quinta-feira, abril 17, 2025

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA – LAVA-PÉS (JOÃO 13,1-15)

Todos os anos, para a missa vespertina da Quinta-feira Santa, a liturgia propõe a leitura de Jo 13,1-15. Esse texto corresponde ao relato do lava-pés, um episódio exclusivo do Evangelho segundo João, que é, certamente, uma das passagens mais conhecidas de todo o Novo Testamento. De fato, desde os primeiros séculos, esse texto tem marcado o cristianismo, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um texto comprometedor, pois mostra que, no momento mais decisivo da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; o cristianismo, portanto, não pode ignorar esse fato. E tanto a localização quanto o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: conforme a divisão clássica do Quarto Evangelho em duas grandes partes – “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21) –, o relato do lava-pés inaugura o “Livro da Glória”, introduzindo a narrativa da paixão de Jesus.

Apresentamos uma pequena contextualização para, em seguida, nos voltarmos diretamente para o texto. A princípio, podemos dizer que chega a causar espanto a diferença entre João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mt, Mc e Lc), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica cinco capítulos: de 13 a 17. Ao longo destes capítulos, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, em forma de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. No Evangelho de João, não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais evangelhos; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia feito em outra ocasião: após o sinal da “multiplicação dos pães” (6,1-15), o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se auto apresentando como o “pão da vida” (6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal importante: «Antes da festa da Páscoa» (v. 1a). O evangelista não nega o contexto pascal no qual Jesus fez a ceia com seus discípulos pela última vez, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. Inclusive, o evangelista costumava referir-se à festa da Páscoa com a qualificação “páscoa dos judeus” (2,13; 11,55), distanciando Jesus das instituições de Israel que tinham desfigurado o rosto de Deus. Agora, ele apresenta Jesus próximo da Páscoa, mas da sua própria Páscoa, tornando-a uma festa da vida, como sempre deveria ter sido. Por isso, Jesus celebra a Páscoa doando a sua própria vida. A Páscoa de Jesus, portanto, não exige ofertas nem sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Celebrando antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois da sua pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, já não tem mais sentido. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na Páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor. Nessa, não há morte, há vida, e vida doada por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova Páscoa, subversiva, por sinal. E é essa Páscoa que a comunidade cristã deve viver e celebrar.

Ao longo de todo o seu Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à «hora de Jesus», anunciando que tudo o que Jesus fazia era preparação para esse momento, e sempre advertia o leitor que ainda não tinha chegado (2,4; 7,30; 8,20; 12,23). Tanto o narrador quanto o próprio Jesus anunciaram a chegada dessa hora. Mais do que uma indicação cronológica, a hora de Jesus é um indicativo teológico, por sinal, um dos mais significativos da obra de João. Essa hora é o cumprimento de todo o projeto de salvação oferecido por Deus, por meio de seu Filho, consumado na cruz e ressurreição. Agora ele mostra que essa hora chegou: «sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai» (v. 1b). É a hora de Jesus retornar ao Pai, após cumprir plenamente sua missão de humanizar e salvar o mundo, por isso é também a consumação da constante glorificação do Pai que ele realizou, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, uma vez que esse fora transformado em casa de comércio (Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço.

Continuando, diz o evangelista que «Estavam tomando a ceia» (v. 2a). A ceia para a mentalidade bíblica não representa apenas o consumo de alimentos e bebidas para matar a fome e a sede, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal; é o momento primordial da vivência do amor-comunhão. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; o rito é a própria vida, são tratadas as questões existenciais mais profundas da comunidade, por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da traição de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles «amados até o fim»; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante. O evangelista é enfático nesse sentido: «o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus» (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da traição de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam; daquela Páscoa ele não passaria. O mal de Judas foi ter sido aliado, se tornado cúmplice do poder que gera morte e, ainda mais, movido por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o «diabo seja posto em seu coração». O conluio com o poder é sempre um pacto diabólico.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus é concretamente demonstrada quando ele «levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura» (v. 4). Certamente, foram grandes o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo a condição de servo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado e uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço deve sempre prevalecer sobre o rito. Em toda a sua vida Jesus demonstrou que veio ao mundo para servir e, ao servir, ele glorificava o Pai, pois a motivação do seu serviço foi sempre o amor, e o Pai o enviou para espalhar amor sobre o mundo. Mas é nessa cena que o serviço amoroso se torna mais forte e até escandaloso, como será demonstrado pela reação de Pedro, mais adiante.

Tendo já deposto o manto e improvisado um avental, na sequência, o texto diz o que Jesus fez: «Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido» (v. 5). Assim como os leitores de hoje ainda ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais devem ter ficado os discípulos que estavam com Jesus à mesa. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica da época. Ora, lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, principalmente nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, as pessoas se sentavam em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era, acima de tudo, uma exigência básica de higiene.

Sendo uma necessidade básica, o lava-pés tornou-se um sinal de hospitalidade e acolhida, no antigo oriente. Ao receber uma visita, o dono da casa oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés, junto ao copo d’água para beber. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: é o sujeito da ação o que causa perplexidade. No cotidiano, eram os escravos quem lavavam os pés dos membros da família e dos possíveis hóspedes. Em certas ocasiões, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa chegava a lavar os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia a dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores e as relações: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo (ou do discípulo). Com esse gesto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos seus discípulos, de outrora e de todos os tempos, que eles devem estar sempre dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia a dia, inclusive nas consideradas mais humilhantes, como lavar os pés uns dos outros.

É claro que houve reação dos discípulos à atitude revolucionária de Jesus. E o primeiro a protestar, como de costume, foi Simão Pedro: «Tu nunca me lavarás os pés» (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel” e um Messias glorioso, deve mesmo ser chocante deparar-se com um “servo”. Por isso, o espanto e a negação; o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também as possibilidades de resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes; essa mentalidade acaba naturalizando um mundo desigual, contrário aos desígnios de Deus. Jesus com suas palavras e gestos quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lavar os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: «Jesus respondeu: Se eu não te lavar não terás parte comigo» (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se tornar servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: «Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça» (v. 9). O exagero da resposta de Pedro revela a sua total incompreensão. Na verdade, com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta revolucionária de Jesus: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter de servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, Pedro estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu gesto: «Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo» (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Logo, para a mentalidade da época, sentar-se à mesa e, ao mesmo tempo, servir eram papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se, e quem sentava não se humilhava servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que se senta à mesa serve, e o que serve senta-se à mesa. O que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais complexas, como dar a própria vida por amor. E Jesus realizou as duas coisas como prova que ele não media esforços para cumprir a sua missão e atender às necessidades das pessoas. Com o lava-pés, portanto, Jesus fez uma recapitulação de toda a sua existência neste mundo. Ele veio para servir e, por isso, viveu intensamente servindo.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos e dos sacerdotes do templo, que fossem eles, os discípulos do Messias, a controlar a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, cobrança de impostos, divisões de classe e uso da violência quando a “ordem” estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu entre os discípulos. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu exemplo: «portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (vv. 14-15). Temos aqui a instituição do serviço como mandamento para a comunidade de Jesus.

A ordem para que os discípulos «façam a mesma coisa» em relação ao serviço, aqui no Quarto Evangelho, equivale ao «fazei isto em memória de mim» da tradição paulina/sinótica sobre a Eucaristia (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). «Fazer a mesma coisa» que fez Jesus, obviamente, não significa repetir o gesto de lavar os pés uns dos outros, o que já não é uma exigência sanitária dos dias atuais; significa a disponibilidade total para o serviço incondicional, motivado pelo amor, na comunidade cristã. A simples repetição do gesto seria transformá-lo em rito. O lava-pés que a comunidade deve fazer permanentemente é a vivência do amor fraterno que traz, como consequência, a disponibilidade para o serviço gratuito e sem distinção. Para isso, é necessário assimilar o estilo de vida de Jesus, com disposição para «amar até o fim», como ele fez. Sem isso, qualquer coisa que se faça em sua memória não passa de encenação.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, abril 12, 2025

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – LUCAS 22,14 – 23,56 (ANO C)



Na liturgia do Domingo de Ramos, todos os anos, faz-se a leitura de uma das narrativas da paixão de Jesus. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, o texto lido é o relato de Lucas. Dada a sua extensão, a liturgia salta alguns versículos, propondo a leitura a partir do relato da última ceia, e terminando com o sepultamento: Lc 22,14–23,56. Mesmo assim, a leitura proposta continua longa, totalizando cento e treze versículos. Essa longa extensão, obviamente, nos impede de fazer um comentário pormenorizado de cada versículo. Por isso, procuraremos colher a mensagem global do texto e, na medida do possível, enfatizar alguns aspectos específicos de Lucas, a partir de versículos específicos, já que é o evangelista que mais apresenta particularidades, em relação aos demais sinóticos (Marcos Mateus).

Os relatos da paixão e morte de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos evangelhos. Embora o nosso foco nesse ano seja especificamente o relato de Lucas, os aspectos introdutórios que abordaremos valem também para os demais evangelhos. Ora, as primeiras páginas escritas dos livros que hoje conhecemos como evangelhos foram exatamente as narrativas da paixão e morte de Jesus. Como a catequese e a vida litúrgica das primeiras comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito. Essas dúvidas se traduziam em perguntas deste tipo: «Como Jesus viveu e morreu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?». Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só ressuscita quem passa pela morte. Logo, era necessário contar como Jesus morreu. Por isso, os relatos da paixão ganharam tanta importância nos primórdios do cristianismo.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto dos líderes religiosos judeus, a morte se tornava cada vez mais presente nas comunidades, e o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passava a ser sinal de perigo. Para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. Para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e sua resistência. E os evangelhos, enquanto livros, surgiram como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início, com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, no caso de Lucas desde o anúncio do nascimento de Jesus, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso. Logo, o seu desfecho final foi o rechaço da parte desses sistemas. Durante toda a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não aceitavam: o amor ao próximo, a justiça, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida às mulheres e excluídos em geral, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces pelos sistemas que não toleravam essa mensagem. É importante recordar que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação, nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estava toda voltada para o Pai do céu, tendo em vista a construção do seu Reino na terra.

O texto que estamos lendo situa Jesus com seus discípulos em Jerusalém, para onde tinham ido celebrar a Páscoa, a festa dos judeus por excelência. Jesus é condenado à morte nessa cidade; ao dirigir-se para lá, ele já tinha consciência do que iria acontecer, pois ele mesmo tinha advertido durante a viagem que, historicamente, «Jerusalém mata os profetas e apedreja os que foram enviados» (Lc 13,34); como ele pertencia a essas duas categorias, sua condenação e morte era inevitável. Na verdade, podemos dizer que, em Jerusalém, Jesus recebe a sentença, mas a sua condenação começou ainda em Nazaré, na sinagoga, quando se apresentou como «ungido, portador do Espírito do Senhor para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4,18-30). Sua morte trágica, portanto, foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.

A Páscoa, festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual comia-se o cordeiro imolado, símbolo da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos (Lc 22,14-20), Jesus mesmo se apresenta como cordeiro, doando a sua existência. Ele diz que «desejou ardentemente comer aquela ceia» (Lc 22,15); essa expressão significa a sua paixão e o zelo para consumar a obra do Pai; é claro que nem ele e nem o Pai desejaram a sua morte, mas essa era uma realidade inevitável, àquela altura, pois em seu ministério tinha colocado em confronto dois projetos: o projeto de vida, idealizado pelo Pai, marcado pela prática constante do amor, e o projeto de morte, sustentado pelas instituições religiosa e política, marcado pelas disputas de poder, pela corrupção, opressão e violência. Por isso, aquela ceia, sendo a última, fora desejada por ele com grande paixão.

Dois fatos marcantes e dramáticos, certamente até mais dolorosos do que a cruz, foram vividos por Jesus logo após a ceia: o anúncio da traição de Judas (22,21-23), e a disputa por poder pelos discípulos, o que revelava pouca compreensão do que ele tinha ensinado até então (22,24-30). Lucas é o único evangelista que mostra Jesus chamando a atenção dos discípulos sobre o perigo da ambição e da sede de poder no contexto da última ceia, propondo o serviço como resposta. Os outros evangelistas sinóticos fazem isso ainda durante o ministério, ainda na Galileia (Mc 9,33-34; 10,35-45; Mt 20,20-28). Este fato revela que o apego ao poder nas estruturas eclesiais é um problema que tem suas raízes ainda nas origens do cristianismo. Isso, obviamente, prejudica a credibilidade e a eficácia do anúncio. Por isso, a recomendação de Jesus para que os discípulos tenham somente ele como exemplo, e não imitem jamais as estruturas de poder e as formas como esse é exercido pelos «reis das nações, chamados de benfeitores» (22,25). Quando o serviço é substituído pelo poder em uma comunidade, é sinal de que essa se afastou do projeto de Jesus.

Outro acontecimento doloroso para Jesus foi, sem dúvidas, a negação de Pedro (22,31-34.54-60). Também esse fato mostra o quanto os discípulos tiveram dificuldade em assimilar a proposta de vida de Jesus. Mesmo após tantos ensinamentos, durante cerca de três anos, desde o início na Galileia, eles chegaram em Jerusalém ainda sem compreender nem aceitar o destino de Jesus. À debilidade de Pedro, bastou um olhar sincero de Jesus para a sua conversão: «então o Senhor se voltou e olhou para Pedro. (...). Então Pedro saiu para fora e chorou amargamente» (22,60a.62). Quando o olhar de Jesus é correspondido, a conversão acontece. Esse olhar não foi de condenação, mas de compreensão da fragilidade humana; o choro de Pedro, marcado pelo remorso, é a prova da necessidade constante de conversão no seio da comunidade. Às vezes, a conversão só é exigida de quem vem de fora, esquece-se que é nos membros da comunidade que mais há necessidade, pois são esses os que mais negam a Jesus, quando deixam de reproduzir o seu amor nas relações, na maneira de viver e na confiança ao Pai.

Um dos traços mais característicos de Jesus em seu “retrato” pintado por Lucas é a prática constante da oração. Para esse evangelista, a oração é essencial, por isso, ele diz que todos os momentos importantes da vida de Jesus foram marcados pela oração, começando pelo batismo (Lc 3,21) até a paixão, tanto no monte das Oliveiras (Lc 22,39-46), quanto no processo (23,34), e até na própria cruz (Lc 23,46). E a oração de Jesus durante a Paixão é um reforço e confirmação dos elementos essenciais do Pai Nosso, a sua oração por excelência: «Que seja feita a tua vontade” (22,42); “para não cair em tentação» (22,46); «perdoa-lhes» (23,34). Para ser autêntica e eficaz, a oração depende necessariamente de levar em conta a vontade do Pai. Nesse sentido, pode-se dizer que a vida de Jesus foi uma oração contínua, pois foi toda voltada para a vontade do Pai, Deus. E fazer a vontade de Deus consiste, sobretudo, em lutar pela construção do seu Reino aqui na terra.

O duplo julgamento de Jesus, um político e outro religioso, ou seja, diante do sinédrio ( 22,66) e de Pilatos-Herodes-Pilatos (23,1-25), mostra a covardia e a hipocrisia da união de forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, acusa Jesus de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável.

O outro traço marcante de Jesus que Lucas evidencia ao longo de toda a sua obra, a misericórdia, também é destacada no drama da paixão. Se ele veio ao mundo para trazer anunciar a Boa-Nova, veio para manifestar o amor do Pai, isso o fez até as últimas consequências, amando e perdoando. Pede perdão ao Pai pelos seus algozes (23,34), e faz da cruz um sinal de conversão e salvação. Foi crucificado entre dois malfeitores; não se sabe se eram ladrões como transmitiu a tradição, poderiam também ser assassinos ou praticantes de outros tipos de crime, uma vez que o termo empregado pelo evangelista designa o bandido em geral (em grego: κακούργος - kakúrgos). Para Lucas, da cruz Jesus continua salvando, principalmente aos marginalizados, como eram aqueles considerados bandidos. Aqui, merece destaque mais uma particularidade de Lucas: é típico dele apresentar dois personagens juntos com comportamentos opostos: Marta e Maria (10,38-42), o pobre Lázaro e o rico avarento (16,19-31), o fariseu e o publicano (18,9-14). Ele repete essa técnica literária também com os dois malfeitores crucificados ao lado de Jesus: um deles, repete o discurso das autoridades e da maioria, e escarnece de Jesus; o outro, percebe que Jesus está sendo injustiçado e vê n’Ele a possibilidade de salvação, por isso, suplica-lhe: «Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino» (23,42). A esse, Jesus dá a mais preciosa das garantias: «Ainda hoje estarás comigo no paraíso» (23,43).

Para quem acredita em Jesus e aceita compartilhar com ele a sua vida, a salvação é sempre um acontecimento do presente, do “hoje”, uma palavra cara para a teologia de Lucas, desde o anúncio do nascimento de Jesus aos pastores (2,11); na sinagoga de Nazaré, a Escritura se cumpriu “hoje” (4,21), a salvação entrou “hoje” na casa de Zaqueu (19,9). Portanto, a salvação não é uma realidade futura, mas é sempre atual; se salva quem faz comunhão da situação existencial com Jesus hoje. Para o malfeitor crucificado, a salvação aconteceu em um momento até inesperado. O importante para o evangelista e para nós é que, da manjedoura até a cruz, a vida de Jesus foi salvar, libertar, fazer o bem, como dirá Pedro em Atos dos Apóstolos (At 10,38). Salvar, acolher e amar é fazer a vontade do Pai, resgatando o que estava perdido na sua obra; por isso, na cruz, sofrendo dores, o último grito de Jesus é de confiança no Pai, sabendo que lhe foi fiel até as últimas consequências: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito» (23,46). Certamente, o diálogo salvífico com o malfeitor ajudou Jesus dar o seu último grito com mais convicção ainda, sabendo que até ali, a vontade do Pai estava sendo feita, não porque o seu Filho único estava morrendo, mas porque até morrendo, esse Filho liberta, salva.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimatéia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois fora o sinédrio, o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali, naquela instituição, tinha pessoas boas. Segundo Mateus, esse homem se tornou até discípulo de Jesus (Mt 27,57); isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado apenas pelo grupo ou movimento ao qual pertence. José de Arimatéia alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (23,50-53), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto.

Por último, recordamos a presença das mulheres, também uma categoria por quem Jesus tinha grande simpatia no evangelho de Lucas. As mulheres são as pessoas mais perseverantes em todo o drama da paixão (23,55) e, por isso, serão as primeiras testemunhas da ressurreição. Enquanto os discípulos saem de cena com medo, muito cedo, o último a aparecer foi Pedro, e mesmo assim chorando, as mulheres perseveram até o fim, são as mais solidárias. Na verdade, elas reconheciam o que Jesus tinha feito por elas; até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovido a emancipação e as aceitado como discípulas. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO – LUCAS 19,28-40 (ANO C) – PROCISSÃO





Com a liturgia do Domingo de Ramos, a Igreja abre solenemente a Semana Santa, recordando a entrada decisiva de Jesus na cidade santa de Jerusalém e os últimos momentos da sua vida terrena, ao fazer memória da sua paixão e morte na cruz. Por isso, nesta celebração são lidas duas passagens do Evangelho, compreendidas como reciprocamente complementares. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, as duas passagens são tiradas do Evangelho de Lucas: 19,28-40 e 22,14–23,56. Apesar da considerável distância entre elas, ambas estão intrinsecamente relacionadas, tanto por afinidade quanto por contraste, afinal, aquele que morre na cruz, praticamente abandonado por todos, é o mesmo que foi euforicamente aclamado rei, ao entrar na cidade. Isso torna a liturgia deste domingo, como é a de toda a semana santa, altamente paradoxal. A primeira passagem do Evangelho lida neste dia corresponde ao relato mesmo da entrada de Jesus em Jerusalém, enquanto a segunda consiste na narrativa da paixão, morte e ressurreição. 

Como se sabe, os quatro evangelistas são unânimes em narrar a entrada decisiva de Jesus em Jerusalém, cada um à sua maneira, como acontece com os outros eventos igualmente narrados pelos quatro. Cada evangelista o fez de acordo com suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e as necessidades catequéticas das comunidades destinatárias. Tratemos, portanto, do relato lucano, como prescreve o ano litúrgico vigente. Começamos por recordar que em todos os evangelhos, a entrada decisiva de Jesus em Jerusalém possui grande importância. Se trata de um momento marcante da sua vida com amplas repercussões na vida de seus seguidores, e é isso o que confere tanta relevância ao relato. Pode-se afirmar, contudo, que esse acontecimento adquire um significado ainda mais profundo no contexto do Evangelho de Lucas, especialmente quando se considera o conjunto da obra. Ora, até este ponto – capítulo 19 –, grande parte da narrativa foi construída sob a perspectiva do caminho de Jesus da Galileia a Jerusalém. Portanto, a chegada na grande cidade foi altamente preparada, alimentada por muitas expectativas. Foram praticamente dez capítulos de preparação, nos quais Lucas mostrou Jesus apresentando seus ensinamentos mais profundos e originais. E a entrada em Jerusalém é a conclusão desse percurso. 

O caminho de Jesus para Jerusalém começou ainda em 9,51, quando o evangelista afirmou que ele tomou uma “firme decisão”. Um pouco antes, na transfiguração, com exclusividade, Lucas disse que Moisés e Elias conversavam com Jesus sobre o “êxodo” dele que se consumaria em Jerusalém (Lc 9,30-31). Portanto, ao entrar na cidade, o êxodo começa a acontecer, o que foi amplamente preparado. Ao longo do caminho, o evangelista recordou várias vezes que a meta era Jerusalém, o que vem a recordar de novo, já perto da entrada: «Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém» (v. 28). Ao caminhar à frente, Jesus demonstrava consciência e determinação do que estava fazendo. Estando à frente, ele assumia sua condição de Senhor e mestre, aquele indica o caminho e deve ser seguido. Ele assume um protagonismo único, a ponto de não poder ser substituído por ninguém. Quer dizer que ninguém poderia distraí-lo nem o desviar do seu propósito. O trecho do caminho em que se encontravam, de acordo com este primeiro versículo do evangelho de hoje, era exatamente a penúltima etapa. Já tinham passado de Jericó, onde Jesus fez coisas admiráveis: curou um cego (18,35-43) e provocou a conversão de Zaqueu, um chefe dos cobradores de impostos (19,1-10). O caminho, portanto, estava sendo altamente positivo, enquanto oportunidade de realização do Reino de Deus, mediante o agir compassivo e humanizante de Jesus. 

A última etapa do caminho começa no monte das Oliveiras, de onde já estavam se aproximando, como diz o texto: «Quando se aproximou de Betfagé e Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos» (v. 29). A proximidade destes povoados indica que Jerusalém já estava muito perto, inclusive, já poderia ser vista. O percurso que falta é muito curto, por isso, começam os preparativos para a chegada propriamente. Dos dois povoados mencionados, Betânia ocupa um lugar especial no Novo Testamento, cujo nome pode significar “casa da aflição” ou “casa dos pobres”, duas nomenclaturas que se aplicam muito bem à teologia de Lucas, o evangelista da misericórdia e da clara opção pelos pobres. O monte das oliveiras constitui outro indicativo especial, em todos os evangelhos, e mais ainda na obra lucana, pois é o lugar da ascensão (Lc 24,50; At 1,12): se foi de lá que Jesus partiu para a cruz, será de lá também que partirá para os céus, retornando ao mundo do Pai, após a ressurreição. Com isso, o evangelista ressalta a inseparabilidade entre a cruz e a glória na vida de Jesus, como deve ser na vida dos seus seguidores em todos os tempos. Entre a entrada de Jesus em Jerusalém e sua saída para a ascensão está a totalidade do mistério pascal. 

O monte das Oliveiras, localizada a cerca de três quilômetro de Jerusalém, é sempre um ponto de partida no êxodo de Jesus e da comunidade dos seus seguidores. De lá, ele ordena a dois dos seus discípulos: «Ide ao povoado ali na frente. Logo encontrareis um jumentinho amarrado, que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui» (v. 30). Aqui surge a primeira surpresa do relato, pois até então, desde o início da vida pública, o evangelista não fez qualquer aceno à utilização de um animal de montaria como meio de transporte empregado por Jesus. Em suas andanças pela Galileia, à exceção de quando atravessava o lago de Genesaré em barco, tudo indica que Jesus se locomovia a pé, enquanto desenvolvia sua missão itinerante. De repente, quando o destino já estava tão próximo, fala-se da escolha de um animal para montar. O sentido, obviamente, é teológico. Trata-se de uma ação simbólica que ele vai cumprir, à maneira dos antigos profetas. Ora, os discípulos continuavam alimentando expectativas triunfalistas, imaginando seguir um messias guerreiro, valente. A escolha do jumentinho como montaria serve para tirar de vez todas essas expectativas. O jumento representa o oposto do cavalo, montaria dos guerreiros e poderosos, como os discípulos imaginavam o Messias. Contudo, ao contrário das expectativas, a tradição profética apontava um Messias humilde, montado justamente em um jumentinho novo (Zc 9,9). Mas a expectativa dos discípulos não estava ancorada nesta passagem. 

À ordem dada, os discípulos obedecem e fazem tudo conforme as instruções recebidas, mesmo sem entender: «Os enviados partiram e encontraram tudo exatamente como Jesus lhe havia dito. Quando desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: “Por que estais desamarrando o jumentinho?” Eles responderam: “O Senhor precisa dele”» (vv. 32-34). A princípio, tudo parecia previamente ajustado com os donos do jumentinho, devido à conformidade entre a ordem de Jesus e aquilo que os discípulos encontraram. Mas a pergunta dos donos do jumentinho revela o contrário. Com isso, o evangelista imprime mais dramaticidade à sua narrativa, provocando mais surpresa no leitor. O fato de o “Senhor precisar” do jumentinho ressalta sua predileção pelo que parece desqualificado. Recorda as opções de Deus pelo que é frágil e pequeno. Também revela que Jesus já não se preocupava mais em manter sua messianidade em sigilo. Ele mesmo deseja revelar quem é, até para convencer os discípulos que não era um Messias conforme eles sonhavam, ou seja, guerreiro e valente. É um Messias simples, pobre, desprovido de qualquer recurso que inspire segurança e poder. Um Messias totalmente ao revés das expectativas, embora respaldado pela tradição profética. 

Não se sabe se a justificativa dos discípulos para levar o jumentinho convenceu os proprietários, mas tudo indica que sim, pois eles «levaram o jumentinho a Jesus. Então puseram seus mantos sobre o animal e ajudaram Jesus a montar» (v. 35). Provavelmente, prepararam o jumentinho para Jesus montar a contragosto, vendo ruir as últimas expectativas de sucesso e anseios de grandeza, afinal, estavam preparando uma montaria inexpressiva, incompatível com a realeza e o poder que esperavam possuir o sonhado Messias. Mesmo assim, cederam seus mantos e ajudaram Jesus a montar. Há quem veja nesta dupla atitude uma imagem da missão da Igreja: ceder o que tem para que o Evangelho possa ganhar o mundo, espalhar-se, passar adiante. O manto, na tradição bíblica, é sinal de segurança e dignidade. E a segurança e a dignidade da Igreja consistem exatamente em servir o Evangelho, facilitar seu caminho pelo mundo. Montado, Jesus cumpre seu destino. E, por onde passa, transforma, humaniza e salva, através do seu amor. Ao montar o jumentinho, definitivamente Jesus faz desmoronar todas as aspirações de poder nos seus discípulos. Ele revela de uma vez por todas que o seu Reino não é deste mundo, pois não se configura à maneira como os reis deste mundo exercem o poder. Apesar de não ser deste mundo, é claro que o Reino dele é para este mundo, pois consiste na efetivação do sonho de Deus para este mundo: a instauração da civilização do amor, com a primazia da justiça, da fraternidade e da paz. Por sinal, a paz é outro bem messiânico anunciado pela imagem do jumentinho. Enquanto os reis “normais” usavam cavalos, tradicional instrumento de guerra, Jesus monta um animal que evoca humildade, mansidão e paz. 

Depois de montado, diz o evangelista que «enquanto Jesus passava o povo ia estendendo suas roupas no caminho» (v. 36). Isso quer dizer que ele estava sendo reconhecido como Messias ou pelo menos como cumpridor de um gesto profético. Estender as roupas para que ele passasse significa saudá-lo com as honrarias reservadas a um rei. Isso traz alegria aos discípulos, levando-os a recordar o que ele já tinha feito em favor das pessoas durante o seu ministério. Por isso, «Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinha visto» (v. 37). A descida do monte das Oliveiras é, de fato, a última etapa do caminho para entrar em Jerusalém.  Deus é louvado pelo que Jesus fez em seu nome, pelo seu agir compassivo. Para Lucas, quem louva a Deus por Jesus e o aclama rei é a multidão dos discípulos; são eles quem reconhecem Jesus como Messias e rei, e não toda a multidão dos peregrinos. Também chama a atenção que Lucas, e somente ele, omite qualquer menção aos ramos e palmas estendidos em honra a Jesus.  

Enquanto aclamavam Jesus, «Todos gritavam: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”» (v. 38). Finalmente, Jesus ele é reconhecido como rei. Essa expressão de reconhecimento é feita pela síntese de uma citação do Salmo 118,26 e parte do canto dos anjos pelo nascimento de Jesus, texto do próprio Lucas, no início do seu Evangelho (Lc 2,14). O Salmo citado fazia parte da liturgia das grandes festas de Israel. Jesus é reconhecido rei porque vem em nome do Senhor. E tudo o que ele fez foi promover o Reino de Deus, com seu agir misericordioso em favor de todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas. Ora, vir em nome de alguém significa possuir todas as prerrogativas para agir em seu lugar, trazendo toda a dignidade e autoridade. Com isso, o evangelista expressa a plena identificação de Jesus com Deus, o Pai. De fato, Jesus é o enviado de Deus para revelar plenamente o seu rosto ao mundo. E o rosto de Deus que revelou é todo misericórdia e amor. É um grande avanço que os discípulos o reconheçam como rei, embora recuem pouco tempo depois, durante o processo, como se vê no relato da paixão. E o reconhecem como um rei de paz, que não exerce o poder pela força nem violência. O fato de vir montado num jumentinho já indica isso. 

Como acontece em todos os momentos da vida de Jesus, também na sua entrada em Jerusalém não falta a tradicional oposição, como observa o evangelista: «Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: “Mestre, repreende teus discípulos!”» (v. 39). Essa objeção dos fariseus é mais uma exclusividade de Lucas, como é também a resposta de Jesus a eles. É claro que os fariseus não aceitavam que Jesus fosse aclamado rei pelos seus discípulos e nem pelas multidões. Por isso, querem que Jesus não apenas silencie os discípulos, mas os repreenda, certamente porque viam como blasfema a aclamação, além de perigosa politicamente, pois poderia provocar a reação dos romanos, o que traria consequências para toda a população. A intervenção dos fariseus, portanto, pode ser vista como indício de inveja e, ao mesmo tempo, de medo e precaução, tendo em vista que a proclamação de um judeu como rei significava mesmo uma afronta ao poder dominante, o que era bastante perigoso. Essa é a última participação dos fariseus no Evangelho de Lucas. Isso quer dizer que eles não participam do complô final que levará Jesus à morte na cruz, segundo a perspectiva lucana, apesar de terem sido adversários tão combativos durante sua vida pública.

 À objeção dos fariseus, «Jesus, porém, respondeu: “Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão”» (v. 40). Trata-se de uma resposta carregada de ironia, como costumavam ser suas reações aos questionamentos dos fariseus. Apesar de jamais reivindicar honrarias para si, Jesus não se opõe à aclamação dos discípulos, reconhecendo-o como rei. Se eles conviveram tanto com ele, ouviram seus ensinamentos, viram suas obras, deveriam compreender a natureza da sua realeza. A resposta de Jesus indica tratar-se de algo inevitável, uma realidade que não poderia mais permanecer oculta, como eram a sua realeza e messianidade. Ele é bendito porque vem da parte de Deus. Sua vida é a resposta de Deus ao mundo em todas os sentidos. Seu jeito de amar, de perdoar, de escutar, enfim, seu jeito de viver, constitui a maneira de Deus responder à humanidade inteira, mesmo sem receber qualquer correspondência. Os discípulos, portanto, não devem ser silenciados apenas porque há quem não concorde com eles. Mesmo que ninguém lhes dê atenção, eles devem anunciar Jesus com sua verdadeira identidade, sua condição de enviado de Deus para transformar o mundo pelo amor. Por isso, ele é rei, embora diferente dos reis deste mundo. 

Celebrar o Domingo de Ramos, portanto, é declarar-se da parte de Jesus, assimilando a sua vida e suas posições com a própria vida. É reconhecer o seu amor como único caminho de humanização do mundo, com disposição para assumir as consequências que essa opção implica. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



sábado, abril 05, 2025

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 8,1-11 (ANO C)



Neste quinto domingo da Quaresma, a liturgia interrompe a leitura do Evangelho de Lucas, que fora utilizado nos quatro primeiros domingos, e propõe uma passagem do Quarto Evangelho: João 8,1-11. Trata-se do famoso episódio da “mulher adúltera”, um texto bastante rico e precioso, que teve uma história bastante turbulenta, desde as suas origens. Sobre isso, acenaremos brevemente, apenas a nível de contexto. Dando continuidade à temática central da espiritualidade quaresmal – o convite à conversão e a necessidade da mesma –, é importante perceber a dinâmica e a pedagogia de Jesus revelada nesta passagem: ele não faz esse convite a partir de ameaças e ordens, mas revelando com clareza a misericórdia e o amor de Deus, através de palavras e atitudes. No domingo passado, essa misericórdia foi apresentada de maneira ilustrada, através da parábola do pai misericordioso e os dois filhos (Lc 15,11-32). Hoje, a liturgia dá um passo a mais e mostra Jesus revelando a sua misericórdia, que é a mesma de Deus-Pai, na prática, com um gesto concreto, salvando uma mulher flagrada em adultério que já estava para ser apedrejada. Isso dá credibilidade ao seu ensinamento, pois mostra que ele viveu e praticou tudo o que ensinou. Por isso, era reconhecido como aquele que ensinava com autoridade.

É importante fazer algumas observações a nível de contexto, antes de explorar o texto propriamente. E começamos recordando o amplo debate criado ao longo da história da interpretação, sobre a origem e a posição deste episódio no Evangelho de João. Contata-se que nos quatro primeiros séculos esse texto foi omitido, certamente por ser considerado “perigoso”, pois apresenta Jesus “tolerante” demais com o pecado e as pessoas que pecaram. De fato, nas cópias mais antigas do Quarto Evangelho não consta esta passagem. Ora, o adultério era considerado um dos pecados mais abomináveis, tanto no judaísmo quanto no cristianismo das origens, sobretudo logo após os processos de institucionalização, e quando ainda tinha a estrutura da sinagoga como parâmetro. Na maioria das vezes, o perdão não era concedido às mulheres que praticavam o adultério; os homens sempre conseguiam uma saída, devido à cultura machista tão entranhada na sociedade, o que era respaldada pela religião. Por isso, imaginavam não ser prudente mostrar Jesus perdoando esse tipo de pecado, o que levou este texto a ser, de certo modo, censurado.

O perdão de Jesus a uma mulher adúltera poderia ser visto como um incentivo a essa prática e uma relativização do pecado, segundo a mentalidade das lideranças da Igreja recém institucionalizada. Por sinal, tais lideranças eram figuras masculinas, o que contribuía ainda mais para a marginalização da mulher. A pesquisa exegética das últimas décadas concluiu que, nos primeiros séculos, esse texto circulava como uma página isolada, e poucas pessoas tinham acesso a ele. Quando as comunidades chegaram à conclusão de que não poderiam mais escondê-lo, o colocaram no Evangelho de João, o último dos quatro a ser considerado canônico, já no quarto século, embora tudo indique que se trate de um texto originalmente de Lucas. Diversos fatores contribuem para isso, principalmente o fato de ser Lucas o evangelho da misericórdia, por excelência, e aquele que mais valoriza e defende a figura da mulher. Além disso, o próprio vocabulário do texto se aproxima mais do estilo de Lucas do que de João. A localização original mais provável, portanto, é logo após Lc 21,37-38, onde se diz que «Durante o dia ele ensinava no templo, mas à noite saía e pernoitva no chamado monte das Oliveiras. De manhã cedo, todo o povo ia até ele, no templo, para ouvi-lo». Porém, como nos foi transmitido pelo Evangelho de João, é a partir dele que devemos lê-lo, inclusive tendo em vista seu contexto narrativo. 

Conforme a localização do texto no Evangelho de João, Jesus se encontrava em Jerusalém, participando de uma das grandes festas dos judeus, a festa das tendas (Jo 7,2.14.37; 8,2). Essa era uma das maiores festas de Israel, com duração de uma semana. Durante o dia, Jesus ensinava no templo, e à noite se retirava para dormir fora da cidade, como diz o texto logo no primeiro versículo: «Jesus foi para o monte das Oliveiras» (v. 1). No dia seguinte, «De madrugada, voltou de novo ao templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los» (v. 2). A madrugada significa o rompimento das trevas, a aurora de um novo dia; nos evangelhos, essa expressão é um dado teológico, muito mais do que cronológico; é sempre um aceno à ressurreição; é o momento em que as mulheres descobrirão o sepulcro vazio, no domingo da ressurreição (Lc 24,1); portanto, o episódio que a liturgia propõe hoje é uma cena de ressurreição, é um texto pascal: a mulher flagrada em adultério, prestes a ser apedrejada, faz uma experiência de vida nova ao ser confrontada com a misericórdia, o perdão e o amor de Jesus, o que deixa seus tradicionais adversários –  mestres da Lei e fariseus – sem palavras, inconformados.

Durante as festas, iam pessoas de todas as partes da Palestina para Jerusalém; era uma oportunidade para os pregadores itinerantes apresentarem suas doutrinas e versões de interpretação da Lei; esses se espalhavam pelos vastos átrios do templo, e os peregrinos iam se amontoando em círculos ao redor deles, conforme a curiosidade e a eloquência de cada pregador. Como a pregação de Jesus era sempre polêmica e crítica, talvez conseguisse juntar mais ouvintes do que outros pregadores, pois ele não tinha medo de desmascarar a hipocrisia dos dirigentes, principalmente as autoridades religiosas da época. Ele dizia o que muita gente queria dizer, mas não dizia por medo de repressão. Isso, obviamente, fazia também com que as autoridades lhe vissem como suspeito, aumentando a vigilância sobre ele. 

Conforme o texto, enquanto Jesus ensinava, ele foi repentinamente interrompido, pois «os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles» (v. 3). Os sujeitos da ação são os tradicionais adversários de Jesus: mestres da Lei e fariseus, os fiéis observadores dos preceitos da Lei em seus mínimos detalhes, os mesmos que no domingo passado tinham criticado Jesus por acolher e comer com os pecadores (Lc 15,2). Esses dois grupos são a síntese do fechamento e do conservadorismo na época de Jesus; pregavam um Deus punitivo, exigente, vingativo e, por isso, se escandalizavam com o Deus amoroso de Jesus. Essa é a única vez que esses dois grupos aparecem juntos, cumprindo uma mesma ação, no Evangelho de João, o que é bastante comum nos sinóticos (Mt, Mc, Lc). Ao colocarem a mulher no centro, eles a expõem à máxima humilhação. Estando no centro, todas as atenções se voltam para ela. Também Jesus costumava colocar as pessoas excluídas no centro, mas como promoção da vida e da libertação, ou seja, para humanizá-las, como fez com o homem da mão seca (Mc 3,2) e com a criança, ao propô-la aos seus discípulos como modelo a ser imitado (Mc 9,36). Seus adversários põem o outro no meio para constranger e condenar. 

No Antigo Testamento, o adultério foi usado como sinônimo de idolatria, o principal pecado de Israel. Por isso, a lei era tão rigorosa com esse tipo de pecado. Na época de Jesus o adultério estava entre os piores pecados, comparável ao assassinato. Dizia-se entre os rabinos que quem comete adultério assassinou a pessoa que amava, por isso, a pena era tão rigorosa quanto para um caso de assassinato. Apesar disso, os casos de adultério eram frequentes. Ora, como os casamentos eram verdadeiros negócios, decididos pelos pais, às vezes os noivos só se conheciam no dia do próprio casamento, isso tornava o adultério uma prática bastante comum, embora perigosa, pois as relações não eram motivadas pelo amor, mas pelos interesses econômicos das famílias; por isso, havia muita vigilância, principalmente, sobre as mulheres.

Como representantes de uma religião severa e excludente, os mestres da Lei e os fariseus expuseram somente a mulher. Eles tinham clareza que a Lei prescrevia penas duras também para o homem. Mas pedem uma pena parcial, expondo e ridicularizando a mulher, e silenciando sobre o homem que, certamente, fora flagrado junto. Aqui, essa mulher é imagem de todas categorias de marginalizados e marginalizadas, por quem Jesus toma partido. Como se vê, os mestres da Lei e os fariseus conheciam a sentença prevista: «Disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”»  (vv. 4-5). De acordo com a lei, o apedrejamento era a pena para o adultério quando o casamento ainda estava na primeira fase, a da promessa; porém, essa pena era prevista também para o homem envolvido na relação (Dt 22,23-24). O fato de somente a mulher ser acusada e exposta revela o machismo entranhado na sociedade e na religião. O homem, provavelmente considerado um “cidadão de bem”, não é sequer mencionado.

Como diz o próprio texto, o que os mestres da Lei e os fariseus queriam era colocar Jesus em situação embaraçante, pondo-o à prova (v. 6a): se ele autorizasse o apedrejamento, estaria negando o seu lado misericordioso e contradizendo a sua pregação até então; se negasse o apedrejamento, estaria transgredindo a Lei de Moisés. Isso contribui ainda mais para a aceitação de uma origem lucana do episódio, pois uma das características mais marcantes dos sinóticos é a série de confrontos dos principais grupos religiosos de Israel com Jesus, em Jerusalém, durante o seu curto ministério na grande cidade. Conhecedor das intenções dos seus adversários, Jesus simplesmente os ignora, com a sua típica ironia: «Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão» (v. 6). Sobre esse gesto inusitado, foram levantadas diversas hipóteses sobre o que Jesus escreveu no chão, algumas até folclóricas. São Jerônimo, por exemplo, acreditava que Jesus escreveu os pecados dos acusadores que estavam com pedras na mão, para deixá-los envergonhados e constrangidos. Ora, se estavam no interior do templo, o piso ali não era de barro ou areia, mas de pedras; logo, não tinha como escrever nada ali. Portanto, qualquer hipótese sobre o conteúdo que Jesus escreveu nessa cena, carece de fundamento e de sentido. O gesto de Jesus é, além de irônico, denunciador. Ele olha para o chão por indiferença aos seus acusadores, enquanto pensa na atitude e na resposta adequada que dará. Não escreve nada, apenas simula uma escritura em pedra denunciando a rigidez da Lei por eles observada: uma lei escrita em tábuas de pedra, inflexível e dura como eram os corações deles. 

Com a sua ironia e indiferença, Jesus deixava seus interlocutores impacientes: «Como persistiam em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”» (v. 7). Ao levantar-se para responder, Jesus dá um tom de solenidade à situação e, finalmente, chama para si a responsabilidade. Tendo pensado por um tempo, sua resposta é surpreendente: não toma posição sobre o caso propriamente, não discute o pecado da mulher, mas convida cada um a olhar para si próprio, apelando para o tribunal da consciência: «Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra». Com essa proposta, Jesus desmascara e desarma os acusadores da mulher, e os falsos moralistas de todos os tempos. É uma resposta que não necessita de contrarresposta nem de novas perguntas, mas apenas da coragem de cada um olhar para si, para sua consciência. Certamente, ele deixou a todos em silêncio e pensativos, admirados e sem reação. Por isso, Jesus repete a ironia «E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão» (v. 8). Na primeira vez, simulou a escritura no chão enquanto ele mesmo pensava na sua resposta; dessa vez, faz a simulação enquanto aguarda uma atitude ou resposta dos acusadores.

Envergonhados, certamente, «eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo» (v. 9). É interessante perceber a reviravolta na história: o objetivo dos mestres da Lei e fariseus era colocar Jesus em situação constrangedora, “num beco sem saída”; as coisas se inverteram e foram eles que ficaram embaraçados, em situação desconfortável. É provável que tenham saído ainda mais furiosos com Jesus, mas também a eles foi dirigido um convite à conversão. Jesus não os condenou; esse detalhe é importante que seja bem recordado. Jesus deu aos seus ferrenhos adversários uma oportunidade de conversão, convidou-os a um exame sincero de consciência. Não sabemos se houve conversão da parte deles, mas é possível identificar pelo menos dois sinais importantes: a vida da mulher foi poupada, e cada um reconheceu ser pecador, uma vez que nenhum atirou a pedra. Os primeiros que saíram foram os “mais velhos”, chamados no texto original de “presbýteros” (πρεσβύτερος), uma palavra grega que significa literalmente “ancião”, termo que designava também as lideranças, tanto no judaísmo quanto nas primeiras comunidades cristãs. Por sinal, foi essa mesma palavra que Lucas empregou para referir-se ao filho mais velha, na parábola do pai misericordioso, como vimos no domingo passado (Lc 15,25). Ao empregá-la aqui, o evangelista denuncia a rigidez e a falta de misericórdia nas lideranças das comunidades emergentes. 

Percebendo que todos os acusadores saíram, em silêncio, no meio do povo que escutava seu ensinamento antes da interrupção, «Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”. Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”» (vv. 10-11). É a primeira vez que a mulher acusada tem oportunidade de falar, e é Jesus quem lhe dá essa oportunidade. Essa voz da mulher é a sua própria vida recuperada. Jesus sabia que ninguém a tinha condenado; faz a pergunta apenas para torná-la protagonista, concedendo-lhe plenamente a palavra. Todo ser humano tem direito à fala e à liberdade de expressão. Toda voz deve ser ouvida, principalmente aquelas que foram silenciadas devido à intolerância e à hipocrisia religiosa. No início do episódio, a mulher foi simplesmente jogada no meio, diante de Jesus com seus ouvintes e os próprios acusadores. Ela foi exposta sem poder se defender minimamente. Diante da fúria dos acusadores, essa mulher sentiu-se morta, com suas horas contadas. Diante de Jesus, ela se sente uma pessoa digna, pois sabe que tem quem lhe escute, por isso, ela também fala, se torna realmente sujeita, com dignidade reconhecida. 

As palavras finais de Jesus constituem o ápice da cena e o motivo para esse texto ter sido considerado tão perigoso: «Eu também não te condeno». Para uma religião segregadora, excludente e moralista, um Deus que não condena se torna um perigo e um problema, pois tira também da religião o direito de condenar. Sem a função de julgar e condenar as pessoas, pouca importância teriam as religiões institucionalizadas, afinal, boa parte delas se sustentam por causa do pecado das pessoas. Os evangelhos mostram que não dá para pregar o Deus de Jesus fazendo ameaças, nem promovendo a violência ou destilando ódio. Por isso, para a religião praticada e proposta por Jesus, essa é uma das páginas mais consoladoras. Mais uma vez, se repete o esquema da parábola do pai misericordioso e os dois filhos: assim como o Pai não condenou o filho que voltou, Jesus não condena a mulher; a conversão vem depois, como consequência: «vai e não voltes a pecar!»; não se trata de uma ordem ou imposição, mas de um encorajamento. Tendo se sentido acolhida e compreendida, talvez pela primeira vez em sua vida, é quase certeza que aquela mulher se converteu, mesmo que não se fale mais dela nos evangelhos. 

Sem realizar nenhum sinal extraordinário, Jesus salvou uma vida. Apenas falando, Jesus fez aquela mulher passar da morte à vida; da fúria dos acusadores à ternura de Deus, revelando-se verdadeiro mestre de humanização. O impacto da palavra de Jesus transforma situações. É essa Palavra que precisa ser ouvida, substituindo regras e preceitos, para mudar todas as estruturas perversas que impedem o triunfo da vida digna. Por isso, como afirmamos no início, o evangelho de hoje é uma cena de ressurreição, é um texto altamente pascal, no qual a vida é resgatada, libertada. Que todas as comunidades possam, festivamente, celebrar a alegria de conhecer um Deus que não condena ninguém, como esse que Jesus revela, que é o seu Pai e ele mesmo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 16,13-20 (ANO A)

Após uma pausa para a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia deste vigésimo primeiro domingo do tempo comum retoma a leitura ...