REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – MATEUS 28,16-20 (ANO A)




Neste domingo em que celebramos a solenidade da ascensão do Senhor, o evangelho proposto pela liturgia é Mt 28,16-20, texto que contém os últimos versículos do Evangelho segundo Mateus. A solenidade da ascensão marca a consumação da ressurreição: o Ressuscitado penetra no mundo do Pai e, ao mesmo tempo, confirma sua presença perene entre os seus seguidores, confiando-lhes a missão de continuarem a sua obra. É importante destacar, logo de início, que o evangelho segundo Mateus não chega a descrever a ascensão. Aliás, essa vem descrita apenas na obra lucana (Lc 24,50-51; At 1,6-11) e no acréscimo redacional de Marcos (Mc 16,19). Em Mateus, o que é narrada é a manifestação do Ressuscitado aos discípulos na Galileia, dando-lhes as últimas recomendações e garantindo continuar com eles para sempre.  

Podemos dizer que o texto de hoje é uma síntese conclusiva de todo o evangelho segundo Mateus. À medida em que escreve suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fazem questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado ao longo da obra. É isso que percebemos hoje. Portanto, para compreendê-lo bem é necessário que o leitor esteja familiarizado com todo o Evangelho. Na impossibilidade de recordar o Evangelho todo, recordamos, pelo menos, os últimos acontecimentos narrados: o relato da ressurreição com a manifestação do anjo e do próprio Ressuscitado às mulheres (Mt 28,1-10), e o suborno dos guardas pelos sacerdotes com a mentira do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (Mt 28,11-15). O texto de hoje sucede imediatamente a esses acontecimentos. Tanto o anjo do Senhor (28,5-7), quanto o próprio Jesus (28,10) ordenaram às mulheres que avisassem aos discípulos que retornassem à Galileia para, ali, fazerem eles também a experiência do encontro com o Ressuscitado.

É à luz das informações recordadas anteriormente que podemos compreender o que o evangelho de hoje diz logo em seu primeiro versículo: Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v 16). A menção aos onze recorda a perda de Judas, o qual já não fazia mais parte do grupo dos discípulos, mas tem também um outro significado: o número doze representava um projeto de reconstituição do antigo Israel, alimentando a ideologia nacionalista e triunfalista. Esse projeto faliu, devido à rejeição de Israel ao projeto de Jesus, cujo ápice foi à morte escandalosa na cruz. À luz da ressurreição, a comunidade mateana, fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos, percebe que a missão universal confiada à Igreja não precisa mais ser configurada às tradições de Israel. O projeto do Reino dos Céus que Jesus anunciou ao longo do Evangelho não coincide com a restauração do reino de Israel. Por isso, o número onze não significa incompletude da comunidade, mas é sinal de uma nova perspectiva e ruptura com os antigos esquemas. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário abandonar os esquemas tradicionais do judaísmo.

Segundo a recomendação, os discípulos foram para a Galileia, ao monte indicado. Ora, em Jerusalém acontecera a grande tragédia para a comunidade dos discípulos. Além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado ali florescer. Basta recordar o conluio dos poderes religioso, militar e político para desacreditar a ressurreição, com a ideia do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (28,11-15). Aliás, Jerusalém foi hostil a Jesus desde o seu nascimento, com a matança dos inocentes decretada por Herodes (Mt 2,16). O retorno à Galileia, portanto, era essencial para a sobrevivência da comunidade e, ao mesmo tempo, para o reencontro dos discípulos com as motivações e bases originárias. Além das incompreensões ao longo da caminhada, marcada inclusive pela rivalidade entre os discípulos (Mt 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte de Jesus deixaram a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade de um retorno ao ideal primeiro para fazer a experiência do monte. Ora, de acordo com as tradições do Antigo Testamento, o monte é, por excelência, o lugar do encontro com Deus e com a sua palavra. 

Ao longo de todo o seu Evangelho, Mateus situou Jesus no monte em diversas ocasiões, desde às tentações (Mt 4,8-10) até a paixão (Mt 26,30). Inclusive, foi no monte que Jesus proferiu o mais importante dos seus cinco discursos: o discurso da montanha (Mt 5– 7), que se constitui como o seu programa de vida, cujo centro é as bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Logo, o convite para os discípulos retornarem à Galileia para o monte é exatamente para voltarem à essência do projeto de vida proposto por Jesus, percorrendo o seu mesmo caminho e fazendo as mesmas opções. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré, o galileu, e o Ressuscitado. E a Galileia como região desprezada entre os judeus é também uma advertência aos discípulos quanto aos destinatários primeiros da missão: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram” (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o mesmo verbo usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (Mt 2,2.11); Esse verbo (em grego: προσκυνέω – proskinêo) tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar e sujeitar-se somente ao que foi ensinado por Jesus, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da Lei e às imposições do imperador romano. Assim como os magos, os discípulos aceitam os valores do Reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos lugares da terra, indistintamente. Ao contrário do que parece, a dúvida não faz mal à comunidade. Tanto é que Jesus não repreende os discípulos por isso. A dúvida é sinal de busca, e não de rejeição. Ao longo da missão universal da Igreja, muitas dúvidas surgirão, tanto em quem anuncia quanto nos destinatários do anúncio. As dúvidas abrem espaço para o Espírito Santo iluminar a comunidade e conduzi-la à verdade. Enquanto as certezas geram autoritarismos e imposições, as dúvidas dão margem ao diálogo, à abertura ao diferente. O antídoto à dúvida não é a certeza, mas a fé e o amor. Quanto maiores forem as dúvidas, maior será a necessidade da fé e do amor na comunidade.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso que, de certo modo, sintetiza todo o Evangelho de Mateus (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, mas de envio e comissionamento. Ao dizer “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. Está também reivindicando para si a identificação com a figura do “Filho do Homem” (Dn 7,13-14) e, ao mesmo, tempo corrigindo-a: ao Filho do Homem do livro de Daniel, foram dados poder e domínio. Jesus trocou o domínio pelo serviço (Mt 20,28), preferindo exercer sua autoridade no amor. A verdadeira autoridade, motivada pelo amor, parte da periferia, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá o poder é exercido com base na mentira, no medo, no suborno e na violência, conforme o relato da paixão mostrou claramente. “Céu e terra”, aqui, significam a totalidade da criação submetida a Jesus Ressuscitado; quer dizer que o Pai lhe entregou tudo.

O discurso prossegue com o envio universalista e inclusivo: “Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de poder. Ele não envia seus discípulos para impor e nem dominar, mas para fazer novos discípulos, uma vez que no seu Reino não há súditos, mas irmãos. Essa é, sem dúvidas, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de mundo. Não envia os discípulos para doutrinarem ninguém, mas para apresentarem um programa de vida, delineado ainda no início do Evangelho, com a proclamação das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Destacamos aqui a força do verbo empregado pelo evangelista para a expressão “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular” (μαθητεύω – matheteúo); com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. Gerar discípulos ou discipular é, antes de tudo, viver o discipulado plenamente para torná-lo fecundo e, consequentemente, gerar mais discípulos.  

O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos, os quais não são cumpridores de tarefas, mas seguidores de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado. À missão de “discipular”, é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade, obviamente, marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal externo além do batismo. A fórmula trinitária expressa a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial praticada por João Batista. A expressão “Em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria identidade e essência, expressa a totalidade do seu ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais do que uma ordem: E ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v 20a). Em nenhum outro Evangelho essa expressão teria a profundidade que tem em Mateus.  Ora, Mateus é, por excelência, o Evangelho do ensinamento (em grego: διδαχή – didakê), tanto que está estruturado em torno de cinco discursos: o discurso da montanha (Mt 5–7); o discurso missionário (Mt 10); o discurso em parábolas (Mt 13); o discurso comunitário (Mt 18) e o discurso escatológico (Mt 24–25). Nesses cinco discursos está totalidade do ensinamento de Jesus, para a comunidade de Mateus, e é isso o que deve ser ensinado. A comunidade cristã tem a missão de ensinar tudo, sem distorção alguma, do que Jesus ensinou e ordenou. Essa totalidade do ensinamento de Jesus, no entanto, não passa de um jeito de viver, ou seja, é um programa de vida. Por isso, não pode ser distorcido e nem substituído por uma doutrina ou ideologia. 

A última frase de todo o evangelho é, na verdade, a síntese: a certeza da presença de Jesus na comunidade: Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo “estar” no futuro, o evangelista o emprega no presente, conforme o texto grego. Isso significa que Jesus nunca se ausentou da comunidade, ou seja, Ele não foi embora para voltar depois, mas permaneceu sempre. A presença é um tema central no Evangelho de Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. Por isso, com essa certeza, Mateus não tinha motivos para descrever Jesus subindo para o céu, como fez Lucas. O importante é que a comunidade possa sentir sua presença e que essa a estimule a viver e ensinar somente o que Ele ensinou.

O Ressuscitado está, de fato, presente na comunidade que vive o ideal de vida proposto nas bem-aventuranças. Nessa comunidade todos são discípulos e irmãos. Essa comunidade celebra, acolhe, convence pelo testemunho e coloca-se em saída para, com alegria, compartilhar tudo o que Ele ensinou!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 14,15-21 (ANO A)




Neste sexto domingo da páscoa, continuamos a leitura do capítulo quatorze do Evangelho segundo João, iniciada no domingo passado. A liturgia de hoje propõe os versículos de 15 a 21. O contexto continua sendo o da última ceia de Jesus com seus discípulos em Jerusalém. Como já fizemos uma contextualização mais ampla no domingo passado, não julgamos necessário refazê-la hoje. Por isso, faremos apenas pequenos acenos a alguns elementos essenciais do contexto. O texto lido faz parte do discurso de despedida de Jesus, considerado um verdadeiro testamento, uma vez que contém a síntese de seus principais ensinamentos. João é o único evangelista que fez essa síntese final dos ensinamentos de Jesus, respondendo às necessidades concretas das suas comunidades, ameaçadas pelas perseguições e por problemas internos, quando o Evangelho foi escrito, na última década do primeiro século. Propositadamente, a liturgia prioriza a leitura de trechos desse discurso nos domingos que antecedem à solenidade da ascensão, para que as comunidades cristãs tenham clareza da essência da mensagem de Jesus e não interpretem o seu retorno para junto do Pai como ausência, mas como início de uma presença ainda mais intensa entre os seus seguidores.

Eis o que o texto afirma logo em seu início: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (v. 15). Enquanto o primeiro versículo do evangelho do domingo passado cobrava fé nos discípulos (Jo 14,1), o de hoje faz praticamente a mesma exigência com o amor. De fato, fé e amor são duas características indispensáveis para uma comunidade cristã. Essa é a primeira vez que Jesus pede amor para si, e o faz empregando o verbo que expressa o amor em sua máxima dimensão. Ora, no grego, idioma da redação do Evangelho, há quatro verbos que significam amar, mas somente um expressa um amor ilimitado e incondicional, capaz de doar a vida: é o verbo agapáo (άγαπάω), empregado aqui. O amor cristão tem um parâmetro que é o amor de Jesus, e os cristãos não podem amar de outro jeito que não seja esse. Quem ama Jesus guarda os seus mandamentos, o que aqui significa a totalidade de sua mensagem, uma vez que ele deixou um único mandamento, o mandamento do amor (Jo 13,34-35). Assim, mandamento no plural significa a totalidade da mensagem de Jesus, o que não consiste em preceitos morais, mas num estilo de vida.

E a consequência do amor a Jesus é a observação e vivência efetiva dos seus ensinamentos. Ele não fala de obediência aos seus mandamentos, mas de guardar, o que significa conservar, preservar algo em sua essência, sem adulterações. Inclusive, o evangelista usa aqui o mesmo verbo guardar (em grego: τηρήω – terêo) colocado na boca do mestre-sala no episódio das bodas de Caná, ao elogiar o vinho novo, desconhecido para ele, como se estivesse “guardado até agora” (Jo 2,10). Portanto, quem ama Jesus vive e mantém a sua mensagem autêntica e intacta ao longo do tempo, não obstante as adversidades, como as enfrentadas pela comunidade do evangelista. Para conservar a mensagem de Jesus em sua integridade, no entanto, a comunidade precisa ler os sinais dos tempos, à luz do Espírito Santo, já que é uma mensagem dinâmica e viva.

Estando prestes a retornar ao Pai, Jesus reconhece a vulnerabilidade dos seus discípulos, que se encontravam angustiados e com medo (Jo 14,1). Por isso, lhes faz uma promessa: “E eu rogarei ao Pai e ele vos dará um outro defensor, para que permaneça sempre convosco” (v. 16). Aqui, Jesus está se referindo ao Espírito Santo como o outro defensor, sendo que o primeiro defensor é ele mesmo (1Jo 2,1); o outro atuará na vida dos discípulos com uma presença semelhante, embora mais intensa, à do próprio Jesus em sua vida terrena. O termo grego correspondente a defensor é “Parákletos” (παράκλητος), corresponde ao termo latino “advocatus”, do qual provém a palavra advogado; se trata de uma palavra composta (παρά – pará = “junto a” + κλητος – klétos = chamado), cujo significado literal é “chamado a estar junto ou do lado” para defender, consolar e encorajar. Adaptada ao português como “Paráclito”, esse termo foi praticamente transformado em título do Espírito Santo, quando na verdade expressa a sua função na comunidade. Ora, angustiados e aflitos pelo medo, os discípulos temiam exatamente que a partida de Jesus os deixasse desamparados; a essa situação, Jesus responde prometendo o outro defensor. Assim, ele antecipa que, através do Espírito Santo, estará para sempre presente na vida dos seus seguidores de todos os tempos, com uma presença até mais efetiva do que aquela terrena, uma vez que não estará mais condicionado aos limites do espaço e do tempo.

A presença do Espírito Santo é decisiva e vital para a comunidade; por isso, Jesus continua referindo-se a ele, mostrando agora uma função clara, aquela de ajudar a manter a comunidade na Verdade, que é o próprio Pai e Jesus, já que quem vê um vê o outro (Jo 14,9), uma vez que os dois são Um (Jo 10,30): O Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (v. 17). Aqui, evangelista faz a contraposição, típica da sua teologia, entre a comunidade cristã e o mundo. Mundo não é a criação ou cosmos, mas toda a oposição ao Evangelho; é a negação do amor de Deus comunicado por Jesus, o que geralmente é o sistema opressor – religioso, político ou econômico – mas também as contradições e incoerências da própria comunidade. Enfim, é toda realidade que rejeita o amor de Deus, que são os sistemas que se alimentam da mentira, do ódio, da violência e de tudo o que é contrário ao Evangelho. A comunidade só resiste a tudo isso se acolher o Espírito da Verdade, a quem ela conhece, porque Jesus deu a conhecer, inclusive enviando-o para dentro de cada discípulo.

A presença do Espírito na comunidade garante proteção e amparo aos discípulos; por isso, Jesus lhes assegura: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (v. 18). Os discípulos temiam exatamente viver como órfãos num mundo hostil e injusto, após a partida de Jesus. Ora, os órfãos, juntamente com as viúvas, formavam a categoria de pessoas mais vulneráveis e frágeis em Israel, sujeitos à exploração dos poderosos. Eram os protótipos das pessoas abandonadas. Por isso, eram destinatários de atenção especial na própria Lei de Moisés (Dt 14,28-29). Com essa afirmação, Jesus declara que não os abandonará; pelo contrário, virá a eles; essa vinda não é a parusia, ou seja, a vinda definitiva no final dos tempos, mas o seu retorno à comunidade após a ressurreição (Jo 20,19.24); inclusive, nos relatos das aparições, o evangelista João não dirá que Jesus apareceu aos discípulos, mas que ele veio onde eles se encontravam e, por sinal, eles estavam com medo (Jo 20,19.24).

Com muita clareza, Jesus falava da sua morte ressurreição, certamente com os discípulos já mais tranquilos, após o anúncio do outro defensor: “Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis por que eu vivo e vós vivereis” (v. 19). Ao contrário do mundo, para quem a morte de Jesus será uma partida permanente, porque não se abriu para conhecer o seu amor, os discípulos não deixarão de vê-lo, pois, ressuscitado, estará para sempre vivo entre eles. A relação com Jesus é fonte de vida, pois quem lhe vê, vive. Ver aqui significa a relação de intimidade com ele, e essa relação é geradora de vida. Naquela ocasião, os discípulos confirmarão a união íntima entre Jesus e o Pai e poderão também participar dessa mesma união, como ele mesmo promete: “Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós” (v. 20). Logo, a presença de Jesus no Pai e do Pai em Jesus se realiza também na vida dos discípulos, eliminando, assim, toda distância entre o humano e o divino. A comunidade cristã aberta ao Espírito da Verdade é, portanto, morada de Jesus e do Pai.

No último versículo, é retomada a temática dos mandamentos, e novamente associados ao amor: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (v. 21). O termo mandamento (em grego:  έντολή – entolê), tanto no singular quanto no plural, aparece vinte e seis vezes nos evangelhos, sendo dezesseis nos sinóticos (Mt 5,19; 15,3; 19,17; 22,36;38;40; Mc 7,8.9; 10,5.19; 12,28.31; Lc 1,16; 15,29; 18,20; 23,56) e dez em João (Jo 10,18; 11,57; 12,49.50; 13,34; 14,15.21; 15,10.12); enquanto nos sinóticos sempre faz referência aos mandamentos da Lei, embora (re)interpretados por Jesus, em João os mandamentos são somente seus, não aludem à antiga Lei. Com isso, o evangelista reforça que é Jesus com seu amor o único parâmetro para a comunidade. Nesse versículo, o evangelista abre uma nova perspectiva; enquanto nos versículos anteriores o discurso foi todo construído em segunda pessoa, com Jesus falando diretamente aos discípulos reunidos com ele (“vós”), agora ele fala em terceira pessoa. Ele passa então, a dirigir-se a toda pessoa, de qualquer lugar e de qualquer época (quem, aquele, qualquer um...). Logo, a experiência que os discípulos de primeira hora estavam vivendo pode ser vivida por qualquer pessoa que cumpre o mandamento do amor. Isso significa que toda pessoa, sem distinção, pode ser discípula de Jesus. Isso foi um conforto que o evangelista transmitiu aos membros da sua comunidade, especialmente àqueles chegados por último, vítimas de preconceito e discriminação, e serve de alento para as comunidades de todos os tempos.

Convictos da presença ativa de Jesus na comunidade que vive o seu amor e o aceita como única regra de vida, somos animados a acolher o Espírito Santo para estreitar cada vez mais os laços com Ele, com o Pai e com o próximo, o primeiro destinatário do seu amor. Dessa presença emana a força necessária para resistir aos obstáculos e as convicções para perseverar na verdade do Evangelho, como único parâmetro para a vida cristã.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O QUINTO DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 14,1-12 (ANO A)





Neste quinto domingo da Páscoa, o texto evangélico proposto pela liturgia é João 14,1-12. Trata-se de um trecho do grande discurso de Jesus na última ceia com seus discípulos. Apesar de não descrever os gestos de consagração do pão e do vinho, João é o evangelista que mais deu importância à última ceia de Jesus, dedicando-lhe nada menos que cinco capítulos, o que corresponde a um quarto de todo o seu Evangelho (Jo 13–17). Respondendo às necessidades concretas das comunidades cristãs da Ásia Menor, na última década do primeiro século, marcadas pela perseguição e com tendência ao desânimo na vivência da fé, o evangelista reuniu em um grande discurso os principais elementos de todo o ensinamento de Jesus. Esse discurso é considerado o “testamento de Jesus”; logo, o seu conteúdo é imprescindível para as comunidades cristãs de todos os tempos.

Para compreendermos melhor o trecho lido hoje, é necessário recordar o que lhe antecede, no contexto narrativo da última ceia. E encontramos quatro acontecimentos precedentes que, de certo modo, condicionam o texto de hoje:  o lava pés ou o mandamento do serviço (Jo 13,1-15), o anúncio da traição de Judas e seu desligamento do grupo (Jo 13,21-30; ), a entrega do mandamento do amor por Jesus (Jo 13,31-35), e o anúncio da negação de Pedro (Jo 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (Jo 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como ausência e fim. Tudo isso deixou os discípulos desanimados e inquietos; a ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperar a alegria e o entusiasmo dos discípulos com a continuidade do seu discurso.

Olhando para o texto, percebemos que as palavras iniciais de Jesus denunciam a inquietação e o mal-estar que havia entre os discípulos naquele momento: “Não se perturbe o vosso coração” (v. 1a). A agitação no coração é sinal de tristeza e confiança abalada. Significa que há uma situação difícil de ser aceita e compreendida. É interessante que, embora fale para todo o grupo dos discípulos, Jesus se refere ao coração (em grego: καρδία – kardía) no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé na comunidade. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode desistir de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e um único mandamento.

Mais do que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Ora, a comunidade estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões; havia um clima de desconfiança entre eles, sobretudo após a saída de Judas e o anúncio da negação de Pedro (cf. 13,21-30; 36-38). O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus. Por isso, ele pede que os discípulos lhe renovem a adesão plena, com uma fé renovada: Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao evangelho de João. Somente nesse texto de hoje, o verbo que expressa fé e confiança (em grego: πιστεύωpistêuo), aparece cinco vezes (vv. 1.11.12). O evangelista está ensinando também que a fé em Deus e a fé em Jesus são uma única fé.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga, o templo, fora transformada em casa de negócio (cf. Jo 2,16). Por isso, a afirmação categórica e firme: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós” (v. 2). Essa é uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada do Pai, e nem prometendo reservar lugares para os seus discípulos lá. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas.

No templo de pedras, a antiga casa de Deus, havia uma única morada. As pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá, como ensinava a religião. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar a Deus somente em espírito e em verdade (Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Ao invés de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: E quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo transportá-los de um lugar para outro, mas conduzi-los a uma nova condição de vida, dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais do que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será a casa do Pai quando nela vigorar a lei do amor e sua aplicação prática, o serviço.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho: E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (v. 4); esse caminho é a sua própria vida, marcada pelo amor ilimitado e incondicional. No entanto, a incompreensão persiste nos discípulos, dominados pelos ideais messiânicos triunfalistas e incapazes de reconhecer o amor e a doação da vida como os únicos meios para uma relação autêntica com Deus. Com muita sinceridade, Tomé confessa a sua ignorância diante do que está sendo anunciado e vivido por Jesus: “Tomé disse a Jesus: ‘Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (v. 5). De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade; ele via a morte como o fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado já no episódio da reanimação de Lázaro: “Nós iremos para morrer com ele” (Jo 11,16).

O questionamento de Tomé se torna uma oportunidade para Jesus fornecer uma das mais profundas revelações de si: Jesus respondeu: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v. 6). Com a declaração “Eu sou” (em grego: Εγώ είμι – egô eimí) Jesus reafirma a sua condição divina, pois essa é a fórmula de revelação do Deus do Êxodo, o Deus libertador (Ex 3,13ss); por sinal, o uso dessa fórmula é muito frequente no Evangelho de João, mas essa é a única vez em que vem seguida de três predicados: Caminho, Verdade e Vida. Embora pareça enigmática, essa tríplice predicação é bastante simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve nenhuma regra, não estabelece nenhuma lei e não deixa nenhuma doutrina. Isso gera dúvidas e medo nos discípulos: como se comportar após a partida de Jesus? Quais os parâmetros a seguir? Para simplificar, Jesus diz que ele mesmo é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa.

Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus apenas diz que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa. O itinerário a ser percorrido pela comunidade cristã é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é a sua própria pessoa e a vida a ser vivida é aquela que Ele viveu e doou em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida. Porém, o evangelista aplica aqui no sentido prático dos termos: sem Ele a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai. Portanto, se auto declarando como Caminho, Verdade e Vida, Jesus diz que é tudo para a comunidade cristã e essa não pode alimentar-se de nada além da sua pessoa.

Na sequência, Jesus reafirma sua unidade com o Pai em tom de advertência e lamento pela falta de perspicácia dos discípulos: Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes” (v. 7). Num único versículo, o mesmo verbo conhecer aparece três vezes. Não se trata de um conhecimento intelectual, mas de uma experiência de intimidade e amor. O conhecimento de Deus não é fruto do intelecto, mas de uma disposição para amar e ser amado. Jesus está denunciando a falta de amor nos discípulos, até aquele momento. Se ainda não conheciam a Jesus e ao Pai, é porque ainda não estavam amando verdadeiramente, o que se evidencia pela intervenção de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” (v. 8).

Como se vê, persistia nos discípulos a incompreensão e não aceitação da unidade entre Jesus e o Pai. Isso mostra, mais uma vez, que eles tinham dificuldade de aceitar e assimilar um Deus presente na história e relacionando-se diretamente com o seu povo, e é exatamente esse Deus que Jesus nos revela. Por isso, a resposta a Filipe é uma espécie de desabafo de Jesus, em tom de lamentação e repreensão: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai?” (v. 9). Ora, Filipe foi um dos primeiros discípulos chamados por Jesus (Jo 1,43); certamente, presenciou todos os sinais realizados, mesmo assim não tinha ainda assimilado Jesus como revelador do Pai.

Toda a vida de Jesus é revelação de Deus; em tudo o que faz, ele revela o Pai porque os dois vivem uma unidade perfeita: “Não acreditas que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras” (v. 10). Os discípulos devem perceber essa unidade pelo amor incondicional de Jesus, expresso em suas palavras e ações. Como último critério, ou seja, quando a vida de Jesus marcada pelo amor incondicional não for capaz de convencer, que pelo menos considerem as suas obras, os sinais realizados, para reconhecê-lo como Um com o Pai: “Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras” (v. 11). É importante essa recomendação: as obras são o último critério para a fé. O primeiro critério é o amor envolvido e a certeza da vida abundante.

A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades cristãs de todos os tempos. É perceptível que o Evangelho de João concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. No Quarto Evangelho, discípulos “secundários” para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, tem um certo protagonismo (Jo 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo: o discípulo amado. Esse detalhe revela um cuidado do evangelista em relação à organização da comunidade e uma precaução com as tendências hierarquizantes. Na comunidade onde reina o amor, todos têm espaço, inclusive para questionar. O que importa é que o amor fraterno seja vivido.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 12). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica em compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN




REFLEXÃO PARA O QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,1-10 (ANO A)




Todos os anos, o evangelho do quarto domingo da páscoa é tirado do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se autodefine como o único, bom e verdadeiro pastor das ovelhas. Por isso, esse domingo foi intitulado de “domingo do pastor” e, oportunamente, o Papa Paulo VI o instituiu também como o “dia mundial de oração pelas vocações”, no ano de 1964. No entanto, no texto deste ano, o ano A do ciclo litúrgico – Jo 10,1-10 – Jesus ainda não é apresentado diretamente como pastor, mas como porta única por onde devem passar ovelhas e pastores. Ele só começa a ser apresentado como pastor a partir do primeiro versículo que sucede ao texto de hoje (Jo 10,11). Curiosamente, o termo ovelhas (em grego: πρόβατα – próbata) aparece sete vezes no texto de hoje, e é em função das ovelhas que o pastor existe.

Faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho. A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente em nada ao décimo capítulo do Evangelho de João. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11). Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após esse discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito com os fariseus (cf. Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo. O cenário da narrativa é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.

A fórmula solene de introdução empregada pelo autor, (em grego: αμήν, αμήν – amén, amén) traduzida por “Em verdade, em verdade” (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus, funcionando como uma chamada de atenção aos interlocutores para a importância do que está para ser dito. Logo, o conceito de pastor apresentado no décimo capítulo de João é vital para a comunidade cristã; é algo não pode ser esquecido e nem distorcido. À introdução solene, segue a declaração: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores, os fariseus (cf. 9,40-41); assim, ele aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrões e bandidos.

Logo no primeiro versículo, a tradução litúrgica deixa a desejar em duas ocorrências: ao invés de redil, o termo mais apropriado seria átrio ou pátio (em grego: αυλή – aulê); não se trata propriamente de um curral, mas do átrio interno do templo de Jerusalém. Também a palavra assaltante não corresponde à ideia do autor; inclusive a prática de assaltar já está contemplada na palavra ladrão. Ao invés de assaltante o termo mais adequado é bandido, pois corresponde melhor à palavra grega empregado pelo autor (ληστής – lestês), a qual designa mais a pessoa que pratica violência. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia. Ora, as denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar “a casa do Pai em uma casa de negócio” no início do Evangelho (cf. 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta.

Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, “quem entra pela porta, é o pastor das ovelhas” (v. 2), e esse alguém é o próprio Jesus. De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para comunicar-se diretamente com as ovelhas, o povo. A Jesus, o único pastor autêntico, “o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3); é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho, não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso ou político, mesmo que esse se autodenomine cristão. Assim como a comunidade joanina, também as de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem repulsar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico “chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”, ou seja, não trata o povo como massa, mas o tira do anonimato, valorizando a cada um em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz; o evangelista usa aqui o mesmo verbo do êxodo. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão nociva para o povo quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, “ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para começar a dominar também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele “caminha à frente” e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica. Antes de tudo, é para a liberdade que ele aponta e conduz. Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga instituição religiosa, Jesus não propõe nenhuma forma de poder para sua comunidade; Ele quer apenas que essa seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado em seu nome.

Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (cf. 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, “não entenderam o que Jesus queria dizer” (v. 6) com essa comparação ou parábola. Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (cf. 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta (v. 7). De fato, como único mediador entre a humanidade e o Pai, Ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois é Ele e seu Evangelho o critério único de pertença ao Pai. A denúncia aos que se auto intitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema (v. 8); esses estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida em que a voz de Jesus vai sendo ouvida, através do Evangelho.

À medida em que repete sua autoafirmação como a porta, (v. 9), Jesus ressalta a falência da instituição religiosa. Como o Evangelho e a lei são inconciliáveis, “só será salvo quem entrar por Ele”; somente assim alguém poderá “entrar e sair” encontrando a pastagem necessária para a vida. Seu programa de vida é marcado pela liberdade e só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por Ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, oposição à lei e ao sistema que aprisionava e até matava. A pastagem que se encontra quando passa por Ele é a liberdade e a vida plena e abundante que Ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona e da qual a lei privava o ser humano. Não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser humano em sua vida neste mundo.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de normas e doutrinas pré-concebidas mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação e nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam está de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



REFLEXÃO PARA O TERCEIRO DOMINGO DA PÁSCOA – LUCAS 24,13-35 (ANO A)



TEXTO EM CONSTRUÇÃO!

REFLEXÃO PARA O SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 20,19-31




O Evangelho do segundo domingo da páscoa é o mesmo para todos os anos: João 20,19-31, texto que apresenta a continuidade dos acontecimentos envolvendo a comunidade de discípulos no dia mesmo da ressurreição, e a sua quase repetição uma semana depois. Para compreendê-lo, é necessário recordar alguns elementos do texto da liturgia do domingo passado, que apresentava a comunidade de discípulos e discípulas completamente desnorteada, não apenas porque o Senhor e mestre fora morto, mas porque até mesmo o seu cadáver parecia ter sido roubado (cf. Jo 20,1-3). Naquela ocasião, o evangelista dava sinais de uma nova criação, um mundo em gestação, embora ainda estivesse na fase do caos, simbolizado pelo escuro da madrugada (cf. Jo 20,1). Três personagens protagonizaram aquele relato: Maria Madalena, Pedro e o Discípulo Amado; ambos fizeram a constatação do sepulcro vazio, mas somente um deles interpretou a ausência do corpo do sepulcro como sinal da ressurreição e acreditou, o Discípulo Amado (cf. Jo 20,8). Maria Madalena foi a segunda a acreditar, mas já durante o dia, após confundir o Senhor com o jardineiro (cf. Jo 20,16-18), porém esse episódio já não constava no texto que fora lido no domingo.

Da madrugada do primeiro dia, quando ainda estava, passamos para o anoitecer, como diz o texto de hoje: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco” (v. 19). Não obstante as frustrações e decepções com o final trágico de seu líder, condenado e morto na cruz, a reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após um natural dispersão. Provavelmente o anúncio de Maria Madalena – “Eu vi o Senhor!” (cf. Jo 20,18) – tenha influenciado nesse processo de recomposição. Embora se recompondo, essa comunidade continua em crise, o que se evidencia pela situação de medo informada pelo evangelista. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das lideranças religiosas que condenaram Jesus em parceria com o império romano, e não todo o povo. É típico de João usar o termo “judeus” em referência aos líderes. O medo é preocupante, é um impedimento à missão; é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. As portas fechadas impedem a boa nova de ecoar. O principal motivo do medo era a possibilidade clara de perseguição; os discípulos temiam ter o mesmo final trágico do mestre, ou seja, a condenação à morte de cruz.

Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles um processo de transformação, oferecendo o primeiro contraponto ao medo: o dom da paz, que não é uma mera saudação, mas o sinal de vida plena e equilíbrio. É o primeiro sinal de reconciliação entre Deus e a humanidade. O Ressuscitado não retorna ao mundo para fazer um julgamento ou prestação de contas, mas para fazer humanidade plenamente com Deus. É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade ideal: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado; é Ele o único ponto de referência e fator de unidade. Na continuidade da experiência, diz o texto que Jesus mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (v. 20). Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Crucificado; são a mesma pessoa. Geralmente, esse gesto é interpretado apenas como uma demonstração física a ressurreição: as chagas do Crucificado continuam no Ressuscitado; porém, não é apenas isso. Mais do que estigmas, as mãos e o lado aqui são os sinais da identidade de Jesus de Nazaré que continuam no Cristo Ressuscitado, porque é a mesma pessoa. E os principais traços característicos da identidade de Jesus são o serviço e o amor; foi isso que ele demonstrou em sua vida terrena. Portanto, Jesus diz, com esse gesto, que continua servindo e amando, e sua comunidade deve também viver dessa forma. As mãos são sinais do serviço, e o lado é sinal do amor, pois representa o coração. A certeza da presença do Ressuscitado faz a comunidade superar definitivamente o medo, passando à alegria. Como fruto da paz transmitida pelo Ressuscitado, a alegria deve ser também uma das características da comunidade que vive para servir e amar, como fez Jesus.

Já estabelecido como centro da comunidade, “novamente Jesus disse: A paz esteja convosco” (v. 21a). A paz é novamente oferecida, porque a passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia nos discípulos; por isso a paz é doada novamente para enfatizar a serenidade e o equilíbrio que devem existir na comunidade. Só é possível acolher os dons pascais estando realmente em paz. Aqui, a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas. Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v. 21b). Ao contrário de Mateus e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (cf. Mt 28,19; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Jesus simplesmente os envia. Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, João pensa na comunidade, em primeiro lugar. É essa a primeira instância da missão, porque é nessa onde estão as situações de medo, de desconfiança, de falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado.  

O texto mostra, como sempre, a coerência entre a prática e as palavras de Jesus: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Ora, Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, a promessa é cumprida, o Espírito é comunicado. O evangelista usa o mesmo verbo/gesto do relato da primeira criação do ser humano: “O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente” (Gn 2,7). O Evangelho do domingo passado mostrava a nova criação em sua primeira fase; hoje, essa criação chega ao seu ponto alto com o sopro de vida comunicado pelo Ressuscitado. Nessa nova criação, o “Criador” já não age como um vigilante, olhando de cima, mas se faz presente no meio da comunidade, deixando-se tocar, vivendo como um igual entre as pessoas. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo) significa doação de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro. 

O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, e não exatamente poder: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). Por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas, de todos os lugares em todos os tempos. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado com a sua paz. Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ser perdoado ou não. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus.  Os discípulos têm a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29). João Batista apontou para Jesus como o responsável por fazer o pecado desaparecer do mundo. Agora, é Jesus quem confia aos discípulos essa responsabilidade. Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, pelo testemunho dos seus discípulos e a força do Espírito Sant0. Ficam pecados sem perdão quando há omissão dos discípulos, quando deixam de amar à maneira de Jesus.

A comunidade não estava completa naquele primeiro dia: assim como Judas não fazia mais parte do grupo, também “Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio” (v. 24). É necessário destacar algumas características desse discípulo, considerando que o mesmo foi rotulado injustamente ao longo da história. O motivo pelo qual os discípulos estavam reunidos com portas fechadas foi o medo; ora, se Tomé não estava com eles é porque não tinha medo e, portanto, circulava livremente; era, portanto, um discípulo corajoso, ao contrário dos demais. A evidência maior da coragem de Tomé aparece no episódio da reanimação de Lázaro. Jesus já tinha sido alvo de diversas ameaças e tentativas de assassinato pelas autoridades dos judeus; quando decidiu ir à Judeia, onde ficava Betânia, Tomé foi o único que se dispôs a ir para morrer com ele: “Tomé, chamado Dídimo, disse então aos condiscípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele!” (Jo 11,16). Por isso, ele não tinha nenhum motivo para esconder-se dos judeus. Essa sua coragem foi ofuscada pelo rótulo de incrédulo.

Quanto à fé no Ressuscitado, a diferença de Tomé para os demais deve-se ao intervalo de uma semana. Não estava reunido no primeiro dia e não acreditou no testemunho da comunidade: Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: ‘Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (v. 25). Não dar credibilidade ao testemunho da comunidade foi o grande erro de Tomé, mas ao exigir evidências da ressurreição, ele agiu como os demais. Ora, à exceção do Discípulo Amado, o qual viu e acreditou logo ao contemplar o sepulcro vazio (cf. Jo 20,8), os demais também só acreditaram após a manifestação do Senhor em seu meio. Nenhum deles acreditou no testemunho de Maria Madalena; esperaram o Senhor aparecer. Mesmo sem acreditar ainda na ressurreição, Tomé se reintegrou à comunidade.

Assim, “Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco” (v. 26). É importante, antes de continuar falando de Tomé, perceber o dado cronológico-teológico “oito dias depois”; essa expressão significa uma semana depois; é explícita a referência ao domingo – o qual pode ser contado como o primeiro ou o oitavo dia da semana – como dia de reunião dos discípulos, como sinal de que a comunidade cristã já não está mais presa aos esquemas do judaísmo, e não necessita mais do sábado para fazer a sua experiência com o Senhor. Temos aqui um dado claro de ruptura entre a comunidade cristã e a sinagoga, embora nas primeiras décadas, por falta de clareza, muitos cristãos frequentavam as duas reuniões: a da sinagoga, no sábado, e a da comunidade cristã no domingo, na casa de um dos membros da comunidade. Mas o texto deixa claro que, no final da última década do primeiro século, dada provável da redação deste evangelho, o domingo já estava consolidado como o dia de reunião e encontro da comunidade da comunidade cristã.

O Senhor se pôs de novo no meio dos discípulos, com a presença de Tomé, conferindo novamente o dom da paz, sem o qual a comunidade não se sustenta. Assim como fez com os demais, uma semana antes, também a Tomé Jesus dá os sinais da sua identidade de Ressuscitado-Crucificado que só sabe servir e amar: “Depois disse a Tomé: ‘Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel!’” (v. 27). Quando, assim como os demais, Tomé teve certeza da ressurreição, superou aos demais na intensidade e na convicção da fé; certamente, não tocou as mãos e o lado, como aparece na maioria das pinturas. Parece mais ter se jogado aos pés de jogado aos pés de Jesus, com essa solene declaração de fé: “Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28). Essa é a mais profunda profissão de fé de todos os evangelhos. Jesus já tinha sido reconhecido como Mestre, como Messias, Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus, mas como Deus mesmo, essa foi a primeira vez. Com isso, o evangelista ensina que não importa o tempo em que alguém adere à fé; o que importa é a intensidade e a convicção dessa fé. 

Ainda chamamos a atenção para mais um detalhe que não pode passar despercebido: diz o evangelista que Tomé era chamado Dídimo (em grego: Δίδυμος – dídimos), cujo significado é gêmeo. No entanto, o evangelista não apresenta o irmão gêmeo de Tomé, mas deixa no anonimato, e os personagens anônimos do Quarto Evangelho têm função paradigmática para a comunidade e os leitores. Na verdade, o primeiro gêmeo de Tomé é o próprio Jesus, não biologicamente, mas teologicamente. Daí o convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a também tomarem Tomé como irmão gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto. É claro que se ele estivesse com a comunidade logo no primeiro dia, teria antecipado a sua profissão de fé. Mas é importante ser prudente e esperar, principalmente nos tempos atuais, com tantas visões, aparições e falsas certezas imediatas. Se muitos(a) videntes dos tempos atuais, assumissem a sua consanguinidade com Tomé, ou seja, se o reconhecessem como gêmeo, teríamos um cristianismo mais evangélico e autêntico, com mais convicção.

A bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto” (v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, após a morte dos apóstolos e demais testemunhas primeiras. Os novos cristãos da comunidade joanina eram muito questionadores e chegavam a duvidar do anúncio, exigindo provas concretas da ressurreição. Por isso, o evangelista quis responder a essa realidade, mostrando que não há necessidade de visões e aparições; basta integrar-se a uma comunidade de fé para experimentar a presença do Ressuscitado. A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado. Não importa o tempo e o lugar da adesão à fé; o que importa é acolher a paz que o Ressuscitado oferece e viver animado pelo Espírito que ele transmite. A presença do Ressuscitado pode ser verificada quando uma comunidade tem o serviço e o amor como características; sem esses traços, o Ressuscitado não está ocupando o seu lugar central.

Os versículos finais mostram que esse texto é a conclusão original do Evangelho segundo João: Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (v. 31). Aqui está também a chave de leitura para todo o Evangelho: a promoção da vida; vida que para ser plena de sentido necessita do encontro com Jesus, o Cristo, Ressuscitado que foi crucificado. O objetivo do Evangelho, portanto, é despertar a fé de pessoas e comunidades no Cristo que viveu para servir e amar. Animada pelo dom do Espírito Santo, a Igreja, em todos os tempos só pode se apresentar como pertencente a Jesus Cristo, o Filho de Deus Ressuscitado, com mãos abertas para servir e um coração capaz de sangrar por amor à humanidade. O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para responder a uma outra necessidade: o resgate da imagem de Simão Pedro, questionada pela comunidade devido à negação e outras incoerências; e também para mostrar que sempre há a possibilidade de reabilitação e admissão à comunidade, não obstante os momentos de infidelidade e incoerência. O Senhor Ressuscitado insiste incansavelmente para recuperar um amor perdido. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN