sábado, setembro 03, 2011

Fé mal explicada


O amor é tanto que comemoramos anúncio, concepção, nascimento, momentos da vida, morte e ressurreição de Jesus. Também comemoramos concepção, nascimento, momentos de vida e morte de Maria, a mãe dele. Amor suscita memórias!
Quando tive chance de explicar a um desses irmãos aguerridos de outra igreja, expus o porquê desses nomes e dessas datas. Se ele se satisfez, não sei, mas parou de discordar. Aceito ouvir as explicações deles, mas quero o direito de explicar os meus porquês. Não sou um crente visceral; sou crente cristão católico que estuda. Por isso celebramos os mistérios e vivências de ontem e neles, nossos mistérios e nossas vivências.
1-Anunciação, a 25 de março, por conta do anúncio feito pelo anjo a Maria. Ela seria mãe de alguém especial. Está nos evangelhos.
2-Imaculada Conceição a 8 de dezembro, porque, para nós, o primeiro instante de uma vida é sagrado. O primeiro instante da vida da mãe de Jesus para nós e motivo de festa. Está na Tradição.
3-Natal a 25 de dezembro porque o nascimento de Jesus fez a diferença no mundo. Está nos evangelhos.
4-Natividade de Maria a 8 de setembro porque, se o menino que dela não foi um menino qualquer, ela também não foi menina qualquer. Está na Tradição. Além de festejarmos sua concepção imaculada festejamos seu nascimento.
5-Nossa Senhora das Luzes ou da Candelária no dia 2 de fevereiro; das Dores, dia 15 de setembro, um dia depois do dia da Santa Cruz porque ela estava lá aos pés do filho que morria. A iluminada é também iluminadora. Por isso, oramos a ela para que ore por nós durante nossa vida e na hora em que estivermos morrendo. Ela viveu isso com o Filho!
Durante o ano temos mais de 40 dias especiais, nos quais lembramos algum mistério da vida de Jesus ou da vida de Maria associada à de Jesus.
6-Ascensão alguns dias depois da Páscoa porque ali Jesus se despediu prometendo que voltaria, mas nunca mais foi visto com os olhos da carne.
7-Assunção, porque seremos todos levados para o céu, para onde não podemos ir por nossas próprias forças, mas lembrando que Maria morreu de morte bem mais serena do que a nossa e que, para ela o céu não trazia dúvidas. Foi passagem serena. Já tinha tido o céu no ventre. Nossa assunção é bem menos festiva. Morrer ainda nos assusta, isto porque não temos a correta dimensão de céu em nós.
Assim, as doutrinas e dogmas que cercam Jesus e seus santos, sobretudo Maria, para nós são festas maiores ou menores, a depender do enfoque devocional desta ou daquela cidade ou paróquia.
Pergunte a um católico devidamente instruído na fé e ele saberá responder porque ora, a quem ora, como ora e porque celebra algum dogma ou acontecimento. Os que lêem menos sabem menos. Mas está tudo lá nos livros oficiais da Igreja. Creio e sei porque creio, celebro e sei o que celebro.
***
Perguntei a um grupo de católicos atuantes qual a diferença entre Ascensão e Assunção e entre Nossa Senhora da Conceição e Natividade de Nossa Senhora. Tiveram dificuldade de responder. Em algum lugar de sua formação alguém se esqueceu de mergulhar nos porquês de nossa devoção.
Agiu coerentemente o pároco de uma ativa comunidade católica, quando escalou uma equipe de jovens para explicar em letras grandes num painel à entrada do templo, a cada festa, o que ela significava e, se fosse a vida de algum santo, o resumo de sua vida, atuação e pensamentos. A mesma equipe foi encarregada de colocar uma breve placa de explicação diante de cada imagem que havia no templo, com a corresponde citação bíblica. Resgatou conceitos e fundamentou suas celebrações.
Deixa a desejar a paróquia ou templo que por anos a fio apenas mostra imagens e celebra festas sem jamais explicar a catequese que elas expressam. Resultado: temos sido uma igreja mal vivida porque mal explicada.

Pe. Zezinho, scj, Cantor, compositor e escritor.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Gritos e respostas


Na Semana da Pátria deste ano vai acontecer o 17º. Grito dos Excluídos. Pela sua continuidade, e pelas repercussões que ainda suscita, o Grito se apresenta como uma das iniciativas bem sucedidas da CNBB, levada em frente pelas Pastorais Sociais.

Foi realizado pela primeira vez em 1995, ano da Campanha da Fraternidade sobre os Excluídos.

Aí já encontramos um dos motivos do acerto deste evento. Ao longo de todos os anos, ele sempre fez questão de retomar o tema da Campanha da Fraternidade, mostrando seus desdobramentos em torno de situações concretas, que mais exigem nossa atenção. O Grito faz repercutir a Campanha da Fraternidade. Como, por exemplo, neste ano com a campanha sobre a vida no planeta, o Grito nos provoca lembrando que "pela vida grita a terra, por direitos todos nós!”.

Outra razão que explica o sucesso do Grito foi o fato de vincular sua promoção ao Dia da Pátria. Desde a primeira edição, em 1995, a intenção era recuperar para a cidadania a celebração do "Dia da Pátria”, com manifestações que envolvessem os movimentos sociais, garantindo espaço para os que se sentiam, por um motivo ou outro, "excluídos” dos benefícios a que todos têm direito como cidadãos do mesmo país.

Esta é outra circunstância que ajuda a desenhar o quadro de referências do Grito dos Excluídos. Ele nasceu como gesto concreto da Semana Social, que tinha por tema "O Brasil que nós queremos”.

Desde o seu início, o Grito se colocou a serviço da cidadania, incentivando a participação popular em torno de grandes causas que o povo precisa assumir.

Como a história da proclamação da nossa independência vem associada ao "Grito” de Dom Pedro, o Grito dos Excluídos vem nos alertar que a soberania de nosso país precisa ser assumida sempre, de maneira consciente e articulada.

Por isto, em cada ano, não faltam causas, com a ênfase de gritos que apelam para os nossos compromissos de cidadãos.

Entre tantas, podemos citar algumas, que estão sendo assumidas pelo Grito deste ano.

Uma delas é a corrupção. Ela merece nosso repúdio constante. Ela precisa ser combatida com firmeza e sem complacência. Este combate deve ser sustentado pelo poder público, mas precisa ser apoiado pela cidadania.

Outro grito que precisa ecoar com mais clareza é contra a droga. Estamos chegando ao limite da tolerância. A nação corre perigo! A população, em especial a juventude, não pode mais ficar exposta à ganância de inescrupulosos, que permanecem impunes enquanto vidas inocentes são ceifadas em números assustadores. O combate contra a droga exige mais vigilância de nossas fronteiras territoriais. Mas exige também que nos demos conta que os caminhos da droga são abertos pela perda de valores morais, com o consequente abalo de nossas instituições. Além de enérgica ação do poder público, o combate contra a droga precisa contar com a corajosa recuperação dos critérios éticos que precisam presidir a nossa convivência familiar e social.

Outro Grito, que já começa a ficar impaciente, é por uma eficaz reforma política. Ela precisa desencadear um processo, que não pode prescindir da regulamentação dos instrumentos de democracia direta, que a Constituição já prevê, mas que até agora não foram regulamentados com clareza e segurança.

Outro tema de enorme responsabilidade se coloca agora em torno do novo Código Florestal, cuja votação está tramitando no Congresso. Em torno deste Código Florestal é necessário superar os radicalismos, para se chegar, com lucidez e equilíbrio, a compatibilizar os objetivos da proteção ao meio ambiente com os objetivos da agricultura. A discussão em torno do Código Florestal precisa se transformar em bom instrumento de consensos razoáveis, que levem em conta todas as dimensões implicadas neste complexo assunto, cheio de consequências práticas, que não podem ser ignoradas, ou atropeladas por bandeiras que escondem interesses ou carregam ingenuidades.

E assim o Grito pode ir levantando outros assuntos, como os agrotóxicos, a reforma tributária, a reforma previdenciária, a questão da moradia urbana, as barragens, e outros mais. A cidadania agradece!

Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales e presidente da Cáritas Brasileira.

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=59780

segunda-feira, agosto 29, 2011

Faraós e pecados do poder


“Surgiu no Egito um novo rei, que não conhecera José. Ele disse a seu povo: ‘Olhai como a população israelita ficou mais numerosa e mais forte que nós. Vamos tomar providências em relação a eles, para impedir que continuem crescendo e, em caso de guerra, se unam aos nossos inimigos, lutem contra nós e acabem saindo do país.’ (…) Depois o rei do Egito disse às parteiras dos hebreus, chamadas Sefra e Fua: ‘Quando assistirdes as mulheres hebreias no parto e chegar o tempo do parto, se for menino, matai-o; se for menina, deixai-a viver. Mas as parteiras tinham temor de Deus: não faziam o que o rei do Egito lhes tinha mandado e deixavam viver os meninos. (…) Um homem da casa de Levi casou-se com uma mulher de seu clã. A mulher concebeu e deu à luz um filho. Ao ver que era um menino, manteve-o escondido durante três meses. Não podendo escondê-lo por mais tempo, pegou uma cesta de papiro, calafetou-a com betume e piche, pôs dentro dela o menino e deixou-o entre os juncos na margem do rio. A irmã do menino ficou parada à distância para ver o que ia suceder. A filha do faraó desceu para se banhar no rio, enquanto suas companheiras passeavam na margem. Ela viu a cesta no meio dos juncos e mandou que uma criada o apanhasse. Quando abriu a cesta, viu a criança: era um menino que chorava. Ficou com pena e disse: ‘É uma criança dos hebreus’. A irmã do menino disse, então, à filha do faraó: ‘Queres que eu te vá chamar uma mulher hebreia, que possa amamentar o menino?’ ‘Vai’, respondeu-lhe a filha do faraó. E a menina foi chamar a mãe do menino.” A filha do faraó disse à mulher: ‘Leva este menino, amamenta-o para mim, e eu te pagarei o teu salário.’ A mulher levou o menino e o criou.” (Ex 1,8-10. 2,1-9) A escravidão do povo hebreu e o infanticídio dos meninos são pecados do poder político, no Egito.

A política dos “faraós” de hoje, em países da Ásia e da África, penaliza, especialmente, as meninas. A prática do “aborto seletivo de fetos do sexo feminino é aparentemente generalizado em países asiáticos como a China, Índia e Coréia do Sul”. Com efeito, “A discriminação de gênero começa cedo. Modernos instrumentos de diagnóstico para a gestação tornaram possível determinar o sexo do bebê logo no início. Nos locais em que há uma evidente preferência econômica ou cultural por filhos homens, o mau uso dessas técnicas pode facilitar o feticídio feminino. Embora não haja evidências conclusivas para confirmar esse mau uso ilegal, histórias sobre nascimentos e dados de recenseamentos na Ásia – principalmente na China e na Índia – revelam uma proporção excepcionalmente alta de nascimentos de meninos, assim como de meninos com menos de 5 anos de idade. Essa constatação sugere a ocorrência de feticídio e infanticídio seletivos por sexo nos dois países mais populosos do mundo – apesar das iniciativas para erradicar essas práticas nos dois países.” Como consequência da “política do filho único” na China, “O número de moças que falta já estaria na casa de milhões e as causas são facilmente identificáveis: elas foram vítimas de infanticídios, de abortos provocados pelos pais quando descobriam que o feto era uma menina ou foram abandonadas nas encruzilhadas das ruas quando recém-nascidas. Alguns pais as escondem e não as declaram ao Estado, correndo perigos de sanções e prisão, se forem descobertos.” Em alguns países da África, a mentalidade da população e a política governamental são, igualmente, discriminatórias, em relação às meninas.

Moisés, como diz o seu nome, foi “salvo das águas”, graças à sensibilidade da “filha do faraó”, diante da decretação do infanticídio de meninos hebreus, no Egito, por razões políticas. O infanticídio de meninos e meninas, apenas nascidos ou em tenros anos de vida, continua acontecendo, por motivo político e em razão da mentalidade arraigada na prática de alguns povos. A face cruel do feticídio e do infanticídio se generaliza, no mundo, por razões sociais. Por isso, a legalização do aborto é um pecado do poder político e social.


Dom Genival Saraiva França, bispo de Palmares-PE.

terça-feira, julho 26, 2011

Pe. ZEZINHO ANALISA A TELEVISÃO BRASILEIRA

RZ :  Em 2002 a revista, Carta Capital de 06.03.02 fez uma reportagem de peso sobre a Televisão, dizendo que ela ia de mal a pior no Brasil.  Como o Sr. Avalia, hoje, o nível da televisão no Brasil?
Pe. Zezinho- Acho que a televisão brasileira é criativa, tem um bom desempenho tecnológico, é altamente intuitiva, faz muito depressa as adaptações necessárias nesse veículo tão ágil. Como um todo, ela é muito inteligente. Eu jamais poderia ser contra a televisão, porque ela é uma das maravilhas do mundo moderno. A minha objeção vai na linha do texto de Carta Capital, assinado por Mauricio Stycer, se não me engano.  Eu também li e mostrei aos meus alunos. É a certos tipos de programas e de programadores. Eu jamais combateria a televisão como se fosse algo do demônio. Não é. É algo de Deus. Mas lá dentro há programas e pessoas que transformaram a televisão num caça- níqueis  a qualquer preço moral, psicológico e social. Então deturparam o verdadeiro objetivo da televisão.
R.Z : Gosta do veículo, mas não de todos os seus condutores…
Pe Zezinho : Minha crítica é aos programadores e a alguns dos programas, não todos. Há programas de altíssimo nível na televisão brasileira e eu tiro o chapéu para esses repórteres e programadores. A gente pode se sentir orgulhoso desses programas, mas também podemos sentir vergonha de outros. Como um todo eu daria uma nota boa para a televisão brasileira, descontando esses programas.

R Z- Muitos religiosos acusam a televisão, dizendo que ela tornou-se vulgar…
Pe. Zezinho-    Não só os religiosos. Há jornalistas, psicólogos, advogados e juízes dizendo a mesma coisa. E, o importante, pais e mães de família que sabem o que tais cenas causam nos seus filhos. De repente é chocante uma mãe te que discutir com a filha de 16 anos porque esta insiste em dançar na varanda da casa aos olhos de quem passa como Carla Peres e em usar na rua um shortinho como o da dançarina super aplaudida na mídia. As mães não querem as filhas fazendo aqueles gestos lascivos, Quem ensinou isso? A TV.

RZ: Mesmo assim, a TV é uma boa escola ?
Pe Zezinho :  Há bons programas . Infelizmente temos que nos policiar, porque ela não se policia. Criticar tudo é errado, mas apoiar essas vulgaridades é abdicar do papel de pregador da fé. Por isso elogio no que devo e critico no que devo, como cidadão e como sacerdote e evito aceitar convites para programas onde se ridiculariza a pessoa humana, onde se expõe sem razão alguma a nudez humana e o erotismo e se mostra com leviandade a violência. Não tenho medo de ser chamado de conservador por isso. Prefiro ser progressista do meu jeito, no que realmente entendo como progresso. Acho que explorar a nudez, a violência ou a dor humana é retrocesso. Como cidadão, escolho aonde quero ir e que programas quero ver. Não estou julgando ninguém. Estou apenas usando meu direito de ir e vir e de ir ou não ir. Não sou obrigado a ir à televisão. Nenhum contrato me obriga a isso. Irei se quiser. Ligo, se quiser.

RZ: O que responde quando alguém como o Ratinho no ar o censura por não querer ir lá?
Pe Zezinho :  Soube ele fez isso anos atrás quando outros padres iam lá. Acho que foi uma só vez. Estava no seu papel. Almoçaria tranqüilamente com o sr. Carlos Massa, mas não iria ao programa do seu personagem Ratinho. Ele sabe disso. Esses dias (13.12.04) ele pegou um pênis eletrônico e o levou às mulheres presentes no auditório para que o tocassem. O programa, como está arquitetado, não servia e ainda não serve para mim, que hoje não daria mais ibope, como naqueles dias. Ir lá seria o mesmo de dizer que concordo com aquele esquema. Poderia fazer o mesmo bem que ele diz que faz para os pobres, sem falar o que fala, do jeito que fala e com aqueles gestos absurdos que incluem atos como aquele que descrevi.

Acho que tenho o direito de escolher meu púlpito. Corro o risco de não ter ninguém para me ver, enquanto quem vai lá tem milhões de pessoas. Mas tenho 38 anos de viagens ininterruptas pelo mundo. Acabo de voltar da China  e a perspectiva de falar a pouca gente não me assusta.  Já fiz isso. Também já falei para milhões.  O que não acho certo é ir aonde não me derem condições de dizer o que penso.

RZ: Não seria o caso de a Igreja valorizar os programas populares, mesmo com alguns exageros?
Pe Zezinho :  Se fossem só alguns eu iria, mas são freqüentes e são muitos. Jogam com isso! Faço uma distinção entre divulgar, popularizar e vulgarizar.  A linha que separa essas práticas é tênue. Na televisão  brasileira observa-se isso com clareza.  O vulgar tomou o lugar do popular em muitos programas populares. Vulgus em latim seria o povão, as pessoas anônimas. Popularizar seria tornar algo acessível aos que não tiveram acesso a certo grau de ensino e  de cultura. Mas não é porque o povo não estudou, que tem que agüentar a falta de arte ou a baixaria de certos programas, que repetem o tempo todo as mesmas piadas grosseiras os mesmo chavões, os mesmos requebros, as mesmas danças e as mesmas pessoas repetindo vinte palavras iguais o tempo todo.

De tanto mostrarem e divulgarem seus corpos seminus,  muitas mulheres caíram no vulgar: Vulgarizaram o que é bonito e é sempre especial. A vulgarização venceu a divulgação e a popularização. Mostra-se muita coisa sem nenhum intuito cultural. É o que muita gente está chamando de cultura do lixo. Nem sequer tomam o cuidado de reciclar.
R Z-   Alguns programas de televisão exageram na vulgaridade?
Pe. Zezinho-  Sem dúvida. Isso, porque ‘aparecer’ tornou-se uma palavra importante no mundo, depois que aconteceu a televisão. Estão chamando a isso de “evasão de privacidade” . Muita gente vai lá sem ter o que mostrar ou o que dizer. Vai para aparecer e ser vista, porque, ganhando visibilidade talvez cheguem aonde querem. Há cantoras e atrizes que jogam com isso. Estão sempre na mídia, porque estão sempre trocando de namorado e sendo vistas em situação de desafio.   Algumas cantoras e cantores, para ganhar visibilidade, escolhem uma dança erótica ou a nudez. Não hesitam em provocar escândalo, desde que isso venda seu disco. Eu disse alguns porque há os que cantam com enorme dignidade e grande amor pela arte. Mas é próprio da vulgaridade aparecer, mesmo sem ter o que dizer ou mostrar. Isso também pode acontecer na religião. Há um jeito popular e um jeito vulgar de pregar a palavra de Deus. Infelizmente há!

R Z- O sr. é a favor de algum tipo de censura à televisão?
Pe. Zezinho- Sou a favor de que as escolas, as famílias e as igrejas promovam uma censura a partir do povo e mentalizar as pessoas para desligarem aquele botão, ou procurar outro canal. Sou a favor de criar a mentalidade de não aceitar lixo na porta da nossa casa. Eu acho que a TV não é culpada de produzir o lixo. O lixo já existe fora dela. Mas a televisão se comporta como um caminhoneiro que foi incumbido de transportar algumas coisas atravessando a cidade. O que era aproveitável e bom, deveria levar ao destino certo, os dejetos ele deveria despejar diretamente no lixão. Só que o caminhoneiro  inverteu as coisas. Jogou o lixo nas portas das casas e acabou dando pouca importância às coisas boas. Eu penso que às vezes a TV age mais como lixeiro que enlouqueceu. Quando a televisão não distingue mais entre lixo e produto de primeira qualidade, já perdeu sua função de divertir e informar.

RZ:  Mas não há igrejas jogando com o mesmo vale-tudo e o mesmo sensacionalismo?
Pe Zezinho  : Vulgarizar a fé com milagres falsos e ameaças de diabo e inferno também é lixo. Dizer que dor de cabeça, vômito e resfriado é coisa do demônio é lixo. E quando o povo não sabe escolher entre o que é bom e o que é lixo, é sinal de que não foi preparado para fazer a opção. Não estamos, no Brasil, educando o telespectador para controlar a televisão. O telespectador precisa entender que nós é que temos o controle: não eles. Para sobreviver, eles precisam dos institutos de pesquisa tipo Vox Populi ou Ibope e, se nós deixássemos de assistir a esses programas, eles nos obedeceriam. Inverteu-se a ordem: quem deveria mandar na televisão era o povo, mas é a televisão que está mandando no povo.

R Z-  E o conteúdo das  novelas? É raro um sacerdote que opine em favor .
Pe. Zezinho-  Nem tudo é ruim. Mas é verdade que há novelas que atentam contra a moral cristã. Começo citando uma novela que fez muito sucesso, Terra Nostra. Deveria ter se chamado ‘Troca-Troca Nostro’ (risos), porque lá todo mundo ficou com todo mundo. O que também é uma inverdade, porque, no início do século, a moral era muito rígida e essas coisas não aconteciam com tanta freqüência. Portanto, a novela pintou um quadro moral errado da época e estava impingindo às pessoas uma falsa cultura, porque não traduzia como foi, de fato, a vida dos primeiros imigrantes italianos, seja em São Paulo, seja nas colônias. Eles tinham uma moral muito rígida. E a impressão que davam, no ‘Troca-Troca Nostro’, é que a moral era totalmente devassa. Portanto está prestando um desserviço à história e aos primeiros italianos que aqui vieram. Diga-se o mesmo de A Padroeira e O Quinto dos Infernos. O povo simples acaba pensando que naquele tempo era tudo dissoluto e devasso.

RZ: Fizeram isso para ter mais audiência ou porque querem pregar uma nova moral ?
Pe Zezinho : Isso eu não saberia dizer . Teríamos que perguntar aos autores.  A televisão, as novelas, de um modo geral, transmitem uma mensagem subliminar que influencia. Vimos há poucos anos todas as adolescentes dançarem como Carla Perez, ou com o “É o Tchan”, vestirem-se como suas atrizes preferidas e decidirem qual é o ator mais bonito do momento. Adolescentes de 15 anos eram expostos à dança e aos movimentos eróticos de uma atriz de mais de 20 anos como Tiazinha e Feiticeira, como prêmio por terem acertado uma pergunta. Isso está longe de tudo o que se entende por pedagogia. É a mais crassa inversão de valores que há. Eu me pergunto se há algum outro país onde isso acontece. Como prêmio por saber uma verdade o adolescente podia ver as nádegas de uma professorinha.  Querem convencer a quem de que isso não influencia os adolescentes? A campanha contra a baixaria na televisão começou muito tarde. Deveria ter vindo há 20 anos atrás.
RZ: No seu entender há programas que criam  costumes errados.
Pe Zezinho :  Isso. Por mais que digam que não e que apenas retratam , eles criam. As escolas não fazem isso que a TV faz. Oferecer como naquele tempo uma Feiticeira e uma Tiazinha como prêmio não é retratar, muito menos ensinar. É criar comportamento errado. Cria expectativa, faz a cabeça, faz o sentimento e, às vezes, cria modismos. Essa estória de dizer que a televisão apenas reflete a realidade não é verdade. Ela cria. E é culpada sim. Voltemos à estória do lixo. Ela não faz o lixo, mas distribui. Tem tanta culpa como quem fez. Ela cria emoções falsas, cria necessidades falsas e leva ao pecado intencionalmente. Torno a dizer: nem todos os programas. A televisão tem um pouco de santo e outro de diabo.

R Z- As novelas retratam com fidelidade a figura do padre?
Pe. Zezinho-  A novela traduz o ideário dos seus escritores. A maioria deles raramente teve convivência com o clero. Se teve, às vezes foi negativa. Então eles jogam para o cenário nacional o conceito que eles têm do padre. Não é o conceito que o povo tem do padre. Mas, com o tempo, acaba pegando. Acontece o mesmo com os pastores ou com os muçulmanos. Há sempre os dois elementos o bom e o mau.  De repente passam a idéia de que pastor corre atrás de dinheiro e de que padre corre atrás de mulheres; ou, ainda, que é um indefinido, um sujeito confuso que não é totalmente homem e que não é totalmente pecador. A idéia que passam é que não existem valores. Passam a idéia de que o  valor supremo é a mudança, é o desafio. Realmente a proposta básica da maioria das novelas é atéia e amoral, mesmo que tenha alguns personagens que falam de Deus. E é claro que não podemos aceitar isso.

RZ: Ela desafia a família ?
Pe Zezinho : A seqüência de novelas dos últimos anos mostra que sim. Ela destrói sistematicamente os valores cristãos sobre família e sobre sexualidade. Os casais desajustados são sempre em maior número do que os casais felizes. Você imagine os males que a televisão causa fazendo isso durante 40 anos. O púlpito deslocou-se da igreja para aquela câmera de televisão e os pregadores não são mais os padres; são os artistas. Os formadores de opinião não são mais os teólogos; são os escritores de novela. O evangelista de ontem é o novelista de hoje. Mas o novelista de hoje não anuncia um novo reino, nem Jesus e, sim uma nova liberdade. A Televisão está virando uma espécie de religião no Brasil. Ela decide que tipo de padre mostrar e que tipo de fé retratar.  Já falamos disso!

REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,15-21 (ANO A)

  O evangelho lido na liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua ambientado em Jerusalém, mais precisamente nas dependên...