domingo, novembro 27, 2011

Ó VEM SENHOR, NÃO TARDES MAIS...


O bonito refrão de Zé Vicente é suficiente para introduzir-nos na espiritualidade ou tema do tempo que a Igreja inaugura hoje, o advento! Sem nenhum aprofundamento etimológico, está claro que a palavra advento tem a ver com vinda, chegada... algo ou alguém VEM ou ESTÁ CHEGANDO!

E, quem vem é o Cristo, o Messias, o Salvador, o Libertador, o Rei dos reis... por mais que usemos inúmeros adjetivos ainda não conseguimos descrever claramente AQUELE QUE VEM, o Senhor! Somente Ele é capaz de preencher os vácuos da nossa existência e saciar nossa sede de paz, justiça, esperança, amor! Daí a necessidade de nos prepararmos bem para tão magnífica chegada, aproveitando bem o que a Igreja proporciona em sua liturgia, através dos textos da Sagrada Escritura propostos para as celebrações deste tempo. No entanto, devemos estar atentos à linguagem dos textos selecionados e considerar o contexto geral da história da salvação.
Devemos nos preparar para a chegada do Senhor sem o medo de um acerto de contas, mas com a alegria de um encontro especial marcado pela ternura e o amor de um DEUS APAIXONADO, que sem deixar de ser Deus, faz-se carne, torna-se humano e vem ao mundo mostrar que apesar das fraquezas da carne, apesar das mazelas da vida em geral, é possível viver melhor. Com a encarnação do Verbo a nossa pertença a Deus se torna mais clara e mais real, podemos dizer que a vinda do Filho ao mundo faz a gente compreender melhor a existência de um Pai eterno; assim, podemos nos sentir mais filhos.

Nessa perspectiva do amor e ternura de Deus, vemos que a linguagem dura dos profetas e dos evangelhos é mais um elemento didático de uma pedagogia terna e misericordiosa de um Deus indescritível que faz até coisas impossíveis para que nenhum dos seus filhos se perca. Esse Deus que já tinha feito de tudo pelo seu povo: libertou da escravidão, deu uma lei, deu uma terra, formou comunidades, formou um reino, mandou profetas, protegeu o povo em perigosas batalhas... fez tudo que possamos imaginar! Mesmo assim, ainda não foi suficiente.

Por ser amor e misericórdia, Deus não permitiria que a obra-prima da criação se perdesse, e por isso fez mais uma aliança: escolhe uma mulher simples, mas cheia de graça para ser a mãe de seu Filho! Deus veio pessoalmente nos ensinar a viver melhor. Com isso reconhecemos também a importância de Maria na história da salvação, aceitando que nela acontecesse o impossível! Fato mais que extraordinário! Quantos homens e mulheres já haviam cooperado com Deus... muitos e muitas! Mas em nenhum caso a cooperação foi tão forte como a de Maria! Por isso a veneramos, a amamos e acreditamos que ainda hoje ela coopera intercedendo pelos filhos necessitados que a ela recorrem.

Vamos então nos preparar, ouvindo a Palavra, participando da Eucaristia e alimentando nossa fé a cada dia, na certeza que nosso Deus faz coisas impossíveis e vem ao nosso encontro para nos abraçar e dizer que nos ama incondicionalmente. Vem saciar nossa sede de paz!

Francisco C. F. Rodrigues, Roma, 27 de novembro de 2011.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Precisamos de muita e muita coragem

Em 14 de setembro último, celebrou 90 anos de idade uma das figuras religiosas brasileiras mais importantes do século XX: o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Voltando da Sorbonne, foi meu professor quando ainda andava de calça curta em Agudos-SP e depois, em Petrópolis-RJ, já frade, como professor de Liturgia e da teologia dos Padres da Igreja antiga. Obrigava-nos a lê-los nas linguas originais em grego e latim, o que me infundiu um amor entranhado pelos clássicos do pensamento cristão. Depois foi eleito bispo auxiliar de São Paulo. Para protegê-lo porque defendia os direitos humanos e denunciava, sob risco de vida, as torturas a prisioneiros políticos nas masmorras dos órgãos de repressão, o Papa Paulo VI o fez Cardeal.
Embora profético mas manso como um São Francisco, sempre manteve a dimensão de esperança mesmo no meio da noite de chumbo da ditadura militar. Todos os que o encontravam podiam, infalivelmente, ouvir como eu ouvi, esta palavra forte e firme: “coragem, em frente, de esperança em esperança”.
Coragem, eis uma virtude urgente para os dias de hoje. Gosto de buscar na sabedoria dos povos originários o sentido mais profundo dos valores humanos. Assim que na reunião da Carta da Terra em Haia em 29 de junho de 2010, onde atuava ativamente sempre junto com Mercedes Sosa enquanto esta ainda vivia, perguntei à Pauline Tangiora, anciã da tribo Maori da Nova Zelândia qual era para ela a virtude mais importante. Para minha surpresa ela disse:”é a coragem”. Eu lhe perguntei: “por que, exatamente, a coragem?” Respondeu:
”Nós precisamos de coragem para nos levantar em favor do direito, onde reina a injustiça. Sem a coragem você não pode galgar nenhuma montanha; sem coragem nunca poderá chegar ao fundo de sua alma. Para enfrentar o sofrimento você precisa de coragem; só com coragem você pode estender a mão ao caído e levantá-lo. Precisamos de coragem para gerar filhos e filhas para este mundo. Para encontrar a coragem necessária precisamos nos ligar ao Criador. É Ele que suscita em nós coragem em favor da justiça”.
Pois é essa coragem que o Cardeal Arns sempre infundiu em todos os que, bravamente, se opunham aos que nos seqüestraram a democracia, prendiam, torturavam e assassinavam em nome do Estado de Segurança Nacional (na verdade, da segurança do Capital).
Eu acrescentaria: hoje precisamos de coragem para denunciar as ilusões do sistema neoliberal, cujas teses foram rigorosamente refutadas pelos fatos; coragem para reconhecer que não vamos ao encontro do aquecimento global mas que já estamos dentro dele; coragem para mostrar os nexos causais entre os inegáveis eventos extremos, conseqüências deste aquecimento; coragem para revelar que Gaia está buscando o equilíbrio perdido que pode implicar a eliminação de milhares de espécies e, se não cuidarmos, de nossa própria; coragem para acusar a irresponsabilidade dos tomadores de decisões que continuam ainda com o sonho vão e perigoso de continuar a crescer e a crescer, extraindo da Terra, bens e serviços que ela já não pode mais repor e por isso se debilita dia a dia; coragem para reconhecer que a recusa de mudar de paradigma de relação para com a Terra e de modo de produção pode nos levar, irrefreavelmente, a um caminho sem retorno e destarte comprometer perigosamente nossa civilização; coragem para fazer a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da vida e da justiça, como o fazem a Igreja da libertação e Dom Paulo Evaristo Arns.
Precisamos de coragem para sustentar que a civilização ocidental está em declínio fatal, sem capacidade de oferecer uma alternativa para o processo de mundialização; coragem para reconhecer a ilusão das estratégias do Vaticano para resgatar a visibilidade perdida da Igreja e as falácias das igrejas mediáticas que rebaixam a mensagem de Jesus a um sedativo barato para alienar as consciências da realidade dos pobres, num processo vergonhoso de infantilização dos fiéis; coragem para sentar na cadeira de Galeleo Galilei para defender a libertação e a dignidade dos pobres; coragem para anunciar que uma humanidade que chegou a perceber Deus no universo, portadora de consciência e de responsabilidade, pode ainda resgatar a vitalidade da Mãe Terra e salvar o nosso ensaio civilizatório; coragem para afirmar que, tirando e somando tudo, a vida tem mais futuro que a morte e que um pequeno raio de luz é mais potente que todos as trevas de uma noite escura.
Para anunciar e denunciar tudo isso, como fazia o Cardeal Arns e a indígena maori Pauline Tangiori, precisamos de coragem e de muita coragem.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo, professor e escritor. 

sexta-feira, setembro 09, 2011

A Cruz: equívocos de interpretação


No dia 14 de setembro a Igreja celebra a "exaltação da Santa Cruz”. A festa recorda a época em que a fé cristã, tornada religião livre, e aos poucos hegemônica na Europa, propiciou aos cristãos cunharem símbolos de sua identidade, que favorecessem sua afirmação social e cultural.
O contexto histórico da fragmentação do império romano, favoreceu a constituição de uma nova entidade, com as suas diversas dimensões de ordem religiosa, cultural, social e econômica.
No âmbito do antigo império, foi emergindo a Igreja. Ela expressava o grande número de pessoas que passaram a fazer da nova fé religiosa, um elo de vinculação social, com suas práticas e seus símbolos.
Entre estes símbolos, sobressaiu a cruz. Pela maneira como ela evocava acontecimentos fundantes da nova fé, a cruz se tornou o símbolo mais eloqüente, com a vantagem de ser ao mesmo tempo simples na sua configuração, e profundo na evocação dos fatos centrais relativos a Cristo.
Foi então que cresceu a curiosidade por encontrar a cruz autêntica usada na execução de Cristo no calvário. Assim, o interesse pelo símbolo, despertou o interesse pelo objeto.
Nos inícios da Igreja primitiva não se encontra nenhum rastro deste interesse pelo objeto concreto da cruz de Cristo. Ao contrário, os fatos testemunham o grande impacto causado pela presença viva do Ressuscitado. Se ele estava vivo, pouco interessavam os instrumentos de sua morte. Não se comprova nenhum interesse em identificar ou guardar objetos que tinham estado em relação pessoal com Cristo. Ninguém se preocupava em saber onde teria ido parar o manto de Cristo, onde estaria o cálice usado por ele na última ceia, e assim por diante.
Só depois de estruturada como entidade, a Igreja passou a cultivar os símbolos de sua identidade. Foi então que emergiu a importância da cruz, como portadora de uma simbologia muito profunda, e bem caracterizada.
Todo símbolo recebe o seu significado do relacionamento concreto com os fatos que o constituíram como sinal. Cultivando esta vinculação, se aprofunda o significado do símbolo. Quanto mais, por exemplo, se relaciona a cruz com o testemunho de amor que Cristo expressou por ela, mais a cruz se torna símbolo de sua mensagem.
Mas, por contraste, quanto mais se vincula um sinal que já tinha o seu significado próprio, com contextos contrários a este significado, o símbolo inverte sua mensagem no novo contexto associado a ele.
Foi o que aconteceu com a cruz. Usada na morte de Cristo, passou por sua primeira grande metamorfose simbólica, deixando de ser sinal de condenação, para se tornar, para os cristãos, sinal de salvação.
Mas infelizmente, os cristãos usaram a cruz como símbolo das "cruzadas” contra os povos que habitavam a antiga "terra santa”. De tal modo que, para esses povos, até hoje a cruz é maldita, pois evoca os equívocos cometidos nestes episódios históricos.
Tanto que os cristãos precisam agora relativizar o uso da cruz no seu relacionamento com os muçulmanos.
Até entre os próprios cristãos, o uso da cruz não é unânime. Viajando pelo interior dos Estados Unidos, dá para distinguir claramente a diferença de cemitérios. Onde os túmulos são encimados pela cruz, o cemitério é católico. Onde os túmulos são desprovidos de cruz, o cemitério é protestante.
Parece que os cemitérios acabaram entrando na conversa de hoje, para dizer que os desentendimentos humanos são quase fatais. Até nossas bandeiras podem se tornar símbolos equivocados, se não soubermos distinguir, afinal de contas, entre o significante e o significado.
A propósito, o sábio provérbio latino nos adverte: "Cave a signatis!”. Isto é, cuidado com os marcados por símbolos.

Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales-SP e presidente da Cáritas do Brasil.

quinta-feira, setembro 08, 2011

UM DEUS ARRECADADOR

Que um pregador da fé arrecade dinheiro deixando claro que é para seu grupo entende-se. A objeção começa quando ele diz que Deus pediu aquele dinheiro e o transforma num Deus arrecadador. Pregadores com conceito errado de Igreja e de Deus às vezes escravizam seus fiéis ao dízimo, em nome da justiça para com Deus e para com sua Igreja de resultados. Pintam um Deus que não perdoa o dízimo, porque o dinheiro de Deus é sagrado. E citam as passagens que lhes interessa citar, ante os olhos atônitos dos fiéis que não lêem toda a Bíblia. É um dos abusos da Teologia da Prosperidade. “Pague seu dízimo em dia que Deus abrilhantará os seus dias…” A frase é bonita, mas não se sustenta. Deus não age desta forma!
Este conceito de um Deus que exige a sua parte acontece com freqüência nos lábios de pregadores unidirecionados. Dia 23 de fevereiro p. passado, um famoso pregador, respondendo sobre a obrigatoriedade do dízimo usou de perigoso sofisma. A fiel perguntou-lhe se, no caso de grave doença em casa, ela poderia não dar o dízimo para Igreja e usar também os 10% para cuidar do familiar enfermo. Ele respondeu com um sorriso irônico, perguntando se o Governo aceitaria que ela não pagasse o imposto, por conta de um filho doente! Se tem que dar para o Governo o dízimo do país, tem que dar para a Igreja o dízimo de Deus…
Argumento errado e tendencioso! Um bom advogado lhe aconselharia a nunca mais usar este argumento, porque é falso! O Governo brasileiro é misericordioso para com os doentes. Ignorante ou mal assessorado, o pregador mostrou o Governo brasileiro mais compassivo do que Jesus… Nosso Governo, com vários ateus a legislar no Congresso, dá à igreja dele uma lição de misericórdia através da lei 14.260 de 2003 da Receita Estadual. Em diversas outras leis dá isenção de IPVA, ICMS, IOS e IPI. A Lei Federal 10.182 de 2001; a lei 690 de 2003, a lei 10574 de 2003 permitem isenções. A portaria 349/ 96 também libera de imposto. Em caso de doença genética, insuficiência cardíaca cardiomiopatia, doença pulmonar crônica obstrutiva, enfisema, tuberculose, hepatite crônica ativa, o paciente tem isenções.
Para câncer de pulmão, o paciente tem direito a medicamento gratuito. Artrite invalidante, lúpus, paraplegia, doença do neuromotor, miastenia grave e doença desmielizante, tudo tem ajuda do Governo que dá isenção de imposto de renda. Um acidentado pode comprar carro com isenção de IR. Alguém com doença grave pode levantar o seguro de vida e recebê-lo em vida, pode quitar casa própria na CEF e pode levantar o FGTS inteirinho. Além disso, há uma instrução normativa 375 e 2003 que isenta do IPI os remédios importados.
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O pregador, com ironia e um sorriso plácido de quem sabe das coisas, ao insistir no dízimo devido a Deus através da sua igreja, deu a entender que Deus não tem a mesma misericórdia que o Governo, num caso de enfermidade em casa! Se ele tivesse lido melhor sua Bíblia que explica tão bem, acharia centenas de versículos que mostram o Deus que perdoa e leva em conta a aflição dos seus filhos.
O próprio Jesus diz que era permitido comer espigas em dia de sábado e que o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado. (Mt 12,1) A lei tinha que ser flexível quando uma ovelha caísse no poço. (Mt 12,11) E recriminou os fariseus pela sua dureza de coração. Ridicularizou o fariseu que disse que pagava o dízimo em dia, mas se achava melhor do que o pecador lá atrás no templo… Sua fala tinha endereço certo.
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É bem verdade que Abrão deu o dízimo de tudo, mas quando caiu na tentação de dar mais do que o dizimo, ao sacrificar o filho Isaac, Deus interferiu. A oferta tem limites! Malaquias 3,8 fala dos que roubam a Deus quando lhe negam o dízimo. Citá-lo sem citar outras passagens não é justo, nem honesto. No “Pai Nosso” Jesus manda orar pelo perdão de nossas dívidas, assim como nós prometemos perdoar nossos devedores. Dízimo também é dívida perdoável! Em Mt 18,27-32 um senhor movido de compaixão perdoou a dívida de um servo. Este, porém não perdoou a do colega que lhe devia bem menos e o pôs na prisão… Foi punido! Os fiéis deveriam ouvir também estas histórias e aplicá-las ao dízimo.
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Se o Governo perdoa impostos e dívidas de quem está com graves problemas em casa, as igrejas deveriam fazer o mesmo. Revelam-se mais cruéis do que o Governo, cujos impostos são altíssimos. Um advogado presente naquela hora deveria ter levantado a mão e explicado ao pregador que, sim, o Governo perdoa os impostos. Algum teólogo ou biblista deveria ter acrescentado: e Deus também, milhares de anos antes, fez a mesma coisa!
Andam pintando um Deus arrecadador que não perdoa. Este não é o Deus nem do Antigo nem do Novo Testamento. Nosso Deus tem dó da multidão com fome…(Mt 9,36; 15,32) e condena quem cobra o que a pessoa não tem como pagar. (Mt 18,25-32) Circulem também este folheto entre os fiéis! Generosos para com Deus e para com suas igrejas, sim! Medrosos e encurralados por um dízimo que oprime, não! Se houver doença grave em família, o pregador tem a mesma obrigação que tem o Governo. Pega mal quando o Governador perdoa e o sacerdote não!

Pe. Zezinho, scj, Cantor, compositor e escritor.

REFLEXÃO PARA O 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 16,13-20 (ANO A)

Após uma pausa para a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia deste vigésimo primeiro domingo do tempo comum retoma a leitura ...