sábado, dezembro 07, 2024

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM MARIA – LUCAS 1,16-38

 


Devido à coincidência de datas, a liturgia do segundo domingo do advento, neste ano, é substituída pela da Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria. E o evangelho para essa dada é Lc 1,26-38, o famoso relato da anunciação, um texto muito apropriado também para o advento, não importa o dia, inclusive, corresponde ao evangelho do quarto domingo do advento no litúrgico B. Antes de qualquer consideração contextual, independentemente da aplicação do mesmo a uma afirmação dogmática sobre Maria, esse texto revela como Deus intervém na história, vindo ao encontro da humanidade de maneira extraordinária e, ao mesmo tempo, tão simples. A Palavra de Deus irrompe no cotidiano interagindo surpreendentemente com o ser humano através do diálogo, propondo ao invés de impor, escolhendo os pequenos e marginalizados ao invés dos poderosos e ricos, fazendo morada na periferia ao invés dos grandes centros. Essas pequenas observações constituem uma breve introdução e síntese do evangelho de hoje, objeto da nossa reflexão, como veremos a seguir.

Antes de tudo, convém recordar sempre que os evangelhos não são livros de crônicas, e sim relatos catequéticos e teológicos, pensados inicialmente para comunidades concretas com características e problemas bem específicos. Somente dois evangelistas sentiram necessidade de falar do nascimento e da infância de Jesus, a saber, Mateus e Lucas, e cada um o fez segundo uma perspectiva própria, considerando suas intenções teológicas específicas e as necessidades de suas respectivas comunidades, destinatárias primeiras de cada relato. Aliás, esse princípio vale para os inteiros evangelhos. No caso do “evangelho da infância” de Lucas, do qual é tirado o texto de hoje, ele escolheu a perspectiva da mulher na construção do seu relato, antecipando as linhas teológicas de toda a sua obra, com uma clara opção de Jesus pelos mais pobres e excluídos, destinatários primeiros do anúncio do Reino de Deus. No “evangelho da infância” de Lucas (Lc 1–2), portanto, vemos uma introdução e síntese de tudo o que ele desenvolve nos vinte e dois capítulos restantes. Desse modo, podemos dizer que as características que marcam o anúncio e o nascimento de Jesus são as mesmas que vão marcar o seu ministério: misericórdia, justiça, inclusão, valorização da mulher e de todas as categorias de pessoas marginalizadas da sociedade e da maioria das religiões institucionalizadas, o amor acima de qualquer preceito, enfim, todos os elementos indispensáveis à construção de um mundo novo, justo, fraterno e humanizado. Acrescenta-se a isso a força criativa e fecunda do Espírito Santo, tão marcante no “evangelho da infância”, como será no caminho da Igreja, e o mesmo Lucas demonstra tão bem no segundo volume da sua obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que a anunciação do nascimento de Jesus pelo anjo Gabriel a Maria não é um episódio isolado no “evangelho da infância” lucano, mas é precedido pelo anúncio do nascimento de João a Zacarias (Lc 1,5-25). Ambos seguem um modelo bíblico consolidado de anúncios de nascimentos extraordinários, com a intervenção direta de Deus: de Isaac (Gn 17–18), de Sansão (Jz 13), de Samuel (1Sm 1). Porém, é com o anúncio do nascimento de João que o de Jesus mais se relaciona. O narrador conta as duas histórias em paralelo, com um esquema comum, mas com muitas diferenças internas, para ajudar a comunidade leitora a perceber a novidade de Jesus e, consequentemente, a sua superioridade no contexto narrativo da obra e na história da salvação. Inclusive, para compreender melhor o anúncio a Maria, é necessário recordar alguns elementos do anúncio a Zacarias, como: o ambiente urbano e solene do templo de Jerusalém, um sacerdote como destinatário, a idade avançada dos personagens (Zacarias e Isabel), a incredulidade. Esses elementos são importantes para as intenções teológicas de Lucas, o qual convida o ouvinte/leitor a perceber que no anúncio a Maria acontece praticamente o contrário, apesar do esquema comum, como sinal de que, em Jesus, começa uma nova história, escrita a partir dos pequenos, com uma verdadeira revolução de valores e relações.

Feitas as devidas considerações contextuais, olhemos então para o texto, começando do primeiro versículo. De início, fazemos uma observação crítica a respeito da tradução do lecionário, que substituiu o indicativo temporal «No sexto mês» pela genérica e vaga fórmula de introdução «Naquele tempo». Essa observação é importante porque recorda a relação do que está para ser narrado com o episódio anterior. Portanto, assim é o primeiro versículo: «No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré» (v. 26). Ora, o sexto mês tem como referência o anúncio feito a Zacarias, no templo de Jerusalém; seis meses depois, o anjo Gabriel foi enviado a Nazaré para fazer um novo anúncio e teve uma acolhida diferente. Aqui começa a novidade. Ora, a Galiléia era uma terra desprezada pelo judaísmo da época, considerada semipagã. Embora fossem judeus de origem, seus habitantes eram vistos com desconfiança pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém. Do ponto de vista religioso, os galileus eram considerados hereges, pouco observantes da Lei; do ponto de vista político, eram vistos como subversivos, rebeldes, agitadores. Essa era a fama da região. Mas a fama de Nazaré, uma pequena aldeia, na qual viviam aproximadamente duzentas pessoas, parece que era ainda pior do que a da região. Esse lugar não é citado sequer uma vez em todo o Antigo Testamento. O Evangelho de João mostra o quanto Nazaré era menosprezada, como se percebe pelo questionamento preconceituoso de Natanael, ao saber de onde tinha saído Jesus: «De Nazaré pode sair algo bom?» (Jo 1,46). É, portanto, para onde a religião só dispensava desprezo e discriminação que Deus envia o seu mensageiro para dar uma Boa Notícia. E lá a novidade de Deus será acolhida, ao contrário do que aconteceu no templo, onde Zacarias duvidou do anúncio do anjo.

Além do lugar desprezível como cenário do anúncio, Deus surpreende também na escolha da destinatária da sua mensagem: «a uma virgem, prometida em casamento, a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi, e o nome da virgem era Maria» (vv. 27). Embora a tradição cristã tenha transformado a virgindade em virtude, para a mentalidade semita a mulher virgem tinha uma conotação bastante negativa. Na verdade, ser virgem significava não ter capacidade de atrair os desejos e olhares de um homem, e numa cultura extremamente machista, de completo desprezo pela mulher, isso era lamentável, sendo considerado sinônimo de humilhação e até de castigo de Deus. No caso de Maria, ainda bem que já estava «prometida em casamento», e isso significa que já estava oficialmente casado. É importante recordar como se dava o casamento judaico, para compreender essa expressão e a situação de Maria. Ora, o casamento acontecia em duas fases: a primeira, chamada de “etapa da promessa”, durava cerca de um ano; nessa fase, os noivos já considerados casados, mas ainda não mantinham relações sexuais; a noiva continuava morando na casa de seus pais, que já tinham recebido o pagamento do noivo. Na verdade, o casamento era um negócio; quem acertava tudo era o pai da noiva com o noivo. Um ano após a “promessa”, acontecia a celebração das bodas, dando início à segunda fase; após cerca de uma semana de festa, os cônjuges passavam a viver juntos. O casamento era consumado na primeira noite das bodas, por isso a noiva permanecia virgem durante toda a fase da promessa. A etapa da promessa começava quando a mulher tinha entre doze e doze anos e meio, enquanto o noivo tinha entre dezoito e vinte e quatro anos. Os dados referentes ao esposo de Maria, José, são importantes para o evangelista afirmar as raízes messiânicas da criança que vai nascer: o homem que irá assumir sua paternidade é um descendente de Davi, por isso, tem tudo para ser acolhido como o Messias esperado, o que não acontecerá devido à incredulidade e fechamento de Israel.

Os dois primeiros versículos funcionam como introdução e ambientação da cena (vv. 26-27). Do versículo 28 em diante, o texto ganha vida, se transforma em cena propriamente e se desenvolve em forma de um surpreendente diálogo entre o enviado de Deus e Maria. Inclusive, por causa disso, a atual crítica exegética identifica esse texto mais como um relato de vocação do que como uma anunciação, uma vez que a maneira como o diálogo flui revela que não se trata de um mero anúncio, mas de um chamado, no qual a pessoa interpelada, que neste caso é Maria, questiona o mensageiro , que insiste até convencê-la a aceitar a proposta, o que é muito típico dos relatos de vocação do Antigo Testamento. Nesse diálogo, cada fala dos personagens revela uma novidade de Deus. É importante perceber que, no diálogo, será evidenciada a identidade de Jesus, o que demonstra que o enfoque do evangelista é cristológico, e não mariológico, como às vezes se pensa. Eis a sequência: «O anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo!’» (v. 28). Ao dizer que o anjo entrou, o evangelista dá a entender que o anúncio aconteceu dentro de casa, contrapondo-o ao anúncio solene a Zacarias no templo de Jerusalém. Esse dado é extremamente importante, pois recorda que a vida cotidiana é lugar da revelação e manifestação de Deus. Através de seu mensageiro, ele rompe todas as barreiras de classe e cultura, dialogando com uma mulher jovem na casa de uma aldeia sem importância. Com isso, o evangelista já traça as primeiras linhas do modelo ideal de comunidade-igreja: a casa, como ambiente familiar onde todos se conhecem e se entendem. A casa é, portanto, o espaço do diálogo, das relações fraternas e sinceras, como deve ser a comunidade cristã. O imperativo “alegra-te” (em grego: χαῖρε – kaire) que abre o diálogo sinaliza para um novo tempo; é um convite a uma grande alegria, pois coisas boas estão para acontecer, uma nova história está surgindo. É também uma demonstração de que Deus não se deixa condicionar pelos esquemas da religião e da cultura, substituindo a tradicional fórmula de saudação hebraica “shalom”. Por isso, “alegra-te” não significa apenas uma saudação, mas um convite para participar de uma nova história.

A sequência da saudação também é muito importante, e muitas vezes distorcida: «cheia de graça, o Senhor está contigo»Algumas práticas devocionais mais exageradas tendem a supervalorizar os méritos de Maria, afirmando que Deus a premiou por isso, escolhendo-a para mãe de seu Filho; essa concepção distorce a gratuidade do amor e da benevolência de Deus que, historicamente, se dirige com predileção aos pequenos e fracos, que não têm capacidade de retribuir os dons recebidos. Logo, a saudação do anjo não é um atestado das virtudes de Maria, mas o anúncio de uma promessa maravilhosa. Inclusive, uma tradução mais justa seria: «O Senhor está contigo, te enchendo de dons gratuitamente». O anjo está garantindo que Deus não vai abandoná-la na missão que está lhe confiando, que lhe trará muitos riscos. A escolha de Maria, portanto, é uma demonstração da gratuidade do amor de Deus e sua predileção pelos pequenos e marginalizados, e não um prêmio por suas virtudes, que são indiscutíveis, mas não a causa da escolha de Deus. Inclusive, no Magnificat ela mesma reconhecerá que foi a sua pequenez que atraiu o olhar benévolo de Deus (Lc 1,48), e não os seus méritos. Como é normal nos grandes anúncios bíblicos, recebendo uma visita tão inesperada como a de um mensageiro divino, e recebendo uma notícia tão desconcertante, a reação inicial de Maria não poderia ser diferente, como diz o evangelista: «Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação» (v. 29). O embaraço criado é consequência da novidade que estava acontecendo. Tanto o interlocutor de Maria quanto a mensagem que ele trazia eram inesperados. Num lugar simples como Nazaré, as coisas nunca mudavam, tudo permanecia do mesmo jeito. Por isso, Maria não poderia imaginar uma visita tão diferente. Mas, diante da novidade e ainda embaraçada, Maria começou a pensar, refletindo e questionando sobre o significado de tudo aquilo, o que mostra a qualidade da sua fé.

O embaraço de Maria diante da novidade de Deus provou até medo, o que também é compreensível, tamanha a grandeza do acontecimento. Daí, o encorajamento do próprio Deus, por meio de seu mensageiro: «Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus» (v. 30). Aqui, é a primeira vez que ela é chamada pelo nome pelo próprio mensageiro divino. No início do texto ela foi chamada assim pelo narrador (v. 27). Ser chamada pelo nome pelo mensageiro de Deus é sinal de muita predileção. É sinal da grandeza da missão para a qual ela está sendo chamada. Na Bíblia, o nome de uma pessoa indica sua identidade e sua missão. Quando Deus chama pelo nome, quer dizer que ele escolheu criteriosamente e, portanto, vai ficar sempre do lado daquela pessoa. A graça de Deus em sua vida é um dom gratuito e permanente, o que garante o êxito na missão. Não é resultado de um esforço humano, mas fruto do amor livre e gratuito de Deus. Por isso, tendo-a encorajado após o natural turbamento, o mensageiro de Deus explica os acontecimentos e diz qual será o papel de Maria na nova história que está sendo inaugurada: «Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim» (vv. 31-33). A missão de Maria é de uma mulher autônoma, emancipada: conceber, dar à luz, pôr o nome. Pela tradição, quem dava o nome à criança era o pai, principalmente se o filho fosse varão. No entanto, com limiar de um novo tempo, a história toma um novo rumo com o protagonismo da mulher. É o começo de uma história a partir dos pequenos.

Simultâneo à explicação da missão de Maria, também vem explicada a missão e a identidade do filho, que é o centro do relato, começando pelo nome Jesus, o qual significa «Deus salva»; de fato, aqui está o sentido de todos estes acontecimentos. A ação salvífica de Deus, até então bloqueada pela religião do templo, de agora em diante se estenderá a todas as gerações e a todos os lugares. Sendo «Filho do Altíssimo»ninguém terá poder sobre Ele, como a religião tinha sobre a interpretação da Lei. Esse Filho ocupará de uma vez por todas o trono de Davi; não terá sucessores, como acontecera no passado, inaugurando um reino novo, na certeza de que esse não cairá nas mesmas contradições que ocorreram no antigo reino de Israel. Assim, cumprem-se as promessas do Antigo Testamento, mas não conforme as expectativas. «Deus salva» a partir dos pequenos e das margens; será essa a principal característica do Reino que está prestes a ser inaugurado. A interação de Maria com o anjo revela uma nova concepção de Deus. O Deus soberano e distante é coisa do passado. O Deus do diálogo entra em cena: vindo ao encontro da humanidade, escolhendo o lado mais fraco da história, permite ser questionado por uma jovem mulher. Assim, Maria antecipa um jeito novo de relacionar-se com Deus, quebrando protocolos, abandonando rituais, interagindo diretamente: «Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?» (v. 34). Ela compreende que é possível dialogar com Deus e até questioná-lo, afinal, Ele quis ser um de nós! Mais do que percepção e cognição, o verbo conhecer (em grego: γινώσκω – guinôsko) na tradição bíblica significa intimidade, e até mesmo relação sexual; é nesse sentido que Lucas o emprega aqui. De fato, embora já fossem considerados marido e mulher, na primeira etapa do casamento não era permitido ter relação sexual. Na pergunta de Maria, Lucas antecipa o modelo ideal de discipulado: crente, confiante, perspicaz e questionador. A fé autêntica não está imune a questionamentos, pelo contrário. Com a crescente mercantilização do sagrado, o exemplo questionador de Maria se torna cada vez mais necessário no discipulado de Jesus; isso vale para todos os tempos. O questionamento de Maria, portanto, é fruto de uma fé madura e ativa.

À nova humanidade questionadora, prefigurada por Maria, Deus não responde com castigo, como muitos ainda hoje insistem. A resposta de Deus, através do anjo, é de quem acredita no ser humano e tem paciência com ele: «O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus» (v. 35). Além da capacidade de Deus agir de modo completamente novo, extraordinário e surpreendente, a concepção divina de Jesus, dispensando a intervenção masculina, marca também um rompimento com a tradição familiar patriarcal. A figura masculina deixa de ser o centro da família e da sociedade, preconizando um mundo novo marcado pela igualdade nas relações. Com a promessa da vinda do Espírito sobre Maria, Lucas introduz um dos temas mais importantes da sua teologia, mostrando que é o Espírito Santo quem anima e conduz a vida da comunidade cristã, o que ficará mais claro no segundo volume da sua obra, o livro dos Atos dos Apóstolos. Ainda em resposta ao questionamento de Maria, o mensageiro de Deus cita, como sinal, o exemplo de Isabel, uma anciã considerada estéril, porém fecundada graças à intervenção divina (v. 36). Os dois casos, uma anciã estéril e uma jovem virgem grávidas, ressaltam a grandeza e a bondade de Deus; mostram que para Ele nada é impossível (v. 37). Como é a partir das dúvidas que a fé se torna sólida, Maria chega à conclusão da veracidade do anúncio e se prontifica a colaborar decisivamente com o projeto de Deus para a construção de um mundo novo e de uma humanidade renovada: «Eis aqui a serva do Senhor» (v. 37a). Mais do que uma prova de humildade, a resposta de Maria é uma profissão de fé, amor e confiança. Com a expressão «a serva do Senhor», Maria não dá uma simples declaração de humildade, mas se apresenta como colaboradora de Deus. Ora, no Antigo Testamento, “servo do Senhor” era um título de honra, aplicado apenas a figuras masculinas, tanto individuais quanto corporativas. O servo é aquele que participa da obra. Aplicando a si, Maria diz que também as mulheres podem ser colaboradoras de Deus e de seu plano salvífico.

O consentimento livre e espontâneo, depois de um diálogo franco e sincero, demonstra a autonomia e a confiança de Maria: «faça-se em mim segundo a tua palavra» (v. 37b). Naquelas circunstâncias históricas, a mulher não tinha nenhum poder de decisão; só o pai ou o marido poderiam decidir por ela. Inclusive, a etapa da promessa, na qual Maria se encontrava, era a fase de maior submissão da mulher, pois ela estava submissa simultaneamente a dois homens: ao pai e ao futuro marido. Antes dessa etapa, era submissa apenas ao pai, e depois das bodas passa a ser submissa apenas ao marido. Ao ser consultada e responder sozinha, sem pedir permissão a nenhum homem, Maria rompe completamente com os condicionamentos culturais da época, tirando a mulher da humilhante situação de submissão. O seu sim é um ato de fé, de confiança em Deus, mas também de coragem e subversão. Assim, ela afirma a dignidade da mulher, e reivindica o primado da Palavra na vida da Igreja, da qual ela é modelo. Abrindo-se com disponibilidade para o cumprimento da palavra, ela se torna exemplo de discípula, sendo a primeira a compreender o programa de Jesus, cujas relações são definidas mais pela escuta da Palavra do que pelos laços sanguíneos (Lc 8,19-21).

Neste contexto de preparação para a acolhida do Senhor, é indispensável olhar para o exemplo de Maria. Com seu testemunho de fé no Senhor, com o espírito questionador, com sua autonomia e coragem, ela se torna modelo e exemplo para o discipulado de todos os tempos. Tudo isso porque deixou a Palavra “fazer-se” em sua vida. E para sentir os sinais da sua vinda/presença, o Senhor nos convida, através do exemplo de Maria, a olhar para as margens, ouvir os silenciados de sempre e, assim, construir uma nova história. Isso é fazer acontecer conforme a Palavra.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

 

sábado, novembro 30, 2024

REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DO ADVENTO – LUCAS 21,25-28.34-38 (ANO B)

 


Neste domingo – o primeiro do advento – a Igreja inicia um novo ano litúrgico, convidando-nos, mais uma vez, a percorrer o caminho de Jesus Cristo, contemplando o mistério da sua vida, desde anúncio do seu nascimento até a ressurreição e ascensão. O tempo do advento, iniciado hoje, é a primeira etapa desse itinerário catequético-espiritual. O termo advento (adventus em latim) significa “visita”, “chegada” ou “vinda”; possui o mesmo significado do termo grego parusia (παρουσία). Fazia parte do vocabulário das religiões pagãs no império romano, sendo usado em referência às supostas visitas das divindades aos seus respectivos templos, e no âmbito civil era usado para designar as visitas de funcionários ilustres e dos imperadores às cidades e províncias do império. Por volta do século IV, o cristianismo absorveu a palavra advento, passando a utilizá-la no contexto do Natal, a visita de Deus ao mundo, por excelência, uma vez que já estava consolidado o uso do termo grego “parusia” para designar a segunda vinda de Cristo. Como o próprio termo evoca, uma visita especial é sempre motivo de esperanças e expectativas, e essa é uma das características principais do tempo do advento. E a esperança suscitada com esse tempo gira em torno da construção de um mundo novo, no qual devem reinar a justiça, o amor e a paz.

Com o início do novo ano litúrgico, iniciamos também a leitura do Evangelho segundo Lucas, como é típico do ciclo litúrgico C. Porém, não iniciamos a leitura do início do Evangelho, mas do seu final, precisamente do seu discurso escatológico. De fato, a leitura semi-contínua do Evangelho de cada ano litúrgico só é percebida nos domingos do tempo comum. Por isso, o texto proposto para hoje é Lc 21,25-28.34-36. O discurso escatológico está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), e trata simbolicamente das realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A princípio, parece até paradoxal que a preparação para o natal seja iniciada com palavras sobre as realidades últimas. Porém, é necessário compreender o advento como uma oportunidade de preparação para a vinda constante do Senhor na vida de cada pessoa, tornando essa vinda uma presença contínua, ao invés de apenas alimentar uma expectativa futurista e preparar para uma única data ou evento. É importante recordar que o evangelho de hoje é praticamente a repetição daquele do penúltimo domingo do ano litúrgico precedente, quando foi lido o mesmo episódio, porém, na versão de Marcos (Mc 13,24-32). É claro que tem variações significativas entre uma versão e outra, mas a mensagem é semelhante. Com isso, percebe-se a continuidade do tempo: o ano (litúrgico) começa e termina animando a comunidade à esperança e advertindo-a à vigilância.

O trecho do Evangelho lido hoje pertence ao conjunto das últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão. É necessário fazer uma pequena contextualização para uma compreensão mais adequada do mesmo. Jesus se encontrava em Jerusalém, na sua última semana, ensinando no templo, denunciando a hipocrisia religiosa dos escribas e fariseus na maneira de viver a reliogiosidade, observando as verdadeiras e as falsas práticas religiosas (Lc 21,1-4). Os discípulos estavam sempre ao seu lado, escutando seus ensinamentos e também observando as novidades da grande cidade que, certamente, possuía um ritmo de vida muito diferente dos povoados da Galileia, de onde eles tinham saído. Ora, como se sabe, os primeiros discípulos de Jesus, em sua grande maioria, eram camponeses e pescadores, pessoas de origens muito simples; ao chegar em Jerusalém, eles se admiravam com a beleza e a grandeza da cidade e, principalmente, do grandioso templo, considerado uma das maravilhas do mundo, na época (Lc 21,5). À admiração dos discípulos, Jesus respondeu: «Vós contemplais estas coisas, mas dias verão em que não restará pedra sobre pedra que não seja derrubada» (Lc 21,6). Curiosos e espantados com essa afirmação de Jesus, os discípulos perguntaram: «Mestre, quando acontecerá isso? Qual o sinal de que isso está para acontecer? » (Lc 21,7). O questionamento dos discípulos é compreensível, tendo em vista o impacto das palavras de Jesus.

O discurso escatológico é, portanto, a resposta de Jesus a essa pergunta dos seus discípulos. Com Pertence ao gênero literário apocalíptico, derivação da palavra apocalipse (em grego: ἀποκάλυψις = apocalípsis), cujo significado é “revelação”, “manifestação da verdade” ou “tornar conhecido algo que estava escondido”. O gênero apocalíptico foi bastante distorcido ao longo da história, passando a ser compreendido como anúncio de catástrofes e desastres, causando medo, quando, na verdade, é um gênero literário usado pelos autores bíblicos para transmitir mensagens de esperança e resistência. Por isso, foi empregado com mais frequência nos tempos de perseguição, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, como atestam os livros de Daniel e o Apocalipse de São João, as obras mais apocalípticas da Bíblia. Portanto, ao invés de causar terror e medo, a mensagem do evangelho de hoje deve nos animar, como veremos no decorrer da reflexão. Não é uma descrição de eventos catastróficos, mas uma forma simbólica de apresentar o triunfo de Deus sobre a história. Por isso, é muito oportuno o seu uso no advento, tempo pautado por mensagem e espiritualidade marcadas pelo tema da esperança.

E o texto de hoje já começa com palavras de grande impacto: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas» (v. 25). A princípio, parece uma cena aterrorizante, mas na verdade é um sinal de esperança. Os astros (sol, lua e estrelas) eram imagens de divindades nos mundos greco-romano e egípcio. Embora Lucas não afirme, como Marcos, que esses astros irão desmoronar, ele diz que entrarão em caos, o que representa o colapso dos sistemas de dominação responsáveis pelas perseguições vividas pelas comunidades da época da redação do evangelho e toda a trajetória do povo de Deus, ao longa da história. Até mesmo o mar, onde residiam as forças do mal para a mentalidade semita, será abalado; isso ignifica que o mal será cortado pela raiz. Obviamente, tais acontecimentos trarão angústia e medo para o mundo todo, até então, conformado com a ordem injusta das coisas. Por isso, «Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas» (v. 26). Já as forças do céu, aqui, não são divindades, mas a ordem e harmonia do cosmos; esse abalo faz parte do processo de reordenamento do mundo. A imagem da revolução cósmica representa a reviravolta na história provocada pela instauração do Reino de Deus no mundo.

O que parece catastrófico, portanto, é apenas pretexto para a passagem de uma fase à outra da história. O mundo velho, até então ordenado com falsa segurança e sistemas injustos, como era o império romano, não poderia permanecer para sempre. Ora, perseguidos e já quase sem esperanças, como estavam muitos cristãos nas comunidades lucanas, não era fácil acreditar em transformação. Mas o evangelista não desiste e reconstrói as palavras de Jesus que seriam de grande importância para o seu contexto: «Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque vossa libertação está próxima» (vv. 27-28). A construção de um mundo novo requer a destruição das estruturas velhas de poder e dominação. É esse o sentido do texto até aqui. O mundo velho, governado por tiranos que se sentiam iluminados por falsas divindades (os astros), sustentadoras de um sistema tão nocivo para o ser humano quanto às forças do mar, não seria eterno; haveria de dar lugar a um mundo novo, plenamente humanizado pelo amor: o Reino de Deus.

A imagem do Filho do Homem vindo das nuvens evoca o reinado e senhorio de Deus sobre o mundo, através do seu filho Jesus Cristo, prestes a ser condenado, no contexto imediato do discurso escatológico. Aplicada ao contexto do advento, recorda a plena humanidade de Jesus; um Deus que assume a plenamente a condição humana, inserindo-se nas realidades mais humildes da história, como demonstrado pelo nascimento em um estábulo de animais. Para o Reino de Deus acontecer em sua plenitude é necessário que uma nova ordem seja estabelecida no mundo. Na verdade, o Reino é a nova ordem. Portanto, o caos descrito nos primeiros versículos e a manifestação do Filho do Homem evocam a necessidade de transformação da humanidade, para o estabelecimento de um mundo novo, justo e fraterno. Embora ainda não realizado, esse é o ideal e o que deve manter nos cristãos a chama da esperança acesa. Há, em curso, um processo de libertação plena para a humanidade, iniciado com a encarnação e o nascimento de Jesus, que um dia há de ser completamente realizado. Por isso, os cristãos não podem desanimar, por mais difícil que seja a situação, devem manter-se «de cabeça erguida, porque a libertação está próxima» (v. 28); a cabeça erguida é o sinal da dignidade e a consciência da pessoa que não reconhece os poderes injustos e opressores deste mundo, e nem é conivente com eles; é a postura de quem não se curva diante de falsos deuses e mantém firme a esperança somente no Deus de Jesus Cristo, que é o Libertador, por excelência.

Embora certa, a libertação pode retardar bastante, o que tende a levar muitos cristãos ao desânimo e até mesmo a abandonarem a fé, sobretudo quando são vítimas de injustiças e opressão. Por isso, paralelo à certeza de que a ordem injusta não é eterna, pois é certo que um dia a libertação acontecerá, o evangelista alerta para a necessidade da vigilância, para não serem surpreendidos, uma vez que não há uma data exata para isso acontecer: «Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós, pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra» (vv. 34-35). O cuidado para não deixar o coração ficar insensível é muito significativo; inclusive, é uma exclusividade de Lucas, no contexto do discurso escatológico. Ora, sendo ele o evangelista da misericórdia, já tinha mostrado Jesus pedindo aos discípulos para serem misericordiosos como o Pai é misericordioso (Lc 6,36). A insensibilidade de coração é, portanto, a ausência de misericórdia, o que é incompatível com a vida cristã. Deixar o coração insensível equivale à indiferença diante das injustiças, é a naturalização do mal e do sofrimento do próximo. Por isso, Jesus exorta o seu discipulado a manter-se de coração sensível, sempre.

Os elementos que poderiam contribuir para a insensibilidade de coração dos discípulos – comida, bebida e preocupações da vida – não constituem, aqui, um elenco de vícios a serem combatidos, como nas cartas de Paulo, mas representam o cotidiano, o dia-a-dia das pessoas, do qual os cristãos não podem privar-se, mas não podem viver somente em função disso. É uma advertência a mais: viver somente em função do cotidiano, sem almejar algo a mais na vida é perigoso; além de tornar insensível o coração, fecha o horizonte à esperança. É também sinal de comodismo e egoísmo. Quem reduz a sua existência ao comer, ao beber e às suas próprias preocupações, está fechado ao cuidado com o próximo e à esperança de mudança e transformação do mundo. Por isso, a cotidianidade não pode fechar o horizonte do discípulo. Quanto ao caráter improviso “desse dia”, trata-se de um aspecto tradicional na Bíblia, desde o anúncio do “Dia do Senhor” pelos antigos profetas (Jl 2,31; Am 5,18, etc.). É preciso viver continuamente em comunhão com Deus para não ser surpreendido. Quem já vive no dia-a-dia a presença constante do Senhor, através da oração e do cultivo de relações humanas autênticas e fraternas, não será sofrerá surpreendido.

Como Lucas é o evangelista que mais privilegia a oração, ele apresenta essa como a mais consistente das formas de vigilância: «Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem» (v. 36). A oração sincera, junto com o espírito de vigilância mostram, acima de tudo, que os cristãos não podem acostumar-se à ordem vigente, não podem ser tolerantes com as injustiças e opressões, mas devem estar sempre em busca de um mundo melhor, não apenas esperando, mas também construindo, no dia-a-dia, as condições necessárias para o reinado de Deus se estabelecer definitivamente sobre o mundo, o que não acontecerá passivamente, mas somente com a destruição de todas as forças de morte, conforme a descrição dos primeiros versículos. E isso exige muito empenho da comunidade cristã. É importante recordar a ênfase que o evangelista dá à oração: o convite é para “orar a todo momento”, e o efeito da oração é a força para suportar as dificuldades e manter-se de pé, o que não significa uma mera sobrevivência, mas estar consciente da realidade e pronto para nela intervir; é também a postura de quem não se curva diante das injustiças, além de evocar a importância da vigilância. Ficar de pé diante do Filho do Homem é, portanto, estar com a consciência tranquila de ter lutado para o seu Reino acontecer.

Que o novo ano litúrgico e, sobretudo, o tempo do advento renovem o entusiasmo de nossas comunidades na expectativa do Reino de Deus, não como um evento extraordinário, mas como uma realidade que se constrói cotidianamente. Para isso, é necessário manter os corações sensíveis aos acontecimentos e situações que exigem solidariedade, empatia, amor e justiça. A indiferença ao próximo e a conivência com as injustiças retardam a libertação e, consequentemente, a construção do Reino de Deus. Que o advento seja, portanto, tempo de esperança e, ao mesmo tempo de advertência e resistência.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, novembro 23, 2024

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – JOÃO 18,33b-37 (ANO B)


Com a liturgia do trigésimo quarto domingo do tempo comum, o último do ano litúrgico, a Igreja celebra a solenidade de Jesus Cristo como rei do universo. As leituras desta festa variam conforme o ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico B, o evangelho proposto é Jo 18,33b-37. Como se sabe, ao longo do ano litúrgico B, apesar de ter como texto evangélico predominante a obra de Marcos, a liturgia se serve do Evangelho de João em vários domingos, portanto, não é novidade que hoje utilize um texto seu. O título atribuído a Jesus nesta solenidade, por si só, já nos desperta bastante atenção e curiosidade, despertando também a necessidade de profunda reflexão para não distorcermos a natureza da realeza de Jesus. Ao falar de alguém como rei, a tendência imediata é atribuir-lhe as características próprias dos reis deste mundo, como coroa, trono, cetro e poder; associar Jesus a esses sinais de realeza é trair completamente o seu Evangelho, mesmo que as imagens e representações usadas em muitas igrejas façam isso. Diante disso, podemos dizer que dar a Jesus trono, cetro e coroa é zombar dele; independentemente do contexto histórico, é repetir a zombaria dos soldados que o crucificaram: «Os soldados, tendo feito uma coroa de espinhos, colocaram-na em sua cabeça, e o envolveram com um manto de púrpura» (Jo 19,2).

Mesmo concentrando a nossa reflexão no texto evangélico proposto – João 18,33b-37 – é oportuno e necessário fazermos uma pequena contextualização histórica sobre a instituição desta solenidade. Trata-se de uma festa relativamente nova, considerando que a maioria das festas da Igreja encontram suas raízes na antiguidade cristã. Esta soleidade foi instituída somente no ano de 1925, pelo papa Pio XI. Aquele era um momento conturbado para a Europa e todo o mundo: a primeira guerra mundial tinha acabado fazia pouco tempo e já se desenhava o cenário da segunda; a ganância pelo poder com as consequências drásticas que desse derivam estavam em efervescência, mais do que nunca. Diversos regimes totalitários se espalhavam pelo mundo. Na época, já estavam consolidados o fascismo na Itália, o socialismo na União Soviética (Rússia), e o nazismo estava em gestação na Alemanha. Também em Portugal e Espanha estavam sendo gerados projetos ditatoriais, consolidados na década de 30. Havia, portanto, muita gente buscando poderes absolutos, querendo ser “senhor do mundo”. Foi nesse contexto que o papa Pio XI instituiu, com muita sabedoria, a solenidade de Cristo Rei, como um lembrete e advertência para aqueles que almejavam o senhorio da história e o domínio do mundo.

Uma vez instituída e consolidada, essa festa não deixa de trazer certos perigos em sua interpretação. O problema se dá na concepção e representação que se tem feito da realeza de Jesus. Combater os reinos deste mundo para implantar o Reino de Deus não é uma simples substituição na detenção do poder, mas uma mudança radical na forma de conceber o Reino. Assim como Jesus não pretendeu ocupar o lugar de César (o imperador romano), jamais pretenderia também ocupar o lugar de Mussolini, Stálin, Hitler ou qualquer outro dirigente totalitário, como os que ameaçam os regimes democráticos na atualidade. A proposta de reinado (ou Reino) de Jesus é totalmente incompatível com as experiências de poder até hoje experimentadas pela humanidade. Jesus não propõe apenas um mundo diferente deste que tem proporcionado os detentores de poder, mas um mundo totalmente oposto, com relações completamente novas, capazes de gerar paz, justiça e fraternidade. Enfim, ele propõe um mundo novo e exige a colaboração dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos na sua construção. E a exigência básica consiste em viver radicalmente o amor.

O texto evangélico específico para a liturgia de hoje faz parte do relato da paixão de Jesus no Quarto Evangelho. É um trecho do processo de Jesus diante de Pilatos, governador romano da província da Judéia, na época. A capital da província era a cidade de Cesaréia Marítima, onde morava o governador; porém, nos períodos das grandes festas, como a páscoa, a governadoria se transferia para Jerusalém, tanto para monitorar possíveis rebeliões e combatê-las, quanto para mostrar a força do poder romano, o que era visto pelos judeus como motivo de humilhação. Por isso, Pilatos teve a oportunidade de interrogar Jesus, pois já se encontrava em Jerusalém por ocasião da páscoa, conforme o contexto narrativo do Evangelho. No momento do interrogatório, Jesus estava sozinho diante de Pilatos com seus soldados, pois os judeus não podiam entrar no palácio, com medo de ficarem impuros e, assim, não poderiam celebrar a páscoa no dia seguinte. Por isso, Jesus entrou sozinho no pretório para ser interrogado. O encontro de Jesus com Pilatos é apenas uma formalidade, pois a sua morte já estava decidida. A cúpula da religião judaica, incomodada com a pregação e a práxis de Jesus já planejava a sua morte há muito tempo. Já haviam decidido que daquela páscoa ele não passaria! Como os chefes religiosos não tinham poder de execução, mesmo com a pena já decidida, era necessário convencer o poder romano a fazer a executá-lo.

Eis o que diz o texto: «Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?”» (v. 33b). A pergunta dá a entender que Pilatos já sabia que aquele caso se tratava de uma questão muito interna da religião judaica, embora representasse também uma ameaça de rebelião, o que poderia trazer consequências para o poder romano. Na verdade, todos os governadores romanos enviados para a província da Judéia já iam prevenidos do risco constante de rebeliões de líderes radicais dos movimentos populares do judaísmo, principalmente da parte dos galileus, como era Jesus. A pergunta de Pilatos revela também uma espécie de surpresa: o homem que está diante dele não aparenta causar perigo algum à ordem imperial, embora tenha sido entregue como agitador e malfeitor, ou seja, como bandido. Parece que Pilatos não vê Jesus como ameaça. Além de surpresa, essa pergunta também expressa escárnio. Mas Jesus não se intimida com a pergunta do governador, e faz o diálogo fluir: «Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros te disseram isto de mim?» (v. 34). É costume de Jesus responder a uma pergunta com uma nova pergunta. Com isso, ele chama a atenção de Pilatos para pensar por conta própria sem deixar-se manipular pela opinião dos outros. Foi com esse método de responder perguntando que ele, ao longo do ministério, desmascarou a hipocrisia de tantas pessoas religiosas, como escribas e fariseus, como também conquistou discípulos para o seu seguimento, embora àquela altura todos tivessem fugido com medo.

Na continuidade do diálogo, Pilatos reage à pergunta provocatória de Jesus: «Pilatos falou: “Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizestes?”» (v. 35). A intenção do governador é isentar-se ao máximo possível da responsabilidade pela condenação de Jesus, provavelmente por já ter notícia da força do seu movimento na Galileia e em todas as regiões por onde passou. Ao tentar provar neutralidade, Pilatos exerce a pior das hipocrisias: a indiferença diante da injustiça. Ao mesmo tempo, sintetiza uma realidade que já fora demonstrada ao longo de todo o Quarto Evangelho: toda a classe dirigente dos judeus estava contra Jesus: a expressão «o teu povo e os sumos sacerdotes» significa o complô dos grupos judaicos hegemônicos com os dirigentes do templo. No final, por mais que o poder romano tenha sido conveniente e executor da condenação de Jesus, o evangelista deixa claro de onde partiu a iniciativa: das autoridades religiosas judaicas, que se viam ameaçadas diante da mensagem emancipadora de Jesus, sobretudo, por revelar que o verdadeiro Deus, o seu Pai, nada tinha a ver com a caricatura de Deus vendida na templo como mercadoria.

Pilatos tinha perguntado o que Jesus tinha feito para ser entregue pelo seu próprio povo. Ora, o que Jesus fez foi amar sem medidas e revelar um Deus que é todo amor, o que a religião do seu tempo não aceitou. Contudo, a essa pergunta Jesus não respondeu, preferiu voltar para o tema da primeira pergunta, a respeito da natureza do seu reino: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui» (v. 36). A declaração «o meu reino não é deste mundo» é bastante esclarecedora, mas também complexa e, por isso, fácil de ser distorcida. Antes de tudo, não se trata de uma contraposição entre o céu e a terra. Aqui, Jesus se refere à origem, à concepção do seu reino, e não à sua efetivação; os reinos deste mundo se sustentam com o uso da força, da violência, da injustiça e da hipocrisia de um modo geral. Jesus, com essa afirmação, diz que seu reino não se baseia nesses meios. Porém, ele não está falando de um reino para o além ou outro mundo. O seu reino, baseado na justiça, no amor e na fraternidade deve ser efetivado nesse mundo, onde estão as pessoas com suas necessidades concretas, com suas angústias e necessidade de humanização. O reino de Jesus não é deste mundo por não se assemelhar aos reinos deste mundo, mas deve ser construído e vivido já nesse mundo. Inclusive, em uma das petições do Pai nosso, a oração modelo da comunidade cristã, pede-se justamente que venha a este mundo o Reino de Deus, que é um projeto de mundo novo, humanizado pelo amor. E o Pai nosso foi ensinado pelo próprio Jesus.

A Pilatos, Jesus dá uma resposta muito concreta, não apenas com palavras, mas pelo jeito de ser, de que seu reino, de fato, não é deste mundo: não tem exército nem guardas para lutar contra a sua condenação. Um exército era a primeira necessidade para a formação de um reino na antiguidade. De fato, o aparato básico para alguém considerar-se rei era ter um exército à disposição. Inclusive, os movimentos judaicos de resistência que, de vez em quando, causavam preocupação à casta sacerdotal e ao poder romano, proponham sempre a luta armada, faziam recruta de militantes. E nem com esses o movimento de Jesus se assemelhava. Na verdade, para Jesus e seus seguidores, a violência nunca pode ser a resposta. Pelo contrário, à violência, ao ódio e à injustiça e ao mal em geral, a resposta ensinada por Jesus é sempre o amor. Por isso, é sempre incoerente caricaturá-lo com os sinais de realeza terrena, come ele vem representado na maioria das imagens e pinturas que circulam em tantas igrejas. É uma verdadeira traição ao seu projeto. Por essa razão, também é clara contradição ao seu Evangelho propagar políticas armamentistas, por exemplo, e a disseminação de discursos de ódio e intolerância. Ao invés do uso da força, Jesus propõe a construção do seu Reino pelo amor, o único meio de humanizar o mundo.

Ao dizer que tem um reino, mesmo não sendo deste mundo, Jesus despertou ainda mais a curiosidade de Pilatos, que lhe perguntou novamente: «Então tu és rei?» (v. 37a). A insistência com a mesma pergunta revela a insegurança e o medo de um possível concorrente, o que faz parte da lógica dos reinos deste mundo, compostos por oprimidos e opressores, privilegiados e não privilegiados. A concorrência é a negação da fraternidade e da igualdade. Quem vê o outro como concorrente deixa de vê-lo como irmão, como igual. À nova indagação de Pilatos, finalmente, Jesus confirma que é rei, mas faz questão de reforçar a incompatibilidade entre o seu reino e aquele que Pilatos representava: «Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”» (v. 37). Pilatos perguntou, no início, se Jesus era rei dos judeus; a essa pergunta Jesus se negou a responder. Quando responde ser rei, não se diz de um povo específico, o que mostra o alcance universal de sua mensagem. Trata-se de um detalhe importante, pois Jesus não veio ao mundo com uma missão restrita e destinada a um povo específico, mas trouxe um projeto de reino universal, inclusivo, alicerçado na verdade.

A verdade (em grego:  ἀληθείᾳ = alethéia) é uma palavra-chave para a construção da missão e da identidade de Jesus no Evangelho de João. Já no prólogo, no versículo principal daquele poema, quando o evangelista afirma que “a Palavra se fez carne, como Unigênito do Pai”, ele diz que esse Unigênito – Jesus – veio “cheio de verdade” (Jo 1,14); também no prólogo, ainda, o evangelista contrapõe a graça à lei, dizendo que junto com a graça, veio a verdade ao mundo, por meio de Jesus Cristo (Jo 1,17). Na ceia, ao responder a uma pergunta de Tomé, Jesus se revelou como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Finalmente, no processo, diante de Pilatos, Jesus reafirma a sua relação com a verdade e sua missão de testemunhá-la. E foi uma missão irrenunciável, a ponto de custar-lhe a vida. A verdade é um atributo de Jesus e ao mesmo tempo a sua meta e missão, como deve ser de seu discipulado. Não se trata de uma doutrina para ser preservada e anunciada, mas de uma realidade a ser vivida e testemunhada, o que só é possível em estreita comunhão de vida com ele. Ora, a verdade é, junto à felicidade, a mais alta aspiração do ser humano. E, como Jesus é a verdade, significa é a comunhão com ele que torna o ser humano plenamente realizado, ou seja, verdadeiramente humanizado. E a comunhão se dá à medida em que se dá adesão à sua proposta de vida em abundância, de mundo novo. É essa comunhão que faz nascer o verdadeiro reino por Jesus anunciado.

Que neste domingo em que a Igreja no Brasil celebra também o Dia Nacional do Laicato – dia de todas as leigas e leigos –, despertemos para uma autêntica busca da Verdade, a começar pela ressignificação da imagem de realeza que se tem de Jesus. É preciso recuperar a imagem da Testemunha da Verdade, que caminha lado a lado com os pequeninos, diferente do imaginário soberano. O despertar para o “caminhar juntos”, meta de uma Igreja que vive a sinodalidade, precisa sentir a presença de Jesus na caminhada, muito mais do que nos tronos.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, novembro 16, 2024

REFLEXÃO PARA O 33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 13,24-32 (ANO B)


A reta final do ano litúrgico é sempre marcada pelo uso intenso de textos do gênero literário apocalíptico, como acontece neste domingo, o trigésimo terceiro do tempo comum. Chegamos ao penúltimo domingo do ano litúrgico em curso, cujo evangelho proposto é Mc 13,24-32. Com esse texto encerramos a leitura dominical do Evangelho de Marcos, por este ano, já que o evangelho do próximo domingo, solenidade de Cristo Rei, será tirado da obra de João. Ao longo dos domingos de todo este ano litúrgico, foi feita a leitura quase completa do Evangelho de Marcos, e hoje nos despedimos dele. Como foi mencionado acima, o trecho lido hoje pertence ao gênero literário apocalíptico, e faz parte do “discurso escatológico” de Jesus, chamado também de “pequeno apocalipse” do Evangelho de Marcos. Antes de entrar propriamente no conteúdo do texto, é necessário contextualizar e fazer algumas observações, como faremos agora, à maneira de introdução.

A primeira observação diz respeito ao gênero literário ao qual pertence o texto: o gênero apocalíptico. Derivado da palavra apocalipse (em grego: ἀποκάλυψις – apocalípsis), cujo significado é “revelação”, “manifestação da verdade” ou “tornar conhecido algo que estava escondido”, o gênero apocalíptico é bastante empregado na Bíblia, mas tem sido muito distorcido ao longo da história, passando a ser sinônimo de catástrofes e desastres, causando medo nas pessoas, quando, na verdade, é um gênero literário usado pelos autores bíblicos para transmitir mensagens de esperança e resistência às comunidades destinatárias. Logo, ao invés de causar terror e medo, a mensagem do evangelho de hoje deve nos animar, como veremos no decorrer da reflexão. O discurso escatológico está presente nas últimas partes dos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), antecedendo os relatos da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Os evangelistas fazem questão de situá-los no curto ministério de Jesus em Jerusalém. O adjetivo “escatológico” deriva da palavra grega “escatón” (ἔσχατον), que significa fim. Ao falar de fim, os evangelistas pensam em dois sentidos: fim como extermínio de tudo o que impede a realização plena do Reino de Deus, e como finalidade da criação, sobretudo do gênero humano, alcançando seu verdadeiro destino.

Em Marcos, o discurso escatológico surge como resposta de Jesus a algumas perguntas dos discípulos. Ora, eles ficaram muito admirados com a beleza e esplendor do templo de Jerusalém (Mc 13,1). A essa admiração, Jesus respondeu que, de tudo aquilo, “não restaria pedra sobre pedra” (Mc 13,2). Curiosos, os discípulos perguntaram também quando aconteceria a destruição do templo (Mc 13,4); a essa pergunta, Jesus respondeu com um longo discurso (Mc 13,5-37), do qual o evangelho desse domingo faz parte. É um discurso dirigido essencialmente aos discípulos, os mais necessitados de respostas naquele momento, o que reflete também a necessidade da comunidade de Marcos. Ora, mais de trinta anos separam a ressurreição de Jesus da redação do Evangelho de Marcos. Muitos cristãos da sua comunidade começavam a levantar dúvidas sobre a veracidade das palavras anunciadas como se fossem de Jesus, enquanto surgiam dificuldades com perseguições de todas as partes: tanto do poder imperial romano, quanto da sinagoga que não aceitava mais continuar perdendo adeptos para o movimento cristão. Diante disso, além de levantar questionamentos, muitos membros da comunidade cristã desanimaram, perdendo a esperança e a motivação para continuar acreditando no projeto de Jesus. Por isso, o evangelista recorda o que Jesus disse e convida a sua comunidade a resistir diante das dificuldades.

O texto de hoje começa com uma afirmação importante de Jesus: «Naqueles dias, depois da grande tribulação, o sol vai se escurecer, e a lua não brilhará mais, As estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas» (vv. 24-25). Percebe-se que essas palavras ainda fazem parte da resposta de Jesus à pergunta dos discípulos a respeito de “quando” aconteceria a destruição do templo, que significa a “grande tribulação” aqui mencionada. Ora, para Jesus, o templo de Jerusalém, que já não era mais uma casa de oração, e sim casa de comércio e covil de ladrões, era a primeira das estruturas de poder e dominação a ser destruída. A realização plena do Reino de Deus depende da derrocada das forças opressoras deste mundo, das quais, para Jesus, a mais cruel era a instituição religiosa que oprimia em nome de Deus; depois que essa desmoronasse, também as outras forças malignas desmoronariam, como aqui ele anuncia, ao usar as imagens dos astros: sol, lua e estrelas. Aqui, ele não se refere a uma catástrofe cósmica, mas usa uma linguagem simbólica, típica das literaturas de resistência, como a apocalíptica. Os astros aqui mencionados – sol, lua e estrelas – representam os poderes opressores e as divindades pagãs às quais estes poderes estavam associados. Esses astros eram divindades adoradas pelos romanos e egípcios, os quais acreditavam que seus imperadores fossem imagens e representantes dessas divindades.

O escurecimento do sol e da lua, junto à queda das estrelas, significa, portanto, que as forças opressoras, principalmente o poder religioso e o império romano, irão cair; desses acontecimentos brotará o Reino de Deus, instaurado definitivamente pelo Ressuscitado que, vivo, retornará glorioso: «Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória» (v. 26). Nessa imagem, está a grande esperança de um novo tempo e de um novo mundo para todos os que perseverarem, pois «Ele enviará os anjos aos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus, de uma extremidade à outra da terra» (v. 27). Ao invés de um julgamento severo, o evangelista diz que o Filho do Homem vem para reunir a criação inteira, e esse é um dos grandes distintivos do discurso apocalíptico de Marcos, isento de qualquer mensagem ameaçadora e punitiva. Os quatro cantos e as extremidades da terra significam a totalidade da humanidade a ser reunida e renovada; com isso, será instaurada a paz messiânica sobre a terra. São os poderes opressores com suas respectivas ideologias que impedem a convivência fraterna entre todos os povos da terra; com a queda dessas forças, a humanidade alcançará o seu verdadeiro fim e, assim, a paz será instaurada definitivamente. Com isso, os pobres e pequeninos terão vez e voz, serão protagonistas. As imagens que evocam o fim são, portanto, sinais de esperança, pois indicam um novo começo. É o velho mundo dando lugar a um mundo novo, com a instauração definitiva do Reino de Deus.

Assim é a história da salvação: nela, as coisas não acontecem repentinamente, nem através de eventos extraordinários, mas por meio de processos históricos que se desenrolam no tempo até que, um dia, desses acontecimentos, surgirá o Reino de Deus de modo definitivo. Com isso, ensinam Jesus e o evangelista que, para alcançar o Reino de Deus em sua máxima manifestação, os cristãos não devem fugir do mundo, nem ignorar a história; pelo contrário, inseridos no mundo e construtores da história, esses devem transformar, como agentes habilitados e enviados pelo próprio Cristo. A vitória é fruto e consequência de muita luta contra as forças do mal. Como viviam perseguidos os cristãos da comunidade de Marcos, o evangelista encontrou no gênero apocalíptico o meio mais adequado para transmitir sua mensagem encorajadora. A autêntica compreensão da história começa pela observação das coisas simples da natureza; por isso, o convite: «Aprendei, pois, da figueira esta parábola: quando seus ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está perto» (v. 28). Os sinais estarão sempre disponíveis para quem tem a necessária capacidade do discernimento. E é muito significativo que Jesus convide seus seguidores a observar os sinais dos tempos a partir dos elementos da criação. Mesmo sendo a sua pessoa a plenitude da revelação, ele não abre mão dos elementos da criação – astros e plantas – como sinais mediadores e indicadores do agir de Deus no mundo.

Os cristãos perseguidos da comunidade de Marcos não cansavam de perguntar quando seriam libertados, quando as tribulações passariam. Muitos deles, assim como os primeiros discípulos, queriam até uma data determinada e fixa. Porém, nem Jesus nem o evangelista fixaram datas; apenas convidaram todos a manterem-se vigilantes e atentos, lendo os sinais dos tempos: «Assim também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Filho do Homem está próximo, às portas» (v. 29). “Estas coisas”, aqui, são os acontecimentos históricos representados pela imagem do desmantelamento dos astros (vv. 24-25), o que significa o desmoronamento das forças opressoras, a começar pela queda do templo de Jerusalém, como fim da exploração religiosa e, posteriormente, a derrocada das outras forças, como o império romano. É importante o sentido das palavras empregadas com a sua simbologia: os astros são meras imagens. Mas não é para o alto que os cristãos devem olhar, e sim para o que está ao seu redor, como o renovamento da ramagem da figueira, que é uma imagem mais acessível. Mais do que esperar acontecimentos portentosos, portanto, os discípulos de Jesus devem olhar para os fatos simples e cotidianos. O ciclo de mudanças de uma planta, como sinal de simplicidade e mistério, ao mesmo tempo, é mais pedagógico do que uma imaginária revolução cósmica, pois é algo concreto, observável no cotidiano. Por isso, é preciso ver a história acontecendo e interpretá-la com discernimento, para transformá-la, sem esperar sinais extraordinários.

Aparentemente, há uma contradição entre os versículos 30 e 32: enquanto no versículo 30 está escrito que «esta geração não passará até que tudo isto aconteça», o versículo 32 afirma que «Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai» (32). O versículo 30 é, com muita probabilidade, uma advertência do próprio evangelista à sua comunidade que via a destruição de Jerusalém e do seu templo como inevitável – o Evangelho de Marcos foi escrito, provavelmente, já no final dos anos 60, e Jerusalém foi destruída no ano 70. De fato, a destruição de Jerusalém e do templo era vista com a primeira fase “destes acontecimentos” de quedas das forças opressoras. Se aquela grande casa de comércio, o templo, com toda a sua força e ideologia estava prestes a cair, também os demais reinos opressores cairiam um dia, mesmo que num tempo muito distante, efetivando a instauração definitiva do Reino de Deus. Porém, quanto à chegada definitiva desse Reino, somente o Pai sabe; aos filhos, discípulos de Jesus em todos os tempos, cabe apenas lutar perseverantes para um dia isso acontecer. Essa luta depende da disposição de cada pessoa em fazer somente o bem, para que o mal seja completamente destruído e, assim, um novo mundo surgirá.

Não obstante as contradições da história e as dificuldades de ver os sinais do Reino presentes, os cristãos e cristãs são motivados por uma única certeza: «O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão» (v. 31). Esse é, de fato, um versículo conclusivo e bastante significativo. Muitos questionamentos eram e continuam sendo feitos, pois, embora dinâmica, a história parece não caminhar para um final feliz. Os processos históricos, em sua grande maioria, ao invés de melhorar a vida das pessoas, trazendo inclusão e bem-estar, parecem piorar, sobretudo, para os menos favorecidos. As contradições aumentam cada vez mais, junto com as desigualdades. Porém, ao invés de desanimar, todas estas contradições da história devem nos animar e alimentar a esperança, pois mostram que nada permanece para sempre, tudo muda. Dessa certeza, resta-nos acreditar e apostar cada vez mais na única realidade que não passa: o Evangelho. É a totalidade das palavras e da práxis de Jesus que garante à humanidade a única alternativa de mudança de rumo e de realização plena de um novo mundo e uma nova história.

É consolador saber que, diante de tantas coisas passageiras e de outras que parecem permanentes, somente as palavras de Jesus nunca passarão, continuarão sempre novas. Por ser eternas, são palavras que resistem e geram resistência. Neste dia, que é a Jornada Mundial dos Pobres, é importante recordá-las, bem como todo o evangelho de hoje. O mundo velho, representado no texto pelos astros, vai cair, vai passar, e é importante que os seguidores de Jesus se comprometam em lutar por essa queda. Em seu lugar, surgirá um mundo novo, o Reino de Deus, que é o mundo dos pobres e pequeninos, por quem Jesus fez clara opção no seu ministério, e por quem também devem fazer os seus seguidores. O evangelho de hoje é um forte convite a acreditar no mundo novo e a lutar pela sua construção.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

REFLEXÃO PARA O 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,15-20 (ANO A)

Prosseguindo com a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, a liturgia deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum faz um salto co...