A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo propõe a continuação da
leitura do “discurso comunitário” do Evangelho de Mateus. O trecho escolhido
para este dia é a continuação imediata daquele do domingo passado: Mt 18,21-35.
Como se sabe, o “discurso comunitário”, chamado também de “discurso eclesial”,
é o quarto dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus no Evangelho de
Mateus, ocupando praticamente todo o capítulo dezoito do respectivo Evangelho.
Esse discurso recebe tal nome porque trata das questões relativas à vida
interna da comunidade cristã, com ênfase nas relações interpessoais entre os
seus membros, que devem ser orientadas para a fraternidade. No trecho lido no
domingo passado – Mt 18,15-20 – foi evidenciado o tema da correção fraterna,
ressaltando que a comunidade e seus membros não devem medir esforços para que
nenhum irmão ou irmã se afaste da fraternidade. No texto lido hoje, predomina o
tema do perdão, com ênfase na certeza do perdão sem limites de Deus a todos os
seus filhos e filhas e a consequente responsabilidade dos membros da comunidade
de praticarem o perdão entre si de modo também ilimitado.
Como no domingo passado (vigésimo terceiro domingo), cujo texto evangélico
proposto pela liturgia foi Mt 18,15-20, já fizemos a contextualização de todo o
capítulo dezoito, hoje podemos nos isentar dessa tarefa, recordando apenas
alguns elementos essenciais. E começamos pelos destinatários primeiros do
discurso, que são os discípulos e discípulas de Jesus que, com o passar do
tempo e o crescimento da comunidade, pareciam esquecer ou relativizar a
essência da sua mensagem, que sempre teve o amor como centro. E um dos
primeiros frutos do amor é o perdão, assim como a misericórdia de Deus é a
marca principal do seu jeito de amar a humanidade. Portanto, é indispensável
que toda pessoa que sente o amor de Deus em sua vida esteja também disponível a
amar o próximo e perdoá-lo sempre. A mensagem do evangelho de hoje gira em
torno desse ensinamento. A insistência do evangelista
Mateus sobre o tema do perdão diz muito sobre a natureza da Igreja e,
sobretudo, das suas comunidades. Por sinal, ele sempre mostrou que a comunidade
de fé é composta de pessoas imperfeitas, sempre sujeitas ao erro, sobretudo nas
relações com o próximo (Mt 13,24-30.47-50). Isso justifica a necessidade de se
criar uma verdadeira cultura do perdão e da reconciliação.
Sendo os discípulos os destinatários primeiros do discurso e interlocutores
diretos de Jesus, conforme o contexto narrativo, é deles que partem as
primeiras reações ao que ele estava ensinando. E ele estava ensinando sobre o
esforço da comunidade para que nenhum irmão se perca, recomendando que sejam
tomadas diversas iniciativas para que haja reconciliação, mediante a correção
fraterna. Diante disso, diz o evangelista que «Pedro aproximou-se de
Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar
contra mim? Até sete vezes?”» (v. 21). Como vemos, é Pedro o primeiro
a se manifestar, não necessariamente por exercer uma atividade de proeminência
sobre os demais, mas por refletir a voz de todo o grupo e ser ele o que melhor
sintetiza as características do grupo, incluindo a fé e o esforço de dar o
melhor de si, bem como as contradições e incoerências. Para os evangelistas, e
principalmente para Mateus, Pedro é a cara dos doze: professa solenemente a fé
em Jesus como o Cristo e Filho de Deus (Mt 16,16), mas também o nega no momento
mais difícil (Mt 26,69-75), ora fala conforme a vontade do Pai, ora conforme
satanás (Mt 16,17.23). Portanto, a figura de Pedro funciona como uma síntese do
grupo dos doze, sobretudo em Mateus. Por isso, ele é o porta-voz principal de
todos os discípulos.
Jesus tinha apresentado a necessidade da reconciliação como uma busca
irrenunciável para a comunidade (18,15-20). Como não há reconciliação sem
perdão, ele vai apresentar a necessidade do perdão permanente e contínuo na
vida da comunidade. Aqui, Pedro encontra a oportunidade de interagir, por meio
de uma pergunta. Nessa pergunta de Pedro há, mais do que uma dúvida, uma
convicção: se deve perdoar, mas com prudência e limite. A convicção mostra que
ele tinha assimilado as tradições de Israel e a convivência humanizante com
Jesus já lhe tinha ampliado o horizonte. O limite, contudo, é praticamente
determinar a quantidade do perdão a sete vezes, afinal. Ora, como se sabe, o
número sete evoca perfeição e completude para a mentalidade bíblica. Com
efeito, o perdão sempre fez parte das tradições de Israel, porém, com certas
restrições. Na época de Jesus, por exemplo, sobretudo nas escolas rabínicas,
predominava um costume de aconselhar o perdão até três vezes para uma mesma
pessoa. A pergunta propositiva de Pedro, com a possibilidade de conceder o
perdão até sete vezes à mesma pessoa compreendia mais do que o dobro do que os
costumes da época. Sem dúvida, percebe-se um significativo avanço na
mentalidade de Pedro e dos discípulos que ele representa. É um saldo
qualitativo e quantitativo admirável. Aos poucos, a lógica calculista da antiga
religião estava sendo superada entre os discípulos. O que continuava negativo
na mentalidade deles era a insistência em querer medir quantitativamente aquilo
que deve ser ilimitado.
Provavelmente, ao propor um número superior ao dobro do que era ensinado
pelos mestres da época, Pedro imaginava receber um elogio de Jesus, pois tinha
demonstrado uma «justiça superior à dos escribas e fariseus» (Mt
5,20), como Jesus tinha exigido ainda no seu primeiro discurso, aquele chamado
de “discurso da montanha” (Mt 5–7). No entanto, Jesus vai muito além, com a sua
resposta: «Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (v.
22). Sem dúvida, Pedro e os demais discípulos ficaram desconcertados com essa
resposta. A pergunta de Pedro já refletia uma abertura na comunidade para ir
além dos costumes da época, mas com certos limites. A resposta de Jesus ensina
a romper com todos os limites. Não se trata de um convite ou ordem para os
discípulos fazerem uma multiplicação e chegarem a uma cifra elevada, porém,
contável (70x7 =490), mas simplesmente de um sinal de que não há espaço para
números no que diz respeito às relações com o próximo na comunidade cristã, até
porque as relações com o próximo e com Deus são inseparáveis. Essa expressão
numérica não indica uma quantidade, mas a qualidade: o perdão é ilimitado e
incontável; deve ser concedido conforme a necessidade, e não conforme cálculos.
Para deixar ainda mais clara a necessidade do perdão entre os irmãos, Jesus
apresenta uma parábola, que funciona como explicação do seu ensinamento. Trata-se
de uma parábola exclusiva do Evangelho de Mateus, conhecida como “parábola do
servo cruel” ou “impiedoso”. Vale a pena recordar que, nesse mesmo discurso,
Jesus já tinha contado uma primeira parábola, aquela da ovelha perdida
(18,10-14), ao enfatizar que as relações na comunidade devem refletir o amor e
a misericórdia do Pai para que nenhum pequenino se perca do rebanho, ou seja,
para que ninguém se separe da comunhão fraterna. Agora, com essa segunda
parábola, ele reforça esse ensinamento: «O Reino dos Céus é como um rei
que resolveu acertar as contas com seus empregados» (v. 23). Antes de
tudo, convém recordar que uma parábola é apenas uma comparação, e não uma
descrição. É importante fazer esse esclarecimento para não distorcermos a
imagem do Pai misericordioso ou pastor cuidadoso, convertendo-a em um soberano despótico
ou juiz vingativo. Por isso, o primeiro objetivo dessa parábola é mostrar a
abundância do perdão ilimitado de Deus e alertar para a dificuldade que a
comunidade tem de praticar o perdão. O segundo objetivo é levar a comunidade a
superar essa dificuldade, denunciando a frequente incoerência em invocavale o
perdão do Pai quando não há disposição de perdoar ao próximo também de modo
ilimitado.
De modo simplificado, podemos compreender a parábola da seguinte maneira:
tudo o que se recebe de Deus é dom, e tudo o que é dom deve ser partilhado. O
primeiro empregado ou servo devia uma quantidade incalculável (v. 24), ou seja,
possuía uma dívida milionária, a ponto de ser impossível quitá-la. Dez mil
talentos representa uma quantia muito grande. O talento era uma unidade de peso
para metais preciosos, como o ouro e a prata. Um talento equivalia a cerca de trinta
e cinco quilos, de modo que a quantia de dez mil talentos corresponderia a aproximadamente
trezentos e cinquenta mil quilos de ouro e prata. Trata-se, portanto, de uma
dívida quase incalculável e impossível de ser paga. Por isso, o rei-patrão
manda vender o empregado devedor como escravo, juntamente com toda a família
(v. 25). Certamente, esse não era apenas um empregado, mas alguém que
participava diretamente da administração, o qual deve ter desviado ilicitamente
muito dinheiro para ficar tão endividado para com o rei, após ser descoberto.
Sabendo da impossibilidade de pagar, não lhe resta outra coisa senão suplicar o
perdão da dívida, como o fez, pedindo um prazo como pretexto (v. 26). O patrão
teve compaixão e perdoou a dívida (v. 27), representando o agir de Deus diante
da incapacidade humana de corresponder aos seus propósitos. Com isso, Jesus
ilustra que a misericórdia de Deus supera qualquer expectativa humana.
A continuação da parábola mostra que o empregado, perdoado de maneira
absoluta e ilimitada, se mostra incapaz de partilhar o perdão recebido (vv.
28-32); e isso é intolerável para aquele que lhe havia perdoado (vv. 33-34). O
centro da parábola está exatamente aqui: advertir e prevenir a comunidade,
principalmente as lideranças, da hipocrisia, covardia e mesquinhez de não
partilhar o perdão, de não ser instrumento e sinal de reconciliação. No final,
o empregado-servo foi condenado porque reteve o perdão somente para si, não partilhou
o perdão com o seu próximo que dele necessitava. Jesus quer evitar esse perigo
na sua comunidade. Assim, a comunidade contradiz o projeto de Jesus e do Pai
quando classifica o pecado, determinando se é “perdoável” ou não, e quando
impõe limites ao aplicar o perdão. Ora, o perdão é força humanizante e, uma vez
experimentado, deve transformar o coração e a vida de cada pessoa. A descrição
vingativa do rei-patrão, na parábola, não visa mostrar uma imagem violenta de
Deus, mas denunciar que não tem sentido invocar a misericórdia dele sem
disposição para perdoar o próximo. Visa ilustrar também que a falta de perdão
tira o sentido da vida. É claro que o perdão ao próximo não é condição para o
perdão de Deus, mas deve ser a consequência lógica.
Longe de descrever Deus como um soberano vingativo, o que Jesus quer com
essa parábola é reforçar um ensinamento necessário e urgente para o bem da
comunidade, que insistia em negligenciar. Enfim, Jesus apenas reforça o que já
tinha sido dito no seu primeiro discurso, o da montanha: «Pois, se
perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará;
mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os vossos
delitos» (Mt 6,14-15). Quando um evangelista mostra Jesus insistindo com um
mesmo ensinamento, tornando-se até repetitivo, ele revela a importância de tal
ensinamento e a dificuldade de assimilação entre os discípulos. Por isso, ele
insiste com o perdão: por mais difícil que seja praticá-lo de modo ilimitado,
ele é indispensável. Sem o perdão ilimitado e generoso não há seguimento de
Jesus, não há comunidade cristã e tampouco há relação autêntica com Deus.
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
