“PORQUE HÁ SÓ PÃO, NÓS TODOS SOMOS UM SÓ
CORPO” (1Cor 10,17)
(Dt
8,2-3.14b-16a; Sl 147; 1Cor 10,16-17; Jo 6,51-58)
1.
Introdução
A solenidade do
Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo começou a ser celebrada na Bélgica, com o
objetivo de reafirmar a presença real de Jesus na Eucaristia e promover a
devoção ao Santíssimo Sacramento. Foi instituída oficialmente no século XIII pelo
papa Urbano IV e se popularizou rapidamente em todo o mundo. Apesar de já ser
celebrada no tempo comum, esta festa pode ser considerada a verdadeira
conclusão do ciclo pascal e uma espécie de extensão da Quinta-Feira Santa. Por
vários séculos, foi marcada por um aspecto mais devocional e apologético, tendo
a solene e triunfante procissão como seu ponto mais alto. Com o passar do
tempo, o sentido teológico foi aprimorado, sobretudo com a reforma litúrgica do
Concílio Vaticano II.
Ao celebrar
hoje esta solenidade, a Igreja reafirma e proclama solenemente a sua fé na
Eucaristia como memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo, como alimento
que sustenta e conduz para a vida eterna, e como presença permanente do Senhor junto
a seu povo. Por isso, somos convidados neste dia a refletir também sobre os
efeitos da Eucaristia celebrada em nossas comunidades e na vida de cada pessoa.
O Senhor quis permanecer presente entre nós como alimento e é, portanto,
alimentando-se dele, o único pão, que nos tornamos um único corpo.
Por isso, Moisés pede que o povo
recorde tudo o que Deus fez em seu favor (v. 2.14). E de tudo o que Deus fez
por Israel no deserto, o que o povo tinha mais vivo na memória era o dom do alimento,
o maná (v. 16). Contudo, apesar de importante no contexto do
deserto, o maná era um alimento passageiro e supria apenas uma necessidade do
povo: a fome de pão. E, como não se vive somente de pão, o verdadeiro
nutrimento de Israel no deserto não foi apenas o maná, mas a força de toda a
palavra que saía da boca de Deus (v. 3). Desse modo, o convite à recordação é acompanhado
da exortação à observação dos mandamentos, que também são expressões da palavra
que sai da boca de Deus e, portanto, fazem o homem viver.
A segunda leitura é
tirada da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, o livro do Novo Testamento que
contém o testemunho mais antigo e explícito sobre a fé da Igreja primitiva na
Eucaristia como presença do Cristo ressuscitado na comunidade e comunhão com
ele, mediante os sinais do pão e do vinho, consagrados e compartilhados
fraternalmente.
O trecho lido nesta
solenidade é muito breve, mas bastante claro, além de interpelante. Ora, quando
Paulo escreveu essa Carta, a unidade da comunidade de Corinto estava seriamente
ameaçada, por causa de divisões e rivalidades. Diante disso, o apóstolo recorda
o sentido da Eucaristia como fonte de comunhão com Cristo e dos cristãos entre
si. As referências ao “cálice da bênção” e ao “pão que partimos” (v. 16)
evocam, obviamente, a última ceia de Jesus com seus discípulos, às vésperas da
sua paixão, e demonstram que a celebração fraterna como memória daquela ceia já
era uma tradição consolidada na comunidade de Corinto (cf. 1Cor 11,23-26).
O chamado à unidade
parte da certeza de que há um só pão, que é Jesus Cristo (v. 17). Quem se
alimenta deste pão, forma um único corpo, entrando em comunhão profunda com o
Senhor e com os demais que participam do mesmo banquete. A comunhão com o corpo
de Cristo, portanto, gera uma união profunda, não apenas com Jesus, mas também
dos cristãos entre si. Daí, podemos dizer que Eucaristia e amor ao próximo são
inseparáveis.
O evangelho
de hoje corresponde à conclusão do chamado “Discurso sobre o pão da vida”,
localizado no sexto capítulo do Evangelho de João (Jo 6,22-58). Esse discurso,
que constitui a mais rica catequese eucarística do Novo Testamento, está
ambientado na sinagoga de Cafarnaum e funciona como uma explicação teológica do
milagre da multiplicação dos pães. Trata-se de um dos textos mais profundos de
todo o Evangelho de João, inspirado em dois importantes acontecimentos do
Antigo Testamento: a multiplicação dos pães, pelo profeta Eliseu (2Rs 4,42-44),
e o episódio do maná no deserto (Nm 11,13.22).
A multiplicação
dos pães tinha deixado a multidão beneficiada bastante entusiasmada com Jesus. Inclusive,
por causa do milagre, tinham reconhecido Jesus como “o Profeta que vem ao
mundo” (v. 6,14). No entanto, percebendo que não estava sendo bem compreendido,
Jesus procurou explicar a sua verdadeira identidade e missão. Por isso, o ponto
alto do discurso explicativo é a autoafirmação de Jesus como “o pão vivo
descido do céu” (v. 51).
Contudo, de
acordo com o contexto do evangelho, ainda não se trata de uma referência ao pão
eucarístico repartido na comunidade. Essa declaração indica, antes de tudo, que
Jesus é o Verbo encarnado e o único que revela o Pai com perfeição. Logo, para alcançar
a vida eterna é indispensável fazer experiência com ele, comendo a sua carne, o
que significa assimilar a sua própria vida e acolher o dom do Espírito que ele
comunica junto com o Pai. Para os judeus que o tinham escutado, a afirmação de
Jesus como pão descido do céu pareceu embaraçante e até escandalosa (v. 52). Afinal,
de alimento descido do céu, eles só tinham como referência o antigo maná comido
pelos antepassados no deserto, e sabiam que era um alimento perecível (v. 58),
ou seja, seus efeitos eram passageiros: saciava por um certo tempo, mas eles
sentiam fome de novo.
Ao falar de
um alimento que sacia para sempre, Jesus desperta curiosidade e embaraço, ao
mesmo tempo, pois ele mesmo se apresenta como esse alimento, oferecendo sua
carne, que significa o dom da sua vida. Trata-se de um ensinamento totalmente
novo, inesperado pelo seu auditório. A declaração solene “em verdade, em
verdade” (v. 53), indica a importância do que está sendo afirmado. A referência
paralela à carne e ao sangue significa a condição humana em sua totalidade. É impressionante o salto de qualidade: de doador de um alimento perecível
(Jo 6,1-13), em pouco tempo ele se apresenta como o próprio alimento para a
vida eterna, doando-se completamente. E só participa da vida eterna quem o
recebe como alimento.
Pela
participação na vida de Jesus em sua totalidade, o ser humano recebe o dom da
ressurreição (v. 54), pois é a assimilação da sua vida que gera uma comunhão
indestrutível com ele. A Eucaristia, enquanto sacramento, é a expressão
concreta desta comunhão. Através dela, temos a oportunidade de viver com Jesus
uma relação semelhante à dele com o Pai (v. 57), o que deve gerar também a
construção de relações saudáveis e fraternas na comunidade.
3.
Atualização
Um dos principais ensinamentos da liturgia da palavra de
hoje é a certeza de que Deus alimenta e nutre as suas criaturas. A primeira
leitura recorda que, no deserto, Deus alimentou o seu povo com a força da sua
palavra e com o maná, considerado uma prefiguração da Eucaristia desde as
primeiras gerações cristãs. No evangelho, Jesus mesmo, na totalidade da sua
pessoa, se auto apresenta como o alimento doado por Deus para a vida do mundo. Na
segunda leitura, o apóstolo Paulo ensina que o pão repartido na comunidade é
alimento e vínculo de união com Jesus Cristo e dos cristãos entre si. Diante
disso, devemos refletir sobre a eficácia da Eucaristia enquanto alimento em
nossas vidas. Jesus se fez alimento entregando sua vida por amor ao Pai e à
humanidade.
Tanto a Palavra de Deus quanto a vida cotidiana atestam
que o alimento é uma categoria essencial à vida. Assim, devemos sentir fome de
Deus para o buscarmos como alimento que sacia e fortalece. Mas não podemos
esquecer a fome de pão que continua matando milhões de pessoas no mundo e em
nosso país. E, como cristãos, não podemos aceitar essa realidade. Devemos então
contribuir, cada um à sua maneira, para que todas as pessoas sejam alimentadas
de pão material e de tudo o que sai da boca de Deus, cujo ápice é a Eucaristia,
corpo doado de Jesus, a Palavra que se fez carne.
4.
Conclusão
Além de saciar nossa fome e sede de Deus, a Eucaristia
acende em nós o desejo de vida eterna; quando dela participamos, livres e
conscientes, compreendemos melhor o sentido da vida, a ponto querermos torná-la
eterna. E é somente a comunhão com a pessoa de Jesus Cristo que pode eternizar
nossa vida. Sendo a Eucaristia sacrifício e refeição, quando dela participamos
assimilamos o Senhor em nossa vida, entramos em comunhão profunda com ele e com
a comunidade reunida, e nos abrimos para a eternidade, antecipando nossa
participação no banquete celestial, na consumação dos tempos.
Não há sentido participar da refeição fraterna da
comunidade sem a disposição de viver como irmão ou irmã. Compreendemos o
sentido da eucaristia e fazemos verdadeira comunhão, quando assimilamos a vida
de Jesus na nossa, vivendo à sua maneira. A celebração de hoje constitui um
momento privilegiado para recordar a unidade entre as duas mesas: a da palavra
e a do pão. Jesus é a Palavra que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). E
ele fez da sua vida um dom, entregando-se totalmente por amor. Por isso, é importante
que nossa fé na Eucaristia se traduza também em gestos concretos de amor e
doação.
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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