A
liturgia do Domingo da Páscoa mantém o mesmo evangelho para todos os anos, ao
contrário da liturgia da Vigília Pascal, na qual alternam-se os textos,
conforme o ciclo litúrgico vigente. O texto fixo é Jo 20,1-9, embora também se
possa ler Lc 24,13-35 como alternativa, na missa vespertina. Trataremos aqui apenas
da passagem de João, o texto oficial. E começamos por recordar que, em vez de
ser um relato da ressurreição, como normalmente vem chamado, esse texto
constitui, na verdade, um relato do «sepulcro encontrado vazio»,
pois a ressurreição em si não chega a ser narrada por nenhum evangelista, como
já afirmamos em outras ocasiões, uma vez que se trata de um acontecimento
indescritível, ao contrário da paixão e da morte de Jesus, as quais são
descritas minuciosamente pelos evangelhos. Esse fato pode parecer estranho,
considerando que é a ressurreição o evento fundante do cristianismo e, por
isso, o centro da fé cristã, e foi exatamente em função dessa que os evangelhos
foram escritos. Mesmo assim, os evangelistas não conseguiram descrevê-la. O
texto proposto hoje – Jo 20,1-9 – é apenas a introdução daquilo que o Quarto
Evangelho dedica à ressurreição, sem, no entanto, descrevê-la: a descoberta do
sepulcro vazio, o que pode significar muita coisa ou quase nada, a depender de
quem faz a constatação. Três personagens entram em cena nesse texto: Maria
Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado. O número três já é, por si, um
grande e rico sinal; trata-se de um indicativo teológico: significa uma
comunidade que, embora se encontre profundamente abalada, devido ao final
trágico de seu líder, aos poucos vai sendo recomposta, à medida que a esperança
vai sendo recuperada.
O primeiro versículo apresenta o retrato da comunidade
antes de vivenciar a experiência da ressurreição: «No primeiro dia da
semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda
estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo» (v.
1). O “primeiro dia da semana” é o dia seguinte ao sábado, último dia da antiga
criação. Com essa expressão, o evangelista indica que há uma nova criação em
curso; um novo tempo e um novo mundo estão sendo gestados, mas ainda está na
etapa primordial, o caos, simbolizado pela expressão «quando ainda
estava escuro»; o escuro, como sinônimo de caos, fora constatado também na
primeira criação (Gn 1,1-2). Na verdade, o indicativo temporal «bem de
madrugada» e seu complemento enfático «quando ainda estava
escuro» não é apenas uma indicação temporal; significa o estado da
comunidade naquelas circunstâncias. A ausência de Jesus e a procura pelo seu
corpo na morada dos mortos – o túmulo – reflete uma realidade de trevas na
comunidade. Essa situação de trevas não se deve à ausência da luz física, mas
significa que a vida não está triunfando na comunidade, ou seja, a morte está
prevalecendo. Trevas é ausência de vida e de esperança, sobretudo na teologia
de João. E a primeira atitude de inconformismo diante das trevas é de Maria
Madalena. Sua atitude vai despertar toda a comunidade a buscar uma saída para a
superação das trevas.
Sem a experiência do Ressuscitado, a situação da
comunidade é caótica, pois esta fica sem rumo, sem saber o que fazer, como
vemos na postura de Maria Madalena: «Então, ela saiu correndo e foi
encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes
disse: ‘Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram’» (v.
2). A pressa e as palavras de Maria Madalena indicam uma situação de quase
desespero. Embora o texto de João registre apenas a ida de Maria Madalena ao
sepulcro, é mais provável que tenha sido um grupo de mulheres que tenha ido
ao sepulcro, como consta nos evangelhos sinóticos (Mt
28,1; Mc 16,1; Lc 24,1); João cita somente a Madalena para recordar o
protagonismo dela na comunidade primitiva e para delimitar o número três com os
dois discípulos mencionados (Pedro e o Discípulo Amado), dando uma ênfase
teológica maior ao fato, indicando uma comunidade, pois o número três significa
completude.
Ir ao túmulo é a atitude de quem acredita que a morte
triunfou, pois o túmulo é a morada dos mortos, é um depósito de cadáveres, mas
é também uma manifestação de amor por aquele que julgava estar morto. A
surpresa e o espanto de Maria Madalena são causados exatamente pela ausência do
cadáver no túmulo. A cultura da morte e o desânimo estavam tão presentes na
mente dos discípulos que nem mesmo a pedra removida do túmulo foi suficiente
para animá-los. De fato, a remoção da pedra e a ausência do corpo de Jesus
causaram, inicialmente, preocupação e espanto, ao invés de alegria e esperança.
Na fala de Maria Madalena vem expressa a falência da comunidade: mesmo
reconhecendo Jesus como “Senhor”, ela sente a falta de um cadáver; quer saber
onde está o corpo morto para reverenciá-lo, provavelmente com os perfumes, e
chorar junto dele. É a situação de quem ainda estava agindo na escuridão, sem
reconhecer o novo dia que estava para nascer.
Com o aviso de Maria Madalena, também Pedro e o Discípulo
Amado tomam a iniciativa de ir ao túmulo para conferir a veracidade da
informação, uma vez que a palavra da mulher não era digna de credibilidade
naquela sociedade: «Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao
túmulo» (v. 3). Continuando, diz o texto que «Os dois corriam
juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro
ao túmulo» (v. 4). A pressa do Discípulo Amado revela sua fidelidade,
testada e comprovada aos pés da cruz (19,25-27), característica da pessoa
amada. Somente quem fez uma autêntica e profunda experiência de amor com o
Senhor é capaz de opor-se ao clima de morte reinante na comunidade, por isso,
esse discípulo é anônimo; o evangelista não lhe dá um nome, mas apenas um
adjetivo: amado.
Os personagens anônimos no Evangelho segundo João têm a
função de paradigmas para a sua comunidade e os seus leitores de todos os
tempos; assim, todo aquele que ler esse evangelho deve tornar-se um “discípulo
amado” também. Ele, o Discípulo Amado chegou primeiro e comprovou que a
informação da Madalena era verídica: «viu as faixas de linho no chão,
mas não entrou» (v. 5). À pressa do Discípulo Amado opõe-se a lentidão
e o desânimo de Pedro, após ter sido tão incoerente com o Mestre na fase final
de sua vida: opôs-se a ele na ceia, no momento do lava-pés (Jo 13,6-8), e o
negara durante o processo (Jo 18,15-27). A falta de motivação de Pedro foi,
certamente, marcada pelo remorso da negação e outras incoerências, o que será
transformado quando experimentar o Ressuscitado em sua vida.
O Discípulo Amado, embora tenha chegado primeiro, espera
que Pedro também chegue e faça ele mesmo a sua experiência: «Chegou
também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas
de linho no chão» (v. 6). Tendo entrado no túmulo, Pedro
comprova a ausência do corpo de Jesus e, certamente, faz uma longa reflexão a
respeito de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Embora a tradução
litúrgica diga que ele “viu” as faixas de linho, o evangelista emprega um verbo
de significado muito mais profundo do que um simples ver, o que seria mais
adequado traduzir por “contemplar”. Com efeito, trata-se do verbo grego “theorêo” – θεωρέω –, do que deriva nossa palavra teoria, que é consequência
de uma observação profunda, ou seja, de um olhar contemplativo, ruminante, processado
na mente e no coração, antes de tornar-se uma ideia nova. Certamente, ao
“teorizar” os sinais vistos no túmulo, Pedro fez memória do longo caminho até
ali percorrido ao lado de Jesus, e tudo isso deve ter contribuído para o
amadurecimento da sua futura fé ressignificada e fortalecida, sempre com a
indispensável mediação da Escritura.
Depois de Pedro, entra também o Discípulo Amado no
túmulo. Tendo chegado primeiro, poderia ter entrado logo, mas preferiu esperar
que Pedro chegasse e entrasse logo. Não se trata de uma preeminência de Pedro,
como sugerem algumas interpretações, uma vez que na comunidade joanina ainda não
havia espaço para hierarquia, como Jesus mesmo deixou claro no lava-pés; era na
verdade uma questão de necessidade: quem, de fato, necessitava de uma
experiência mais forte era Pedro, pois, depois de Judas, foi o discípulo que
mais tinha fracassado até então, impondo sempre resistências aos propósitos de
Jesus, além da negação durante o processo. Já o Discípulo Amado, por sua vez,
tinha feito uma experiência autêntica com o Senhor durante toda a sua vida, por
isso, «viu e acreditou» (v. 8), de imediato. Tendo se
inclinado sobre o peito de Jesus durante a ceia, ele conhecia o bater do seu
coração, por isso, não se deixou vencer pelos sinais de morte vistos dentro do
túmulo, mas reforçou ali a sua fé. Com efeito, mais do que a crença em um
evento extraordinário, a fé na ressurreição é consequência de uma relação de
amor com o Ressuscitado, e o Discípulo Amado soube nutrir isso, amando e
deixando-se amar.
Para Pedro, foi necessário um pouco mais de tempo, pelo
menos algumas horas, para convencer-se de que o Senhor ressuscitou e vive (Jo
20,19ss). Mas, os sinais estão apontando para isso: interiormente, ele já
estava “teorizando” sua fé, reconstruindo-a lentamente, uma vez que os
acontecimentos do lava-pés ao julgamento de Jesus foram muito fortes e deixaram
suas expectativas bastante comprometidas. Será o próprio Senhor Ressuscitado a
ajudá-lo no processo de reconstrução da fé, posteriormente, com a tríplice
pergunta: «Pedro, tu me amas?» (Jo 21,15-19). Sem amor, não há
discipulado e, muito menos, experiência pascal. As percepções diferentes do
sepulcro vazio por Maria, Pedro e o Discípulo Amado são sinais da diversidade
que marca a comunidade cristã desde os seus primórdios. Os três viram o mesmo
fenômeno, mas cada um reagiu à sua maneira: Maria com espanto e choro (Jo
20,11), Pedro com silêncio, e o Discípulo Amado com fé. Embora a dimensão
comunitária da fé seja indispensável, as experiências de percepção e de reação
diante do mistério são sempre pessoais e devem ser respeitadas.
É o conhecimento da Escritura que, gradativamente, vai
habilitando a comunidade a crer na ressurreição (v. 9), pois é na Escritura que
os planos de Deus são indicados e conhecidos. A fé de Pedro, de Maria Madalena
e dos demais será reformulada aos poucos, a cada “primeiro dia” quando se
reunirem para a comunhão fraterna, compreendendo a partilha do pão e a leitura
da Escritura. A comunidade que não coloca a Escritura no centro da sua
existência, tende a reproduzir a situação inicial desanimadora de Maria
Madalena, pois sem a Escritura «não sabemos onde está o Senhor» (v.
2). A propósito de Maria Madalena, é necessário considerar o fato de todos os
evangelistas mencionarem as mulheres como as primeiras personagens dos
acontecimentos do “primeiro dia”; mesmo não acreditando em primeira hora, é a
partir da visão e das palavras delas que a ressurreição vai se tornando
realidade na vida da comunidade. Ora, se os evangelistas, e João em particular,
pretendem apresentar uma nova criação, a gestação de um novo mundo e um novo
tempo, é imprescindível que o papel da mulher seja evidenciado. Mulher é
sinônimo de vida nova, pois ela é, por excelência, geradora de vida. Mesmo
quando a vida nova não é gerada no ventre de uma mulher, como no caso
extraordinário da ressurreição, mas é da intuição e da perspicácia de uma
mulher (ou de várias, como nos evangelhos sinóticos) que brotam as razões para
a constatação dessa nova vida. Se na antiga criação a mulher não passava de uma
companheira para o homem, na nova criação ela assume um protagonismo ímpar: é a
primeira a ver e a falar.
Além da compreensão da Escritura, é necessária a
experiência do amor autêntico para a fé e o encontro com o Ressuscitado. O
Discípulo Amado já tinha completado essas duas etapas, por isso, somente ele
acreditou em primeira mão, pois foi capaz de ler os sinais do sepulcro aberto e
o corpo ausente à luz do amor e das Escrituras. Só crê num primeiro momento
quem ama e sente-se amado, como aquele Discípulo sem nome, ao qual o
evangelista quer que todos os seus leitores se assemelhem! Assim, concluímos
voltando para o nosso início: a ressurreição não pode ser descrita, pode apenas
ser experimentada. Para isso, é necessário fazer a experiência do amor profundo
e do conhecimento da Escritura.
Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de
Mossoró-RN

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