sábado, junho 18, 2016

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (LUCAS 9,18-24)

A reflexão acerca de Lc 9,18 - 24, texto evangélico deste 12º Domingo do Tempo Comum, obriga-nos a olhar para todo o capítulo nono do terceiro Evangelho e, nesse, situar a passagem em questão, para melhor o compreendermos. 

O capítulo nono de Lucas se inicia com o envio missionário dos Doze para proclamar o Reino de Deus e curar (cf. 9,1-2). Eles foram de povoado em povoado (cf. 9,6). A repercussão da missão foi tanta, a ponto de chegar aos ouvidos do tetrarca Herodes (cf. 9,7-9). O retorno dos discípulos missionários foi marcado pelo entusiasmo, fazendo aumentar, ainda mais, a multidão que seguia Jesus, culminando com o episódio da partilha dos pães (cf. 9,10-17). 

A recordação desses fatos é imprescindível para a compreensão do texto que a liturgia nos oferece pelos seguintes aspectos: (a) os Doze foram enviados para anunciar o Reino; um modo de Jesus saber se o anúncio fora bem feito é conhecendo o que o povo aprendeu. As variadas respostas das multidões comprometem a qualidade da missão e do anúncio; (b) o tumulto criado no retorno dos discípulos leva Jesus a uma espécie de parada, tipo um retiro. Por isso, Ele se retira para rezar em um lugar afastado; o clima de oração cria também o clima para as perguntas íntimas que irá fazer aos discípulos. 

Considerando esses aspectos, nós podemos, finalmente, olhar para o texto de hoje. A primeira informação apresentada é de que Jesus estava com seus discípulos em um lugar reservado para rezar (v. 18). É próprio de Lucas apresentar Jesus em oração, principalmente como antecedente de tomadas importantes de decisões e de momentos decisivos na sua vida: passou a noite em oração na véspera da escolha dos Doze (cf. 6,12), estava em oração no momento da transfiguração (cf. 9,28), ensinou seus discípulos a rezar (cf. 11,1-2), rezava na turbulenta véspera da Paixão (cf. 22,40ss). Esses são apenas alguns exemplos. Portanto, quando Lucas apresenta Jesus em oração, ele indica a importância do episódio.

No entanto, aquele momento de Jesus sozinho com os discípulos não era apenas de oração, mas, principalmente, de formação. Jesus formava continuamente seus discípulos, considerando a novidade de seus ensinamentos e a forte tendência de má interpretação. Por isso, era necessário passar muitas horas ensinando.

Jesus não ensinava apenas expondo conteúdos, mas perguntando, exortando e provocando. Assim, as perguntas que hoje Ele dirige aos Doze, não constituem uma pesquisa de opinião pública sobre a sua popularidade, mas retratam uma preocupação com a forma como a sua mensagem estava sendo anunciada e acolhida, principalmente após a missão dos Doze em diversos povoados (cf. 9,1-6), pois a qualidade do anúncio era reflexo da formação recebida pelos discípulos. Por isso, Ele se preocupa.

Sua preocupação não é com a popularidade, mas se a sua mensagem está sendo compreendida. De fato, é isso o que preocupa Jesus. Daí a pergunta: "Quem diz o povo que eu sou?" (v. 18). Em outras palavras, Jesus pergunta que imagem o povo está tendo dele. Pela resposta dos discípulos, há uma certa confusão na cabeça do povo, já que uns dizem ser o Batista, outros Elias ou algum dos profetas. Na verdade, os discípulos omitiram algumas imagens de Jesus, pois para os fariseus e outros grupos, Ele não passava de um charlatão. Certamente eles não ouviam apenas comentários positivos a respeito do Mestre que nem parecia mestre!

As respostas selecionadas são uma tentativa de engrandecimento de Jesus da parte dos discípulos, uma vez que estas colocam Ele no nível de personagens importantes da tradição judaica antiga (Elias) e recente (João Batista). Em outras palavras, os discípulos dizem a Jesus que o povão o vê como um profeta. Para Jesus, isso não é satisfatório. Principalmente, porque o seu perfil não se alinha muito com as características dos profetas citados. 

Elias e João Batista foram grandes homens, sem dúvida, mas muito diferentes de Jesus. Elias foi um profeta virtuoso para o seu contexto, mas defensor da guerra em nome de Yhaweh contra o culto a baal (cf. 1 Rs 18 - 19). João Batista, com sua austeridade, preferiu isolar-se no deserto ao invés de lidar diretamente com o povo no dia-a-dia. Portanto, as imagens de Jesus que estavam sendo construídas não eram as mais adequadas. Certamente era um prestígio ser comparado e até confundido com personagens tão importantes. Mas, seu papel, sua metodologia e sua mensagem eram muito diferentes. Portanto, a resposta dos discípulos foi algo preocupante para Jesus. Por isso, Ele quis saber a opinião deles próprios.

Consciente da confusão causada no povo quanto à sua identidade, a pergunta aos discípulos é bem precisa: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (v. 20a), ou seja, e vocês, o que acham de mim? Sejam sinceros... Daí, Pedro toma a palavra e responde prontamente: "Tu és o Cristo de Deus" (v. 20b). Essa resposta afirma a messianidade de Jesus, ou seja, Pedro diz que Ele é o Messias de Deus, portanto, o esperado. Resposta correta, mas também não satisfatória.

Ora, a figura de messias na cabeça de Pedro, era a do messias davídico, portanto, a do restaurador, guerrilheiro e dominador. Era essa a imagem do messias esperado por tantos séculos em Israel, e Pedro, juntamente com os Doze, estavam convictos de ter chegado, e mais ainda dos privilégios que teriam quando Jesus assumisse o poder em Jerusalém. 

Por conhecer a mentalidade de Pedro e, portanto, sua ideia de messias, Jesus o proíbe severamente de contar isso a alguém (v. 21). A severidade da proibição indica a gravidade da afirmação de Pedro. Certamente foi essa a imagem que ele transmitiu de Jesus na missão realizada pouco tempo antes (cf. 9,1-6). Com isso, Jesus diz que é melhor ficar calado que anunciá-lo distorcendo a sua mensagem. 

Após combater severamente a mentalidade equivocada dos discípulos, Jesus procura esclarecer a sua verdadeira identidade.  E, o faz recordando, exatamente, a sua condição de homem, através da misteriosa expressão "O Filho do homem" (v. 22a), o que quer dizer que Ele era verdadeiramente homem. Sendo verdadeiro homem, não estava isento do sofrimento nem da rejeição, muito menos da morte. Por isso, cita aqueles que serão os responsáveis diretos pela sua condenação: os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v. 22b), os três grupos que compunham o Conselho máximo de Jerusalém, o Sinédrio, símbolo do poder. Se Ele será morto pelo poder, é porque sua proposta de vida não contempla esse. Pelo contrário, ao invés de poder, a característica do seu ensinamento é o serviço.

Indo mais além, Ele abre completamente o jogo: Esse homem a quem vocês estão seguindo, "deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia" (v. 22c). Certamente, Pedro e seus companheiros jamais tinham imaginado que o destino do Messias seria esse.

Como tínhamos recordado no início, essa recolhida com os Doze em lugar reservado não seria apenas para rezar, mas também para formar e ensinar, e eis, então,  o ápice da formação: Esse messias vai sofrer muito, até morrer; porém, há de ressuscitar ao terceiro dia, ou seja, em plenitude. Se vai morrer verdadeiramente como homem, vai ressuscitar, também verdadeiramente, por ser Deus.

O autor do Evangelho não descreve a reação dos Doze após as afirmações do versículo 22, mas certamente ficaram perplexos, tristes e até indecisos. As entrelinhas apontam para isso, o que se conclui com a sequencia do texto (v. 23): "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga"; se estavam só Ele e os Doze, isso foi direcionado para eles. Provavelmente, alguns pensaram em desistir do seu seguimento ao ouvi-lo falar de morte e cruz, e isso o leva a abrir cada vez mais o jogo, ou seja, deixa claro quais são as consequências do discipulado. Ainda há tempo de voltar atrás! 

Por fim, suas últimas palavras são, de fato, uma reviravolta na mentalidade dos discípulos. Ele apresenta uma dinâmica totalmente nova, jogando por terra a ideia ultrapassada de messias, presente na mente dos Doze e em Israel como um todo. O seu Reino não pode ser imaginado segundo as concepções habituais de seu tempo.

Há critérios e exigências para o seguimento autêntico de Jesus. Aceitar ou não, é pessoal. Mas, uma vez aceitando, devemos procurar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira identidade e assumir as consequências. Segui-lo não é invocar sua proteção e privilégios; é dar a vida como Ele. Quem tem medo de doar a vida não pode ser seu discípulo.

Última colocação: Se a imagem ou imagens que se tem de Jesus são equivocadas, é porque Ele está sendo mal anunciado!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues




domingo, junho 12, 2016

REFLEXÃO PARA O XI DOMINGO COMUM - LUCAS 7,37 - 8,3

O texto evangélico proposto pela liturgia para o XI Domingo do Tempo Comum compreende uma das cenas mais belas de todo o Evangelho de Lucas: uma mulher de má fama invade a casa onde Jesus está participando de um banquete e rouba a cena. É desse encontro inesperado que se revela uma das principais novidades, senão a maior, de todo o programa de Jesus: Ele acolhe pecadores e perdoa os pecados (v. 48). Além dessa, o texto nos traz outra novidade: a presença de mulheres no discipulado de Jesus (8,1-3), algo escandaloso para a sua época.
O fato de que um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa (7,36) é algo que já nos traz alguns questionamentos, pelo menos, a respeito das motivações para tal convite. É certo que a fama de Jesus estava se espalhando cada vez mais, em virtude dos sinais realizados, principalmente os últimos: a cura do servo do centurião (7,1-10) e a reanimação do filho da viúva de Naim (7,11-17). Nesse último, o fato teve uma repercussão ainda maior, pois Jesus foi reconhecido como um grande profeta (7,16). 
É impossível que esses acontecimentos não tivessem causado curiosidade entre os fariseus. E, uma forma de estarem eles bem à vontade com Jesus para fazer-lhe perguntas, conhecer a sua maneira de interpretar a Lei, seria exatamente em um banquete, oportunidade em que estariam em clima descontraído e, portanto, poderiam fazer as mais variadas perguntas. Seria um momento para a classe farisaica tirar algumas conclusões daquilo que já escutavam sobre Jesus, inclusive sua má fama de comilão e beberrão, amigo de pecadores e publicanos (cf. 7,34-35).
Se eram essas as intenções do anfitrião e dos demais convidados, as mesmas foram contempladas, uma vez que, do nada, entrou uma mulher pecadora na sala onde faziam a festiva refeição (7,37). Era uma pecadora pública, cuja fama  era conhecida em toda a cidade. Daí, o fato de a tradição ter intitulada-lhe de prostituta, o que pode ser confirmado pelos seus gestos obscenos para a época: soltar os cabelos (7,38). De fato, o cabelo de uma mulher, no mundo bíblico, era considerado parte íntima, e portanto, tinha um valor erótico, por isso, devia estar sempre coberto.
Somente homens poderiam participar de um banquete como esse. A refeição era realizada na sala, onde ficavam somente o anfitrião com os convidados. A sala ficava aberta para rua, para que aqueles que passassem pudessem perceber que estava havendo festa e, assim, fazer algum juízo sobre a qualidade do banquete. As mulheres e as crianças permaneciam na cozinha ou em outros aposentos da casa; não poderiam participar, nem mesmo olhar para a sala. 
Foi, certamente, em momento de distração que a mulher pecadora entrou. Ela soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu (7,37) e para lá se dirigiu consciente de todos os perigos: ela poderia ser identificada logo na chegada e, até apedrejada. Portanto, sua decisão de ir até lá foi corajosa; ela queria encontrar-se com Jesus a qualquer custo, pois também ela tinha notícia da fama de Jesus, sabia que Ele acolhe pecadores (cf. 7,34-35).
Ao contemplar Jesus, a sua comoção é geral, não contendo-se, derrama muitas lágrimas, banhando, com as mesmas, os pés de Jesus e enxugando-os com os cabelos (7,38). Enquanto ela demonstrava sinceridade, arrependimento e alegria por, finalmente, ter encontrado um homem que não lhe tinha olhado com segundas intenções. Antes de seu encontro com Jesus, ela só tinha recebido dois tipos de tratamento: uns se aproximavam para possui-la e outros para julgá-la. Por isso, suas lágrimas são de alegria, não de remorso; alegria por ter recebido atenção de um homem que não a condenava nem a desejava, e isso foi decisivo para o seu arrependimento e mudança.
A cena é comovente e forte, a ponto de muitos biblistas considerarem um dos trechos mais belos e profundos de todo o Evangelho de Lucas. Para alguns, é a obra prima de todo o conjunto do terceiro Evangelho. 
O comportamento de Jesus diante dela levou o fariseu a tirar também uma conclusão, míope e mesquinha, é claro, como é típico de quem vive à sombra da lei: Se esse homem  fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora (7,39). Nem foi necessário que o anfitrião expressasse esse pensamento em alta voz, mas só no pensamento, e Jesus conhece o pensamento de cada um. O fariseu conclui que não passa de farsa a fama de Jesus como profeta. Isso porque ele também não sabia o que é ser profeta, pois os seus olhos voltados rigidamente para a Lei não permitiam.
Conhecendo seu pensamento, Jesus conta uma pequena parábola, e nessa, coloca em cena o próprio fariseu. Ao perceber que a parábola lhe fora dirigida, diante da pergunta de Jesus, sobre quem amará mais ao credor: aquele a quem pouco foi perdoado ou aquele a quem muito foi perdoado, a sua resposta é fria, própria de quem não absorveu o ensinamento de Jesus: Acho que é aquele ao qual perdoou mais (7,43).
A partir da resposta recebida, Jesus advoga em favor da mulher, mais uma vez, e elenca alguns aspectos dos quais sentiu falta ao ser acolhido na casa do fariseu. Esse faltou com elementos básicos de cordialidade no mundo judaico, enquanto a pecadora esbanjou amor, acolhida e arrependimento com seus gestos aos pés de Jesus.
Aos olhos do fariseu anfitrião, Simão, e demais convidados, as aberrações de Jesus continuam quando Ele diz à mulher: Os teus pecados estão perdoados (7,48). Ora, como pode, aquele que nem profeta é, perdoar pecados, se essa é prerrogativa de Deus, apenas? Com isso, Lucas, artisticamente, apresenta mais um paradoxo desconcertante: para quem dizia que Jesus nem profeta era, Ele mostra que é Deus, tendo autoridade para perdoar pecados e justificar. Certamente, tinha acabado o clima para o banquete continuar.
Para concluir, não podemos esquecer os três últimos versículos do trecho, já no capítulo seguinte (8,1-3): a presença de mulheres no discipulado de Jesus, andando com Ele e os doze, são a prova concreta de sua acolhida e abertura universal. Certamente, a pecadora do banquete tornou-se discípula também! E, com isso, mais uma vez, Ele tem sua reputação posta em questão pelos fiéis observadores da Lei, mas, ao mesmo tempo revela o rosto misericordioso do Pai, por tantos anos encoberto pelas cortinas da lei, do rigor e do fundamentalismo de outrora e de hoje. 


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, maio 28, 2016

REFLEXÃO PARA O 9º DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 7,1-10

Certamente o que mais chamará a atenção no Evangelho deste 9º Domingo do Tempo Comum será a cura feita por Jesus. O seu poder curador será super-exaltado, quando, na verdade, não é o centro da mensagem na perspectiva do autor, Lucas.
De fato, o texto proposto, o trecho de Lucas 7,1-10, apresenta a cura de um servo de um centurião romano. O mesmo episódio é relatado também por Mateus 8,5-13, embora a versão de Lucas seja mais rica em detalhes e significado.
O fato ocorreu logo após Ele ter terminado de 'falar para o povo' (v. 1). Ora, essa fala de Jesus, refere-se ao discurso no qual Ele proclamou as bem-aventuranças e as maldições, sendo estas últimas, exclusivas de Lucas, já que Mateus apresenta também as bem-aventuranças e até com mais profundidade em relação a Lucas.
O cenário da cena é a cidade de Cafarnaum, lugar muito importante para o ministério de Jesus. Era uma cidade alfandegária e, obviamente, munida de forte presença militar. Daí, não ser novidade o fato de que 'havia ali um oficial romano' (v. 2). Trata-se de um centurião, um chefe militar responsável por um grupo de cem soldados.
Assim como os cobradores de impostos, geralmente, os militares também não eram bem vistos pelo povo, uma vez que pertenciam ao aparato estatal do império romano e, consequentemente, eram também ele agentes de exploração. Inclusive, em muitos casos os cobradores de impostos pediam proteção aos soldados, quando a população negava-se a pagar as taxas.
Porém, o texto deixa claro que esse centurião específico era diferente dos demais. Não era visto pelo povo judeu como um inimigo, mas como um homem estimado, conforme as referências dadas a Jesus pelos anciãos (vv. 4-5). Suas credenciais o aproximam de um outro centurião também apresentado por Lucas com características muito semelhantes: Cornélio, personagem dos Atos Apóstolos (cf. At 10,1-33), homem temente a Deus e estimado pelo povo judeu, mesmo sendo pagão.
Ainda sobre as qualidades do oficial romano, uma que ainda se sobressai sobre aquelas apresentadas pelos anciãos judeus a Jesus (vv. 4-5) é a sua estima pelo seu escravo doente (v. 2), o qual vem erroneamente chamado de empregado na tradução do texto litúrgico. O texto grego traz o termo δουλος (dulos), cujo significado é escravo ou servo. Para o trabalhador remunerado ou empregado, o termo correspondente na língua grega é εργατης (ergates). Portanto, chama-nos a atenção o fato de um oficial romano querer tanto bem a um escravo, a ponto de preocupar-se bastante com ele, enviando duas comitivas a Jesus: uma de anciãos judeus (v. 3) e outra de amigos (v. 6).
Aos poucos, os motivos da estima do povo judeu pelo oficial, algo raro, vão ficando cada vez mais claros. Sentimentos como carinho (v. 2), generosidade (v. 5) e humildade (v. 6) não eram comuns no imaginário popular judaico para um soldado romano. E, muito menos fé (v. 9).
Porém, Lucas não está fazendo uma apologia ao exército romano com esse episódio. O que ele quer, na verdade, é apresentar o universalismo da mensagem de Jesus e, consequentemente, de sua ação. Ele quer mostrar para suas comunidades que não pode haver distinção entre os destinatários do Evangelho. Não importa se alguém é de origem judaica ou pagã. O que importa é reconhecer o Senhorio de Deus na pessoa de Jesus Cristo, através da fé, acima de tudo.
O soldado romano era o protótipo do rejeitado no mundo judaico. A atitude de Jesus diante dele é um convite à comunidade cristã, a Igreja, a abrir mão de todo e qualquer tipo de preconceito e discriminação. Lucas reforça a sua tese ao mencionar que a fé do oficial deixou Jesus admirado (v. 9). É importante fazer essa observação por que, de acordo com os quatro Evangelhos, é muito raro Jesus se admirar. Somente em duas ocasiões se diz que ele 'ficou admirado': aqui em Lc 7,9 (e no texto paralelo de Mateus 8,10) e em Marcos 6,6, sendo que nesse último, o motivo da admiração é exatamente o contrário do episódio de hoje: é a falta de fé dos judeus, particularmente de seus próprios conterrâneos.
Portanto, o que deixa Jesus admirado é a fé e a falta de fé. Seria bem mais compreensível a fé dos israelitas e a incredulidade dos pagãos. Mas é exatamente o contrário: a fé dos pagãos e a incredulidade dos judeus, o que vai ser uma marca das comunidades de Lucas, segundo sua segunda obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.
Para concluir, retomamos o que afirmamos na introdução: o que mais chamaria a atenção do Evangelho seria a cura do servo. No entanto, para as intenções de Lucas, o mais importante é a acolhida da mensagem de Jesus da parte dos pagãos, como antecipação da trajetória da Igreja primitiva e a certeza de que não é necessário o contato físico para receber ação salvífica de Jesus, pois, nesse caso, Ele curou o servo à distância. Com isso, Lucas combate a presunção de cristãos que vangloriavam-se de ter convivido com o Jesus terreno, sentindo-se superiores àqueles que abraçaram a fé posteriormente.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

domingo, maio 01, 2016

6º DOMINGO DA PÁSCOA

Com o Evangelho deste sexto domingo da páscoa (Jo 14,23-29), continuamos a contemplar Jesus com seus discípulos na última ceia, segundo o evangelista João. É o ápice do ensinamento de Jesus aos seus, quando lhes dá o seu testamento, o qual apresenta o amor como palavra-chave.

Antes de nos determos ao texto proposto, é indispensável recordar o versículo que o precede (v. 22): “Judas – não o Iscariotes – perguntou-lhe: Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo? ”. Portanto, o que Jesus diz a partir do versículo 23 é a sua resposta à pergunta de Judas.

Jesus continuava o testamento e falava exatamente da sua identidade com o Pai. Antes, tinha falado da identidade do discípulo com Ele mesmo, apresentando o amor como o instrumento único de medida. Assim, a pergunta de Judas (não o traidor!) revela o medo e a fraqueza da comunidade dos discípulos: se ele questiona porque Jesus se revela somente a eles e não ao mundo, é porque não se sente capaz de amar à maneira de Jesus, como exigia o novo mandamento, a ponto de ele mesmo é ser revelação de Jesus ao mundo.

Ora, Jesus se revela aos discípulos esperando que estes dêem, perante o mundo, um testemunho capaz de tornar conhecido o seu próprio amor (cf. Jo 13,35). Em outras palavras, Jesus quer que o mundo o reconheça pelo testemunho dos seus discípulos. É pela vivência do seu amor pelos discípulos que Jesus quer se tornar conhecido.

Jesus responde ao discípulo dizendo que Ele e o Pai se revelam naquele que o ama, e quem o ama guarda a sua palavra (v. 23). A sua palavra, aqui, é o seu mandamento, aquele do amor (cf. Jo 13,35). Assim, não apenas Ele, mas também o Pai se manifestará, porque os dois, Jesus e o Pai, vem fazer morada no discípulo (v. 23).

Os discípulos queriam manifestações extraordinárias, coisas mirabolantes e espetaculares, como milagres e curas. A resposta de Jesus mostra a distância que há entre a sua proposta e a expectativa dos discípulos. Seu canal de manifestação é apenas o amor. Quem ama de verdade se torna morada de Jesus e do Pai.

Percebendo a incompreensão e incapacidade dos discípulos viverem verdadeiramente o amor, Jesus assegura-lhes que sua partida do meio deles não significa ausência. Continuará presente junto com o Pai naqueles que guardarem sua palavra (v. 23). Assim como ele está sendo acusado pelo mundo (condenado), por ter amado verdadeiramente, também seus discípulos serão, caso amem como ele mandou.

Por isso mesmo, ele enviará o Espírito Santo com a função de advogado:  para + klhtoj = paracletoj. Somente João usa essa palavra. Trata-se de uma palavra grega composta: para (junto a) +  klhtoj (chamado), cujo significado literal é “chamado a estar junto”.  Como Jesus está sendo processado, seus discípulos também serão e, por isso, necessitarão de alguém perto para defendê-los das acusações. Este será o Espírito Santo, o qual os instruirá e os recordará constantemente (v. 26), sobretudo quando estes esquecerem o essencial: o amor.

Jesus se despede desejando-lhes a paz (v. 27). Trata-se de uma saudação comum entre os judeus. Tanto se desejava paz ao chegar quanto ao sair. Era uma forma de comprimento. Mas, Ele não quer apenas repetir uma formula. Na verdade Ele amplia enriquece seu signficado, dando um novo sentido. Por isso, Ele não a dá como o mundo. Com essa expressão, Ele faz uma dupla crítica: aos judeus e aos romanos. A crítica aos judeus consiste em tornar a paz uma realidade capaz de superar as perturbações do coração e o medo (v. 27), e não um mero formalismo. Aos romanos ele dirige uma crítica irônica, uma vez que no seu tempo vigorava a famosa ‘pax romana’, uma farsa do império para ofuscar qualquer movimento libertador.


A paz de Jesus é única! Não há uma ‘paz’ para saída e outra para chegada, mas uma paz permanente, porque Ele vai para o Pai (v. 28), mas permanece junto com o Pai naqueles que guardam suas palavras, ou seja, naqueles que amam!


Francisco Cornelio Freire Rodrigues

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35 (ANO A)

A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo propõe a continuação da leitura do “discurso comunitário” do Evangelho de Mateus. O trec...