sexta-feira, fevereiro 06, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,13-16 (ANO A)


A liturgia deste quinto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do grande discurso programático de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como o “discurso da montanha” (Mt 5–7). No domingo passado, fora lida a introdução desse discurso, passagem que compreende as bem-aventuranças – Mt 5,1-12 –, um texto que é considerado o coração do primeiro evangelho. De fato, trata-se da verdadeira “carta magna” do cristianismo, pois contém os princípios fundamentais do seguimento de Jesus Cristo. O texto proposto para hoje – Mt 5,13-16 – é exatamente o que sucede imediatamente às bem-aventuranças. Com efeito, toda a sequência do discurso é desdobramento das bem-aventuranças. Por isso, no evangelho de hoje, continuando um ensinamento vital para a comunidade de seus seguidores, Jesus emprega duas imagens bastante fortes e interpelantes, o sal e a luz, para demonstrar o quanto a vivência das bem-aventuranças é indispensável na vida dos seus discípulos e, consequentemente, para a comunidade cristã. Por conseguinte, é importante reforçar que tudo o que é desenvolvido ao longo do discurso da montanha é, na verdade, consequência ou expressão das bem-aventuranças.

Assim, consideradas pela maioria dos exegetas como o autorretrato de Jesus, as bem-aventuranças são, ao mesmo tempo, o programa de vida que ele propõe para os seus discípulos e discípulas de todos os tempos. Elas expressam o perfil de Jesus, revelando o seu estilo de vida. Com isso, ele mesmo conclui que a vivência delas deve ter um efeito transformador no mundo, comparável aos efeitos do sal e da luz, empregados em suas finalidades mais básicas: dar sabor e iluminar, respectivamente. Ora, é da vivência das bem-aventuranças que depende a instauração do Reino dos Céus na terra. Para que esse Reino, de fato, aconteça, é necessário que as pessoas, começando pelos discípulos, assumam um estilo de vida semelhante ao de Jesus, ou seja, que pratiquem as bem-aventuranças. E não há um outro meio de assemelhar-se a Jesus senão praticando as bem-aventuranças, ou seja, vivendo do seu jeito. Por isso, o emprego das imagens do sal e da luz são seguidos de advertência sobre o perigo de que estes elementos não sejam bem utilizados e, por consequência, deixem de produzir o esperado efeito transformador.

As imagens do sal e da luz são, assim, uma síntese da missão dos seguidores de Jesus e, ao mesmo tempo, uma demonstração do efeito dessa missão no mundo. Eis, pois, a primeira imagem com a consequente advertência: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens» (v. 13). Embora seja possível identificar diversas funções para o sal, sobretudo na antiguidade, o texto deixa muito claro que faz referência ao seu uso para a alimentação, seja como condimento seja enquanto conservante. Mesmo assim, é importante recordarmos também outras funções atribuídas ao sal ao longo da Bíblia. De fato, o sal era símbolo de qualquer coisa duradoura e preciosa, tornando-se, inclusive, sinal da indissolubilidade da aliança, de modo que uma aliança eterna era chamada de “aliança de sal” (Nm 18,19). Outro significado para o sal é a purificação, sendo um elemento utilizado nos sacrifícios cultuais (Lv 2,13; Ez 43,24), e empregado também por Eliseu para purificar as águas das fontes de Jericó (2Rs 2,19-22).

Aqui no texto de Mateus, no entanto, como já acenamos anteriormente, e considerando o inteiro versículo, a referência ao sal está relacionada ao seu uso no alimento, pois o texto indica o dar sabor como função primordial. É importante perceber também o universalismo atribuído aos seguidores de Jesus: ser sal de toda a terra, ou seja, marcar presença e fazer a diferença em todo o mundo, e não apenas dentro dos limites geográficos da Palestina. Essa dimensão universalista da missão cristã será evidenciada ao longo de todo o Evangelho de Mateus, e encontrará o seu ápice no envio missionário pós-pascal, quando o Ressuscitado ordenará que seus discípulos devem ir a todas as nações para ensinar, batizar e discipular (Mt 28,19-20). Seja para dar sabor, seja para conservar alimentos, o sal é indispensável na vida do ser humano. Assim também é indispensável a presença de cristãos e cristãs no mundo, para que o projeto libertador de Jesus seja realizado e o Reino se instaure. Ao falar do risco de o sal tornar-se insosso e, consequentemente, inútil, faz-se uma advertência ao risco de omissões e falta de testemunho dos cristãos no mundo. Assim como não tem sentido um sal sem sabor, também não tem sentido cristãos sem a prática das bem-aventuranças, ou seja, sem fome e sede de justiça, sem mansidão no coração, sem misericórdia e sem amor. O sal é, portanto, imagem da força humanizante da mensagem de Jesus no mundo.

A segunda imagem empregada ocupa todo o restante do texto e, aparentemente, é mais simples ou, pelo menos, mais compreensível, já que é uma imagem mais frequente ao longo da Bíblia: «Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte» (v. 14). A imagem da luz, de fato, atravessa toda a Bíblia, muito mais do que a do sal, bem como o seu efeito é muito mais claro, sem deixar margens para uma variedade maior de interpretações. Inclusive, a própria missão de Jesus na Galileia foi apresentada por Mateus como luz, como refletimos há dois domingos – evangelho do terceiro domingo do tempo comum: Mt 4,12-23. Aqui, o evangelista ensina que, como extensão e continuação da missão de Jesus, também a missão dos seus discípulos é apresentada como luz. Isso mostra que a missão dos discípulos é a mesma de Jesus. Novamente, a dimensão universalista da missão é recordada: os cristãos não devem ser luz somente para um determinado grupo de pessoas ou de uma determinada região, mas de todo o mundo. A segunda parte do versículo é, certamente, uma crítica à cidade de Jerusalém e às autoridades de Israel, como um todo. Ora, Jerusalém fora construída sobre um monte (Is 2,1) exatamente para de lá resplandecer a luz de Deus; porém, fora corrompida pelos poderes religioso e político, ofuscando a luz de Deus. Temos aqui, portanto, uma clara denúncia ao povo de Israel e, especialmente, à cidade de Jerusalém que falhara na sua missão de ser luz das nações (Is 42,6; 49,6). Por isso, Deus transferiu sua luz para a marginalizada Galileia dos pagãos, onde Jesus iniciou seu ministério como uma luz que brilha nas trevas (Mt 4,12-23). Como consequência, Jesus transfere a missão que outrora fora de Israel para os seus discípulos.

Na continuidade do texto, vemos novamente o tom de advertência, como no uso do sal: «Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos, que estão na casa» (v. 15). Tão inútil quanto um sal sem sabor e uma lâmpada escondida é a vida cristã sem testemunho, ou seja, sem a prática das bem-aventuranças. Aliás, isso nem vida cristã seria, mas apenas um teatro, um fingimento, sobretudo quando acobertada por um conjunto de ritos. Seria hipocrisia, como Jesus vai mostrar, com outras palavras, ao advertir a comunidade dos seus seguidores sobre a necessidade de diferenciar-se dos fariseus. Temos aqui mais um alerta sobre o risco da omissão dos cristãos no mundo, diante das injustiças e de todas as formas de manifestação do mal. O cristão não pode se omitir onde há trevas, onde há negação da vida, onde falta humanização. Uma lâmpada debaixo da mesa é a imagem do discípulo omisso e medroso, incapaz de denunciar as injustiças que estão ao seu redor, e conivente com as situações de opressão e negação da vida. Uma vez que a luz acesa não tem outra função que não seja iluminar, também os cristãos não podem omitir-se de testemunhar o Evangelho, cuja condição é a vivência das bem-aventuranças, uma vez que constituem o programa de Jesus, pois correspondem exatamente ao seu jeito de viver.

O versículo conclusivo consiste em mais uma exortação e advertência. Assim como houve em Israel, também havia na comunidade cristã uma tendência ao envaidecimento e ao orgulho, o que é totalmente incompatível com o ensinamento de Jesus. É necessário que os discípulos sejam sinal de luz diante das outras pessoas, mas que não sejam recompensados ou elogiados por isso, pois é ao Pai que está nos céus que devem ser dirigidos todos os louvores; é esse o sentido do versículo: «Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus» (v. 16). Os cristãos de todos os tempos devem cumprir boas obras, devem “fazer o bem” como fez Jesus (At 10,38), de modo que revelem o Deus em quem acreditam. Em outras palavras, o versículo quer dizer que o reconhecimento e o louvor de Deus pela humanidade dependem essencialmente do estilo de vida dos cristãos. E isso é uma grande responsabilidade. É na medida em que os cristãos dão sabor ao mundo e o iluminam com gestos e ações concretas que o mundo passa a conhecer a Deus. O Deus que é Pai, portanto, não o se torna conhecido pelo ensino de uma doutrina, e sim pelo testemunho dos cristãos. Vivendo as bem-aventuranças, os cristãos não devem esperar reconhecimento e elogios a eles mesmos, mas ao Pai celeste que enviou Jesus ao mundo como caminho, luz e guia para cada pessoa encontrar sentido para a vida, vivendo à sua maneira.

A liturgia deste dia, sobretudo o evangelho, conforme a reflexão aqui proposta, visa nos interpelar sobre a responsabilidade da vida cristã no mundo, chamando a atenção para os frutos essenciais e as consequências imediatas: dar sabor e iluminar. Ser cristão é abraçar um programa de vida, seguir Jesus e suas causas, dando-lhe adesão plena, muito mais do que cumprir normas e participar de um conjunto de ritos. A identificação com ele depende essencialmente da disposição de viver como ele viveu, aceitando as bem-aventuranças como regra de vida. Quem faz essa opção se torna, inevitavelmente, sal da terra e luz do mundo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, janeiro 30, 2026

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,1-12 (ANO A)

 


A liturgia deste quarto domingo do tempo comum propõe a leitura de um dos textos mais importantes do Novo Testamento: Mt 5,1-12. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha” (Mt 5–7). Inclusive, a leitura desse discurso será continuada nos próximos domingos, uma vez que, na estrutura do ano litúrgico A, ele é distribuído numa sequência de seis domingos do tempo comum: do quarto ao nono, além de algumas festas, como a solenidade de todos os santos, por exemplo, quando se lê também o texto das bem-aventuranças, que corresponde à introdução do discurso. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido à repetição contínua do termo grego makárioi (μακάριοι), cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados. Sem dúvidas, essa é uma das passagens mais lidas e conhecidas de todo o Novo Testamento, apreciada por cristãos e não cristãos. Gandhi, por exemplo, definiu as bem-aventuranças como “as palavras mais altas que a humanidade já escutou”.

De todas as palavras atribuídas a Jesus que encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Por isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de encorajamento e transformação, como exige o Reino dos Céus. E as bem-aventuranças são as condições para o ingresso nesse Reino. O Novo Testamento contém duas versões das bem-aventuranças: uma em Mateus e outra em Lucas. Certamente os dois evangelistas tiveram acesso à mesma fonte, e cada um adaptou-a de acordo com as necessidades de suas respectivas comunidades, tendo em vista as diferenças entre as versões, facilmente constatadas numa leitura paralela (Mt 5,1-12a // Lc 6,20-26).

Na versão mateana, encontramos oito bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido à ocorrência do termo grego makárioi (μακάριοι) por nove vezes. Porém, a nona ocorrência do termo (v. 11) não deve ser considerada como uma nova bem-aventurança, mas como uma recapitulação e síntese das oito, reforçando a exigência para que todas elas sejam intensamente vividas. Enquanto isso, a versão de Lucas contém apenas quatro bem-aventuranças, que são contrastadas com a fórmula de maldição “ai de vós”, aplicadas às situações de oposição às bem-aventuranças. Também o cenário é diferente nos dois evangelhos: enquanto em Mateus elas são proclamadas na montanha, em Lucas a proclamação se dá na planície. Essa diferença se deve à perspectiva teológica de cada evangelista. Mateus quer apresentar Jesus como o novo legislador e mestre que supera Moisés. Assim como foi na montanha que Moisés recebeu a Lei, também é da montanha que Jesus proclama as bem-aventuranças, que são consideradas a nova Lei para a comunidade cristã, infinitamente superior à antiga.

Para compreender melhor as bem-aventuranças em seu sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já foi dito anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é makárioi (μακάριοι), o qual pode ser traduzido por benditos, felizes ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É importante recordar que, embora escritos em grego, os evangelhos foram construídos segundo uma mentalidade semítica, principalmente o de Mateus. Por isso, é importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o hebraico. Ora, o termo correspondente ao grego “makárioi” (μακαριοι) em hebraico (אשרי = asherêi), além de uma felicitação, corresponde também a uma forma imperativa do verbo caminhar, seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Há estudos recentes que vêem uma confluência dos dois sentidos no texto de Mateus. De fato, sem esse segundo sentido, as bem-aventuranças podem ser facilmente transformadas em mensagem de conformismo ou resignação; com ele, fica mais clara sua dimensão subversiva e transformadora, que caracteriza toda a mensagem de Jesus.  

Ainda a nível de contexto, é importante recordar a dinâmica do Evangelho de Mateus, que distribui os principais ensinamentos de Jesus em cinco grandes discursos, sendo que o discurso da montanha é o primeiro deles e o mais importante. Trata-se, portanto, do discurso inaugural de Jesus. Até então, o evangelista tinha feito duas breves referências ao ensinamento de Jesus, dizendo apenas que ele ensinava e qual era o tema da sua pregação: o Reino dos Céus (Mt 4,17.23), mas sem mostrar o conteúdo propriamente. Por isso, o discurso da montanha é a primeira exposição do programa do Reino que Jesus anuncia e o primeiro ensinamento dirigido aos discípulos. Isso se constata pelas diversas vezes em que o Reino (em grego: βασιλεία – basileia) é mencionado ao longo do discurso, mas o mais importante é a natureza desse Reino e seus destinatários primeiros: pobres, humildes, aflitos, injustiçados, perseguidos.

Iniciamos o estudo do texto propriamente considerando os dois primeiros versículos que funcionam como introdução às bem-aventuranças e ao inteiro discurso da montanha: «Vendo Jesus às multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los» (vv. 1-2). O evangelista já tinha dito que Jesus ensinava e realizava curas, libertava as pessoas e, por isso, grandes multidões o acompanhavam (Mt 3,17.23-25). E isso é surpreendente porque a vida pública de Jesus está apenas começando. Inclusive, só tinha chamado os quatro primeiros discípulos, até então (Mt 4,18-22), cujo relato fora empregado na liturgia do domingo passado. Isso mostra a urgência do Reino. Ele tinha um núcleo de base para iniciar uma comunidade, sendo que o mais importante era a natureza da comunidade, cujo retrato é delineado nas bem-aventuranças. O gesto de sentar-se indica a autoridade de mestre que ele possuía. Mas, ao contrário dos mestres judeus da época, ele não abre um rolo de leis para transmitir. Simplesmente, ensina, sendo ele mesmo o conteúdo. Por isso, pode-se dizer que ele é o Reino em pessoa.

Olhemos, pois, para cada uma das situações contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Ao ler e contemplar cada uma delas, devemos recordar que elas retratam as situações vividas pelo próprio Jesus. Por isso, elas representam o retrato de Jesus e o ideal de discípulo e discípula. Eis a primeira bem-aventurança: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança que tem recebido as interpretações mais equivocadas ao longo da história, infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à transformação. Na língua grega a palavra pobre (πτωχός – ptôkós) deriva do verbo acocorar-se de medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de humilhação extrema. É a situação da pessoa que se encontra profundamente encurvada, sem coragem sequer de olhar para cima, tamanha a humilhação em que se sente. Tal situação vai muito além da pobreza material, embora compreenda também ela.

O convite de Jesus é para que não desanimem, mas sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em grego: πνεύμα – pneuma) é empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente, seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.

segunda bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados» (v. 4). Ora, jamais será consolado o aflito que se fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado por completo, por isso, consolar é diferente de confortar. De fato, confortar significa encorajar a suportar uma situação difícil, enquanto consolar é eliminar o sofrimento. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar, jamais recuar, para encontrar a consolação. Por isso, mais do que aceitação da aflição, essa bem-aventurança convida as pessoas aflitas a não se fecharem, não se acomodarem e buscarem a consolação. E isso não se faz sem mobilização e sem luta perseverante.

Na terceira bem-aventurança, Jesus diz: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (v. 5). O termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e, aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja, pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se ele dissesse: «não parem, continuem caminhando e lutando». Era muito comum os pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja. A terra é dom de Deus, mas sua posse pelos mansos e pequenos é conquista, fruto da confiança em Deus e da luta perseverante.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme ele mesmo o fez em toda a sua vida, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão interpelante: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (v. 6). A fome e a sede são as necessidades básicas que mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais para a vida, também deve ser a luta por justiça entre seus discípulos. A comunidade cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta por justiça.

Na quinta bem-aventurança, temos: «Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia» (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia, não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem. A misericórdia é uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também para os seus seguidores. Ser misericordioso, portanto, é reproduzir o agir de Deus no mundo, cuja misericórdia é destinada a todas as pessoas, embora tenha sempre as pessoas mais necessitadas como destinatárias primeiras. Portanto, seguir fazendo o bem ao próximo, com opção preferencial pelos mais necessitados, é uma das principais exigências do discipulado.

Com a sexta bem-aventurança, Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o discípulo de Jesus deve marchar, avançar, pois a verdadeira pureza consiste em assimilar os sentimentos de Deus e transformá-los em ação, conforme as circunstâncias e as necessidades.

sétima bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (v. 9). Na marcha da comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma, intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra (שלום) shalom: paz como bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamados filhos de Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado seu filho.

oitava bem-aventurança funciona como uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao Reino: «Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 10). É claro que todas as bem-aventuranças estão interligadas, não se pode separar uma da outra. Mas esta oitava é uma recapitulação mais explícita da quarta: deve-se buscar a justiça como algo indispensável à vida, a exemplo do alimento cotidiano. Mas a justiça não apenas sacia, e sim traz perseguição, pois implica no combate às injustiças. E é certo que quem luta contra injustiças recebe perseguição como resposta. Quem adere plenamente à dinâmica do Reino será certamente perseguido(a), pois a busca pelo Reino é inseparável da busca por justiça, como vai dizer o próprio Jesus na sequência do discurso: «buscai, primeiro de tudo, o Reino de Deus e sua justiça» (Mt 6,33). Então, tendo em vista que a perseguição é consequência lógica da busca pelo Reino e a justiça, a palavra de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando, marchando em busca do Reino que é vosso! E foi isso o que ele mesmo fez.

Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro, na sobreposição de uns sobre os demais e pela violência. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o seu projeto: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (vv. 11-12a). Alguns estudiosos vêem essa afirmação como uma nova bem-aventurança, enquanto outros –  a maioria – a vêem como um reforço e síntese conclusiva das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo e discípula de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como ele mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver como ele.

As bem-aventuranças nos desafiam a compreender e reconhecer se, de fato, seguimos a Jesus, se somos seus autênticos discípulos e discípulas. Por isso, elas são consideradas as palavras mais autobiográficas de Jesus. Tudo o que ele viveu está expresso nelas. E, para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha, caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é libertadora porque convida o discípulo e a discípula a sair de si, colocar-se em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 4,12-23 (ANO A)


Com a liturgia deste terceiro domingo do tempo comum, inicia-se propriamente a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, como é próprio do ano litúrgico A, a qual será interrompida após o sexto domingo, para a vivência dos tempos da Quaresma e da Páscoa, e retomada somente depois da Solenidade da Santíssima Trindade, já no décimo domingo. Durante esse intervalo – Quaresma, Páscoa e solenidades pós-pascais – também serão lidos trechos do Evangelho de Mateus, mas de modo aleatório, como acontece também nos tempos do Advento e do Natal, intercalando com os demais evangelhos. No ano de 2019, o Papa Francisco instituiu o terceiro domingo do tempo comum como o “Domingo da Palavra de Deus”, com o objetivo de promover uma aproximação maior das pessoas com a Palavra de Deus, evidenciando sua centralidade na vida da Igreja e ainda visando despertar o interesse pelo estudo das Sagradas Escrituras. Na Igreja do Brasil, particularmente, o “Domingo da Palavra de Deus” ainda não foi bem assimilado como tal, pois já havia o “dia da Bíblia”, celebrado no último domingo de setembro, o mês da Bíblia, uma tradição bastante consolidada em nossas comunidades.

O texto lido hoje – Mateus 4,12-23 – marca, de fato, o início do ministério de Jesus na Galileia, tendo sido profundamente preparado pelos episódios anteriores: o batismo no Jordão (Mt 3,13-17) e as tentações no deserto (Mt 4,1-11). No contexto litúrgico, o que nos preparou para lermos o evangelho de hoje foi o testemunho de João, o Batista, apontando Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e como “o Filho de Deus”, conforme o trecho do Quarto Evangelho lido na liturgia do domingo passado (Jo 1,29-34). O episódio das tentações (Mt 4,1-11) será lido somente no primeiro domingo da Quaresma. O texto de hoje é programático; nele são delineadas as principais linhas de todo o ministério de Jesus, ficando muito claro quais serão os destinatários privilegiados da sua missão libertadora e o conteúdo essencial da sua pregação. Daí, reconheceremos também os objetivos básicos da sua missão: inundar o mundo do amor misericordioso de Deus. Pela extensão do texto, não conseguiremos comentar de maneira minuciosa versículo por versículo, mas colheremos a mensagem central.

Partimos do primeiro versículo, pois além de nos situar no tempo e no espaço, ele apresenta elementos importantes para a compreensão do restante do texto, funcionando, inclusive, como verdadeira introdução a todo o ministério: «Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia» (v. 12). A prisão de João se torna um divisor de águas na vida de Jesus. Além de marco cronológico para o início da sua missão, é também um sinal de qual será o seu destino, assim como o de praticamente todos os profetas: a perseguição. Do ponto de vista geográfico, o retorno à Galileia está relacionado aos episódios do batismo e das tentações, vividos no Jordão e no deserto, ambos localizados na região da Judeia. Mas significa muito mais do que isso. Antes de tudo, significa que a missão de Jesus não será uma repetição da missão de João. Ora, se João pregou na Judeia e Jesus vai para a Galileia iniciar lá o seu ministério, significa que há descontinuidade entre os dois. O programa de vida de Jesus é completamente novo, inclusive, será questionado pelo próprio João, posteriormente (Mt 11,2-6). A Galileia era uma região periférica, uma terra má afamada, conhecida pela pouca ortodoxia do seu povo. Logo, o início da missão de Jesus nessa região indica que os primeiros destinatários da sua mensagem são as pessoas excluídas e marginalizadas, gente sem boa reputação.

Mesmo ciente da novidade que Jesus inaugura, assim como fez no “evangelho da infância” (Mt 1–2), o evangelista apresenta a sua missão, desde o início, como cumprimento das profecias, por necessidade da sua comunidade, profundamente ligada às tradições do Antigo Testamento. Por isso, ele explica o início na Galileia à luz das Escrituras: «Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías» (v. 13-14). A mudança de Nazaré para Cafarnaum é estratégica. Nazaré era apenas um pequeno povoado, o que na linguagem bíblica representa fechamento de mentalidade, conservadorismo exagerado e apego às tradições. Com uma mensagem tão libertadora como a sua, dificilmente Jesus seria aceito e compreendido lá, como atesta, inclusive, o evangelista Lucas, ao dizer que após a primeira pregação de Jesus em Nazaré já quiseram matá-lo (Lc 4,16-30). Cafarnaum, por sua vez, cujo nome significa “aldeia da consolação”, era uma cidade média e um importante entreposto comercial. Localizada às margens do lago de Genesaré, o que Marcos e Mateus chamam de mar da Galileia, provavelmente por questões teológicas, era um centro de circulação de pessoas, de mercadorias e de ideias. Por lá passavam importantes rotas comerciais. Isso facilitava também os constantes deslocamentos de Jesus para pregar em outros lugares. Logo, pessoas de diversas proveniências passavam constantemente por Cafarnaum. Num cenário assim, a Boa Nova de Jesus circularia melhor, o que não significa que tenha havido uma acolhida unânime. É interessante recordar que, embora todos os evangelistas apresentem Cafarnaum como um dos cenários da atuação de Jesus, somente Mateus diz que ele fixou morada lá. Trata-se de um dado muito relevante para a compreensão do seu ministério.

Como a comunidade de Mateus era fortemente influenciada pelo judaísmo, ele foi buscar no profeta Isaías (Is 8,23 – 9,1) uma passagem que justificasse essa opção tão revolucionária de Jesus: «Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz» (vv. 15-16). Zabulon e Neftali foram as primeiras tribos invadidas pelos assírios no séc. VIII a.C., onde começou a miscigenação da população, fazendo a Galileia toda ser chamada de “Galileia dos pagãos”, pejorativamente. Ora, tanto o exército da Assíria deportou parte da população local, quanto levou povos estrangeiros para habitar na Galileia, fazendo nascer um grande sincretismo cultural e religioso, além de tornar seu povo miscigenado. Isso levou a população de Jerusalém e de toda a Judeia a criar um preconceito histórico contra os galileus, tratando-os como gente inferior, pessoas praticamente excluídas da salvação. No entanto, foram as pessoas dessa região que Deus escolheu para conhecerem primeiro a sua luz que brilha em Jesus. Isso é um fato bastante revolucionário: A grande luz de Deus não foi acesa para os judeus considerados puros, frequentadores assíduos do Templo de Jerusalém, mas para um povo desprezado, para as vítimas de preconceitos e exclusão, gente considerada impura. Inclusive, quem primeiro reconheceu Jesus como fonte de luz foram os magos estrangeiros, representantes de práticas religiosas condenadas em Israel (Mt 2,1-12). O começo do ministério de Jesus na Galileia significa, portanto, a sua identificação com os marginalizados em geral.

Tendo apresentado o cenário e os destinatários primeiros do ministério de Jesus, o evangelista apresenta a sua mensagem, ou seja, o conteúdo da sua pregação: «Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”» (v. 17). A expressão “começou a pregar” só aparece duas vezes no Evangelho de Mateus: aqui, e em 16,21, quando Jesus vai anunciar a sua paixão, pela primeira vez, aos seus discípulos. Cada uma das ocorrências mostra o início de uma etapa no seu ministério, sendo que, nessa primeira ocorrência, indica o princípio geral, por isso, é marcado pelo anúncio do Reino. Na segunda vez, a pregação vai apontar as consequências da adesão ao Reino: a paixão – quer dizer, a cruz. O chamado à conversão e o anúncio do Reino são o centro da mensagem de Jesus. Mateus chama de “Reino dos Céus” a mesma realidade que os demais evangelistas chamam de “Reino de Deus”. Provavelmente, ele evita usar aqui o nome de Deus para não ferir a sensibilidade dos judeus, tão enraizada na sua comunidade. Esse Reino é uma sociedade alternativa, um mundo novo, é o sonho de Deus para a humanidade. Ele é dos céus porque foi todo pensado por Deus, mas seu destino é a terra, é a história humana, necessitada de humanização. Não se trata, portanto, de uma vida futura, mas é viver a vida presente conforme o projeto de Jesus. O Reino dos Céus é, portanto, um projeto de mundo e sociedade onde haja igualdade, fraternidade, amor, concórdia, solidariedade e paz; é um mundo sem preconceitos e nem exclusões, plenamente humanizado pelo amor misericordioso de Deus, fonte de vida em plenitude.

A instauração desse Reino na terra é tão urgente e necessária que, um pouco mais adiante, o próprio Jesus ensinará os discípulos a pedirem ao Pai, em oração, que faça vir o Reino (Mt 6,10), ao ensiná-los a rezar o Pai nosso. Toda a práxis de Jesus é manifestação desse Reino, porque ele mesmo é o Reino em pessoa. Por isso, ele diz que o Reino está próximo, pois ele está presente no mundo e está prestes a iniciar a sua missão libertadora, marcada pela prática do bem. E a sua práxis deve ser continuada pelos seus discípulos de todos os tempos. Para abraçar um projeto como esse é necessária uma mentalidade nova. Por isso, o anúncio do Reino é precedido do imperativo “convertei-vos” (em grego: μετανοεῖτε – metanoeite). Conversão significa uma mudança radical de mentalidade, e não uma simples intensidade nas práticas religiosas e devocionais; é olhar o mundo de maneira nova e adotar um novo estilo de vida. E a lógica do Reino exige isso. Obviamente, o estilo de vida exigido como fruto da conversão é o estilo de Jesus, marcado pela intensidade do amor que liberta, inclui, humaniza e, por isso, salva.

A instauração do Reino é tão urgente, que Jesus chama logo seus primeiros quatro colaboradores, duas duplas de irmãos, cujos chamados se tornam paradigma vocacional válido para todos os tempos. Eis o relato dos dois primeiros: «Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram» (vv. 18-20). O cenário do chamado dos primeiros discípulos é o mar, embora se tratasse de um grande lago, apenas. O evangelista chama de mar por razões teológicas. Para a mentalidade bíblica, o mar era a morada do mal, sinônimo de perigo e morte. Propositalmente, é nesse ambiente que Jesus escolhe as primeiras pessoas para o seu seguimento: os irmãos Simão Pedro e André. Ele não vai a um ambiente cultual recrutar devotos, mas vai onde há gente sem reputação e sinais de perigo e morte. Embora não vivessem mal economicamente, pois a pesca era uma atividade rentável, os pescadores não gozavam de nenhum prestígio social, pois o contato com o mar tornava a atividade deles depreciativa, embora não fossem considerados impuros, como eram tratados os profissionais de outras atividades, como os curtidores e os pastores, por exemplo.

Como se vê, o chamado de Jesus acontece no cotidiano: os pescadores são chamados enquanto lançam as redes ao mar. Isso serve para ilustrar a necessidade de adotar um novo estilo de vida para seguir Jesus e, consequentemente, inserir-se no Reino. O deixar as redes imediatamente para seguir Jesus (v. 20) significa exatamente a passagem de um estilo de vida para outro. O convite a ser “pescadores de homens” (v. 19) deve ser bem esclarecido, pois é muito fácil de ser deturpado, como tem sido intensamente, sobretudo nos tempos atuais. Ora, muitas vezes, usa-se essa expressão para justificar proselitismos e até imposição de crenças, o que não combina com o projeto de Jesus. Como afirmamos anteriormente, o mar tem um sentido muito negativo para o mundo bíblico; é sinônimo de perigo, pois evoca o domínio do mal. Ser “pescador de homens” (de gente!), portanto, é ser sinal de vida, e assim é a missão dos seguidores de Jesus em todos os tempos: tirar homens e mulheres de condições desumanas; é restituir a dignidade às pessoas, combatendo todos dos tipos de mal que assolam o mundo, como a violência, a corrupção, a fome e as injustiças em geral. O seguimento de Jesus exige o comprometimento com essa causa.

Na continuidade, o evangelista apresenta o chamado de mais uma dupla de irmãos: «Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram» (vv. 21-22). O cenário continua o mesmo, mas temos algumas novidades, principalmente nas renúncias. Enquanto Simão Pedro e André deixaram apenas as redes, o evangelista diz que Tiago e João deixaram a barca e o pai. Há, portanto, um crescendo nas exigências.  O primeiro chamado enfatiza o rompimento com a ordem socioeconômica, representada pelas redes (v. 20), enquanto o segundo destaca a ruptura com a estabilidade, representada pela barca, e o mundo cultural e religioso, simbolizado pelo pai, o chefe de família e detentor de autoridade na sociedade patriarcal. Com isso, o evangelista quer dizer que a relação com Jesus deve ter precedência sobre todas as instâncias da vida. Também é um sinal de que, ao longo da história, as exigências para o seguimento de Jesus tendem a aumentar cada vez mais, conforme os sinais dos tempos. Por isso, o chamado dos primeiros discípulos não é propriamente uma crônica, mas uma parábola de todo chamado vocacional, da atenção de Jesus a cada pessoa, mediante o seu olhar. E a resposta dos primeiros discípulos é paradigma de toda resposta e acolhida ao olhar interpelante de Jesus. Nos dois chamados, o evangelista recorda que, antes de tudo, Jesus viu os pescadores. De fato, ele vê cada pessoa em sua inteireza, ou seja, de modo profundo, contemplando cada um como obra prima do seu Pai.

Na conclusão, o evangelista apresenta um primeiro resumo da missão de Jesus, recordando o caráter itinerante e libertador do seu ministério: «Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo» (v. 23). Como se vê, é uma atividade dinâmica, própria de quem não vive acomodado, mas vai ao encontro das pessoas, onde há necessidade real. Andar por toda a Galileia indica a intensidade do agir libertador de Jesus, apontando para a inclusão e a fertilidade da misericórdia que ele veio espalhar no mundo. Esse dado antecipa a missão universal que, já Ressuscitado, ele vai conferir aos discípulos, no final do Evangelho: «Ide, portanto, por todas as nações… ensinando-lhes tudo o que vos tenho ordenado…» (Mt 28,19-20). A missão na Galileia é o ponto de partida para a missão universal. O mundo todo deve ser fecundado do amor de Deus, nisso consiste a missão da comunidade cristã. Além de sintetizar a atividade de Jesus, esse versículo final do evangelho de hoje também exprime a natureza da “pesca de homens” para a qual ele chamou os discípulos: “curar todo tipo de doença e enfermidade do povo”, o que significa esforçar-se constantemente para que as pessoas sejam libertadas de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus. E é para isso que aponta a Palavra de Deus em sua inteireza: o cuidado com a vida.

Ao apresentar o início do ministério de Jesus, recordando o chamado dos primeiros discípulos, o evangelho deste dia nos interpela a renovar a consciência de pessoas chamadas por Jesus para ser sinal do seu amor misericordioso no mundo, atuando como agente de humanização. Contudo, é importante recordar que, antes de chamar, Jesus vê, ao ver, ele ama, por isso chama. Que a Palavra de Deus, que é o próprio Jesus, inunde nossos corações de amor, habitando em nosso meio, e oriente o nosso viver.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, janeiro 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do segundo domingo do empo comum emprega um texto do Evangelho segundo João, convencionalmente chamado também de Quarto Evangelho, devido à sua posição na ordem canônica do Novo Testamento. O trecho selecionado varia anualmente, conforme a dinâmica cíclica do ano litúrgico (ano A: Jo 1,29-34; ano B: Jo 35-42; Ano C: Jo 2,1-11). Concretamente, esse domingo constitui a verdadeira abertura solene do tempo comum, uma vez que não existe um primeiro domingo do tempo comum no calendário litúrgico. Como se sabe, ao longo do ano, a liturgia do tempo comum faz uma apresentação contínua do ministério de Jesus, desde os seus primórdios na Galileia até o seu final, em Jerusalém. Recorre-se, portanto, ao Evangelho de João no segundo domingo, porque é esse o que introduz a vida pública de Jesus de modo mais aprofundado. Por ocasião do Ano Litúrgico A, o trecho lido neste domingo é Jo 1,29-34. Nessa passagem, aparecem declarações bastante relevantes sobre a identidade e missão de Jesus, de grande profundidade teológica, que só serão bem compreendidas ao longo do tempo, acompanhando cada passo da sua vida pública, como propõe a dinâmica do ano litúrgico, sobretudo o tempo comum. É importante recordar que, ao contrário dos sinóticos (Mt-Mc-Lc), o Quarto Evangelho não narra o batismo de Jesus, mas faz alusões implícitas a esse acontecimento, como se vê no evangelho de hoje.

O texto lido neste dia faz parte da primeira seção narrativa do Evangelho de João, convencionalmente chamada pelos estudiosos de “semana inaugural” (Jo 1,19–2,21). Trata-se de uma sequência narrativa na qual o evangelista introduz a vida pública de Jesus com indicações temporais que indicam a duração de uma semana. Com isso, o autor pretende apresentar a obra de Jesus como uma nova criação, em alusão à criação originária, desenvolvida também em uma semana (Gn 1,1–2,3). O primeiro dia da “semana inaugural” do evangelho joanino foi marcado por uma comitiva fiscalizadora, enviada pelas autoridades religiosas de Jerusalém para interrogar João sobre sua identidade (Jo 1,19-28), e o último dia ou sétimo é marcado pelas bodas de Caná (Jo 2,1), o qual é introduzido pela expressão “no terceiro dia”, mas em relação aos quatro dias anteriores e, portanto, é o sétimo da primeira semana. O episódio narrado no evangelho de hoje corresponde ao segundo dia da semana. Porém, isso não se percebe na tradução do lecionário litúrgico, que substituiu o dado temporal do texto original pela genérica fórmula de introdução “naquele tempo”.

E iniciamos a nossa reflexão, portanto, recordando o dado temporal com o qual o evangelho de hoje é introduzido, na língua original. Ora, ao invés da genérica fórmula de introdução “naquele tempo”, o texto começa com uma expressão que poderia ser traduzida como “no dia seguinte” ou “um dia depois” (em grego: τῇ ἐπαύριον – té epaurion). A princípio, pode parecer uma observação pouco relevante, mas na verdade se trata de algo bastante significativo. Ora, se o evangelista emprega essa expressão quer dizer que o episódio a ser narrado possui relação com o anterior, como de fato tem. Desse modo, a forma correta do primeiro versículo é: «No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”» (v 29). O Evangelho de hoje, portanto, apresenta o segundo dia da nova criação, ou seja, do novo tempo que o autor do Quarto Evangelho quer apresentar. Um dia após ter sido interrogado pelos comissários de Jerusalém, «João viu Jesus aproximar-se dele» (v. 29a). É necessário perceber a importância da ação de Jesus: vir, aproximar-se, caminhar em direção de alguém, no caso, de João. Uma nova ordem na história da salvação está sendo inaugurada, e João a contempla como testemunha privilegiada: é Deus quem vem ao encontro dos homens e mulheres, ou seja, ao encontro da humanidade. À humanidade, cabe o papel de ver e, por consequência, reconhecer, acolher e testemunhar, como fez João.

A propósito de João, é importante recordar que, no Quarto Evangelho, ele é identificado como testemunha, bem mais do que que pela atividade batizadora, como acontece nos sinóticos. Inclusive, no evangelho joanino ele não é sequer chamado de Batista, mas apenas de João, embora se afirme que ele também batizava, como diz o evangelho de hoje (v. 33). Também não se identifica com a tradicional figura do precursor, outra característica sua predominante nos sinóticos. Conforme a perspectiva teológica do Quarto Evangelho, João é a testemunha, bem como sua missão é dar testemunho, e isso é suficiente para demonstrar sua importância. De fato, esse dado é bastante relevante, pois o testemunho (em grego: μαρτυρία – martyría) é uma categoria teológica de grande importância para a comunidade joanina e, nesse sentido, a figura de João se torna paradigmática para o discipulado de Jesus em todos os tempos. Ora, João reconheceu Jesus; reconhecendo-o, deu testemunho dele, como o evangelista havia antecipado no prólogo (Jo 1,6-8). E os discípulos de Jesus, por sua vez, além de reconhecê-lo, devem também manifestá-lo por meio do testemunho, inclusive, reconhecendo-o nas situações mais adversas: nos pobres, pecadores e pessoas marginalizadas de um modo geral. Portanto, o que João fez em relação a Jesus, muito mais devem fazer os cristãos, em todos os tempos.

E a reação de João diante do que estava contemplando foi decisiva e corajosa. Ao afirmar que Jesus é «o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!», ele fez uma das declarações mais revolucionárias de toda a Bíblia. Com essa afirmação, ele desmascarou e decretou a falência de todo um sistema religioso e político sustentado pela exploração que o sistema sacrificial do templo de Jerusalém promovia. Essa declaração revela um novo rosto de Deus e anuncia, acima de tudo, uma nova maneira de se relacionar com ele. E a maneira nova de se relacionar com Deus corresponde ao fim do sistema cultual centralizado no templo de Jerusalém, símbolo de corrupção e exploração. A expressão “Cordeiro de Deus” (em grego: ἀμνὸς τοῦ θεοῦ – amnós tu Theú) é uma das maiores novidades do Evangelho de João; em toda a Bíblia, aparece somente duas vezes (Jo 1,29.36). No Novo Testamento, somente dois livros aplicam a imagem do Cordeiro a Jesus: o Quarto Evangelho e o Apocalipse. Devido à novidade que comporta, muitas possibilidades de interpretação foram sugeridas para essa expressão, ao longo da história, umas convincentes e outras não, umas condizentes com a lógica do Quarto Evangelho e outras não. Portanto, diversas perspectivas podem ser apresentadas.

Uma primeira perspectiva para a compreensão da definição de Jesus como “Cordeiro de Deus” é a messiânica. Ora, estava consolidada no imaginário do judaísmo da época a imagem de um messias valente, guerreiro, rei forte e potente, com garras semelhantes às de um leão – o leão de Judá (Gn 49,9; Os 5,14; Mq 5,7-8; Is 31,4). Como o leão era um dos símbolos do poder régio no antigo Oriente, em Israel compartilhava-se o mesmo imaginário, projetando tais traços em seu esperado Messias. Havia, portanto, muita expectativa para a chegada desse personagem. Mesmo que essa expectativa messiânica não fosse uniforme em todo o judaísmo, era suficientemente difundida para moldar o imaginário popular. João, por sua vez, desconstrói completamente essa imagem, pois o cordeiro era símbolo da mansidão e fragilidade, o oposto das expectativas do povo. Com isso, o evangelista quer dizer que o messias autêntico não é um guerreiro lutador, mas homem manso e não violento. Porém, mansidão não quer dizer resignação, como Jesus vai mostrar ao longo de sua vida pública, lutando incessantemente pela ruptura total com os costumes e tradições que oprimem e matam, mas sem jamais empunhar as armas da violência. Outra perspectiva de leitura, que não exclui a primeira, mas a complementa, é a releitura da imagem do cordeiro no Antigo Testamento, especificamente em duas ocasiões: o cordeiro pascal (Ex 12,1-28), e o Servo sofredor que é comparado a um cordeiro (Is 53,6-7). E nessas duas ocasiões o cordeiro evoca libertação: na primeira, simboliza a libertação da escravidão no Egito; na segunda, indica que o sofrimento do povo no exílio da Babilônia estava acabando, ou seja, a libertação estava próxima. Em ambas as situações, a libertação simbolizada pelo cordeiro era parcial, destinada apenas ao povo de Israel. Em Jesus o horizonte é ampliado: ele traz libertação para o mundo inteiro.

Para a instituição religiosa de Israel, a função do Cordeiro Jesus apontada por João era um verdadeiro golpe mortal: tirar o pecado do mundo. Ora, todo o aparato religioso de Israel era sustentado “às custas do pecado” do povo. Quanto mais o povo pecasse, mais sacrifícios precisaria oferecer no templo, mais ofertas deveria dar e, assim, mais ricas ficariam as autoridades religiosas. Sendo Jesus o Cordeiro, é ele mesmo quem se oferece, quem se doa, logo, não há mais necessidade de oferecer cordeiros e touros no templo. Em Jesus, Deus veio ao encontro definitivo da humanidade, oferecendo-se por inteiro, fazendo-se carne e habitando no mundo (Jo 1,1-18). Não há mais distância entre Deus e a humanidade, por isso, os sacrifícios do templo não mais necessários. E o Cordeiro Jesus não apenas “expia” pecados, mas elimina definitivamente o pecado do mundo. E a eliminação do pecado do mundo representa a falência total do templo. Jesus não veio para expiar os pecados, mas para abolir o pecado e, não apenas de Israel, mas da humanidade inteira, ou seja, o pecado do mundo.

Tirar o pecado do mundo significa restabelecer na humanidade a sua capacidade de comunicação com Deus e imprimir nela o amor. A visão de pecado do Quarto Evangelho é completamente diferente daquela que a religião de Israel tinha imposto; não é a transgressão individual de preceitos criados pela própria religião, mas a falta de comunicação com Deus, o fechamento e a dureza de coração. E, quem tinha distanciado Deus da humanidade e, portanto, impossibilitado essa comunicação, tinha sido a própria religião. A novidade que Jesus veio trazer ao mundo – ou seja, o seu “Evangelho” – é um projeto de vida plena, marcado pela igualdade, fraternidade, justiça, solidariedade e amor; é nesse projeto que Deus se revela e, portanto, faz desaparecer o pecado. Onde se vive à maneira de Jesus, Deus se faz presente e, por isso, o pecado desaparece, o mal perde o vigor. Logo, os sistemas cultuais expiatórios perdem seu sentido e seu valor quando o projeto de Jesus é assimilado. Para quem vivia “às custas do pecado” do povo, como o templo de Jerusalém, essa nova ordem é altamente prejudicial; na verdade, é destruidora, por isso, será tão combatida.

E o evangelista continua mostrando o testemunho de João. E é um testemunho importante porque reconhece a necessidade de vir depois dele alguém que já existia antes: «Dele é que eu disse: “Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim”» (v. 30). Aqui, João faz uma espécie de retrospecto do testemunho que já estava dando há certo tempo, inclusive, parte dessa afirmação está na resposta dada no interrogatório dos enviados de Jerusalém (v. 27). Assim, ele reconhece o quanto são maravilhosos os desígnios de Deus: a humanidade não poderia permanecer nem perecer daquela forma e naquele estágio em que se encontrava antes do Cordeiro se manifestar. O que preexistia, como fora evidenciado pelo evangelista no prólogo (Jo 1,1-18), deveria se manifestar, e João teve a graça de testemunhar essa manifestação que marcou o início de uma nova humanidade e uma nova criação. João tinha consciência de que, embora a salvação agora contemplada, tivesse um alcance universal, seria manifestada primeiro a Israel, através do sinal exterior do seu batismo com água: «Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel» (v. 31). Portanto, se no momento da eleição foi por privilégio, no tempo de João já era por necessidade. Israel não poderia deixar de ser o primeiro campo de manifestação dessa nova ordem ou etapa da história da salvação. O desenrolar do Evangelho, contudo, vai mostrar que, embora tenha sido o primeiro destinatário, Israel não reconheceu.

A continuidade do testemunho de João atesta sua autenticidade: ele mesmo fez a experiência e viu «O Espírito descer como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele» (v. 32). Com essa imagem, João atesta a provisoriedade do seu batismo e da religião do seu tempo: o Espírito desceu do céu e permaneceu em Jesus; logo, a morada do divino na terra não é mais o templo, mas todo ser humano que acolhe e assimila o jeito de viver de Jesus, uma vez que, após a ressurreição, esse mesmo Espírito será enviado a toda a humanidade. João proclama que Jesus é a morada do Espírito e, assim, a humanidade é transformada e reordenada, tornando-se plenamente humanizada. E é a contemplação da descida e permanência do Espírito em Jesus (v. 33) que dá a João a certeza de que Jesus é, inclusive, mais do que Cordeiro: «Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!» (v. 34). Ora, se isolada, a simples imagem do Cordeiro, apesar de revolucionária, ainda poderia ser confundida com a figura do servo. Por isso, o reconhecimento de Jesus como o Filho de Deus é tão decisiva.

Com efeito, a declaração de que Jesus é o Filho de Deus não revela apenas um traço da sua identidade, mas aponta para um novo jeito de se relacionar com Deus. Revela a comunhão e o amor recíprocos entre os dois – o Pai e o Filho. Sendo Filho de Deus, Jesus é “igual” ao Pai e, portanto, herdeiro; por ter em si o Espírito, somente ele poderá doá-lo, transmitindo-o a toda a humanidade, como fará após a ressurreição. Assim, acolhendo esse Espírito, todos podem tornar-se também filhos de Deus (Jo 1,12) e, consequentemente, também doadores do Espírito Santo. Por sinal, o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus é o objetivo principal de todo o Quarto Evangelho, como vem afirmado na primeira conclusão da obra: «Esses sinais foram escritos para crerdes que Jesus é o Filho de Deus» (Jo 20,31a). Por isso, logo no início, o evangelista apresenta uma testemunha privilegiada desse reconhecimento: João (Jo 1,6-8.19.29.32.34); e no final, toda a comunidade dos discípulos e discípulas (Jo 20,1-31). A comunidade cristã, portanto, é chamada ser continuadora da missão testemunhal de João.

Esperava-se um Messias valente para exterminar os pecadores... Deus enviou um Messias manso como um cordeiro, para tirar o pecado do mundo, através de uma proposta nova de vida para todos, principalmente os pecadores e todas as pessoas marginalizadas. A condição de Jesus como Cordeiro e Filho de Deus representam a humanização completa que ele veio oferecer ao mundo. É a superação do Deus distante e rígido que exigia sacríficios, pelo Deus que manifesta sua glória na fragilidade da carne humana, como celebramos no Natal e cujos ecos se sentem ainda na liturgia de hoje e devem estender-se por todo o tempo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,13-16 (ANO A)

A liturgia deste quinto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do grande discurso programático de Jesus no Evangelho de Ma...