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Minha veneração pelo Cardeal Martini


Conheci um pouco do pensamento do Cardeal Carlo Maria Martini estudando filosofia, especificamente pagando a cadeira ‘Filosofia da Religião’, ministrado pelo amigo e bom professor Dr. Anderson Alencar Menezes. Na oportunidade, o professor indicou na bibliografia do curso, o livro ‘Em que crêem os que não creem?’ do Cardeal Martini com Umberto Eco. Trata-se de um diálogo entre os dois, publicados pela revista italiana ‘Liberal’. A cada edição um deles perguntava e respondia à provocação do outro. Quem abriu o diálogo foi Umberto Eco, e aqui transcrevo o início do debate. Me chamou muito a atenção já as primeiras considerações de Eco, sobretudo seu grande respeito por Martini. 

Gostei muito do livro, mas só voltei a ter contato com o pensamento de Martini depois que vim para a Itália, e o acesso à sua obra tem sido ao longo de 4 anos, uma das coisas mais proveitosas da minha estadia em Roma. Poderia considerar coisas maiores de sua vida, como o fato de ser o maior exegeta católico dos últimos tempos, um grande mestre da vida espiritual... mas a minha paixão por ele é sobretudo pela sua coragem ao se expressar, sem medo de tocar em temas polêmicos, sempre em defesa do diálogo, da justiça e da paz. Uma grande voz da Igreja que falava sempre com linguagem viva e atual, mantendo sempre o respeito e a obediência à tradição da qual era guardião.

Um homem de fé, um mestre, um profeta... aqui transcrevo as páginas 11 e 12 do livro “Em que crêem os que não creem?”, recordando mais uma vez que foram tais páginas que acenderam em mim uma paixão forte pelo seu pensamento, a ponto de se tornar veneração. 

Eis então, as palavras de Umberto Eco:

Caro Carlo Maria Martini,

Não me considere desrespeitoso se me dirijo ao senhor chamando-o por seu próprio nome, sem referir-me às vestes que enverga. Entenda-o como um ato de homenagem e de prudência. De homenagem, pois sempre me impressionou o modo como os franceses, quando entrevistam um escritor, um artista, uma personalidade política, evitam usar apelativos redutivos, como professor, eminência, ou ministro. Há pessoas cujo capital intelectual é dado pelo nome com que assinam as próprias ideias. Assim, os franceses se dirigem a qualquer pessoa cujo maior título é o próprio nome, com “diga-me, Jacques Maritain”, “diga-me” Claude Lévi-Strauss”. É o reconhecimento de uma autoridade que o sujeito manteria mesmo se não tivesse se tornado embaixador ou acadêmico da França. (...).

Ato de prudência, eu disse também. De fato, poderia parecer embaraçoso o que esta revista solicitou-nos, a ambos, isto é, uma troca de opiniões entre um leigo e um cardeal. Poderia dar a impressão de que o leigo induzia o cardeal a exprimir pareceres como Príncipe da Igreja e pastor de almas, o que seria uma violência contra quem é chamado a responder e contra quem ouve a resposta. Melhor que o diálogo se apresente como aquilo que, nas intenções da revista que nos convocou, pretende ser: uma troca de reflexões entre homens livres. Por outro lado, dirigindo-me ao senhor desta maneira, pretendo sublinhar o fato de ser o senhor considerado um mestre de vida intelectual e moral mesmo por aqueles leitores que não se sentem vinculados a nenhum magistério que não o da justa razão.

Superados os problemas de etiqueta, permanecem os da ética, pois é principalmente deles que deveríamos tratar no curso de um diálogo que pretende encontrar alguns pontos comuns entre o mundo católico e o mundo laico.

O trecho transcrito corresponde às páginas 11 e 12 do livro Em que crêem os que não crêem? de Umberto Eco e Carlo Maria Martini, ed. Record, Rio de Janeiro, 2006.

Francisco Cornelio Freire Rodrigues
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