REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA – JOÃO 13,1-15




A liturgia da Quinta-feira Santa propõe, todos os anos, a leitura de João 13,1-15, texto que narra o episódio do lava-pés. Essa cena é exclusivo do Evangelho segundo João e, certamente, é uma das passagens mais significativas de todo o Novo Testamento. Desde os primeiros séculos, tem marcado o cristianismo, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um texto comprometedor, pois mostra que, no ápice da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; o cristianismo, portanto, não pode ignorar esse fato. A localização do texto e o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: esse episódio serve para delimitar a divisão clássica do Evangelho segundo João em dois livros, “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21), e faz João introduzir a narrativa da paixão com um gesto tão marcante de Jesus.

Apresentamos uma pequena contextualização para, em seguida, nos voltarmos diretamente para o texto. A princípio, pode nos causar espanto a diferença entre João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica nada menos que cinco capítulos: 13, 14, 15, 16 e 17. Ao longo desses capítulos, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, numa espécie de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. No Evangelho de João, não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (cf. 13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia apresentado em outra ocasião: após o sinal da “multiplicação dos pães” (cf. 6,1-15), o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se auto apresentando como o “pão da vida” (cf. 6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita. O texto que a liturgia propõe é a primeira parte do longo relato da ceia.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal importante: “Antes da festa da páscoa” (v. 1a). O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. A páscoa de Jesus não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Celebrando antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, está caduca e vencida. Na páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor; nessa, não há morte, há doação de vida por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova páscoa, subversiva, por sinal; é essa que a comunidade cristã deve celebrar.

Ao longo de todo o Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à “hora de Jesus” (cf. 2,4; 12,23). Pois bem, essa hora chegou: “sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora” (v. 1b). É a hora de Jesus glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, uma vez que esse fora transformado em casa de comércio (cf. Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço.

Continuando, diz o evangelista que “Estavam tomando a ceia” (v. 2a). A ceia não representa apenas o consumo de alimentos, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal; é o momento primordial da vivência do amor-comunhão. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da traição de Judas (cf. v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles “amados até o fim”; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante; o evangelista é enfático nesse sentido: “o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus” (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da traição de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam; daquela páscoa ele não passaria. O mal de Judas foi ter sido aliado e cúmplice do poder que gera morte e, ainda mais, movido por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o “diabo seja posto em seu coração”.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus começou a se materializar quando ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (v. 4). Certamente, foi grande o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo a condição de servo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado de uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço prevalece sobre o rito.

Na sequência, o texto diz o que Jesus fez após deixar de lado o manto e pôr-se em atitude de serviço: “Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (v. 5). Assim como os leitores ainda hoje ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais ficaram os discípulos que estavam com Jesus. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica na época: lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo, porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, sobretudo nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, sentava-se em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era uma exigência básica de higiene.

O lava-pés era também um gesto de hospitalidade e acolhida: ao receber uma visita, o dono da casa oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: no cotidiano, esse papel era próprio dos escravos; em ocasiões especiais, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa lavava os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia-a-dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores: sendo ele Mestre e Senhor (cf. vv. 13-14), fez o que era típico do escravo (ou do discípulo). Com esse gesto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos discípulos de outrora e de sempre que eles devem estar dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia-a-dia, inclusive nas mais humilhantes, como lavar os pés.

É claro que houve reação dos discípulos à atitude de Jesus. O primeiro a protestar foi Simão Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés” (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel”, deve mesmo ser chocante deparar-se com um “servo”. Por isso, o espanto e a negação; o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também a resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes, e acabou naturalizando essas condições; Jesus com suas palavras e gestos quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lava os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: “Jesus respondeu: Se eu não te lavar não terás parte comigo” (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se fazer servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (v. 9). Com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter que servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, ele estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu gesto: “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo” (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Sentar à mesa e servir eram papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se, e quem sentava não se humilhava servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que senta à mesa, serve, e o que serve, senta à mesa. O que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não tem espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais complexas, como dar a própria vida por amor.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos, que fossem eles, os discípulos do Messias, que controlassem a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, impostos, divisões de classe e uso da violência quando a estabilidade estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu exemplo: “portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (vv. 14-15).

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS – LUCAS 22,14 – 23,56 (ANO C)





Todos os anos, na liturgia do domingo de ramos, faz-se a leitura de uma das narrativas da paixão de Jesus. Neste ano, temos a oportunidade de ler e refletir a partir do relato de Lucas. Pela sua extensão, a liturgia salta alguns versículos, propondo a leitura à partir do relato da última ceia, e terminando com o sepultamento: Lc 22,14 – 23,56; mesmo assim, a leitura proposta continua longa, totalizando 113 versículos; essa longa extensão, obviamente, nos impede de fazer um comentário pormenorizado de cada versículo. Por isso, procuraremos colher a mensagem global do texto e, na medida do possível, enfatizar alguns aspectos específicos de Lucas, já que é o evangelista que mais apresenta particularidades, em relação aos demais sinóticos (Marcos Mateus).

Os relatos da paixão e morte de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos evangelhos. Embora o nosso foco nesse ano seja especificamente o relato de Lucas, os aspectos introdutórios que abordaremos valem também para os demais evangelhos. As primeiras páginas escritas dos livros que hoje conhecemos como evangelhos, foram exatamente as narrativas da paixão e morte de Jesus. Como a catequese e a vida litúrgica das primeiras comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas a seu respeito, tipo: “Como ele viveu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?”. Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só ressuscita quem passa pela morte. Logo, era necessário contar como Jesus morreu.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto dos líderes religiosos judeus, a morte se tornava cada vez mais presente nas comunidades, e o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passava a ser sinal de perigo. Para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. Para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada melhor que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, no caso de Lucas desde o anúncio do nascimento de Jesus, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso. Logo, seu desfecho final foi o rechaço da parte desses sistemas. Durante toda a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não aceitavam: o amor ao próximo, a justiça, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida às mulheres e excluídos em geral, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação, nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estava toda voltada para o Pai do céu.

O texto que estamos lendo situa Jesus com seus discípulos em Jerusalém, para onde tinham ido celebrar a páscoa, a festa dos judeus por excelência. Jesus é condenado à morte nessa cidade; ao dirigir-se para lá, Jesus já tinha consciência do que iria acontecer, pois ele mesmo tinha advertido durante a viagem que, historicamente, “Jerusalém mata os profetas e apedreja os que foram enviados” (Lc 13,34); como ele pertencia a essas duas categorias, sua condenação era esperada. Na verdade, podemos dizer que, em Jerusalém, Jesus recebe a sentença, mas a sua condenação começou ainda em Nazaré, na sinagoga, quando se apresentou como “ungido, portador do Espírito do Senhor para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (cf. Lc 4,18-30). Sua morte trágica, portanto, foi consequência de uma inteira existência marcada por uma opção radical pelas causas do seu Pai, a quem foi fiel e obediente até às últimas consequências.

A páscoa, festa em que os judeus faziam memória da libertação da escravidão do Egito, tinha como ponto alto a ceia pascal, na qual comia-se o cordeiro imolado, símbolo da festa. Ciente de que era a sua última, estando à mesa com os discípulos (cf. Lc 22,14-20), Jesus mesmo se apresenta como cordeiro, doando a sua existência. Ele diz que “desejou ardentemente comer aquela ceia” (Lc 22,15); essa expressão significa a sua paixão e zelo para consumar a obra do Pai; é claro que nem ele e nem o Pai desejaram a sua morte, mas essa era uma realidade inevitável, àquela altura, pois em seu ministério tinha colocado em confronto dois projetos: o projeto de vida, idealizado pelo Pai, marcado pela prática constante do amor, e o projeto de morte, sustentado pelas instituições religiosa e política, marcado pelas disputas de poder, pela corrupção, opressão e violência. Por isso, aquela ceia, sendo a última, fora desejada por ele com grande paixão.

Dois fatos marcantes e dramáticos, certamente até mais dolorosos do que a cruz, foram vividos por Jesus logo após a ceia: o anúncio da traição de Judas (cf. 22,21-23), e a disputa por poder pelos discípulos, o que revelava pouca compreensão do que lhes tinha ensinado até então (cf. 22,24-30). Lucas é o único evangelista que mostra Jesus chamando a atenção dos discípulos sobre o perigo da ambição e a sede de poder no contexto da última ceia, e propondo o serviço como resposta. Os outros evangelistas sinóticos fazem isso durante o ministério (cf. Mc 9,33-34; 10,35-45; Mt 20,20-28). Isso revela que o apego ao poder nas estruturas eclesiais é um problema que tem suas raízes ainda nas origens do cristianismo. Isso, obviamente, prejudica a credibilidade e a eficácia do anúncio. Por isso, a recomendação de Jesus para que os discípulos tenham somente ele como exemplo, e não imitem jamais as estruturas de poder e as formas como esse é exercido pelos “reis das nações, chamados de benfeitores” (cf. 22,25). Quando o serviço é substituído pelo poder em uma comunidade, é sinal de que essa se afastou do projeto de Jesus.

Outro fato mais doloroso para Jesus foi, sem dúvidas, a negação de Pedro (cf. 22,31-34.54-60). Também esse fato mostra o quanto os discípulos tiveram dificuldade em assimilar a proposta de vida de Jesus. Mesmo após tantos ensinamentos, durante cerca de três anos, desde o início na Galileia, eles chegaram em Jerusalém ainda sem compreender nem aceitar o destino de Jesus. À debilidade de Pedro, bastou um olhar sincero de Jesus para a sua conversão: “então o Senhor se voltou e olhou para Pedro. (...). Então Pedro saiu para fora e chorou amargamente” (22,60a.62). Quando o olhar de Jesus é correspondido, a conversão acontece. Esse olhar não foi de condenação, mas de compreensão da fragilidade humana; o choro de Pedro, marcado pelo remorso, é a prova da necessidade constante de conversão no seio da comunidade. Às vezes, a conversão só é exigida de quem vem de fora, esquece-se que é nos membros da comunidade que mais há necessidade, pois são esses os que mais negam a Jesus, quando deixam de reproduzir o seu amor nas relações, na maneira de viver e na confiança ao Pai.

Um dos traços mais característicos de Jesus em seu “retrato” pintado por Lucas é a prática constante da oração. Para esse evangelista, a oração é essencial, por isso, ele diz que todos os momentos importantes da vida de Jesus foram marcados pela oração, começando pelo batismo (cf. Lc 3,21) até a paixão, tanto no monte das Oliveiras (cf. Lc 22,39-46), quanto no processo (cf. 23,34), e até na própria cruz (cf. Lc 23,46). Sua oração durante a Paixão é um reforço dos itens essenciais do Pai Nosso: “Que seja feita a tua vontade” (cf. 22,42); “para não cair em tentação” (cf. 22,46); “perdoa-lhes” (cf. 23,34). Para ser autêntica e eficaz, a oração depende necessariamente de levar em conta a vontade do Pai.

O duplo julgamento de Jesus, um político e outro religioso, ou seja, diante do sinédrio (cf. 22,66) e de Pilatos-Herodes-Pilatos (cf. 23,1-25), mostra a covardia e a hipocrisia da união das forças hostis quando tem um inimigo em comum, pois os poderes romano e judaico não se suportavam. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei. Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável.

O outro traço marcante de Jesus que Lucas evidencia ao longo de toda a sua obra, a misericórdia, também é destacada no drama da paixão. Se ele veio ao mundo para trazer anunciar a Boa-Nova, veio para manifestar o amor do Pai, isso o fez até as últimas consequências, amando e perdoando. Pede perdão ao Pai pelos seus algozes (cf. 23,34), e faz da cruz um sinal de conversão e salvação. Foi crucificado entre dois malfeitores, pois não sabemos se eram ladrões como transmitiu a tradição, poderiam também ser assassinos, uma vez que o termo empregado pelo evangelista (em grego: κακούργος - kakúrgos) designa o bandido em geral; da cruz, ele continua a salvar. Aqui, merece destaque mais uma particularidade de Lucas: é típico dele apresentar dois personagens juntos com comportamentos opostos: Marta e Maria (cf. 10,38-42), o pobre Lázaro e o rico avarento (cf. 16,19-31), o fariseu e o publicano (cf. 18,9-14). Ele repete essa técnica literária com os dois malfeitores crucificados: um deles, repete o discurso das autoridades e da maioria, e escarnece de Jesus; o outro, percebe que Jesus está sendo injustiçado e vê n’Ele a possibilidade de salvação, por isso, suplica-lhe: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino” (23,42). A esse, Jesus dá a mais preciosa das garantias: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso” (23,43).

Para quem acredita em Jesus e aceita compartilhar com ele a sua vida, a salvação é sempre um acontecimento do presente, do “hoje”, uma palavra cara para a teologia de Lucas, desde o anúncio do nascimento de Jesus aos pastores (cf. 2,11); na sinagoga de Nazaré, a Escritura se cumpriu “hoje” (cf. 4,21), a salvação entrou “hoje” na casa de Zaqueu (cf. 19,9). Portanto, a salvação não é uma realidade futura, mas é sempre atual; se salva quem faz comunhão com Jesus hoje, da situação existencial. Para o malfeitor crucificado, a salvação aconteceu em um momento até inesperado. O importante para o evangelista e para nós é que da manjedoura até a cruz, a vida de Jesus foi salvar, fazer o bem, como dirá Pedro em Atos dos Apóstolos (cf. At 10,38). Salvar, acolher e amar é fazer a vontade do Pai; por isso, na cruz, sofrendo dores, o último grito de Jesus é de confiança no Pai, sabendo que lhe foi fiel até as últimas consequências: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (23,46). Certamente, o diálogo salvífico com o malfeitor ajudou Jesus dar o seu último grito com mais convicção ainda, sabendo que até ali, a vontade do Pai estava sendo feita, não porque o seu Filho único estava morrendo, mas porque até morrendo, esse Filho salva.

Para o sepultamento, entra em cena um novo personagem, surpreendente até, José de Arimatéia, membro do sinédrio. É interessante esse detalhe, pois fora o sinédrio, o principal responsável pela condenação de Jesus; porém, mesmo ali tinha pessoas boas. Segundo Mateus, esse homem se tornou até discípulo de Jesus (cf. Mt 27,57); isso mostra que as generalizações são sempre perigosas; ninguém pode ser julgado pelo grupo ou movimento ao qual pertence. José de Arimatéia alivia o drama, dando sepultura digna para Jesus (cf. 23,50-53), quando era costume deixar os condenados pregados na cruz, sofrendo até morrer e, depois de mortos, ainda continuavam crucificados até serem devorados pelas aves de rapina. A cruz era uma pena tão cruel, que quem passava por ela não tinha direito sequer à sepultura; por isso, o local da crucifixão se chamava “lugar da caveira”, pois era um ossuário a céu aberto.

Por último, recordamos a presença das mulheres, também uma categoria por quem Jesus tinha grande simpatia no evangelho de Lucas. As mulheres são as pessoas mais perseverantes em todo o drama da paixão (cf. 23,55) e, por isso, serão as primeiras testemunhas da ressurreição. Enquanto os discípulos saem de cena com medo, muito cedo, o último a aparecer foi Pedro, e mesmo assim chorando, as mulheres perseveram até o fim, são as mais solidárias. Na verdade, elas reconheciam o que Jesus tinha feito por elas; até então, nenhum líder popular religioso tinha acolhido tanto às mulheres, promovido a emancipação e as aceitado como discípulas. Jesus deu vez e voz às mulheres, por isso elas não desistiram dele em nenhum momento: resistiram ao drama da paixão, participaram do sepultamento e testemunharão a ressurreição em primeira mão.

Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido. A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


REFLEXÃO PARA O QUINTO DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 8,1-11 (ANO C)



A liturgia deste quinto domingo da quaresma dá uma pausa na leitura do Evangelho segundo Lucas, e propõe uma passagem do Quarto Evangelho: João 8,1-11. Esse texto, tão rico e precioso, teve uma história bastante turbulenta, desde as suas origens. Sobre isso, acenaremos brevemente, apenas a nível de contexto. Dando continuidade à temática central da espiritualidade quaresmal – o convite à conversão e sua respectiva necessidade – é importante perceber a dinâmica e a pedagogia de Jesus: ele não faz esse convite à partir de ameaças e ordens, mas revelando com clareza a misericórdia e o amor de Deus, através de palavras e atitudes. No domingo passado, essa misericórdia foi apresentada de maneira ilustrada, através da parábola do pai misericordioso e os dois filhos (cf. Lc 15,11-32). Hoje, a liturgia dá um passo a mais e mostra Jesus revelando a sua misericórdia, que é a mesma de Deus-Pai, com um gesto concreto, salvando uma mulher flagrada em adultério e prestes a ser apedrejada. Isso dá credibilidade ao seu ensinamento, pois mostra que ele viveu e praticou tudo o que ensinou.

Antes de olharmos diretamente para o texto, fazemos algumas breves considerações, a nível de contexto. Começamos pelo amplo debate criado ao longo da história da interpretação, sobre a origem e a posição desse texto no Evangelho segundo João. Nos quatro primeiros séculos, esse texto foi omitido, por ser considerado muito perigoso; isso se comprova pela sua ausência nos manuscritos da época. Ora, o adultério era um dos pecados mais abomináveis, tanto no judaísmo quanto no cristianismo das origens; na maioria das vezes, o perdão não era concedido às mulheres que praticavam; os homens, sempre conseguiam uma saída. Por isso, imaginavam não ser prudente mostrar Jesus perdoando esse tipo de pecado. O perdão de Jesus a uma mulher adúltera, poderia ser visto como incentivo a essa prática pelos líderes das primeiras comunidades, e uma relativização do pecado; a liderança das comunidades, por sinal, era exercida por figuras masculinas, o que facilitava a marginalização da mulher. Esse texto circulava como uma página isolada, e poucas pessoas tinham acesso a ele. Quando as comunidades chegaram à conclusão de que não poderiam mais escondê-lo, o colocaram no Evangelho segundo João, embora tudo indique que seja um texto originalmente de Lucas; diversos fatores contribuem para isso, principalmente o fato de ser Lucas o evangelho da misericórdia, por excelência, e aquele que mais valoriza a figura da mulher, além do vocabulário típico do Terceiro Evangelho. Porém, como nos foi transmitido no Evangelho de João, é a partir dele que devemos lê-lo.

Jesus se encontrava em Jerusalém, participando de uma das grandes festas dos judeus, a festa das tendas, com duração de uma semana (cf. Jo 7,2.14.37; 8,2). Durante o dia, ensinava no templo, e à noite se retirava para dormir fora da cidade: “Jesus foi para o monte das Oliveiras” (v. 1). No dia seguinte, “De madrugada, voltou de novo ao templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los” (v. 2). A madrugada significa o rompimento das trevas, a aurora de um novo dia; nos evangelhos, essa expressão é um dado teológico, mais que cronológico; é sempre um aceno à ressurreição; é o momento em que as mulheres descobrirão o sepulcro vazio, no domingo da ressurreição (cf. Lc 24,1); portanto, o episódio que a liturgia propõe hoje é uma cena de ressurreição, é um texto pascal: a mulher flagrada em adultério, prestes a ser apedrejada, faz uma experiência de vida nova ao ser confrontada com a misericórdia, o perdão e o amor de Jesus.

Durante as festas, iam pessoas de todas as partes da Palestina para Jerusalém; era uma oportunidade para os pregadores itinerantes apresentarem suas doutrinas e versões na interpretação da Lei; esses se espalhavam pelos vastos átrios do templo, e os peregrinos iam se amontoando em círculos ao redor deles, conforme a curiosidade e a eloquência de cada pregador. Como a pregação de Jesus era sempre polêmica e crítica, talvez conseguisse juntar mais ouvintes que outros pregadores, pois ele não tinha medo de desmascarar a hipocrisia dos dirigentes, principalmente as autoridades religiosas da época. Ele dizia o que muita gente queria dizer, mas não dizia por medo de repressão. Isso, obviamente, fazia também com que as autoridades lhe vissem como suspeito, aumentando a vigilância sobre ele.

Enquanto ensina, Jesus é repentinamente interrompido: “os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles” (v. 3). Os sujeitos da ação são os tradicionais adversários de Jesus: mestres da Lei e fariseus, os fiéis observadores dos preceitos da Lei em seus mínimos detalhes, os mesmos que no domingo passado tinham criticado Jesus por acolher e comer com os pecadores (cf. Lc 15,2). Esses dois grupos são a síntese do fechamento e do conservadorismo na época de Jesus; pregavam um Deus punitivo, exigente, vingativo e, por isso, se escandalizavam com o Deus amoroso de Jesus. Ao colocarem a mulher no centro, eles a expõem à máxima humilhação. No Antigo Testamento, o adultério foi usado como sinônimo de idolatria, o principal pecado de Israel. Por isso, a lei era tão rigorosa com esse pecado. Na época de Jesus o adultério estava entre os piores pecados, comparável ao assassinato. Como os casamentos eram verdadeiros negócios, decididos pelos pais, às vezes os noivos só se conheciam no dia do próprio casamento, isso tornava o adultério uma prática bastante comum, embora perigosa, pois as relações não eram motivadas pelo amor, mas pelos interesses econômicos das famílias; por isso, havia muita vigilância, principalmente, sobre as mulheres.

Como representantes de uma religião severa e excludente, os mestres da Lei e os fariseus expõem somente a mulher. Eles tinham clareza do que a Lei prescrevia, mas pedem uma pena parcial, expondo e ridicularizando a mulher, e silenciando sobre o homem que, certamente, fora flagrado junto. Aqui, essa mulher é imagem de todas categorias de marginalizados e marginalizadas, por quem Jesus toma partido. Eles conheciam a sentença prevista: “Disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”  (vv. 4-5). De acordo com a lei, o apedrejamento era a pena para o adultério quando o casamento ainda estava na primeira fase, a da promessa; porém, essa pena era prevista também para o homem envolvido na relação (cf. Dt 22,23-24). Como diz o próprio texto, o que eles queriam era colocar Jesus em situação embaraçante, pondo-o à prova (cf. v. 6a): se Jesus confirmasse o apedrejamento, estaria negando o seu lado misericordioso e contradizendo a sua pregação até então; se negasse o apedrejamento, estaria transgredindo a Lei de Moisés.

Conhecedor das intenções dos seus adversários, Jesus simplesmente os ignora, com a sua típica ironia: “Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão” (v. 6). Sobre esse gesto inusitado, foram levantadas diversas hipóteses sobre o que Jesus escreveu no chão, algumas até folclóricas. São Jerônimo, por exemplo, acreditava que Jesus escreveu os pecados dos acusadores que estavam com pedras na mão, para deixá-los envergonhados e constrangidos. Ora, se estavam no interior do templo, o piso ali não era de barro ou areia, mas de pedras; logo, não tinha como escrever nada ali. Portanto, qualquer hipótese sobre o conteúdo que Jesus escreveu nessa cena, carece de fundamento e de sentido. O gesto de Jesus é, além de irônico, denunciador. Ele olha para o chão por indiferença aos seus acusadores, enquanto pensa na atitude e na resposta adequada que dará. Não escreve nada, apenas simula uma escritura em pedra denunciando a rigidez da Lei por eles observada: uma lei escrita em tábuas de pedra, inflexível e dura como eram os corações deles.

Com a sua ironia e indiferença, Jesus deixava seus interlocutores impacientes: “Como persistiam em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: ‘Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (v. 7). Ao levantar-se para responder, Jesus dá um tom de solenidade à situação e, finalmente, chama para si a responsabilidade. Tendo pensado por um tempo, sua resposta é surpreendente: não toma posição sobre o caso, propriamente, não discute o pecado da mulher, mas convida cada um a olhar para si próprio, apelando para o tribunal da consciência: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Com essa proposta, Jesus desmascara e desarma os acusadores da mulher, e os falsos moralistas de todos os tempos. É uma resposta que não necessita de contra-resposta nem de novas perguntas, mas apenas da coragem de cada um olhar para si, para sua consciência. Certamente, deixou a todos em silêncio e pensativos, admirados e sem reação. Por isso, Jesus repete a ironia “E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão” (v. 8). Na primeira vez, simulou a escritura no chão enquanto ele mesmo pensava na sua resposta; dessa vez, faz a simulação enquanto aguarda uma atitude ou resposta dos acusadores.

Envergonhados, certamente, “eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo” (v. 9). É interessante perceber a reviravolta na história: o objetivo dos mestres da Lei e fariseus era colocar Jesus em situação constrangedora, “num beco sem saída”; as coisas se inverteram e foram eles que ficaram embaraçados, em situação desconfortável. É provável que tenham saído ainda mais furiosos com Jesus, mas também a eles foi dirigido um convite à conversão. Jesus não os condenou; esse detalhe é importante que seja bem recordado. Jesus deu aos seus ferrenhos adversários uma oportunidade de conversão, convidou-os a um exame sincero de consciência. Não sabemos se houve conversão da parte deles, mas é possível identificar pelo menos dois sinais importantes: a vida da mulher foi poupada, e cada um reconheceu ser pecador, uma vez que nenhum atirou a pedra.  

Percebendo que todos os acusadores saíram, em silêncio, no meio do povo que escutava seu ensinamento antes da interrupção, “Jesus se levantou e disse: ‘Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?’. Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (vv. 10-11). É a primeira vez que a mulher acusada tem oportunidade de falar, e é Jesus quem lhe dá essa oportunidade. Essa voz da mulher é a sua própria vida recuperada. Jesus sabia que ninguém a tinha condenado; faz a pergunta apenas para torná-la protagonista. Todo ser humano tem direito e liberdade de expressão. Toda voz deve ser ouvida. Diante da fúria dos acusadores, essa mulher sentiu-se morta, com suas horas contadas. Diante de Jesus, ela se sente uma pessoa digna, pois sabe que tem quem lhe escute.

As palavras finais de Jesus constituem o ápice da cena e o motivo para esse texto ter sido considerado tão perigoso: “Eu também não te condeno”. Para uma religião segregadora, excludente e moralista, um Deus que não condena se torna um perigo e um problema, pois tira também da religião o direito de condenar. Não dá para pregar o Deus de Jesus fazendo ameaças, nem promovendo a violência ou destilando ódio. Para a religião praticada e proposta por Jesus, essa é uma das páginas mais consoladoras. Mais uma vez, se repete o esquema da parábola do pai misericordioso e os dois filhos: assim como o Pai não condenou o filho, Jesus não condena a mulher; a conversão vem depois: “vai e não voltes a pecar!”; não se trata de uma ordem ou imposição, mas de um encorajamento. Tendo se sentido acolhida e compreendida, talvez pela primeira vez em sua vida, com certeza aquela mulher se converteu.

Sem realizar nenhum sinal extraordinário, Jesus salvou uma vida. Apenas falando, Jesus fez aquela mulher passar da morte à vida; da fúria dos acusadores à ternura de Deus. O impacto da palavra de Jesus transforma situações. É essa Palavra que precisa ser ouvida, substituindo regras e preceitos, para mudar todas as estruturas perversas que impedem o triunfo da vida digna. Por isso, como afirmamos no início, o evangelho de hoje é uma cena de ressurreição, é um texto pascal. Que todas as comunidades possam, festivamente, celebrar a alegria de conhecer um Deus que não condena ninguém!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


REFLEXÃO PARA O QUARTO DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 15,1-3.11-32 (ANO C)


O evangelho que a liturgia deste quarto domingo da quaresma nos oferece – Lucas 15,1-3.11-32 – contém a mais conhecida das parábolas de Jesus e, certamente, uma das mais belas e ricas, teologicamente falando, a ponto de ser considerada a “obra prima de Lucas”, por muitos estudiosos. Esse é mais um texto exclusivo do Evangelho segundo Lucas. Estamos diante da chamada parábola do “filho pródigo”. Esse título foi dado por São Jerônimo (vive entre os séculos IV e V), mas hoje em dia é considerado inadequado, uma vez que não corresponde à riqueza do texto, nem exprime a sua totalidade; pelo contrário, até reduz e esconde o seu amplo significado, uma vez que considera apenas um dos personagens. Diante disso, tem sido feitas tentativas de intitulá-la de maneira mais apropriada, tais como “parábola do pai misericordioso” e “Parábola do pai e os dois filhos”. O mais importante, no entanto, não é o título, uma vez que esse será sempre insuficiente; devemos olhar para a parábola em sua inteireza e contemplar a sua riqueza.

Com o afunilamento do tempo quaresmal, o tema da necessidade de conversão também se aprofunda. Aqui, é importante recordar que a primeira necessidade de conversão diz respeito à imagem e à concepção de Deus. A verdadeira conversão, em seu sentido mais profundo, enquanto mudança radical de mentalidade é, sobretudo, a aceitação de um Deus que é pai, cheio de misericórdia e amor, deixando de lado a imagem de um Deus patrão e vingativo que faz distinção de pessoas. A parábola de hoje visa exatamente isso: apresentar uma nova imagem de Deus, bem diferente daquela que os adversários de Jesus, fariseus e mestres da lei, tinham em mente. O tema é tão importante, que Jesus conta três parábolas seguidas, denominadas “parábolas da misericórdia”, ocupando um capítulo inteiro, o que justifica, ainda mais, que Lucas é mesmo o evangelho da misericórdia: “parábola da ovelha perdida e reencontrada” (cf. Lc 15,4-7), “parábola da moeda perdida e reencontrada” (cf. Lc 15,8-10), e a do “pai e os dois filhos”. O ideal é lê-las em conjunto, e a liturgia deste ano nos dará essa oportunidade no vigésimo quarto domingo do tempo comum. Hoje, nos interessa somente a terceira parábola. Pela sua dimensão, não comentaremos cada versículo; procuramos colher a mensagem central, embora seja imprescindível comentar alguns versículos específicos.

O contexto é dado pelo próprio texto em sua introdução, correspondente aos dois primeiros versículos: “Os publicanos e os pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles’” (vv. 1-2). Jesus está diante de dois grupos bem distintos entre si: pessoas de má reputação (publicanos e pecadores), e pessoas religiosas e fiéis (fariseus e mestres da lei); um grupo se destacava pelo mau exemplo, e o outro pelo comportamento exemplar. Esses grupos também se distinguem pelas atitudes opostas diante de Jesus: um o escuta, e outro o critica. Os “publicanos e pecadores”, como síntese de todas as pessoas rejeitadas, sobretudo pela religião, se aproximavam de Jesus para escutá-lo porque, finalmente, tinham encontrado, alguém que os acolhia sem discriminações nem preconceitos, sem julgamentos, sem apontar o dedo. Isso terminava comprometendo a reputação de Jesus diante dos representantes e praticantes da religião oficial, “os fariseus e os mestres da lei”, considerados justos, devido à fiel obediência aos mandamentos. Esses identificam duas atitudes reprováveis em Jesus: acolher e comer com os pecadores.

O mais grave no comportamento de Jesus é, sem dúvidas, fazer refeição com os considerados pecadores; comer junto significa entrar em comunhão; no mundo antigo oriental, as refeições eram servidas em um único prato, que poderia ser colocado no centro da mesa, de onde todos se serviam, ou poderia ir passando de mão em mão, entre os convivas. Logo, se tivesse pessoas consideradas impuras na mesa, todos se contaminavam. Por isso, o comportamento de Jesus era considerado herético pelos fiéis cumpridores dos mandamentos, defensores fiéis da moral e dos bons costumes na época. Assim, identificamos, de imediato, os destinatários primeiros da parábola:  os fariseus e os mestres da lei. Esses, embora fossem considerados justos, reconhecidos pelo comportamento exemplar eram, para Jesus, os primeiros necessitados de conversão.

A parábola inicia com um dado que já identifica que o título de “filho pródigo” não é apropriado: “Um homem tinha dois filhos” (v. 11); esse versículo é o verdadeiro título. Com esse dado, o evangelista já sinaliza que vai apresentar uma relação polêmica: quase sempre, as histórias bíblicas que envolvem dois filhos (irmãos) são conflituosas: Caim e Abel, Isaac e Ismael; Esaú e Jacó, Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42). O grande drama desse homem, na verdade, é ter dois filhos que não se sentem irmãos. Pelas linhas e entrelinhas, a parábola mostra que nenhum dos dois filhos viviam uma relação de amor com o pai, nem entre si; antes, ambos o consideravam um patrão; o mais novo, bem mais ousado, toma uma decisão inusitada: “O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles” (v. 12). Embora não fosse comum para o mundo judeu, era possível que a herança fosse dividida com o pai ainda em vida. Porém, isso significava o rompimento total das relações: era como se o filho morresse para o pai e vice-versa. De acordo com a lei, ao filho mais novo correspondia somente um terço da herança, enquanto dois terços pertenciam ao primogênito (cf. Dt 21,17).

Além de se desligar da família, o filho mais novo rompe também com os laços culturais e religiosos, indo para “um lugar distante” (cf. v 13). Logo, aparece o primeiro traço que identifica o pai da parábola com o Deus-Pai de Jesus: a concessão da liberdade aos filhos. O pai poderia opor-se ao filho, impedindo sua partida ou negando a herança. O filho experimenta a liberdade, mas não mede as consequências de suas escolhas e, com o tempo, sente os efeitos dessas (cf. v. 14). A sua degradação chega ao ápice: se torna, praticamente, escravo de um estrangeiro, submetendo-se a cuidar de porcos (cf. v. 15); ora, o porco era um animal impuro para os judeus; cuidar desses animais era uma verdadeira humilhação. Passando fome, tem vontade de comer, mas não tem direito sequer à comida dos porcos (cf. v. 16). O reconhecimento da situação de completa penúria e degradação, leva o filho mais novo a uma reflexão seguida de uma decisão: Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados’” (vv. 17-19). Aqui, não temos nenhum sinal de conversão, ao contrário do que afirmam as interpretações mais tradicionais. Por isso, é inadequado o uso dessa passagem para fundamentar o sacramento da confissão (reconciliação). As motivações para a reflexão e decisão do rapaz voltar para casa foram meramente materiais: ele não sentiu falta do amor do pai, mas da mesa farta. Por isso, não pensa em reconquistar a dignidade de filho, mas a oportunidade de ser seu escravo, pois até aos escravos, o seu pai trata dignamente.

A decisão do retorno do filho, embora não seja ainda uma conversão, é um primeiro passo. Certamente, houve conversão, não tenhamos dúvida; mas essa aconteceu devido à acolhida que o pai proporcionou: “Quando ele ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos” (v. 20). A misericórdia e o amor de Deus precedem à conversão. Só se converte verdadeiramente quem se sente abraçado e beijado por um pai assim. O filho faz a sua declaração-confissão (v. 21), mas essa já não tem efeito; ele foi amado e perdoado antes. O pai não pede garantia de arrependimento nem promessa de bom comportamento no futuro; para ele, não importa o que o filho fez, nem o que disse; importa apenas que esteja na sua presença, sentindo seu abraço. O pai tem pressa em restituir a dignidade do filho e festejar o seu retorno: “O pai disse a um dos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa” (vv. 22-24). Túnica, anel e sandália são sinais de dignidade e representam a condição de filho reconquistada. O banquete com o novilho gordo é sinal de grande festa e alegria.

Se a parábola fosse mesmo do “filho pródigo”, poderia ser concluída aqui no versículo 24. De fato, esse versículo constitui o ápice do ensinamento: a passagem da morte para a vida e do perdido para o encontrado; essa dinâmica resume a missão e a vida de Jesus. Por isso, termina em banquete. Assim, Jesus justifica aos seus interlocutores, fariseus e mestres da lei, o seu comportamento e acolhida para com os pecadores e publicanos, considerados casos perdidos pelos mais devotos judeus. A misericórdia infinita do Pai já foi mostrada até aqui, quer dizer, o que Deus tem a oferecer a seus filhos. Mas Jesus quer ensinar mais; não basta sabermos que Deus é Pai; é preciso vivermos como irmãos. Por isso, a segunda parte da parábola visa o restabelecimento da fraternidade, a começar pela denúncia e superação da autossuficiência e do orgulho dos fariseus e mestres da lei, representados na parábola pelo filho mais velho: “O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança” (v. 25). A presença do filho mais velho no campo significa que ele estava cumprindo seus deveres; é a imagem dos fariseus cumprindo minuciosamente as prescrições da lei; para esses, qualquer comportamento diferente é inaceitável. A lei, como obrigação, é privada de alegria, por isso, o som da música, sinal de festa, o incomoda.

Curioso, mas precavido, o filho mais velho não enfrenta diretamente a situação, talvez com medo de se contaminar, como os fariseus. Pede informações a um dos criados (cf. v. 26), o qual lhe deixa à par da situação: “É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde” (v. 27). Ao invés de se alegrar, o filho mais velho fica com raiva, o que faz o Pai sair em sua procura (cf. v. 28). É importante como Jesus e o evangelista reforçam os traços do Pai: ele sai em busca de todos, pois a sua casa pertence a todos os seus filhos. A queixa do filho mais velho diante do Pai é de quem vivia uma relação retributiva, baseada no mérito: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado” (vv. 29-30). Além da presunção em reivindicar seus méritos (trabalhar tanto!), ainda denuncia os erros do outro. Essa é a imagem de quem não se sente filho de Deus, mas servo. Quem não se sente filho, tem dificuldade de reconhecer o outro como irmão, por isso, o filho mais velho chama o mais novo apenas de “esse teu filho”; é a mesma postura dos fariseus e mestres da lei que não se conformam porque Jesus acolhe os pecadores e come com eles (cf. v. 1-2).

Assim como Pai deu liberdade para o filho mais novo ir embora, também não obriga o filho mais velho a entrar na festa; apenas deixa claro que suas relações são livres e gratuitas, não considera o mérito mas apenas a disposição de deixar-se abraçar por ele, mostrando que tudo o que é seu é também de quem se sente ou quer ser filho seu: “Então o pai lhe disse: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu” (v. 31). Sempre que alguém decide retornar para sua casa, a recepção será festiva, porque é uma verdadeira ressurreição: “Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (v. 32). O evangelista deixa a parábola aberta, sem conclusão. Não diz se o filho mais velho entrou na festa, se reconheceu o outro filho como irmão. O evangelista quis mostrar, partindo do auditório de Jesus e da sua comunidade, que a conversão é uma necessidade constante de cada um e cada uma sendo que, muitas vezes, quem mais necessita é quem se sente mais justo e perfeito. Por isso, a interpretação mais comum hoje em dia é que nessa parábola o Pai é Deus, indiscutivelmente, Israel (os judeus) é o filho mais velho, o qual tem dificuldade de aceitar os pagãos e pecadores na comunidade, e o filho mais novo é a imagem dos pagãos e pecadores que a comunidade cristã deve acolher sem distinção e sem obriga-los a observar a Torá.

Como nenhum dos dois filhos correspondem ou corresponderam ao amor do Pai, o evangelista convida o leitor e a leitora a ser um terceiro filho, capaz de aprender dos erros e acertos dos dois da parábola, sobretudo na concepção da imagem de Deus-Pai: alguém que acolhe a todos, independentemente de onde vem e do que fez. É dessa síntese de pagãos e judeus que Lucas construirá a primeira imagem do cristianismo em sua segunda obra (Atos dos Apóstolos).

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 13,1-9 (ANO C)





Enquanto nos dois primeiros domingos da quaresma a liturgia apresentou episódios comuns aos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), as tentações e a transfiguração, respectivamente, o episódio relatado no evangelho deste terceiro domingo é exclusivo de Lucas – 13,1-9. Com esse texto, a liturgia evidencia o tema principal da espiritualidade quaresmal: a necessidade de conversão. Como esse tema não fora tratado diretamente nos evangelhos dos dois primeiros domingos, podemos dizer que somente hoje a liturgia dominical da quaresma encontra seu foco principal. Assim, é correto afirmar que o primeiro e o segundo domingo foram introduções que nos ajudaram a conhecer a identidade de Jesus como Filho de Deus para, de agora em diante, ouvirmos o que Ele tem a nos dizer, conforme as palavras do próprio Deus, o Pai, no evangelho do domingo passado: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que Ele diz!” (Lc 9,35). Hoje, especificamente, Ele diz que todos têm necessidade de conversão e de produzir frutos.

Como sempre, é necessário contextualizar, ou seja, situar o texto no conjunto do Evangelho, para termos uma compreensão mais adequada do mesmo. Lc 13,1-9 faz parte da grande seção da viagem de Jesus com seus discípulos para Jerusalém; essa é maior seção do terceiro evangelho (Lc 9,51 – 19,27); enquanto caminha, Jesus ensina, cura, reza, interage com as pessoas, independente da condição social, entra em conflitos e aprofunda a formação dos seus discípulos. O texto de hoje está inserido numa sequência de ensinamentos após um dos tantos conflitos com os fariseus e mestres da lei (cf. Lc 11,53; 12,1). Jesus tinha sido convidado por um fariseu para almoçar em sua casa, e aceitou o convite (cf. Lc 11,37); durante a refeição, aconteceu uma ferrenha disputa com o anfitrião e os demais convidados; esse encontro acirrou ainda mais os ânimos entre Jesus e os fariseus. Logo que saiu da casa do fariseu, Jesus chamou a atenção dos discípulos para terem cuidado com “o fermento dos fariseus” (cf. Lc 12,1). Certamente, essa é uma das maiores precauções que a comunidade cristã deve ter em todos os tempos: ter cuidado para não reproduzir aquilo que Jesus reprovou e condenou em seus tradicionais adversários, sobretudo a concepção de Deus. O evangelho de hoje ajuda a evitar isso.

Eis o texto: “Vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam” (v. 1). Jesus estava ensinado às multidões (cf. Lc 12,54), e dá a impressão de ter sido interrompido por algumas pessoas. Como um bom mestre e catequista, Jesus não monopolizava a palavra quando ensinava; dava espaço para os ouvintes fazerem observações, perguntas, e até críticas; Ele sabia ouvir. Aqui, Lucas mostra uma de suas grandes habilidades: dosar história com teologia; as pessoas que interagem com Jesus trazem notícias de um fato histórico, certamente, embora não haja registro em outras fontes. Pilatos era conhecido pela crueldade; gostava de humilhar o povo judeu e não perdia uma oportunidade para mostrar a força do império romano. A notícia é de um fato chocante, não apenas pela matança dos galileus, mas pelo contexto: provavelmente, foram mortos na páscoa e nas dependências do templo; é o que se deduz da expressão “misturando seu sangue com o dos sacrifícios”. Portanto, uma cena abominável.

Somente os sacerdotes podiam imolar os animais e oferecer os sacrifícios no templo; porém, na semana da páscoa, abria-se uma exceção, devido ao grande número de peregrinos oferentes. Assim, os próprios peregrinos eram autorizados a realizar os sacrifícios, pois o número de sacerdotes não era suficiente. Sendo a páscoa a memória do êxodo e, por isso, uma festa da libertação, essa se tornava um momento propício para motins e movimentos libertários de grupos inconformados com a dupla exploração: a romana e a religiosa. É muito provável que essa matança de Pilatos tenha sido repressão a um desses movimentos. Na época, a sede do procurador romano da Judeia era a cidade de Cesareia, mas durante a páscoa, esse se transferia para Jerusalém, levando todo o seu aparato militar, com uma dupla finalidade: conter, através da repressão, qualquer revolta popular e, principalmente, humilhar os judeus, mostrando que eles não eram livres, pois imperador romano mandava neles. O termo “galileus” não designava apenas os habitantes da Galileia, mas era uma expressão pejorativa, designando as pessoas rebeldes, de um modo geral. Isso porque era na Galileia onde mais surgiam movimentos revolucionários, o que contribuía para o movimento de Jesus ser visto com desconfiança pelas autoridades, desde o seu início.   

Embora o texto não cite, supõe-se que a notícia da tragédia provocada por Pilatos tenha sido seguida de perguntas sobre o acontecimento e os envolvidos; é o que deduzimos pela sequência da narrativa: “Jesus lhes respondeu: ‘Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa?” (v. 2). As causas de qualquer catástrofe eram atribuídas ao pecado. Predominava a teologia da retribuição: a ideia de um Deus que punia os pecadores com terríveis castigos, e premiava os bons, o que Jesus vai corrigir: “Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (v. 3). Os galileus não foram assassinados por serem pecadores, mas porque Pilatos era, de fato, cruel. Assim, Jesus corrige uma falsa concepção de Deus, e o evangelista faz uma chamada de atenção para a sua comunidade não promover divisões ilusórias entre as pessoas “boas” e “más”. Todos devem ser acolhidos e a necessidade de conversão também é para todos.

Para reforçar seu ensinamento, Jesus recorda outra tragédia acontecida em Jerusalém: “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (vv. 4-5). Também sobre esse acontecimento, não há registros históricos que o comprovem com exatidão, mas estava na memória do povo, e era usado pelos pregadores da época para reforçarem a falsa concepção de um Deus punitivo. Siloé era um bairro de Jerusalém, onde se localizava um grande reservatório de água, conhecido na Bíblia como “piscina de Siloé”; como era uma zona estratégica para a cidade, é quase certa a construção de uma ou mais torres nessa área. Ao negar a relação entre o acontecimento trágico e o pecado dos envolvidos, Jesus denuncia, de novo, o uso da religião para inculcar medo nas pessoas.

Nem a crueldade de Pilatos, nem o desabamento da torre, bem como nenhuma fatalidade na história é castigo de divino para punir os pecadores. Existem governantes cruéis, como Pilatos, acontecem acidentes das mais variadas formas, advém catástrofes naturais, mas nada disso deve ser interpretado como castigo de Deus. Quem disser que tais eventos correspondem à vontade de Deus, não está anunciando o Deus de Jesus. Porém, sabendo que estamos imersos no mundo e na história, estamos sujeitos a tais acontecimentos, daí a importância de levar a sério o convite de Jesus à conversão. Após falar de cada um dos dois acontecimentos recordados, Jesus conclui com uma advertência: “...se não vos converterdes...”. Conversão (em grego: μετάνοια - metánoia) não significa uma simples melhora no comportamento ou um avivamento nas devoções, mas uma mudança radical de mentalidade, culminando, obviamente em mudança também de comportamento. Na perspectiva do Evangelho, conversão é assimilar e viver os ensinamentos de Jesus, compreendendo toda a sua radicalidade, para o Reino de Deus se tornar realidade. A necessidade de conversão, portanto, não é para evitar castigos, mas para dar sentido à vida enquanto há tempo. Todos morrem, de modo trágico ou natural; porém, como tudo é imprevisível, a conversão não pode ser adiada, uma vez que dela depende o sentido da vida.

Na conclusão, diz Lucas que Jesus contou uma pequena parábola para ilustrar o que estava ensinando e, ao mesmo tempo, provocar os seus interlocutores. O evangelista faz essa recordação também para tranquilizar a sua comunidade, mostrando a paciência de Deus diante da resistência do ser humano no processo lento de mudança de mentalidade, ou seja, de conversão; e também como advertência diante das frequentes distorções da imagem de Deus e do risco de esterilidade na comunidade. Eis a parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Porque está inutilizando a terra?” (vv. 6-7). A imagem da figueira é clássica na cultura bíblica; inclusive, é a primeira árvore identificada pelo nome na Bíblia: segundo Gn 3,7, “Quando Adão e Eva perceberam que estavam nus, se cobriram com folhas de figueira”. Junto com a videira, a figueira é bastante citada na literatura profética como imagem do povo de Israel e suas instituições religiosas (cf. Os 2,14; Jer 5,17; Mq 7,1); Lucas, bom conhecedor dessa tradição, utiliza as duas imagens ao mesmo tempo: a figueira está plantada na vinha. Ao falar de uma figueira estéril, Jesus denuncia a situação de esterilidade da religião judaica na sua época e Lucas adverte a sua comunidade e seus leitores de todas as épocas.

Como são poucos, os personagens da parábola são facilmente identificáveis: o dono da vinha onde a figueira está plantada é Deus, e o vinhateiro é o próprio Jesus. Num primeiro momento, Jesus apresenta o proprietário com as características do Deus que os judeus imaginavam: alguém que vem para acertar as contas e disposto a castigar, cortando a figueira. Mas Jesus faz isso por ironia, denunciando que se Deus fosse mesmo como a religião pregava, todos já teriam perecido, pois eram completamente estéreis. No segundo momento, Jesus mostra a intercessão do vinhateiro junto ao proprietário e, assim, a verdadeira face de Deus, um Deus que escuta: “Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volto dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás” (vv. 8-9). O pedido para a figueira ficar mais um ano é a oportunidade dada à humanidade de ouvir a Boa-Nova de Jesus. Com isso, o evangelista remete ao início da missão de Jesus, quando disse que ele veio anunciar “um ano da graça do Senhor” (cf. Lc 4,19); não se trata de um ano cronológico, mas de um tempo favorável e propício para a libertação.

Com essa parábola, Jesus se opõe ainda mais à teologia tradicional, se distanciando, inclusive da pregação de João Batista, o seu mentor; ora, a paciência com a figueira estéril contradiz a pregação de João, o qual tinha dito que, com a chegada do messias, “toda árvore que não produzir fruto será cortada e queimada” (cf. Lc 3,9). Jesus mostra o contrário: não veio para cortar árvores infrutíferas, mas para adubá-las e fazê-las produzir. Embora denunciador, o evangelho de hoje é, muito mais, portador de esperança. O ser humano tem sempre diante de si “mais um ano”, porque Deus não desiste dele. Porém, sabendo dos riscos das fatalidades da vida, os dois casos citados no início são uma prova e servem de alerta: a conversão é uma necessidade urgente e inadiável, pois dela depende a construção do Reino. Deus dá todo o tempo, mas o ser humano não conhece a durabilidade desse tempo. Por isso, é urgente aproveitar esse “ano a mais”.

A parábola não tem conclusão: ninguém sabe se a figueira produziu figos ou se continuou estéril. A conclusão, na verdade, deve ser a vida de cada um e cada uma, entre ouvintes de Jesus e leitores do Evangelho segundo Lucas. O objetivo de Jesus e do evangelista foi provocar a reflexão em cada pessoa sobre si mesma. Cada um e cada uma sabe e conhece seus frutos, bem como a necessidade de ser “adubado”(a) pelo Evangelho. Havia entre os interlocutores de Jesus, e também na comunidade de Lucas, a tendência de separar os “bons” e os “maus”, reforçando a errônea concepção de um Deus que premia ou castiga. Com o exemplo do vinhateiro, Jesus anuncia a misericórdia desse Deus, mas reforça a necessidade de conversão: o “ano a mais” é a oportunidade que o ser humano tem a cada dia de dar sentido à sua vida, assimilando os ensinamentos do Evangelho, pautando a sua vida no amor, na justiça e na solidariedade; são esses os frutos que ele espera de cada um e cada uma, e o que é necessário para a construção do Reino de Deus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – LUCAS 9, 28-36 (ANO C)




Todos os anos, a liturgia do Segundo Domingo da Quaresma utiliza um dos relatos da “Transfiguração”. Esse episódio é narrado pelos três Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ano, conforme o ciclo litúrgico (A,B e C), sem necessariamente repetir, uma vez que, mesmo se tratando do mesmo episódio, cada evangelista o narra de maneira própria, considerando suas características literárias, as intenções teológicas e, principalmente, as necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos se diferenciem entre si. Neste ano, a liturgia faz uso do relato de Lucas – 9,28-36. Por sua vez, esse é o mais rico de elementos e detalhes próprios, como veremos durante a reflexão.

Antes de adentrarmos diretamente no texto, é importante fazer algumas considerações a nível de contexto. Começamos pela sua localização dentro do Evangelho. Esse episódio é precedido por três importantes momentos interligados: a confissão de Pedro (cf. Lc 9,18-21), o primeiro anúncio da paixão (cf. Lc 9,22) e a declaração de Jesus sobre exigências para o discipulado (cf. Lc 9,23-27); se trata de uma sequência narrativa reveladora da identidade e do destino de Jesus, por isso, os discípulos devem estar à par de tudo isso para decidirem se vale a pena continuar ou não no seu seguimento. Ora, Jesus tinha lhes perguntado sobre a sua identidade: o que diz o povo e o que seus discípulos pensavam a seu respeito; em nome dos Doze, Pedro respondeu que Jesus é “o Cristo de Deus” (cf. Lc 9,18-22).

Embora correta, a resposta de Pedro poderia ser facilmente distorcida, pois contemplava as expectativas do messianismo nacionalista vigente: um messias (Cristo) glorioso e potente; por isso, Jesus o repreendeu e, imediatamente, fez o primeiro anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, para evitar falsos entusiasmos. Logo em seguida, tratou de deixar claro que o seu seguimento compreendia diversas exigências, tais como: renunciar à própria vida e carregar a(s) cruz(es) a cada dia. As palavras de Jesus pareciam não ser suficientes para a compreensão dos discípulos. Outro dado interessante, ainda a nível de contexto, é que a transfiguração antecede o segundo anúncio da paixão (cf. Lc 9,43-45) e, prepara para a viagem decisiva a Jerusalém, a maior seção do Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 9,51 – 19,27).

Como diz o texto, “Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago e subiu à montanha para rezar” (v. 28). A escolha desses três discípulos não significa privilégio, mas necessidade; eram os três mais difíceis de lidar e os que mais tinham dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento; é o discípulo que Jesus mais repreende durante todo o seu itinerário. Como ele sempre se antecipa, é o primeiro a responder e o que mais se expõe, também é o primeiro a ser corrigido. João e Tiago, conhecidos como “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), eram os mais fanáticos, ambiciosos (cf. Mc 10,35-45), e de temperamento explosivo; pouco tempo após a transfiguração, João será repreendido proibir a um homem que não fazia parte do grupo de pregar e expulsar demônios em nome de Jesus (cf. Lc 9,49-50); os dois, João e Tiago, também serão repreendidos no início da viagem ao proporem tocar fogo nos samaritanos que os rejeitaram (cf. Lc 9,51-55). Portanto, Jesus os chama para estarem mais perto de si pela necessidade de cada um e por não desistir do ser humano, apesar das fraquezas e debilidades.

Logo nesse primeiro versículo, encontramos um detalhe importante que distingue o relato de Lucas dos outros dois (Mateus e Marcos): a oração como finalidade da subida à montanha. Mateus e Marcos dizem apenas que Jesus subiu à montanha com os discípulos, mas somente Lucas diz que foram para rezar. A oração é um traço característico de Jesus em todo o Evangelho segundo Lucas, sobretudo quando antecede os momentos decisivos de sua vida: antes da escolha dos Doze (cf. Lc 6,12), antes de perguntar aos discípulos sobre a sua identidade (cf. Lc 9,18), durante o caminho para Jerusalém (cf. Lc 11,1), e antes de ser preso (cf. Lc 22,39-46). Lucas caracteriza Jesus como um homem de oração: “Ele costumava retirar-se em lugares desertos para rezar” (Lc 5,16). A montanha é, por excelência, na linguagem bíblica, o lugar do encontro com Deus. Essa montanha não é determinada em nenhum dos evangelhos, embora a tradição, a partir de Orígenes – teólogo que viveu entre os séculos II e III – a tenha identificado como o Monte Tabor, o que não se sustenta com dados da Bíblia. É melhor mantê-la anônima, como fizeram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.

A oração revela a verdadeira identidade de Jesus: “Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante” (v. 29). As vestes brancas e brilhantes são características do que é do céu (cf. Lc 24,4; At 10,30), o que pertence a Deus. Com essa imagem, o evangelista revela que Jesus, embora homem, pertence também à esfera divina; Ele reflete a glória do Pai no seu rosto. Não se trata de um milagre; é uma maneira simbólica de dizer que, na oração, o ser humano se comunica claramente com Deus, rompem-se as barreiras entre o humano e o divino. Também não se trata de uma antecipação da glória, como às vezes se diz, mas uma demonstração de que o humano e o divino se encontram e se fundem na oração, o que se comprova pela afirmação seguinte: “Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias” (v. 30). Moisés e Elias, representantes da antiga aliança, respectivamente da Lei e dos Profetas, também estavam revestidos de glória, porque já pertenciam ao âmbito do divino; Moisés é aquele que morreu, “mas ninguém sabe onde é a sua sepultura” (cf. Ex 34,6), e isso é um modo de dizer que o seu corpo foi levado para junto de Deus; já Elias, nem sequer morreu, de acordo com 2Rs 2,11, foi levado para o céu em uma carruagem de fogo. Portanto, de acordo com a tradição hebraica, Moisés e Elias pertenciam ao âmbito celestial e, por isso, se comunicam com Jesus que também pertence a esse âmbito, e a oração favorece essa comunicação.

Somente Lucas diz o tema da conversa entre Jesus, Moisés e Elias: “Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém” (v. 31); sobre isso, Mateus e Marcos silenciam. Porém, essa tradução não é suficiente; o evangelista diz que eles conversavam sobre o “êxodo” de Jesus, (em grego: έξοδος), o que comporta não só a morte, mas todo o mistério pascal: paixão, morte e ressurreição. Jesus não vai apenas morrer, mas fazer um processo de libertação que comporta sofrimento e morte, mas culminará com a ressurreição. Os discípulos não participam da conversa porque se distraem: “Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele” (v. 32). Aqui aparece outro detalhe exclusivo de Lucas, relacionado à oração: o sono dos discípulos. Esse detalhe é, na verdade, uma denúncia do evangelista: a falta de perseverança na oração priva a comunidade da experiência com Deus. Não se trata de um sono real, mas de uma imagem para descrever a desatenção e a falta de perseverança. No Monte das Oliveiras, já no contexto da paixão, Jesus irá repreendê-los exatamente porque estavam adormentados, quando deveriam estar rezando (cf. Lc 22,45-46).

Sem perseverança na oração, as propostas da comunidade tendem a ser superficiais, pois não são geradas da intimidade com Deus, o que o evangelista denuncia com a ideia absurda e ingênua de Pedro: “E, quando estes homens iam se afastando, Pedro disse a Jesus: ‘Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias’. Pedro não sabia o que estava dizendo” (v. 33). Antes de tudo, percebe-se a tentação do comodismo, pois ficar na montanha em oração é praticamente lavar as mãos para os problemas e sofrimentos do mundo, é uma fuga. Deve-se subir à montanha para fortalecer-se para a missão e os desafios que essa implica. No entanto, o mais grave na fala de Pedro, é revelar que Jesus ainda não era o centro da sua vida e nem do grupo dos discípulos: ele(s) continua(m) dando mais importância a Moisés! É esse o sentido do nome de Moisés aparecer no centro: “uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”; na mentalidade hebraica, o nome que aparece no centro é o mais importante. Com isso, o evangelista está denunciando, as comunidades que colocam a Lei acima do Evangelho. Esse era um problema das comunidades primitivas e, Lucas e Paulo, sobretudo, combateram com muita ênfase em seus escritos (Atos dos Apóstolos e Cartas Paulinas). Onde o Evangelho não é o centro, não há discipulado nem cristianismo.

Diante do absurdo da fala de Pedro, o próprio Deus intervém e interrompe: “Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (vv. 34-35). A nuvem com sua sombra, ao longo da tradição bíblica é sinal da manifestação e presença de Deus. Essa cena é, praticamente, uma repetição da cena do batismo de Jesus: o Pai se manifesta, fala e dá testemunho do Filho. Diante das dúvidas e falta de convicção nos discípulos sobre a identidade de Jesus, quem tem mais propriedade para esclarecer é o seu Pai. Por isso, o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”. Mateus e Marcos mantém a mesma fórmula da cena do batismo; Lucas a modifica, trocando a qualificação do Filho de Amado para Escolhido. “Amado” tem um sentido mais amplo; na verdade, todas as pessoas são amadas pelo Pai; “Escolhido” tem um sentido mais específico, denota a unicidade da missão de Jesus, o que o habilita a ser o único portador de palavras dignas de atenção, daquele momento em diante. Daí, a ordem: “Escutai o que ele diz!”.

Moisés e Elias, como representantes da Lei e dos Profetas, já disseram tudo o que tinham a dizer; de agora em diante, somente o Evangelho tem palavras adequadas para a comunidade. O Evangelho não contradiz a Lei e os Profetas, mas é a sua plenitude, ao mesmo tempo em que é diferente e novo. Por isso, enquanto o Pai dá ordem aos discípulos para escutarem seu Filho Escolhido, Moisés e Elias desapareceram: “Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho” (v. 36a). Ora, nas primeiras comunidades, inclusive entre os apóstolos, insistiam em usar o Antigo Testamento como norma, gerando divisões e exclusões, o que Lucas denuncia com clareza em sua segunda obra, os Atos dos Apóstolos. O uso do Antigo Testamento (a Lei e os Profetas) deveria ser feito para incluir, para mostrar que o Evangelho de Jesus é o seu pleno cumprimento, e não para separar. Havia uma tendência de reproduzir na comunidade cristã a mesma estrutura e mentalidade do judaísmo: apego à lei e exclusivismo. Isso Jesus mesmo combateu em seu ministério e era necessário que os continuadores da sua missão continuassem fazendo. Por isso, o evangelista ensina que é Jesus o único e autêntico interprete da Escritura (Antigo Testamento); Moisés e Elias falaram o que tinham que falar e, de agora em diante, só vale o que Jesus disser, ou seja, o seu Evangelho.

Marcos (a fonte principal utilizada por Lucas) diz que Jesus proibiu os discípulos de falar sobre essa experiência. Lucas omite a proibição, mas diz que “Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto” (v. 36b). O silêncio dos discípulos é fruto de uma necessidade: eles devem anunciar Jesus, o Evangelho, mas da maneira certa, sem alimentar falsas ilusões, nem omitir as suas verdades. É melhor silenciar do que anunciar de modo equivocado. Eles perceberam a necessidade de, antes de tudo, escutar, como o Pai ordenou. O anúncio distorcido é, sem dúvidas, consequência de uma escuta superficial. Aqui está um dos ensinamentos mais importantes para as comunidades de todos os tempos: a necessita da escuta de Jesus, o Filho Escolhido. É claro que sua voz ressoará de diversas maneiras, sobretudo onde há dor, injustiça, sofrimento e opressão. É preciso discernimento para reconhecer a sua voz nas vozes anônimas e sofridas dos marginalizados da história. Sem ouvir essas vozes, o Evangelho não será anunciado em sua essência.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues