sexta-feira, junho 23, 2023

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA – LUCAS 1,57-66.80



A liturgia deste dia contempla a Solenidade da natividade de São João Batista. O texto evangélico proposto é Lc 1,57-66.80, relato que contempla o nascimento, a circuncisão e a imposição do nome do santo precursor de Jesus Cristo. Depois de Jesus, João Batista é o personagem com mais dados biográficos oferecidos pelo Novo Testamento, o que evidencia a importância e a grandeza da sua missão. Quem mais contribuiu para isso foi o evangelista Lucas, como percebemos no Evangelho de hoje. Até mesmo quando os apóstolos consolidaram a pregação sobre Jesus, fizeram questão de recordar o Batista, como recorda o próprio Lucas, no segundo volume de sua obra: «Jesus de Nazaré, começando pela Galileia, depois do batismo proclamado por João» (At. 10,37). Trata-se, portanto, de um personagem relevante da história da salvação, sendo necessário passar por ele para compreender e anunciar a missão do próprio Jesus.

De fato, a figura de João é central na história da salvação, sendo ele apresentado como o elemento de transição da primeira para a segunda aliança pelo próprio Jesus, ao declarar: «A lei e os profetas até João. Daí em diante, é anunciado o Evangelho do Reino de Deus» (Lc 16,16). Em outra ocasião, também Jesus o proclamou como o maior entre os nascidos de mulher (Mt 11,11; Lc 7,28). Portanto, se trata de um personagem que não poderia passar despercebido. E, liturgicamente, a Igreja compreendeu bem isso, reservando-lhe duas datas no calendário: a sua natividade, celebrada hoje (24 de junho), e o seu martírio, celebrado em 29 de agosto. Chama a atenção que o primeiro evento narrado por Lucas em seu evangelho é o anúncio do nascimento de João (1,5-23), apresentando-o desde o início com as características de profeta e como um prodígio de Deus para a humanidade, recordando que seus pais, Zacarias e Isabel, eram anciãos e estéreis, já inaptos à procriação. Nesse casal, descrito como justo (Lc 1,6) o evangelista viu a situação de Israel: mesmo observando minuciosamente os preceitos da lei, faltava alegria e sinal de vida neles!

Aquela esterilidade significava a decadência da Lei e da religião por eles observada, o judaísmo do segundo templo. Por mais que se esforçassem, os condicionamentos sociais, culturais e religiosos não permitiam que vida nova brotasse daquela situação. Somente uma intervenção de Deus poderia mudar o rumo daquela história. Fiel às suas promessas, Deus intervém, inaugurando uma nova fase na história da salvação, fazendo surgir um «profeta do altíssimo» (cf. 1,76).  Assim como os profetas do Antigo Testamento previam um “resto de Israel” fiel e justo, o evangelista Lucas identificou esse resto nos personagens que ilustram o seu chamado “evangelho da infância” (capítulos 1 e 2 de Lucas): Zacarias e Isabel, Maria e José, Simeão e Ana. Neles, as promessas de Deus, desde os patriarcas, chegam ao cumprimento. Por mais que Israel estivesse esgotado e estéril, era dele que a salvação brotaria. Lucas compôs a sua dupla obra (Evangelho e Atos dos Apóstolos) segundo a dinâmica promessa-cumprimento. O nascimento de João é, portanto, o início do cumprimento.

Olhemos, pois, para o texto: «Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho» (v. 57). Com a clássica e conhecida expressão bíblica “completou-se o tempo”, o evangelista associa o nascimento de João às promessas de Deus. Não se trata apenas de uma gravidez concluída e uma criança a mais no mundo; significa a conclusão de uma etapa na história da salvação e a abertura de uma nova. Israel passou séculos gerando profetas e agora chegou o profeta que, finalmente, contempla o Messias. Por isso, a gravidez de Isabel significa muito mais do que a gestação de uma criança; é a geração de um tempo novo, de uma nova história. Daí que o nascimento de João comporta uma dimensão comunitária, pública; por isso, «os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela» (v. 58). Aqui, o evangelista introduz dois temas centrais da sua grande obra (Evangelho e Atos): a misericórdia e a alegria, duas dimensões e características indispensáveis na comunidade cristã. Os parentes e amigos representam a abertura da salvação que, aos poucos, Lucas vai mostrando. Isso mostra que o nascimento de João é recebido como uma ação favorável de Deus a um povo, a uma comunidade, e não apenas a um clã.

Sendo Isabel e Zacarias, «justos e irrepreensíveis observantes da Lei» (1,6), ou seja, pessoas de comportamento reto, que observavam a Lei e cumpriam boas obras em favor do próximo, atentas aos mandamentos da religião que praticavam. Pessoas justas, segundo a mentalidade bíblica, eram aquelas que ajudavam o próximo, que refletiam com a vida a misericórdia de Deus, e a misericórdia é, acima de tudo, um agir favorável em prol dos mais necessitados; ser observantes da Lei significa a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos. Por isso, «no oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias» (v. 59)Querendo simplificar a história, o evangelista faz uma pequena confusão: o nome da criança era dado logo no nascimento, e não no momento da circuncisão, ao oitavo dia. Também não era costume dar o nome do pai, e sim o nome do avô da criança. Mais uma vez, o evangelista ressalta a dimensão comunitária do nascimento de João: a comunidade – parentes e amigos – participa da sua vida, assim como o seu ministério profético estará a serviço de todo o povo.

Dar o nome à criança era atributo exclusivo do pai, de acordo com a tradição bíblica e com as tradições de outros povos da antiguidade. É importante perceber neste o papel inovador da mãe, ressaltado por Lucas: «A mãe, porém, disse: ‘Não! Ele vai chamar-se João!» (v. 60). Desde o início do seu evangelho, Lucas pensa a mulher como sujeito com voz e poder de decisão, rompendo com as tradições e condicionamentos da época. Esse “não!” de Isabel representa uma verdadeira revolução na tradição bíblica. É uma inovação sem precedentes na história. Até então, não se tinha visto uma decisão que representasse um empoderamento tão forte da mulher. E isso causou perplexidade, obviamente, como observa o evangelista: «Os outros disseram: ‘Não existe nenhum parente teu com esse nome!’» (v. 61). Os outros aqui, são os parentes e vizinhos; apegados à Lei, não aceitam a novidade que começa a se configurar; querem que as coisas permaneçam como sempre, com a mulher continuando sem direito de opinar e de tomar decisões. É o Israel necessitado de conversão, a quem João se dirigirá em seu ministério e, posteriormente, Jesus. Nesse sentido, Isabel é pioneira na desconstrução da mentalidade patriarcal. A imposição do nome João já tinha sido indicada pelo anjo no anúncio a Zacarias (Lc 1,13), e isso mostra a sintonia de Isabel aos propósitos de Deus: ela não necessitou ouvir de um anjo para acolher e cumprir a sua vontade; os próprios acontecimentos da vida lhe ensinaram a interpretar e cumprir a vontade de Deus. João é um nome hebraico que significa “Deus é favorável” (significados correlatos: Deus é clemente; Deus é misericordioso; agraciado por Deus).

Com a mentalidade ainda fechada e sem aceitar a novidade representada pelo não de Isabel, os parentes e vizinhos recorrem à autoridade masculina, rejeitando o protagonismo da mulher, como mostra o evangelista: «Então fizeram sinais ao pai, perguntando como queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: ‘João é o seu nome’. E todos ficaram admirados» (vv. 62-63). Zacarias tinha ficado sem poder falar, por não crer no anúncio do anjo (Lc 1,20), por isso se comunicava por meio de sinais. Ao escrever como o menino seria chamado, ele ratifica a decisão de Isabel, e ambos confirmam a promessa de Deus através do anjo. Todos ficaram admirados por contemplar Deus agindo na história, cumprindo as antigas promessas, porém, de um jeito completamente novo, e com novos sujeitos. Embora Zacarias fosse sacerdote, não pertencia às classes abastadas da hierarquia social de Israel; servia no templo por no máximo duas semanas ao ano, com uma função meramente litúrgica, sem influência política nem ideológica, ao contrário dos sumos sacerdotes que eram os verdadeiros detentores de poder em Israel, tanto na política quanto na economia.

Como o anjo tinha afirmado que Zacarias só voltaria a falar quando o menino nascesse, a promessa foi cumprida e, «no mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus» (v. 64). O ápice do louvor a Deus proclamado por Zacarias é o seu cântico, o Benedictus, o qual a liturgia de hoje omite, mas é bastante conhecido. A transformação de Zacarias, da incredulidade e mudez ao louvor a Deus, é a passagem que, inicialmente, Israel e depois a humanidade inteira, devem fazer: reconhecer e aceitar a ação misericordiosa de Deus em seu favor e abrir-se à conversão. Zacarias se torna, assim, o primeiro convertido pela missão do Batista de endireitar os caminhos do Senhor. Diante de tudo isso, a reação dos vizinhos não poderia ser outra, senão de espanto: «E todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia» (v. 65). Aqui, a tradução litúrgica traz um equívoco, ao optar pela palavra medo ao invés de temor. Na verdade, a reação de quem contempla uma intervenção de Deus é de temor, o que significa mais admiração e respeito do que medo, propriamente. E Lucas não perde a oportunidade de mostrar a publicidade e difusão da ação de Deus na história; por isso, diz que a notícia do nascimento de João «espalhou-se por toda a região montanhosa». Faz parte de suas estratégias literárias e teológicas mostrar a repercussão dos eventos narrados. Aqui ele já antecipa o propósito de suas duas obras (Evangelho e Atos): apresentar a salvação rompendo limites e barreiras para, um dia, atingir até os confins da terra.

Além de mencionar o espalhar-se da notícia, como antecipação da “Boa-Notícia” por excelência, que é a pessoa de Jesus, o evangelista destaca o seu efeito: «E todos os que ouviam a notícia, ficavam pensando: ‘O que virá a ser este menino?’ De fato, a mão do Senhor estava com ele» (v. 66). As notícias das maravilhas de Deus geram repercussão em quem escuta, não são notícias vagas; causam efeitos porque carregam em si a força inerente à Palavra, que é uma Palavra performativa. O questionamento sobre o futuro do menino reforça o superdimensionamento da sua missão. Se seus pais, anciãos e estéreis, desejavam um filho simplesmente para «deixarem de passar vergonha perante os homens» (Lc 1,25), pois a esterilidade era sinal de humilhação para um casal, inclusive, era considerada um castigo divino. E Deus fez muito mais por aquele casal, dando-lhe não apenas um filho, mas um profeta, com uma missão especial de testemunhar o Messias e preparar o seu caminho. Na verdade, o menino recém-nascido tinha pela frente uma missão inconfundível na história, a ponto de ser difícil de catalogá-la. Até mesmo no auge da sua pregação, era difícil saber quem era João Batista; até com o messias ele foi confundido (Lc 3,15), devido à sua fidelidade a Deus e a radicalidade com que vivia a sua missão. Com a expressão «a mão do Senhor estava com ele», o evangelista reforça a escolha e origem divina de sua futura missão de profeta.

Na conclusão do texto, é apresentada uma síntese da vida de João, da infância ao início da sua vida pública: «E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel» (v. 80). Aqui está a prova de que a mão do Senhor estava realmente com ele. O evangelista está preparando o leitor para apresentar, posteriormente, o seu ministério de precursor do Messias. Paralelo ao crescimento físico, ele se preparava para a missão. A vida no deserto, embora marcada pelas dificuldades, é ideal para a relação com Deus. Seu pai era sacerdote do templo e, por isso, o ambiente familiar não seria favorável a uma educação ascética e crítica em relação às instituições de Israel. O deserto significa o lugar da obediência a Deus, do diálogo, da oração; enfim, viver no deserto é ser educado por Deus, resgatando o verdadeiro sentido da lei: instrução para o povo. No ambiente sacerdotal ligado ao templo ele receberia uma educação reprodutora para, no futuro, apenas substituir o pai nas funções litúrgicas, o que seria a negação da sua identidade profética. Viver nos lugares desertos, portanto, significa a necessária ruptura com as estruturas da época, para acolher a novidade de Deus.

Mais do que recordar um grande personagem, o evangelho de hoje constitui um verdadeiro convite para retornar ao que, de fato, é essencial na vivência da fé, procurando compreender os sinais de Deus na história e a necessidade de aderir aos seus propósitos. A fidelidade a Jesus e seu Evangelho implica aceitar os seus valores, acolher a sua misericórdia e a coragem de romper com todos os possíveis entraves à difusão do seu amor. A ousadia de Isabel, apresentada por Lucas, junto com a vida e o ministério do Batista, são sinais autênticos da necessidade contínua de conversão para acolher o Evangelho com suas exigências. Se a missão do Batista foi preparar os caminhos do Senhor, só tem sentido celebrá-lo com disposição para seguir esses caminhos!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, junho 16, 2023

REFLEXÃO PARA 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 9,36–10,8 (ANO A)





Neste décimo primeiro domingo do tempo comum, a liturgia continua a leitura sequencial do Evangelho de Mateus, retomada no domingo passado, após o ciclo pascal e o ciclo de solenidades seguintes. O texto proposto para hoje – Mt 9,36–10,8 – compreende o envio dos doze apóstolos em missão, por Jesus, para sanar a situação de abandono do povo de Israel, devido à negligência e corrupção de seus líderes, os dirigentes políticos e religiosos que fugiram das responsabilidades de pastores. Esse envio é fruto do olhar compassivo de Jesus, que não fica indiferente diante das situações de abandono e opressão pelas quais passam os seres humanos. Jesus sempre toma iniciativas que visam a transformação de todas as situações de ameaça à vida. E essa postura deve ser a mesma da comunidade cristã em todos os tempos.

A nível de contexto, podemos observar que se trata de um texto de transição entre uma seção narrativa e um discurso de Jesus. Por sinal, a alternância entre narrativa e discurso é uma das principais características literárias do Evangelho segundo Mateus, conforme já recordamos no domingo passado, ao contextualizar o texto daquele dia. O texto de hoje compreende, pois, a conclusão da seção narrativa que sucedeu ao discurso da montanha (Mt 8,1–9,38) e a introdução de um novo discurso, o chamado “discurso missionário” ou “apostólico” (Mt 10), composto pelo envio missionário e uma série de instruções e advertências sobre a missão. O discurso missionário é o segundo dos cinco discursos atribuídos a Jesus no Evangelho Mateus, o evangelista que mais se preocupou em apresentar Jesus como o mestre que ensina com autoridade. Para compreender melhor o texto, é importante recordar também o que afirma o versículo que o antecede, que sintetiza a missão de Jesus até então: «Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade» (9,35). O que Jesus irá fazer nos versículos seguintes, correspondentes ao evangelho de hoje, é habilitar os seus discípulos como cooperadores da sua missão, para fazer o mesmo que ele fazia. E o que ele fazia era proclamar o Evangelho do Reino, cujo efeito primordial é a humanização do mundo.

Ao longo dos Evangelhos, podemos perceber que são sempre as situações concretas que motivam a ação e a pregação de Jesus. Ele nunca parte de meras abstrações, mas da realidade. O texto de hoje é uma boa demonstração disso. Olhemos, então, para o início, compreendendo os três primeiros versículos: «Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: (v. 36) ‘A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. (v. 37) Pedi, pois, ao dono da messe que que envie trabalhadores para a sua colheita!» (v. 38). A itinerância da atividade de Jesus (Mt 9,35) lhe permitia conhecer com profundidade as situações em que o povo se encontrava. Seu olhar nunca era superficial, mas sempre profundo, e amparado na realidade. Jesus contempla um povo abandonado, oprimido e maltratado; é isso o que significa a expressão “as multidões cansadas e abatidas”; não se trata de um cansaço físico e desânimo, apenas, mas de uma situação deplorável de total abandono e miséria. A comparação com ovelhas que não tem pastor é a prova disso. A ovelha era considerada o animal símbolo de vulnerabilidade e dependência; não possuía nenhum mecanismo de defesa próprio; dependia essencialmente dos cuidados dos pastores. Logo, ovelha sem pastor é imagem de completo abandono. Com essa imagem, portanto, Jesus descreve a situação do povo e, ao mesmo tempo, faz uma dura denúncia às classes dirigentes da época, tanto religiosas quanto políticas, responsáveis pelo abandono do povo.

Ao ver as multidões abandonadas, “Jesus compadeceu-se”, ou seja, sentiu compaixão, misericórdia. Não se trata de um mero sentimento, mas de algo muito mais profundo. O evangelista emprega aqui o verbo que expressa a máxima misericórdia de Deus (em grego: σπλαγχνίζομαι – splanknízomai), que significa literalmente “contorcer-se nas entranhas”. Para a mentalidade hebraica, as entranhas ou vísceras são o núcleo mais íntimo e profundo do ser humano. É uma realidade mais profunda até do que o coração, e é de lá que brota a misericórdia de Deus. E, mais do que sentimento, a misericórdia de Deus é ação libertadora. Portanto, é núcleo mais íntimo de Deus que é desencadeada a missão, inicialmente de Jesus, e compartilhada por ele com toda a comunidade cristã, tendo em vista a libertação do povo abandonado e explorado pelos sistemas dominantes nos âmbitos da economia, da política e da religião. Compadecido com a situação das multidões, Jesus não se desespera e nem se conforma; e é muito importante essa sua postura. Antes de tudo, ele reforça sua confiança no Pai, o dono da messe, outra imagem aplicada às multidões, a exemplo de ovelhas. A messe é a lavoura que está pronta para ser colhida, não pode mais esperar, pois pode perder-se, caso a colheita não aconteça logo. Aplicada às multidões abandonadas, significa que aquela situação exigia uma atitude urgente. Sem uma intervenção libertadora urgente, o povo perece. É importante que os discípulos e discípulas de todos os tempos tenham a sensibilidade de perceber as situações que necessitam de intervenção urgente, como a fome, as doenças, as manipulações ideológicas e tantos outros males. Diante disso, Jesus concilia a confiança no Pai com atitudes concretas: a designação de operários para a colheita, o que faz com o envio dos discípulos, transformados em apóstolos.

A messe é de Deus, quer dizer, é a Deus que o povo pertence, mas para que não se perca é necessária a colaboração humana. Por isso, «Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsar os espíritos maus e para curar todo tipo de doença e enfermidade» (10,1). A iniciativa de chamar os discípulos é uma advertência: o discipulado não é puro voluntarismo e nem hereditário, como era o sacerdócio do templo de Jerusalém; a iniciativa é sempre de Deus. Jesus está pondo em prática os efeitos da oração exigida antes: que os discípulos pedissem ao dono da messe que enviasse operários para a colheita. Como o enviado de Deus por excelência e intérprete autêntico da sua vontade, Jesus mesmo envia, compartilhando com seus discípulos a mesma autoridade recebida de Deus. «Expulsar espíritos maus e curar todo tipo de enfermidade» é uma imagem que significa o compromisso dos discípulos e discípulos de Jesus, em todos os tempos, de lutar contra todo o tipo de mal que ameaça a vida humana em sua integridade. Funciona como síntese da missão libertadora que deve caracterizar a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus. Dessa missão depende a humanização do mundo. Por isso, não deve ser confundida com propaganda religiosa nem proselitismo. É o esforço da comunidade cristã para abolir as forças do mal presentes no mundo. Aqui, pela primeira e única vez, Mateus chama os doze primeiros discípulos de apóstolos (10,2), termo que significa “enviados”. Literalmente, apóstolo é uma pessoa enviada para representar fisicamente aquele que lhe enviou, inclusive em processos judiciais. Mas antes de ser apóstolos eles são discípulos. Também é a primeira e única vez em que ele elenca os nomes dos doze, começando por Simão, chamado Pedro, e terminando com Judas, o qual se desintegrará do grupo após a traição, durante o processo (10,2-4). Não se trata de uma lista hierárquica, bem como a designação de discípulos em apóstolos não é uma promoção, mas um compromisso: é a responsabilidade de todos os cristãos e cristãs de estar com Jesus e, ao mesmo tempo, ser a sua presença no mundo, especialmente restituindo vida e dignidade a quem se encontra em estado de abandono.

Após o elenco dos nomes, o evangelista passa às atribuições dos doze, enquanto enviados, iniciando a sequência de instruções que se estenderá por todo o décimo capítulo, e hoje temos a oportunidade de ler as primeiras: «Jesus enviou estes doze com as seguintes recomendações: ‘Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! (10,5) Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!’» (10,6). As primeiras recomendações dizem respeito à circunscrição da primeira missão: os discípulos devem ir exclusivamente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ora, a designação de Israel como primeiro destinatário da missão apostólica não significa um privilégio histórico, tampouco uma tentativa de reconstrução do povo da aliança, como algumas interpretações apontam, mas uma necessidade, uma urgência. Mais do que qualquer outro povo, eram os israelitas que estavam abandonados, o que significa que, de todos os dirigentes do mundo, eram os líderes de Israel os mais pervertidos. Por isso, era Israel o povo mais abandonado e, consequentemente, o mais necessitado de libertação e humanização. Seus líderes tinham fugido das responsabilidades de cuidar do povo, o que já era motivo de denúncias há muitos séculos, desde os profetas, como o exemplo de Ezequiel, que denunciou os pastores que cuidaram de si mesmos, ao invés de cuidar do rebanho (Ez 34). Ora, de todas as formas de dominação, a pior é a dominação religiosa, e Jesus tinha consciência disso. Por isso, sua primeira iniciativa foi promover a libertação de quem estava sendo explorado em nome de Deus.

Na sequência, o evangelista descreve o conteúdo e o agir dos apóstolos, deixando claro que não se trata de uma teoria ou doutrina, mas de um anúncio acompanhado de consequências práticas: «Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo (10,7) Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios» (10,8a). A mensagem que os discípulos devem anunciar é a mesma de Jesus, desde o início do seu ministério (Mt 4,17): a chegada do Reino dos Céus; o “estar próximo”, aqui, não significa a temporalidade, mas a materialidade: na pessoa de Jesus, o Reino se instaura e, enquanto apóstolos, os discípulos são uma extensão da sua pessoa, logo, neles também o Reino começa a se realizar. Esse Reino é dos Céus porque sua origem é o amor misericordioso de Deus, mas começa já aqui, onde há pessoas abandonadas e exploradas, para quem a libertação não pode mais ser adiada. Como a missão compreende palavras e ações, também os gestos que os apóstolos devem cumprir são os mesmos que Jesus já estava cumprindo (Mt 4,23; 8,16; 9,35), e que já tinha sido antecipado no início deste segundo discurso (Mt 10,1): curas, ressurreição, purificação e expulsão de demônios, ações que evidenciam um mundo sem males, um mundo onde a vida prevalece, ou seja, um mundo humanizado.

Os discípulos-apóstolos ou missionários são responsáveis pela transformação do mundo, sanando as multidões abandonadas e exploradas, restituindo vida e dignidade. Isso só é possível colocando em prática o programa de Jesus. Por isso, o evangelista não se cansa de dizer que Jesus envia os seus discípulos para anunciar e realizar o mesmo que ele fez e pregou, sem distorções, mas também sem esquecer dos sinais dos tempos. A última recomendação do evangelho de hoje diz respeito à gratuidade do Reino: «De graça recebestes, de graça deveis dar!» (8b). Os discípulos e discípulas de Jesus não são mercadores do sagrado, como tinham se transformado as antigas lideranças de Jerusalém, e continua acontecendo hoje. Tudo o que a comunidade cristã tem a oferecer ao mundo é o que recebeu gratuitamente de Jesus. E tudo o que Jesus recebeu do Pai, como dom, compartilhou com os seus seguidores e seguidoras que, por sua vez, também devem compartilhar gratuitamente com o mundo para sanar as situações de degradação e negação da vida, muitas vezes provocadas por ações e omissões de falsos pastores. É necessário, portanto, olhar o mundo com o mesmo olhar de Jesus, sentir compaixão e buscar a transformação, na gratuidade do amor misericordioso de Deus.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, junho 10, 2023

REFLEXÃO PARA O 10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 9,9-13 (ANO A)


Com a retomada do tempo comum, a liturgia dominical retoma também a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, como é característico do ciclo litúrgico A, após a longa interrupção para a vivência do ciclo pascal com as solenidades que lhe seguem. Como este já é o décimo domingo, a leitura do respectivo Evangelho já se encontra bastante avançada. O texto proposto para hoje – Mt 9,9-13 – faz parte da seção narrativa intermediária entre o primeiro e o segundo discurso de Jesus nesse Evangelho, a saber, o discurso da montanha (Mt 5–7) e o discurso missionário (Mt 10,5–11,1). A alternância entre narrativa e discurso constitui uma das principais características literárias de Mateus, além de revelar importantes elementos da sua teologia. Com os discursos, ele mostra Jesus ensinando, apresentando sua mensagem libertadora, assumindo sua identidade e autoridade de mestre; com as narrativas, ele mostra Jesus em ação, manifestando o Reino dos Céus mediante o seu agir misericordioso, se relacionando com as pessoas, libertando-as e humanizando-as. Desse modo, o evangelista apresenta Jesus como um Messias que diz e faz, promete e cumpre, com total coerência entre o discurso e a prática.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar as características da seção narrativa da qual é tirado o texto de hoje (Mt 8,2 –10,4), para compreendê-lo melhor. Trata-se de uma seção marcada por uma série de curas, começando com um leproso e terminando com um mudo. Nesse intervalo, foram realizadas diversas curas, que são gestos de libertação e humanização, nas quais Jesus, movido por seu amor misericordioso, restitui vida e dignidade às pessoas que se encontram oprimidas, tanto por condicionamentos físicos quanto pelos preconceitos e segregações impostos pela sociedade e a religião. É nesse contexto que se insere o evangelho deste domingo, que corresponde ao chamado de Mateus e suas consequências imediatas: o banquete festivo com cobradores de impostos e pecadores, a crítica dos fariseus e a declaração de Jesus sobre a misericórdia como essência da sua missão. É importante ter em mente tudo isso, pois o chamado de Mateus se insere num contexto de demonstração da grande misericórdia de Deus pela humanidade, e assim acontece com toda pessoa chamada a colaborar na edificação do Reino de Deus, que o Primeiro Evangelho prefere chamar de Reino dos Céus, por opção teológica.

Feita a devida contextualização, olhemos para o texto, buscando a sua compreensão. E começamos pelo primeiro versículo, que é muito significativo e até impactante: «Partindo dali, Jesus viu um homem chamando Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: ‘Segue-me!’. Ele se levantou e seguiu a Jesus» (v. 9). Como se vê, Jesus se encontra em ação, andando, cumprindo sua missão de enviado de Deus como profeta itinerante. Isso lhe permite contemplar a realidade, ver as situações e, consequentemente, intervir para transformar. Enquanto passa, Jesus vê um homem chamado Mateus. É importante fazer algumas considerações a propósito desse primeiro dado. Ora, durante muitos séculos, esse episódio foi considerado um relato autobiográfico, por causa desse primeiro versículo, pois atribuía-se a autoria do Primeiro Evangelho ao apóstolo Mateus. Atualmente, considera-se essa teoria superada. Embora este Evangelho seja fruto de tradições ligadas ao apóstolo Mateus, é quase certo que ele não foi o escritor direto, tendo em vista a época em que a obra foi escrita: anos 80 do primeiro século, quando já não havia mais nenhum apóstolo vivo. Inclusive, nos outros evangelhos que narram esse mesmo episódio, o personagem aqui chamado de Mateus recebe o nome de Levi (Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). O nome Mateus significa “Dom de Deus” e, aqui, prefigura todas as pessoas acolhidas e chamadas para integrar e edificar o seu Reino.

O chamado de Mateus segue o modelo de vocação dos quatro primeiros discípulos chamados por Jesus, as duas duplas de irmãos pescadores: Simão – chamado Pedro – e André, Tiago e João (Mt 4,18-22; Mc 1,16-21; Lc 5,1-11). Isso evidencia a importância do personagem, pois a tradição sinótica narra o chamado vocacional de apenas cinco dos doze apóstolos: os quatro pescadores e ele, Mateus. Jesus passa, vê e chama. E a pessoa chamada deixa o que estava fazendo para segui-lo. Jesus não vai no espaço religioso, como a sinagoga, por exemplo, recrutar as pessoas mais fiéis para o seu seguimento. Ele chama cada pessoa no seu cotidiano, na sua situação existencial própria, sem exigir um atestado de boa reputação ou conduta. Como eram pescadores os quatro primeiros, dois deles estavam lançando as redes ao mar, enquanto os outros dois estavam consertando as redes, quando Jesus passou e os chamou. No caso de Mateus, como era cobrador de impostos, estava sentado na coletoria quando Jesus passou, viu e lhe chamou, com o clássico imperativo vocacional: “segue-me” (em grego: ἀκολούθει μοι – akolúthei moi). Esse verbo não significa um mero caminhar atrás, mas um seguimento convicto e pleno. A primeira grande novidade do texto é, portanto, a profissão de Mateus: ele era um cobrador de impostos, um publicano.

Apesar do bem-estar econômico que a profissão propiciava, os cobradores de impostos (em grego: τελῶναι – telonai) eram pessoas totalmente rejeitadas em Israel. Eles eram colaboradores diretos do poder opressor, o império romano. Além das altas taxas exigidas pelo império, eles ainda cobravam grandes proporções a mais, enriquecendo ilicitamente às custas do povo mais pobre, principalmente; além do salário, ainda retinham para si o que cobravam em excesso. Por isso, eram odiados pelo povo e totalmente excluídos da religião, pois a condição de servidores do poder dominante não permitia que observassem a Lei. Não eram sequer classificados entre os pecadores comuns. Eram tratados como ladrões públicos, tão rejeitados quanto as prostitutas, na época. Por isso, tanto é surpreendente a iniciativa de Jesus ao chamá-lo quanto a decisão de Mateus: «Ele se levantou e seguiu a Jesus». Aqui, percebemos a grande transformação provocada pelo olhar e o chamado inclusivo de Jesus. Mateus estava sentado, numa posição que indica comodismo e bem-estar. De repente, se põe em pé e passa a seguir Jesus. Mais do que um movimento corporal, o evangelista está mostrando uma mudança de estilo de vida. De uma vida cômoda e fraudulenta, ele passa a uma vida itinerante, desafiadora, pois passou a ser seguidor de alguém que não tinha onde repousar a cabeça (Mt 8,20). Ele deixou o bem-estar econômico para viver da providência, em sinal de plena confiança em Jesus. Ele deixou tudo, abandonou a profissão para viver uma nova vida, tornando-se um autêntico discípulo de Jesus. Certamente, ele se sentiu amado pelo olhar e pelas palavras de Jesus. Ele recebeu o chamado como fonte de sentido para a vida e ressignificou a sua existência daquele momento em diante.

Para marcar o início da sua nova vida, Mateus ofereceu uma festa, um grande banquete. Esse banquete, por sinal, antecipa e sintetiza o modelo de Igreja desejado pelo evangelista Mateus para sua comunidade e as comunidades de todos os tempos, que é o modelo querido pelo próprio Jesus. Participaram da festa Jesus com seus discípulos e os antigos colegas de profissão de Mateus, com outras categorias de pecadores, conforme a classificação imposta pela religião da época, como informa o texto: «Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos» (v. 10). O chamado de Mateus abriu as portas para outras pessoas iguais a ele também se encontrarem com Jesus e, assim, experimentarem a misericórdia de Deus, sentindo-se acolhidas e amadas por ele. Com isso, quebram-se barreiras, superam-se distâncias. No mundo semita, a refeição não significa apenas uma simples degustação e consumo de alimentos; significa partilhar a própria vida. Sentar-se à mesa com alguém, conforme a mentalidade bíblica, é sentir-se próximo, é um gesto de intimidade. Na partilha dos alimentos e bebidas, todos tocavam na mesma comida e nos mesmos utensílios. Ao sentar-se com os cobradores de impostos e pecadores, portanto, Jesus se tornava impuro perante a Lei. Inclusive, esse era um dos principais motivos pelos quais ele era tão criticado pelos fariseus, como mostra o versículo seguinte. O importante para Jesus, no entanto, era acolher, transmitir amor, humanizar as pessoas. Por isso, ele não se importava com os rótulos e críticas que recebia.

Já fazia tempo que o comportamento de Jesus vinha sendo observado e denunciado pelos fariseus e outros grupos defensores da moral e dos bons costumes da época. Mas parece que chamar um cobrador de impostos para o seu seguimento e comer na casa dele com outros cobradores de impostos e pecadores foi visto como ápice de seu mau comportamento, para as pessoas muito devotas da época. Eis o que diz o evangelista: «Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: ‘Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?’» (v. 11). Como se vê, Jesus é questionado e denunciado por causa de suas companhias, por se juntar com quem a religião e a sociedade tinham excluído. Enfim, por suas escolhas, Jesus estragava sua própria reputação perante as pessoas consideradas de bem na sua época, como os fariseus. Inclusive, os fariseus poderiam questioná-lo diretamente, mas não o fazem por covardia, e questionam os discípulos. No entanto, «Jesus ouviu pergunta e respondeu: ‘Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes» (v. 12). A pergunta foi feita aos discípulos, mas Jesus se antecipa para respondê-la, afinal, o tema do questionamento era sua própria pessoa com seu comportamento. E ele responde com um provérbio popular de grande circulação na época, que põe o médico a serviço dos doentes, como parábola do seu agir misericordioso em favor dos mais necessitados de acolhida, compreensão, perdão e amor. Nisso, ele se apresenta como o médico de um mundo doente, ferido, carente de humanização. E a doença mais grave identificada por ele foi a hipocrisia religiosa.

Na verdade, a resposta de Jesus à crítica dos fariseus é praticamente uma síntese da sua mensagem e da sua missão. Começa com um provérbio com valor de parábola (v. 12), passa por uma citação do profeta Oseias e termina com um esclarecimento do que ele veio fazer no mundo: «Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”» (v. 13).  A citação de Oséias é exclusiva do Evangelho de Mateus. Quando Marcos e Lucas narram a vocação de Levi, personagem correspondente a Mateus no Primeiro Evangelho, eles não citam o texto profético. Isso revela uma familiaridade maior do primeiro evangelista com o Antigo Testamento. O comportamento de Jesus revela o rosto misericordioso do Pai, e Oséias foi o profeta que mais antecipou essa revelação, com sua pregação e sua própria experiência matrimonial. Com essa citação – ‘Quero misericórdia e não sacrifício’ (Os 6,6) –, Jesus revela quem é Deus e denuncia a hipocrisia dos fariseus: a religião deles, baseada no cumprimento dos preceitos e carente de misericórdia, não estava de acordo com a vontade de Deus. Acima de tudo, Deus quer amor, compaixão e misericórdia, ao invés de ritos, preceitos e sacrifícios. Com isso, ele indica que a misericórdia deve se sobrepor a qualquer rito ou preceito na comunidade cristã. Na conclusão, Jesus dá a razão da sua vinda ao mundo, o que justifica o seu comportamento: «eu não vim ao mundo para chamar os justos, mas os pecadores» (v. 13b). Ora, se sua missão é salvar, é justo que ele busque quem era considerado perdido, e foi isso que ele fez em sua vida terrena. E a Igreja, como continuadora da sua missão, deve também fazer o mesmo. Por isso, é necessário agir com misericórdia, acima de tudo. Só se converte quem antes se sente amado, acolhido, compreendido. Foi assim que Mateus se sentiu quando Jesus olhou para ele.

É muito relevante que, neste domingo de retomada do tempo comum, o evangelho seja mesmo esse. É um texto que nos adverte sobre o que é essencial na vida de uma comunidade cristã, recordando-nos que nenhum tipo de exclusão e preconceito condiz com a mensagem de Jesus. O chamado de Mateus é um alento de esperança. Significa mais uma demonstração de que o Reino dos Céus inaugurado por Jesus é aberto a todos e todas. Ninguém deve se sentir excluído e muito menos autorizado a excluir alguém. E, ainda inebriados pela beleza e sofisticação de tantas celebrações e cortejos em honra ao Corpo e Sangue de Jesus Cristo, a refeição festiva celebrada na casa de Mateus vem nos recordar o verdadeiro tipo de banquete em que o Senhor realmente quer se fazer presente, seja como alimento, seja como partícipe.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, junho 03, 2023

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – JOÃO 3,16-18 (ANO A)

 




No primeiro domingo depois de Pentecostes, celebra-se a solenidade da Santíssima Trindade. Nela, recordamos o mistério da comunhão de amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ao contrário das solenidades pascais, instituídas desde os primeiros séculos do cristianismo, essa solenidade já foi introduzida num período mais tardio – século quatorze. Como sempre, a nossa reflexão será pautada exclusivamente pelo evangelho, sem levar em consideração as afirmações dogmáticas a respeito da Santíssima Trindade. Por isso, ao invés de buscar definições e explicações para o mistério do Deus Uno e Trino, no qual cremos, procuraremos contemplar e assimilar a sua principal característica – o amor – revelada por Jesus, de acordo com o texto evangélico que a liturgia propõe neste ano: Jo 3,16-18. Apesar de curto, composto de apenas três versículos, esse texto possui uma profundidade e riqueza extraordinárias, como veremos no decorrer da reflexão. Como sempre, para o texto ser melhor compreendido, é necessário conhecer o seu contexto, como faremos a seguir.

Localizado ainda no início do Quarto Evangelho, esse texto faz parte do expressivo diálogo entre Jesus e Nicodemos, em Jerusalém. Naquela ocasião, Jesus se encontrava em Jerusalém por ocasião da festa da “páscoa dos judeus” (Jo 2,13.23). Durante sua estadia na grande cidade, Jesus realizou muitos sinais, despertando, além de oposição nas autoridades, adesão ao seu nome e curiosidade em alguns, como Nicodemos, com quem desenvolveu um prolongado e rico diálogo (Jo 3,1-21). Esse diálogo se desenvolve em três momentos: o reconhecimento da autoridade de Jesus por Nicodemos (3,1-3); a explicação de Jesus que para acolhê-lo como enviado do Pai é necessário nascer do alto (3,4-8), e a descrição do projeto divino de salvação (3,9-21). Embora se trate de um diálogo, Nicodemos pouco fala; a palavra é praticamente monopolizada por Jesus; Nicodemos quase só escuta. Inclusive, no texto de hoje só temos palavras de Jesus, segundo o evangelista.

O evangelista descreve Nicodemos como um judeu importante, pertencente ao grupo dos fariseus (Jo 3,1), profundo conhecedor da Lei (Jo 7,50-52), e curioso pela novidade de Jesus. Sua curiosidade para conhecer melhor a mensagem de Jesus revela sinceridade e respeito, inclusive o reconhecimento de que Jesus “vem da parte de Deus” (Jo 3,2), o que muitos fariseus tinham dificuldade de reconhecer, conforme as informações fornecidas pelos quatro evangelhos. A leitura atenta do texto em seu conjunto (Jo 3,1-21) revela que Nicodemos não estava satisfeito com a religião oficial. Parece que a imagem do Deus pregado pela sua religião já não lhe convencia plenamente. Certamente, ele desejava uma profunda renovação, embora ainda não estivesse pronto para romper com o sistema e aderir ao projeto de Jesus. A simples curiosidade, no entanto, já é um passo importante para quem estava plenamente atrelado à estrutura religiosa da época, inclusive como uma das lideranças. Nicodemos aparecerá em mais duas ocasiões no Quarto Evangelho, e sempre tomando posições a favor de Jesus: defendendo-o da ira dos fariseus quando ele tinha se apresentado como fonte de água viva, em alusão ao Espírito Santo (7,37-52), e ajudando em seu sepultamento (19,39). Se já tinha interesse em conhecer Jesus pelo que ouvia a seu respeito, certamente o interesse aumentou ainda mais ao dialogar com ele.

Como último aspecto a nível de introdução e contexto, recordamos as circunstâncias em que Nicodemos procurou Jesus: foi na “calada da noite” (Jo 3,2). Esse detalhe tem sido alvo de muitas tentativas de explicação pelos estudiosos. A explicação mais conhecida afirma que Nicodemos procurou Jesus à noite para não ser visto pelos seus colegas de doutrina, ou seja, os fariseus e os líderes religiosos de Jerusalém, uma vez que Jesus não era bem visto por esse meio. De fato, para quem defendia a moral e os bons costumes na época, a companhia de Jesus era desaconselhada. Porém, é provável que o evangelista tivesse intenções mais teológicas do que cronológicas para registrar esse detalhe, o que não convém aprofundarmos aqui, já que não é componente do evangelho de hoje, mas apenas um elemento do seu contexto. A noite, como imagem das trevas, poderia representar, na perspectiva do evangelista, o mundo em que Nicodemos vivia, com a mentalidade religiosa vigente.

Passemos, finalmente, ao estudo do texto, o qual começa com a seguinte afirmação de Jesus: «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna» (v. 16). Jesus apresenta Deus como aquele que ama incondicionalmente, e ao mesmo tempo se auto apresenta como a prova desse amor incondicional, já que é, ele mesmo, o Filho único doado ao mundo. Essa é a primeira vez em que aparece o verbo do amor por excelência, no Quarto Evangelho: o verbo grego “agapáo”, o qual aparecerá mais trinta e cinco vezes. De quatro verbos correspondentes a amar na língua grega, somente “agapáo” expressa um amor incondicional e gratuito, que compreende a doação da vida.  E assim é o amor de Deus: Ele deu seu Filho ao mundo sem exigir reciprocidade; a resposta de amor a Ele da parte do mundo, ou seja, de cada ser humano, é simplesmente consequencia de sentir-se amado. Com essa afirmação, Jesus praticamente inverte o primeiro mandamento da Lei: na verdade, é Deus quem ama cada pessoa sobre todas as coisas. O mundo, para a teologia joanina, pode significar toda a humanidade, a criação inteira e, ainda, a oposição a Jesus e sua mensagem de salvação. Aqui, significa toda a humanidade; o gênero humano como destinatário do amor incondicional de Deus, o Pai.

A primeira finalidade da oferta de Jesus – o Filho – pelo Pai ao mundo é a vida eterna, o que não se trata de uma promessa para o além, mas de um dom já para o presente. O adjetivo “eterna”, aqui, não significa a duração, mas a qualidade da vida de cada pessoa que acolhe o dom do Pai, Jesus. Não é um prêmio reservado para os bons após a morte, mas a vida ressignificada de quem faz uma experiência autêntica com Jesus. É a vida autêntica e plena, a ponto de nem a morte poder destruí-la. À medida em que o ser humano encontra sentido para a sua existência, a sua vida se eterniza. E o sentido pleno da vida só pode ser encontrado quando se consegue viver autenticamente como imagem e semelhança do criador, à maneira de Jesus. E a humanidade tem a oportunidade de fazer essa experiência, pois o dom do Filho é acessível a ela toda, e não apenas a um povo. O amor de Deus é ilimitado e universal.

O segundo versículo reforça o que diz o primeiro com maior precisão: «De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele» (v. 17). A primeira frase, em forma de negação, enfatiza ainda mais o projeto de salvação de Deus, dizendo o que o Filho não veio fazer no mundo: condenar ou julgar. Considerando que o interlocutor de Jesus é um fariseu, observador impecável da Lei, essa frase adquire um sentido ainda mais forte: Deus não condena e nem julga ninguém; o versículo seguinte deixará isso ainda mais claro, ao afirmar que a condenação é opção pessoal de cada um(a). O pecado da humanidade não diminui o amor de Deus; tudo o que ele quer é que a humanidade seja salva; por isso, deu o seu Filho único. Salvar significa libertar, e é a missão que o Pai confiou a Jesus, ao enviá-lo ao mundo. A mensagem de Jesus é uma proposta de libertação plena para o ser humano. E a primeira prisão da qual Jesus quer libertar o ser humano é de uma concepção equivocada de Deus: a passagem da ideia de um Deus como juiz e patrão, para um Deus que é Pai e “louco” de amor pelos seus filhos. É importante recordar esse diálogo com Nicodemos é, na verdade, o primeiro discurso de Jesus no Quarto Evangelho; e sua primeira preocupação foi revelar que Deus é Pai e só tem amor para oferecer à humanidade.

Enquanto nos dois primeiros versículos Jesus falou da iniciativa de Deus, neste terceiro ele fala da resposta humana ao dom de Deus, com suas respectivas consequências: «Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito» (v. 18). Assim como foi livre a oferta do Pai, também deve ser livre a resposta do ser humano. Não é mais o Deus do templo, que exigia ofertas e sacrifícios como contrapartida a favores e bênçãos; é o da Deus da liberdade e da vida. O verbo crer no Quarto Evangelho tem um significado muito profundo, relacionado ao amor, inclusive. Significa responder positivamente ao amor de Deus, assimilando o programa de vida de Jesus. Para quem faz essa opção, obviamente, não há condenação; se torna uma pessoa livre e realizada, com uma vida plena de sentido, ou seja, eternizada. Quem rejeita essa oferta, perde a oportunidade de dar sentido à vida, e é essa a condenação da qual fala Jesus aqui; não se trata de um castigo futuro, mas de uma opção pessoal de viver fora da comunhão com Deus ainda aqui na presente existência. Em outras palavras, o evangelista diz que a mensagem de Jesus exige uma tomada de posição pró ou contra.

A certeza que temos é de um Deus Pai, que ama a humanidade incondicionalmente. É isso que o evangelho de hoje deixa claro. Ao amor, a única resposta convincente é também o amor. Mesmo que o Pai não exija que lhe amemos, se nos deixarmos envolver pelo seu amor revelado em Jesus, não poderemos reagir de outra maneira que não seja amando a ele e ao próximo como imagem sua. Portanto, sem condições e nem capacidades para descrever um Deus que é Um, mas que são três pessoas, arrisquemos a viver por amor como seu Filho viveu. Vivendo a seu modo, seremos agentes de humanização do mundo.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35 (ANO A)

A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo propõe a continuação da leitura do “discurso comunitário” do Evangelho de Mateus. O trec...