sexta-feira, outubro 16, 2026

REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,15-21 (ANO A)

 


O evangelho lido na liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua ambientado em Jerusalém, mais precisamente nas dependências do templo, onde Jesus viveu a fase mais tensa e intensa do seu ministério. Na verdade, até a conclusão do ano litúrgico, que já se aproxima, o evangelho será tirado desse contexto. O texto lido hoje – 22,15-21 – abre uma série de controvérsias ou disputas dos fariseus com Jesus. Trata-se da disputa sobre a legitimidade do imposto a César, um episódio que consta também em Marcos e Lucas (Mc 12,13-17; Lc 20,20-26), embora a versão de Mateus possua mais particularidades. Os fariseus já tinham sido os principais opositores de Jesus na Galileia, desde o início do seu ministério, e continuam atuando também em Jerusalém, juntando-se a outros grupos que fazem complô, até à aliança final com os romanos que terá a morte de cruz como desfecho. Esses grupos – fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos, herodianos – se alternavam nas tentativas de emparedar Jesus e silenciá-lo, até forjarem sua condenação. Enquanto nos últimos três domingos o confronto direto se deu com os sacerdotes e anciãos, que saem de cena momentaneamente, outros personagens entram em evidência; nesse caso, são os fariseus, mas sempre com os mesmos propósitos de questionar e deslegitimar a autoridade de Jesus para ensinar e agir de maneira tão livre, humanizante e libertadora.

Os questionamentos dos sacerdotes e anciãos tinham um viés mais político, pois viam o ensinamento de Jesus como uma ameaça ao poder que exerciam. Já as questões levantadas pelos fariseus são mais relacionadas à doutrina propriamente, sobretudo em relação à interpretação da Lei, embora o caso retratado no texto de hoje possua também uma acentuada dimensão política. Como sabemos, logo ao entrar na cidade de Jerusalém, Jesus fez uma grande denúncia contra a situação em que se encontrava o templo: uma casa de oração transformada em covil de ladrões (Mt 21,12-17), estendendo essa denúncia especialmente à casta sacerdotal e aos anciãos do povo, que mantinham a religião como instrumento de exploração e dominação. A primeira seção dessa denúncia foi ilustrada por três ricas parábolas, lidas na liturgia dos últimos três domingos: a) O pai, os dois filhos e a vinha – Mt 21,28-32; b) Os vinhateiros homicidas – Mt 21,33-43; c) A festa de casamento do filho do rei – Mt 22,1-14. Com essa série de parábolas, Jesus denunciou a ilegitimidade do poder exercido pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém, ao mesmo tempo em que afirmava sua condição de Messias e único autorizado a falar e agir em nome de Deus, o seu Pai. Ao desmascarar o sistema religioso vigente, Jesus deixava claro o seu projeto de restituir ao Pai aquilo que o poder político-religioso tinha roubado: o ser humano e sua dignidade em todas as dimensões. Para isso, ele propõe o Reino de Deus como única alternativa e realidade que possibilita ao ser humano viver em plenitude e abundância de vida.

A proposta de Jesus soava absurda para a elite de Jerusalém, de modo que quanto mais ele falava, mais essa elite se organizava para pôr fim à sua vida. Como as três parábolas recordadas deixaram os chefes – sacerdotes e anciãos – sem palavras, novos grupos entram em cena com o mesmo propósito: provocar em Jesus uma autocondenação, armando-lhe ciladas. Dessa vez, foram os fariseus que armaram a cilada, como atesta o texto: «Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra» (v. 15). O plano consistia em colocar Jesus em situação constrangedora e, assim, acusá-lo publicamente. Queriam eles que o próprio Jesus entrasse em contradição e fosse desmoralizado, dando motivo para ser acusado, seja no âmbito religioso, seja no campo político. Por isso, procuram aliados para a execução do plano: «Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes» (v. 16a). A existência de discípulos dos fariseus revela o quanto o movimento era organizado, inclusive com escolas de formação para rabinos. Esse dado é exclusivo de Mateus; nos outros dois sinóticos fala-se apenas dos fariseus junto com os partidários de Herodes, sem referência à categoria de “discípulos” dos fariseus. O dado reflete a situação da comunidade de Mateus, na época da redação do seu Evangelho, em meados dos anos oitenta, quando havia uma forte polarização entre as escolas rabínicas e o movimento dos discípulos de Jesus.

O que mais chama a atenção, no entanto, é a aliança dos fariseus com os partidários de Herodes, pois eram grupos rivais, considerados até inimigos. O acordo dos dois grupos ou movimentos mostra que a conveniência leva adversários a se unirem quando há um inimigo comum. Os herodianos, como eram chamados os membros do partido de Herodes, constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como uma abominação, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que restaurasse o antigo reino davídico-salomônico, para libertar Israel da dominação romana. Com efeito, eles não suportavam a presença dos romanos em seu meio, mas, mesmo assim, pagavam convenientemente todos os impostos exigidos por Roma para evitar o rótulo de rebeldes e subversivos, como os zelotas, por exemplo, um movimento que promovia até a luta armada para combater a dominação estrangeira. Portanto, apesar de contrários à dominação romana, os fariseus não apresentavam nenhum tipo de resistência, pois queriam manter a aparência de bons cidadãos. O jogo de conveniência entre fariseus e herodianos é imagem do plano futuro que levará Jesus à morte; significa a religião e o império unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado para os dois, como foi Jesus de Nazaré.

Como o plano era apanhar Jesus pela palavra, eis a investida deles: «Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências» (v. 16). Todas estas palavras elogiosas faziam parte do plano. São palavras que demonstram respeito, admiração e conhecimento da pessoa de Jesus, mas são pronunciadas ironicamente por pessoas falsas e mal-intencionadas. Se, de fato, reconhecessem Jesus como mestre, não estariam armando-lhe ciladas. Pelo contrário, aceitariam sua mensagem libertadora e sua proposta de vida. Com efeito, essa descrição correspondia mesmo à identidade humana de Jesus, pois ele era realmente um homem sincero, autêntico e verdadeiro, que não julgava pelas aparências. Inclusive, é o maior elogio que Jesus recebe no Evangelho de Mateus. Nem mesmo seus discípulos jamais lhe dirigiram palavras assim. Contudo, era um elogio falso, pois não correspondia ao que eles – os fariseus, sobretudo – pensavam de Jesus. Na verdade, o falso elogio não passava de um pretexto ou um passo a mais para chegarem ao golpe final, com a pergunta tendenciosa e maliciosa: «Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a César?» (v. 17). Era aqui que eles queriam chegar, imaginando estar colocando Jesus em um beco sem saída. E, realmente, a situação era desfavorável para Jesus, pois ele deveria opinar sobre um dos temas mais delicados da vida cotidiana do povo judeu da época.

Na verdade, a questão do imposto é uma questão difícil de lidar em todas as épocas. Já foi motivo de muitas guerras e rebeliões ao longo da história, sobretudo na antiguidade, inclusive em Israel. Por isso, os cobradores de impostos eram pessoas tão odiadas naquele tempo, como retratam os evangelhos. Poucos anos antes da atuação de Jesus, houve uma revolta na Galileia contra Roma, liderada por Judas, o Galileu, cuja motivação foi o aumento dos impostos. Dessa revolta, nasceu o movimento dos zelotas, que pregava a luta armada contra a dominação romana. Com a pergunta sobre o imposto, portanto, os adversários de Jesus imaginavam deixá-lo sem possibilidade de saída. Se respondesse que é lícito pagar imposto a César, Jesus estaria agradando aos herodianos e, consequentemente, sendo conivente com a dominação romana e seu sistema de exploração. Ao mesmo tempo, estaria ganhando a antipatia das multidões que até pouco tempo lhe tinham aclamado na entrada de Jerusalém (Mt 21,1-11), passando a ser considerado um traidor do seu povo. Além disso, estaria reconhecendo o senhorio de César, ou seja, do imperador romano. Se respondesse que não é lícito pagar o imposto, agradaria às multidões, ao povo simples que o acompanhava e, ao mesmo tempo, anteciparia a sua condenação como um rebelde e subversivo político. Com efeito, recusar pagar o imposto significava declarar guerra ao sistema dominante. O que seus adversários queriam era um motivo para condená-lo a partir da sua resposta: respondendo sim, seria condenado pelo povo e pela religião como traidor; respondendo não, seria preso e condenado imediatamente pelo império, por subversão. A pergunta, portanto, refletia um plano que parecia perfeito para deixá-lo sem saída.

Exatamente por ser verdadeiro e não julgar pelas aparências (v. 16), Jesus não caiu na armadilha dos seus adversários, e logo os repreendeu, desmascarando-os completamente: «Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?”» (v. 18). Como se vê aqui, o evangelista emprega duas palavras duras para caracterizar os adversários de Jesus, mediante o narrador e o próprio Jesus: maldade (em grego: πονηρία – poneria) e hipócritas (em grego: ὑποκριταί – hipocritai). Isso quer dizer que os fariseus e os herodianos, juntamente com os adversários da controvérsia anterior, eram pessoas más, falsas, dissimuladas, mascaradas e, por isso, não mereciam nenhuma credibilidade. Estavam agindo por conveniência para encontrar uma maneira de eliminar Jesus, esperando que ele mesmo pronunciasse palavras que servissem de prova para a sua condenação. Mas, como já tinha acontecido em outras ocasiões, Jesus se sobressai de uma situação desconfortável e termina deixando seus adversários em apuros: «“Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda» (v. 19). A moeda em questão era de um denário (em grego: δηνάριον – denárion). Trata-se da moeda mais comum em circulação no vasto território do império romano, cujo valor era equivalente a um dia de trabalho braçal, o que era suficiente para o sustento de uma família por um dia. Convém recordar que, diante de questões delicadas, Jesus nunca dava respostas simples como um “sim” ou um “não”, como queriam seus interlocutores, mas provocava uma reflexão mais profunda, como tinha feito pouco tempo antes com os sumos sacerdotes, contando-lhes três parábolas que denunciavam a conduta deles, ao invés de responder diretamente ao questionamento sobre a sua autoridade. Tanto naquela ocasião como nessa retratada no evangelho de hoje, o que os seus interlocutores queriam era uma resposta simples, como um sim ou um não.

Como estavam na área interna do templo, espaço considerado sagrado, não era permitido circular ali com a moeda romana. Por isso, havia as bancas de câmbio de moeda na entrada do templo. Jesus começa a desmascará-los daí, e eles, que tinham armado a cilada, são agora os que caem pois na moeda romana havia a figura e os títulos do imperador com o seu reconhecimento divino inscritos: “Tibério César, Augusto filho do divino Augusto”, em um lado, e “Pontífice Máximo” no outro lado. Logo, tanto a figura quanto a inscrição gravada na moeda eram consideradas objetos de idolatria, pois transgrediam o primeiro mandamento do decálogo (Ex 20,4), conforme a interpretação rígida dos fariseus, os mais fiéis observadores da Lei. Jesus, ao ver a moeda, perguntou-lhes: «De quem é a figura e a inscrição desta moeda?» (v. 20). Eles não tinham outra resposta senão admitir: «De césar» (v. 21a). Ora, os mesmos que demonstravam observar a Lei com tanta fidelidade eram os primeiros a transgredi-la, pois a moeda era uma forma de propaganda do império e da pessoa do imperador como ser divino e absoluto. Certamente, os adversários ficaram desconcertados, talvez até arrependidos da pergunta, uma vez que a armadilha tinha falhado. Como a pergunta tinha sido se era lícito ou não pagar o imposto, a resposta de Jesus vai muito além disso. Se seus adversários carregavam a imagem de César, participavam da sua dominação, eram adeptos do sistema. Logo, não havia motivo para questionar se era lícito ou não o imposto, pois eles já estavam a serviço de César. Aqui, César não é apenas um nome próprio, mas um título. É o símbolo do poder e da dominação romana.

Ao longo de seu ministério, Jesus já tinha manifestado sua posição frente ao império romano e a todo sistema injusto de poder, como a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. O embate anterior com os sumos sacerdotes demonstra isso. Sua resposta a tudo isso foi a proposta do Reino de Deus. Ele já tinha rejeitado a política falsa da “pax romana” logo no início de seu ministério, com a proclamação das bem-aventuranças, e na continuação do discurso da montanha tinha desmascarado a prática religiosa dos fariseus, ensinando o jeito certo de relacionar-se com Deus (Mt 5–7). Agora, deixa ainda mais claro o seu posicionamento com a sua resposta: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (v. 21). A tradução do lecionário se equivoca ao empregar o verbo dar; na verdade, o verbo empregado na língua original do texto corresponde a restituir ou devolver (em grego: ἀποδίδωμι – apodídomi), uma vez que a César nada deve ser dado, mas apenas devolvido, tendo em vista que nada dele é bom e, por isso, ninguém deve reter para si o que é dele. A resposta de Jesus parece complexa, à primeira vista, e fácil de ser distorcida, como foi por muito tempo e continua sendo.

Ora, com essa clássica afirmação, que na verdade é um imperativo, Jesus não estabeleceu duas esferas de poder, uma temporal e outra espiritual, nem traçou a harmonia das relações entre estado e igreja, como frequentemente se tem interpretado. A ordem para devolver a César o que lhe pertence consiste em abandonar tudo o que não condiz com o Reino. Nesse sentido, o imposto passa a ser apenas um aspecto de uma realidade muito mais ampla e complexa. É necessário deixar de compactuar com a lógica imperial de um modo geral. Isso exige uma consciência nova e uma atitude constante de vigilância. É necessário construir uma nova sociedade a partir de uma perspectiva e de uma lógica diferentes, substituindo o poder pelo serviço, com uma nova justiça baseada no amor. Devolver a César o que é dele exige um esforço da comunidade, a começar por uma autocrítica. Muitas lideranças religiosas parecem combater o poder de César para assumir o seu lugar. Essa mentalidade estava presente em alguns dos primeiros discípulos, na comunidade de Mateus e tem estado em muitos momentos da história do cristianismo.

Devolver a Deus o que lhe pertence é restituir o ser humano, imagem única de Deus, à sua dignidade originária, incluindo o cuidado com a criação inteira. A religião do templo de Jerusalém e o império romano tinham roubado o que Deus fez de melhor, que é o ser humano, transformando-o em produto, em mera mercadoria, pela combinação dos poderes político, econômico e religioso. A mercantilização do ser humano fere e nega a sua dignidade. Esse foi um problema observado pelos profetas desde os tempos de Amós, o qual denunciou que o ser humano tinha se tornado um produto comprado ou vendido por um par de sandálias (Am 2,6; 8,6). Esse ser humano que tem a imagem de Deus tem de ser, de novo, humanizado e devolvido a Deus, conforme o projeto originário da criação. A moeda com a figura de César, por sua vez, seja restituída a César, juntamente com toda a lógica perversa do império, da qual a religião do templo de Jerusalém era cúmplice, seja por imposição, seja por conveniência.

A opção pelo Reino apresentada por Jesus torna-se cada vez mais exigente, à medida que a sua vida vai sendo ameaçada. Longe de ser uma via conciliatória entre duas realidades, a frase imperativa de Jesus é um convite à reflexão e à tomada de posição. A comunidade cristã deve se posicionar diante dos acontecimentos, eliminando de suas bases e estruturas tudo o que não pertence à lógica do Reino, ou seja, o que não é de Deus. Se Jesus tivesse buscado conciliação entre o projeto de César e o de Deus, certamente não teria morrido na cruz.

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, outubro 09, 2026

REFLEXÃO PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,1-14 (ANO A)

 


A liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum propõe, para o evangelho, a leitura da parábola da festa de casamento do filho do rei – Mt 22,1-14. Com ela, conclui-se a série de três parábolas contadas por Jesus em seu primeiro confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Jerusalém. O contexto, portanto, é o mesmo dos dois últimos domingos: Jesus se encontrava em Jerusalém, vivendo a última etapa de seu ministério e, enquanto estava ensinando no templo, foi questionado pelos sacerdotes e anciãos a respeito da sua autoridade para ensinar e agir da maneira como agia (Mt 21,23-27). Em sua resposta, Jesus contou três parábolas sobre o Reino de Deus (ou dos Céus, como prefere chamar Mateus), sendo a de hoje a terceira, que é a mais interpelante de todas. Ao responder aos seus interlocutores, mais do que provar a sua autoridade, pois ele não tinha necessidade disso, Jesus queria mesmo era denunciar a hipocrisia e ilegitimidade com que os chefes de Israel exerciam o poder. O evangelista recorda isso como advertência para as comunidades do seu tempo e do futuro não reproduzirem o modelo de religião que Jesus contestou.

Como a contextualização já foi bastante enfatizada nos dois últimos domingos, não é necessário repeti-la minuciosamente hoje. Contudo, é importante recordar que a parábola lida hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a do pai e os dois filhos (Mt 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43). Nelas, o ambiente retratado, ao qual o Reino era comparado, pertencia ao mundo agrícola. Na de hoje, o Reino dos Céus é comparado a um banquete, mais precisamente a uma festa de casamento do filho de um rei. Portanto, retrata um ambiente urbano. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito, com mais poder de impacto para a cultura semita, a imagem de um banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas, embora o casamento em si seja uma imagem muito empregada para representar a relação entre Deus e Israel ao longo de toda a Bíblia. Convém recordar, ainda, que essa parábola se encontra também no Evangelho de Lucas, embora localizada num contexto diferente e com significativas diferenças internas (Lc 14,15-24).

O primeiro versículo nos insere diretamente no contexto e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso, ao afirmar que «Jesus voltou a falar em parábolas» (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme o contexto narrativo do Evangelho e a língua original do texto – o grego – a tradução mais adequada para essa expressão introdutória seria “Jesus continuou falando em parábolas”. Os destinatários principais são os mesmos das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém, e não houve interrupção entre a parábola anterior e a de hoje que conclui a sequência. Obviamente, havia um auditório maior ouvindo Jesus, certamente uma multidão, pois já era a semana da Páscoa e a cidade de Jerusalém estava repleta de peregrinos, além dos discípulos que acompanhavam Jesus desde a Galileia. A propósito do auditório, deve-se recordar sempre que, independentemente de quem sejam os interlocutores diretos de Jesus no contexto narrativo, neste caso os sacerdotes e anciãos, os destinatários primeiros do ensinamento são sempre os discípulos e discípulas de todos os tempos. À medida que continua falando em parábolas, Jesus provoca ainda mais os seus adversários, devido ao aspecto enigmático que as parábolas possuem, deixando-os pensativos.

Eis, então, a parábola: «O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho» (v. 2). Trata-se de uma imagem impactante para o imaginário semita, embora não chegue a ser novidade na linguagem bíblica, pois os profetas já tinham anunciado a consumação dos tempos messiânicos com a imagem do banquete (Is 25,6-10). Trata-se de uma imagem que evoca amor, alegria, fraternidade, paz e felicidade perene. Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa comum a todos os povos e culturas, embora com mais impacto no imaginário semita. Com efeito, a festa por excelência, na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições econômicas dos noivos. No caso da parábola, sendo o casamento do filho de um rei, a duração seria bem maior, assim como a comida e a bebida seriam abundantes e da melhor qualidade possível. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, algumas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.

A festa em si é sinônimo de alegria e fartura, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento lembra, antes de tudo, o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias ou mais, lembra a perenidade: um tempo completo e perfeito, que transmite uma ideia de eternidade. De fato, pelo costume de durar uma semana ou mais, as festas de casamento eram tidas como festas sem fim, tamanha a grandeza e o cuidado com que eram preparadas. Por isso, a festa de casamento, literalmente bodas – em grego: γάμος = gamos – era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. Com efeito, as pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exibir roupas, adornos e exagerar na alegria, inclusive na bebida (Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, em vez de uma reunião litúrgica, como uma vigília ou uma procissão.

Além de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira lição sobre a história da salvação aos seus interlocutores, considerando o significado da imagem e o próprio enredo da parábola. Diz ele que o rei «mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir» (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos, sendo até rechaçados. O povo de Israel, portanto, é representado na parábola pelos primeiros convidados, e suas lideranças são responsáveis pela não aceitação do convite. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel, sob a liderança de seus chefes, aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Mas, como Deus não desiste do seu povo nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 5-6). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre a não repetirem o mesmo.

Diante da recusa dos convidados, que agiram não apenas com indiferença, mas também com violência, chegando a matar os empregados que saíram para convidá-los (v. 6), o rei toma uma decisão drástica: «O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles» (v. 7). Esse versículo tem gerado muitas discussões entre os estudiosos. Certamente, é um acréscimo da comunidade de Mateus, pois não consta na versão desta parábola do Evangelho de Lucas. Alguns veem aqui uma alusão à destruição da cidade de Jerusalém e do seu templo pelos romanos, no início dos anos 70 d.C., um fato já consumado na época da redação do Evangelho de Mateus, escrito já em meados dos anos 80 d.C. De acordo com essa explicação, a destruição de Jerusalém teria sido um castigo a Israel por ter rejeitado o Messias. Contudo, o atual estágio da pesquisa já não admite tal hipótese, embora o conflito entre a comunidade cristã e a sinagoga estivesse muito aceso quando Mateus escreveu o seu Evangelho. Insistir com ela seria alimentar o antissemitismo. Os anúncios de castigo na linguagem bíblica funcionam como advertência. Aplicá-los a fatos históricos concretos não passa de oportunismo. A atitude do rei aqui descrita exprime sua indignação pela rejeição sofrida e, aplicada à comunidade, visa advertir os ouvintes/leitores de que a vida fora do banquete, ou seja, fora do Reino, é totalmente privada de sentido.

A parábola continua a sua sequência natural no versículo oitavo: «Em seguida, o rei disse aos empregados: “a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela”» (v. 8). A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento dos primeiros convidados – Israel – à não aceitação do convite, ou seja, à conversão. De fato, é notório, ao longo da história, o quanto a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas, como aquelas que estavam indignadas com o agir libertador de Jesus. A falta de dignidade dos convidados foi comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição dos primeiros convidados não muda os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira, ou seja, não leva o rei a desistir da festa. Ora, a imagem da festa de casamento expressa, de modo condensado, a totalidade dos bens messiânicos, com abundância de amor, alegria e fraternidade. É uma das melhores imagens aplicadas ao Reino, pois simboliza a vida plena. Por isso, o rei não desiste dela, assim como Deus não abre mão do seu projeto de Reino. Ser digno ou indigno de participar da festa é uma questão de aceitação dos valores do Reino, o que passa pela assimilação da mensagem dos profetas e de Jesus, para a comunidade cristã.

Tendo constatado a rejeição – indignidade – dos primeiros convidados, o rei toma uma decisão que corresponde à insistência de Deus e à perenidade de sua oferta de vida plena para toda a humanidade: «Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes» (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! O termo “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto significa literalmente a saída da cidade (em grego: διεξόδος – diecsódos). Portanto, faz parte do vocabulário do êxodo e evoca libertação. Era na saída da cidade que ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Quem não tinha acesso aos bens que a cidade oferecia, incluindo os serviços religiosos, ficava nas encruzilhadas. De fato, lá estavam as pessoas descartadas pela sociedade da época, mas destinatárias da libertação oferecida por Jesus, com sua mensagem humanizante. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens, para as periferias. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.

Com a ida dos emissários às encruzilhadas, finalmente, o convite tornou-se efetivo, quando foi endereçado a todos, sem distinção: a maus e bons. E o resultado foi este: «a sala ficou cheia de convidados» (v. 10c). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Maus e bons são convidados para o Reino. Porém, aceitar o convite-anúncio comporta exigências e compromissos da parte dos convidados. Considerando a trama da parábola, para a gente simples das encruzilhadas o convite para uma festa de casamento de um filho de rei não passava de um sonho muito distante, como foi a proximidade de Jesus com os pecadores, prostitutas, leprosos, crianças etc. Nunca um mestre tinha se misturado tanto com o povo simples quanto Jesus. Por isso, a parábola se torna metáfora do seu ministério inclusivo e próximo de todos. A sala cheia, portanto, é imagem de um mundo justo, fraterno e igual, como é o Reino de Deus.

Há espaço para todos no banquete do Reino, sobretudo depois de Jesus ter aberto as suas portas com sua mensagem e práxis humanizantes. Contudo, as pessoas são livres e podem se autoexcluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o «traje de festa» (v. 11), uma imagem importante, mas fácil de ser distorcida. Ora, caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. Através da percepção do rei, o evangelista chama a atenção da sua comunidade, fazendo uma advertência que serve para as comunidades de todos os tempos: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje de festa é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete e, portanto, dos membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças – síntese da justiça do Reino –, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus. Todas as pessoas são convidadas e podem entrar na sala de festa, mas só permanece quem se abre ao espírito das bem-aventuranças. É o “revestir-se” de Cristo, expressão que foi inserida nas fórmulas de batismo desde as primeiras comunidades cristãs (Rm 13,14; Gl 3,27).

A reação do rei ao convidado sem o traje de festa parece violenta (vv. 12-13), mas apenas reflete o uso do gênero literário apocalíptico, tão empregado na época entre os rabinos e utilizado também pelos pregadores cristãos das primeiras gerações. Equivale à destruição da cidade diante da rejeição dos primeiros convidados, como vimos anteriormente (v. 7). Não significa um castigo propriamente, mas, dentro da pedagogia divina, indica uma advertência. Visa evidenciar o perigo da autoexclusão do próprio convidado. A ausência do traje de festa é, portanto, a falta de abertura e disposição para “revestir-se” de Cristo, ou seja, é o fechamento ao espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). As bem-aventuranças são o caminho da felicidade e da realização plena. Quem as vive, permanece no banquete do Reino; quem não as vive, priva-se de viver plenamente feliz e realizado, e é isso o que a imagem tão forte indica: perder o sentido da vida. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida. Não se trata de uma descrição, mas de uma comparação, como é toda a parábola. Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é, portanto, privar-se da vida em plenitude.

O evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e põe em prática o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: «Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos» (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, lugar do início da concretização do Reino, há sérios riscos de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos são, indistintamente: bons e maus. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa de vida daquele que chama. Portanto, a expressão «poucos são os escolhidos» significa que nem todos escolhem participar e permanecer no banquete do Reino, porque nem todos têm a disposição de viver à maneira de Jesus. Com efeito, ir ao banquete, entrar na sala da festa não significa aptidão para participar. É necessário, antes de tudo, revestir-se de Jesus, sobretudo do seu amor.

Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para isso, as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas e fazer o convite com amor, alegria, diálogo e espírito de acolhimento. Ao oferecer o convite, a comunidade cristã deve proporcionar o revestimento de Cristo, anunciando com fidelidade e clareza o Evangelho que, longe de ser um código moralista, é um verdadeiro manifesto de humanização e libertação.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

quinta-feira, outubro 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,33-43 (ANO A)

 


O evangelho do vigésimo sétimo Domingo do Tempo Comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a última fase do seu ministério, marcada pelo confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Israel. Esse conflito foi decisivo para a sua morte de cruz, que não foi acidente nem predestinação, e sim consequência de uma vida com opções sempre muito claras, marcada pela fidelidade plena ao Pai e pelo agir amoroso e humanizador em favor das pessoas menos favorecidas, sendo um verdadeiro manifesto contra-hegemônico. O texto lido hoje – Mt 21,33-43 – contém mais uma parábola que emprega a vinha como imagem do Reino de Deus proposto por Jesus. Ao todo, o Evangelho de Mateus contém três parábolas com a imagem da vinha, sendo duas delas exclusividade sua, as quais foram lidas nos dois últimos domingos: a “parábola dos trabalhadores da vinha” ou do “patrão generoso” (20,1-16) e a “parábola dos dois filhos” (21,28-32). A primeira foi narrada ainda na etapa do caminho para Jerusalém, portanto, faz parte de outro contexto, enquanto a segunda já pertence à seção narrativa do ministério de Jesus em Jerusalém, como a terceira, lida neste domingo, chamada convencionalmente de “parábola dos vinhateiros homicidas”. Essa está presente também nos outros dois evangelhos sinóticos, embora cada versão possua elementos próprios que correspondem às necessidades das comunidades destinatárias e à visão teológica de cada autor (Mc 12,1-12; Lc 20,9-19).

Como já fizemos uma contextualização mais ampla no domingo passado, e o texto de hoje faz parte do mesmo contexto, recordaremos somente alguns aspectos mais importantes em nível contextual. E começamos lembrando que, na ocasião, Jesus se encontrava nas dependências do templo de Jerusalém, ensinando. O templo, convém lembrar, era o grande centro de poder religioso, econômico e político de Israel. Como é sabido, os ensinamentos de Jesus contrariavam a ortodoxia da época. À medida que apresentava o Reino de Deus como proposta de vida e de sociedade alternativa ao sistema vigente, Jesus denunciava a hipocrisia e os privilégios das lideranças políticas e religiosas de Israel, que tinham distorcido completamente a imagem de Deus, o seu Pai, transformando-o em patrão vingativo e em mercadoria, uma vez que o templo, que deveria ser casa de oração, tinha se tornado casa de comércio e covil de ladrões (Mt 21,12-13). E isso foi duramente combatido por ele, seja por meio de palavras, seja através de ações proféticas simbólicas, como a expulsão dos vendedores do templo, que foi seu primeiro grande gesto em Jerusalém, logo após a entrada triunfante.

Com efeito, a mensagem de Jesus era insuportável para quem explorava o povo em nome de Deus, como faziam as lideranças religiosas e políticas da sua época. Por isso, enquanto ensinava nas dependências do templo, ele foi questionado pelos sacerdotes e anciãos, as lideranças de Israel: «Com que autoridade fazes isso? Quem te deu essa autoridade?» (Mt 21,23). A esse questionamento, Jesus não respondeu com uma definição conceitual, mas por meio de novos questionamentos e três parábolas, das quais a de hoje é a segunda. A primeira, a “parábola dos dois filhos” (Mt 21,28-32), fora lida no domingo passado, e a terceira, a do “banquete de casamento” (Mt 22,1-14), será lida no próximo domingo. Ao ter sua autoridade questionada, Jesus terminou denunciando a ilegitimidade de seus interlocutores diretos, mostrando a hipocrisia com que exerciam o poder na época, pois tinham transformado o Deus da vida em mercadoria. É importante recordar que, embora os interlocutores diretos de Jesus nestas parábolas, conforme o contexto narrativo do evangelho, sejam os sacerdotes e anciãos, ou seja, as lideranças religiosas da época, o seu ensinamento é destinado primordialmente aos discípulos e discípulas de todos os tempos, começando por aqueles de primeira chamada, passando pelos membros da comunidade de Mateus, até os cristãos de hoje e sempre. Obviamente, no momento do embate, havia muita gente ao redor, além dos discípulos e dos chefes do templo.

Passada a contextualização, voltamos a atenção para o próprio texto, começando pela introdução: «Escutai esta outra parábola» (v. 33a). Com essa fórmula introdutória, fica claro que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado. Ora, se essa é “outra parábola” (em grego: Ἄλλην παραβολὴν – alen parabólen), significa que já fora contada alguma antes dela, como já acenamos na contextualização. Logo, essa é “outra” em relação àquela dos “dois filhos” (Mt 21,28-32), lida no último domingo. A sucessão de parábolas em um mesmo discurso e com um mesmo tema é sinal da importância do que está sendo ensinado, pois revela uma insistência do parabolista. Recordemos, por exemplo, a série de parábolas sobre o Reino (Mt 13), a série de parábolas da misericórdia (Lc 15) e, ainda, a série de parábolas escatológicas (Mt 24–25). Portanto, as denúncias de Jesus às lideranças religiosas do seu tempo foram um elemento de fundamental importância no seu ministério, chegando a ser o ponto culminante de sua pregação. Prova disso é a morte de cruz, decretada como consequência de tudo isso.

Ainda sobre a introdução da parábola, é importante recordar o imperativo “escutai” (em grego: ἀκούσατε – akússate), com o qual a parábola é introduzida. Esse é mais um indicativo de importância do que está sendo ensinado. Mais do que um exercício da audição, o verbo escutar na linguagem bíblica, sobretudo quando vem empregado no modo imperativo, significa uma fórmula de denúncia e um convite à conversão, uma exigência de mudança. Não por acaso, esse é um dos verbos prediletos dos grandes profetas de Israel que mais se destacaram pela mensagem crítica de denúncia às injustiças sociais (Is 1,10; Os 4,1; Am 3,1; 4,1; 5,1; 8,4; Mq 1,2; 3,1.9; 6,1.9). Trata-se, portanto, do verbo da conversão e da fidelidade. Inclusive, é o verbo que introduz a mais alta profissão de fé israelita, o “shemá”, o qual é introduzido pelo imperativo “escuta” (Dt 6,4). Ao empregá-lo aqui, Jesus confirma, implicitamente, que sua autoridade, questionada pelos sacerdotes e anciãos, emana de Deus mesmo, como de fato é. E, considerando as peculiaridades de seus interlocutores, Jesus os convida a olhar para a história de Israel e para Escritura, o que eles conheciam tão bem, mas pareciam ignorar. Isso se evidencia pela apresentação da parábola: «Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas, e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro» (v. 33). Aqui, fica claro que Jesus tinha em mente o “Cântico da vinha” do profeta Isaías (Is 5,1-7) ao propor esta parábola, e sabia que seus interlocutores conheciam muito bem esse texto profético.

Como se sabe, a vinha é uma imagem privilegiada do povo de Deus, usada principalmente nas tradições proféticas (Is 5,1-7; 27,2-3; Jr 2,21; Ez 15,2-8; Os 9,10; etc). Trata-se de uma imagem clássica. Ao ouvir falar de uma vinha, quem tinha familiaridade com as Escrituras, como os interlocutores de Jesus, logo percebia que ele falava da relação de Deus com Israel. Todos sabiam que Deus possuía uma vinha e que a amava tanto. E a parábola ressalta isso. Os cuidados do proprietário acenam para uma grande expectativa em relação à produtividade daquela vinha: o próprio dono a plantou e a cercou, como imagem de profundo cuidado, como é o jeito de Deus cuidar do seu povo. O lagar para esmagar as uvas significa a expectativa de boas colheitas: uvas boas e em abundância para produzir vinho, símbolo do amor e da alegria. A torre de guarda construída significa o cuidado e o quanto a vinha é preciosa para o seu dono. A ausência do dono durante o cultivo e a colheita é sinal de muita responsabilidade confiada aos trabalhadores. Esse detalhe ressalta a confiança que Deus deposita na humanidade; foi ele quem tudo plantou, ao criar o mundo, confiando à humanidade o cuidado de toda a criação. Além disso, o arrendamento descreve uma prática muito comum na Palestina do tempo de Jesus, quando já havia uma grande concentração de latifúndios em poucas mãos. Por isso, os proprietários arrendavam suas terras a terceiros, pois muitos já não residiam mais nas propriedades. A terra já não estava nas mãos das pequenas famílias, que haviam sido espoliadas em razão do endividamento e de processos de desapropriação indevida. Por sinal, entre os grandes proprietários de terras da época estavam membros da aristocracia sacerdotal e das elites de Jerusalém, ligadas também ao poder político e econômico. Tudo isso torna essa parábola uma das mais duras entre as que Jesus contou, assumindo claramente um caráter de denúncia.

Quem planta espera colher frutos. E assim aconteceu com o dono da vinha, conforme a parábola: «Quando chegou o tempo da colheita, mandou seus empregados para receber seus frutos» (v. 34). Embora ele mesmo tenha plantado, ele não vai receber os frutos pessoalmente, mas envia seus “servos” (em grego: δούλοι – duloi), termo que o lecionário traduziu por empregados. O envio dos servos para receber os frutos da colheita significa a confiança que o dono lhes deposita, tendo-os como seus colaboradores muito próximos. À confiança do dono, contrapõe-se a brutalidade dos vinhateiros, que «agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram» (v. 35). Uma série de ações violentas é anunciada. Isso tudo é consequência do abuso de poder da parte dos vinhateiros, com quem Jesus compara os líderes religiosos e políticos de Jerusalém, os quais se apossaram da vinha indevidamente. As ações violentas dos vinhateiros – agarrar, espancar, matar, apedrejar – se contrapõem completamente às iniciativas do proprietário, marcadas pelo cuidado – plantou, cercou, cavou e protegeu (v. 33). Essa contraposição revela a distância que se tinha criado entre Deus e a religião de Israel, no respectivo contexto. Para o evangelista, funciona também como advertência às comunidades da sua época e do futuro, para não se distanciarem do ensinamento de Jesus. Ou seja, nas comunidades cristãs deve prevalecer sempre a cultura do cuidado, sem qualquer adesão à incitação do ódio e da violência.

A sequência do texto mostra a paciência e tolerância do proprietário da vinha, que «mandou de novo outros empregados, em número maior que os primeiros» (v. 36). O dono que ama a sua vinha não desiste dos frutos e não sossega enquanto não os colher. Porém, aconteceu o mesmo com a segunda comitiva de servos, ou seja, foram tratados com violência, como os primeiros. É quase consenso entre os estudiosos que os servos enviados duas vezes à vinha para receber os frutos significam os profetas anteriores e posteriores, conforme a divisão tradicional da Bíblia Hebraica. Essa interpretação ajuda a identificar os vinhateiros, aqueles que se apossaram da vinha, fazendo do que é de Deus uma propriedade particular: as autoridades e instituições políticas e religiosas de Israel, da antiga monarquia davídica à aristocracia sacerdotal da época de Jesus. Em todos os tempos, o poder exercido em Israel foi danoso, até mesmo na época dos reis considerados “bons”, como Davi e Salomão, os mais famosos. De fato, sempre houve abuso de poder e práticas de injustiças. Sempre usurparam a vinha de Deus. Ao invés de facilitar os devidos frutos ao único dono da vinha, a religião de Israel tinha se tornado o maior obstáculo para a colheita. Um simples olhar na história já seria suficiente para essa conclusão: a rejeição aos profetas, quase todos hostilizados pelos detentores de poder.

No final, depois de várias tentativas, o dono da vinha toma uma decisão definitiva que, mais uma vez, evidencia seu pleno amor e cuidado com a vinha, como mostra o texto com muita clareza: «Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: “Ao meu filho eles vão respeitar”!» (v. 37). Essa expressão revela a grandeza do amor desse proprietário. É a imagem de um Deus que não desiste nunca de esperar bons frutos da humanidade. Porém, a reação dos vinhateiros se torna ainda mais violenta com o filho. Tendo já tomado posse da vinha, não permitindo mais que o dono recebesse seus frutos, os falsos proprietários viam o filho do dono como uma ameaça ainda maior, por isso procuram eliminá-lo de uma vez: «Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança» (v. 38). Ao relatar a violência sofrida pelo filho do dono da vinha, Jesus chega ao ápice do ensinamento da parábola: os chefes que interrogaram sua autoridade são os vinhateiros que se apossaram da vinha. Eles, que hostilizaram os profetas do Antigo Testamento, rejeitaram a pregação de João Batista e agora estão quase matando o filho. Aqui, Jesus faz um novo anúncio da paixão, dessa vez implícito, uma vez que já havia feito os três anúncios explícitos (Mt 16,21; 17,22-23; 20,17-19). Os três anúncios anteriores foram feitos aos discípulos; agora, é aos futuros algozes que ele anuncia a paixão, tendo também a multidão ao seu redor, certamente, assistindo ao embate. Nos três anúncios da paixão aos discípulos, ele falou de si mediante a imagem do “Filho do Homem”; dessa vez, refere-se apenas como filho. Com isso, a parábola ganha um sentido ainda mais amplo, funcionando como síntese da história de Israel e autobiografia de Jesus.

Ao concluir a parábola, descrevendo o tratamento dado ao filho do dono da vinha pelos vinhateiros – «agarraram-no, jogaram-no para fora da vinha e o mataram» (v. 39) –, Jesus deixa novamente os sumos sacerdotes e anciãos do povo em situação constrangedora: «Quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?» (v. 40). A resposta deles é praticamente uma sentença de autocondenação: «Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo» (v. 41). Até aqui, os sumos sacerdotes e anciãos parecem ainda não ter percebido que Jesus está falando deles. Contudo, Mateus afirma logo depois que eles compreenderam que Jesus falava deles (Mt 21,45). Contudo, continuam ignorando e insistindo em não acatar o ensinamento de Jesus, exatamente porque tomaram posse indevidamente do que não lhes pertencia, estavam movidos pelo orgulho, pela mentira e pela violência e, por isso, fechados ao que Jesus ensinava. Quer dizer, continuavam fechados a qualquer processo de conversão. Ao contrário da resposta deles, Jesus não fala em momento algum de vingança ou violência da parte do dono da vinha. Por outro lado, ele mostra uma reviravolta na história, com base na Escritura que seus interlocutores deveriam conhecer, mas a ignoravam: «Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?’”» (v. 42). Essa citação da Escritura (Sl 118,22-23) é uma palavra de reprovação a quem se impõe pela força e, ao mesmo tempo, de esperança às vítimas de todo sistema opressor, enfatizando qual é o lado de Deus na história: o lado dos descartados, das pessoas marginalizadas, sobretudo pela religião.

Ao propor a vingança do dono da vinha, os sacerdotes e anciãos revelam a religião que eles praticavam e o Deus em quem acreditavam: uma religião mercantilista, baseada na lei do “olho por olho e dente por dente” (Mt 5,38), condenada por Jesus, e um Deus severo e castigador, diferente do Deus Pai revelado por Jesus. A atitude do dono, ao contrário do que pensam os interlocutores de Jesus, será apenas destituir os vinhateiros de um poder que eles tinham usurpado. Eles foram encarregados de cuidar, isto é, cultivar, produzir, colher os frutos e restituí-los ao dono; em vez disso, tomaram posse como se a vinha fosse propriedade particular. Ora, o que pertence a Deus é direito de todos; ninguém pode considerar propriedade sua o que é dom, o que é fruto do amor e da graça de Deus. Porém, Jesus não anuncia castigo, mas apenas a destituição do poder: «o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos» (v. 43). A ironia de Jesus, aqui, chega ao ápice: os que questionaram sua autoridade são exatamente aqueles que não tinham autoridade para falar em nome de Deus, uma vez que Deus só autoriza a falar em seu nome quem produz frutos em favor de todos, e não quem pensa somente em si e age com violência e mentira.

Ao ler essa parábola e, quase de imediato, perceber que Jesus aplica o dono da vinha ao seu Pai, os vinhateiros às classes dirigentes de Jerusalém, e o filho rejeitado a si mesmo, corremos o risco de imaginar também uma simples passagem do Reino, saindo das mãos do judaísmo para a Igreja nascente. É importante perceber que o Reino de Deus não é transferido de uma religião para outra; é apenas confiado a quem produzir frutos, independentemente da origem. A entrega do Reino “a um povo” não determinado significa a universalidade da salvação e a dimensão inclusiva do Reino, composto de judeus, gregos e todos os povos da terra. Não é a pertença a uma raça, cultura ou religião específica que dá acesso ao Reino, mas a “produção de frutos”, quer dizer, a prática da justiça e a vivência do amor (Mt 5-7), como já fora antecipado no discurso da montanha, especialmente com as bem-aventuranças (Mt 5,1-12).

Produz frutos e participa do Reino, portanto, quem faz a vontade do Pai que está nos céus, e não quem apenas diz “Senhor, Senhor!” (Mt 7,21). O Reino é entregue a toda pessoa que aceita o desafio de viver segundo as bem-aventuranças. Toda vez que alguém quer controlar o agir de Deus, determinando quem está salvo e quem está condenado, está agindo como os vinhateiros homicidas. O fato de alguém pertencer a uma comunidade/igreja cristã não garante participação no Reino de Deus. Por isso, mais do que uma ameaça ao judaísmo da época, essa parábola é uma séria advertência ao cristianismo de todos os tempos. Jesus nos desafia a produzir frutos de amor, justiça, solidariedade, enfim, nos convida a viver humanizados e a humanizar o mundo, tornando-o semelhante ao Reino que ele veio instaurar. Essa é a missão contínua da comunidade cristã.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, setembro 25, 2026

REFLEXÃO PARA O 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,28-32 (ANO A)



O evangelho deste vigésimo sexto domingo é Mt 21,28-32, texto que compreende a chamada parábola dos dois filhos, cujo pai os ordena a trabalhar na sua vinha. É mais uma parábola exclusiva do Evangelho de Mateus, sendo a segunda de uma trilogia que emprega a imagem da vinha como representação do Reino de Deus, na respectiva obra. A primeira foi lida no domingo passado (dos trabalhadores da vinha – Mt 20,1-16) e a terceira será lida no próximo domingo (dos vinhateiros homicidas – Mt 21,33-43). Enquanto aquela do domingo passado foi contada ainda no contexto narrativo do caminho de Jesus com seus discípulos em direção à cidade de Jerusalém, a de hoje já é contada na “cidade santa”. Isso quer dizer que o texto se localiza na seção narrativa do ministério de Jesus em Jerusalém, e é dessa seção que será tirado o evangelho de cada domingo de hoje até o final do corrente ano litúrgico. Como se sabe, foi em Jerusalém que Jesus viveu a fase mais tensa de seu ministério, confrontando-se diretamente com as autoridades religiosas e políticas da época. Tanto é que o desfecho desse confronto foi a condenação à morte de cruz. O evangelho de hoje já reflete esse confronto. Por isso, apesar de aproximar-se do texto do domingo passado devido à imagem da vinha, o contexto desse de hoje é completamente diferente, a começar pelos primeiros destinatários da mensagem, que passa dos discípulos para os sacerdotes e toda a classe dirigente.

Com efeito, o texto retrata Jesus no templo de Jerusalém, um espaço que se tornou sinônimo de conflito e hostilidade para ele. Inclusive, o seu primeiro gesto em Jerusalém, logo após uma entrada triunfante (Mt 21,11), foi denunciar a situação deplorável em que o templo se encontrava, tendo se transformado em “antro de ladrões”, quando deveria ser uma casa de oração (Mt 21,12-17). De fato, Jesus não se conformou em ver o templo transformado em casa de comércio e o nome de Deus, o seu Pai, tendo se tornado uma verdadeira mercadoria e instrumento de exploração. Por isso, denunciou corajosamente aquela situação, desmascarando a classe dirigente, especialmente os sacerdotes, que exploravam o povo em nome de Deus. Inevitavelmente, a denúncia do templo foi o estopim para o conflito de Jesus com as classes dirigentes, que passaram a vigiar cuidadosamente os seus passos e os seus ensinamentos. Aliás, já faziam isso desde o início do seu ministério. Por isso, entre os três anúncios da paixão, em dois deles mencionou a classe sacerdotal como uma das principais responsáveis pela sua morte (Mt 16,21; 20,18). Ora, o ensinamento de Jesus divergia completamente do magistério oficial da época. Sua mensagem libertadora visava à construção do Reino de Deus como sociedade alternativa à ordem vigente. Isso exigia uma transformação total, com a supressão de todas as estruturas de poder e exploração, começando pela religião que explorava e até matava em nome de Deus.

Apesar das divergências e hostilidades, em Jerusalém, Jesus ensinava no templo, pois era lá onde havia grande circulação de pessoas, vindas de vários lugares para a Páscoa. Era, portanto, o lugar ideal para questionar mais diretamente as classes dirigentes, sobretudo o sacerdócio, que tinha tornado o templo sua propriedade, desvirtuando sua finalidade. É claro que não era do púlpito que ele ensinava, mas nos diversos átrios, pois sua mensagem libertadora era insuportável para os dirigentes. Por isso, ele foi duramente questionado, como recorda o evangelista: «Jesus voltou ao Templo. Enquanto ensinava, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se aproximaram e perguntaram: “Com que autoridade fazes tais coisas? Quem foi que te deu essa autoridade?”» (Mt 21,23). O trecho lido hoje faz parte deste confronto específico, quando Jesus teve a sua autoridade questionada pelos sacerdotes e anciãos, por causa da expulsão dos vendedores do templo, sobretudo, pois foi o seu primeiro gesto profético na cidade. E Jesus respondeu a esse primeiro questionamento denunciando a hipocrisia e a falsa autoridade que os dirigentes exerciam, o que serve de advertência aos seus discípulos e discípulas de todos os tempos para o risco de reproduzir o modelo de religião que ele denunciou. Como de costume, Jesus não dá uma resposta pronta, mas provoca em seus interlocutores a reflexão, buscando tirar deles mesmos a resposta. Ele parte do exemplo de João Batista, deixando os sacerdotes e anciãos embaraçados (Mt 21,25-27), até chegar à parábola lida na liturgia de hoje.

Como o início do próprio texto indica, através da pergunta introdutória «Que vos parece?», o que é dito em seguida visa reforçar algo já introduzido na discussão anterior. De fato, é a continuação de uma discussão em andamento, na qual Jesus afirma sua autoridade, após ter sido questionado pelos sacerdotes e anciãos, ou seja, os chefes religiosos e, ao mesmo tempo, denuncia a ilegitimidade deles. Essa fórmula de introdução em forma de pergunta já tinha sido utilizada na parábola da ovelha perdida (Mt 18,12), e funciona como uma chamada de atenção para o que vem a seguir; significa que se trata de um ensinamento de fundamental importância. Indica também que será exigida uma resposta e tomada de posição dos interlocutores, no final, e não apenas fomentar uma reflexão, como geralmente acontece. Eis, portanto, o início do texto: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”» (v. 28). A vinha é uma imagem clássica na tradição bíblica para designar o povo de Deus (Is 5,1-7), e adaptada por Jesus como imagem do Reino de Deus (Mt 20,1-16) por ele inaugurado. Os personagens da parábola – um pai e dois filhos – também são imagens bem significativas, muito valorizadas pelas tradições das primeiras comunidades, como sempre foram ao longo da história de Israel. Inclusive, essa parábola se aproxima daquela que em Lucas é chamada de “parábola do filho pródigo” ou do “pai misericordioso” (Lc 15,11-32).

Geralmente, quando aparece uma narrativa protagonizada por dois irmãos, na Bíblia, evidencia-se a contraposição de comportamento e conduta entre os dois. Quer dizer que os dois filhos agem de modo antagônico. Vemos isso desde o início das Sagradas Escrituras, com os exemplos de Caim e Abel (Gn 4,1-16), Esaú e Jacó (Gn 25,19–27,45). Tanto Jesus quanto o evangelista, portanto, se ancoram nessa tradição, sobretudo quando visam provocar uma tomada de posição dos interlocutores e dos discípulos, sobretudo. E o foco do ensinamento da parábola consiste exatamente na contraposição de comportamento dos dois filhos que receberam a mesma ordem, mas responderam e agiram de modo oposto. Ao pedir que os filhos trabalhassem na sua vinha, o pai queria que eles se sentissem colaboradores diretos da sua obra. Assim, fica claro, desde o início, que Jesus quer apresentar um pai que compartilha o que é seu com os filhos e pede que esses sejam seus colaboradores. Considerando que esse pai representa Deus, na parábola, Jesus está também denunciando a ilegitimidade da autoridade dos sacerdotes e anciãos, considerados na época como os únicos responsáveis pelas “coisas de Deus” na terra. O pai interage diretamente com os dois filhos, apresenta sua proposta, seu programa, sem necessidade de intermediários, como fez o proprietário da vinha na parábola do domingo passado, ao ir diretamente à praça em busca de trabalhadores. Tudo isso indica o jeito novo de Deus se comunicar com a humanidade, a partir de Jesus, o verdadeiro Deus conosco.

O pai fez a mesma proposta aos dois filhos, ou seja, convidou-os para trabalhar na vinha, e recebeu respostas diferentes. Eis a reação do primeiro destinatário da ordem/convite do pai: «Não quero». Apesar de brusca, é uma resposta sincera e direta, sem nenhum formalismo. Porém, depois, aquele filho «mudou de opinião e foi» (v. 29b). O que a tradução do lecionário traz como “mudou de opinião” seria mais bem traduzido por “arrependeu-se”, pois corresponde melhor ao verbo empregado na língua original do texto (verbo grego metamelómai – μεταμέλομαι). Esse verbo faz parte do vocabulário da conversão, na linguagem bíblica. Daí, podemos dizer, portanto, que aquele filho se converteu e foi trabalhar na vinha do seu pai. Ele mudou não apenas de opinião, mas de mentalidade e, por consequência, mudou o jeito de agir. E é nisso que consiste a conversão. Eis, agora, a resposta-reação do segundo filho: «“Sim, Senhor, eu vou”. Mas não foi» (v. 30b). Dessa vez, a resposta é respeitosa, carregada de formalismo. Inclusive, o pai é tratado como “senhor”. Porém, a postura do filho não foi coerente com a resposta. Como se vê, tanto foram diferentes as respostas quanto as atitudes de cada um dos dois filhos. O centro do ensinamento de Jesus com essa parábola está exatamente aqui, no contraste entre as respostas e os comportamentos dos dois filhos, como já afirmamos anteriormente.

Historicamente, Israel, como povo da aliança, disse sim a Deus com palavras, embora seu comportamento tenha se distanciado tanto da verdadeira vontade de Deus. Com esse contraste entre os dois filhos, Jesus provoca seus interlocutores e os convida a uma reflexão. Por isso, lhes pede um juízo, uma opinião sobre os dois filhos: «Qual dos dois fez a vontade do pai?». E, como não poderia ser diferente, «Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: ‘O primeiro’» (v. 31a). De fato, a resposta não poderia ser outra, pois a parábola é muito clara. Quem fez a vontade do pai foi mesmo o primeiro filho, aquele que disse “não” inicialmente, mas se arrependeu e foi trabalhar na vinha. Ao ir trabalhar, esse primeiro filho fez verdadeiramente a vontade do pai, mesmo tendo respondido negativamente, uma vez que o importante para Deus não são as palavras, mas sim as atitudes. O segundo filho, pelo contrário, não fez a vontade do pai porque ficou apenas no discurso, não levou a solene resposta – «Sim, Senhor» – para a prática. Com isso, Mateus chama a atenção da sua comunidade e dos cristãos de todos os tempos para também não caírem nos mesmos erros e contradições das lideranças religiosas de Israel. Por sinal, Mateus já havia introduzido esse tema no discurso da montanha, ao recordar as palavras de Jesus que priorizam o fazer sobre o dizer: «Não é aquele que diz: “Senhor! Senhor!” que entrará no Reino dos céus, mas aquele que realiza a vontade do meu Pai que está nos céus» (Mt 7,21). Em outra ocasião, numa discussão com os escribas e fariseus, ele também denunciou a contradição e incoerência entre o discurso e a prática das lideranças religiosas de Israel, com uma citação do profeta Isaías: «Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim» (Mt 15,8 = Is 29,13).

Com certeza, os chefes religiosos de Jerusalém já tinham percebido a complexidade da situação em que tinham se envolvido ao questionar a autoridade de Jesus. Sem dúvida, o clima piorou ainda mais com a continuação da resposta de Jesus a eles: «Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”» (v. 31b). Dessa vez, Jesus passou dos limites, pensaram eles, certamente. Enquanto Jesus os acusava com uma linguagem simbólica, eles poderiam ignorar, mudar o foco ou até propor uma interpretação distorcida. Mas assim, de modo tão claro e objetivo, não seria possível. Os cobradores de impostos e as prostitutas eram, de acordo com a mentalidade da época, as piores categorias de pessoas, a verdadeira escória da sociedade, e Jesus ousou dizer que elas herdariam primeiro o Reino de Deus do que as pessoas religiosas de Israel. O verbo preceder no presente indica a realização imediata ou, pelo menos, o começo do Reino de Deus na história. Jesus inaugura o Reino em sua vida e tem clareza de quem estava aderindo primeiro. Também chama a atenção nessa passagem o emprego da expressão “Reino de Deus”, rara no Evangelho de Mateus, já que ele prefere “Reino dos Céus”, provavelmente para não afetar a sensibilidade judaica, tendo em vista a impronunciabilidade do nome de Deus, tão recomendada nos textos legislativos do Antigo Testamento. Enquanto Reino dos Céus aparece trinta e duas vezes, Reino de Deus aparece apenas cinco vezes no respectivo Evangelho.

A rejeição dos chefes à mensagem de Jesus é comparável à rejeição sofrida por João (v. 31). De fato, também o precursor veio «num caminho de justiça», mas foi rejeitado pelos conhecedores da lei e dos profetas, ou seja, pelas pessoas religiosas como os sacerdotes e anciãos, fechados ao arrependimento devido à autossuficiência de suas convicções religiosas e pelos privilégios que desfrutavam. De fato, para as classes privilegiadas, a mensagem emancipatória de Jesus soa sempre como uma ameaça. Por outro lado, «os cobradores de impostos e as prostitutas» (v. 31b), rejeitados pela religião, mas abertos à conversão, sedentos de compreensão e acolhimento, necessitados de humanização, acreditaram no Batista e em Jesus, tornando-se, assim, herdeiros do Reino de Deus, a nova vinha do Pai, que é o próprio Deus. É claro que nem todos os publicanos e prostitutas se converteram, mas é certo que houve adesão de gente dessas categorias e de todos os grupos marginalizados da época à mensagem inclusiva de Jesus. Na verdade, a menção a essas duas categorias funciona como síntese de todas as classes de pessoas marginalizadas, destinatárias privilegiadas do projeto humanizador de Jesus. Desse modo, a máxima proverbial que emoldurava a parábola do domingo passado é atualizada também na parábola de hoje: «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos» (Mt 20,16). É importante que, assim como a comunidade de Mateus soube atualizar essa mensagem, também as nossas comunidades de hoje saibam. Os primeiros de sempre, transformados em últimos na dinâmica do Reino, serão sempre as pessoas autossuficientes, arrogantes, conhecedoras dos mínimos detalhes das leis religiosas, como eram os sacerdotes, anciãos e escribas da época de Jesus. Hoje, embora em outras modalidades, essas pessoas continuam presentes em nossas comunidades, com a mesma autossuficiência, julgando, excluindo e determinando como o outro deve agir.

É preciso, portanto, identificar quem são os últimos de hoje para os reconhecermos como primeiros no Reino. Na época, Jesus identificou os cobradores de impostos e as prostitutas, exemplos máximos de pessoas pecadoras e, por isso, distantes de Deus. Hoje, certamente há uma relação muito maior de categorias de pessoas excluídas pelas religiões e comunidades eclesiais que Jesus colocaria como primeiras no Reino de Deus. Todos os que sofrem discriminações, vítimas de preconceitos, excluídos por quem controla e impõe as normas de comportamento, estariam na lista de Jesus, precedendo aqueles que louvam com os lábios, mas pouco fazem para o Reino acontecer, ou seja, não fazem a vontade do Pai. Fazer a vontade do Pai é o requisito básico para entrar no Reino. E faz a vontade do Pai quem assimila o estilo de vida de Jesus.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,15-21 (ANO A)

  O evangelho lido na liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua ambientado em Jerusalém, mais precisamente nas dependên...