição da exposição de Jesus sobre o Reino, representada pelo número de sete parábolas. Para muitos estudiosos, esse versículo é também um traço autobiográfico do próprio autor Mateus: ele seria um exemplo de escriba (mestre da Lei) que se tornou discípulo, conservou e soube tirar coisas novas e velhas do grande tesouro que são as tradições de Israel. Inclusive, é o evangelista que mais teve cuidado de buscar elementos da Escritura (Antigo Testamento) para justificar e fundamentar a mensagem de Jesus. Nessa perspectiva, as coisas velhas são a Lei e os profetas, enquanto as coisas novas são os ensinamentos de Jesus, que ele mesmo considerou como o pleno cumprimento da Lei e dos profetas (Mt 5,17). No entanto, trata-se apenas de uma linha interpretativa entre muitas, sem gozar de unanimidade entre os estudiosos, embora não seja carente de plausibilidade.

Considerando o evangelho de hoje e o dos últimos domingos, nos quais foi tão bem apresentado o Reino dos Céus com sua dinâmica e suas características essenciais, urge pensar e repensar o agir cristão atual e as estruturas de nossas comunidades com seus planos e propósitos. É importante questionar se as prioridades assumidas contribuem para a construção do Reino e se evidenciam a sua presença no mundo. Muitas vezes, o que se tem buscado é manter estruturas enrijecidas, obsoletas, incapazes de transmitir vida, amor e humanização. É importante, portanto, despertar o interesse pelo Reino como bem absoluto, com coragem de abrir mão de tudo o que não condiz com a sua dinâmica.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA – Lc 1,39-56

A exemplo do ano passado, também neste ano a liturgia do vigésimo domingo do tempo comum é substituída pela solenidade da Assunção de Mari...