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REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 12,13-21 (ANO C)

O Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum continua a nos situar no contexto da grande viagem de Jesus para Jerusalém. Como já sabemos, essa viagem, mais que um percurso geográfico, constitui-se como um itinerário teológico-catequético, tendo em vista a formação dos discípulos.  O texto de hoje (Lucas 12,13-21) trata especificamente da temática relacionada ao uso, importância e administração dos bens terrenos. Trata-se de um texto exclusivo de Lucas e, portanto, muito significativo, composto de um diálogo entre Jesus e um personagem anônimo, seguido de uma catequese para os discípulos de ontem e hoje, ilustrada por uma parábola.

Durante a caminhada, certamente em uma das muitas paradas feitas, alguém do meio do povo lhe faz um pedido: "Mestre, dize a meu irmão que reparta a herança comigo" (v. 13). Era comum, no tempo de Jesus, os rabinos serem chamados para resolverem questões jurídicas, uma vez que os mesmos eram grandes conhecedores da lei e, portanto, estavam aptos a emitir julgamentos sobre os mais diversos aspectos da vida cotidiana, principalmente nos pequenos povoados. Quando a questão envolvia herança, ao final do caso, após promoverem o acordo entre as partes envolvidas, o rabino acabava recebendo uma gratificação pelo trabalho de conciliação.

É necessário recordar, aqui, o que a lei determinava a respeito da divisão da herança em Israel: o filho primogênito recebia dois terços dos bens, ou seja, o dobro do irmão menor (cf. Dt 21,17). Como os bens eram administrados pelo primogênito, certamente foi um irmão menor ou mais novo que reivindicou a intervenção de Jesus. Está claro, pois, que a lei não estava sendo respeitada. Certamente o primogênito daquela anônima família não tinha repartido corretamente, gerando o descontentamento do mais novo e levando-o a pedir ajuda externa a um bom conhecedor da lei, Jesus.

A resposta de Jesus ao homem que lhe pediu ajuda mostra um tom de completa reprovação: "Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?" (v. 14). O uso do termo 'homem' no vocativo –   a;nqrwpe  (anthrope) “Ó homem” – significa uma chamada de atenção, quer dizer que Jesus achou aquele pedido absurdo. E, ao questionar sobre “quem o encarregou de julgar ou dividir os bens” Ele quer dizer que não é igual aos demais rabinos de seu tempo.

Jesus se recusa a resolver essa questão. A princípio, podemos até estranhar sua atitude, uma vez que, segundo a lei de Israel, alguém estava sendo injustiçado naquele caso. E, como promotor da justiça e da reconciliação, seria lógico que Jesus intervisse e ajudasse na resolução do problema, deixando cada um com o percentual justo da herança, conforme prescrevia a lei. Com sua aparente omissão, Jesus estaria ajudando a prolongar a discórdia entre os irmãos ou, até mesmo, a agravá-la. Mas, não é isso. Ele não está lavando as mãos.

Antes de tudo, Ele conhecia as intenções daquele irmão. Sabia que sua reclamação não era motivada apenas por sentir-se injustiçado, mas pela ganância, ou seja, por ter depositado toda a confiança naquela herança. E, ajudando a resolver o problema, Jesus estaria ao mesmo tempo alimentando a ganância e desejo de acúmulo daquele homem. E, o problema era muito mais profundo.

Resolvendo um caso a mais, Jesus não mudaria uma mentalidade tão impregnada naquela cultura. Assim, Ele vai à raiz do problema. Ora, aquela herança um dia passaria por nova divisão, quando aquele homem morresse e a deixasse para seus filhos. Poderia ser causa de discórdia novamente. Ele quer mostrar que no seu Reino as heranças não devem ser divididas. Na verdade, elas não devem existir! Isso, Ele deixará claro com a parábola.

A parábola vai sendo preparada aos poucos. Do caso específico do homem que lhe pede intervenção, Ele aproveita para chamar, agora, a atenção dos discípulos: "E disse-lhes: Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida do homem não consiste na abundância de bens” (v. 15). Com a expressão "disse a eles" (tradução literal), está claro que não é mais ao síngulo personagem anônimo, mas ao grupo dos discípulos que Ele está direcionando o ensinamento. É uma dura advertência. Certamente, Ele sentia muita resistência nos seus seguidores no processo de assimilação de seus ensinamentos. Podemos dizer que esse versículo é uma chave de leitura para todo o Evangelho de Lucas. 

Com essa afirmação, Jesus vai de encontro à mentalidade hebraica que via no acúmulo de bens, ou seja, na riqueza, um sinal da bênção de Deus. Jesus contraria esse princípio. O acúmulo de bens é, na verdade, a prova maior da falta de sentido para a vida e, inclusive, causa de discórdias. Portanto, é urgente para seus seguidores e seguidoras libertarem-se dos bens que aprisionam e escravizam. Provavelmente, os discípulos ainda não tinham aprendido a rezar como Ele e estavam pedindo, ainda, mais que o pão necessário para cada dia (cf. Lc 11,2-4).

Continuando sua catequese para os discípulos, Ele conta a parábola que conhecemos como do 'rico insensato'. A introdução "Contou para eles uma parábola" (v. 16a) evidencia que o personagem desconhecido saiu definitivamente de cena. A conversa agora é entre Jesus e os discípulos. A parábola apresenta a figura de um rico, grande latifundiário, o qual fora surpreendido com uma grande colheita (v. 16b). Esse homem apresenta os traços do "anti-discípulo": rico, apegado aos bens, ganancioso, egocêntrico, auto-suficiente e insensato. Tudo o que o discípulo ou discípula de Jesus não podem ser, esse homem era. Alguém voltado somente para si e para seus bens.

Surpreso com uma colheita além do normal, pois seus celeiros não eram suficientes para armazenar tudo, em momento algum ele pensou em repartir e distribuir com os mais necessitados. Sua preocupação era apenas acumular. Por isso, decide consigo mesmo, eis a prova do fechamento egoístico, derrubar os celeiros e construir outros maiores para armazenar tudo (v. 18). É claro que uma colheita tão grande envolvia muitas pessoas. Mas, aquele homem não considerava ninguém além de si próprio. Todas as suas falas são em primeira pessoa. Não permitia que o outro participasse da sua vida. Colhia muito trigo, mas deixava de colher os valores do Reino! Em nenhum momento aquele homem abriu espaço para o outro, para o coletivo. Pensava somente em si e no seu bem-estar (v. 20). 

A intervenção de Deus na parábola (v. 20) não significa um ato vingativo. Quer dizer que é Ele é a fonte da vida. É o sinal de contraposição à falsa segurança depositada, na riqueza, pelo homem (v. 19). Enquanto ele julgava ter vida longa pelo que havia acumulado, Deus entra na história para mostrar o que, de fato, tem valor. A pergunta final: "E para quem ficará o que tu acumulaste?" (v. 20b) é apenas uma ponte com o que gerou toda a discussão e a parábola: o pedido de intervenção daquele homem anônimo na divisão da herança. Além de não garantir vida verdadeira, os bens acumulados ainda são causa de discórdia. Juntar tesouros para si mesmo é, então, empobrecer-se de Deus e para Deus (v. 21).

Jesus ensina, assim, a partir do pedido que o homem desconhecido lhe fez, os seus discípulos a conscientizarem-se da incompatibilidade entre o seu seguimento e as riquezas desse mundo. Parte de um princípio sagrado para o povo judeu, a herança. Com isso, Ele rompe completamente com a tradição do seu povo. Se alguém deixou herança, foi porque acumulou. Se acumulou, foi porque não partilhou. E, se a partilha é a palavra-chave do seu Reino, logo não deve existir discórdia por justiça na repartição de heranças, porque as heranças simplesmente não devem existir.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

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REFLEXÃO PARA O XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 11,1-13 (ANO C)



Após a acolhida de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria, o evangelista Lucas nos apresenta uma verdadeira catequese sobre a oração, ainda no contexto do longo caminho para Jerusalém. O texto evangélico que a liturgia deste XVII Domingo do Tempo Comum nos oferece é exatamente essa catequese: Lc 11,1-13.

Convém mencionar que, além de Lucas, também Mateus apresenta a oração ensinada por Jesus aos seus discípulos, transmitida pela Igreja com o título de "Pai Nosso". Há uma pequena diferença entre as duas versões, como são diferentes também os contextos em que cada um a apresenta. Porém, a essência é a mesma em ambas as versões. A de Lucas é um pouco mais breve, por isso, considerada pela maioria dos estudiosos, a que corresponde melhor às palavras de Jesus.

Inciamos a nossa reflexão com uma constatação simples, mas muito significativa: Lucas faz referência a Jesus rezando/orando sete vezes do batismo à paixão, o que corresponde exatamente à totalidade do seu ministério (cf. 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28-29; 11,1; 22,41). Obviamente, o evangelista quer mostrar que a oração foi o grande alimento de Jesus em sua vida pública. Foi pela força da oração que ele levou a cumprimento o projeto do Pai em sua vida.

Outro dado, não menos importante, é o fato de ser Lucas aquele que mais apresenta Jesus em relação de acolhida e atenção para com os pobres, as mulheres e os pecadores. É, por excelência, o Evangelho da misericórdia. Certamente, a explicação para tudo isso está no fato de Jesus rezar constantemente, e claro, a oração era determinante para o seu agir, como deve ser para cada cristão e cristã. Podemos dizer, então, que Lucas apresenta com o exemplo de Jesus, a oração conjugada às suas implicações concretas.

É comum, em Lucas, afirmar que "Jesus estava rezando num certo lugar" (v. 1a). Independente das circunstâncias, Jesus reservava sempre uma parte do seu tempo para a oração, seu colóquio com o Pai. Sabemos que o contexto em questão é o da viagem para Jerusalém. É muito interessante que "Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos" (v. 1b). Certamente, era bonito seu jeito de rezar. Pelas entrelinhas do texto, podemos afirmar que os discípulos estavam olhando-o, admirados. Tanto que não ousaram interrompê-lo, mas esperaram que terminasse. Impressionados, tiveram vontade de fazer o mesmo. Talvez, e muito provavelmente, estavam angustiados porque conviviam com Ele há tanto tempo e ainda não tinham aprendido muita coisa, nem mesmo a rezar como Ele. E, vale lembrar que o objetivo do discípulo é tornar-se parecido com o mestre, portanto, agir como ele.

Todo mestre ou rabino tinha um jeito próprio de conduzir o seu grupo, com seus ensinamentos e fórmulas, inclusive, de oração. Parece que Jesus tinha deixado seu grupo muito à vontade, nesse sentido. Seus discípulos poderiam sentir-se até inseguros por isso. Por isso, usam o exemplo de João Batista, o que mais se identificava com o movimento de Jesus, dos tantos existentes na época. A particularidade do jeito de Jesus exercer sua liderança era, exatamente, pelo exemplo. Por isso, não tinha preocupação de ensinar fórmulas para serem repetidas, como tinha outros mestres no seu tempo.

Do seu jeito pessoal de rezar, nasce a curiosidade e, da curiosidade, a necessidade nos seus discípulos. Por isso, pediram. Ao pedido dos discípulos, Jesus responde. Mas, não dá uma fórmula, como davam os outros rabinos. Pelo contrário, dá-lhes uma 'anti-fórmula', pois as primeiras palavras da verdadeira oração sugerem exatamente uma quebra de protocolos e paradigma. Aquelas expressões típicas das cerimônias e rituais litúrgicos de exaltação do nome de Deus, tipo "Altíssimo, Todo-Poderoso, Onipotente, Senhor, Santo", ensinadas pelos seus contemporâneos, são abolidas por Jesus. Seu jeito de rezar causa impacto porque ele ensina na oração a chamar a Deus de "Pai". Para nós, hoje, parece não ser algo impactante. Mas, para a sua época foi, de fato, algo revolucionário. 

Com o imperativo "Quando rezardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome" (v. 2a), Jesus quer dizer, antes de tudo, que o primeiro elemento necessário para uma oração autêntica é ter clareza do destinatário da oração. É claro que é a Deus que deve ser direcionada toda oração. E, esse Deus é, antes de tudo, Pai! Logo, Jesus não inaugura uma nova fórmula de oração, mas propõe um novo jeito de se relacionar com Deus. Dessa maneira nova de se relacionar com Deus, emerge a certeza de que Ele está próximo de nós, como se fosse um amigo e, portanto, pode ser invocado a qualquer hora e momento. Desse ponto, já adiantamos o sentido da pequena parábola do amigo inoportuno, contada por Jesus como explicação e complemento da oração (vv. 5-8). Além de Pai, esse Deus próximo é também amigo.

A "santificação do nome de Deus" (v. 2b) e o "advento de seu Reino" (v. 2c) estão intrinsecamente relacionados, a ponto de confundirem-se. Ora, o nome de Deus já é santificado, porque Ele é, essencialmente, santo. O pedido diz respeito ao reconhecimento dessa santidade. Reconhecer a santidade de Deus é saber que Ele é Pai, aceitar a condição de filhos e filhas e, portanto, é viver como irmãos e irmãs. Isso é permitir que o seu Reino seja instaurado entre nós. O Reino que já fora inaugurado por Jesus (cf. Lc 4,16-22), precisa ser difundido pelos discípulos até chegar a todos os lugares épocas. A construção do Reino é, pois, a constatação se o nome de Deus está sendo santificado ou não, ou seja, se Ele está sendo reconhecido como realmente é: Pai.

Na sequência da oração, Jesus vai recomendando o que é necessário pedir, ou seja, quais são as reais necessidades do ser humano. O pedido pelo "pão necessário para cada dia" (v. 3), além de expressar uma necessidade concreta, a alimentação, exprime, sobretudo, a condição existencial do ser humano: ele não pode ser auto-suficiente por um dia, sequer. Um elemento indispensável para que uma comunidade viva efetivamente segundo as características do Reino, é a confiança e a solidariedade. Obviamente, Jesus alude ao antigo maná (cf. Ex 16) com essa petição. Há, aqui, um verdadeiro combate à cultura do acúmulo, tema que será desenvolvido na sequência da viagem, principalmente com as parábolas do rico insensato (cf. 12,13-21) e do rico e o pobre Lázaro (cf. 16,19-31).

A menção ao perdão não poderia faltar na oração que deveria caracterizar a comunidade cristã. Por isso, Jesus recomenda que este pedido não pode faltar na oração autêntica: "Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós perdoamos também a todos os nossos devedores" (v. 4ab). O pedido de perdão a Deus era comum nas orações dos diversos movimentos religiosos daquela época e de todos os tempos. Realmente, é somente Deus quem pode perdoar pecados. Assim como o pedido do pão cotidiano, também esse visa conscientizar o ser humano de sua necessidade diante de Deus. A grande novidade apresentada por Jesus é a condição para buscar o perdão de Deus: "nós também perdoamos aos nossos devedores". Com isso, Ele ensina que o perdão de Deus deve ser mediado pelo perdão fraterno. A abertura total a Deus deve traduzir-se em uma relação nova com o próximo, tema tão caro a Lucas. Isso implica que, mais que ser perdoado, é necessário viver reconciliado. Por isso, o perdão deve ser mútuo.

A última das petições da oração verdadeira é "não nos deixes cair em tentação" (v. 4c). A palavra tentação, em grego peirasmo,j (peirasmós), quando aplicada em relação aos discípulos, significa "desistir", "abandonar". Assim, a comunidade é convidada a pedir ao Pai o dom da perseverança. Em outras palavras, é um pedido de coragem para levar adiante um projeto tão audacioso como o de Jesus. É necessário resistência para lutar pelo Reino, contentar-se apenas com o necessário para cada dia e perdoar aos devedores. Por isso, deve-se pedir constantemente para não abandonar essa proposta de vida tão revolucionária. Isso significa ainda que a nossa continuação no seguimento de Jesus não depende apenas da nossa força ou vontade, mas da graça de Deus.

Na mentalidade hebraica, o filho é aquele que é parecido com o pai. Portanto, chamar a Deus de Pai era bastante comprometedor, pois exigia muitas implicações concretas. Era muito mais cômodo chamá-lo de Altíssimo, Onipotente, Santíssimo, pois estas expressões evocam a alguém distante e inacessível, aquele não está presente no cotidiano da comunidade para relacionar-se com ela. O Deus de Jesus, que é Pai, está presente. Os discípulos deveriam, assim como Jesus, viver como filhos. Diante das exigências, a tendência à desistência era muito comum. Por isso, Jesus pede que eles peçam, constantemente, a graça de não abandonarem o seu projeto.

Como explicação para o conteúdo da oração ensinada, Jesus conta duas pequenas parábolas: a do amigo inoportuno (vv. 5-8) e a do pai (v. 11). Ambas tem a função didática de explicitar a proximidade do Deus-Pai e a necessidade da perseverança da comunidade na oração. Esse Deus é muito mais disponível que um amigo, e muito melhor que um pai terrestre. Desse modo, Ele ressalta que a qualquer momento se pode invocar esse Deus-Pai e, pedindo o que é justo, jamais Ele deixará de atender. 

Mas, qual o critério para fazer o pedido justo? É exatamente pedindo, antes de tudo, o elemento imprescindível da oração, e este só pode ser dado pelo Pai: O Espírito Santo! (v.13). A comunidade que se deixa guiar pelo Espírito Santo, saberá discernir para pedir ao Pai o que é, de fato, essencial. E, pedindo o essencial, é claro que o Pai concederá. 



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 10,38-42


O Evangelho deste XVI Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar mais uma etapa do longo caminho de Jesus rumo à Jerusalém. Como bem sabemos, o caminho apresentado por Lucas não é apenas um percurso a ser alcançado, mas é, sobretudo, lugar de revelação, de catequese, auto-afirmação de sua messianidade e de formação do discipulado. Portanto, cada cena presente entre os capítulos nove e dezenove, os quais apresentam o caminho, tem grande relevância. 

O texto de hoje, Lucas 10,38-42, é bastante conhecido. Trata-se do famoso episódio de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria. Porém, ser conhecido não significa necessariamente ser compreendido corretamente, e isso tem sido verificado com as diversas versões interpretativas ao longo dos séculos. Durante muito tempo usou-se esse texto para distinguir a vida contemplativa da ativa e, assim, mostrar a superioridade da primeira sobre a segunda. Marta foi rotulada de ativa demais e Maria de contemplativa e, logo, de modelo para a vida monástica.

Infelizmente, e não é a única vez, a versão litúrgica nos priva da integridade do texto, omitindo a primeira parte do versículo 38: "Enquanto caminhavam". Trata-se de uma omissão prejudicial ao entendimento do texto, pois é o elemento de ligação com a cena anterior e o indicativo do contexto da grande viagem rumo à Jerusalém.

"Enquanto caminhavam, Jesus entrou em um povoado" (v. 38a). A princípio, parece haver um erro de concordância verbal, mas é apenas um detalhe do narrador: estavam caminhando Jesus e seus discípulos, mas somente Ele entra no povoado. Se os discípulos continuaram a viagem sozinhos ou o esperaram, não sabemos. Parece um detalhe sem importância, mas não o é. O primeiro motivo para Jesus entrar sozinho é pelo significado de um povoado no seu tempo. Quer dizer lugar de resistência à novas ideias, sede do conservadorismo e do apego às tradições.

O povo simples e tradicional dos povoados não aceitava a mensagem transformadora e libertadora de Jesus. Logo no início da viagem, Ele tinha sido hostilizado em um povoado dos samaritanos e alguns dos seus discípulos reagiram violentamente, querendo destruí-los com fogo (cf. Lc 9,52-53). Certamente Jesus pensou nisso ao preferir entrar sozinho. Outro motivo foi, sem dúvida, porque Jesus sabia que seus discípulos não compreenderiam o que viria a acontecer naquela casa. E, realmente, foi algo revolucionário!

O primeiro grande absurdo da cena é o fato de que Jesus foi acolhido por uma mulher (v. 38b). No seu tempo, a mulher não tinha autonomia para receber um homem em casa. Esse era papel do homem. Enquanto o homem dava atenção ao hóspede, as mulheres da casa permaneciam na cozinha, preparando o alimento e não ousavam, sequer, saudar o hóspede. Por isso, trata-se de algo novo. Merece destaque o gesto revolucionário de Marta ao acolher Jesus. Ela rompeu barreiras. Por isso, será injusto considerá-la negativamente, como fazem a maioria das interpretações. Antes de tudo, ela foi uma mulher de coragem.

Outra coisa absurda é a atitude da irmã de Marta, Maria: "Sentou-se aos pés do Senhor e escutava a sua palavra" (v. 39). O gesto de sentar aos pés não quer dizer adoração nem devoção, como muitas interpretações afirmavam. Sentar aos pés para escutar quer dizer ser discípulo ou discípula. É aceitar o outro como mestre. Podemos recordar o que Paulo diz em relação a Gamaliel, seu mestre: "Eu sou judeu. Nasci em Tarso, da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, educado aos pés de Gamaliel" (cf. At 22,3). Portanto, Maria se torna discípula com essa atitude. Também ela rompe muitas barreiras. Esse papel não era permitido às mulheres. 

É claro que a atitude mais revolucionária é de Jesus: aceita a hospitalidade de uma mulher ao entrar em sua casa e permite que uma mulher sente aos seus pés para ouvi-lo. Com isso, ele rompe com todos os padrões de mestre da sua época. Rabino algum do seu tempo aceitava mulheres no discipulado. Aos poucos, vai ficando claro porque Jesus preferiu que seus discípulos não entrassem com ele naquele povoado. Eles não compreenderiam isso tudo. Sua mensagem ganha adesão também no(s) povoado(s). Por mais que o conservadorismo esteja enraizado, ele pode ser superado. A mensagem de Jesus deve penetrar em todos os lugares. A sua palavra é, de fato, eficaz.

Na continuação da narração, Lucas diz que "Marta estava ocupada com muitos afazeres" (v. 40a), algo normal para uma dona de casa, principalmente tendo que preparar refeição para uma visita. É a imagem da dona de casa disciplinada que não perde tempo para manter a casa em ordem e servir da melhor maneira possível às visitas, principalmente uma tão ilustre como o "Senhor", como ela se refere a Jesus. Por isso, ela pede que Jesus intervenha, pois fazendo tudo sozinha, talvez, não conseguisse preparar a refeição a tempo. Mas, ela pede muito! Pedir que Jesus mande Maria para ajudá-la é pedir que ela saia de seus pés, portanto, é privá-la da condição de discípula. Seria negar um direito conquistado, um ato de emancipação feminina. 

A resposta de Jesus ao pedido de Marta é um dos motivos de maior equívoco nas interpretações convencionais do texto. Na verdade, Jesus não a repreende. Pelo contrário, age com muita serenidade e lhe faz um convite: "Marta, Marta" (v. 41). O nome pronunciado duas vezes não é sinal de reprovação, mas de chamado vocacional. Recordemos alguns casos de vocações na Bíblia em que o chamado de Deus se apresenta com essa fórmula: "E Deus o chamou do meio da sarça. Disse: Moisés, Moisés! Este respondeu: Eis-me aqui" (Ex 3,4b); "Iahweh chamou: Samuel, Samuel!" (1 Sm 3,4); "Saulo, Saulo, porque me persegues?" (At 9,4). 

Marta é chamada por Jesus à condição de discípula. Assim como os discípulos pescadores foram chamados a deixar as redes para segui-lo, Marta é chamada a deixar certas preocupações e, assim como sua irmã, optar pela "parte boa" (v. 42). Ser discípulo ou discípula de Jesus é optar pela liberdade, abrir mão de todas as formas de prisão existentes. Esse chamado é aberto a todos e todas. Foi compreendido por Maria e Jesus o estende também à sua irmã. A própria Marta já tinha dado um grande passo de emancipação ao atrever-se a acolher um homem em sua casa. Faltava mais um, sentar-se aos pés do mestre para ouvi-lo. Fazendo isso, ela estaria escolhendo a "parte boa" e, logo, conquistando a liberdade plena. Esse chamado é dirigido a todos os homens e mulheres de todos os tempos.

Como complemento para nossa reflexão, querermos relacionar o texto de hoje com outro texto evangélico, no qual os mesmos personagens compõem a cena: o episódio da reanimação de Lázaro em João 11. À narração lucana, João acrescenta duas informações importantes: o nome do povoado, Betânia, e a presença de um irmão, Lázaro, na casa das duas irmãs. 

Embora Lázaro não seja mencionado no texto de Lucas, é consenso que, juntamente com Marta e Maria, formava uma família-comunidade. Por sinal, nem em Lucas e nem em João se fala de pai e mãe deles. Diz apenas que eram irmãos. E esse dado é muito importante! Ora, na época de Jesus o pai de família exercia poder absoluto na casa. Na comunidade ideal, marcada pelos valores do Reino, não há espaço para a autoridade porque as relações são caracterizadas pela fraternidade e, portanto, pela igualdade.

Acreditando que Marta respondeu 'sim' ao chamado de Jesus, podemos afirmar que sua família é o verdadeiro retrato da comunidade cristã: todos escutam com atenção ao Mestre e vivem como irmãos, sem relação de poder, mas de igualdade e fraternidade.



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 10,25-37

A liturgia desse XV Domingo do Tempo Comum, coloca-nos em contato com uma dos textos mais belos e conhecidos de todo o Novo Testamento, a chamada parábola do bom samaritano. Trata-se de um texto próprio de Lucas, inserido na dinâmica do longo caminho empreendido por Jesus rumo a Jerusalém. É um daqueles episódios em que Jesus esbanja misericórdia, o que é muito comum no Evangelho segundo Lucas.

A parábola é usada como uma das respostas de Jesus em um interessante diálogo com um mestre da lei, assumindo a centralidade de todo o colóquio e constituindo-se como uma das principais páginas do terceiro Evangelho.

Diz o texto que "um mestre da lei se levantou e, para tentar Jesus, fez-lhe uma pergunta" (v 25a). Lucas apresenta aqui o mesmo verbo usado no episódio das tentações (cf. Lc 4,1-13): εκπειραζω (ekpeirazô), cujo significado é tentar, pôr alguém à  prova. Esse indicativo é importante porque já confere um caráter diabólico às intenções do mestre lei, pois, tentar Jesus, pondo-o à prova é a atitude de satanás, conforme a linguagem bíblica e lucana, principalmente.

Após apresentar a intenção e a atitude do mestre da lei, tentar Jesus perguntando, temos, então, o conteúdo da pergunta: "Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?" (v. 25b). Se trata de uma pergunta muito profunda e bem elaborada, própria de um bom conhecedor da Escritura, como, de fato ele era.

Como era próprio da cultura dos rabinos responder a uma pergunta com outra pergunta, Jesus assim o faz, e responde perguntando exatamente o que a lei dizia a propósito da observação do interlocutor. Como bom conhecedor, o mestre da lei responde prontamente com duas citações da Escritura: "Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência (cf. Dt 6,5); e ao teu próximo como a ti mesmo (cf. Lv 19,18). Resposta própria de quem examinava a lei dia e noite, como era seu ofício.

A continuidade do diálogo mostra a exterioridade e superficialidade daquele mestre da lei. Teoricamente, seu conhecimento era perfeito, tanto que o próprio Jesus reconheceu: "Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás" (v. 28). Mas, sua tentativa de justificar-se demonstrava o quanto era limitada sua religião. Ele conhecia todas as passagens da Escritura, era um intérprete oficial e no entanto não sabia quem era seu próximo.

E, percebendo o vazio de sentido naquela religião estéril defendida e praticada pelo mestre da lei, Jesus aproveita a oportunidade para apresentar um dos seus mais célebres ensinamentos, com a parábola do samaritano, como resposta.

Disse Jesus que "certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes" (v. 30a). Ora, embora a distância entre as duas cidades não fosse tão grande, apenas 27 km, grandes obstáculos componham aquele caminho. A começar pelo desnível entre as duas cidades. Enquanto Jerusalém estava a mais de 700 metros acima do nível do mar, Jericó estava a aproximadamente 300 metros sob o nível do mar. Além disso, tinha de atravessar o deserto de Judá. Era uma estrada tão perigosa, que somente se andava em grupo, considerando tanto os obstáculos da natureza quanto o perigo dos assaltantes. Logo, Jesus não apresenta nenhuma novidade, uma vez que eram comuns os assaltos naquela estrada.

Na descrição do assalto, Jesus acrescenta detalhes, enfatizando que os assaltantes, além de espancar o homem, levaram tudo e o deixaram quase morto (v. 30b). Claro que há, nisso tudo, uma clara intenção teológico-literária de Lucas visando supervalorizar a atitude do samaritano e contrapô-la à indiferença do sacerdote e do levita.

"Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho" (v. 31a), ou seja, estava voltando de Jerusalém após uma semana inteira de serviço no templo, conforme a distribuição das classes sacerdotais durante o ano litúrgico judaico. Portanto, estava em seu grau máximo de pureza. Por isso, "quando viu o homem, seguiu adiante pelo outro lado" (v. 30b), exatamente porque o contato com um homem quase morto o tornaria impuro também, conforme determinava a lei. A lei estava acima da vida para a religião judaica do tempo de Jesus. O sacerdote cumpre rigorosamente a lei pela metade, assim como o mestre interlocutor de Jesus. Tem dificuldade em reconhecer quem é o seu próximo porque vivia uma religiosidade meramente ritualista e vazia de amor.

A mesma indiferença do sacerdote é repetida por um levita, o auxiliar dos sacerdotes no serviço litúrgico do templo: "chegou ao lugar, viu o homem e seguiu pelo outro lado" (v. 32). Como bom 'sacristão', o levita não poderia ter outro exemplo a seguir senão o do sacerdote, por isso, imita seus gestos, inclusive a indiferença diante do sofrimento do outro. Como voltava do serviço litúrgico, não queria contaminar-se com um quase morto, certamente ensaguentado do espancamento.

A verdadeira afronta de Jesus ao mestre da lei vem colocada a partir do versículo 33, quando ele diz na parábola que "um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão". Como sabemos, os samaritanos eram mal vistos pelos judeus. A maior ofensa que um judeu poderia receber era ser chamado de samaritano. Era o mesmo que dizer herege, pecador, impuro... alguém da pior qualidade possível.

O próprio Jesus com seus discípulos tinham sido rejeitados pelos samaritanos no início do caminho, como vimos há dois domingos atrás, no XIII (cf. Lc 9,53), e hoje Jesus apresenta um samaritano como alguém que age como Deus. De fato, ver e ter compaixão, são atitudes próprios de Deus. E, infelizmente, os homens que pareciam conhecer a Deus, o sacerdote e o levita, não conheciam seus sentimentos, mas um infiel aos olhos da religião.

O sacerdote e o levita viram o estado miserável em que se encontrava o homem, mas foram para o outro lado do caminho. O samaritano viu, sentiu compaixão e aproximou-se. Duas atitudes completamente opostas. A compaixão do samaritano fez com que ele se aproximasse e cuidasse do homem. Quase dez verbos são usados na sequência do texto, e todos eles são verbos de ação. Assim, Jesus contrapõe a omissão dos praticantes da religião à ação movida de compaixão da parte do herege, comovendo ainda mais o mestre da lei.

Um vez que a parábola foi contada como resposta à pergunta "E quem é o meu próximo?" (v. 29), Jesus devolve novamente uma pergunta ao mestre: "Na tua opinião qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" (v. 36). Da pergunta de Jesus emerge um dado muito importante: o próximo não é, o próximo faz-se. Para os judeus, o próximo era o parente, o companheiro de religião e, no máximo, o estrangeiro radicado entre eles. Portanto, era um categoria estática. Jesus diz, com a parábola e a pergunta final, que o próximo faz-se, ou seja, são as circunstâncias que tornam alguém próximo.

A resposta do mestre à pergunta de Jesus é correta, embora ele mesmo não a aceite: "Aquele que usou de misericórdia para com ele" (v. 36a) foi o próximo. Dois aspectos chamam a atenção nessa resposta: primeiro, o mestre evita mencionar 'o samaritano', diz apenas 'aquele'; segundo, usar misericórdia é atribuído somente a Deus em todo o Antigo Testamento e apenas a Jesus no Novo. 

A única vez em que se atribui a um homem o uso da misericórdia é aqui. E não se atribui a um homem da religião, mas a um herege. E, de todos os envolvidos na parábola, foi exatamente o apresentado como exemplo. Por isso, Jesus aconselha ao mestre da lei: "Vai e faze a mesma coisa" (v. 37).

Com isso, Jesus aconselha o mestre da lei e a todos, de ontem e de hoje, a abrir mão de todos os preceitos impostos pela religião e perceber que o amor a Deus e ao próximo são inseparáveis.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues
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