sábado, janeiro 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do segundo domingo do empo comum emprega um texto do Evangelho segundo João, convencionalmente chamado também de Quarto Evangelho, devido à sua posição na ordem canônica do Novo Testamento. O trecho selecionado varia anualmente, conforme a dinâmica cíclica do ano litúrgico (ano A: Jo 1,29-34; ano B: Jo 35-42; Ano C: Jo 2,1-11). Concretamente, esse domingo constitui a verdadeira abertura solene do tempo comum, uma vez que não existe um primeiro domingo do tempo comum no calendário litúrgico. Como se sabe, ao longo do ano, a liturgia do tempo comum faz uma apresentação contínua do ministério de Jesus, desde os seus primórdios na Galileia até o seu final, em Jerusalém. Recorre-se, portanto, ao Evangelho de João no segundo domingo, porque é esse o que introduz a vida pública de Jesus de modo mais aprofundado. Por ocasião do Ano Litúrgico A, o trecho lido neste domingo é Jo 1,29-34. Nessa passagem, aparecem declarações bastante relevantes sobre a identidade e missão de Jesus, de grande profundidade teológica, que só serão bem compreendidas ao longo do tempo, acompanhando cada passo da sua vida pública, como propõe a dinâmica do ano litúrgico, sobretudo o tempo comum. É importante recordar que, ao contrário dos sinóticos (Mt-Mc-Lc), o Quarto Evangelho não narra o batismo de Jesus, mas faz alusões implícitas a esse acontecimento, como se vê no evangelho de hoje.

O texto lido neste dia faz parte da primeira seção narrativa do Evangelho de João, convencionalmente chamada pelos estudiosos de “semana inaugural” (Jo 1,19–2,21). Trata-se de uma sequência narrativa na qual o evangelista introduz a vida pública de Jesus com indicações temporais que indicam a duração de uma semana. Com isso, o autor pretende apresentar a obra de Jesus como uma nova criação, em alusão à criação originária, desenvolvida também em uma semana (Gn 1,1–2,3). O primeiro dia da “semana inaugural” do evangelho joanino foi marcado por uma comitiva fiscalizadora, enviada pelas autoridades religiosas de Jerusalém para interrogar João sobre sua identidade (Jo 1,19-28), e o último dia ou sétimo é marcado pelas bodas de Caná (Jo 2,1), o qual é introduzido pela expressão “no terceiro dia”, mas em relação aos quatro dias anteriores e, portanto, é o sétimo da primeira semana. O episódio narrado no evangelho de hoje corresponde ao segundo dia da semana. Porém, isso não se percebe na tradução do lecionário litúrgico, que substituiu o dado temporal do texto original pela genérica fórmula de introdução “naquele tempo”.

E iniciamos a nossa reflexão, portanto, recordando o dado temporal com o qual o evangelho de hoje é introduzido, na língua original. Ora, ao invés da genérica fórmula de introdução “naquele tempo”, o texto começa com uma expressão que poderia ser traduzida como “no dia seguinte” ou “um dia depois” (em grego: τῇ ἐπαύριον – té epaurion). A princípio, pode parecer uma observação pouco relevante, mas na verdade se trata de algo bastante significativo. Ora, se o evangelista emprega essa expressão quer dizer que o episódio a ser narrado possui relação com o anterior, como de fato tem. Desse modo, a forma correta do primeiro versículo é: «No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”» (v 29). O Evangelho de hoje, portanto, apresenta o segundo dia da nova criação, ou seja, do novo tempo que o autor do Quarto Evangelho quer apresentar. Um dia após ter sido interrogado pelos comissários de Jerusalém, «João viu Jesus aproximar-se dele» (v. 29a). É necessário perceber a importância da ação de Jesus: vir, aproximar-se, caminhar em direção de alguém, no caso, de João. Uma nova ordem na história da salvação está sendo inaugurada, e João a contempla como testemunha privilegiada: é Deus quem vem ao encontro dos homens e mulheres, ou seja, ao encontro da humanidade. À humanidade, cabe o papel de ver e, por consequência, reconhecer, acolher e testemunhar, como fez João.

A propósito de João, é importante recordar que, no Quarto Evangelho, ele é identificado como testemunha, bem mais do que que pela atividade batizadora, como acontece nos sinóticos. Inclusive, no evangelho joanino ele não é sequer chamado de Batista, mas apenas de João, embora se afirme que ele também batizava, como diz o evangelho de hoje (v. 33). Também não se identifica com a tradicional figura do precursor, outra característica sua predominante nos sinóticos. Conforme a perspectiva teológica do Quarto Evangelho, João é a testemunha, bem como sua missão é dar testemunho, e isso é suficiente para demonstrar sua importância. De fato, esse dado é bastante relevante, pois o testemunho (em grego: μαρτυρία – martyría) é uma categoria teológica de grande importância para a comunidade joanina e, nesse sentido, a figura de João se torna paradigmática para o discipulado de Jesus em todos os tempos. Ora, João reconheceu Jesus; reconhecendo-o, deu testemunho dele, como o evangelista havia antecipado no prólogo (Jo 1,6-8). E os discípulos de Jesus, por sua vez, além de reconhecê-lo, devem também manifestá-lo por meio do testemunho, inclusive, reconhecendo-o nas situações mais adversas: nos pobres, pecadores e pessoas marginalizadas de um modo geral. Portanto, o que João fez em relação a Jesus, muito mais devem fazer os cristãos, em todos os tempos.

E a reação de João diante do que estava contemplando foi decisiva e corajosa. Ao afirmar que Jesus é «o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!», ele fez uma das declarações mais revolucionárias de toda a Bíblia. Com essa afirmação, ele desmascarou e decretou a falência de todo um sistema religioso e político sustentado pela exploração que o sistema sacrificial do templo de Jerusalém promovia. Essa declaração revela um novo rosto de Deus e anuncia, acima de tudo, uma nova maneira de se relacionar com ele. E a maneira nova de se relacionar com Deus corresponde ao fim do sistema cultual centralizado no templo de Jerusalém, símbolo de corrupção e exploração. A expressão “Cordeiro de Deus” (em grego: ἀμνὸς τοῦ θεοῦ – amnós tu Theú) é uma das maiores novidades do Evangelho de João; em toda a Bíblia, aparece somente duas vezes (Jo 1,29.36). No Novo Testamento, somente dois livros aplicam a imagem do Cordeiro a Jesus: o Quarto Evangelho e o Apocalipse. Devido à novidade que comporta, muitas possibilidades de interpretação foram sugeridas para essa expressão, ao longo da história, umas convincentes e outras não, umas condizentes com a lógica do Quarto Evangelho e outras não. Portanto, diversas perspectivas podem ser apresentadas.

Uma primeira perspectiva para a compreensão da definição de Jesus como “Cordeiro de Deus” é a messiânica. Ora, estava consolidada no imaginário do judaísmo da época a imagem de um messias valente, guerreiro, rei forte e potente, com garras semelhantes às de um leão – o leão de Judá (Gn 49,9; Os 5,14; Mq 5,7-8; Is 31,4). Como o leão era um dos símbolos do poder régio no antigo Oriente, em Israel compartilhava-se o mesmo imaginário, projetando tais traços em seu esperado Messias. Havia, portanto, muita expectativa para a chegada desse personagem. Mesmo que essa expectativa messiânica não fosse uniforme em todo o judaísmo, era suficientemente difundida para moldar o imaginário popular. João, por sua vez, desconstrói completamente essa imagem, pois o cordeiro era símbolo da mansidão e fragilidade, o oposto das expectativas do povo. Com isso, o evangelista quer dizer que o messias autêntico não é um guerreiro lutador, mas homem manso e não violento. Porém, mansidão não quer dizer resignação, como Jesus vai mostrar ao longo de sua vida pública, lutando incessantemente pela ruptura total com os costumes e tradições que oprimem e matam, mas sem jamais empunhar as armas da violência. Outra perspectiva de leitura, que não exclui a primeira, mas a complementa, é a releitura da imagem do cordeiro no Antigo Testamento, especificamente em duas ocasiões: o cordeiro pascal (Ex 12,1-28), e o Servo sofredor que é comparado a um cordeiro (Is 53,6-7). E nessas duas ocasiões o cordeiro evoca libertação: na primeira, simboliza a libertação da escravidão no Egito; na segunda, indica que o sofrimento do povo no exílio da Babilônia estava acabando, ou seja, a libertação estava próxima. Em ambas as situações, a libertação simbolizada pelo cordeiro era parcial, destinada apenas ao povo de Israel. Em Jesus o horizonte é ampliado: ele traz libertação para o mundo inteiro.

Para a instituição religiosa de Israel, a função do Cordeiro Jesus apontada por João era um verdadeiro golpe mortal: tirar o pecado do mundo. Ora, todo o aparato religioso de Israel era sustentado “às custas do pecado” do povo. Quanto mais o povo pecasse, mais sacrifícios precisaria oferecer no templo, mais ofertas deveria dar e, assim, mais ricas ficariam as autoridades religiosas. Sendo Jesus o Cordeiro, é ele mesmo quem se oferece, quem se doa, logo, não há mais necessidade de oferecer cordeiros e touros no templo. Em Jesus, Deus veio ao encontro definitivo da humanidade, oferecendo-se por inteiro, fazendo-se carne e habitando no mundo (Jo 1,1-18). Não há mais distância entre Deus e a humanidade, por isso, os sacrifícios do templo não mais necessários. E o Cordeiro Jesus não apenas “expia” pecados, mas elimina definitivamente o pecado do mundo. E a eliminação do pecado do mundo representa a falência total do templo. Jesus não veio para expiar os pecados, mas para abolir o pecado e, não apenas de Israel, mas da humanidade inteira, ou seja, o pecado do mundo.

Tirar o pecado do mundo significa restabelecer na humanidade a sua capacidade de comunicação com Deus e imprimir nela o amor. A visão de pecado do Quarto Evangelho é completamente diferente daquela que a religião de Israel tinha imposto; não é a transgressão individual de preceitos criados pela própria religião, mas a falta de comunicação com Deus, o fechamento e a dureza de coração. E, quem tinha distanciado Deus da humanidade e, portanto, impossibilitado essa comunicação, tinha sido a própria religião. A novidade que Jesus veio trazer ao mundo – ou seja, o seu “Evangelho” – é um projeto de vida plena, marcado pela igualdade, fraternidade, justiça, solidariedade e amor; é nesse projeto que Deus se revela e, portanto, faz desaparecer o pecado. Onde se vive à maneira de Jesus, Deus se faz presente e, por isso, o pecado desaparece, o mal perde o vigor. Logo, os sistemas cultuais expiatórios perdem seu sentido e seu valor quando o projeto de Jesus é assimilado. Para quem vivia “às custas do pecado” do povo, como o templo de Jerusalém, essa nova ordem é altamente prejudicial; na verdade, é destruidora, por isso, será tão combatida.

E o evangelista continua mostrando o testemunho de João. E é um testemunho importante porque reconhece a necessidade de vir depois dele alguém que já existia antes: «Dele é que eu disse: “Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim”» (v. 30). Aqui, João faz uma espécie de retrospecto do testemunho que já estava dando há certo tempo, inclusive, parte dessa afirmação está na resposta dada no interrogatório dos enviados de Jerusalém (v. 27). Assim, ele reconhece o quanto são maravilhosos os desígnios de Deus: a humanidade não poderia permanecer nem perecer daquela forma e naquele estágio em que se encontrava antes do Cordeiro se manifestar. O que preexistia, como fora evidenciado pelo evangelista no prólogo (Jo 1,1-18), deveria se manifestar, e João teve a graça de testemunhar essa manifestação que marcou o início de uma nova humanidade e uma nova criação. João tinha consciência de que, embora a salvação agora contemplada, tivesse um alcance universal, seria manifestada primeiro a Israel, através do sinal exterior do seu batismo com água: «Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel» (v. 31). Portanto, se no momento da eleição foi por privilégio, no tempo de João já era por necessidade. Israel não poderia deixar de ser o primeiro campo de manifestação dessa nova ordem ou etapa da história da salvação. O desenrolar do Evangelho, contudo, vai mostrar que, embora tenha sido o primeiro destinatário, Israel não reconheceu.

A continuidade do testemunho de João atesta sua autenticidade: ele mesmo fez a experiência e viu «O Espírito descer como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele» (v. 32). Com essa imagem, João atesta a provisoriedade do seu batismo e da religião do seu tempo: o Espírito desceu do céu e permaneceu em Jesus; logo, a morada do divino na terra não é mais o templo, mas todo ser humano que acolhe e assimila o jeito de viver de Jesus, uma vez que, após a ressurreição, esse mesmo Espírito será enviado a toda a humanidade. João proclama que Jesus é a morada do Espírito e, assim, a humanidade é transformada e reordenada, tornando-se plenamente humanizada. E é a contemplação da descida e permanência do Espírito em Jesus (v. 33) que dá a João a certeza de que Jesus é, inclusive, mais do que Cordeiro: «Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!» (v. 34). Ora, se isolada, a simples imagem do Cordeiro, apesar de revolucionária, ainda poderia ser confundida com a figura do servo. Por isso, o reconhecimento de Jesus como o Filho de Deus é tão decisiva.

Com efeito, a declaração de que Jesus é o Filho de Deus não revela apenas um traço da sua identidade, mas aponta para um novo jeito de se relacionar com Deus. Revela a comunhão e o amor recíprocos entre os dois – o Pai e o Filho. Sendo Filho de Deus, Jesus é “igual” ao Pai e, portanto, herdeiro; por ter em si o Espírito, somente ele poderá doá-lo, transmitindo-o a toda a humanidade, como fará após a ressurreição. Assim, acolhendo esse Espírito, todos podem tornar-se também filhos de Deus (Jo 1,12) e, consequentemente, também doadores do Espírito Santo. Por sinal, o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus é o objetivo principal de todo o Quarto Evangelho, como vem afirmado na primeira conclusão da obra: «Esses sinais foram escritos para crerdes que Jesus é o Filho de Deus» (Jo 20,31a). Por isso, logo no início, o evangelista apresenta uma testemunha privilegiada desse reconhecimento: João (Jo 1,6-8.19.29.32.34); e no final, toda a comunidade dos discípulos e discípulas (Jo 20,1-31). A comunidade cristã, portanto, é chamada ser continuadora da missão testemunhal de João.

Esperava-se um Messias valente para exterminar os pecadores... Deus enviou um Messias manso como um cordeiro, para tirar o pecado do mundo, através de uma proposta nova de vida para todos, principalmente os pecadores e todas as pessoas marginalizadas. A condição de Jesus como Cordeiro e Filho de Deus representam a humanização completa que ele veio oferecer ao mundo. É a superação do Deus distante e rígido que exigia sacríficios, pelo Deus que manifesta sua glória na fragilidade da carne humana, como celebramos no Natal e cujos ecos se sentem ainda na liturgia de hoje e devem estender-se por todo o tempo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

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