sábado, abril 12, 2025

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – LUCAS 22,14 – 23,56 (ANO C)



Na liturgia do Domingo de Ramos, todos os anos, faz-se a leitura de uma das narrativas da paixão de Jesus. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, o texto lido é o relato de Lucas. Dada a sua extensão, a liturgia salta alguns versículos, propondo a leitura a partir do relato da última ceia, e terminando com o sepultamento: Lc 22,14–23,56. Mesmo assim, a leitura proposta continua longa, totalizando cento e treze versículos. Essa longa extensão, obviamente, nos impede de fazer um comentário pormenorizado de cada versículo. Por isso, procuraremos colher a mensagem global do texto e, na medida do possível, enfatizar alguns aspectos específicos de Lucas, a partir de versículos específicos, já que é o evangelista que mais apresenta particularidades, em relação aos demais sinóticos (Marcos Mateus).

Os relatos da paixão e morte de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos evangelhos. Embora o nosso foco nesse ano seja especificamente o relato de Lucas, os aspectos introdutórios que abordaremos valem também para os demais evangelhos. Ora, as primeiras páginas escritas dos livros que hoje conhecemos como evangelhos foram exatamente as narrativas da paixão e morte de Jesus. Como a catequese e a vida litúrgica das primeiras comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito. Essas dúvidas se traduziam em perguntas deste tipo: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só ressuscita quem passa pela morte. Logo, era necessário contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto dos líderes religiosos judeus, a morte se tornava cada vez mais presente nas comunidades, e o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passava a ser sinal de perigo. Para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. Para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e sua resistência. E os evangelhos, enquanto livros, surgiram como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início, com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, no caso de Lucas desde o anúncio do nascimento de Jesus, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso. Logo, o seu desfecho final foi o rechaço da parte desses sistemas. Durante toda a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não aceitavam: o amor ao próximo, a justiça, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida às mulheres e excluídos em geral, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces pelos sistemas que não toleravam essa mensagem. É importante recordar que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação, nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estava toda voltada para o Pai do céu, tendo em vista a construção do seu Reino na terra.

O texto que estamos lendo situa Jesus com seus discípulos em Jerusalém, para onde tinham ido celebrar a Páscoa, a festa dos judeus por excelência. Jesus é condenado à morte nessa cidade; ao dirigir-se para lá, ele já tinha consciência do que iria acontecer, pois ele mesmo tinha advertido durante a viagem que, historicamente, «Jerusalém mata os profetas e apedreja os que foram enviados» (Lc 13,34); como ele pertencia a essas duas categorias, sua condenação e morte era inevitável. Na verdade, podemos dizer que, em Jerusalém, Jesus recebe a sentença, mas a sua condenação começou ainda em Nazaré, na sinagoga, quando se apresentou como «ungido, portador do Espírito do Senhor para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4,18-30). Sua morte trágica, portanto, foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.

A Páscoa, festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual comia-se o cordeiro imolado, símbolo da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos (Lc 22,14-20), Jesus mesmo se apresenta como cordeiro, doando a sua existência. Ele diz que «desejou ardentemente comer aquela ceia» (Lc 22,15); essa expressão significa a sua paixão e o zelo para consumar a obra do Pai; é claro que nem ele e nem o Pai desejaram a sua morte, mas essa era uma realidade inevitável, àquela altura, pois em seu ministério tinha colocado em confronto dois projetos: o projeto de vida, idealizado pelo Pai, marcado pela prática constante do amor, e o projeto de morte, sustentado pelas instituições religiosa e política, marcado pelas disputas de poder, pela corrupção, opressão e violência. Por isso, aquela ceia, sendo a última, fora desejada por ele com grande paixão.

Dois fatos marcantes e dramáticos, certamente até mais dolorosos do que a cruz, foram vividos por Jesus logo após a ceia: o anúncio da traição de Judas (22,21-23), e a disputa por poder pelos discípulos, o que revelava pouca compreensão do que ele tinha ensinado até então (22,24-30). Lucas é o único evangelista que mostra Jesus chamando a atenção dos discípulos sobre o perigo da ambição e da sede de poder no contexto da última ceia, propondo o serviço como resposta. Os outros evangelistas sinóticos fazem isso ainda durante o ministério, ainda na Galileia (Mc 9,33-34; 10,35-45; Mt 20,20-28). Este fato revela que o apego ao poder nas estruturas eclesiais é um problema que tem suas raízes ainda nas origens do cristianismo. Isso, obviamente, prejudica a credibilidade e a eficácia do anúncio. Por isso, a recomendação de Jesus para que os discípulos tenham somente ele como exemplo, e não imitem jamais as estruturas de poder e as formas como esse é exercido pelos «reis das nações, chamados de benfeitores» (22,25). Quando o serviço é substituído pelo poder em uma comunidade, é sinal de que essa se afastou do projeto de Jesus.

Outro acontecimento doloroso para Jesus foi, sem dúvidas, a negação de Pedro (22,31-34.54-60). Também esse fato mostra o quanto os discípulos tiveram dificuldade em assimilar a proposta de vida de Jesus. Mesmo após tantos ensinamentos, durante cerca de três anos, desde o início na Galileia, eles chegaram em Jerusalém ainda sem compreender nem aceitar o destino de Jesus. À debilidade de Pedro, bastou um olhar sincero de Jesus para a sua conversão: «então o Senhor se voltou e olhou para Pedro. (...). Então Pedro saiu para fora e chorou amargamente» (22,60a.62). Quando o olhar de Jesus é correspondido, a conversão acontece. Esse olhar não foi de condenação, mas de compreensão da fragilidade humana; o choro de Pedro, marcado pelo remorso, é a prova da necessidade constante de conversão no seio da comunidade. Às vezes, a conversão só é exigida de quem vem de fora, esquece-se que é nos membros da comunidade que mais há necessidade, pois são esses os que mais negam a Jesus, quando deixam de reproduzir o seu amor nas relações, na maneira de viver e na confiança ao Pai.

Um dos traços mais característicos de Jesus em seu “retrato” pintado por Lucas é a prática constante da oração. Para esse evangelista, a oração é essencial, por isso, ele diz que todos os momentos importantes da vida de Jesus foram marcados pela oração, começando pelo batismo (Lc 3,21) até a paixão, tanto no monte das Oliveiras (Lc 22,39-46), quanto no processo (23,34), e até na própria cruz (Lc 23,46). E a oração de Jesus durante a Paixão é um reforço e confirmação dos elementos essenciais do Pai Nosso, a sua oração por excelência: «Que seja feita a tua vontade” (22,42); “para não cair em tentação» (22,46); «perdoa-lhes» (23,34). Para ser autêntica e eficaz, a oração depende necessariamente de levar em conta a vontade do Pai. Nesse sentido, pode-se dizer que a vida de Jesus foi uma oração contínua, pois foi toda voltada para a vontade do Pai, Deus. E fazer a vontade de Deus consiste, sobretudo, em lutar pela construção do seu Reino aqui na terra.

O duplo julgamento de Jesus, um político e outro religioso, ou seja, diante do sinédrio ( 22,66) e de Pilatos-Herodes-Pilatos (23,1-25), mostra a covardia e a hipocrisia da união de forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, acusa Jesus de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável.

O outro traço marcante de Jesus que Lucas evidencia ao longo de toda a sua obra, a misericórdia, também é destacada no drama da paixão. Se ele veio ao mundo para trazer anunciar a Boa-Nova, veio para manifestar o amor do Pai, isso o fez até as últimas consequências, amando e perdoando. Pede perdão ao Pai pelos seus algozes (23,34), e faz da cruz um sinal de conversão e salvação. Foi crucificado entre dois malfeitores; não se sabe se eram ladrões como transmitiu a tradição, poderiam também ser assassinos ou praticantes de outros tipos de crime, uma vez que o termo empregado pelo evangelista designa o bandido em geral (em grego: κακούργος - kakúrgos). Para Lucas, da cruz Jesus continua salvando, principalmente aos marginalizados, como eram aqueles considerados bandidos. Aqui, merece destaque mais uma particularidade de Lucas: é típico dele apresentar dois personagens juntos com comportamentos opostos: Marta e Maria (10,38-42), o pobre Lázaro e o rico avarento (16,19-31), o fariseu e o publicano (18,9-14). Ele repete essa técnica literária também com os dois malfeitores crucificados ao lado de Jesus: um deles, repete o discurso das autoridades e da maioria, e escarnece de Jesus; o outro, percebe que Jesus está sendo injustiçado e vê n’Ele a possibilidade de salvação, por isso, suplica-lhe: «Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino» (23,42). A esse, Jesus dá a mais preciosa das garantias: «Ainda hoje estarás comigo no paraíso» (23,43).

Para quem acredita em Jesus e aceita compartilhar com ele a sua vida, a salvação é sempre um acontecimento do presente, do “hoje”, uma palavra cara para a teologia de Lucas, desde o anúncio do nascimento de Jesus aos pastores (2,11); na sinagoga de Nazaré, a Escritura se cumpriu “hoje” (4,21), a salvação entrou “hoje” na casa de Zaqueu (19,9). Portanto, a salvação não é uma realidade futura, mas é sempre atual; se salva quem faz comunhão da situação existencial com Jesus hoje. Para o malfeitor crucificado, a salvação aconteceu em um momento até inesperado. O importante para o evangelista e para nós é que, da manjedoura até a cruz, a vida de Jesus foi salvar, libertar, fazer o bem, como dirá Pedro em Atos dos Apóstolos (At 10,38). Salvar, acolher e amar é fazer a vontade do Pai, resgatando o que estava perdido na sua obra; por isso, na cruz, sofrendo dores, o último grito de Jesus é de confiança no Pai, sabendo que lhe foi fiel até as últimas consequências: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito» (23,46). Certamente, o diálogo salvífico com o malfeitor ajudou Jesus dar o seu último grito com mais convicção ainda, sabendo que até ali, a vontade do Pai estava sendo feita, não porque o seu Filho único estava morrendo, mas porque até morrendo, esse Filho liberta, salva.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimatéia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois fora o sinédrio, o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Segundo Mateus, esse homem se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57); isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo grupo ou movimento ao qual pertence. José de Arimatéia alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (23,50-53), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto.

Por último, recordamos a presença das mulheres, também uma categoria por quem Jesus tinha grande simpatia no evangelho de Lucas. As mulheres são as pessoas mais perseverantes em todo o drama da paixão (23,55) e, por isso, serão as primeiras testemunhas da ressurreição. Enquanto os discípulos saem de cena com medo, muito cedo, o último a aparecer foi Pedro, e mesmo assim chorando, as mulheres perseveram até o fim, são as mais solidárias. Na verdade, elas reconheciam o que Jesus tinha feito por elas; até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovido a emancipação e as aceitado como discípulas. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO – LUCAS 19,28-40 (ANO C) – PROCISSÃO





Com a liturgia do Domingo de Ramos, a Igreja abre solenemente a Semana Santa, recordando a entrada decisiva de Jesus na cidade santa de Jerusalém e os últimos momentos da sua vida terrena, ao fazer memória da sua paixão e morte na cruz. Por isso, nesta celebração são lidas duas passagens do Evangelho, compreendidas como reciprocamente complementares. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, as duas passagens são tiradas do Evangelho de Lucas: 19,28-40 e 22,14–23,56. Apesar da considerável distância entre elas, ambas estão intrinsecamente relacionadas, tanto por afinidade quanto por contraste, afinal, aquele que morre na cruz, praticamente abandonado por todos, é o mesmo que foi euforicamente aclamado rei, ao entrar na cidade. Isso torna a liturgia deste domingo, como é a de toda a semana santa, altamente paradoxal. A primeira passagem do Evangelho lida neste dia corresponde ao relato mesmo da entrada de Jesus em Jerusalém, enquanto a segunda consiste na narrativa da paixão, morte e ressurreição. 

Como se sabe, os quatro evangelistas são unânimes em narrar a entrada decisiva de Jesus em Jerusalém, cada um à sua maneira, como acontece com os outros eventos igualmente narrados pelos quatro. Cada evangelista o fez de acordo com suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e as necessidades catequéticas das comunidades destinatárias. Tratemos, portanto, do relato lucano, como prescreve o ano litúrgico vigente. Começamos por recordar que em todos os evangelhos, a entrada decisiva de Jesus em Jerusalém possui grande importância. Se trata de um momento marcante da sua vida com amplas repercussões na vida de seus seguidores, e é isso o que confere tanta relevância ao relato. Pode-se afirmar, contudo, que esse acontecimento adquire um significado ainda mais profundo no contexto do Evangelho de Lucas, especialmente quando se considera o conjunto da obra. Ora, até este ponto – capítulo 19 –, grande parte da narrativa foi construída sob a perspectiva do caminho de Jesus da Galileia a Jerusalém. Portanto, a chegada na grande cidade foi altamente preparada, alimentada por muitas expectativas. Foram praticamente dez capítulos de preparação, nos quais Lucas mostrou Jesus apresentando seus ensinamentos mais profundos e originais. E a entrada em Jerusalém é a conclusão desse percurso. 

O caminho de Jesus para Jerusalém começou ainda em 9,51, quando o evangelista afirmou que ele tomou uma “firme decisão”. Um pouco antes, na transfiguração, com exclusividade, Lucas disse que Moisés e Elias conversavam com Jesus sobre o “êxodo” dele que se consumaria em Jerusalém (Lc 9,30-31). Portanto, ao entrar na cidade, o êxodo começa a acontecer, o que foi amplamente preparado. Ao longo do caminho, o evangelista recordou várias vezes que a meta era Jerusalém, o que vem a recordar de novo, já perto da entrada: «Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém» (v. 28). Ao caminhar à frente, Jesus demonstrava consciência e determinação do que estava fazendo. Estando à frente, ele assumia sua condição de Senhor e mestre, aquele indica o caminho e deve ser seguido. Ele assume um protagonismo único, a ponto de não poder ser substituído por ninguém. Quer dizer que ninguém poderia distraí-lo nem o desviar do seu propósito. O trecho do caminho em que se encontravam, de acordo com este primeiro versículo do evangelho de hoje, era exatamente a penúltima etapa. Já tinham passado de Jericó, onde Jesus fez coisas admiráveis: curou um cego (18,35-43) e provocou a conversão de Zaqueu, um chefe dos cobradores de impostos (19,1-10). O caminho, portanto, estava sendo altamente positivo, enquanto oportunidade de realização do Reino de Deus, mediante o agir compassivo e humanizante de Jesus. 

A última etapa do caminho começa no monte das Oliveiras, de onde já estavam se aproximando, como diz o texto: «Quando se aproximou de Betfagé e Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos» (v. 29). A proximidade destes povoados indica que Jerusalém já estava muito perto, inclusive, já poderia ser vista. O percurso que falta é muito curto, por isso, começam os preparativos para a chegada propriamente. Dos dois povoados mencionados, Betânia ocupa um lugar especial no Novo Testamento, cujo nome pode significar “casa da aflição” ou “casa dos pobres”, duas nomenclaturas que se aplicam muito bem à teologia de Lucas, o evangelista da misericórdia e da clara opção pelos pobres. O monte das oliveiras constitui outro indicativo especial, em todos os evangelhos, e mais ainda na obra lucana, pois é o lugar da ascensão (Lc 24,50; At 1,12): se foi de lá que Jesus partiu para a cruz, será de lá também que partirá para os céus, retornando ao mundo do Pai, após a ressurreição. Com isso, o evangelista ressalta a inseparabilidade entre a cruz e a glória na vida de Jesus, como deve ser na vida dos seus seguidores em todos os tempos. Entre a entrada de Jesus em Jerusalém e sua saída para a ascensão está a totalidade do mistério pascal. 

O monte das Oliveiras, localizada a cerca de três quilômetro de Jerusalém, é sempre um ponto de partida no êxodo de Jesus e da comunidade dos seus seguidores. De lá, ele ordena a dois dos seus discípulos: «Ide ao povoado ali na frente. Logo encontrareis um jumentinho amarrado, que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui» (v. 30). Aqui surge a primeira surpresa do relato, pois até então, desde o início da vida pública, o evangelista não fez qualquer aceno à utilização de um animal de montaria como meio de transporte empregado por Jesus. Em suas andanças pela Galileia, à exceção de quando atravessava o lago de Genesaré em barco, tudo indica que Jesus se locomovia a pé, enquanto desenvolvia sua missão itinerante. De repente, quando o destino já estava tão próximo, fala-se da escolha de um animal para montar. O sentido, obviamente, é teológico. Trata-se de uma ação simbólica que ele vai cumprir, à maneira dos antigos profetas. Ora, os discípulos continuavam alimentando expectativas triunfalistas, imaginando seguir um messias guerreiro, valente. A escolha do jumentinho como montaria serve para tirar de vez todas essas expectativas. O jumento representa o oposto do cavalo, montaria dos guerreiros e poderosos, como os discípulos imaginavam o Messias. Contudo, ao contrário das expectativas, a tradição profética apontava um Messias humilde, montado justamente em um jumentinho novo (Zc 9,9). Mas a expectativa dos discípulos não estava ancorada nesta passagem. 

À ordem dada, os discípulos obedecem e fazem tudo conforme as instruções recebidas, mesmo sem entender: «Os enviados partiram e encontraram tudo exatamente como Jesus lhe havia dito. Quando desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: “Por que estais desamarrando o jumentinho?” Eles responderam: “O Senhor precisa dele”» (vv. 32-34). A princípio, tudo parecia previamente ajustado com os donos do jumentinho, devido à conformidade entre a ordem de Jesus e aquilo que os discípulos encontraram. Mas a pergunta dos donos do jumentinho revela o contrário. Com isso, o evangelista imprime mais dramaticidade à sua narrativa, provocando mais surpresa no leitor. O fato de o “Senhor precisar” do jumentinho ressalta sua predileção pelo que parece desqualificado. Recorda as opções de Deus pelo que é frágil e pequeno. Também revela que Jesus já não se preocupava mais em manter sua messianidade em sigilo. Ele mesmo deseja revelar quem é, até para convencer os discípulos que não era um Messias conforme eles sonhavam, ou seja, guerreiro e valente. É um Messias simples, pobre, desprovido de qualquer recurso que inspire segurança e poder. Um Messias totalmente ao revés das expectativas, embora respaldado pela tradição profética. 

Não se sabe se a justificativa dos discípulos para levar o jumentinho convenceu os proprietários, mas tudo indica que sim, pois eles «levaram o jumentinho a Jesus. Então puseram seus mantos sobre o animal e ajudaram Jesus a montar» (v. 35). Provavelmente, prepararam o jumentinho para Jesus montar a contragosto, vendo ruir as últimas expectativas de sucesso e anseios de grandeza, afinal, estavam preparando uma montaria inexpressiva, incompatível com a realeza e o poder que esperavam possuir o sonhado Messias. Mesmo assim, cederam seus mantos e ajudaram Jesus a montar. Há quem veja nesta dupla atitude uma imagem da missão da Igreja: ceder o que tem para que o Evangelho possa ganhar o mundo, espalhar-se, passar adiante. O manto, na tradição bíblica, é sinal de segurança e dignidade. E a segurança e a dignidade da Igreja consistem exatamente em servir o Evangelho, facilitar seu caminho pelo mundo. Montado, Jesus cumpre seu destino. E, por onde passa, transforma, humaniza e salva, através do seu amor. Ao montar o jumentinho, definitivamente Jesus faz desmoronar todas as aspirações de poder nos seus discípulos. Ele revela de uma vez por todas que o seu Reino não é deste mundo, pois não se configura à maneira como os reis deste mundo exercem o poder. Apesar de não ser deste mundo, é claro que o Reino dele é para este mundo, pois consiste na efetivação do sonho de Deus para este mundo: a instauração da civilização do amor, com a primazia da justiça, da fraternidade e da paz. Por sinal, a paz é outro bem messiânico anunciado pela imagem do jumentinho. Enquanto os reis “normais” usavam cavalos, tradicional instrumento de guerra, Jesus monta um animal que evoca humildade, mansidão e paz. 

Depois de montado, diz o evangelista que «enquanto Jesus passava o povo ia estendendo suas roupas no caminho» (v. 36). Isso quer dizer que ele estava sendo reconhecido como Messias ou pelo menos como cumpridor de um gesto profético. Estender as roupas para que ele passasse significa saudá-lo com as honrarias reservadas a um rei. Isso traz alegria aos discípulos, levando-os a recordar o que ele já tinha feito em favor das pessoas durante o seu ministério. Por isso, «Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinha visto» (v. 37). A descida do monte das Oliveiras é, de fato, a última etapa do caminho para entrar em Jerusalém.  Deus é louvado pelo que Jesus fez em seu nome, pelo seu agir compassivo. Para Lucas, quem louva a Deus por Jesus e o aclama rei é a multidão dos discípulos; são eles quem reconhecem Jesus como Messias e rei, e não toda a multidão dos peregrinos. Também chama a atenção que Lucas, e somente ele, omite qualquer menção aos ramos e palmas estendidos em honra a Jesus.  

Enquanto aclamavam Jesus, «Todos gritavam: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”» (v. 38). Finalmente, Jesus ele é reconhecido como rei. Essa expressão de reconhecimento é feita pela síntese de uma citação do Salmo 118,26 e parte do canto dos anjos pelo nascimento de Jesus, texto do próprio Lucas, no início do seu Evangelho (Lc 2,14). O Salmo citado fazia parte da liturgia das grandes festas de Israel. Jesus é reconhecido rei porque vem em nome do Senhor. E tudo o que ele fez foi promover o Reino de Deus, com seu agir misericordioso em favor de todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas. Ora, vir em nome de alguém significa possuir todas as prerrogativas para agir em seu lugar, trazendo toda a dignidade e autoridade. Com isso, o evangelista expressa a plena identificação de Jesus com Deus, o Pai. De fato, Jesus é o enviado de Deus para revelar plenamente o seu rosto ao mundo. E o rosto de Deus que revelou é todo misericórdia e amor. É um grande avanço que os discípulos o reconheçam como rei, embora recuem pouco tempo depois, durante o processo, como se vê no relato da paixão. E o reconhecem como um rei de paz, que não exerce o poder pela força nem violência. O fato de vir montado num jumentinho já indica isso. 

Como acontece em todos os momentos da vida de Jesus, também na sua entrada em Jerusalém não falta a tradicional oposição, como observa o evangelista: «Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: “Mestre, repreende teus discípulos!”» (v. 39). Essa objeção dos fariseus é mais uma exclusividade de Lucas, como é também a resposta de Jesus a eles. É claro que os fariseus não aceitavam que Jesus fosse aclamado rei pelos seus discípulos e nem pelas multidões. Por isso, querem que Jesus não apenas silencie os discípulos, mas os repreenda, certamente porque viam como blasfema a aclamação, além de perigosa politicamente, pois poderia provocar a reação dos romanos, o que traria consequências para toda a população. A intervenção dos fariseus, portanto, pode ser vista como indício de inveja e, ao mesmo tempo, de medo e precaução, tendo em vista que a proclamação de um judeu como rei significava mesmo uma afronta ao poder dominante, o que era bastante perigoso. Essa é a última participação dos fariseus no Evangelho de Lucas. Isso quer dizer que eles não participam do complô final que levará Jesus à morte na cruz, segundo a perspectiva lucana, apesar de terem sido adversários tão combativos durante sua vida pública.

 À objeção dos fariseus, «Jesus, porém, respondeu: “Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão”» (v. 40). Trata-se de uma resposta carregada de ironia, como costumavam ser suas reações aos questionamentos dos fariseus. Apesar de jamais reivindicar honrarias para si, Jesus não se opõe à aclamação dos discípulos, reconhecendo-o como rei. Se eles conviveram tanto com ele, ouviram seus ensinamentos, viram suas obras, deveriam compreender a natureza da sua realeza. A resposta de Jesus indica tratar-se de algo inevitável, uma realidade que não poderia mais permanecer oculta, como eram a sua realeza e messianidade. Ele é bendito porque vem da parte de Deus. Sua vida é a resposta de Deus ao mundo em todas os sentidos. Seu jeito de amar, de perdoar, de escutar, enfim, seu jeito de viver, constitui a maneira de Deus responder à humanidade inteira, mesmo sem receber qualquer correspondência. Os discípulos, portanto, não devem ser silenciados apenas porque há quem não concorde com eles. Mesmo que ninguém lhes dê atenção, eles devem anunciar Jesus com sua verdadeira identidade, sua condição de enviado de Deus para transformar o mundo pelo amor. Por isso, ele é rei, embora diferente dos reis deste mundo. 

Celebrar o Domingo de Ramos, portanto, é declarar-se da parte de Jesus, assimilando a sua vida e suas posições com a própria vida. É reconhecer o seu amor como único caminho de humanização do mundo, com disposição para assumir as consequências que essa opção implica. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



sábado, abril 05, 2025

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 8,1-11 (ANO C)



Neste quinto domingo da Quaresma, a liturgia interrompe a leitura do Evangelho de Lucas, que fora utilizado nos quatro primeiros domingos, e propõe uma passagem do Quarto Evangelho: João 8,1-11. Trata-se do famoso episódio da “mulher adúltera”, um texto bastante rico e precioso, que teve uma história bastante turbulenta, desde as suas origens. Sobre isso, acenaremos brevemente, apenas a nível de contexto. Dando continuidade à temática central da espiritualidade quaresmal – o convite à conversão e a necessidade da mesma –, é importante perceber a dinâmica e a pedagogia de Jesus revelada nesta passagem: ele não faz esse convite a partir de ameaças e ordens, mas revelando com clareza a misericórdia e o amor de Deus, através de palavras e atitudes. No domingo passado, essa misericórdia foi apresentada de maneira ilustrada, através da parábola do pai misericordioso e os dois filhos (Lc 15,11-32). Hoje, a liturgia dá um passo a mais e mostra Jesus revelando a sua misericórdia, que é a mesma de Deus-Pai, na prática, com um gesto concreto, salvando uma mulher flagrada em adultério que já estava para ser apedrejada. Isso dá credibilidade ao seu ensinamento, pois mostra que ele viveu e praticou tudo o que ensinou. Por isso, era reconhecido como aquele que ensinava com autoridade.

É importante fazer algumas observações a nível de contexto, antes de explorar o texto propriamente. E começamos recordando o amplo debate criado ao longo da história da interpretação, sobre a origem e a posição deste episódio no Evangelho de João. Contata-se que nos quatro primeiros séculos esse texto foi omitido, certamente por ser considerado “perigoso”, pois apresenta Jesus “tolerante” demais com o pecado e as pessoas que pecaram. De fato, nas cópias mais antigas do Quarto Evangelho não consta esta passagem. Ora, o adultério era considerado um dos pecados mais abomináveis, tanto no judaísmo quanto no cristianismo das origens, sobretudo logo após os processos de institucionalização, e quando ainda tinha a estrutura da sinagoga como parâmetro. Na maioria das vezes, o perdão não era concedido às mulheres que praticavam o adultério; os homens sempre conseguiam uma saída, devido à cultura machista tão entranhada na sociedade, o que era respaldada pela religião. Por isso, imaginavam não ser prudente mostrar Jesus perdoando esse tipo de pecado, o que levou este texto a ser, de certo modo, censurado.

O perdão de Jesus a uma mulher adúltera poderia ser visto como um incentivo a essa prática e uma relativização do pecado, segundo a mentalidade das lideranças da Igreja recém institucionalizada. Por sinal, tais lideranças eram figuras masculinas, o que contribuía ainda mais para a marginalização da mulher. A pesquisa exegética das últimas décadas concluiu que, nos primeiros séculos, esse texto circulava como uma página isolada, e poucas pessoas tinham acesso a ele. Quando as comunidades chegaram à conclusão de que não poderiam mais escondê-lo, o colocaram no Evangelho de João, o último dos quatro a ser considerado canônico, já no quarto século, embora tudo indique que se trate de um texto originalmente de Lucas. Diversos fatores contribuem para isso, principalmente o fato de ser Lucas o evangelho da misericórdia, por excelência, e aquele que mais valoriza e defende a figura da mulher. Além disso, o próprio vocabulário do texto se aproxima mais do estilo de Lucas do que de João. A localização original mais provável, portanto, é logo após Lc 21,37-38, onde se diz que «Durante o dia ele ensinava no templo, mas à noite saía e pernoitva no chamado monte das Oliveiras. De manhã cedo, todo o povo ia até ele, no templo, para ouvi-lo». Porém, como nos foi transmitido pelo Evangelho de João, é a partir dele que devemos lê-lo, inclusive tendo em vista seu contexto narrativo. 

Conforme a localização do texto no Evangelho de João, Jesus se encontrava em Jerusalém, participando de uma das grandes festas dos judeus, a festa das tendas (Jo 7,2.14.37; 8,2). Essa era uma das maiores festas de Israel, com duração de uma semana. Durante o dia, Jesus ensinava no templo, e à noite se retirava para dormir fora da cidade, como diz o texto logo no primeiro versículo: «Jesus foi para o monte das Oliveiras» (v. 1). No dia seguinte, «De madrugada, voltou de novo ao templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los» (v. 2). A madrugada significa o rompimento das trevas, a aurora de um novo dia; nos evangelhos, essa expressão é um dado teológico, muito mais do que cronológico; é sempre um aceno à ressurreição; é o momento em que as mulheres descobrirão o sepulcro vazio, no domingo da ressurreição (Lc 24,1); portanto, o episódio que a liturgia propõe hoje é uma cena de ressurreição, é um texto pascal: a mulher flagrada em adultério, prestes a ser apedrejada, faz uma experiência de vida nova ao ser confrontada com a misericórdia, o perdão e o amor de Jesus, o que deixa seus tradicionais adversários –  mestres da Lei e fariseus – sem palavras, inconformados.

Durante as festas, iam pessoas de todas as partes da Palestina para Jerusalém; era uma oportunidade para os pregadores itinerantes apresentarem suas doutrinas e versões de interpretação da Lei; esses se espalhavam pelos vastos átrios do templo, e os peregrinos iam se amontoando em círculos ao redor deles, conforme a curiosidade e a eloquência de cada pregador. Como a pregação de Jesus era sempre polêmica e crítica, talvez conseguisse juntar mais ouvintes do que outros pregadores, pois ele não tinha medo de desmascarar a hipocrisia dos dirigentes, principalmente as autoridades religiosas da época. Ele dizia o que muita gente queria dizer, mas não dizia por medo de repressão. Isso, obviamente, fazia também com que as autoridades lhe vissem como suspeito, aumentando a vigilância sobre ele. 

Conforme o texto, enquanto Jesus ensinava, ele foi repentinamente interrompido, pois «os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles» (v. 3). Os sujeitos da ação são os tradicionais adversários de Jesus: mestres da Lei e fariseus, os fiéis observadores dos preceitos da Lei em seus mínimos detalhes, os mesmos que no domingo passado tinham criticado Jesus por acolher e comer com os pecadores (Lc 15,2). Esses dois grupos são a síntese do fechamento e do conservadorismo na época de Jesus; pregavam um Deus punitivo, exigente, vingativo e, por isso, se escandalizavam com o Deus amoroso de Jesus. Essa é a única vez que esses dois grupos aparecem juntos, cumprindo uma mesma ação, no Evangelho de João, o que é bastante comum nos sinóticos (Mt, Mc, Lc). Ao colocarem a mulher no centro, eles a expõem à máxima humilhação. Estando no centro, todas as atenções se voltam para ela. Também Jesus costumava colocar as pessoas excluídas no centro, mas como promoção da vida e da libertação, ou seja, para humanizá-las, como fez com o homem da mão seca (Mc 3,2) e com a criança, ao propô-la aos seus discípulos como modelo a ser imitado (Mc 9,36). Seus adversários põem o outro no meio para constranger e condenar. 

No Antigo Testamento, o adultério foi usado como sinônimo de idolatria, o principal pecado de Israel. Por isso, a lei era tão rigorosa com esse tipo de pecado. Na época de Jesus o adultério estava entre os piores pecados, comparável ao assassinato. Dizia-se entre os rabinos que quem comete adultério assassinou a pessoa que amava, por isso, a pena era tão rigorosa quanto para um caso de assassinato. Apesar disso, os casos de adultério eram frequentes. Ora, como os casamentos eram verdadeiros negócios, decididos pelos pais, às vezes os noivos só se conheciam no dia do próprio casamento, isso tornava o adultério uma prática bastante comum, embora perigosa, pois as relações não eram motivadas pelo amor, mas pelos interesses econômicos das famílias; por isso, havia muita vigilância, principalmente, sobre as mulheres.

Como representantes de uma religião severa e excludente, os mestres da Lei e os fariseus expuseram somente a mulher. Eles tinham clareza que a Lei prescrevia penas duras também para o homem. Mas pedem uma pena parcial, expondo e ridicularizando a mulher, e silenciando sobre o homem que, certamente, fora flagrado junto. Aqui, essa mulher é imagem de todas categorias de marginalizados e marginalizadas, por quem Jesus toma partido. Como se vê, os mestres da Lei e os fariseus conheciam a sentença prevista: «Disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”»  (vv. 4-5). De acordo com a lei, o apedrejamento era a pena para o adultério quando o casamento ainda estava na primeira fase, a da promessa; porém, essa pena era prevista também para o homem envolvido na relação (Dt 22,23-24). O fato de somente a mulher ser acusada e exposta revela o machismo entranhado na sociedade e na religião. O homem, provavelmente considerado um “cidadão de bem”, não é sequer mencionado.

Como diz o próprio texto, o que os mestres da Lei e os fariseus queriam era colocar Jesus em situação embaraçante, pondo-o à prova (v. 6a): se ele autorizasse o apedrejamento, estaria negando o seu lado misericordioso e contradizendo a sua pregação até então; se negasse o apedrejamento, estaria transgredindo a Lei de Moisés. Isso contribui ainda mais para a aceitação de uma origem lucana do episódio, pois uma das características mais marcantes dos sinóticos é a série de confrontos dos principais grupos religiosos de Israel com Jesus, em Jerusalém, durante o seu curto ministério na grande cidade. Conhecedor das intenções dos seus adversários, Jesus simplesmente os ignora, com a sua típica ironia: «Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão» (v. 6). Sobre esse gesto inusitado, foram levantadas diversas hipóteses sobre o que Jesus escreveu no chão, algumas até folclóricas. São Jerônimo, por exemplo, acreditava que Jesus escreveu os pecados dos acusadores que estavam com pedras na mão, para deixá-los envergonhados e constrangidos. Ora, se estavam no interior do templo, o piso ali não era de barro ou areia, mas de pedras; logo, não tinha como escrever nada ali. Portanto, qualquer hipótese sobre o conteúdo que Jesus escreveu nessa cena, carece de fundamento e de sentido. O gesto de Jesus é, além de irônico, denunciador. Ele olha para o chão por indiferença aos seus acusadores, enquanto pensa na atitude e na resposta adequada que dará. Não escreve nada, apenas simula uma escritura em pedra denunciando a rigidez da Lei por eles observada: uma lei escrita em tábuas de pedra, inflexível e dura como eram os corações deles. 

Com a sua ironia e indiferença, Jesus deixava seus interlocutores impacientes: «Como persistiam em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”» (v. 7). Ao levantar-se para responder, Jesus dá um tom de solenidade à situação e, finalmente, chama para si a responsabilidade. Tendo pensado por um tempo, sua resposta é surpreendente: não toma posição sobre o caso propriamente, não discute o pecado da mulher, mas convida cada um a olhar para si próprio, apelando para o tribunal da consciência: «Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra». Com essa proposta, Jesus desmascara e desarma os acusadores da mulher, e os falsos moralistas de todos os tempos. É uma resposta que não necessita de contrarresposta nem de novas perguntas, mas apenas da coragem de cada um olhar para si, para sua consciência. Certamente, ele deixou a todos em silêncio e pensativos, admirados e sem reação. Por isso, Jesus repete a ironia «E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão» (v. 8). Na primeira vez, simulou a escritura no chão enquanto ele mesmo pensava na sua resposta; dessa vez, faz a simulação enquanto aguarda uma atitude ou resposta dos acusadores.

Envergonhados, certamente, «eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo» (v. 9). É interessante perceber a reviravolta na história: o objetivo dos mestres da Lei e fariseus era colocar Jesus em situação constrangedora, “num beco sem saída”; as coisas se inverteram e foram eles que ficaram embaraçados, em situação desconfortável. É provável que tenham saído ainda mais furiosos com Jesus, mas também a eles foi dirigido um convite à conversão. Jesus não os condenou; esse detalhe é importante que seja bem recordado. Jesus deu aos seus ferrenhos adversários uma oportunidade de conversão, convidou-os a um exame sincero de consciência. Não sabemos se houve conversão da parte deles, mas é possível identificar pelo menos dois sinais importantes: a vida da mulher foi poupada, e cada um reconheceu ser pecador, uma vez que nenhum atirou a pedra. Os primeiros que saíram foram os “mais velhos”, chamados no texto original de “presbýteros” (πρεσβύτερος), uma palavra grega que significa literalmente “ancião”, termo que designava também as lideranças, tanto no judaísmo quanto nas primeiras comunidades cristãs. Por sinal, foi essa mesma palavra que Lucas empregou para referir-se ao filho mais velha, na parábola do pai misericordioso, como vimos no domingo passado (Lc 15,25). Ao empregá-la aqui, o evangelista denuncia a rigidez e a falta de misericórdia nas lideranças das comunidades emergentes. 

Percebendo que todos os acusadores saíram, em silêncio, no meio do povo que escutava seu ensinamento antes da interrupção, «Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”. Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”» (vv. 10-11). É a primeira vez que a mulher acusada tem oportunidade de falar, e é Jesus quem lhe dá essa oportunidade. Essa voz da mulher é a sua própria vida recuperada. Jesus sabia que ninguém a tinha condenado; faz a pergunta apenas para torná-la protagonista, concedendo-lhe plenamente a palavra. Todo ser humano tem direito à fala e à liberdade de expressão. Toda voz deve ser ouvida, principalmente aquelas que foram silenciadas devido à intolerância e à hipocrisia religiosa. No início do episódio, a mulher foi simplesmente jogada no meio, diante de Jesus com seus ouvintes e os próprios acusadores. Ela foi exposta sem poder se defender minimamente. Diante da fúria dos acusadores, essa mulher sentiu-se morta, com suas horas contadas. Diante de Jesus, ela se sente uma pessoa digna, pois sabe que tem quem lhe escute, por isso, ela também fala, se torna realmente sujeita, com dignidade reconhecida. 

As palavras finais de Jesus constituem o ápice da cena e o motivo para esse texto ter sido considerado tão perigoso: «Eu também não te condeno». Para uma religião segregadora, excludente e moralista, um Deus que não condena se torna um perigo e um problema, pois tira também da religião o direito de condenar. Sem a função de julgar e condenar as pessoas, pouca importância teriam as religiões institucionalizadas, afinal, boa parte delas se sustentam por causa do pecado das pessoas. Os evangelhos mostram que não dá para pregar o Deus de Jesus fazendo ameaças, nem promovendo a violência ou destilando ódio. Por isso, para a religião praticada e proposta por Jesus, essa é uma das páginas mais consoladoras. Mais uma vez, se repete o esquema da parábola do pai misericordioso e os dois filhos: assim como o Pai não condenou o filho que voltou, Jesus não condena a mulher; a conversão vem depois, como consequência: «vai e não voltes a pecar!»; não se trata de uma ordem ou imposição, mas de um encorajamento. Tendo se sentido acolhida e compreendida, talvez pela primeira vez em sua vida, é quase certeza que aquela mulher se converteu, mesmo que não se fale mais dela nos evangelhos. 

Sem realizar nenhum sinal extraordinário, Jesus salvou uma vida. Apenas falando, Jesus fez aquela mulher passar da morte à vida; da fúria dos acusadores à ternura de Deus, revelando-se verdadeiro mestre de humanização. O impacto da palavra de Jesus transforma situações. É essa Palavra que precisa ser ouvida, substituindo regras e preceitos, para mudar todas as estruturas perversas que impedem o triunfo da vida digna. Por isso, como afirmamos no início, o evangelho de hoje é uma cena de ressurreição, é um texto altamente pascal, no qual a vida é resgatada, libertada. Que todas as comunidades possam, festivamente, celebrar a alegria de conhecer um Deus que não condena ninguém, como esse que Jesus revela, que é o seu Pai e ele mesmo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, março 28, 2025

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 15,1-3.11-32 ANO C



A liturgia do quarto domingo do tempo da Quaresma, deste ano C, nos dá a oportunidade de ler mais uma passagem exclusiva do Terceiro Evangelho: Lc 15,1-3.11-32. Trata-se da mais conhecida de todas as parábolas de Jesus, que é também a mais rica, tanto do ponto de vista literário quanto teológico. É a verdadeira obra prima de Lucas. Chamada convencionalmente de “parábola do filho pródigo”, ela é considerada a obra-prima de Lucas. O título de “parábola do filho pródigo” foi dado por São Jerônimo, que viveu entre os séculos IV e V, mas nas últimas décadas tem sido bastante questionado, sendo atualmente considerado já inadequado, uma vez que não expressa a verdadeira riqueza do texto, nem exprime a sua totalidade; pelo contrário, até reduz e esconde o seu amplo significado, uma vez que considera apenas um dos personagens. Diante disso, tem sido feitas diversas tentativas de intitulá-la de maneira mais apropriada, tais como “parábola do pai misericordioso” e “parábola do pai e os dois filhos”. O mais importante, no entanto, não é o título, uma vez que esse será sempre insuficiente, tamanha é a riqueza do texto. Por isso, devemos olhar para a parábola em sua inteireza e contemplar a sua riqueza.

É importante perceber que, à medida em que o tempo quaresmal se afunila, o tema da necessidade de conversão também se aprofunda, tornando-se mais explícito na liturgia da Palavra. De antemão, é importante recordar que a primeira necessidade de conversão diz respeito à imagem e à concepção de Deus. A verdadeira conversão, em seu sentido mais profundo, enquanto mudança radical de mentalidade é, sobretudo, a aceitação de um Deus que é pai, cheio de misericórdia e amor, deixando de lado a imagem de um Deus patrão e vingativo, que faz distinção de pessoas. A parábola de hoje visa exatamente isso: apresentar uma nova imagem de Deus, bem diferente daquela que os adversários de Jesus – fariseus e mestres da Lei – tinham em mente. O tema é tão importante, que Jesus conta três parábolas seguidas, denominadas convencionalmente de “parábolas da misericórdia”, ocupando um capítulo inteiro, o que justifica, ainda mais, que Lucas é mesmo o evangelho da misericórdia: “parábola da ovelha perdida e reencontrada” (Lc 15,4-7), “parábola da moeda perdida e reencontrada” (Lc 15,8-10), e a do “pai e os dois filhos”. O ideal é lê-las em conjunto, e a liturgia deste ano nos dará essa oportunidade mais adiante, precisamente no vigésimo quarto domingo do tempo comum. Hoje, nos interessa somente a terceira parábola, que é a mais longa de todo o Novo Testamento, bem como a mais profunda teologicamente, a ponto de ser considerada por grandes estudiosos como o “Evangelho do Evangelho”.

O contexto da parábola é dado pelo próprio texto, em sua introdução, correspondente aos dois primeiros versículos: «Os publicanos e os pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”» (vv. 1-2). Jesus se encontra diante de dois grupos bem distintos entre si: pessoas de má reputação – publicanos e pecadores –, e pessoas muito religiosas e fiéis – fariseus e mestres da lei –. Um desses grupos se destacava pelo mau exemplo, e o outro pelo comportamento exemplar. Esses grupos também se distinguem pelas atitudes opostas diante de Jesus: o primeiro grupo se aproxima dele para o escutá-lo e fazer refeição em comum, enquanto o segundo se aproxima dele para observar seu comportamento e criticá-lo. Os “publicanos e pecadores”, como síntese de todas as pessoas rejeitadas, sobretudo pela religião, se aproximavam de Jesus para escutá-lo porque, finalmente, tinham encontrado, alguém que os acolhia sem discriminações nem preconceitos, sem julgamentos, sem apontar o dedo. Isso terminava comprometendo a reputação de Jesus diante dos representantes e praticantes da religião oficial, “os fariseus e os mestres da lei”, considerados justos, devido à fiel obediência aos mandamentos. Conforme os versículos introdutórios, eles identificam duas atitudes inaceitáveis no comportamento de Jesus: acolher e comer com os pecadores.

Das atitudes de Jesus reprovadas pelos seus adversários, a mais grave, sem dúvidas, era fazer refeição com os pecadores, conforme as normas impostas pela religião judaica da época. Ora, para a mentalidade semita, a refeição não significava apenas o consumo de alimentos para saciar-se, mas um sinal de comunhão, de partilha de vida. As pessoas que sentavam à mesma mesa estavam colocando em comum suas existências, com o jeito de ser e de viver. Além disso, no mundo antigo oriental, as refeições eram servidas em um único prato, que poderia ser colocado no centro da mesa, de onde todos se serviam, ou poderia ir passando de mão em mão, entre os convivas. Logo, quando havia pessoas consideradas impuras na mesa, todos se contaminavam. E os pecadores eram considerados impuros. Por sinal, o termo “pecadores” (em grego: ἁμαρτωλός – hamartolós) possui um significado bastante amplo neste contexto. Alem dos membros da religião que não observavam minuciosamente os mandamentos, designa todas as pessoas que não pertenciam ao povo de Israel e, consequentemente, não faziam parte do judaísmo; inclui também as pessoas que exerciam profissões indecentes, como os cobradores de impostos, os pastores e as prostitutas, bem como os portadores de doenças ou deficiências, como os leprosos, epiléticos, cegos, etc., independentemente de serem de origem judaica ou não. No entanto, era com essas pessoas que Jesus mais se relacionava, no meio delas ele se sentia mais à vontade, pois sabia que estava cumprindo sua verdadeira missão, designada por Deus, o seu Pai. Por isso, seu comportamento era considerado herético, abominável, pelas pessoas religiosas, fiéis defensoras da moral e dos bons costumes na época. Assim, identificamos, de imediato, os destinatários primeiros da parábola:  os fariseus e os mestres da lei. Embora eles fossem considerados justos, reconhecidos pelo comportamento exemplar eram, para Jesus, os primeiros necessitados de conversão.

Passada a contextualização, olhemos para a parábola, que começa com um dado que já identifica que o título de “filho pródigo” não é insuficiente: «Um homem tinha dois filhos» (v. 11). Na verdade, esse versículo é o verdadeiro título da parábola. Com este dado inicial o evangelista já sinaliza que vai apresentar uma relação polêmica, pois, quase sempre, as histórias bíblicas que envolvem dois filhos ou dois irmãos ou irmãs são conflituosas, como por exemplo: Caim e Abel, Isaac e Ismael, Esaú e Jacó, todos no Antigo Testamento, até o episódio de Marta e Maria, no Novo, que também é exclusivo de Lucas (Lc 10,38-42). O grande drama do pai da parábola é ter dois filhos que não se sentem irmãos. Pelas linhas e entrelinhas, a parábola mostra que nenhum dos dois filhos viviam uma relação de amor com o pai, nem entre si. O mais novo, bem mais ousado, toma uma decisão inusitada: «O filho mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”. E o pai dividiu os bens entre eles» (v. 12). Embora não fosse comum para o mundo judeu, era possível que a herança fosse dividida com o pai ainda em vida. Porém, isso significava o rompimento total das relações: era como se o filho morresse para o pai e vice-versa. Quando um filho pedia a parte da herança estava dizendo, embora com outras palavras, que já considerava seu pai morto. Por isso, era uma prática pouco comum, pois causava muito desconforto na família. De acordo com a lei, ao filho mais novo correspondia somente um terço da herança, enquanto dois terços pertenciam ao primogênito (Dt 21,17).

Além de se desligar da família, o filho mais novo rompe também com os laços culturais e religiosos, ao ir para «um lugar distante» (v 13). Aqui já aparece o primeiro traço que identifica o pai da parábola com o Deus-Pai de Jesus: a concessão da liberdade aos filhos. O pai poderia opor-se ao filho, impedindo sua partida e até negando a parte da herança. O filho experimenta a liberdade, mas não mede as consequências de suas escolhas e, com o tempo, sente os efeitos delas (v. 14). A sua degradação chega ao ápice quando ele se torna praticamente escravo de um estrangeiro, submetendo-se a cuidar de porcos (v. 15). Ora, o porco era um animal impuro para os judeus; cuidar desses animais era uma verdadeira humilhação. Passando fome, tem vontade de comer, mas não tem direito sequer à comida dos porcos (v. 16). O reconhecimento da situação de completa penúria e degradação, leva o filho mais novo a uma profunda reflexão, seguida de uma decisão: «Então caiu em si e disse: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”» (vv. 17-19). Aqui, não temos nenhum sinal de conversão, ao contrário do que afirmam as interpretações mais tradicionais. Por isso, é inadequado o uso dessa passagem para fundamentar o sacramento da confissão (reconciliação). As motivações para a reflexão e decisão do rapaz voltar para casa foram meramente materiais: ele não sentiu falta do amor do pai, mas da mesa farta. Por isso, não pensa em reconquistar a dignidade de filho, mas a oportunidade de ser um empregado, pois até aos empregados ele sabe que seu pai trata dignamente. É importante recordar que, mesmo não se tratando de uma conversão propriamente, o filho mais novo reconhece que seu pai é um homem bom, e isso já é um sinal importante, pois nem isso o filho mais velho reconhece, como vai mostrar o final da parábola. 

A decisão do retorno do filho, embora não seja ainda uma conversão, como recordamos anteriormente, é um primeiro passo. Certamente, houve conversão, não tenhamos dúvida, o que deve ter acontecido como resposta natural à acolhida que o pai lhe proporcionou: «Quando ele ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos» (v. 20). A misericórdia e o amor de Deus precedem à conversão, como já tinha ensinado o profeta Oséias e Jesus reforça, sobretudo, com a mensagem desta parábola. Só se converte verdadeiramente quem se sente abraçado e beijado por um pai assim. Merece atenção a intensidade dos verbos empregados no texto para expressar o comportamento do pai: viu, compadeceu-se, correu ao encontro, abraçou e beijou. Tudo é expressivo na maneira do pai comportar-se com o retorno do filho. Contudo, destacamos apenas duas atitudes: correr ao encontro e beijar. Correr era um gesto considerado humilhante; quem tinha dignidade reconhecida não corria ao encontro de ninguém, pois eram os outros quem deviam correr em sua direção. Neste caso, humanamente falando, quem tinha razão para correr era o filho, ao perceber de longe que o pai estava disposto a acolhê-lo novamente. Mas é o pai quem corre, como demonstração do seu imenso amor. A outra atitude surpreendente do pai é “cobrir o filho de beijos”. Num mundo patriarcal, esse gesto era impensável para um pai, pois designava uma atitude tipicamente feminina. Era comum o beijo de saudação a uma visita ilustre, o ósculo da paz (Lc 7,45), mas cobrir o outro de beijos era impensável. No contexto familiar patriarcal da época, um pai beijar um filho homem era sinal de fraqueza, renúncia à autoridade; um comportamento assim só era esperado das mulheres. Tudo isso ajuda a desconstruir a imagem do Deus severo dos fariseus e mestres da Lei. O Deus de Jesus é cheio de amor, não tem outra coisa a oferecer senão amor e compaixão, os meios mais eficazes de humanização. Por isso, representado pelo pai da parábola, ele corre ao encontro e cobre seus filhos de beijos, sobretudo os que se afastaram do seu amor. Nesse gesto, ele se apresenta como pai e mãe, ao mesmo tempo. Por sinal, a parábola não menciona a mãe. Certamente, porque a figura da mãe está fundida na do pai. O pai e a mãe são uma coisa só, como é o Deus de Jesus: seu amor é tão grande, que ele só pode ser mãe também. 

Acolhido pelo pai, o filho começa a fazer sua declaração-confissão (v. 21), como tinha ensaiado (v. 18), mas essa já não tem efeito, pois ele foi amado e perdoado antes. O pai não pede garantia de arrependimento nem promessa de bom comportamento daquele momento em diante. Para ele, não importa o que o filho fez, nem o que disse, nem o que fará; importa apenas que esteja na sua presença, sentindo seu abraço; importa que tenha vida e dignidade. Por isso, quando o filho ainda está fazendo sua ensaiada confissão, o pai o interrompe, pois tem pressa em restituir sua dignidade e festejar o seu retorno: «O pai disse a um dos empregados: “Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”. E começaram a festa» (vv. 22-24). Túnica, anel e sandália são sinais de dignidade e representam a condição de filho reconquistada. Quer dizer que o filho não foi tratado como empregado, como ele mesmo queria, mas como filho intensamente amado. O banquete com o novilho gordo é sinal de grande festa e alegria, indicando a qualidade e a intensidade da acolhida do pai a um filho que se aproxima do seu amor.

Se a parábola fosse mesmo do “filho pródigo”, poderia ter sido concluída logo no versículo 24. De fato, esse versículo constitui o ápice do ensinamento: a passagem da morte para a vida e do perdido para o encontrado; essa dinâmica resume a missão e a vida de Jesus. Por isso, a história termina em banquete. Inclusive, é a festa pelo que foi perdido e reencontrado o que une as três parábolas da sequência narrativa do inteiro capítulo quinze (da ovelha perdida, da moeda perdida, do filho perdido), a ponto de serem apresentadas pelo narrador como se fossem apenas uma. Por meio delas, Jesus justificou aos seus interlocutores diretos – fariseus e mestres da lei – o seu comportamento e acolhida para com os pecadores e publicanos, considerados casos perdidos pelos mais devotos judeus. A misericórdia infinita do Pai já foi mostrada até aqui, quer dizer, o que Deus tem a oferecer a seus filhos: amor, alegria, compaixão. Mas Jesus quer ensinar mais; não basta sabermos que Deus é Pai e nos ama; é preciso vivermos como irmãos. Por isso, a segunda parte da parábola visa o restabelecimento da fraternidade, a começar pela denúncia e superação da autossuficiência e do orgulho dos fariseus e mestres da lei, representados na parábola pelo filho mais velho: «O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança» (v. 25). A presença do filho mais velho no campo significa que ele estava cumprindo seus deveres; é a imagem dos fariseus cumprindo minuciosamente as prescrições da Lei; para eles, qualquer comportamento diferente é inaceitável. A Lei, como obrigação, é privada de alegria, por isso, o som da música, sinal de festa, o incomoda. Ainda a propósito do filho mais velho, chama a atenção que, das diversas palavras gregas que significam velho, o evangelista escolhe exatamente “presbyteros” (πρεσβύτερος), o termo que designava as lideranças nas comunidades judaicas e começava a designar também as lideranças das comunidades cristãs, que viviam uma fase intensa de institucionalização. Com isso, o evangelista denuncia e adverte, ao mesmo tempo, para que as lideranças do cristianismo não reproduzam o modelo de religião que Jesus tanto combateu. 

Curioso, mas precavido, o filho mais velho não enfrenta diretamente a situação, talvez com medo de se contaminar, como os fariseus. Pede informações a um dos criados (v. 26), o qual lhe deixa à par da situação: «É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde» (v. 27). Ao invés de se alegrar com essa notícia, o filho mais velho fica com raiva, o que faz o Pai sair em sua procura (v. 28). É importante como Jesus e o evangelista reforçam os traços do Pai: ele sai em busca de todos, pois a sua casa pertence a todos os seus filhos. Saiu correndo ao encontro do filho menor, e sai também para encontrar o filho maior, que se negava a participar da festa. A queixa do filho mais velho diante do Pai é de quem vivia uma relação retributiva, baseada no mérito, como ele mesmo expressa: «Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado» (vv. 29-30). Além da presunção em reivindicar seus méritos – trabalhar tanto –, o filho mais velho ainda denuncia os erros do outro. Essa é a imagem de quem não se sente filho de Deus, mas servo. Quem não se sente filho, tem dificuldade de reconhecer o outro como irmão, por isso, o filho mais velho chama o mais novo apenas de “esse teu filho”. É a mesma postura dos fariseus e mestres da lei que não se conformam porque Jesus acolhe os pecadores e come com eles (v. 1-2).

Assim como Pai deu liberdade para o filho mais novo ir embora, também não obriga o filho mais velho a entrar na festa; apenas deixa claro que suas relações são livres e gratuitas, não considera os méritos, mas apenas a disposição de deixar-se abraçar por ele, mostrando que tudo o que é seu é também de quem se sente ou quer ser filho seu: «Então o pai lhe disse: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”» (v. 31). Sempre que alguém decide retornar para a casa do pai, a recepção será festiva, porque se trata de uma verdadeira ressurreição: «Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado» (v. 32). Como se vê, o evangelista deixa a parábola aberta, sem conclusão. E isso é uma característica muito marcante das parábolas exclusivas de Lucas. O narrador não diz se o filho mais velho entrou na festa, se reconheceu o outro filho como irmão. Na verdade, o autor quis mostrar, partindo do auditório de Jesus e da sua comunidade, que a conversão é uma necessidade constante de cada pessoa, sendo que, muitas vezes, quem mais necessita é quem se sente mais justo e perfeito. Por isso, a interpretação mais comum atualmente é que nessa parábola o Pai é Deus, indiscutivelmente, Israel é o filho mais velho, o qual tem dificuldade de aceitar os pagãos e pecadores na comunidade, e o filho mais novo é a imagem dos pagãos e pecadores que a comunidade cristã deve acolher sem distinção e sem obrigá-los a observar os preceitos da Torá.

Como nenhum dos dois filhos correspondem ou corresponderam ao amor do Pai, o evangelista convida o leitor e a leitora a ser um terceiro filho, capaz de aprender dos erros e acertos dos dois irmãos da parábola, sobretudo na concepção da imagem de Deus-Pai: alguém que acolhe a todos, independentemente de onde vem e do que fez. É dessa síntese de pagãos e judeus que Lucas construirá a primeira imagem do cristianismo em sua segunda obra (Atos dos Apóstolos). Encontrar-se como filho ou filha, sentindo-se amado ou amada por um Deus que é Pai e ama como mãe, talvez seja o maior ato de conversão que a Quaresma possa proporcionar. Quem acolhe o amor desse Deus se humaniza por meio dele. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


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