sexta-feira, fevereiro 06, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,13-16 (ANO A)


A liturgia deste quinto domingo do tempo comum propõe a continuação da leitura do grande discurso programático de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como o “discurso da montanha” (Mt 5–7). No domingo passado, fora lida a introdução desse discurso, passagem que compreende as bem-aventuranças – Mt 5,1-12 –, um texto que é considerado o coração do primeiro evangelho. De fato, trata-se da verdadeira “carta magna” do cristianismo, pois contém os princípios fundamentais do seguimento de Jesus Cristo. O texto proposto para hoje – Mt 5,13-16 – é exatamente o que sucede imediatamente às bem-aventuranças. Com efeito, toda a sequência do discurso é desdobramento das bem-aventuranças. Por isso, no evangelho de hoje, continuando um ensinamento vital para a comunidade de seus seguidores, Jesus emprega duas imagens bastante fortes e interpelantes, o sal e a luz, para demonstrar o quanto a vivência das bem-aventuranças é indispensável na vida dos seus discípulos e, consequentemente, para a comunidade cristã. Por conseguinte, é importante reforçar que tudo o que é desenvolvido ao longo do discurso da montanha é, na verdade, consequência ou expressão das bem-aventuranças.

Assim, consideradas pela maioria dos exegetas como o autorretrato de Jesus, as bem-aventuranças são, ao mesmo tempo, o programa de vida que ele propõe para os seus discípulos e discípulas de todos os tempos. Elas expressam o perfil de Jesus, revelando o seu estilo de vida. Com isso, ele mesmo conclui que a vivência delas deve ter um efeito transformador no mundo, comparável aos efeitos do sal e da luz, empregados em suas finalidades mais básicas: dar sabor e iluminar, respectivamente. Ora, é da vivência das bem-aventuranças que depende a instauração do Reino dos Céus na terra. Para que esse Reino, de fato, aconteça, é necessário que as pessoas, começando pelos discípulos, assumam um estilo de vida semelhante ao de Jesus, ou seja, que pratiquem as bem-aventuranças. E não há um outro meio de assemelhar-se a Jesus senão praticando as bem-aventuranças, ou seja, vivendo do seu jeito. Por isso, o emprego das imagens do sal e da luz são seguidos de advertência sobre o perigo de que estes elementos não sejam bem utilizados e, por consequência, deixem de produzir o esperado efeito transformador.

As imagens do sal e da luz são, assim, uma síntese da missão dos seguidores de Jesus e, ao mesmo tempo, uma demonstração do efeito dessa missão no mundo. Eis, pois, a primeira imagem com a consequente advertência: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens» (v. 13). Embora seja possível identificar diversas funções para o sal, sobretudo na antiguidade, o texto deixa muito claro que faz referência ao seu uso para a alimentação, seja como condimento seja enquanto conservante. Mesmo assim, é importante recordarmos também outras funções atribuídas ao sal ao longo da Bíblia. De fato, o sal era símbolo de qualquer coisa duradoura e preciosa, tornando-se, inclusive, sinal da indissolubilidade da aliança, de modo que uma aliança eterna era chamada de “aliança de sal” (Nm 18,19). Outro significado para o sal é a purificação, sendo um elemento utilizado nos sacrifícios cultuais (Lv 2,13; Ez 43,24), e empregado também por Eliseu para purificar as águas das fontes de Jericó (2Rs 2,19-22).

Aqui no texto de Mateus, no entanto, como já acenamos anteriormente, e considerando o inteiro versículo, a referência ao sal está relacionada ao seu uso no alimento, pois o texto indica o dar sabor como função primordial. É importante perceber também o universalismo atribuído aos seguidores de Jesus: ser sal de toda a terra, ou seja, marcar presença e fazer a diferença em todo o mundo, e não apenas dentro dos limites geográficos da Palestina. Essa dimensão universalista da missão cristã será evidenciada ao longo de todo o Evangelho de Mateus, e encontrará o seu ápice no envio missionário pós-pascal, quando o Ressuscitado ordenará que seus discípulos devem ir a todas as nações para ensinar, batizar e discipular (Mt 28,19-20). Seja para dar sabor, seja para conservar alimentos, o sal é indispensável na vida do ser humano. Assim também é indispensável a presença de cristãos e cristãs no mundo, para que o projeto libertador de Jesus seja realizado e o Reino se instaure. Ao falar do risco de o sal tornar-se insosso e, consequentemente, inútil, faz-se uma advertência ao risco de omissões e falta de testemunho dos cristãos no mundo. Assim como não tem sentido um sal sem sabor, também não tem sentido cristãos sem a prática das bem-aventuranças, ou seja, sem fome e sede de justiça, sem mansidão no coração, sem misericórdia e sem amor. O sal é, portanto, imagem da força humanizante da mensagem de Jesus no mundo.

A segunda imagem empregada ocupa todo o restante do texto e, aparentemente, é mais simples ou, pelo menos, mais compreensível, já que é uma imagem mais frequente ao longo da Bíblia: «Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte» (v. 14). A imagem da luz, de fato, atravessa toda a Bíblia, muito mais do que a do sal, bem como o seu efeito é muito mais claro, sem deixar margens para uma variedade maior de interpretações. Inclusive, a própria missão de Jesus na Galileia foi apresentada por Mateus como luz, como refletimos há dois domingos – evangelho do terceiro domingo do tempo comum: Mt 4,12-23. Aqui, o evangelista ensina que, como extensão e continuação da missão de Jesus, também a missão dos seus discípulos é apresentada como luz. Isso mostra que a missão dos discípulos é a mesma de Jesus. Novamente, a dimensão universalista da missão é recordada: os cristãos não devem ser luz somente para um determinado grupo de pessoas ou de uma determinada região, mas de todo o mundo. A segunda parte do versículo é, certamente, uma crítica à cidade de Jerusalém e às autoridades de Israel, como um todo. Ora, Jerusalém fora construída sobre um monte (Is 2,1) exatamente para de lá resplandecer a luz de Deus; porém, fora corrompida pelos poderes religioso e político, ofuscando a luz de Deus. Temos aqui, portanto, uma clara denúncia ao povo de Israel e, especialmente, à cidade de Jerusalém que falhara na sua missão de ser luz das nações (Is 42,6; 49,6). Por isso, Deus transferiu sua luz para a marginalizada Galileia dos pagãos, onde Jesus iniciou seu ministério como uma luz que brilha nas trevas (Mt 4,12-23). Como consequência, Jesus transfere a missão que outrora fora de Israel para os seus discípulos.

Na continuidade do texto, vemos novamente o tom de advertência, como no uso do sal: «Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos, que estão na casa» (v. 15). Tão inútil quanto um sal sem sabor e uma lâmpada escondida é a vida cristã sem testemunho, ou seja, sem a prática das bem-aventuranças. Aliás, isso nem vida cristã seria, mas apenas um teatro, um fingimento, sobretudo quando acobertada por um conjunto de ritos. Seria hipocrisia, como Jesus vai mostrar, com outras palavras, ao advertir a comunidade dos seus seguidores sobre a necessidade de diferenciar-se dos fariseus. Temos aqui mais um alerta sobre o risco da omissão dos cristãos no mundo, diante das injustiças e de todas as formas de manifestação do mal. O cristão não pode se omitir onde há trevas, onde há negação da vida, onde falta humanização. Uma lâmpada debaixo da mesa é a imagem do discípulo omisso e medroso, incapaz de denunciar as injustiças que estão ao seu redor, e conivente com as situações de opressão e negação da vida. Uma vez que a luz acesa não tem outra função que não seja iluminar, também os cristãos não podem omitir-se de testemunhar o Evangelho, cuja condição é a vivência das bem-aventuranças, uma vez que constituem o programa de Jesus, pois correspondem exatamente ao seu jeito de viver.

O versículo conclusivo consiste em mais uma exortação e advertência. Assim como houve em Israel, também havia na comunidade cristã uma tendência ao envaidecimento e ao orgulho, o que é totalmente incompatível com o ensinamento de Jesus. É necessário que os discípulos sejam sinal de luz diante das outras pessoas, mas que não sejam recompensados ou elogiados por isso, pois é ao Pai que está nos céus que devem ser dirigidos todos os louvores; é esse o sentido do versículo: «Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus» (v. 16). Os cristãos de todos os tempos devem cumprir boas obras, devem “fazer o bem” como fez Jesus (At 10,38), de modo que revelem o Deus em quem acreditam. Em outras palavras, o versículo quer dizer que o reconhecimento e o louvor de Deus pela humanidade dependem essencialmente do estilo de vida dos cristãos. E isso é uma grande responsabilidade. É na medida em que os cristãos dão sabor ao mundo e o iluminam com gestos e ações concretas que o mundo passa a conhecer a Deus. O Deus que é Pai, portanto, não o se torna conhecido pelo ensino de uma doutrina, e sim pelo testemunho dos cristãos. Vivendo as bem-aventuranças, os cristãos não devem esperar reconhecimento e elogios a eles mesmos, mas ao Pai celeste que enviou Jesus ao mundo como caminho, luz e guia para cada pessoa encontrar sentido para a vida, vivendo à sua maneira.

A liturgia deste dia, sobretudo o evangelho, conforme a reflexão aqui proposta, visa nos interpelar sobre a responsabilidade da vida cristã no mundo, chamando a atenção para os frutos essenciais e as consequências imediatas: dar sabor e iluminar. Ser cristão é abraçar um programa de vida, seguir Jesus e suas causas, dando-lhe adesão plena, muito mais do que cumprir normas e participar de um conjunto de ritos. A identificação com ele depende essencialmente da disposição de viver como ele viveu, aceitando as bem-aventuranças como regra de vida. Quem faz essa opção se torna, inevitavelmente, sal da terra e luz do mundo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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