segunda-feira, março 20, 2017

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 4,5-42 (ANO A)


(AINDA EM CONSTRUÇÃO)

No Terceiro, Quarto e Quinto Domingo da Quaresma, deixamos de lado o Evangelho segundo Mateus para nos dedicarmos ao Quarto Evangelho, ou seja, João. Neste Terceiro, o texto proposto é Jo 4,5-42, o célebre episódio do encontro de Jesus com a mulher Samaritana, uma verdadeira obra prima de João. Antes de tudo, se trata de um texto catequético, usado desde os primórdios da Igreja na preparação para o batismo dos catecúmenos. Porém, reduzi-lo a essa função é menosprezar a ampla riqueza que o texto possui.

Esse é um episódio exclusivo do Evangelho de João e faz parte de uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus, desde as bodas de Caná (Jo 2,1-12), incluindo o desmascaramento do templo (Jo 2,13-22). Além, de complexo teologicamente, esse é um texto bastante longo, o que nos impossibilita de analisa-lo versículo por versículo; diante disso, procuramos apresentar apenas seus aspectos principais.

Como sempre, é imprescindível conhecermos o contexto do tempo para que possamos compreendê-lo de modo mais profundo; para isso, é necessário recordar os primeiros versículos deste capítulo 4 de João: Jesus encontrava-se na Judéia e, como sua fama já tinha se espalhado, aquele território tornava-se perigoso para Ele (vv. 1-2), ainda mais depois da confusão por Ele criada ao desmascarar os detentores do poder religioso no templo (cf. Jo 2,13-22). Diante de tudo isso, Ele deveria retornar para a Galileia, sua terra (v. 3). Eis que no seu itinerário estava a Samaria, região central entre a Judeia e a Galileia, por onde deveria passar (v. 4).

Embora fosse uma necessidade frequente, atravessar a Samaria era sempre motivo de tensão, tendo em vista a hostilidade histórica que reinava entre os praticantes do verdadeiro judaísmo e os habitantes daquela região. A rivalidade entre judeus e samaritanos tem sua origem no cisma que dividiu o único Reino de Israel em dois. Para competir com o culto do templo de Jerusalém, Jeroboão I, rei do Norte, cuja capital era Samaria, construiu diversos santuários em seu reino, proibindo que sua população fosse até Jerusalém para participar das liturgias no grande templo. O culto praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos judeus.

A ilegitimidade do culto no reino do Norte se acentua ainda mais após a invasão assíria em 722 a.C.. Além de deportar a população local, a Assíria trouxe as populações de suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte, constituindo um povo mestiço e plural. As populações estrangeiras levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas práticas cultuais (2 Rs 17,24-28). Isso tudo levou o povo da Judéia a considerar os habitantes do Norte como impuros e heréticos e, portanto, desprezíveis. Assim, na mentalidade judaica o povo puro, eleito, raça santa, estava no Sul, ou seja, na Judeia, e o povo herege e impuro estava no Norte.

Aos poucos, o povo da Galileia, extremo Norte, recuperou sua condição de raça eleita, embora de segunda categoria, já que a pureza genuína estava com os habitantes da Judeia, e o rótulo de impuro ficou exclusividade dos habitantes da região central, a Samaria. É claro que foi a religião judaica que criou e alimentou todas essas diferenças. É a partir desse contexto que devemos ler o episódio de hoje.

O propósito de João ao narrar esse episódio é muito claro: apresentar Jesus como aquele que elimina as barreiras e quebra os preconceitos de raça e religião. Disso, evidenciamos que a “mulher samaritana” é uma personalidade corporativa, ou seja, não se trata de uma síngula pessoa, mas de uma comunidade por ela representada; é na verdade, o povo samaritano que é chamado por Jesus a reintegrar a comunidade dos eleitos, uma vez que, de agora em diante, não há mais distinção nem rótulos, mas todos e todas fazem parte de um único povo, uma única família. Para fazer parte dessa família, a humanidade renovada, basta adora em Espírito e Verdade (v. 24).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues



domingo, março 12, 2017

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA QUARESMA – MATEUS 17,1-9 (ANO A)


Neste II Domingo da Quaresma, a liturgia nos oferece como texto evangélico, Mateus 17,1-9, o relato do episódio tradicionalmente chamado de “Transfiguração do Senhor”. É um episódio narrado pelos três evangelhos sinóticos (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36) e, portanto, de grande relevância para a vida das comunidades cristãs de todos os tempos.  

Para uma boa compreensão do nosso texto, é indispensável contextualizarmos o mesmo, embora brevemente. Trata-se do episódio que sucede imediatamente à profissão de fé de Pedro na região de Cesareia de Felipe (cf. Mt 16,13ss) e, consequentemente, ao primeiro anúncio da Paixão (cf. Mt 16,21-28). Daí, podemos concluir que se trata de uma resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos em relação ao seu caminho de doação da vida por fidelidade aos propósitos do Pai.

Mais uma vez, a versão litúrgica do texto nos priva de uma expressão muito importante para uma compreensão mais adequada: o indicativo cronológico “Seis dias depois”, presente no texto original, substituído no texto litúrgico pela genérica e desnecessária expressão “Naquele tempo”.

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão” (v. 1a). O indicativo cronológico faz referência ao ocorrido em Cesaréia de Filipe, quando Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. “Seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude; o homem e a mulher foram criados no sexto dia (cf. Gn 1,26-31) e agora Jesus manifesta o ser humano em sua máxima dignidade e realização.

Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. À primeira vista, parece tratar-se de um privilégio: Jesus escolhe os mais próximos e íntimos, hierarquizando o grupo dos Doze. Porém, se fizermos uma leitura mais atenta, concluímos exatamente o contrário: esses três são os discípulos que mais tem dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus, são os mais trabalhosos e, portanto, necessitados; Pedro é sinônimo de dureza e fechamento, a ponto de ser o único dos Doze a quem Jesus chamou diretamente de satanás, por colocar-se como pedra de tropeço em seu caminho (cf. Mt 16,23); Tiago e João, além de ambiciosos (cf. Mc 10,35-40), tinham temperamento bastante explosivo, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (cf. Mc 2,17). Portanto, são os discípulos que tinham mais dificuldade em aceitar um messias sofredor.

O indicativo espacial também é de grande importância: uma alta montanha. Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro com Deus. No alto da montanha, “Jesus foi transfigurado diante dos discípulos” (v. 2a). O verbo grego usado aqui é metamorfo,omai (metamorfóomai), cujo significado é ser transformado ou mudado. Assim, o evangelista está dizendo que Jesus transformou-se, sua forma mudou diante dos discípulos. Ora, diante da incredulidade e resistência em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nEle. “Seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a luz” (v. 2b): as mesmas imagens da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova.

Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: Moisés e Elias (v. 3). Obviamente, estes personagens representam a Lei e os profetas, respectivamente. É mais uma iniciativa divina para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento.

Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os profetas encerram-se, chegam ao fim. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada tem a dizer para a comunidade cristã; essa deve escutar somente a Jesus (v. 5).

Pedro, teimoso como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas desprezíveis: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 4). Duas coisas são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, interrompendo-lhe.

A segunda coisa a reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias” (v. 4b); infelizmente, Jesus ainda não ocupa o centro na vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro.

As palavras de Pedro são tão absurdas que o próprio Deus o interrompe: “Pedro ainda estava falando quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (v. 5). O Pai não espera Pedro concluir seu equivocado discurso e o interrompe, chamando a sua atenção. Mais uma vez a imagem da luz e da nuvem são evidenciadas como sinais da presença e manifestação de Deus, sendo que o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado. Escutai-o”; é praticamente a mesma frase proferida por Deus no momento do Batismo (cf. Mt 3,17), sendo que ali somente Jesus ouviu, enquanto aqui na transfiguração também os discípulos ouvem e ainda são exortados a escutá-lo. O imperativo “escutai-o”, em grego avkou,ete auvtou/ - akúete autú, é dirigido principalmente a Pedro, ainda propenso a escutar mais a Moisés que a Jesus.

O que Moisés e Elias, ou seja, a Lei e os profetas já disseram o que tinham a dizer. De agora em diante, só o Evangelho deve falar à comunidade cristã. Ouvir Jesus é compreender sua Palavra e viver as consequências de uma adesão radical a ela, o que Pedro tentava constantemente evitar, por medo da cruz. A situação tornou-se tão séria, a ponto de ser necessário o Pai intervir: sem escutá-lo, não é possível prosseguir no seguimento.

Eis as consequências das palavras de Deus: “Os discípulos, assustados, caíram com o rosto por terra” (v. 6). Essa cena apresenta um pequeno retrato da comunidade cristã no seu dia-a-dia que, sentindo-se desafiada, cai constantemente. É um sinal de falência e um reconhecimento de que falharam ao longo do seguimento. Porém, mesmo caída, a comunidade jamais será abandonada, porque Jesus está sempre próximo, tocando e estimulando: “Levantai-vos e não tenhais medo” (v. 7). Apesar das infidelidades e fracassos dos discípulos, Jesus não desiste, continua acreditando no ser humano e encorajando-o.

Após a belíssima experiência, a vida volta à sua normalidade: “ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (v. 8). Moisés e Elias foram embora, pois cumpriram as suas respectivas missões; a comunidade cristã já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus da nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai!

É o momento de descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro.

Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e também porque se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, março 05, 2017

REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DA QUARESMA – MATEUS 4,1-11 (ANO A)


Após uma sequência de oito domingos, a liturgia dá uma pausa no Tempo Comum e nos convida a viver um dos seus períodos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas. Hoje celebramos o primeiro domingo desse tempo especial de preparação para a Páscoa do Senhor. O texto evangélico proposto para esse domingo é Mateus 4,1-11, o famoso episódio das “tentações” pelas quais passou Jesus logo após ser batizado.

Embora muito bem elaborado literariamente e teologicamente, se trata de um texto problemático, devido a nossa tendência equivocada de insistir em considerar as narrativas evangélicas como crônicas reais da vida de Jesus. Por isso, apresentamos como primeiro critério de interpretação para o nosso texto evangélico de hoje, o olhar simbólico e teológico para o mesmo, deixando de lado a ideia de um episódio concreto acontecido.

O principal objetivo do evangelista com esse episódio é apresentar Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto de hoje (cf. Mt 3,16), o qual permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo.

O primeiro versículo já apresenta a principal chave de leitura de todo o texto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto” (v.1a). Ora, “o Espírito que desceu em forma de pomba e permaneceu sobre Ele” no batismo será o condutor e guia de todas os passos e ações de Jesus; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito de Deus, e não apenas quando Ele vai ao deserto. Aqui, o deserto –  e;rhmoj (eremos) em grego –  não é um indicativo geográfico, mas teológico.

A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que Ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmo riscos pelos quais Israel passou, da saída do Egito à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que Ele é, embora Deus, verdadeiramente homem. Embora o deserto evoque a provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf. Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25).

Uma vez que o deserto é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito, não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada. Por isso, “Ele foi tentado pelo diabo” (v.b). O protagonista da tentação é o diabo – diabo,loj (diabolos) em grego – aquele que divide e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus.

Pelo desenvolvimento do texto, podemos perceber que Mateus quis apresentar, antes de tudo, o império romano e a religião oficial da época como manifestadores da presença do diabo na vida de Jesus e da comunidade cristã. Por quê? O império porque o texto deixa muito evidente que o poder é uma das principais ameaças e sugestões do diabo; a religião, porque os argumentos do diabo serão, posteriormente, ao longo do Evangelho, retomados pelos mestres da lei e fariseus, sobretudo, quando exigirão sinais que comprovem a autenticidade de Jesus (cf. Mt 12,38). E, de fato, os adversários mais ferrenhos de Jesus foram a religião e o império que, aliados, o levaram à morte.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias e quarenta noites” em que Jesus jejuou (v.2a) não podem ser considerados como um dado cronológico. Mais uma vez, trata-se de um dado teológico de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (cf. Gn 7,4.12.17); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade, infidelidade e prova, bem como outros casos.

Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos a uma vida vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder. O jejum é a imagem das privações às quais são submetidos os que fazem a experiência do deserto. A fome de Jesus (v.2b) é mais uma evidência da sua humanidade.

As três tentações ou provas (cf. Mt 4,3-4; 5-7; 8-10) são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com Deus e com o próximo. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

A primeira tentação (vv.3-4) diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas: a lógica do império incentiva ao consumo e satisfação dos desejos. Embora faminto, Jesus percebe que não é suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais que pão. Por isso, com base na Escritura, Ele não dispensa o pão, mas diz que o homem não pode viver “somente” dele. A vida digna e plena não depende somente do alimento, mas de todos os valores do Reino contidos na “Palavra que sai da boca de Deus”, que será explicitada no capítulo seguinte, com as bem-aventuranças. 

A segunda tentação chama a atenção (vv.5-7) para a relação com Deus: na “cidade santa”, onde Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus ‘filhos bons’ apenas, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano.

A terceira tentação (vv.8-10) diz respeito à relação com o próximo. A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante de poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os ‘inimigos’ de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal. Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através da Igreja, em todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada.

“O diabo deixou Jesus” (v. porque não encontrou nEle um aliado: nem Caifás e nem César aceitaram a “rebeldia” de Jesus, por isso, continuaram tramando contra Ele até a cruz! Embora tenha usado citações do Antigo Testamento como autodefesa, Jesus vai, aos poucos, elaborando seu próprio programa alternativo àquilo que o poder vigente na época lhe tinha proposto. Seu programa é a sua própria vida com suas opções e consequências, explicitado no amplo discurso da montanha (cf. Mt 5 – 7).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, fevereiro 05, 2017

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 5,13-16 (ANO A)



O texto evangélico que a liturgia propõe para o V Domingo do Tempo Comum é a continuação do famoso discurso da montanha: Mateus 5,13-16. Trata-se de um discurso amplo e rico, dirigido aos discípulos de Jesus, embora uma grande multidão esteja também presente (cf. Mt 5,1ss).

Após a proclamação das bem-aventuranças (cf. 5,1-12), Jesus continua seu ensinamento, fazendo uso de fortes imagens, como o sal e a luz, chamando a atenção dos discípulos para a responsabilidade que eles devem ter para que, de fato, as bem-aventuranças sejam vividas em plenitude.

Não é difícil imaginar que houve tendência ao desânimo e à desistência da parte dos discípulos, após o anúncio das bem-aventuranças; daí a necessidade de uma mensagem ainda mais impactante, como a que vemos no Evangelho de hoje, com a atribuição aos discípulos de causarem no mundo efeitos semelhantes ao que o sal causa na comida e a luz nas cidades e nas casas. Assim, já antecipamos uma das primeiras conclusões: a vivência das bem-aventuranças pelos cristãos e cristãs é indispensável e essencial para o mundo.

Pelo primeiro versículo, percebemos de imediato que as palavras de Jesus têm destinatários específicos: os discípulos! Porém, não aqueles quatro primeiros apenas (até então Ele havia chamado apenas Pedro, André, Tiago e João, cf. 4,18-22), mas todos os que haveriam de entrar no seu seguimento, portanto, também nós, cristãos e cristãs do século XXI.

Assim Ele se dirige: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não serve para mais nada, senão para jogado fora e ser pisado pelos homens” (v. 13). Para a primeira imagem usada, o sal, em grego to. a[laj – tó hálas, podemos encontrar muitas referências ao longo de toda a tradição bíblica, mas está muito claro que Jesus se refere ao seu uso e importância na alimentação, tanto como condimento quanto como conservante.

Além de seu uso na alimentação, o sal possui uma ampla variedade de significados, e todos apontam para um elemento precioso e, portanto, de grande valor. Era símbolo de algo duradouro e imperecível, tornando-se sinal da indissolubilidade da aliança, de modo que uma aliança eterna era chamada “aliança de sal” (cf. Nm 18,19). Outro significado é o de elemento de purificação, com seu uso nos sacrifícios cultuais (cf. Lv 2,13; Ez 43,24). Ainda como elemento purificador, vemos o exemplo de Eliseu que purifica com sal as águas das fontes perto de Jericó (cf. 2Rs 2,19-22).

Como acenamos anteriormente, e considerando o inteiro versículo, Jesus se refere ao sal com seu valor alimentício; isso se evidencia pelo alerta ao risco da perda de sabor. A versão litúrgica do texto pode nos levar a um certo prejuízo na compreensão, ao empregar a palavra “insosso”; a fórmula correta, correspondente ao texto original, em grego, é “se o sal perde o sabor”, ao invés de “se o sal se tornar insosso”. É um simples detalhe, porém, muito importante, uma vez que o texto emprega o verbo grego mwrainw – morainô, o qual possui dois significados: perder a sensatez e perder o sabor. Com isso, concluímos que Jesus quis dizer que o discípulo que não pratica as bem-aventuranças é como o sal sem sabor, porque é um ser humano insensato, ou seja, louco.

Assim como o sal sem sabor não é capaz de dar gosto à comida, o homem insensato não é capaz de transformar a sociedade, não passa de um parasita. Para Jesus, o cristão não pode viver na indiferença nem na omissão; deve ser um agente transformador, alguém que faz a diferença. Como não tem sentido o sal sem sabor, não tem sentido um cristão sem fome e sede de justiça ou com ódio no coração, por exemplo, uma vez que o maior diferencial do “sabor” cristão no mundo é o amor.

A segunda imagem utilizada por Jesus ocupa todo o restante do nosso texto (vv. 14-16), e parece ser mais simples e, consequentemente, mais compreensível, pelo menos na primeira parte: “Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte” (v. 14). A imagem da luz atravessa toda a Sagrada Escritura, muito mais que o sal, bem como seu efeito é muito mais visível.

O próprio Mateus já tinha apresentado Jesus como luz no início da sua missão (cf. 4,12); no Evangelho segundo João, é Jesus mesmo quem se auto apresenta como luz do mundo (cf. Jo 8,12). Assim, entendemos que Jesus está compartilhando sua vida e sua missão com seus discípulos, ao chamá-los de “luz do mundo” (v. 14a); trata-se também de uma chamada de atenção para a responsabilidade que esses têm, e uma demonstração de solidariedade para com eles: Jesus compartilha sua própria essência com os discípulos.

Para a tradição judaica, Israel era a luz das nações (cf. 42,6; 49,6); mas o que Jesus constata é a negação dessa realidade, ou seja, Israel está dominado pelas trevas, graças a à sua estéril religião. Ao transferir, ousadamente, para simples e pobres pescadores galileus, um dos principais atributos e funções de um povo, Jesus está desafiandio toda uma tradição; podemos dizer que Ele está revogando um dogma! O mundo não pode ser privado de luz, porém, se dependesse de Israel com sua decadente religião, não haveria outro destino senão as trevas.

O exemplo da “cidade construída sobre o monte” (v. 14b) é mais uma chamada de atenção para o despertar e a consciência da comunidade cristã. Há uma evocação a Jerusalém, cidade construída sobre o monte (cf. Is 2,1), a qual, apesar de sua esterilidade, mantinha sua visibilidade em decorrência de sua situação topológica. Aqui, a responsabilidade dos discípulos é ainda mais enfatizada: eles devem se tornar manifestos tanto quanto uma cidade em uma montanha! Independentemente do tempo e das circunstâncias, a prática das bem-aventuranças não pode deixar de ser percebida na vida dos discípulos.

Na dúvida de que a expressão “a luz do mundo” aplicada aos discípulos pudesse não ser bem compreendida de imediato, Jesus parte para um exemplo de dimensão menor, porém muito mais concreto e compreensível: uma lâmpada (candeeiro) dentro de uma casa (v. 15). Ora, uma vez que se acende uma luz, em qualquer que seja a dimensão, ninguém poderá ocultá-la, assim como as bem-aventuranças: se os discípulos de fato as praticarem, seu efeito na sociedade será inevitável; o mundo será transformado, sem dúvidas.

O versículo 16 mostra que, desde o início, havia uma preocupação de Jesus em combater qualquer sinal de envaidecimento da comunidade cristã; por isso, Ele ordena que os discípulos não deixem de manifestar-se como luz na sociedade, porém, que não sejam eles louvados por isso, mas somente o Pai que está nos céus. Novamente o sentido da responsabilidade vem evidenciado: como é que o cristão se manifesta como luz na sociedade? Com a prática das boas obras e, em outras palavras, com a vivência das bem-aventuranças.

A comunidade cristã é chamada a vivenciar a prática das bem-aventuranças em todas as circunstâncias, apresentando-se como o sal que dá sabor e preserva a humanidade da corrupção, bem como a ser sinal visível da luz verdadeira que é Jesus, reconhecendo que não deve ser ela o centro das atenções buscando privilégios ou reconhecimento, mas servindo, ou seja, iluminando.

A importância da luz mostra, de fato, o quanto é indispensável o testemunho do cristão. Porém, a função da luz/lâmpada não é ser vista em si, mas facilitar a vista das pessoas, ou seja, não é para a luz que olhamos, mas graças à luz podemos olhar e ver a realidade que nos circunda com as necessidades do próximo e, assim, intervir.



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, janeiro 28, 2017

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 5,1-12 (ANO A)


Neste IV Domingo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra nos apresenta um dos trechos mais bonitos e ricos de significado de todo o Novo Testamento: Mateus 5,1-12. Trata-se da versão mateana das bem-aventuranças, a introdução do primeiro e grande discurso de Jesus no primeiro evangelho, conhecido como “Discurso ou sermão da montanha” (Mt 5 – 7). 

Esse discurso tem, ao longo dos séculos, encantado cristãos e não cristãos. Aqui, faz-se necessário recordar o que afirmou o primeiro verdadeiro exegeta cristão da história, Orígenes, que viveu entre 185 e 253 d.C., o qual afirmou que as bem-aventuranças são o retrato de Jesus, ou seja, através delas Jesus disse quem Ele era e como vivia. Com certeza Orígenes tinha razão.

Jesus ainda não tinha sequer formado o grupo completo dos Doze. Tinha chamado apenas quatro discípulos: Pedro, André, João e Tiago (cf. Mt 4,18-22), mas já tinha iniciado sua atividade messiânica e despertado o interesse das multidões (cf. Mt 4,23-25). Como não pretendia enganar a ninguém, preferiu, logo de início, deixar claro o seu projeto, iniciando exatamente com a proclamação das bem-aventuranças, as quais revelam o seu jeito de ser e como deve ser também a vida dos discípulos, destinatários primeiros do seu ensinamento, mesmo circundado pelas multidões (v. 1-2).

Como diz o texto, “vendo as multidões, Jesus subiu ao monte” (v. 1a). Aqui, há uma clara alusão a Moisés que subia ao monte Sinai para comunicar-se com Deus, tendo recebido ali as tábuas da lei (cf. Ex. 19,3; 24,15.18). A montanha é, portanto, o lugar da oração, do encontro com Deus e da sua revelação à humanidade. Não se trata de um indicativo topográfico, mas teológico.

Aqui, Jesus revela-se Senhor e mestre. O gesto de ensinar sentado e com os discípulos próximos a ele (v. 1-2), mostra a autoridade de mestre, significa que seu ensinamento é sólido, consistente e sério, embora ainda tenha um grupo muito pequeno de discípulos. Ele não consegue esperar seu grupo crescer para dizer como quer que seus discípulos sejam, por isso, apresenta logo ali o seu perfil.

O evangelista usa nove vezes o termo grego “maka,rioi  macarioi, cujo significado é felizes, bem-aventurados ou benditos. Com isso, Jesus descreve como devem ser seus discípulos. Na verdade, como todo discípulo deve imitar o seu mestre, e como autêntico e verdadeiro que era, tudo o que Ele já vivia, o propôs para o seu discipulado. O que, de fato, é exigido, é que sejam bem-aventurados, felizes. Talvez um conceito equivocado de felicidade dificulte uma compreensão mais sólida do que Ele apresenta. 

É importante recordar que as bem-aventuranças não são sugestões, mas exigências radicais que devem ser vividas em sua totalidade. Não se pode escolher uma ou outra. Só tem sentido e valor quando vividas por completo, ou seja, todas; por isso, é desafiante ser discípulo ou discípula de Jesus.

A primeira bem-aventurança (v. 3) é um consolo para quem já é “pobre em espírito” e um convite para que os que ainda não são, se tornarem. De todas, é aquela que mais tem gerado controvérsias na interpretação. A preferência de Jesus pelos pobres é inquestionável. No entanto, alguns, para suavizar a interpretação, outros para não se comprometerem, afirmam que Jesus não está aqui se referindo à pobreza como carência de bens, mas como um sentimento. É claro que essa interpretação é absurda, sobretudo se tomamos a mensagem de Jesus em seu conjunto, e recordamos que uma das coisas que Ele mais cobra de seus discípulos é o desapego e a renúncia aos bens. Também não se trata de um convite à resignação.

O pano de fundo para essa bem-aventurança é a profecia de Sofonias (cf. Sf 3,11-13), quando apresenta o ‘resto de Israel’ como um povo ‘pobre e humilde’ que buscará refúgio no nome do Senhor. Portanto, os pobres em espírito são aqueles que confiam em Deus, unindo à pobreza, a humildade, uma vez que, não basta ser pobre, é necessário ser humilde para entrar na dinâmica do Reino. A eles, os pobres em espírito, deve ser dado o Reino já agora, uma vez que a condição deles não permite mais esperar por uma transformação futura. E, foi Jesus, por excelência, um pobre no espírito, porque completou sua pobreza material com a confiança no Espírito Santo e no Pai.

A segunda bem-aventurança (v. 4) também tem um texto profético como pano de fundo: a profecia de Isaías que anuncia o ‘consolo dos aflitos’ (cf. Is 61,2). Ser consolado, na linguagem bíblica, não é simplesmente ser confortado ou ter a dor aliviada por alguns momentos, mas é ter o sofrimento eliminado por completo. A não aceitação do projeto de Jesus pelas estruturas sócio-políticas e religiosas causará aflições no seu discipulado, mas resistindo, receberão a verdadeira consolação.

Aos aflitos, somam-se os mansos, a terceira bem-aventurança (v. 5). O próprio Jesus se apresentará, posteriormente, como manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29). Aqui, Jesus alude aos israelitas que foram deserdados injustamente de suas terras (cf. Sl 37,11), por isso, terão como recompensa a herança da terra novamente. Também não é um convite à passividade. É apenas um lembrete para que, diante das injustiças, a comunidade dos discípulos tome as mesmas atitudes de Jesus.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme Ele mesmo experimentara, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão interpelante: ‘bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça’ (v. 6). Ora, a fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano e o deixam ansioso. Com isso, Ele ensina que, como o alimento e a água são essenciais para a vida, assim deve ser a busca pela justiça em seus discípulos, ou seja, deve fazer parte do dia-a-dia da comunidade e ser tão apreciada quanto o alimento cotidiano. Portanto, a luta pela justiça é uma necessidade vital para o discipulado de Jesus.

A misericórdia é tão importante na vida do discípulo, a ponto de ser a condição para receber a misericórdia de Deus (v. 7). Assim é a quinta bem-aventurança. Ora, na Bíblia, a misericórdia é, sobretudo, ação em favor dos necessitados. Não se trata de um simples sentimento de piedade. É uma das principais características de Deus, por isso, é indispensável na vida do discípulo, o qual deve estar sempre atento e solícito às necessidades do próximo.

Com a sexta bem-aventurança (v. 8), Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica, os quais não permitiam que as pessoas vissem o verdadeiro rosto de Deus. Por isso, diz que bem-aventurados são ‘os puros de coração’, e não os que se submetem constantemente aos ritos estéreis e vazios, os quais, ao invés de aproximar as pessoas de Deus, causavam divisões e exclusões e, portanto, afastavam de Deus. A verdadeira pureza é aquela interior, ou seja, do coração, porque permite ver os outros com os olhos de Deus e, assim, dar a conhecer o próprio Deus.

Considerando que os discípulos seriam imersos em situações de conflito, Jesus pede, com a sétima bem-aventurança (V. 9), que sejam ‘promotores da paz’. É claro que paz a promovida pelo discípulo de Jesus será sempre uma paz inquieta como foi a dele. Lutar pela paz é tão imprescindível na vida do discípulo, a ponto de ser condição para ser considerado filho de Deus. Se trata de algo muito profundo, considerando a riqueza teológica da palavra hebraica לוםf –  Shalom: paz como o bem-estar total do homem, harmonia com Deus, consigo mesmo e com o próximo em todas as dimensões. É por esse tipo de paz que o discípulo de Jesus deve lutar, ou seja, por uma vida digna e íntegra para todos, desconstruindo o modelo arbitrário de paz imposto pelo império romano, a ‘pax romana’.

Com a oitava bem-aventurança (v. 10), Jesus apresenta aquilo que vai comprovar se o discípulo está imitando-o ou não, ou seja, se está vivendo ou não as bem-aventuranças: ‘ser perseguido por causa da justiça’. O principal sinal de adesão plena ao Reino é ser perseguido! Por isso, ser discípulo de Jesus é um desafio, porque a lógica do Reino contrapõe-se a todo e qualquer sistema humano de gerenciamento da vida.

Viver as bem-aventuranças é abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entrará em colisão com os sistemas dominantes. Obviamente, ao invés de aplausos, os discípulos receberão perseguições, calúnias e injúrias, completando assim a nona bem-aventurança (v. 11). E, diante de tudo isso, Jesus ainda convida a alegrar-se e exultar (v. 12), na certeza de que a sua proposta de vida é a única viável para a construção de um mundo justo, solidário e fraterno, em contraposição a todos os sistemas humanos já experimentados.

As bem-aventuranças nos desafiam a compreendermos e reconhecermos se, de fato, estamos sendo fiéis a Jesus, ou seja, agindo como discípulos e discípulas. Como sabemos, não são sugestões ou opções, mas condições indispensáveis para o seguimento; vivê-las é tornar-se parecido com Jesus, uma vez que elas são seus traços básicos e característicos.



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues