sexta-feira, março 20, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 11,1-45 (ANO A)



Com a liturgia deste quinto domingo da Quaresma, conclui-se a sequência de três domingos de leitura de textos exclusivos do Quarto Evangelho. A passagem proposta para este dia compreende o relato da ressurreição (animação) de Lázaro – Jo 11,1-45. Esse episódio corresponde ao sétimo dos sinais cumpridos por Jesus no Evangelho de João. Trata-se de um episódio altamente significativo para o conjunto de toda a obra joanina, pois marca a conclusão do ciclo dos sinais de Jesus, cujo desfecho é a manifestação da vida em abundância. É importante recordar que João não chama as obras extraordinárias de Jesus de milagres, mas de sinais. Os sete sinais narrados por João foram criteriosamente escolhidos, como ele mesmo afirma no final do Evangelho, para despertar a fé em Jesus e transmitir a vida em plenitude que dessa emana (Jo 20,30-31), sendo esse da ressurreição de Lázaro o maior de todos. Por isso, é o sétimo, cujo número evoca perfeição, e prefigura a ressurreição do próprio Jesus, o sinal por excelência. Como se trata de um texto de grande extensão, totalizando quarenta e cinco versículos, não analisaremos todos os versículos, mas procuramos colher a mensagem central e destacar apenas os versículos principais.

Logo de início, é importante recordar que o sinal realizado por Jesus neste episódio de Lázaro não é propriamente uma ressurreição, mas uma “reanimação” do corpo, considerando que ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, como consequência da ressurreição de Cristo. Portanto, o que João narra aqui é Jesus realizando a reanimação de um corpo que já se encontrava em estado de decomposição, foi recuperado, mas que continuou corruptível. A vida de Lázaro que Jesus recuperou continuou sendo uma vida limitada, sujeita à morte, mas ressignificada, obviamente. Na verdade, Jesus apenas prolongou os dias de Lázaro com esse grande sinal. É fato, conforme o relato, que Lázaro voltou à vida, graças à intervenção de Jesus, mas morreu de novo. Por sinal, convém recordar que esse não é o único milagre do gênero narrado na Bíblia, pois, ainda no Antigo Testamento, Elias e Eliseu realizaram prodígios semelhantes: Elias restituíra a vida ao filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,17-24), e Eliseu fizera o mesmo com o filho da sunamita (2Rs 4,8-37). Nos demais evangelhos, temos outros dois episódios semelhantes: Jesus reanima o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e a filha de Jairo (Mc 5,22-43).

Ainda a nível de contextualização, é importante recordar o lugar que este episódio ocupa no conjunto do Quarto Evangelho. Conforme já afirmado anteriormente, trata-se do ápice dos sinais realizados por Jesus, inclusive, o fato de ser o sétimo sinal já indicava a sua importância. Desde o primeiro sinal – mudança da água em vinho (Jo 2,1-11) – até o sexto – a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41) – Jesus revelou sua condição de Messias e Filho de Deus com poder sobre a natureza e sobre certas dimensões da vida humana. Com o sétimo sinal, portanto, ele se revela como o Senhor da vida toda, aquele que tem poder sobre a morte, como consequência. Além de ser o ponto alto do “livro dos sinais”, como convencionalmente é chamada a primeira parte do Evangelho de João (Jo 1–12), merece atenção a localização interna deste episódio da reanimação de Lázaro: está inserido entre duas ameaças de morte a Jesus da parte dos dirigentes ou chefes da religião oficial. Isso confirma uma certeza muito relevante para toda a mensagem cristã: Jesus responde à morte com o dom da vida. Ora, no capítulo anterior, por ocasião da festa da dedicação do templo, os judeus quiseram apedrejar Jesus, acusando-o de blasfemador (Jo 10,31-33), mas ele conseguiu escapar e fugiu (10,39-40). Após restituir a vida de Lázaro, os chefes judeus, incluindo o Sumo Sacerdote, fizeram o plano definitivo para o aniquilamento de Jesus, pois ele tinha ido longe demais dessa vez, revelando-se e demonstrando ser mesmo o Senhor da vida (Jo 11,46-54). Portanto, em meio a duas situações de morte, Jesus manifesta a vida e a apresenta como resposta a toda e qualquer situação em que essa é ameaçada.

Olhemos então para o texto, partindo do primeiro versículo: «Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta» (v. 1). O evangelista apresenta Betânia, cujo nome significa “casa do pobre” ou “casa do aflito”, como o espaço de uma comunidade cristã ideal, onde a fraternidade, de fato, reinava. Essa fraternidade é evidenciada pela apresentação que o evangelista faz de seus membros: Lázaro, Maria e Marta. Eles são apresentados apenas como irmãos, não há hierarquia entre eles, não há pai nem mãe, marido ou esposa, mas apenas pessoas que são irmão e irmãs, ou seja, pessoas iguais. Essa família funciona, portanto, como metáfora da comunidade cristã. Ninguém é superior a ninguém, todos são iguais, como deve ser a comunidade, o ambiente ideal para o cultivo do amor e das relações fraternas e sinceras. O único laço que une os membros da comunidade deve ser a fraternidade. Um dos membros da comunidade estava doente e, por causa disso, toda a comunidade estava abatida, como se vê pelo desespero das irmãs, mais adiante. Na autêntica comunidade cristã, todos se sentem responsáveis uns pelos outros; o que se passa com um dos membros importa a todos os demais; a dor de um se torna dor do outro, bem como a alegria e a felicidade. Por sinal, o desespero das irmãs diante da doença e da morte, injustificável do ponto de vista teológico, como o próprio Jesus irá corrigi-las, era bastante compreensível a nível econômico e social, pois, sendo Lázaro o único homem na família, e considerando o contexto patriarcal daquela sociedade, a sua morte era uma ameaça também à vida das duas irmãs.

Apesar de aparentemente desesperadas diante da situação, as irmãs sabiam com quem contar, e isso já é um sinal positivo. Não se tratava, portanto, de um desespero total, pois entre elas havia sinais de esperança. De fato, elas tinham confiança em Jesus, o conheciam bem e sabiam que ele poderia fazer algo por elas e, sobretudo, por Lázaro, a quem ele amava. Na verdade, Jesus amava toda a família (v. 5). Por isso, elas mandaram dizer a Jesus o que se passava na família: «Senhor, aquele que amas, está doente» (v. 3). Sentir-se amado ou amada por Jesus é condição indispensável para fazer parte da sua comunidade, do seu discipulado. A família de Betânia tinha essa consciência. E isso faz toda a diferença, pois gera confiança. As irmãs não se dirigiram a Jesus como um estranho, como faziam outras pessoas necessitadas da sua atenção, mas como alguém próximo, um amigo íntimo com quem se pode contar sempre, principalmente nos momentos mais difíceis da vida. No entanto, o desenrolar do relato mostra que as irmãs tinham muito a ser corrigido em relação à fé e à compreensão do poder de Jesus, sobretudo no que diz respeito à própria vida, com seus limites e potencialidades. Contudo, elas têm muito também a ensinar, até hoje, sobretudo, na maneira de se relacionar com Jesus, tendo-o como uma pessoa próxima, acessível, humana, enfim, como um companheiro, embora seja Senhor e Filho de Deus.

Ao recado das irmãs, Jesus reage com uma naturalidade tão grande, que beira à indiferença (vv. 4.6). Tudo o que ele deseja ensinar às irmãs de Lázaro e aos seus discípulos de todos os tempos é que a morte não tem a última palavra e, por isso, não se deve viver em função dela. Por isso, ele permaneceu mais dois dias no local onde se encontrava, após receber o recado (v. 6). Mas, finalmente, ele tomou a decisão de ir ao encontro dos amigos de Betânia, que ficava na Judeia, convocando seus discípulos a irem com ele: «Vamos de novo à Judeia» (v. 7b). Naquele momento, ele se encontrava no outro lado do rio Jordão, praticamente escondido, devido à última ameaça de morte sofrida (Jo 10,39-40). A decisão de ir de novo à Judeia, mais do que um deslocamento geográfico, significa, portanto, a decisão corajosa de enfrentar a morte, entregando a própria vida. Por isso, houve resistência nos discípulos, o que ocasionou um diálogo com eles (vv. 8-16). Nesse diálogo, os discípulos demonstraram mais incompreensão do que as próprias irmãs de Lázaro. Curiosamente, sobressai-se, entre eles, a figura de Tomé que, mesmo não compreendendo ainda o sentido da passagem da morte à vida, pelo menos demonstrou mais coragem do que os demais, ao afirmar convictamente sua disposição de estar do lado dele, mesmo que fosse para morrer: «Vamos nós também para morrermos com ele» (v. 16b). Nenhum dos discípulos aceitava a entrega da vida por amor. Tomé compreendia essa entrega como um mero ato de heroísmo, enquanto os outros nem desse modo aceitavam. Neste sentido, a morte de Lázaro é uma preparação para a morte de Jesus, assim como a sua reanimação prefigura a ressurreição do Senhor. Pode-se dizer que a reanimação de Lázaro foi uma vitória parcial sobre a morte, enquanto a ressurreição de Jesus foi a vitória definitiva.

Tendo tomado a decisão de ir ao encontro da família amiga de Betânia, somente dois dias após receber o recado, quando Jesus chegou ao destino já fazia quatro dias que Lázaro tinha sido sepultado (v. 17). Parece até que Jesus foi o último amigo a ir ao encontro da família. Inclusive, os judeus de Jerusalém tinham ido consolar as irmãs. Mas a chegada de Jesus junto às irmãs enlutadas já no quarto dia foi proposital: Ele tinha consciência do que deveria fazer e já tinha expressado isso aos discípulos mais próximos: «o nosso amigo Lázaro dorme» (v. 11). Na verdade, a chegada após quatro dias tinha como objetivo desmascarar uma falsa crença judaica de que, até três dias após a morte, ainda era possível que o defunto voltasse a viver, pois acreditava-se que o espírito do morto ainda pairava ao redor do cadáver. A partir do quarto dia, começava a decomposição e, portanto, o espírito ia embora. Realizando o sinal até o terceiro dia, a «glória do Filho de Deus» não seria manifestada, pois os presentes reconheceriam como algo natural, conforme a crença vigente. Portanto, Jesus foi ao encontro da família amiga porque amava e não abandona sua comunidade na aflição, mas foi com a intenção de catequizar, tanto às irmãs enlutadas quanto aos seus discípulos.

Ao saber da chegada de Jesus, Marta foi ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa (v. 20), duas atitudes diferentes que refletem um pouco o comportamento das personagens de mesmo nome no Evangelho de Lucas (Lc 10,38-42). Com as duas, abre-se um novo diálogo, também bastante revelador da identidade de Jesus e da sua visão sobre a morte e a vida. Em momentos diferentes, as duas irmãs começam lamentando o fato de Jesus não ter chegado antes, pois acreditavam que Lázaro não teria morrido, se ele tivesse chegado em tempo (vv. 21.32). É um lamento em forma de desabafo e de reprovação ao comportamento lento de Jesus, na perspectiva delas. Com isso, o evangelista mostra ainda mais o quanto as irmãs conheciam Jesus e realmente eram a ele. Com efeito, a amizade era tão sincera, a ponto de não terem medo de discordarem do mestre. Isso revela também o quanto Jesus era humano nas relações, conversava em pé de igualdade e não via problemas em ser questionado. Assim como fizera um pouco antes com os discípulos, Jesus aproveita o diálogo com as irmãs enlutadas para catequizá-las sobre o triunfo da vida sobre a morte e sobre toda forma de mal. Antes de tudo, Jesus lhes garante a vida: «Teu irmão ressuscitará» (v. 23). Embora seja uma garantia, não é fácil de assimilar, sobretudo, no momento de dor, como era a situação das irmãs naquelas circunstâncias. E elas tinham a fé judaica na ressurreição no final dos tempos, no último dia (v. 24), mas naquele momento pouca importância tinha, pois, a dor era mais forte; essa era uma afirmação doutrinal, defendida pelos fariseus, inclusive, mas na aflição causada pela morte, pouco peso tem a doutrina; o que importa é a vida e a presença de quem realmente pode comunicar vida, como Jesus (v. 24). E é exatamente como ressurreição e vida que Jesus se apresenta à Marta (v. 25).

Mesmo sem compreender e sem ter a dor aliviada, ainda, Marta demonstrou confiança e fé em Jesus, reconhecendo-o como o Cristo, o Filho de Deus (v. 27). Trata-se de uma das confissões de fé mais profundas do Evangelho de João e muito significativa, pois é feita antes mesmo da realização do sinal. Lázaro continua no túmulo, já cheirando mal, e Marta reconhece quem Jesus é. Diante disso, Jesus antecipa para ela a catequese do seu último discurso diante dos discípulos, na última ceia, e ela já se convence ali mesmo, antes de ver o sinal realizado. Os discípulos homens terão muito mais dificuldade de assimilação; após o longo discurso de despedida, na última ceia, eles ainda recuarão, seja negando, seja traindo. Desde a primeira que o Evangelho de João mostrou – a mãe, em Jo 2,1-12 –, as mulheres se antecipam sempre no reconhecimento da messianidade de Jesus, por isso são modelos para o discipulado. Também Maria, a outra irmã, foi ao encontro de Jesus (v. 32). Diante das duas irmãs, Jesus revela sua profunda humanidade, ficando abalado interiormente, ou seja, comovido (v. 33), e também chorando (v. 35). Essa é a única vez que um evangelista diz que Jesus literalmente chorou. Quer dizer que Jesus participa e experimenta plenamente as dores e lágrimas da humanidade sofredora. Fazendo-se humano, ele age humanamente, para revelar plenamente a glória de Deus. Porém, o choro de Jesus não é desesperado; é um choro de dor, sim, pois é consequência de um amor incondicional pela humanidade. Ele experimentou a dor da perda de uma pessoa querida, sendo ao mesmo tempo solidário com quem mais sentiria as consequências daquela perda: as irmãs Marta e Maria. O choro de Jesus aqui simboliza o choro de Deus por todo tipo de morte. O Deus da vida não evita a morte, mas chora quando a vida é destruída. Mesmo que a morte de Lázaro tenha sido “natural”, conforme a dinâmica narrativa do texto, ela serve de catequese para o evangelista mostrar o quanto a vida deve ser valorizada e vivida intensamente.

Comovido, envolvido completamente na situação, Jesus age em favor da vida do seu amigo Lázaro e de todas as pessoas. Na dor da perda causada pela morte, ele manifesta, paradoxalmente, a glória de Deus, e ordena que Lázaro saia: «Lázaro, vem para fora!» (v. 43). Mas, antes de ordenar que Lázaro saísse, ele ordenara aos presentes que retirassem a pedra que fechava o sepulcro. Quem tem o poder sobre a vida é Deus, e a vida de Jesus foi a maior demonstração disso. Mas ele quer que nos interessemos pela vida dos outros, tirando as pedras que sufocam, fecham, bloqueiam o florescimento da vida. É Deus quem dá a vida, mas precisamos remover os obstáculos que impedem a vida de florescer. E o último imperativo é ainda mais decisivo: «Desatai-o e deixai-o caminhar!» (v. 44c). Ora, Lázaro tinha saído vivo do sepulcro, mas ainda com sinais de morte que o impediam de caminhar, como as faixas que enrolavam seu corpo. A vida com sentido passa pela liberdade, por isso, as últimas palavras de Jesus no texto visam a libertação e o mover-se. Desatar significa tirar os sinais de morte, deixar caminhar significa a liberdade e o ser sujeito da própria história, com dignidade, plenamente humanizado.

O texto em seu conjunto é uma catequese sobre a vida e a ressurreição, que visava a preparação de catecúmenos para o batismo na vigília pascal. Entre a vida e a ressurreição, obviamente, aparece a morte, como parêntese. É uma realidade que precisa ser ressignificada à luz da vitória definitiva de Jesus sobre ela, com a ressurreição. A reanimação de Lázaro, portanto, enquanto sinal, não é uma demonstração espetacular do poder de Jesus, mas uma catequese sobre a vida. Por isso, é um convite a retirar as pedras que ofuscam o florescimento da vida e a desatar as amarras que impedem o ser humano de viver com liberdade e dignidade. É uma demonstração clara de que a glória de Deus é que o ser humano viva e viva abundantemente.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

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