No trigésimo quarto domingo do
tempo comum, o último do ano litúrgico, a Igreja celebra a solenidade de Jesus Cristo
como rei do universo. O evangelho proposto para este ano é Mt 25,31-46, texto
que contém a parábola do juízo final, uma exclusividade do evangelista Mateus. Porém,
antes de tratarmos do texto bíblico e seu contexto, consideramos oportuno fazer
algumas considerações sobre a origem e a história desta solenidade. Trata-se de
uma festa relativamente nova, instituída pelo papa Pio XI em 1925. Era um momento conturbado para a Europa e todo o mundo; fazia pouco tempo
que a primeira guerra mundial tinha terminado, já se sentiam os antecedentes da
segunda. A ganância pelo poder com as consequências drásticas que desse derivam
estavam em efervescência. Já estavam consolidados alguns regimes totalitários,
como o fascismo na Itália e o stalinismo na Rússia, enquanto o nazismo estava
sendo gestado na Alemanha.
Em resposta a este cenário, sobretudo
aos regimes totalitários, o papa Pio XI instituiu esta festa como advertência e
recordação de que Jesus Cristo é o único rei e senhor do universo. Apesar de oportuna
para o momento histórico, a maneira como foi instituída poderia gerar
interpretações distorcidas e equivocadas da realeza de Cristo, alimentando pretensões
triunfalistas na Igreja. Por isso, ela foi resinificada com a reforma
litúrgica do Vaticano II, começando pela mudança de data; antes, era celebrada no
final do mês de outubro, no domingo anterior à festa de todos os santos. Com a
reforma, passou a ser celebrada no último domingo do ano litúrgico, como a
culminação de um percurso e de um projeto universal de salvação, marcado pela
inclusão e vida em abundância, correspondente ao Reino de Deus.
Conforme acenamos anteriormente,
neste ano (ano A) o evangelho da festa de Cristo Rei é Mt 25,31-46. Esse texto
é a conclusão solene do último dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de
Mateus, o chamado “discurso escatológico” (Mt 24–25). Contém as últimas
palavras de Jesus antes do relato da paixão (Mt 26–27). Esse dado reforça ainda
mais a importância do texto, pois é o fechamento de todo o ensinamento de Jesus,
exatamente no evangelho que mais evidenciou a sua atividade de ensinar. E o
mais importante e comprometedor é que, na conclusão desse ensinamento, a opção
pelos pobres e pequenos ocupa a centralidade. Como temos afirmado nos últimos
domingos, esse discurso foi construído com a finalidade de chamar a atenção da
comunidade do evangelista que vivia um momento de crise, com um esmorecimento
na vivência da fé e preocupações com o tardar da retorno do Senhor. Com isso, o
evangelista incentiva a comunidade trabalhar os talentos que o Senhor lhes
confiou, fazendo-os frutificar, sem preocupar-se com o tempo. Portanto, a
exemplo das parábolas anteriores (parábolas dos dois servos –
Mt 24,45-51; parábola das dez virgens – Mt 25,1-12; parábola dos talentos – Mt 25,14-30),
também essa tem a finalidade de despertar uma vigilância ativa na comunidade.
Feitas as devidas considerações introdutórias e contextualização, olhamos
para o texto, que apresenta, em forma de parábola, uma cena de julgamento final
conduzida pelo Filho do Homem, título com o qual Jesus se refere a si mesmo. É importante recordar que o tema principal do
discurso escatológico é a vigilância, ou seja, a espera atenta pelo desfecho
final da história; por isso, o texto inicia com esta expressão: “Quando
vier o Filho do Homem em sua glória acompanhado de todos os anjos, então se assentará em
seu trono glorioso” (v. 31). O verbo “vir” relaciona esta com as parábolas
anteriores do mesmo discurso, sendo que expressa mais um manifestar-se do que
propriamente um retorno. Com isso, o evangelista quer mostrar que o Senhor
nunca foi embora, ou seja, nunca se ausentou, mas sempre esteve presente na
comunidade. Inclusive, esse é um dos ensinamentos principais da parábola:
mostrar que, mesmo depois da ascensão, o Senhor permaneceu na
comunidade através dos pobres e pequenos. Um dos desafios da comunidade de
Mateus era compreender e aceitar essa realidade, o que explica a ênfase do
evangelista com o tema da presença do Senhor, o Deus conosco, Emanuel (Mt 1,23;
18,20; 28,20). Do começo ao fim, o evangelista mostra em sua obra que o Senhor
já está na comunidade; agora, ele está falando da manifestação gloriosa.
O assentar-se no trono glorioso recorda a realeza
do Filho do Homem; de fato, ele é rei. O que surpreende, no entanto, é a
maneira como exerce essa realiza, o que vem indicado nos versículos seguintes,
que o apresentam como juiz universal e como pastor. Eis a primeira consequência
da vinda do Filho Homem: “Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns
dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (v. 32). A reunião de todos os povos da
terra, mesmo que seja seguida de uma separação, já evoca a realização de uma
fraternidade universal. Acabou-se o privilégio de Israel, que agora passa a ser
contado como um entre todos os povos. Como os critérios de juízo já não serão
mais religiosos, Israel não tem vantagem sobre as demais nações, pois o que
conta é o amor ao próximo, traduzido em ações concretas de serviço e solidariedade.
A imagem do pastor é extremamente significante; evoca cuidado, conhecimento do
rebanho e intimidade com ele. Significa a dimensão serviçal do poder, incluindo
o amor, a compreensão e o cuidado. É o contrário do poder tirânico.
Ao reunir “todos os povos”
diante de si, o Filho do Homem irá fazer a separação. O critério da separação é
o mais surpreendente: ao invés de considerar distintivos religiosos, como bons
e maus, puros e impuros, dignos e indignos, santos e pecadores, ortodoxos e
hereges, o critério utilizado pelo juiz universal é o que alguém fez ou deixou
de fazer aos “pequeninos” ou “menores” dos irmãos, ou seja, às pessoas marginalizadas.
A atenção aos “menores dos irmãos” é o critério de participação na vida
definitiva, ou seja, o “reino que o Pai preparou desde a criação do
mundo” (v. 34). Em Mateus, a mensagem de Jesus foi condensada nos cinco
discursos e é importante perceber o nexo que une esses discursos: o primeiro, o
da montanha, foi iniciado com as bem-aventuranças, nas quais Jesus introduzia a
sua opção preferencial pelos marginalizados e sofredores (pobres, aflitos,
mansos, perseguidos... Mt 5,1-12); agora, no último discurso, como mostra o
texto de hoje, essa opção é reforçada e confirmada. Podemos dizer que, do
começo ao fim, a mensagem de Jesus tem a atenção voltada de maneira especial
para os “menores dos irmãos”, ou seja, toda a sua vida foi marcada por uma
clara opção por aquelas pessoas desprezadas pela sociedade.
A partir de seis situações
(ações) concretas, o evangelho de hoje mostra como alguém pode ser herdeiro ou
não do Reino de Deus: dar comida aos famintos, dar água aos sedentos,
acolher os estrangeiros, vestir os nus, cuidar dos enfermos e visitar os presos
(vv. 35-40). Chamadas de “obras de misericórdia”, estas ações já eram
recomendadas na Bíblia, ao longo do Antigo Testamento, especialmente em textos
proféticos (58,7; Ez 18,7.17). Portanto, Jesus não as inventa, mas dá um novo sentido, transformando-as
em critérios exclusivos para o acesso definitivo ao Reino de Deus. Enquanto juiz
e senhor da história, o Filho do Homem, conduzirá o julgamento com um diálogo
bastante franco e sincero, iniciado com um convite: “Vinde benditos de
meu Pai!” (v. 34a). Em seguida, são dadas as razões pelas quais são
chamados de benditos do Pai: “Pois eu estava com fome e me destes de
comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me
recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes
de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar” (vv. 35-36). Chama a
atenção a surpresa dos que são tratados como benditos: eles perguntam quando
viram o senhor naquelas situações e o serviram. Essa surpresa é registrada pelo
narrador para reforçar o caráter desinteressado e gratuito do amor transformado
em serviço: fazer o bem, sem olhar a quem! Eles praticaram o bem sem esperar
recompensa, e é isso o que o Senhor espera de todos. A surpresa aumenta ainda
mais quando o senhor diz: “todas as vezes que fizestes isso a um dos
menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (v. 40). Famintos,
sedentos, estrangeiros, nus, doentes e presos sintetizam todas as categorias de
marginalizados, e são expressões da presença real de Jesus na comunidade
cristã. Isso quer dizer que, em qualquer momento da história e em todos os
lugares, qualquer pessoa pode ver Jesus e servi-lo; basta olhar para as pessoas
que estão nessas situações e fazer-lhes o bem.
Fazia parte dos métodos
rabínicos ensinar a mesma coisa duas vezes: uma em sentido positivo, e outra em
sentido negativo, sobretudo quando se tratava de um ensinamento muito importante,
como Jesus faz nesta parábola. Assim, o diálogo com o segundo grupo se
desenvolve a partir da mesma dinâmica, embora com desfecho contrário, a começar
pelo convite inicial: “Afastai-vos de mim, malditos” (v. 41). Da
mesma forma como fez com aqueles considerados benditos, o rei-juiz dá as razões
pelas quais esses últimos são chamados de malditos: não ter feito aquilo que
fizeram os primeiros (v. 43). Também esses recebem a sentença com
surpresa: “Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como
estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?” (v. 44). A
resposta do rei só faz aumentar a surpresa: “Todas as vezes que não
fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!” (v.
44). Assim como o terceiro empregado da parábola dos talentos, a sentença de
condenação não é consequência de maldades cometidas, mas de omissões. O que há
de mais sério na vida do ser humano, e que pode levá-lo à privação da vida em
plenitude, é a omissão, a indiferença ao sofrimento do próximo, a carência de
ações praticadas em favor dos menos favorecidos. Logo, a sentença final (v. 46)
não é um castigo divino, mas simplesmente consequência de opções contrárias à
essência do Evangelho, o que torna a vida sem sentido.
Como conclusão do discurso
escatológico, o texto de hoje reforça a vigilância e dá um novo sentido a ela:
não se deve ficar esperando pelo encontro com o Senhor na consumação dos
tempos, em um tempo remoto; é preciso ter capacidade, maturidade e amor para
encontrar-se com ele todos os dias, fazendo o bem àqueles nos quais o Senhor
está presente, já elencados repetidas vezes aqui (faminto, sedento,
estrangeiro, nu, doente e preso). A parábola é um alerta para a comunidade de
Mateus, tão ansiosa pelo retorno do Senhor, mas incapaz de ver o Senhor já
presente nos mais necessitados. Certamente, esse alerta continua válido também
para os cristãos de hoje. O cristão verdadeiro encontra-se com o Senhor todos
os dias, não tem medo nem anseia por um encontro final e decisivo, mas sabe que
Ele já está aqui conosco. A presença de Jesus, por sinal, é o fio condutor do
Evangelho segundo Mateus: do anúncio a José (Mt 1,23) ao envio dos discípulos
após a ressurreição: “Eis que eu estou convosco todos os dias” (28,20).
Portanto, não há razões para a comunidade perguntar quando virá o Senhor; o
importante é perceber a sua presença no cotidiano, nas situações concretas da
vida.
Todos foram pegos de surpresa:
tanto os considerados “benditos” quanto os ditos “malditos”, pois ou fizeram ou
deixaram de fazer o bem. O bem a ser praticado deve ser completamente
desinteressado. O Senhor não marca nem rotula nenhum daqueles nos quais ele
deve ser reconhecido. Basta reconhecer o outro como ser humano, pessoa com dignidade,
imagem e semelhança do criador; essa é a única marca e não é impressa por
nenhuma religião, mas pelo criador de todas as coisas. Ao Senhor, interessa o
bem praticado, o serviço doado, o amor praticado! Reconhecer a realeza de Jesus
sobre o universo é reconhecê-lo em cada irmão e irmã, sobretudo nos mais
necessitados.
Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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