sábado, março 25, 2017

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 9,1-41 (ANO A)


Neste IV Domingo da Quaresma continuamos em contato com o Evangelho segundo João. O texto a liturgia nos oferece é Jo 9,1-41, a narrativa da cura do cego de nascença. Trata-se do sexto dos sete sinais cumpridos por Jesus no Quarto Evangelho.

Embora os evangelhos em geral registrem outras curas de cegos, esse episódio do cego de nascença é exclusivo de João e um dos trechos de maior criatividade e riqueza desse Evangelho, tanto literária quanto teológica. É um texto bastante longo, composto por quarenta e um versículos; obviamente, essa extensão nos impossibilita de analisarmos cada versículo, por isso, procuramos destacar somente os seus aspectos mais essenciais.

Para uma boa compreensão do texto é necessário fazer, embora brevemente, a contextualização. A cena narrada acontece em Jerusalém ou em seus arredores. Jesus tinha ido à “cidade santa” para a grande festa das tendas (cf. Jo 7,1-2.14), uma das três grandes festas de peregrinação dos judeus, juntamente com as festas da páscoa e de pentecostes. Como a fama de Jesus já estava bastante espalhada, em decorrência dos cinco sinais já cumpridos (cf. Jo 2,1-12 – a mudança da água em vinho; 4,46-54 – a cura do funcionário do rei; 5,1-18 – a cura do paralítico; 6,1-15 – a partilha dos pães; 6,16-21 – a caminhada sobre o mar), Ele já era, portanto, considerado um perigo para o poder religioso, uma vez que cada sinal manifestava a glória de Deus, provando que Deus não se deixava manipular pela religião.

À medida que a religião oficial vai sendo desmascarada pelo testemunho, o ensinamento e os sinais de Jesus, os chefes religiosos vêem desmoronar seus poderes e privilégios. Por isso, planejam matá-lo (Jo 7,1), pois Jesus era uma pessoa perigosa para o sistema. Durante a festa das tendas, Ele tinha passado dos limites ao se auto proclamar luz do mundo (cf. 8,12) e Filho eterno do Pai (cf. 8,54-58). Por toda essa ousadia, os judeus o consideraram um endemoniado (cf. 8,48) e, por isso, tentaram apedrejá-lo.

É, portanto, observando o último versículo do capítulo anterior que podemos compreender o nosso texto de hoje: “Eles pegaram, então, pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do templo” (8,59).

Assim, voltamos nossa atenção para o Evangelho de hoje, o qual se inicia assim: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (v. 1). Mesmo apressado, pois estava fugindo, Jesus percebe a necessidade do outro e age em solidariedade, reconhecendo a situação desprezível do homem. A cegueira era sinal de maldição, pois impedia que o homem pudesse estudar e conhecer a Lei, o único meio de comunicação que Deus estabeleceu com o seu povo, conforme a mentalidade judaica. Portanto, aquele homem, cego de nascença (em grego  tuflo.n evk geneth/j – tyflon ek guenetês) estava completamente excluído da religião e da sociedade.  

Mais que qualquer outra deficiência, a cegueira era considerada uma maldição e consequência do pecado, conforme a religião judaica ensinava, e os discípulos de Jesus ainda estavam dominados por essa mentalidade, o que se evidencia na pergunta: “Quem pecou para que nascesse cego? Ele ou os seus pais?” (v. 2). Vigorava a ‘teologia da retribuição’ e acreditava-se que “Deus não deixa ninguém impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e a quarta geração” (Ex 34,7). É claro que Jesus não concorda com essa mentalidade e, por isso, corrige seus discípulos e expressa a sua pressa em sanar aquela situação de miséria vivida pelo pobre homem cego (vv. 3-4).

Jesus compartilha com os discípulos a sua responsabilidade de manifestar as obras do Pai (v. 4), usando o verbo trabalhar, em grego evrga,zomai (ergazomai). Infelizmente, a versão litúrgica do texto não exprime a intensidade e urgência presentes no texto original. Ao invés de “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia” (v. 4a), a forma mais justa seria “Nós temos que trabalhar realizando as obras daquele que me enviou, enquanto é dia”; o verbo trabalhar exprime a seriedade da missão, a expressão “enquanto é dia” revela a urgência. Considerando que seus dias estavam contados, depois de tantas ameaças, não há mais tempo a perder. A “chegada da noite” (v. 4c) significa a sua morte que se torna cada vez mais próxima.

Quando o assunto é a liberdade e a dignidade do ser humano, o discípulo de Jesus, assim como Ele, deve agir com pressa, independente das regras e códigos de moral, civis ou religiosos. Aqui nos chama a atenção para o voluntarismo de Jesus: o cego não lhe pede nada, não lhe faz nenhuma súplica, ao contrário de muitas outras curas em que são os necessitados que até imploram a Jesus. O simples olhar de Jesus é suficiente para perceber a necessidade no próximo.

Imediatamente Jesus passa à ação com um gesto cheio de simbolismo: “Cuspiu no chão, fez lama com a saliva” (v. 6a). A imagem do barro alude à criação, é a matéria prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. Segundo essa mesma mentalidade, a saliva é gerada pelo hálito, esse, por sua vez, é o sopro, o espírito. Portanto, Jesus repete o gesto criador de Deus: soprou sobre o barro e gerou vida humana (cf. Gn 2,7). Com a lama produzida pelo seu hálito, Jesus ungiu os olhos do cego (6b). O texto litúrgico emprega a expressão “colocou-a sobre os olhos do cego”, mas seria mais adequado dizer que Ele “ungiu os olhos do cego”, considerando o sentido do verbo grego empregado pelo evangelista:  evpi,criw – epícrio, o qual significa ungir.

A ação de ungir é seguida por uma ordem: “Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer enviado)” (v. 7). Não é fácil interpretar essa ordem. A maioria, lendo o texto à luz de uma liturgia batismal, aplica aqui o simbolismo da água batismal; No entanto, considerando a oposição de Jesus às instituições religiosas do seu tempo, principalmente no Evangelho de João, é mais prudente não seguirmos essa linha. A piscina de Siloé localizava-se fora de Jerusalém, e como Jesus estava fugindo, provavelmente já se encontrava fora da cidade, próximo à piscina. Como aquela piscina abastecia o templo, inimigo de Jesus, é difícil imaginar que Jesus visse naquelas águas, um elemento purificador. A lama nos olhos deveria ser tirada de qualquer maneira e, portanto, Jesus indicou o local mais próximo.

O verdadeiro sentido da ordem “Vai lavar-te” consiste na liberdade e responsabilidade que Jesus quer apresentar ao ser humano. Ele apresenta o caminho, cabe ao homem fazer a sua parte. Jesus não impõe a sua luz sobre o mundo, mas a oferece. Obviamente, sua ordem foi cumprida: “O cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (v. 7b). Quem anda pelos caminhos que Jesus aponta encontra luz e sentido para a vida. A ida do cego à piscina representa sua adesão ao Evangelho, sua fé e seu compromisso. É uma demonstração de que no Reino de Deus não há espaço para a passividade, mas todos devem assumir responsabilidades e compromissos. Jesus liberta, mas dá, ao homem, autonomia e o faz também sujeito de sua própria libertação.

O espanto é geral entre aqueles que conheciam o cego de nascença, um homem miserável e amaldiçoado e, agora, passam a ver um homem íntegro, novo e restaurado (vv. 8-12). A admiração começa entre os vizinhos, passa pelos que o viam mendigando no tempo até chegar nos fariseus e nas autoridades religiosas. O motivo de tamanho espanto é compreensível, considerando que a afirmação do próprio homem que fora cego ao defender-se das acusações dos fariseus: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença” (v. 32). De fato, em toda a Bíblia, não há registro de nenhum outro milagre de cura de um cego de nascença.

Os fariseus, como representantes do sistema de dominação, reagem com rigor e até com violência, porque vêem que a luz que eles ajudavam a roubar do povo, Jesus a restitui e de modo completamente gratuito. Por isso, inconformados, submetem o homem curado a um longo interrogatório, sem aceitar nenhuma das respostas. É claro que todo o inconformismo é causado pela rejeição a Jesus.

O fato de Jesus ter curado em dia de sábado já era, por si, motivo de escândalo, ainda mais da forma como fez: “Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego” (v. 14). Jesus tocou na terra, mexeu no barro e fez lama em dia de sábado, praticando algo abominável para os judeus. De fato, os judeus consideravam o sábado como o maior dos mandamentos, pois é o único mandamento que até Deus guardou (cf. Ex 20,11), assim eles pregavam. Eles passam a ter mais um motivo para condenar Jesus.

O ex cego é, literalmente, encurralado pelos representantes da religião oficial porque deixou de ser um dominado, tornou-se um sujeito autônomo, ganhou independência. A situação chega ao ponto de ser necessário o depoimento dos pais do homem (v. 18-23). Com medo da repressão, os pais deixam a responsabilidade para que o próprio filho responda. Sendo incapazes de convencer com argumentos e testemunho, os chefes apelam para a violência, como em qualquer sistema opressor, por isso, “o expulsaram da comunidade” (v. 34b). É a religião agindo com tirania, banindo a vida, ao invés de protegê-la. É claro que não havia espaço para Jesus em uma religião como aquela.

Mais uma vez Jesus se manifesta, ao saber que o homem tinha sido expulso da comunidade sinagogal e vem ao seu encontro (v. 35). Aqui, é importante fazer mais uma observação semântica: o texto original não diz apenas que Jesus encontrou o homem de novo, como afirma a tradução litúrgica, mas diz que “Ele foi encontrá-lo”, ou seja, foi busca-lo, uma vez que o homem estava novamente em perigo. Portanto, a ação de Jesus é recuperar o que a religião rejeitou. A religião exclui e Jesus inclui; os sistemas dominantes separam, Jesus junta; o templo domina, Jesus liberta.

No final da discussão, Jesus mostra a grande inversão de valores e de papéis: os verdadeiros cegos são os fundamentalistas que, apegados à lei e aos mais diversos códigos de conduta, sufocam a vida do ser humano, privando da liberdade e da dignidade (v. 41a). Para esse tipo de cegueira não há justificativa (v. 41b).

Assim como João escreveu pensando na sua comunidade, também devemos pensar nas comunidades de hoje em dia: se essas não promovem a vida e a liberdade do ser humano, estão distantes da proposta de Jesus. Se prevalece a norma sobre a caridade, o Evangelho está sendo esquecido. Se o conhecimento continua concentrado em um pequeno grupo, está mais para sinagoga que para comunidade cristã. Se há imposição de ideias, decisões e normas, continua-se a gerar cegos, ao invés de pessoas conscientes e iluminadas.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

segunda-feira, março 20, 2017

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 4,5-42 (ANO A)


(AINDA EM CONSTRUÇÃO)

No Terceiro, Quarto e Quinto Domingo da Quaresma, deixamos de lado o Evangelho segundo Mateus para nos dedicarmos ao Quarto Evangelho, ou seja, João. Neste Terceiro, o texto proposto é Jo 4,5-42, o célebre episódio do encontro de Jesus com a mulher Samaritana, uma verdadeira obra prima de João. Antes de tudo, se trata de um texto catequético, usado desde os primórdios da Igreja na preparação para o batismo dos catecúmenos. Porém, reduzi-lo a essa função é menosprezar a ampla riqueza que o texto possui.

Esse é um episódio exclusivo do Evangelho de João e faz parte de uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus, desde as bodas de Caná (Jo 2,1-12), incluindo o desmascaramento do templo (Jo 2,13-22). Além, de complexo teologicamente, esse é um texto bastante longo, o que nos impossibilita de analisa-lo versículo por versículo; diante disso, procuramos apresentar apenas seus aspectos principais.

Como sempre, é imprescindível conhecermos o contexto do tempo para que possamos compreendê-lo de modo mais profundo; para isso, é necessário recordar os primeiros versículos deste capítulo 4 de João: Jesus encontrava-se na Judéia e, como sua fama já tinha se espalhado, aquele território tornava-se perigoso para Ele (vv. 1-2), ainda mais depois da confusão por Ele criada ao desmascarar os detentores do poder religioso no templo (cf. Jo 2,13-22). Diante de tudo isso, Ele deveria retornar para a Galileia, sua terra (v. 3). Eis que no seu itinerário estava a Samaria, região central entre a Judeia e a Galileia, por onde deveria passar (v. 4).

Embora fosse uma necessidade frequente, atravessar a Samaria era sempre motivo de tensão, tendo em vista a hostilidade histórica que reinava entre os praticantes do verdadeiro judaísmo e os habitantes daquela região. A rivalidade entre judeus e samaritanos tem sua origem no cisma que dividiu o único Reino de Israel em dois. Para competir com o culto do templo de Jerusalém, Jeroboão I, rei do Norte, cuja capital era Samaria, construiu diversos santuários em seu reino, proibindo que sua população fosse até Jerusalém para participar das liturgias no grande templo. O culto praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos judeus.

A ilegitimidade do culto no reino do Norte se acentua ainda mais após a invasão assíria em 722 a.C.. Além de deportar a população local, a Assíria trouxe as populações de suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte, constituindo um povo mestiço e plural. As populações estrangeiras levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas práticas cultuais (2 Rs 17,24-28). Isso tudo levou o povo da Judéia a considerar os habitantes do Norte como impuros e heréticos e, portanto, desprezíveis. Assim, na mentalidade judaica o povo puro, eleito, raça santa, estava no Sul, ou seja, na Judeia, e o povo herege e impuro estava no Norte.

Aos poucos, o povo da Galileia, extremo Norte, recuperou sua condição de raça eleita, embora de segunda categoria, já que a pureza genuína estava com os habitantes da Judeia, e o rótulo de impuro ficou exclusividade dos habitantes da região central, a Samaria. É claro que foi a religião judaica que criou e alimentou todas essas diferenças. É a partir desse contexto que devemos ler o episódio de hoje.

O propósito de João ao narrar esse episódio é muito claro: apresentar Jesus como aquele que elimina as barreiras e quebra os preconceitos de raça e religião. Disso, evidenciamos que a “mulher samaritana” é uma personalidade corporativa, ou seja, não se trata de uma síngula pessoa, mas de uma comunidade por ela representada; é na verdade, o povo samaritano que é chamado por Jesus a reintegrar a comunidade dos eleitos, uma vez que, de agora em diante, não há mais distinção nem rótulos, mas todos e todas fazem parte de um único povo, uma única família. Para fazer parte dessa família, a humanidade renovada, basta adora em Espírito e Verdade (v. 24).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues



domingo, março 12, 2017

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA QUARESMA – MATEUS 17,1-9 (ANO A)


Neste II Domingo da Quaresma, a liturgia nos oferece como texto evangélico, Mateus 17,1-9, o relato do episódio tradicionalmente chamado de “Transfiguração do Senhor”. É um episódio narrado pelos três evangelhos sinóticos (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36) e, portanto, de grande relevância para a vida das comunidades cristãs de todos os tempos.  

Para uma boa compreensão do nosso texto, é indispensável contextualizarmos o mesmo, embora brevemente. Trata-se do episódio que sucede imediatamente à profissão de fé de Pedro na região de Cesareia de Felipe (cf. Mt 16,13ss) e, consequentemente, ao primeiro anúncio da Paixão (cf. Mt 16,21-28). Daí, podemos concluir que se trata de uma resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos em relação ao seu caminho de doação da vida por fidelidade aos propósitos do Pai.

Mais uma vez, a versão litúrgica do texto nos priva de uma expressão muito importante para uma compreensão mais adequada: o indicativo cronológico “Seis dias depois”, presente no texto original, substituído no texto litúrgico pela genérica e desnecessária expressão “Naquele tempo”.

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão” (v. 1a). O indicativo cronológico faz referência ao ocorrido em Cesaréia de Filipe, quando Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. “Seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude; o homem e a mulher foram criados no sexto dia (cf. Gn 1,26-31) e agora Jesus manifesta o ser humano em sua máxima dignidade e realização.

Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. À primeira vista, parece tratar-se de um privilégio: Jesus escolhe os mais próximos e íntimos, hierarquizando o grupo dos Doze. Porém, se fizermos uma leitura mais atenta, concluímos exatamente o contrário: esses três são os discípulos que mais tem dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus, são os mais trabalhosos e, portanto, necessitados; Pedro é sinônimo de dureza e fechamento, a ponto de ser o único dos Doze a quem Jesus chamou diretamente de satanás, por colocar-se como pedra de tropeço em seu caminho (cf. Mt 16,23); Tiago e João, além de ambiciosos (cf. Mc 10,35-40), tinham temperamento bastante explosivo, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (cf. Mc 2,17). Portanto, são os discípulos que tinham mais dificuldade em aceitar um messias sofredor.

O indicativo espacial também é de grande importância: uma alta montanha. Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro com Deus. No alto da montanha, “Jesus foi transfigurado diante dos discípulos” (v. 2a). O verbo grego usado aqui é metamorfo,omai (metamorfóomai), cujo significado é ser transformado ou mudado. Assim, o evangelista está dizendo que Jesus transformou-se, sua forma mudou diante dos discípulos. Ora, diante da incredulidade e resistência em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nEle. “Seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a luz” (v. 2b): as mesmas imagens da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova.

Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: Moisés e Elias (v. 3). Obviamente, estes personagens representam a Lei e os profetas, respectivamente. É mais uma iniciativa divina para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento.

Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os profetas encerram-se, chegam ao fim. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada tem a dizer para a comunidade cristã; essa deve escutar somente a Jesus (v. 5).

Pedro, teimoso como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas desprezíveis: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 4). Duas coisas são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, interrompendo-lhe.

A segunda coisa a reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias” (v. 4b); infelizmente, Jesus ainda não ocupa o centro na vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro.

As palavras de Pedro são tão absurdas que o próprio Deus o interrompe: “Pedro ainda estava falando quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (v. 5). O Pai não espera Pedro concluir seu equivocado discurso e o interrompe, chamando a sua atenção. Mais uma vez a imagem da luz e da nuvem são evidenciadas como sinais da presença e manifestação de Deus, sendo que o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado. Escutai-o”; é praticamente a mesma frase proferida por Deus no momento do Batismo (cf. Mt 3,17), sendo que ali somente Jesus ouviu, enquanto aqui na transfiguração também os discípulos ouvem e ainda são exortados a escutá-lo. O imperativo “escutai-o”, em grego avkou,ete auvtou/ - akúete autú, é dirigido principalmente a Pedro, ainda propenso a escutar mais a Moisés que a Jesus.

O que Moisés e Elias, ou seja, a Lei e os profetas já disseram o que tinham a dizer. De agora em diante, só o Evangelho deve falar à comunidade cristã. Ouvir Jesus é compreender sua Palavra e viver as consequências de uma adesão radical a ela, o que Pedro tentava constantemente evitar, por medo da cruz. A situação tornou-se tão séria, a ponto de ser necessário o Pai intervir: sem escutá-lo, não é possível prosseguir no seguimento.

Eis as consequências das palavras de Deus: “Os discípulos, assustados, caíram com o rosto por terra” (v. 6). Essa cena apresenta um pequeno retrato da comunidade cristã no seu dia-a-dia que, sentindo-se desafiada, cai constantemente. É um sinal de falência e um reconhecimento de que falharam ao longo do seguimento. Porém, mesmo caída, a comunidade jamais será abandonada, porque Jesus está sempre próximo, tocando e estimulando: “Levantai-vos e não tenhais medo” (v. 7). Apesar das infidelidades e fracassos dos discípulos, Jesus não desiste, continua acreditando no ser humano e encorajando-o.

Após a belíssima experiência, a vida volta à sua normalidade: “ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (v. 8). Moisés e Elias foram embora, pois cumpriram as suas respectivas missões; a comunidade cristã já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus da nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai!

É o momento de descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro.

Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e também porque se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, março 05, 2017

REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DA QUARESMA – MATEUS 4,1-11 (ANO A)


Após uma sequência de oito domingos, a liturgia dá uma pausa no Tempo Comum e nos convida a viver um dos seus períodos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas. Hoje celebramos o primeiro domingo desse tempo especial de preparação para a Páscoa do Senhor. O texto evangélico proposto para esse domingo é Mateus 4,1-11, o famoso episódio das “tentações” pelas quais passou Jesus logo após ser batizado.

Embora muito bem elaborado literariamente e teologicamente, se trata de um texto problemático, devido a nossa tendência equivocada de insistir em considerar as narrativas evangélicas como crônicas reais da vida de Jesus. Por isso, apresentamos como primeiro critério de interpretação para o nosso texto evangélico de hoje, o olhar simbólico e teológico para o mesmo, deixando de lado a ideia de um episódio concreto acontecido.

O principal objetivo do evangelista com esse episódio é apresentar Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto de hoje (cf. Mt 3,16), o qual permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo.

O primeiro versículo já apresenta a principal chave de leitura de todo o texto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto” (v.1a). Ora, “o Espírito que desceu em forma de pomba e permaneceu sobre Ele” no batismo será o condutor e guia de todas os passos e ações de Jesus; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito de Deus, e não apenas quando Ele vai ao deserto. Aqui, o deserto –  e;rhmoj (eremos) em grego –  não é um indicativo geográfico, mas teológico.

A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que Ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmo riscos pelos quais Israel passou, da saída do Egito à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que Ele é, embora Deus, verdadeiramente homem. Embora o deserto evoque a provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf. Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25).

Uma vez que o deserto é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito, não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada. Por isso, “Ele foi tentado pelo diabo” (v.b). O protagonista da tentação é o diabo – diabo,loj (diabolos) em grego – aquele que divide e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus.

Pelo desenvolvimento do texto, podemos perceber que Mateus quis apresentar, antes de tudo, o império romano e a religião oficial da época como manifestadores da presença do diabo na vida de Jesus e da comunidade cristã. Por quê? O império porque o texto deixa muito evidente que o poder é uma das principais ameaças e sugestões do diabo; a religião, porque os argumentos do diabo serão, posteriormente, ao longo do Evangelho, retomados pelos mestres da lei e fariseus, sobretudo, quando exigirão sinais que comprovem a autenticidade de Jesus (cf. Mt 12,38). E, de fato, os adversários mais ferrenhos de Jesus foram a religião e o império que, aliados, o levaram à morte.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias e quarenta noites” em que Jesus jejuou (v.2a) não podem ser considerados como um dado cronológico. Mais uma vez, trata-se de um dado teológico de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (cf. Gn 7,4.12.17); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade, infidelidade e prova, bem como outros casos.

Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos a uma vida vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder. O jejum é a imagem das privações às quais são submetidos os que fazem a experiência do deserto. A fome de Jesus (v.2b) é mais uma evidência da sua humanidade.

As três tentações ou provas (cf. Mt 4,3-4; 5-7; 8-10) são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com Deus e com o próximo. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

A primeira tentação (vv.3-4) diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas: a lógica do império incentiva ao consumo e satisfação dos desejos. Embora faminto, Jesus percebe que não é suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais que pão. Por isso, com base na Escritura, Ele não dispensa o pão, mas diz que o homem não pode viver “somente” dele. A vida digna e plena não depende somente do alimento, mas de todos os valores do Reino contidos na “Palavra que sai da boca de Deus”, que será explicitada no capítulo seguinte, com as bem-aventuranças. 

A segunda tentação chama a atenção (vv.5-7) para a relação com Deus: na “cidade santa”, onde Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus ‘filhos bons’ apenas, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano.

A terceira tentação (vv.8-10) diz respeito à relação com o próximo. A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante de poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os ‘inimigos’ de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal. Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através da Igreja, em todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada.

“O diabo deixou Jesus” (v. porque não encontrou nEle um aliado: nem Caifás e nem César aceitaram a “rebeldia” de Jesus, por isso, continuaram tramando contra Ele até a cruz! Embora tenha usado citações do Antigo Testamento como autodefesa, Jesus vai, aos poucos, elaborando seu próprio programa alternativo àquilo que o poder vigente na época lhe tinha proposto. Seu programa é a sua própria vida com suas opções e consequências, explicitado no amplo discurso da montanha (cf. Mt 5 – 7).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues