sexta-feira, fevereiro 20, 2026

REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 4,1-11 (ANO A)

 


Após uma sequência de seis domingos, a liturgia interrompe, temporariamente, o tempo comum para vivenciar e celebrar um de seus tempos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas, com o solene convite à conversão, em preparação à Páscoa do Senhor, que é a razão de ser da fé cristã. Hoje, celebramos o primeiro domingo deste tempo especial, que é um verdadeiro itinerário catequético e espiritual. Como acontece todos os anos, o evangelho do primeiro domingo da Quaresma compreende sempre uma das narrativas das tentações pelas quais passou Jesus no deserto, logo após ser batizado, como preparação para o início de seu ministério. As tentações são um dos episódios presentes nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), um dado que confirma a sua grande importância para as primeiras comunidades cristãs. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, temos a oportunidade de ler a versão das tentações do Evangelho de Mateus – 4,1-11. Trata-se de um texto bastante rico, muito bem elaborado, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, com uso abundante de linguagem simbólica. 

Marcado por forte simbologia, o evangelho de hoje corre o sério risco de ser mal compreendido, devido a nossa tendência equivocada de considerar os evangelhos como livros de crônicas exatas da vida de Jesus, esquecendo o aspecto simbólico que predomina neste tipo de relato. Por isso, é necessário, a nível de introdução, fazer algumas considerações importantes para uma adequada compreensão. A fonte original deste relato é o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos evangelhos canônicos, o qual não oferece qualquer detalhe sobre o nível e a modalidade das tentações. Marcos apenas diz que «Jesus esteve no deserto durante quarenta dias sendo tentado por Satanás» (Mc 1,13); dessa informação simples e vaga narrativamente, embora bastante profunda teologicamente, o evangelista Mateus, com muita criatividade, e atendendo às necessidades da sua comunidade, ilustrou a história que lemos hoje na liturgia, como fez também Lucas (Lc 4,1-13). Certamente, ambos tiveram acesso a outras fontes que desenvolveram o enunciado de Marcos, transformando-o em uma verdadeira narrativa, ou seja, uma história com personagens em ação, com circunstâncias de espaço e tempo bem definidas. Apesar de muito parecidas, as versões de Lucas e Mateus apresentam pequenas divergências, que certamente correspondem ao ponto de vista teológico de cada um e às necessidades catequéticas de suas respectivas comunidades, destinatários primeiros de seus escritos.

A nível de contexto, é imprescindível recordar que o relato das tentações segue, imediatamente, ao relato do batismo – Mt 3,13-17 – e, por isso, ambos estão intrinsecamente relacionados. Ainda antes do batismo, João – o que batizava – tinha anunciado Jesus como o Messias, em sua pregação. Ora, no batismo o Espírito Santo desceu sobre Jesus e, do céu, o próprio Pai o declarou como o seu “Filho Amado”. Logo, o principal objetivo do evangelista com este episódio de hoje é apresentar o comportamento de Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto deste dia (Mt 3,17). E ele vai mostrar que Jesus permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo. Em sua liberdade de Filho, Jesus permanece fiel ao Pai, assumindo para si os mesmos propósitos. Desse modo, à condição de amado, ele corresponde amando, não só ao Pai, mas à inteira criação, a qual também é fruto do amor do seu Pai. Portanto, esse é um texto programático para a comunidade cristã, pois indica como se deve agir e resistir ao mal quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo, missão comum a todos os batizados e batizadas.

Iniciamos nossa reflexão considerando os dois primeiros versículos do texto, nos quais se diz o seguinte: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome» (vv. 1-2). Ora, o mesmo Espírito Santo que desceu em forma de pomba (Mt 3,16) no batismo, acompanhará Jesus em todos os seus passos e ações; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito Santo, e não apenas quando ele vai ao deserto, como acontece no episódio de hoje. Aqui, o deserto não é um indicativo geográfico, mas teológico. A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos pelos quais Israel passou, desde a saída do Egito até à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que ele, mesmo sendo o “Filho Amado” de Deus, é verdadeiramente ser humano, pois assumiu a humanidade em todas as suas dimensões. Na tradição bíblica, o deserto evoca a provação, a privação e a dificuldade, mas também representa lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Ora, uma vez que o deserto também é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada, mas é sempre exposto à prova. O autor das tentações é o diabo (em grego: διάβολος – diábolos), palavra grega que literalmente significa “aquele que divide” e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus; muitas vezes, é a própria estrutura das comunidades que teimam em ofuscar o Evangelho, fechando-se aos impulsos do Espírito Santo.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias” que Jesus lá passou não podem ser considerados como um dado cronológico exato. Mais uma vez, trata-se de um dado simbólico e teológico, por sinal, de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (Gn 7,4.12.17); Moisés passou quarenta dias sobre a montanha, em preparação para receber a Lei (Ex 32,28); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade e infidelidade, idolatria e prova (Ex 16,35; Dt 8,2-5; Sl 5,10); e o profeta Elias caminhou durante quarenta dias rumo ao monte Horeb (1Rs 19,8). Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer também uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração (quarenta anos). Quando se trata de dias, é o tempo necessário para assimilar um grande ensinamento. Quer dizer um tempo completo, mas não fechado em si mesmo; é sempre preparação para um acontecimento maior. Inclusive, foi a partir dessa simbologia que a Igreja determinou um período de quarenta dias como o tempo necessário de preparação para a Páscoa. A permanência de Jesus por quarenta dias no deserto, portanto, significa que toda a sua vida foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar todos os cristãos a uma vida vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder.

A primeira tentação diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas e consigo mesmo; a lógica do império incentivava o consumo e a satisfação imediatista dos desejos, o que Jesus rejeita com bastante veemência e segurança. Eis o que diz a primeira tentação: «Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”. Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”» (vv. 3-4). Embora faminto, Jesus percebe que não seria suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais do que pão. Por isso, com base na Escritura, ele não dispensa o pão, mas diz que o homem não pode viver “somente” dele (Dt 8,3). A vida digna e plena não depende somente do alimento material, mas de todos os valores do Reino contidos na «Palavra que sai da boca de Deus», que será explicitada no decorrer do seu ministério. O messianismo da época previa um messias milagreiro, além de guerreiro, ao que Jesus se opõe radicalmente. Ora, ele não veio ao mundo para resolver os problemas de maneira fácil e cômoda, como queriam e ainda querem muitos grupos e movimentos religiosos. Por sinal, essa é a  única vez em que o evangelista Mateus dá ao diabo o nome de “tentador” (em grego: πειράζων – peirazón), uma derivação do verbo tentar (em grego: πειράζω – peirázo), o mesmo verbo que ele aplica aos líderes religiosos, especialmente os fariseus, os que mais põem Jesus à prova durante o evangelho (Mt 16,1; 19,3; 22,18.35). Enquanto alimento, a Palavra de Deus é também força, fonte de resistência, como Jesus demonstra recorrendo a ela para desmascarar o tentador.

A segunda tentação chama a atenção para a relação com Deus, o que deve ser cuidadosamente cultivada pelo cristão. Eis o que diz o texto: «Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, mas para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”» (v. 5-7). Ora, no templo de Jerusalém, onde a religião dizia que Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo e por todos os mercados da fé; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus “filhos bons” e castigar os maus, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano. Como se vê, também o diabo recorre ao conhecimento da Escritura para camuflar sua condição de adversário e tentador, propondo uma leitura simplista, fundamentalista e individualista. Por ser a própria Palavra encarnada, Jesus conhece o real sentido da Escritura, por isso, encontra nela seu argumento de força para desmascarar o tentador, o qual continua presente e atuante também nos dias de hoje. Daí, a necessidade de uma compreensão sempre mais aprofundada e coerente das Escrituras nas comunidades cristãs, a fim de que a Palavra de Deus não seja instrumentalizada.

A terceira tentação diz respeito à relação com o próximo, sobretudo quanto à maneira de conceber e exercer o poder. Eis o que diz o texto: «Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, E lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’”» (vv. 8-10). A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante por prestígio e poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os “inimigos” de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal. Por sinal, quando supostamente exercido em nome de Deus, o poder tende a ser mais perigoso, mais opressivo, intolerante e intransigente, por isso, mais diabólico. O diabo apresenta a Jesus todos os reinos do mundo; isso significa que há muitos, enquanto Jesus falará de um único Reino, o Reino dos Céus, como sinal de unidade e fraternidade. A multiplicidade de reinos do mundo significa a falta de concórdia e harmonia, decorrente das formas tirânicas e ilegítimas do exercício do poder. Todos eles são expressões do anti-Reino.

Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade e fruto de suas convicções de Filho Amado do Pai. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através dos seus seguidores e seguidoras, ao testemunharem sua Palavra, em todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada por esse amor. É claro que o evangelista não descreve o diabo como dono do mundo; mas está denunciando que o poder exercido até então, em todos os reinos do mundo, marcado pela exploração, injustiça e opressão, segue a lógica diabólica, à qual o Evangelho se contrapõe com o Reino dos Céus anunciado por Jesus, marcado pelo amor, pelo serviço, pela justiça e pela fraternidade. 

Na conclusão, o evangelista apresenta a seguinte declaração: «Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus» (v. 11). O diabo se afastou porque não encontrou em Jesus um aliado. Devido à sua comunhão de amor com o Pai, Jesus sabia discernir e fazer opção pelo lado do amor e da justiça, inclusive, foi para isso que o Pai lhe enviou ao mundo. Ao falar do serviço dos anjos a Jesus, o evangelista emprega um verbo que significa especificamente o serviço de mesa, ou seja, o serviço do pão. É esse o sentido do verbo grego “diakonêo” (διακονέω), do qual deriva o termo diácono (em grego: διάκονος – diáconos). Ao invés de comer um pão fruto de uma espetacular demonstração de poder, Jesus recebe o pão como dom gratuito; e aquilo que é dom deve ser partilhado, como ele mesmo fará, seja partilhando o pão com as multidões famintas (Mt 15,32-39), seja doando a sua própria vida como alimento (Mt 26,26-30).

Concluindo, podemos dizer que as três tentações ou provas relatadas no evangelho de hoje são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com o próximo e com Deus. São como uma parábola da vida de Jesus. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas as formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo e os maiores conhecedores da Palavra de Deus na sua época, os fariseus e mestres da Lei. 

A resistência de Jesus, recorrendo sempre à Palavra de Deus, é uma indicação para as comunidades cristãs de todos os tempos: a perseverança e a fidelidade ao projeto de Jesus dependem essencialmente da atenção à Palavra. Ao mesmo tempo, há uma clara denúncia ao perigo do uso fundamentalista das Escrituras e tradições religiosas, pois também os argumentos do diabo são fundamentados na Palavra de Deus. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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