quinta-feira, outubro 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,33-43 (ANO A)

 


O evangelho do vigésimo sétimo Domingo do Tempo Comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a última fase do seu ministério, marcada pelo confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Israel. Esse conflito foi decisivo para a sua morte de cruz, que não foi acidente nem predestinação, e sim consequência de uma vida com opções sempre muito claras, marcada pela fidelidade plena ao Pai e pelo agir amoroso e humanizador em favor das pessoas menos favorecidas, sendo um verdadeiro manifesto contra-hegemônico. O texto lido hoje – Mt 21,33-43 – contém mais uma parábola que emprega a vinha como imagem do Reino de Deus proposto por Jesus. Ao todo, o Evangelho de Mateus contém três parábolas com a imagem da vinha, sendo duas delas exclusividade sua, as quais foram lidas nos dois últimos domingos: a “parábola dos trabalhadores da vinha” ou do “patrão generoso” (20,1-16) e a “parábola dos dois filhos” (21,28-32). A primeira foi narrada ainda na etapa do caminho para Jerusalém, portanto, faz parte de outro contexto, enquanto a segunda já pertence à seção narrativa do ministério de Jesus em Jerusalém, como a terceira, lida neste domingo, chamada convencionalmente de “parábola dos vinhateiros homicidas”. Essa está presente também nos outros dois evangelhos sinóticos, embora cada versão possua elementos próprios que correspondem às necessidades das comunidades destinatárias e à visão teológica de cada autor (Mc 12,1-12; Lc 20,9-19).

Como já fizemos uma contextualização mais ampla no domingo passado, e o texto de hoje faz parte do mesmo contexto, recordaremos somente alguns aspectos mais importantes em nível contextual. E começamos lembrando que, na ocasião, Jesus se encontrava nas dependências do templo de Jerusalém, ensinando. O templo, convém lembrar, era o grande centro de poder religioso, econômico e político de Israel. Como é sabido, os ensinamentos de Jesus contrariavam a ortodoxia da época. À medida que apresentava o Reino de Deus como proposta de vida e de sociedade alternativa ao sistema vigente, Jesus denunciava a hipocrisia e os privilégios das lideranças políticas e religiosas de Israel, que tinham distorcido completamente a imagem de Deus, o seu Pai, transformando-o em patrão vingativo e em mercadoria, uma vez que o templo, que deveria ser casa de oração, tinha se tornado casa de comércio e covil de ladrões (Mt 21,12-13). E isso foi duramente combatido por ele, seja por meio de palavras, seja através de ações proféticas simbólicas, como a expulsão dos vendedores do templo, que foi seu primeiro grande gesto em Jerusalém, logo após a entrada triunfante.

Com efeito, a mensagem de Jesus era insuportável para quem explorava o povo em nome de Deus, como faziam as lideranças religiosas e políticas da sua época. Por isso, enquanto ensinava nas dependências do templo, ele foi questionado pelos sacerdotes e anciãos, as lideranças de Israel: «Com que autoridade fazes isso? Quem te deu essa autoridade?» (Mt 21,23). A esse questionamento, Jesus não respondeu com uma definição conceitual, mas por meio de novos questionamentos e três parábolas, das quais a de hoje é a segunda. A primeira, a “parábola dos dois filhos” (Mt 21,28-32), fora lida no domingo passado, e a terceira, a do “banquete de casamento” (Mt 22,1-14), será lida no próximo domingo. Ao ter sua autoridade questionada, Jesus terminou denunciando a ilegitimidade de seus interlocutores diretos, mostrando a hipocrisia com que exerciam o poder na época, pois tinham transformado o Deus da vida em mercadoria. É importante recordar que, embora os interlocutores diretos de Jesus nestas parábolas, conforme o contexto narrativo do evangelho, sejam os sacerdotes e anciãos, ou seja, as lideranças religiosas da época, o seu ensinamento é destinado primordialmente aos discípulos e discípulas de todos os tempos, começando por aqueles de primeira chamada, passando pelos membros da comunidade de Mateus, até os cristãos de hoje e sempre. Obviamente, no momento do embate, havia muita gente ao redor, além dos discípulos e dos chefes do templo.

Passada a contextualização, voltamos a atenção para o próprio texto, começando pela introdução: «Escutai esta outra parábola» (v. 33a). Com essa fórmula introdutória, fica claro que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado. Ora, se essa é “outra parábola” (em grego: Ἄλλην παραβολὴν – alen parabólen), significa que já fora contada alguma antes dela, como já acenamos na contextualização. Logo, essa é “outra” em relação àquela dos “dois filhos” (Mt 21,28-32), lida no último domingo. A sucessão de parábolas em um mesmo discurso e com um mesmo tema é sinal da importância do que está sendo ensinado, pois revela uma insistência do parabolista. Recordemos, por exemplo, a série de parábolas sobre o Reino (Mt 13), a série de parábolas da misericórdia (Lc 15) e, ainda, a série de parábolas escatológicas (Mt 24–25). Portanto, as denúncias de Jesus às lideranças religiosas do seu tempo foram um elemento de fundamental importância no seu ministério, chegando a ser o ponto culminante de sua pregação. Prova disso é a morte de cruz, decretada como consequência de tudo isso.

Ainda sobre a introdução da parábola, é importante recordar o imperativo “escutai” (em grego: ἀκούσατε – akússate), com o qual a parábola é introduzida. Esse é mais um indicativo de importância do que está sendo ensinado. Mais do que um exercício da audição, o verbo escutar na linguagem bíblica, sobretudo quando vem empregado no modo imperativo, significa uma fórmula de denúncia e um convite à conversão, uma exigência de mudança. Não por acaso, esse é um dos verbos prediletos dos grandes profetas de Israel que mais se destacaram pela mensagem crítica de denúncia às injustiças sociais (Is 1,10; Os 4,1; Am 3,1; 4,1; 5,1; 8,4; Mq 1,2; 3,1.9; 6,1.9). Trata-se, portanto, do verbo da conversão e da fidelidade. Inclusive, é o verbo que introduz a mais alta profissão de fé israelita, o “shemá”, o qual é introduzido pelo imperativo “escuta” (Dt 6,4). Ao empregá-lo aqui, Jesus confirma, implicitamente, que sua autoridade, questionada pelos sacerdotes e anciãos, emana de Deus mesmo, como de fato é. E, considerando as peculiaridades de seus interlocutores, Jesus os convida a olhar para a história de Israel e para Escritura, o que eles conheciam tão bem, mas pareciam ignorar. Isso se evidencia pela apresentação da parábola: «Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas, e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro» (v. 33). Aqui, fica claro que Jesus tinha em mente o “Cântico da vinha” do profeta Isaías (Is 5,1-7) ao propor esta parábola, e sabia que seus interlocutores conheciam muito bem esse texto profético.

Como se sabe, a vinha é uma imagem privilegiada do povo de Deus, usada principalmente nas tradições proféticas (Is 5,1-7; 27,2-3; Jr 2,21; Ez 15,2-8; Os 9,10; etc). Trata-se de uma imagem clássica. Ao ouvir falar de uma vinha, quem tinha familiaridade com as Escrituras, como os interlocutores de Jesus, logo percebia que ele falava da relação de Deus com Israel. Todos sabiam que Deus possuía uma vinha e que a amava tanto. E a parábola ressalta isso. Os cuidados do proprietário acenam para uma grande expectativa em relação à produtividade daquela vinha: o próprio dono a plantou e a cercou, como imagem de profundo cuidado, como é o jeito de Deus cuidar do seu povo. O lagar para esmagar as uvas significa a expectativa de boas colheitas: uvas boas e em abundância para produzir vinho, símbolo do amor e da alegria. A torre de guarda construída significa o cuidado e o quanto a vinha é preciosa para o seu dono. A ausência do dono durante o cultivo e a colheita é sinal de muita responsabilidade confiada aos trabalhadores. Esse detalhe ressalta a confiança que Deus deposita na humanidade; foi ele quem tudo plantou, ao criar o mundo, confiando à humanidade o cuidado de toda a criação. Além disso, o arrendamento descreve uma prática muito comum na Palestina do tempo de Jesus, quando já havia uma grande concentração de latifúndios em poucas mãos. Por isso, os proprietários arrendavam suas terras a terceiros, pois muitos já não residiam mais nas propriedades. A terra já não estava nas mãos das pequenas famílias, que haviam sido espoliadas em razão do endividamento e de processos de desapropriação indevida. Por sinal, entre os grandes proprietários de terras da época estavam membros da aristocracia sacerdotal e das elites de Jerusalém, ligadas também ao poder político e econômico. Tudo isso torna essa parábola uma das mais duras entre as que Jesus contou, assumindo claramente um caráter de denúncia.

Quem planta espera colher frutos. E assim aconteceu com o dono da vinha, conforme a parábola: «Quando chegou o tempo da colheita, mandou seus empregados para receber seus frutos» (v. 34). Embora ele mesmo tenha plantado, ele não vai receber os frutos pessoalmente, mas envia seus “servos” (em grego: δούλοι – duloi), termo que o lecionário traduziu por empregados. O envio dos servos para receber os frutos da colheita significa a confiança que o dono lhes deposita, tendo-os como seus colaboradores muito próximos. À confiança do dono, contrapõe-se a brutalidade dos vinhateiros, que «agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram» (v. 35). Uma série de ações violentas é anunciada. Isso tudo é consequência do abuso de poder da parte dos vinhateiros, com quem Jesus compara os líderes religiosos e políticos de Jerusalém, os quais se apossaram da vinha indevidamente. As ações violentas dos vinhateiros – agarrar, espancar, matar, apedrejar – se contrapõem completamente às iniciativas do proprietário, marcadas pelo cuidado – plantou, cercou, cavou e protegeu (v. 33). Essa contraposição revela a distância que se tinha criado entre Deus e a religião de Israel, no respectivo contexto. Para o evangelista, funciona também como advertência às comunidades da sua época e do futuro, para não se distanciarem do ensinamento de Jesus. Ou seja, nas comunidades cristãs deve prevalecer sempre a cultura do cuidado, sem qualquer adesão à incitação do ódio e da violência.

A sequência do texto mostra a paciência e tolerância do proprietário da vinha, que «mandou de novo outros empregados, em número maior que os primeiros» (v. 36). O dono que ama a sua vinha não desiste dos frutos e não sossega enquanto não os colher. Porém, aconteceu o mesmo com a segunda comitiva de servos, ou seja, foram tratados com violência, como os primeiros. É quase consenso entre os estudiosos que os servos enviados duas vezes à vinha para receber os frutos significam os profetas anteriores e posteriores, conforme a divisão tradicional da Bíblia Hebraica. Essa interpretação ajuda a identificar os vinhateiros, aqueles que se apossaram da vinha, fazendo do que é de Deus uma propriedade particular: as autoridades e instituições políticas e religiosas de Israel, da antiga monarquia davídica à aristocracia sacerdotal da época de Jesus. Em todos os tempos, o poder exercido em Israel foi danoso, até mesmo na época dos reis considerados “bons”, como Davi e Salomão, os mais famosos. De fato, sempre houve abuso de poder e práticas de injustiças. Sempre usurparam a vinha de Deus. Ao invés de facilitar os devidos frutos ao único dono da vinha, a religião de Israel tinha se tornado o maior obstáculo para a colheita. Um simples olhar na história já seria suficiente para essa conclusão: a rejeição aos profetas, quase todos hostilizados pelos detentores de poder.

No final, depois de várias tentativas, o dono da vinha toma uma decisão definitiva que, mais uma vez, evidencia seu pleno amor e cuidado com a vinha, como mostra o texto com muita clareza: «Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: “Ao meu filho eles vão respeitar”!» (v. 37). Essa expressão revela a grandeza do amor desse proprietário. É a imagem de um Deus que não desiste nunca de esperar bons frutos da humanidade. Porém, a reação dos vinhateiros se torna ainda mais violenta com o filho. Tendo já tomado posse da vinha, não permitindo mais que o dono recebesse seus frutos, os falsos proprietários viam o filho do dono como uma ameaça ainda maior, por isso procuram eliminá-lo de uma vez: «Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança» (v. 38). Ao relatar a violência sofrida pelo filho do dono da vinha, Jesus chega ao ápice do ensinamento da parábola: os chefes que interrogaram sua autoridade são os vinhateiros que se apossaram da vinha. Eles, que hostilizaram os profetas do Antigo Testamento, rejeitaram a pregação de João Batista e agora estão quase matando o filho. Aqui, Jesus faz um novo anúncio da paixão, dessa vez implícito, uma vez que já havia feito os três anúncios explícitos (Mt 16,21; 17,22-23; 20,17-19). Os três anúncios anteriores foram feitos aos discípulos; agora, é aos futuros algozes que ele anuncia a paixão, tendo também a multidão ao seu redor, certamente, assistindo ao embate. Nos três anúncios da paixão aos discípulos, ele falou de si mediante a imagem do “Filho do Homem”; dessa vez, refere-se apenas como filho. Com isso, a parábola ganha um sentido ainda mais amplo, funcionando como síntese da história de Israel e autobiografia de Jesus.

Ao concluir a parábola, descrevendo o tratamento dado ao filho do dono da vinha pelos vinhateiros – «agarraram-no, jogaram-no para fora da vinha e o mataram» (v. 39) –, Jesus deixa novamente os sumos sacerdotes e anciãos do povo em situação constrangedora: «Quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?» (v. 40). A resposta deles é praticamente uma sentença de autocondenação: «Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo» (v. 41). Até aqui, os sumos sacerdotes e anciãos parecem ainda não ter percebido que Jesus está falando deles. Contudo, Mateus afirma logo depois que eles compreenderam que Jesus falava deles (Mt 21,45). Contudo, continuam ignorando e insistindo em não acatar o ensinamento de Jesus, exatamente porque tomaram posse indevidamente do que não lhes pertencia, estavam movidos pelo orgulho, pela mentira e pela violência e, por isso, fechados ao que Jesus ensinava. Quer dizer, continuavam fechados a qualquer processo de conversão. Ao contrário da resposta deles, Jesus não fala em momento algum de vingança ou violência da parte do dono da vinha. Por outro lado, ele mostra uma reviravolta na história, com base na Escritura que seus interlocutores deveriam conhecer, mas a ignoravam: «Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?’”» (v. 42). Essa citação da Escritura (Sl 118,22-23) é uma palavra de reprovação a quem se impõe pela força e, ao mesmo tempo, de esperança às vítimas de todo sistema opressor, enfatizando qual é o lado de Deus na história: o lado dos descartados, das pessoas marginalizadas, sobretudo pela religião.

Ao propor a vingança do dono da vinha, os sacerdotes e anciãos revelam a religião que eles praticavam e o Deus em quem acreditavam: uma religião mercantilista, baseada na lei do “olho por olho e dente por dente” (Mt 5,38), condenada por Jesus, e um Deus severo e castigador, diferente do Deus Pai revelado por Jesus. A atitude do dono, ao contrário do que pensam os interlocutores de Jesus, será apenas destituir os vinhateiros de um poder que eles tinham usurpado. Eles foram encarregados de cuidar, isto é, cultivar, produzir, colher os frutos e restituí-los ao dono; em vez disso, tomaram posse como se a vinha fosse propriedade particular. Ora, o que pertence a Deus é direito de todos; ninguém pode considerar propriedade sua o que é dom, o que é fruto do amor e da graça de Deus. Porém, Jesus não anuncia castigo, mas apenas a destituição do poder: «o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos» (v. 43). A ironia de Jesus, aqui, chega ao ápice: os que questionaram sua autoridade são exatamente aqueles que não tinham autoridade para falar em nome de Deus, uma vez que Deus só autoriza a falar em seu nome quem produz frutos em favor de todos, e não quem pensa somente em si e age com violência e mentira.

Ao ler essa parábola e, quase de imediato, perceber que Jesus aplica o dono da vinha ao seu Pai, os vinhateiros às classes dirigentes de Jerusalém, e o filho rejeitado a si mesmo, corremos o risco de imaginar também uma simples passagem do Reino, saindo das mãos do judaísmo para a Igreja nascente. É importante perceber que o Reino de Deus não é transferido de uma religião para outra; é apenas confiado a quem produzir frutos, independentemente da origem. A entrega do Reino “a um povo” não determinado significa a universalidade da salvação e a dimensão inclusiva do Reino, composto de judeus, gregos e todos os povos da terra. Não é a pertença a uma raça, cultura ou religião específica que dá acesso ao Reino, mas a “produção de frutos”, quer dizer, a prática da justiça e a vivência do amor (Mt 5-7), como já fora antecipado no discurso da montanha, especialmente com as bem-aventuranças (Mt 5,1-12).

Produz frutos e participa do Reino, portanto, quem faz a vontade do Pai que está nos céus, e não quem apenas diz “Senhor, Senhor!” (Mt 7,21). O Reino é entregue a toda pessoa que aceita o desafio de viver segundo as bem-aventuranças. Toda vez que alguém quer controlar o agir de Deus, determinando quem está salvo e quem está condenado, está agindo como os vinhateiros homicidas. O fato de alguém pertencer a uma comunidade/igreja cristã não garante participação no Reino de Deus. Por isso, mais do que uma ameaça ao judaísmo da época, essa parábola é uma séria advertência ao cristianismo de todos os tempos. Jesus nos desafia a produzir frutos de amor, justiça, solidariedade, enfim, nos convida a viver humanizados e a humanizar o mundo, tornando-o semelhante ao Reino que ele veio instaurar. Essa é a missão contínua da comunidade cristã.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, setembro 25, 2026

REFLEXÃO PARA O 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,28-32 (ANO A)



O evangelho deste vigésimo sexto domingo é Mt 21,28-32, texto que compreende a chamada parábola dos dois filhos, cujo pai os ordena a trabalhar na sua vinha. É mais uma parábola exclusiva do Evangelho de Mateus, sendo a segunda de uma trilogia que emprega a imagem da vinha como representação do Reino de Deus, na respectiva obra. A primeira foi lida no domingo passado (dos trabalhadores da vinha – Mt 20,1-16) e a terceira será lida no próximo domingo (dos vinhateiros homicidas – Mt 21,33-43). Enquanto aquela do domingo passado foi contada ainda no contexto narrativo do caminho de Jesus com seus discípulos em direção à cidade de Jerusalém, a de hoje já é contada na “cidade santa”. Isso quer dizer que o texto se localiza na seção narrativa do ministério de Jesus em Jerusalém, e é dessa seção que será tirado o evangelho de cada domingo de hoje até o final do corrente ano litúrgico. Como se sabe, foi em Jerusalém que Jesus viveu a fase mais tensa de seu ministério, confrontando-se diretamente com as autoridades religiosas e políticas da época. Tanto é que o desfecho desse confronto foi a condenação à morte de cruz. O evangelho de hoje já reflete esse confronto. Por isso, apesar de aproximar-se do texto do domingo passado devido à imagem da vinha, o contexto desse de hoje é completamente diferente, a começar pelos primeiros destinatários da mensagem, que passa dos discípulos para os sacerdotes e toda a classe dirigente.

Com efeito, o texto retrata Jesus no templo de Jerusalém, um espaço que se tornou sinônimo de conflito e hostilidade para ele. Inclusive, o seu primeiro gesto em Jerusalém, logo após uma entrada triunfante (Mt 21,11), foi denunciar a situação deplorável em que o templo se encontrava, tendo se transformado em “antro de ladrões”, quando deveria ser uma casa de oração (Mt 21,12-17). De fato, Jesus não se conformou em ver o templo transformado em casa de comércio e o nome de Deus, o seu Pai, tendo se tornado uma verdadeira mercadoria e instrumento de exploração. Por isso, denunciou corajosamente aquela situação, desmascarando a classe dirigente, especialmente os sacerdotes, que exploravam o povo em nome de Deus. Inevitavelmente, a denúncia do templo foi o estopim para o conflito de Jesus com as classes dirigentes, que passaram a vigiar cuidadosamente os seus passos e os seus ensinamentos. Aliás, já faziam isso desde o início do seu ministério. Por isso, entre os três anúncios da paixão, em dois deles mencionou a classe sacerdotal como uma das principais responsáveis pela sua morte (Mt 16,21; 20,18). Ora, o ensinamento de Jesus divergia completamente do magistério oficial da época. Sua mensagem libertadora visava à construção do Reino de Deus como sociedade alternativa à ordem vigente. Isso exigia uma transformação total, com a supressão de todas as estruturas de poder e exploração, começando pela religião que explorava e até matava em nome de Deus.

Apesar das divergências e hostilidades, em Jerusalém, Jesus ensinava no templo, pois era lá onde havia grande circulação de pessoas, vindas de vários lugares para a Páscoa. Era, portanto, o lugar ideal para questionar mais diretamente as classes dirigentes, sobretudo o sacerdócio, que tinha tornado o templo sua propriedade, desvirtuando sua finalidade. É claro que não era do púlpito que ele ensinava, mas nos diversos átrios, pois sua mensagem libertadora era insuportável para os dirigentes. Por isso, ele foi duramente questionado, como recorda o evangelista: «Jesus voltou ao Templo. Enquanto ensinava, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se aproximaram e perguntaram: “Com que autoridade fazes tais coisas? Quem foi que te deu essa autoridade?”» (Mt 21,23). O trecho lido hoje faz parte deste confronto específico, quando Jesus teve a sua autoridade questionada pelos sacerdotes e anciãos, por causa da expulsão dos vendedores do templo, sobretudo, pois foi o seu primeiro gesto profético na cidade. E Jesus respondeu a esse primeiro questionamento denunciando a hipocrisia e a falsa autoridade que os dirigentes exerciam, o que serve de advertência aos seus discípulos e discípulas de todos os tempos para o risco de reproduzir o modelo de religião que ele denunciou. Como de costume, Jesus não dá uma resposta pronta, mas provoca em seus interlocutores a reflexão, buscando tirar deles mesmos a resposta. Ele parte do exemplo de João Batista, deixando os sacerdotes e anciãos embaraçados (Mt 21,25-27), até chegar à parábola lida na liturgia de hoje.

Como o início do próprio texto indica, através da pergunta introdutória «Que vos parece?», o que é dito em seguida visa reforçar algo já introduzido na discussão anterior. De fato, é a continuação de uma discussão em andamento, na qual Jesus afirma sua autoridade, após ter sido questionado pelos sacerdotes e anciãos, ou seja, os chefes religiosos e, ao mesmo tempo, denuncia a ilegitimidade deles. Essa fórmula de introdução em forma de pergunta já tinha sido utilizada na parábola da ovelha perdida (Mt 18,12), e funciona como uma chamada de atenção para o que vem a seguir; significa que se trata de um ensinamento de fundamental importância. Indica também que será exigida uma resposta e tomada de posição dos interlocutores, no final, e não apenas fomentar uma reflexão, como geralmente acontece. Eis, portanto, o início do texto: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”» (v. 28). A vinha é uma imagem clássica na tradição bíblica para designar o povo de Deus (Is 5,1-7), e adaptada por Jesus como imagem do Reino de Deus (Mt 20,1-16) por ele inaugurado. Os personagens da parábola – um pai e dois filhos – também são imagens bem significativas, muito valorizadas pelas tradições das primeiras comunidades, como sempre foram ao longo da história de Israel. Inclusive, essa parábola se aproxima daquela que em Lucas é chamada de “parábola do filho pródigo” ou do “pai misericordioso” (Lc 15,11-32).

Geralmente, quando aparece uma narrativa protagonizada por dois irmãos, na Bíblia, evidencia-se a contraposição de comportamento e conduta entre os dois. Quer dizer que os dois filhos agem de modo antagônico. Vemos isso desde o início das Sagradas Escrituras, com os exemplos de Caim e Abel (Gn 4,1-16), Esaú e Jacó (Gn 25,19–27,45). Tanto Jesus quanto o evangelista, portanto, se ancoram nessa tradição, sobretudo quando visam provocar uma tomada de posição dos interlocutores e dos discípulos, sobretudo. E o foco do ensinamento da parábola consiste exatamente na contraposição de comportamento dos dois filhos que receberam a mesma ordem, mas responderam e agiram de modo oposto. Ao pedir que os filhos trabalhassem na sua vinha, o pai queria que eles se sentissem colaboradores diretos da sua obra. Assim, fica claro, desde o início, que Jesus quer apresentar um pai que compartilha o que é seu com os filhos e pede que esses sejam seus colaboradores. Considerando que esse pai representa Deus, na parábola, Jesus está também denunciando a ilegitimidade da autoridade dos sacerdotes e anciãos, considerados na época como os únicos responsáveis pelas “coisas de Deus” na terra. O pai interage diretamente com os dois filhos, apresenta sua proposta, seu programa, sem necessidade de intermediários, como fez o proprietário da vinha na parábola do domingo passado, ao ir diretamente à praça em busca de trabalhadores. Tudo isso indica o jeito novo de Deus se comunicar com a humanidade, a partir de Jesus, o verdadeiro Deus conosco.

O pai fez a mesma proposta aos dois filhos, ou seja, convidou-os para trabalhar na vinha, e recebeu respostas diferentes. Eis a reação do primeiro destinatário da ordem/convite do pai: «Não quero». Apesar de brusca, é uma resposta sincera e direta, sem nenhum formalismo. Porém, depois, aquele filho «mudou de opinião e foi» (v. 29b). O que a tradução do lecionário traz como “mudou de opinião” seria mais bem traduzido por “arrependeu-se”, pois corresponde melhor ao verbo empregado na língua original do texto (verbo grego metamelómai – μεταμέλομαι). Esse verbo faz parte do vocabulário da conversão, na linguagem bíblica. Daí, podemos dizer, portanto, que aquele filho se converteu e foi trabalhar na vinha do seu pai. Ele mudou não apenas de opinião, mas de mentalidade e, por consequência, mudou o jeito de agir. E é nisso que consiste a conversão. Eis, agora, a resposta-reação do segundo filho: «“Sim, Senhor, eu vou”. Mas não foi» (v. 30b). Dessa vez, a resposta é respeitosa, carregada de formalismo. Inclusive, o pai é tratado como “senhor”. Porém, a postura do filho não foi coerente com a resposta. Como se vê, tanto foram diferentes as respostas quanto as atitudes de cada um dos dois filhos. O centro do ensinamento de Jesus com essa parábola está exatamente aqui, no contraste entre as respostas e os comportamentos dos dois filhos, como já afirmamos anteriormente.

Historicamente, Israel, como povo da aliança, disse sim a Deus com palavras, embora seu comportamento tenha se distanciado tanto da verdadeira vontade de Deus. Com esse contraste entre os dois filhos, Jesus provoca seus interlocutores e os convida a uma reflexão. Por isso, lhes pede um juízo, uma opinião sobre os dois filhos: «Qual dos dois fez a vontade do pai?». E, como não poderia ser diferente, «Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: ‘O primeiro’» (v. 31a). De fato, a resposta não poderia ser outra, pois a parábola é muito clara. Quem fez a vontade do pai foi mesmo o primeiro filho, aquele que disse “não” inicialmente, mas se arrependeu e foi trabalhar na vinha. Ao ir trabalhar, esse primeiro filho fez verdadeiramente a vontade do pai, mesmo tendo respondido negativamente, uma vez que o importante para Deus não são as palavras, mas sim as atitudes. O segundo filho, pelo contrário, não fez a vontade do pai porque ficou apenas no discurso, não levou a solene resposta – «Sim, Senhor» – para a prática. Com isso, Mateus chama a atenção da sua comunidade e dos cristãos de todos os tempos para também não caírem nos mesmos erros e contradições das lideranças religiosas de Israel. Por sinal, Mateus já havia introduzido esse tema no discurso da montanha, ao recordar as palavras de Jesus que priorizam o fazer sobre o dizer: «Não é aquele que diz: “Senhor! Senhor!” que entrará no Reino dos céus, mas aquele que realiza a vontade do meu Pai que está nos céus» (Mt 7,21). Em outra ocasião, numa discussão com os escribas e fariseus, ele também denunciou a contradição e incoerência entre o discurso e a prática das lideranças religiosas de Israel, com uma citação do profeta Isaías: «Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim» (Mt 15,8 = Is 29,13).

Com certeza, os chefes religiosos de Jerusalém já tinham percebido a complexidade da situação em que tinham se envolvido ao questionar a autoridade de Jesus. Sem dúvida, o clima piorou ainda mais com a continuação da resposta de Jesus a eles: «Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”» (v. 31b). Dessa vez, Jesus passou dos limites, pensaram eles, certamente. Enquanto Jesus os acusava com uma linguagem simbólica, eles poderiam ignorar, mudar o foco ou até propor uma interpretação distorcida. Mas assim, de modo tão claro e objetivo, não seria possível. Os cobradores de impostos e as prostitutas eram, de acordo com a mentalidade da época, as piores categorias de pessoas, a verdadeira escória da sociedade, e Jesus ousou dizer que elas herdariam primeiro o Reino de Deus do que as pessoas religiosas de Israel. O verbo preceder no presente indica a realização imediata ou, pelo menos, o começo do Reino de Deus na história. Jesus inaugura o Reino em sua vida e tem clareza de quem estava aderindo primeiro. Também chama a atenção nessa passagem o emprego da expressão “Reino de Deus”, rara no Evangelho de Mateus, já que ele prefere “Reino dos Céus”, provavelmente para não afetar a sensibilidade judaica, tendo em vista a impronunciabilidade do nome de Deus, tão recomendada nos textos legislativos do Antigo Testamento. Enquanto Reino dos Céus aparece trinta e duas vezes, Reino de Deus aparece apenas cinco vezes no respectivo Evangelho.

A rejeição dos chefes à mensagem de Jesus é comparável à rejeição sofrida por João (v. 31). De fato, também o precursor veio «num caminho de justiça», mas foi rejeitado pelos conhecedores da lei e dos profetas, ou seja, pelas pessoas religiosas como os sacerdotes e anciãos, fechados ao arrependimento devido à autossuficiência de suas convicções religiosas e pelos privilégios que desfrutavam. De fato, para as classes privilegiadas, a mensagem emancipatória de Jesus soa sempre como uma ameaça. Por outro lado, «os cobradores de impostos e as prostitutas» (v. 31b), rejeitados pela religião, mas abertos à conversão, sedentos de compreensão e acolhimento, necessitados de humanização, acreditaram no Batista e em Jesus, tornando-se, assim, herdeiros do Reino de Deus, a nova vinha do Pai, que é o próprio Deus. É claro que nem todos os publicanos e prostitutas se converteram, mas é certo que houve adesão de gente dessas categorias e de todos os grupos marginalizados da época à mensagem inclusiva de Jesus. Na verdade, a menção a essas duas categorias funciona como síntese de todas as classes de pessoas marginalizadas, destinatárias privilegiadas do projeto humanizador de Jesus. Desse modo, a máxima proverbial que emoldurava a parábola do domingo passado é atualizada também na parábola de hoje: «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos» (Mt 20,16). É importante que, assim como a comunidade de Mateus soube atualizar essa mensagem, também as nossas comunidades de hoje saibam. Os primeiros de sempre, transformados em últimos na dinâmica do Reino, serão sempre as pessoas autossuficientes, arrogantes, conhecedoras dos mínimos detalhes das leis religiosas, como eram os sacerdotes, anciãos e escribas da época de Jesus. Hoje, embora em outras modalidades, essas pessoas continuam presentes em nossas comunidades, com a mesma autossuficiência, julgando, excluindo e determinando como o outro deve agir.

É preciso, portanto, identificar quem são os últimos de hoje para os reconhecermos como primeiros no Reino. Na época, Jesus identificou os cobradores de impostos e as prostitutas, exemplos máximos de pessoas pecadoras e, por isso, distantes de Deus. Hoje, certamente há uma relação muito maior de categorias de pessoas excluídas pelas religiões e comunidades eclesiais que Jesus colocaria como primeiras no Reino de Deus. Todos os que sofrem discriminações, vítimas de preconceitos, excluídos por quem controla e impõe as normas de comportamento, estariam na lista de Jesus, precedendo aqueles que louvam com os lábios, mas pouco fazem para o Reino acontecer, ou seja, não fazem a vontade do Pai. Fazer a vontade do Pai é o requisito básico para entrar no Reino. E faz a vontade do Pai quem assimila o estilo de vida de Jesus.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, setembro 18, 2026

REFLEXÃO PARA 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 20,1-16 (ANO A)


Prosseguindo com a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, como é característico do Ciclo litúrgico A, a liturgia deste vigésimo quinto Domingo do Tempo Comum emprega a passagem de Mt 20,1-16 para o evangelho. Esse texto compreende a parábola dos trabalhadores da vinha, que também pode ser chamada de parábola do patrão generoso ou, simplesmente, do proprietário da vinha. Trata-se de uma parábola exclusiva do Evangelho de Mateus, na qual Jesus compara o Reino dos Céus a uma vinha, imagem clássica do povo de Israel, segundo as tradições do Antigo Testamento. Mas Jesus ressignifica a imagem, apresentando-a sob nova perspectiva, mostrando o jeito novo de Deus relacionar-se com seu povo e com a humanidade inteira. Na verdade, mais do que descrever o Reino propriamente, a parábola enfatiza as novas relações que marcam a dinâmica do Reino e os critérios para dele fazer parte, o que passa necessariamente pela assimilação de uma nova imagem de Deus. Trata-se, portanto, da passagem da concepção de um Deus calculista e justiceiro para o Deus justo e amoroso de Jesus. Em Mateus, constam três parábolas com a imagem da vinha, sendo duas exclusivas, enquanto nos outros sinóticos há apenas uma, que é contada também por Mateus. Essas parábolas são: “dos trabalhadores da vinha” (Mt 20,1-16); “dos dois filhos” (Mt 21,28-32); “dos vinhateiros homicidas” (Mt 21,33-41; Mc 12,1-12; Lc 20,9-19). Esse dado evidencia a afinidade maior do primeiro evangelista com as tradições do Antigo Testamento.

O contexto narrativo da parábola dos trabalhadores da vinha é a seção do caminho de Jesus com seus discípulos para a cidade de Jerusalém. Em Mateus, o caminho ocupa apenas dois capítulos (Mt 19–20), enquanto no Evangelho de Lucas ocupa dez capítulos (Lc 9-19). Mas o fato de ocupar menos espaço não significa que o caminho possua pouca importância para Mateus. A diferença se dá por questões de opções narrativas e intenções teológicas diferentes. Tudo o que Jesus faz e ensina nessa seção possui grande relevância para a formação do discipulado e a construção do Reino. Em Lucas, obviamente, a relevância é maior porque ele faz do caminho o lugar privilegiado do ensinamento de Jesus, transformando-o em imagem da própria comunidade. Mas também para Mateus o caminho é importante, pois constitui uma etapa indispensável e, por isso, irrenunciável da vida de Jesus, que devia passar da Galileia para Jerusalém, onde conclui os seus ensinamentos e a sua vida terrena. Com efeito, quanto mais Jesus se aproximava de Jerusalém, mais necessidade tinha de instruir seus discípulos sobre a natureza do Reino que ele estava propondo. Ora, os discípulos e as multidões que seguiam Jesus continuavam sonhando com a restauração do reino davídico-salomônico e, por isso, tinham dificuldades de compreender e aceitar o Reino como ele apresentava.

Diante da incompreensão e resistência dos discípulos, Jesus procurava cada vez mais apresentar as particularidades do Reino dos Céus e a mudança de mentalidade que esse exigia para ser assimilado e construído. Considerando o conteúdo e a posição da parábola de hoje na dinâmica narrativa do Evangelho de Mateus, podemos concluir que ela constitui o ápice do ensinamento de Jesus aos discípulos sobre o Reino dos Céus. Ao chegar em Jerusalém, ele continuará ensinando, mas ali os destinatários e interlocutores primeiros já não serão exclusivamente os discípulos, e sim os fariseus, saduceus, doutores da lei e sacerdotes, ou seja, as lideranças do judaísmo, que possuíam também forte influência na vida política de Israel, na época. Portanto, o ensinamento exclusivo aos discípulos é praticamente concluído com esta parábola. Diante disso, para compreendê-la ainda melhor, é importante recordar os acontecimentos que a antecedem: o encontro de Jesus com o jovem rico (19,16-22) e a reação dos discípulos ao desfecho desse encontro (19,23-30).

Os discípulos tinham ficado perplexos com o diálogo entre Jesus e o jovem rico, sobretudo por causa das exigências apresentadas. Diante disso, Pedro, em nome do grupo, fez a seguinte pergunta a Jesus: «E nós que deixamos tudo e te seguimos, que recompensa teremos?» (19,27). Ora, percebendo a falta de coragem do jovem rico para o despojamento e o seguimento, Pedro quis tirar vantagem da situação, insinuando que ele e os seus colegas discípulos de primeira chamada seriam merecedores de privilégios, pois tiveram coragem de deixar tudo para segui-lo. Como resposta, Jesus lhes assegurou que não ficará sem recompensa quem deixa tudo para segui-lo, mas não promete privilégios, pelo contrário, até os advertiu: «muitos dos primeiros serão últimos, e muitos dos últimos serão primeiros» (19,30). Essa expressão proverbial corresponde ao último versículo do capítulo 19 e a parábola começa no primeiro versículo do capítulo 20. Ao concluir a parábola, Jesus repete essa mesma máxima, embora modificando a ordem: «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos» (20,16). A parábola é, portanto, uma explicação ilustrada desse pensamento que propõe uma reviravolta na história, uma inversão total da ordem vigente, começando pela maneira de conceber as relações com Deus. E os primeiros necessitados dessa explicação são os próprios discípulos, os quais se aproximavam da fase conclusiva do aprendizado, mas demonstravam pouca assimilação.

Feita a contextualização, podemos voltar a atenção diretamente para o texto, começando pelo primeiro versículo, no qual se afirma que «O Reino dos Céus é como a história de um patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha» (v. 1). Como se vê, Jesus está introduzindo uma parábola do Reino dos Céus, o que confere grande importância ao texto, tendo em vista a centralidade do Reino em sua pregação. É importante recordar que as parábolas apresentam comparações por imagens, e não propriamente descrições do Reino. Ora, como o Reino consiste em um mundo novo, uma sociedade alternativa, completamente diferente das sociedades humanas até então experimentadas, ele não pode ser descrito, uma vez que ainda não fora experimentado plenamente. Em relação ao protagonista da parábola, em vez do termo patrão, como traz a tradução do lecionário, é mais adequada a expressão “dono da casa” ou “pai de família”, uma imagem mais suave e mais fiel ao termo empregado pelo evangelista na língua original (em grego: oikodéspote – οἰκοδεσπότῃ). Trata-se, portanto, de um dono de casa que é proprietário de uma grande vinha; por isso não deixa de ser patrão, mas seu agir humanizado não se assemelha à ideia de patrões que prevalecem em outras parábolas, por isso é melhor denominá-lo apenas de dono de casa, como fez o evangelista.  Ele «Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha» (v. 2). O valor do pagamento acordado, traduzido por uma moeda de prata (em grego: denárion – δηνάριον) corresponde ao básico para um dia de trabalho em praticamente todo o império romano, e era suficiente para o sustento diário de uma família.

O fato de ser o próprio dono da casa – proprietário – quem sai em busca de operários já indica tratar-se de alguém acessível, interessado em conhecer pessoalmente os trabalhadores da sua vinha. Obviamente, o dono da vinha da parábola representa o próprio Deus. Com esse primeiro detalhe, Jesus acena para a ilegitimidade da mediação dos líderes religiosos do seu tempo, principalmente o sacerdócio do templo. Ora, aqueles líderes já não tinham legitimidade para falar em nome de Deus, até porque tinham distorcido a sua imagem, transformando-o de Pai, que ama e cuida, em patrão vingativo e castigador. A imagem do “dono da casa” da parábola, portanto, se aproxima do “Deus Conosco” que Jesus veio revelar (Mt 1,23; 18,20; 28,20). É uma imagem que recorda também aquela do “Pai misericordioso” da chamada “parábola do filho pródigo” de Lucas (Lc 15,11-32), pois não recompensa conforme os méritos, mas age por pura bondade e gratuidade. Esse dono demonstra um zelo ímpar para com a sua vinha, comparável ao zelo de Deus pela humanidade inteira. Ele sai várias vezes – cinco no total – durante o dia em busca de trabalhadores: pela madrugada (v. 1), às nove da manhã (v. 3), ao meio-dia (v. 5), às três (v. 5) e às cinco da tarde (v. 6). O contato direto dele com os trabalhadores deixa ainda mais claro o advento das novas relações entre a humanidade e o Deus da vida que Jesus veio revelar. Um Deus presente, realmente “Conosco”, como apresenta Mateus ao longo de todo o seu Evangelho (1,23; 18,20; 28,20). Um Deus que chama porque ama, que confia a construção do seu Reino a todos os que encontra parados nas praças, calçadas, estradas, que nunca tinham sido reconhecidos nem chamados por ninguém. E, ao chamar, esse Deus não pede currículo algum, porque sua intenção é a inclusão: ele não quer que ninguém fique fora do seu Reino, ao contrário da religião que segregava e excluía, ao classificar as pessoas entre justos e pecadores. Ele quer que todas as pessoas sejam humanizadas pela sua misericórdia e amor, independentemente da hora em que sejam chamadas.

De todas as idas em busca de trabalhadores, uma das que mais chama a atenção é a última, já às cinco da tarde, faltando apenas uma hora para terminar a jornada de trabalho. E é nela que o proprietário demonstra mais cuidado e preocupação, como se percebe pelo diálogo criado: «Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: “Por que estais aí o dia inteiro desocupados?”. Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. O patrão lhes disse: “Ide vós também para a minha vinha”» (vv. 6-7). A pergunta revela o interesse do proprietário pela vida das pessoas encontradas na praça. A história de cada um é importante para compreender sua maneira de viver. A resposta dos últimos contratados demonstra tratar-se de pessoas marginalizadas, esquecidas, excluídas da vida social e religiosa. Se estavam naquela situação, é porque ninguém tinha se interessado por elas, até então, não lhes tinha sido oferecida qualquer oportunidade, como eles expressam: «Porque ninguém nos contratou». Além de mostrar o interesse de Deus por todos, com predileção pelos últimos, esse diálogo adverte para a importância de interessar-se pela vida do outro e conhecer as causas do abandono em que milhões de pessoas se encontram no mundo, sem trabalho, sem alimento, sem moradia e sem os mínimos direitos respeitados. Muitas vezes, na própria comunidade, as pessoas são rotuladas e julgadas pelas situações a que foram submetidas. É claro que a parábola não pode ser lida à luz das relações trabalhistas e as respectivas leis, mas é impossível não se deixar interpelar por ela sem aplicá-la a situações concretas atuais.

A interação do proprietário com os últimos trabalhadores contratados explica a motivação da parábola e vai justificar a conclusão: «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos» (Mt 19,30; 20,16). Ora, aqueles trabalhadores que ainda não tinham sido contratados por ninguém eram mais necessitados; provavelmente tinham passado a vida toda às margens, até a chegada de um proprietário generoso que fosse ao encontro deles e os chamasse pessoalmente, restituindo-lhes a dignidade, até então negada. Por isso, eles terão prioridade na hora do pagamento, como imagem da nova ordem que compreende o Reino de Deus. Ora, ao contrário do sistema vigente na época de Jesus e no período da redação do Evangelho de Mateus, no Reino por ele anunciado não há lugar para a competição nem para a meritocracia. É claro que nem todos conseguiam assimilar com facilidade essa nova mentalidade inclusiva, que consistia na passagem da religião da lei para a da misericórdia e da bondade. Essa dificuldade é demonstrada na parábola pela reação dos primeiros contratados no momento do pagamento. Os primeiros a receber foram os últimos contratados, sendo que trabalharam apenas uma hora, pois foram chamados já às cinco da tarde e a jornada de trabalho terminava às seis. E «cada um recebeu uma moeda de prata» (v. 9). Temos, obviamente, uma grande surpresa, pois eles recebem o mesmo valor que tinha sido combinado para os primeiros contratados.

A surpresa aumenta com o pagamento dos primeiros contratados, embora tenham recebido o valor combinado no momento da contratação: «Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles recebeu uma moeda de prata» (v. 10). Considerando o valor pago aos últimos, esperava-se que os primeiros recebessem no mínimo o dobro deles, afinal, os primeiros tinham trabalhado de sol a sol, enquanto os últimos trabalharam apenas uma hora. Contudo, o pagamento combinado era suficiente para o sustento diário. Temos aqui, portanto, um apelo à igualdade e um combate à ganância e à cultura do acúmulo. O importante é que haja igualdade, que todos tenham o suficiente para o pão de cada dia, de modo que ninguém tenha nada em excesso nem falte o essencial para ninguém. Ora, ao pagar primeiro aos últimos contratados, e dar-lhes o mesmo valor dado aos contratados ainda na madrugada, o patrão inverteu completamente a lógica da economia, fez uma reviravolta total nas relações: ao invés de agir conforme a lei, ele agiu com misericórdia e bondade. E isso deixou furiosos aqueles que tinham sido contratados primeiro, como diz o texto: «ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: “Estes últimos, trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro”» (vv. 11-12). O patrão tinha duas opções: agir conforme a lei e, assim, perpetuar a desigualdade, ou agir pela bondade e, assim, promover a igualdade. Como preferiu a segunda opção, foi duramente contestado.

Com a reação dos primeiros contratados, Jesus denuncia a mentalidade competitiva entre os discípulos e, ao recordar isso, Mateus também denuncia a situação da sua comunidade, composta predominantemente por cristãos provindos do judaísmo, que reivindicavam vantagens e privilégios sobre os cristãos convertidos do paganismo. Como os primeiros contratados da parábola que alegavam ter suportado cansaço e calor, os cristãos de origem judaica alegavam conhecer e observar a Lei e os profetas e, como primeiros destinatários da revelação de Deus e povo eleito, imaginavam que isso lhes daria privilégios dentro da comunidade do Reino, por serem os verdadeiros herdeiros das antigas promessas. Esse comportamento se assemelha ao do filho mais velho na parábola do “Pai misericordioso” ou “Filho pródigo” de Lucas (Lc 15,11-31), de modo que podemos equipará-las na ênfase à misericórdia do Pai revelada por Jesus, como já acenamos anteriormente, e no comportamento mesquinho dos primeiros contratados. A reação do patrão ao murmúrio dos primeiros contratados é a clara denúncia de Jesus e de Mateus às pessoas religiosas que queriam controlar o agir de Deus, prendendo-o a doutrinas e normas conforme suas conveniências: «Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?» (v. 15). A expressão traduzida por “inveja”, no texto litúrgico, significa literalmente “teu olho mau”, como consta no original – em grego: ho ofthalmós su ponerós (ὁ ὀφθαλμός σου πονηρός). Trata-se de uma expressão semítica que associa o “olho mau” à inveja e à mesquinhez diante do bem concedido ao outro. Assim, a inveja é apresentada como uma forma de maldade, pois leva a pessoa a olhar com incômodo para a bondade de Deus manifestada na vida do outro.

O desconforto de uma religião sustentada pela mentalidade meritocrática, retributiva e legalista é grande quando se descobre que o Deus verdadeiro é um Pai que ama, perdoa, vai pessoalmente ao encontro das pessoas afastadas, promove a igualdade e humaniza pela misericórdia. Jesus, o revelador do Pai, contesta radicalmente a religião que se propõe a determinar a maneira de Deus agir. Para ele, isso é inadmissível, é um verdadeiro atentado contra Deus, uma manipulação. Certamente, a denúncia de Jesus e do evangelista continua válida também para os dias atuais. Pois, como sabemos, também hoje, muitas pessoas religiosas ainda têm dificuldade de aceitar um Deus misericordioso que age com liberdade e doa seu amor a todos, sem distinção. Na verdade, esse Deus continua sendo negado por essas pessoas. É inadmissível um Deus que não premia os bons e castiga os malvados. Para essas pessoas, a salvação é um prêmio, e não um dom; Deus é um soberano, e não um Pai; o outro é um concorrente, e não um irmão; a Igreja é um tribunal, e não uma casa de fraternidade. Mas o modo de agir do “dono da casa” da parábola desmente completamente essa concepção errada de Deus.

Assim, chegamos à conclusão e síntese da parábola: «Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (v. 16). Como tínhamos afirmado na introdução, a parábola em si é a explicação para essa máxima proverbial. Não se trata de uma exclusão dos que chegaram primeiro no grupo de discípulos ou na comunidade, mas uma demonstração de que o fato de terem chegado primeiro não lhes dá privilégios nem supremacia sobre os que vieram e virão depois. Essa expressão é apenas um modo de enfatizar que aqueles que forem chamados por último terão acesso ao mesmo amor, à mesma bondade de Deus que os primeiros, e devem ter prioridade na comunidade, devido ao histórico de exclusão que carregam. O Reino, apresentado como vinha, é também casa, família, fraternidade e igualdade. É comunidade humanizada e humanizante. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, setembro 11, 2026

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35 (ANO A)



A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo propõe a continuação da leitura do “discurso comunitário” do Evangelho de Mateus. O trecho escolhido para este dia é a continuação imediata daquele do domingo passado: Mt 18,21-35. Como se sabe, o “discurso comunitário”, chamado também de “discurso eclesial”, é o quarto dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus no Evangelho de Mateus, ocupando praticamente todo o capítulo dezoito do respectivo Evangelho. Esse discurso recebe tal nome porque trata das questões relativas à vida interna da comunidade cristã, com ênfase nas relações interpessoais entre os seus membros, que devem ser orientadas para a fraternidade. No trecho lido no domingo passado – Mt 18,15-20 – foi evidenciado o tema da correção fraterna, ressaltando que a comunidade e seus membros não devem medir esforços para que nenhum irmão ou irmã se afaste da fraternidade. No texto lido hoje, predomina o tema do perdão, com ênfase na certeza do perdão sem limites de Deus a todos os seus filhos e filhas e a consequente responsabilidade dos membros da comunidade de praticarem o perdão entre si de modo também ilimitado.

Como no domingo passado (vigésimo terceiro domingo), cujo texto evangélico proposto pela liturgia foi Mt 18,15-20, já fizemos a contextualização de todo o capítulo dezoito, hoje podemos nos isentar dessa tarefa, recordando apenas alguns elementos essenciais. E começamos pelos destinatários primeiros do discurso, que são os discípulos e discípulas de Jesus que, com o passar do tempo e o crescimento da comunidade, pareciam esquecer ou relativizar a essência da sua mensagem, que sempre teve o amor como centro. E um dos primeiros frutos do amor é o perdão, assim como a misericórdia de Deus é a marca principal do seu jeito de amar a humanidade. Portanto, é indispensável que toda pessoa que sente o amor de Deus em sua vida esteja também disponível a amar o próximo e perdoá-lo sempre. A mensagem do evangelho de hoje gira em torno desse ensinamento. A insistência do evangelista Mateus sobre o tema do perdão diz muito sobre a natureza da Igreja e, sobretudo, das suas comunidades. Por sinal, ele sempre mostrou que a comunidade de fé é composta de pessoas imperfeitas, sempre sujeitas ao erro, sobretudo nas relações com o próximo (Mt 13,24-30.47-50). Isso justifica a necessidade de se criar uma verdadeira cultura do perdão e da reconciliação.

Sendo os discípulos os destinatários primeiros do discurso e interlocutores diretos de Jesus, conforme o contexto narrativo, é deles que partem as primeiras reações ao que ele estava ensinando. E ele estava ensinando sobre o esforço da comunidade para que nenhum irmão se perca, recomendando que sejam tomadas diversas iniciativas para que haja reconciliação, mediante a correção fraterna. Diante disso, diz o evangelista que «Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”» (v. 21). Como vemos, é Pedro o primeiro a se manifestar, não necessariamente por exercer uma atividade de proeminência sobre os demais, mas por refletir a voz de todo o grupo e ser ele o que melhor sintetiza as características do grupo, incluindo a fé e o esforço de dar o melhor de si, bem como as contradições e incoerências. Para os evangelistas, e principalmente para Mateus, Pedro é a cara dos doze: professa solenemente a fé em Jesus como o Cristo e Filho de Deus (Mt 16,16), mas também o nega no momento mais difícil (Mt 26,69-75), ora fala conforme a vontade do Pai, ora conforme satanás (Mt 16,17.23). Portanto, a figura de Pedro funciona como uma síntese do grupo dos doze, sobretudo em Mateus. Por isso, ele é o porta-voz principal de todos os discípulos.

Jesus tinha apresentado a necessidade da reconciliação como uma busca irrenunciável para a comunidade (18,15-20). Como não há reconciliação sem perdão, ele vai apresentar a necessidade do perdão permanente e contínuo na vida da comunidade. Aqui, Pedro encontra a oportunidade de interagir, por meio de uma pergunta. Nessa pergunta de Pedro há, mais do que uma dúvida, uma convicção: se deve perdoar, mas com prudência e limite. A convicção mostra que ele tinha assimilado as tradições de Israel e a convivência humanizante com Jesus já lhe tinha ampliado o horizonte. O limite, contudo, é praticamente determinar a quantidade do perdão a sete vezes, afinal. Ora, como se sabe, o número sete evoca perfeição e completude para a mentalidade bíblica. Com efeito, o perdão sempre fez parte das tradições de Israel, porém, com certas restrições. Na época de Jesus, por exemplo, sobretudo nas escolas rabínicas, predominava um costume de aconselhar o perdão até três vezes para uma mesma pessoa. A pergunta propositiva de Pedro, com a possibilidade de conceder o perdão até sete vezes à mesma pessoa compreendia mais do que o dobro do que os costumes da época. Sem dúvida, percebe-se um significativo avanço na mentalidade de Pedro e dos discípulos que ele representa. É um saldo qualitativo e quantitativo admirável. Aos poucos, a lógica calculista da antiga religião estava sendo superada entre os discípulos. O que continuava negativo na mentalidade deles era a insistência em querer medir quantitativamente aquilo que deve ser ilimitado.

Provavelmente, ao propor um número superior ao dobro do que era ensinado pelos mestres da época, Pedro imaginava receber um elogio de Jesus, pois tinha demonstrado uma «justiça superior à dos escribas e fariseus» (Mt 5,20), como Jesus tinha exigido ainda no seu primeiro discurso, aquele chamado de “discurso da montanha” (Mt 5–7). No entanto, Jesus vai muito além, com a sua resposta: «Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (v. 22). Sem dúvida, Pedro e os demais discípulos ficaram desconcertados com essa resposta. A pergunta de Pedro já refletia uma abertura na comunidade para ir além dos costumes da época, mas com certos limites. A resposta de Jesus ensina a romper com todos os limites. Não se trata de um convite ou ordem para os discípulos fazerem uma multiplicação e chegarem a uma cifra elevada, porém, contável (70x7 =490), mas simplesmente de um sinal de que não há espaço para números no que diz respeito às relações com o próximo na comunidade cristã, até porque as relações com o próximo e com Deus são inseparáveis. Essa expressão numérica não indica uma quantidade, mas a qualidade: o perdão é ilimitado e incontável; deve ser concedido conforme a necessidade, e não conforme cálculos.

Para deixar ainda mais clara a necessidade do perdão entre os irmãos, Jesus apresenta uma parábola, que funciona como explicação do seu ensinamento. Trata-se de uma parábola exclusiva do Evangelho de Mateus, conhecida como “parábola do servo cruel” ou “impiedoso”. Vale a pena recordar que, nesse mesmo discurso, Jesus já tinha contado uma primeira parábola, aquela da ovelha perdida (18,10-14), ao enfatizar que as relações na comunidade devem refletir o amor e a misericórdia do Pai para que nenhum pequenino se perca do rebanho, ou seja, para que ninguém se separe da comunhão fraterna. Agora, com essa segunda parábola, ele reforça esse ensinamento: «O Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados» (v. 23). Antes de tudo, convém recordar que uma parábola é apenas uma comparação, e não uma descrição. É importante fazer esse esclarecimento para não distorcermos a imagem do Pai misericordioso ou pastor cuidadoso, convertendo-a em um soberano despótico ou juiz vingativo. Por isso, o primeiro objetivo dessa parábola é mostrar a abundância do perdão ilimitado de Deus e alertar para a dificuldade que a comunidade tem de praticar o perdão. O segundo objetivo é levar a comunidade a superar essa dificuldade, denunciando a frequente incoerência em invocavale o perdão do Pai quando não há disposição de perdoar ao próximo também de modo ilimitado.

De modo simplificado, podemos compreender a parábola da seguinte maneira: tudo o que se recebe de Deus é dom, e tudo o que é dom deve ser partilhado. O primeiro empregado ou servo devia uma quantidade incalculável (v. 24), ou seja, possuía uma dívida milionária, a ponto de ser impossível quitá-la. Dez mil talentos representa uma quantia muito grande. O talento era uma unidade de peso para metais preciosos, como o ouro e a prata. Um talento equivalia a cerca de trinta e cinco quilos, de modo que a quantia de dez mil talentos corresponderia a aproximadamente trezentos e cinquenta mil quilos de ouro e prata. Trata-se, portanto, de uma dívida quase incalculável e impossível de ser paga. Por isso, o rei-patrão manda vender o empregado devedor como escravo, juntamente com toda a família (v. 25). Certamente, esse não era apenas um empregado, mas alguém que participava diretamente da administração, o qual deve ter desviado ilicitamente muito dinheiro para ficar tão endividado para com o rei, após ser descoberto. Sabendo da impossibilidade de pagar, não lhe resta outra coisa senão suplicar o perdão da dívida, como o fez, pedindo um prazo como pretexto (v. 26). O patrão teve compaixão e perdoou a dívida (v. 27), representando o agir de Deus diante da incapacidade humana de corresponder aos seus propósitos. Com isso, Jesus ilustra que a misericórdia de Deus supera qualquer expectativa humana.

A continuação da parábola mostra que o empregado, perdoado de maneira absoluta e ilimitada, se mostra incapaz de partilhar o perdão recebido (vv. 28-32); e isso é intolerável para aquele que lhe havia perdoado (vv. 33-34). O centro da parábola está exatamente aqui: advertir e prevenir a comunidade, principalmente as lideranças, da hipocrisia, covardia e mesquinhez de não partilhar o perdão, de não ser instrumento e sinal de reconciliação. No final, o empregado-servo foi condenado porque reteve o perdão somente para si, não partilhou o perdão com o seu próximo que dele necessitava. Jesus quer evitar esse perigo na sua comunidade. Assim, a comunidade contradiz o projeto de Jesus e do Pai quando classifica o pecado, determinando se é “perdoável” ou não, e quando impõe limites ao aplicar o perdão. Ora, o perdão é força humanizante e, uma vez experimentado, deve transformar o coração e a vida de cada pessoa. A descrição vingativa do rei-patrão, na parábola, não visa mostrar uma imagem violenta de Deus, mas denunciar que não tem sentido invocar a misericórdia dele sem disposição para perdoar o próximo. Visa ilustrar também que a falta de perdão tira o sentido da vida. É claro que o perdão ao próximo não é condição para o perdão de Deus, mas deve ser a consequência lógica.

Longe de descrever Deus como um soberano vingativo, o que Jesus quer com essa parábola é reforçar um ensinamento necessário e urgente para o bem da comunidade, que insistia em negligenciar. Enfim, Jesus apenas reforça o que já tinha sido dito no seu primeiro discurso, o da montanha: «Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os vossos delitos» (Mt 6,14-15). Quando um evangelista mostra Jesus insistindo com um mesmo ensinamento, tornando-se até repetitivo, ele revela a importância de tal ensinamento e a dificuldade de assimilação entre os discípulos. Por isso, ele insiste com o perdão: por mais difícil que seja praticá-lo de modo ilimitado, ele é indispensável. Sem o perdão ilimitado e generoso não há seguimento de Jesus, não há comunidade cristã e tampouco há relação autêntica com Deus.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,33-43 (ANO A)

  O evangelho do vigésimo sétimo Domingo do Tempo Comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a última fase do seu ministério,...