terça-feira, julho 19, 2011

IGREJA: SINAL DE SALVAÇÃO

Por ANTÔNIO MESQUITA GALVÃO, Doutor em Teologia Moral

A Igreja continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo  e as consolações de Deus (Santo Agostinho).
Até hoje existe muita gente que possui dúvidas a respeito do que é Igreja, como ela acontece e se organiza na história. A Igreja é aquele lugar onde o plano de Deus se realiza em sua integridade. Como instituição humano-divina, ela não é a salvação em si, mas um sinal desta. Sendo a espiritualidade uma experiência que sempre nos traz uma percepção sobre Jesus sob a ótica da fé, o elemento significativo dessa crença aponta e incorpora um entendimento específico de Deus, e de sua revelação em Jesus de Nazaré. Como sinal de salvação a Igreja é o lugar e a instância onde o cristão vive e desenvolve sua espiritualidade. É salutar que se saiba que o sinal de salvação está na Igreja-comunidade e não na igreja-templo.
O entendimento das coisas do Alto é vivido e sustentado em uma comunidade de fé que tem o nome de ecclesia (reunião de convidados, igreja). Neste tópico vamos refletir sobre a Igreja, mais como um dom de Deus do que como lugar de ritos, templo de pedra. Nessa atividade ela é a aquela instância que concorre para a salvação da humanidade. Mais adiante vamos abordar outra dimensão eclesial: a comunidade.
Há uma gnoma temática atribuída a São Cipriano († 258) que afirma que "Fora da Igreja não há Salvação. Esta frase, que para muita gente pode parecer algo meio arrogante, é uma realidade, e uma realidade profunda. Fora da Igreja não há nem pode haver Salvação porque a Igreja é o Corpo de Cristo, é Jesus continuado na história e é só por ele que podemos ser salvos. Ninguém é salvo por alguma pessoa, padre esse ou padre aquele. Estes podem, no máximo, ajudar as pessoas a chegar mais perto da Igreja, logo a chegar mais perto de Cristo. A Igreja é, portanto, a visibilidade de Cristo no mundo.
A Igreja tem, séculos afora, recebido uma série de definições, cujo valor conceitual varia de época, confissão e até de ideologia. Referimos ao templo como igreja (com i minúsculo) e à comunidade, dom de Deus como Igreja (com i maiúsculo). As definições formam um corpo doutrinário capaz de nos ajudar a entender essa realidade que é, ao mesmo tempo, graça e mistério. Assim temos:
·Povo de Deus (LG 9.17; DV 14; AG 2)
· Corpo Místico de Cristo (cf. Rm 8,17; 1Cor 12,12; Ef 4,7);
· A noiva e esposa do Cordeiro (cf. Ef 5,25; Ap 21,2; 22,17);
· O próprio Cristo continuado e presente na história.

Dentre os mistérios da Divina Providência, já ensinava Pio XII em 1943, impenetráveis à nossa inteligência, Deus quis um como que tocável pela mão: o mistério visível da Igreja imorredoura no meio do mundo. A Igreja é o grande mistério visível. Por sua natureza globalizante o mistério é particularmente objeto da experiência da fé, conforme ensina L. Boff (in: E a Igreja se fez povo. Ed. Vozes, 1991).
Freqüentemente, quando falo a auditórios cristãos, em conferências, cursos e retiros espirituais, escuto algumas perguntas, como "Quem fundou a Igreja?” ou "A Igreja existe desde quando?”. Embora a resposta pareça simples, ela traz consigo algumas implicações histórico-teológico-exegéticas que precisam ser bem esmiuçadas com vistas a uma boa compreensão dos fiéis. Por causa do mistério, a idéia de Igreja não se esgota em simples definições.
Primeiro, a Igreja tem origem nas qahal, assembléias que os hebreus realizavam no deserto, no tempo do êxodo. Tais reuniões, com o tempo passaram das tendas ao templo e daí às sinagogas. Com o advento do cristianismo, vemos Jesus Cristo idealizando o agrupamento dos seus seguidores emcomum-unidade, sempre empregando verbos no tempo futuro ("edificarei minha Igreja...”). Hoje, é voz corrente e teoria aceita que a Igreja foi fundada em Pentecostes, pelo Espírito Santo, que a rege e preside. Há também idéias mais místicas que apontam para uma fundação a partir do sangue derramado pelo coração de Jesus ou, no dizer de Santo Agostinho, "a água e o sangue fundaram e nutrem a Igreja...”.
A verdade é que a interioridade de Deus é uma "Igreja” no sentido de graça, acolhida e benevolência. Quando estamos em união espiritual com o Pai, vivemos o mistério eclesial da comunhão e da participação. É um erro a visão de certas pessoas, ou grupos, que associam a idéia de Igreja com um simples templo material. O edifício não é Igreja; Igreja são os fiéis. O prédio é templo, e templo até certo modo, pois o verdadeiro templo do Espírito de Deus é o coração dos que crêem e se abrem ao assédio da graça (cf. 1Cor 3,16; 6,9). Mais adiante, poderemos ver, para fins ilustrativos, o que não é Igreja. No Concílio Vaticano II os Bispos do mundo inteiro, sucessores legítimos dos Apóstolos, ensinaram que:
A Igreja é, unida a Cristo, como que um sacramento, isto é, um sinal e instrumento da íntima união com Deus e de todo o gênero humano (LG 1).
Isto quer dizer que a Igreja vive de/em Cristo. Na sua ressurreição, ele derramou sobre sua Igreja o seu Espírito Santo – o mesmo Espírito com o qual o Pai o ressuscitou dos mortos. Assim, a Igreja vive do Espírito de Cristo e no Espírito de Cristo... como o corpo que vive da vida da cabeça, como os ramos que vivem da seiva do tronco:
Ele é a Cabeça da Igreja, que é seu corpo (Cl 1,18).
O Pai o pôs acima de tudo, como cabeça da Igreja, que é seu corpo (Ef 1,22).
Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o agricultor. Eu sou a videira e vocês são os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto porque sem mim vocês não podem fazer nada (Jo 15,1.5).
Estes textos são importantes porque nos mostram que há uma união real, concreta, verdadeira, entre Cristo e a comunidade de seus discípulos, que é a Igreja. Não pode haver um ecclesia sensum (um sentido de Igreja) sem uma estreita ligação com as dores do mundo. Em 1981, há portanto trinta anos, o teólogo Leonardo Boff afirmou (in: Igreja, carisma e poder, Ed. Vozes) que
A Igreja em sua reflexão e prática (pelo menos na América Latina) está sendo contemporânea a estas exigências (de evangélica solidariedade). Não chega atrasada com modelos inadequados. Está conseguindo estar a altura dos desafios. A sociedade futura latino-americana terá uma presença estrutural dos elementos cristãos e evangélicos, graças à Igreja que está ajudando a gestar o futuro. Esta verdade é tão forte que analistas já ponderam: uma sociedade latino-americana que não incluir em seu processo, em grau elevado, elementos cristãos, estará se revelando antipopular. A matriz do povo é cristã; esta matriz está sendo expressa dentro de uma codificação que responde às demandas históricas. É a chance de mostrar todo o seu vigor e sua verdade. É nessa direção que caminha a esperança e se define o futuro mais promissor da Igreja da América Latina.
A mensagem libertadora de Jesus, que delineou o itinerário a ser seguido pelos apóstolos, com vistas à instauração da ekklesia tou kyriou, seria iluminada mais tarde com as luzes do Espírito Santo. Nesse particular, a festa de Pentecostes não comemora apenas a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, mas, sobretudo celebra a fundação da Igreja, a qual é presidida pela Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Desde aí, a Igreja de Cristo, apesar das divisões e vacilações, fenômenos tipicamente humanos, tem sido uma presença constante e efetiva entre povos e nações. Sua trajetória pode ser analisada dentro de coordenadas históricas e culturais, onde ela faz parte da história da civilização e desempenha importante papel em todas as épocas da caminhada da humanidade.
Quando o Império Romano desapareceu como estrutura política e cultural, a Igreja foi sua sucessora, buscando resguardar, sob a bandeira do cristianismo, a unidade do mundo ocidental da época, bem como numerosos elementos da cultura greco-romana, que assimilou e cristianizou. Se de um lado é verdade que a Igreja é uma instituição que possui uma administração regida por um conjunto de normas, e é operada pelo que se convencionou chamar de hierarquia, de outro lado é bem verdade que a Igreja é, antes de tudo, o conjunto do povo de Deus, os batizados (in: A. M. GALVÃO. Curso Básico de Teologia. Ed. Pão & Vinho, 2002).
Assim, no terreno conceitual podemos definir a Igreja, de acordo com o que preconiza o Concílio Vaticano II (LG 20) como:
Comunidade dos que crêem em Cristo, confortados pelos sacramentos e assistidos pelo Espírito Santo, que peregrinam pelo mundo, juntamente com seus pastores, continuando a obra da salvação.
A palavra igreja não tem origem religiosa desde o princípio. Ela possui sua origem no grego, onde evvkklhsi,a (ekklesía) significava uma "assembléia” ou uma "reunião de convidados”, já que o verbo ek-kalem, raiz de ekklesía, tem sentido de convidar ou chamar quem está de fora. Do grego o verbete chegou ao latim como ecclésia, já com sentido religioso de uma comunidade.
O verbete igreja aponta, portanto, para o sentido de uma convocaçãoou reunião de convidados, e designa historicamente as "assembléias do povo” (cf. At 19,39). Dando a si mesma o nome de ekklesía, a primeira comunidade dos que seguiam a Jesus se reconhece herdeira das qahaldo deserto. Nela Deus convoca, há séculos, o seu povo desde os confins da terra (CIC 751).
A missão da Igreja será completa quando a aurora do Reino plenamente realizado, surgir no horizonte: então a grande luta travada no tempo atingirá sua conclusão e a vitória de Deus, Senhor de todas as coisas, resplandecerá nos novos céus e na nova Jerusalém Celeste (In: B. FORTE. Exercícios Espirituais no Vaticano. Ed. Vozes, 2005.
É a partir da Igreja que vamos descobrir Jesus como sinal (sacramento) do Pai, e é justamente naquela que é "sinal de salvação” que estabeleceremos nossa união com Cristo. Ela é aquela assembléia visível e – ao mesmo tempo –a comunidade espiritual, instituição terrena e celeste, que mostra o caminho da salvação, ultima o resgate e proclama os direitos do homem. O papa Bento XVI, cardeal Joseph Ratzinger, um dos mais insignes teólogos do nosso tempo, nos ensina a respeito dessa união através de um texto deveras revelador:
A "mística” do Sacramento que se funda no abaixamento de Deus até nós, é de um alcance muito diverso e conduz muito mais alto do que qualquer mística elevação que o homem poderia realizar [...]. A união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou se tornarão Seus. A comunhão tira-me para fora de mim mesmo projetando-me para Ele e, deste modo, também para a união com todos os cristãos. Tornamo-nos "um só corpo”, fundidos todos numa única existência. O amor a Deus e o amor ao próximo estão agora verdadeiramente juntos: o Deus encarnado nos atrai todos a si (Bento XVI. DCE 16).
Inserida no grande projeto de salvação, a Igreja tem uma missão insubstituível e indelegável que éevangelizar e batizar (cf. Mt 28,19s; Mc 16,16). Evangelizar é anunciar a Verdade de Jesus, santificar o mundo segundo Deus, renovar a humanidade a partir de dentro, iluminar o mundo com a mensagem libertadora de Cristo, promover a dignidade, individual e social das pessoas e – por fim – colocar-se a serviço, especialmente dos mais fracos, dos que sofrem, dos excluídos e dos que clamam por justiça e paz.
Tudo na Igreja vem do amor do Deus Três Vezes Santo: o coração pulsante da Igreja é o agápe, o amor que vem do alto e tende a voltar para o alto. O agápeé a regra de vida dos discípulos de Jesus, que por força de sua revelação acreditam no amor infinito do Pai. O kathós nos faz compreender que a Igreja vive do dinamismo fundamental de deixar-se amar pelo Pai, por Cristo, no Espírito Santo, a fim de amar o Pai, por Cristo e no mesmo Espírito. Amados pelo Amado, somos amados para amar (B. Forte. Idem).
Okathós a que Bruno Forte, o pregador de retiros do Vaticano, se refere, deriva-se do verbo kathassiôo(kaqasio,w), santificar-se, purificar-se no sofrimento. No aspecto das características, podemos enxergar a Igreja divina e a Igreja humana, a qual foram atribuídas quatro notasuna,santacatólica (universal) eapostólica. Antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja era vista como uma instituição perfeita. Hoje, depois de séculos de controvérsias e questões, se diz que a Igreja é santa e pecadora, isto é tem santidade porque vem de Deus e a ele conduz, e é pecadora porque é feita de homens.
A Igreja, como povo reunido e instituição, tem vocação profética. Deve ter fé no caminho de Jesus, confiando na força de Deus e de seu Reino, para poder anunciar uma mensagem de liberdade (J. COMBLIN. O Caminho. Ensaio sobre o seguimento de Jesus. Ed. Paulinas, 2004).
Ressaltada a característica libertária da Igreja, é preciso enxergar nela aquela sociedade destinada a promover a salvação dos homens. Santo Agostinho diz que é impossível mantermos o Deus-Trindade em nosso sacrário interior, se não tivermos amor por sua Igreja.
O Espírito Santo que temos corresponde ao amor que temos pela Igreja de Cristo.
A salvação do Cristo presente na sua Igreja é um mistério que eclode no ser humano e revela sua condição de filho de Deus, iluminado pelo Espírito Santo e remido pelo sangue redentor de Cristo. Definir perfeitamente a Igreja está fora do alcance das pessoas. Ela é graça e mistério e essas duas grandezas são indecifráveis, tornando-se apenas dignas de louvor e adoração. A Igreja é mistério porque vindo de Deus e estando a serviço de seu projeto, é sinal e instrumento de salvação. É graça porque ocorre de graça, expressando a gratuidade dos dons de Deus que é rico em misericórdia.
A comparação da Igreja com o corpo de Cristo projeta um raio de luz sobre a íntima relação entre a Igreja e Cristo. Não está somente reunida em tornoa ele: está sempre unificada nele, em seu Corpo. Três aspectos da Igreja "corpo de Cristo” se deve ressaltar mais especificamente: a unidade de todos os membros entre si, por sua união com Cristo; Cristo cabeça do Corpo: a Igreja esposa de Cristo (CIC 789).
Fiel à Igreja e ciente da profundidade da sua missão, São João Crisóstomo († 407) ressalta a importância do ser humano participar dela em todas as instâncias da vida, preparando o caminho que leva ao céu.
Não te separes da Igreja! Nenhuma potência tem a força dela. Tua esperança é a Igreja. Tua salvação é a Igreja. Teu refúgio é a Igreja. Esta é maior que o céu e maior que a terra. Ela nunca envelhece: sua juventude é eterna!
Por se tratar de uma sociedade composta de homens, a Igreja – por causa de sua dimensão humana – traz consigo todos os problemas inerentes a essa condição. Por isto se diz que ela é santa e pecadora. Santa porque vem de Deus e para ele converge e encaminha; pecadora por causa de sua condição humana, frágil, vacilante, vinculada ao barro de Adão. Por conta dessa limitação, os teólogos modernos não cansam de alertar que a Igreja sempre carece de conversão (cf. LG 8: GS 21).
É esta a Igreja-comunidade que existe na vida prática, a qual por conta da sua dimensão humana, não devemos idealizar. Reunida em Puebla, no México, em 1979, a Igreja reconheceu, através de seus teólogos e bispos, essa necessidade de conversão às opções de caridade, cujas exigências dimanam na fé que se coloca a serviço:
Afirmamos a necessidade de conversão de toda a Igreja... Para viver e anunciar a exigência da pobreza cristã. a Igreja deve rever suas estruturas e a vida de seus membros [...] com vistas a uma conversão efetiva (P 1134; 1157).
Assim convertida às exigências da solidariedade e do amor ao próximo, a Igreja poderá tornar-se o grande sinal do amor de Cristo pela humanidade. Essa conversão traz consigo a exigência de um estilo de vida austero e crescente, no campo da espiritualidade, da moral e vida pastoral. Para essa mudança a Igreja sabe que pode e precisa contar com a graça de Deus. No entanto, teologia e espiritualidade que se desviam da idéia da cruz salvadora, não terão muita coisa a dizer sobre a real presença de Jesus nos sofrimentos, fracassos e pecados da humanidade.
Deste modo, é preciso distinguir aquela porção de santidade que existe na Igreja, e que justamente é o dom que Deus dá para a salvação de todos os homens e mulheres que deixam triunfar em si a fé, o amor, a esperança, o perdão e a partilha. A santidade da Igreja significa a presença de Deus em seu seio, através da ação santificadora do Espírito Santo.
O Espírito Santo não se limita a santificar e a dirigir o povo de Deus por meio dos Sacramentos e dos mistérios ordenados, e a orná-los com as virtudes, mas também nos fiéis de todas as classes, "distribui individualmente e a cada um, conforme entende, os seus dons” (1Cor 12,11) e as graças especiais que os tornam aptos e disponíveis para assumir os diversos cargos e ofícios úteis e à renovação e mais incremento da Igreja (LG 12).
No mistério amoroso presente na Igreja, nos deparamos com uma realidade na qual Deus adquiriu para si um povo que antes não tinha nenhum valor, mas que pela intervenção redentora do Filho, tornou-seraça eleitasacerdócio real e nação santa (cf. 1Pd 2,9). Por isto ela é unasanta,universal (católica) eapostólica. Sob essas características a Igreja se constitui, como instituição, a partir dos humildes, convidados pobres, que se espalharam ao redor do Mar Mediterrâneo, e que se foram nucleando pela Palestina, Ásia Menor, Grécia, Norte da África e Roma.
Mesmo assim, depois de conquistar o Império e inaugurar a era constantiniana, a Igreja nunca esqueceu suas raízes pobres. Em toda a rudez de um processo civilizatório que então se iniciava, ela se reservou (pelo menos em muitos lugares) o cuidado dos pobres, para cuja assistência revelou uma impressionante habilidade criativa (in: P. BIGO et alli. Fé cristã e Compromisso Social. Ed. Paulinas, 1981).
A partir do delineamento de sua missão, a Igreja carece um despertar, um vigor missionário, capaz de levar aos povos a boa notícia da salvação. A espiritualidade missionária não pode, em nenhuma hipótese, ser desencarnada, impessoal nem muito menos anacrônica. Estar com Jesus e com os homens é o binômio referencial de uma Igreja que se propõe a ser sinal de salvação.
A ação missionária é um ato de espiritualidade e do amor, em que o crente procura imitar o Mestre. No múnus da missão, como comunidade salvífica, a Igreja se torna peregrina no mundo, na busca de difundir o evangelho e testemunhar a verdade. Como diz Santo Agostinho
A Igreja continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (In: Civ. Dei. XVIII, PL 41,614).
Assim como a Igreja não é a salvação em si, mas um sinal e indicativo dela, igualmente ela não é o Reino, como afirmavam alguns no passado, mas igualmente um sinal deste. Em face, ressalta-se a figura da Igreja como comunidade dos filhos de Deus para, através dos séculos, realizar a dimensão terrena, aquela que prepara a instauração do Reino dos céus. Por esta razão se diz que a Igreja, mistério da graça, é já na terra o germe e o princípio do Reino. Esse germe deve nascer na história sob o influxo do Espírito Santo, até o dia em que "Deus seja tudo em todos” (cf. 1Cor 15,28). Até então, alerta o documento conciliar, "a Igreja permanece perfectível sob muitos aspectos, necessitada de permanente auto-evangelização, de maior conversão e purificação”.
Jesus não veio ao mundo apenas para nos manifestar sua divindade, ou para nos revelar os grandes problemas da existência humana. Ele veio – e os evangelhos são claros – para que tivéssemos a vida abundante (cf. Jo 10,10), para resgatar o que tinha perecido (cf. Lc 19,10). Este é o verdadeiro objetivo da encarnação do Filho de Deus: oferecer a salvação, isto é, a vida plena, aquela felicidade que o ser humano perdeu desde a expulsão do Paraíso, plenitude que anseia sem conseguir encontrá-la nas coisas do mundo.
Jesus veio para nos dar vida, não individualmente, mas em comunidade. Para tal, constituiu um povo que tem um nome especial: a Igreja, comunidade de salvação e, ao mesmo tempo depositária dos meios para consegui-la (in: D. GRASSO. O Problema de Cristo. Ed. Loyola, 1967).
A Igreja, como povo de Deus em marcha é uma realidade dotada de um dinamismo particular e de uma fé inquebrantável. Trata-se de um corpo de pessoas chamadas a uma vocação especial, geradas misteriosamente para a vida divina, incorporados a Cristo, animados pelo Espírito Santo e tornados capazes de viver uma forma de espiritualidade agradável a Deus. Esta é como uma radiografiada Igreja.
De outro lado, às vezes muitos de nós chegam a confundir a figura da Igreja como uma instituição burocrática, como são algumas "paróquias”, ignorando seu verdadeiro significado e adotando por norma aquilo que "não é Igreja”. Esta questão, de um rico espírito crítico, porém real, está muito bem enunciada em Esquema de Meditações e Rollos, do Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade do Brasil. São Paulo, 1982,

·um templo de pedra material, edifício feito por mãos de homem;
·uma simples sociedade religiosa;
·somente uma hierarquia que manda (em alguns casos tiraniza) organizada quase militarmente;
·espécie de "poder legislativo” que regulamenta a vida religiosa dos fiéis; ou – pior – um "poder executivo”;
·instituição fora de moda; anacrônica;
·sociedade de seguros eternos;
·lugar de ritos mágicos, tais como Sacramentos, Missas, bênçãos, etc.

Como um itinerário da Igreja, sinal de Salvação, há que se observar a trajetória da graça de Deus na história, onde Jesus, pelo evangelho, pelos sacramentos que ele deixou e por ele próprio (ele que é a salvação de Javé) nos lega pelo poder do Espírito Santo, a Igreja, operadora de graça, com vistas à salvação da humanidade que crê:
Criação→ Povo escolhido → Profetas → Cristo → Espírito Santo → Igreja
Qual a visão que temos da Igreja? Como mestres, o que ensinamos e que características destacamos em nossas pregações e aulas? Cremos naquilo que ensinamos? Há toda uma missão de resgatar a verdadeira doutrina sobre a Igreja, rejeitando as falsas teorias do adversários e inimigos de Cristo.
Na conclusão deste tema, é salutar que compreendamos que a Igreja é um sinal de salvação no mundo, sinal esse que ocorre pela gratuidade da graça da fé e do amor (LG 2.5.9.14; GS 32.40). A salvação, para que não nos gloriemos, não vem das obras humanas, mas do poder e da misericórdia de Deus, valores esses manifestos na Igreja de Cristo.
Ela (a Igreja) encontra força no poder do Senhor ressuscitado, para vencer na paciência e na caridade, as próprias aflições e dificuldades internas e exteriores e, para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que por fim ele se manifeste em luz total (LG 8).
A Igreja, de acordo com a doutrina paulina, é o Corpo de Cristo, também conhecido como corpo místico de Cristo,onde ele é a cabeça e nós os seus membros. Esta composição é eminentemente mergulhada em um mistério, razão pela qual é chamada de mística.
E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos (Ef 1,22s).

[Excerto da aula inaugural proferida pelo autor em abril/2009 em um Centro de Estudos Superiores de Teologia (Mestrado) em Minas Gerais].

quinta-feira, julho 07, 2011

BÊNÇÃO PELA MÍDIA

Não é incomum ver pregadores católicos, evangélicos e pentecostais abençoarem através da mídia. Nada mais natural, pois a benção não está restrita a lugar. Percebe-se, com freqüência, que alguns deles, abençoam copos de água e o bebem e sugerem a quem pôs o copo de água diante da televisão e do rádio, que também o beba. Atribuem poder de benção sobre objetos à distância. Isso também está na Bíblia. Mas, daí a concluir que a benção dada pelo pastor ou padre, pelo padre ou pastor, através da televisão é mais forte do que a benção dada pelo seu pároco é um passo ousado. Equivale a dizer que a benção de perto, dada pelo padre em carne e osso, vale menos do que a benção de longe dada pelo pregador famoso. Aí confunde-se a fama do pregador com o poder de benção que ele tem. O que não é a mesma coisa!
Se é para receber a benção de uma Igreja, qualquer pregador daquela Igreja, por ela autorizado, deve dá-la. Pode-se recebê-la pelo rádio, ou pessoalmente, lá na Igreja matriz com o pároco. Não é porque um padre famoso fez o sinal da cruz a dois mil quilômetros e a benção veio televisão que, de repente, a benção do padre a quinhentos metros daquela casa valerá menos! Mas é o que tem acontecido! Foi a história a mim contada por um pároco de cidade do interior de Minas Gerais, que ouviu da fiel, que morava a menos de um quilômetro da sua Igreja, que ela não ia perder tempo de andar um quilômetro para ir receber uma benção, se ela poderia recebê-la na casa dela, sentada, pela televisão, por um padre que tinha mais poder do que ele, porque abençoava mais gente do que ele.
O pároco se calou, diante do marido dela, estupefato ele com a dureza da esposa. Mais tarde o marido foi ao padre pedir desculpas. Ele, o esposo não pensava daquele jeito. Disse: – “Minha mulher se deixou influenciar por alguns pregadores de televisão. Porque eles estão mais lá em casa do que o senhor, concluiu que os pastores dela são aqueles que falam pela televisão. Para ele é mais fácil porque podem estar em milhões de casas ao mesmo tempo, para o senhor eu sei que é difícil, porque uma coisa é pregador de mídia e outra é pregador de paróquia. Minha mulher ainda não entendeu isso. Ela foi convencida pela mídia e pelo marketing e ainda não conseguiu estabelecer a diferença. Para ela, padre de mídia tem mais autoridade do que o bispo e o pároco. Mil perdões por minha esposa. Não há santo que a convença que pregador famoso não é o mesmo que pregador preparado”.
Embora com a língua a coçar, o pároco nunca falou do fato na paróquia. Limitou-se a me pedir que, na entrevista que eu daria na emissora de rádio, eu transmitisse essa catequese, coisa que eu fiz com muito prazer, porque acredito que padre de mídia não pode substituir padre de paróquia, de hospital e de colégio e por achar que o dízimo primeiro deve ser dado à paróquia e só depois alguma contribuição para o movimento ou para a televisão. No máximo somos humildes colaboradores. Nunca podemos usurpar. Cabe a nós que trabalhamos na mídia dizer com clareza: – “Minha benção vale menos ou tanto quanto outras bênçãos. Não atribua a mim uma santidade ou um poder que eu não tenho só porque estou na mídia. Seu padre aí pertinho da sua casa, tem muito mais direito do que eu até porque tem mais deveres junto a você.” É o que digo, falo e faço.
Sei dos limites de trabalhar na mídia, sei também do valor de um bispo e de um sacerdote que se desgastam no seu cotidiano pelo bem do povo de Deus a ele confiado. Trabalhar na mídia pode até ser mais sensacional, mas não é nem deve ser mais importante. Registre-se esta observação de quem já tem 45 anos de mídia!…

Pe. Zezinho, scj.

quinta-feira, março 03, 2011

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2011

«Sepultados com Ele no baptismo, foi também com Ele que ressuscitastes» (cf. Cl 2, 12)

Amados irmãos e irmãs!
A Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é para a Igreja um tempo litúrgico muito precioso e importante, em vista do qual me sinto feliz por dirigir uma palavra específica para que seja vivido com o devido empenho. Enquanto olha para o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do Mistério da redenção a vida nova em Cristo Senhor (cf. Prefácio I de Quaresma).
 1. Esta mesma vida já nos foi transmitida no dia do nosso Baptismo, quando, «tendo-nos tornado partícipes da morte e ressurreição de Cristo» iniciou para nós «a aventura jubilosa e exaltante do discípulo» (Homilia na Festa do Baptismo do Senhor, 10 de Janeiro de 2010). São Paulo, nas suas Cartas, insiste repetidas vezes sobre a singular comunhão com o Filho de Deus realizada neste lavacro. O facto que na maioria dos casos o Baptismo se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata de um dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças. A misericórdia de Deus, que lava do pecado e permite viver na própria existência «os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2, 5), é comunicada gratuitamente ao homem.
O Apóstolo dos gentios, na Carta aos Filipenses, expressa o sentido da transformação que se realiza com a participação na morte e ressurreição de Cristo, indicando a meta: que assim eu possa «conhecê-Lo, a Ele, à força da sua Ressurreição e à comunhão nos Seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos» (Fl 3, 10-11). O Baptismo, portanto, não é um rito do passado, mas o encontro com Cristo que informa toda a existência do baptizado, doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela Graça, que o leve a alcançar a estatura adulta de Cristo.
Um vínculo particular liga o Baptismo com a Quaresma como momento favorável para experimentar a Graça que salva. Os Padres do Concílio Vaticano II convidaram todos os Pastores da Igreja a utilizar «mais abundantemente os elementos baptismais próprios da liturgia quaresmal» (Const. Sacrosanctum Concilium, 109). De facto, desde sempre a Igreja associa a Vigília Pascal à celebração do Baptismo: neste Sacramento realiza-se aquele grande mistério pelo qual o homem morre para o pecado, é tornado partícipe da vida nova em Cristo Ressuscitado e recebe o mesmo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos (cf. Rm 8, 11). Este dom gratuito deve ser reavivado sempre em cada um de nós e a Quaresma oferece-nos um percurso análogo ao catecumenato, que para os cristãos da Igreja antiga, assim como também para os catecúmenos de hoje, é uma escola insubstituível de fé e de vida cristã: deveras eles vivem o Baptismo como um acto decisivo para toda a sua existência.
 2. Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor – a festa mais jubilosa e solene de todo o Ano litúrgico – o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus? Por isso a Igreja, nos textos evangélicos dos domingos de Quaresma, guia-nos para um encontro particularmente intenso com o Senhor, fazendo-nos repercorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber o Sacramento do renascimento, para quem é baptizado, em vista de novos e decisivos passos no seguimento de Cristo e na doação total a Ele.
O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição do homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida (cf. Ordo Initiationis Christianae Adultorum, n. 25). É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso» (Hb 6, 12), no qual o diabo é activo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.
O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17, 1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.
O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho.
O domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».
Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: «Eu sou a ressurreição e a vida... Crês tu isto?» (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: «Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27). A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia. Privado da luz da fé todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança.
O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal, particularmente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas baptismais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos «da água e do Espírito Santo», e reconfirmamos o nosso firme compromisso em corresponder à acção da Graça para sermos seus discípulos.
 3. O nosso imergir-nos na morte e ressurreição de Cristo através do Sacramento do Baptismo, estimula-nos todos os dias a libertar o nosso coração das coisas materiais, de um vínculo egoísta com a «terra», que nos empobrece e nos impede de estar disponíveis e abertos a Deus e ao próximo. Em Cristo, Deus revelou-se como Amor (cf 1 Jo 4, 7-10). A Cruz de Cristo, a «palavra da Cruz» manifesta o poder salvífico de Deus (cf. 1 Cor 1, 18), que se doa para elevar o homem e dar-lhe a salvação: amor na sua forma mais radical (cf. Enc. Deus caritas est, 12). Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo. O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31).
No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projectos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos...». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma...» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia.
Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de facto, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna.
 Em síntese, o itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela acção do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo.
 Queridos irmãos e irmãs, mediante o encontro pessoal com o nosso Redentor e através do jejum, da esmola e da oração, o caminho de conversão rumo à Páscoa leva-nos a redescobrir o nosso Baptismo. Renovemos nesta Quaresma o acolhimento da Graça que Deus nos concedeu naquele momento, para que ilumine e guie todas as nossas acções. Tudo o que o Sacramento significa e realiza, somos chamados a vivê-lo todos os dias num seguimento de Cristo cada vez mais generoso e autêntico. Neste nosso itinerário, confiemo-nos à Virgem Maria, que gerou o Verbo de Deus na fé e na carne, para nos imergir como ela na morte e ressurreição do seu Filho Jesus e ter a vida eterna.

BENEDICTUS PP XVI – PAPA BENTO XVI
(tradução oficial do Vaticano)


sábado, fevereiro 26, 2011

DECLARAR E ACLAMAR UM SANTO


A notícia de que Bento XVI declarará beato seu antecessor João Paulo II merece reflexão. É uma prática do catolicismo e um direito do Papa. A quase totalidade dos católicos lhe dá este direito. Aceitamos sua liderança. Pode ser que aos olhos de muitos católicos João Paulo II devesse esperar, mas milhões acham sua vida, seu testemunho e seus sofrimentos suficientes para que o incluam entre os exemplos a serem seguidos. Ele amou e testemunhou Jesus e viveu heroicamente a sua fé. Não há santos perfeitos neste mundo, mas ele e outros candidatos como Irmã Dulce viveram a fé com maior perfeição do que a nossa. Declaremos e proclamemos. Jesus fez e continua fazendo novos santos.
Os católicos privadamente proclamam alguém santo, ou santa quando percebem valores cristãos elevados nesta pessoa. Oficialmente porém, alguém é declarado santo ou santa quando sua vida foi toda voltada para Deus e para o próximo. Como se trata de assunto estritamente católico, uma vez que outras igrejas também proclamam a santidade ou vida santa de seus fundadores e fiéis mais ilustres, mas os cultuam de outra forma, vale a pena entender o porquê destas beatificações ou canonizações.
No fundo tudo pode ser resumido nas frases: Deus é glorificado nos seus santos.  Foi herói ou heroína da caridade. Deu a vida pelos outros e viveu pelo reino de Deus.
De certa forma o primeiro santo canonizado foi João Batista a quem Jesus declarou santo. Segundo está nos evangelhos, o próprio Jesus deu o critério para o que a Igreja passou a fazer: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida pelo bem dos outros.
Mas nem todos os declarados e aclamados foram imediatamente aceitos pela Igreja. Em alguns casos levou tempo. Houve casos que esperaram 400 anos até serem proclamados e declarados santos, isto é: cristãos sancionados , provados e selados como sinais do Reino. Sanctus , santo, bem de sancire, sancionar...Deus e a Igreja assinariam em baixo desta vida! 
Houve casos quase imediatos. Muitos mártires e Francisco de Assis, por exemplo, em menos de um ano foram canonizados. Entraram no cânone dos bem aventurados que a Igreja aposta que estão salvos e no céu. Ultimamente José Escrivá, o Fundador da Opus Dei levou 27 anos. Dom Romero lá leva mais de 40 anos em processo e, no entanto, ele morreu pelos e pela libertação do seu povo que morria sob uma cruel ditadura. Tereza de Calcutá levou menos de dez anos, João XXIII menos de 50 anos, João Paulo II menos de 7 anos após a morte, Irmã Dulce menos de 15 anos. Em alguns casos a Igreja ouviu a aclamação dos fiéis ou de um grupo de fiéis e em outros não ouviu e até chegou a tirar da lista de proclamáveis e declaráveis algum candidato sobre quem se lançaram dúvidas pelo que teriam dito e escrito.
É critério da Igreja e não cabe a nenhum grupo querer impor o seu candidato ao reconhecimento de toda a Igreja. E daí? Seu candidato não foi declarado, o que não significa que não tenha levado vida santa.  A Igreja não se opõe ao fato de seus fiéis admirarem algum católico que viveu vida heróica. Poderemos pedir a prece de nossos pais e de nossos irmãos de vida santa, desde que não o façamos contra a proposta da Igreja.
Dizer que alguém não será proclamado beato não é o mesmo que dizer que ele não se salvou, que não está no céu ou que sua vida não foi santa. Significa apenas que a Igreja não o proclamará modelo em tudo. Muitos dos santos que admiramos nem sempre escreveram ou disseram coisas hoje aceitas pelos católicos. Estão aí os livros para provar que a Igreja não concorda com eles em tudo. A Igreja mudou muitos conceitos e muitas de suas práticas e hoje, quem dissesse o que eles disseram ou fizesse o que ele fizeram não seria aprovado como modelo de ética cristã. Mas foram vistos como pessoas totalmente dedicadas ao Reino.
Como não há santo sem escorregão e nenhum santo é perfeito e sábio em tudo, a Igreja tem o direito de decidir quem deve ser venerado oficialmente e quem deve esperar. Haverá sempre algum questionamento, mas há que se respeitar a voz do povo e a voz da liderança. Somos produtos de um tempo e os santos viveram outras épocas e outras situações de conflito.
Os irmãos de outras igrejas que cultivem seus heróis do seu jeito. Respeitamos. Mas não nos acusem de adorar os santos. Esta calúnia não aceitaremos. Só adoramos a Deus, mas nunca deixaremos de proclamar que ele é bendito pelos santos que nos deu. É bíblico, é teológico e nobre. Gratidão também é sinal de santidade!  

Pe. Zezinho, scj - Cantor, compositor e escritor.

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35 (ANO A)

A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo propõe a continuação da leitura do “discurso comunitário” do Evangelho de Mateus. O trec...