sábado, setembro 01, 2012

Minha veneração pelo Cardeal Martini


Conheci um pouco do pensamento do Cardeal Carlo Maria Martini estudando filosofia, especificamente pagando a cadeira ‘Filosofia da Religião’, ministrado pelo amigo e bom professor Dr. Anderson Alencar Menezes. Na oportunidade, o professor indicou na bibliografia do curso, o livro ‘Em que crêem os que não creem?’ do Cardeal Martini com Umberto Eco. Trata-se de um diálogo entre os dois, publicados pela revista italiana ‘Liberal’. A cada edição um deles perguntava e respondia à provocação do outro. Quem abriu o diálogo foi Umberto Eco, e aqui transcrevo o início do debate. Me chamou muito a atenção já as primeiras considerações de Eco, sobretudo seu grande respeito por Martini. 

Gostei muito do livro, mas só voltei a ter contato com o pensamento de Martini depois que vim para a Itália, e o acesso à sua obra tem sido ao longo de 4 anos, uma das coisas mais proveitosas da minha estadia em Roma. Poderia considerar coisas maiores de sua vida, como o fato de ser o maior exegeta católico dos últimos tempos, um grande mestre da vida espiritual... mas a minha paixão por ele é sobretudo pela sua coragem ao se expressar, sem medo de tocar em temas polêmicos, sempre em defesa do diálogo, da justiça e da paz. Uma grande voz da Igreja que falava sempre com linguagem viva e atual, mantendo sempre o respeito e a obediência à tradição da qual era guardião.

Um homem de fé, um mestre, um profeta... aqui transcrevo as páginas 11 e 12 do livro “Em que crêem os que não creem?”, recordando mais uma vez que foram tais páginas que acenderam em mim uma paixão forte pelo seu pensamento, a ponto de se tornar veneração. 

Eis então, as palavras de Umberto Eco:

Caro Carlo Maria Martini,

Não me considere desrespeitoso se me dirijo ao senhor chamando-o por seu próprio nome, sem referir-me às vestes que enverga. Entenda-o como um ato de homenagem e de prudência. De homenagem, pois sempre me impressionou o modo como os franceses, quando entrevistam um escritor, um artista, uma personalidade política, evitam usar apelativos redutivos, como professor, eminência, ou ministro. Há pessoas cujo capital intelectual é dado pelo nome com que assinam as próprias ideias. Assim, os franceses se dirigem a qualquer pessoa cujo maior título é o próprio nome, com “diga-me, Jacques Maritain”, “diga-me” Claude Lévi-Strauss”. É o reconhecimento de uma autoridade que o sujeito manteria mesmo se não tivesse se tornado embaixador ou acadêmico da França. (...).

Ato de prudência, eu disse também. De fato, poderia parecer embaraçoso o que esta revista solicitou-nos, a ambos, isto é, uma troca de opiniões entre um leigo e um cardeal. Poderia dar a impressão de que o leigo induzia o cardeal a exprimir pareceres como Príncipe da Igreja e pastor de almas, o que seria uma violência contra quem é chamado a responder e contra quem ouve a resposta. Melhor que o diálogo se apresente como aquilo que, nas intenções da revista que nos convocou, pretende ser: uma troca de reflexões entre homens livres. Por outro lado, dirigindo-me ao senhor desta maneira, pretendo sublinhar o fato de ser o senhor considerado um mestre de vida intelectual e moral mesmo por aqueles leitores que não se sentem vinculados a nenhum magistério que não o da justa razão.

Superados os problemas de etiqueta, permanecem os da ética, pois é principalmente deles que deveríamos tratar no curso de um diálogo que pretende encontrar alguns pontos comuns entre o mundo católico e o mundo laico.

O trecho transcrito corresponde às páginas 11 e 12 do livro Em que crêem os que não crêem? de Umberto Eco e Carlo Maria Martini, ed. Record, Rio de Janeiro, 2006.

Francisco Cornelio F. Rodrigues.

quarta-feira, julho 25, 2012

As Bem-Aventuranças do Educador

                                                                               
A. Felizes os Educadores
   que tomam consciência do conflito social em que estão metidos
   e nele tomam partido pelo projeto social dos empobrecidos
   porque assim contribuirão para a transformação da sociedade.

B. Infelizes os Educadores
   que imaginam que a ação educativa é politicamente neutra
   porque acabam transformando a educação num instrumento de ocultação
   das contradições da realidade social
   e de reprodução da ideologia e das relações sociais vigentes.

A. Felizes os Educadores
   que sabem articular o saber chamado científico com o saber popular
   porque ajudarão as classes populares a afirmar sua identidade cultural.

B. Infelizes os Educadores
   que transmitem mecanicamente um saber elitista
   porque contribuem para reforçar a marginalização
   e a dominação cultural do povo.

A. Felizes os Educadores
   que aprendem a dialogar com os educandos
   porque resgatam a comunicação pedagógica criadora no processo educativo.

B. Infelizes os Educadores
   que impedem os educandos de dizerem sua palavra,
   porque estão reproduzindo a educação do colonizador.

A. Felizes os Educadores
   que se tornam competentes em suas "disciplinas"
   ensinando a "desopacizar" ideologicamente seus conteúdos
   porque ajudarão os educandos a se apropriarem do saber
   como ferramenta de luta na defesa e afirmação de sua dignidade.

B. Infelizes os Educadores
   que não se esforçam para ser criticamente competentes
   porque enfraquecerão mais ainda o poder cultural das classes oprimidas
   reforçando o autoritarismo cultural das classes dominantes.

A. Felizes os Educadores
   que procuram se organizar para conquistar
   melhores salários e melhores condições de ensino
   porque estão ajudando a conquistar a educação a que o povo tem direito.

B. Infelizes os Educadores
   que atuam isoladamente, buscando apenas seus próprios interesses
   porque deixarão de contribuir para a conquista de uma escola digna.

A. Felizes os Educadores
   que iluminam sua prática com o sonho de um futuro novo
   em que as pessoas aprendam, através de novas relações sociais,
   as lições da justiça e da solidariedade.

B. Infelizes os Educadores
   que não sonham
   porque não terão a coragem de se comprometer na luta criadora
   de uma nova sociedade a partir de sua prática educativa.

 A. Felizes os Educadores
   que aprendem a fazer da ação de cada dia
   a semente da nova sociedade.

  B. Infelizes os Educadores
   que pensam que as coisas novas só aparecerão no futuro
   porque não perceberão, nem farão perceber
   que o "novo" já está no meio de nós,
   brotando de nossas práticas transformadoras,
   solidárias com as lutas dos espoliados da terra.

 José Ivan Pimenta Teófilo, padre e educador Salesiano, grande promotor do Reino por meio do Evangelho e de da educação, deixou essa vida em 1990.


sexta-feira, maio 25, 2012

ONDE SOPRA O ESPÍRITO?

A festa de Pentecostes, celebrada neste domingo, lembra a vinda do Espírito Santo sobre os primeiros cristãos, reunidos no cenáculo em Jerusalém. Com a força do Espírito, sentiram-se animados a partir em missão.
Daí para a frente, o Espírito Santo iria conduzir a Igreja. Ele se encarregaria de indicar os rumos, e até de antecipar os passos que os cristãos deveriam dar.
Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Pedro foi procurado por Cornélio, um pagão, que o convidava a visitar sua casa. Ao entrar, Pedro se surpreendeu, vendo que o Espírito Santo descia sobre os pagãos, da mesma maneira como tinha descido sobre eles em Pentecostes.
Pedro então compreendeu que os pagãos eram destinatários do Evangelho, tal como o povo de Israel. A Igreja aprendeu a estar atenta aos sinais do Espírito, para tomar suas decisões com segurança.
Foi o que aconteceu em nossa época, com o anúncio do Concílio Vaticano Segundo, em janeiro de 1959. O Papa João 23 não se cansava de testemunhar que a idéia de um concílio tinha surpreendido a ele mesmo. A certeza da inspiração divina lhe vinha da pronta adesão do povo, que de imediato se identificou com a proposta do papa. Com esta certeza, a Igreja pôde levar em frente a realização do Concílio.
Algumas manifestações do Espírito são fáceis de identificar. Sobretudo quando contam com o aval do povo. A própria teologia reconhece que o "sensus fidelium”, a "intuição dos fiéis” é sinal seguro de procedimento eclesial.
Mas existem situações mais complicadas. Nem sempre o clamor do povo é porta-voz do Espírito Santo. Há certas manifestações, também políticas e sociais, cuja ênfase, em vez de manifestar caminhos seguros de procedimentos corretos, esconde interesses não confessados, e tenta forçar rumos que não levam ao bem comum.
Por isto, não dá para colocar na conta do Espírito Santo todas as manifestações populares. A confiança no Espírito de Deus não dispensa o esforço de discernimento, para perceber os valores que estão em jogo.
O próprio Evangelho nos dá uma pista, quando Jesus explica como seria o procedimento do Espírito. Disse Ele que o Espírito "não falará de si mesmo...; mas, receberá do que é meu e vo-lo anunciará” (Jo 16, 13).
Com esta afirmação, Jesus sinaliza a necessidade de constatar a coerência entre o que ele fez e ensinou, com as manifestações que possam ocorrer. Para serem do Espírito, precisam estar em sintonia com as verdades objetivas proclamadas por Cristo.
A Bíblia conta uma bonita história, para advertir da necessidade de discernir a presença de Deus. Elias estava refugiado na caverna, nas proximidades do monte Horeb. Foi avisado que Deus passaria naquela noite. Ele se colocou então na entrada da caverna. Veio um forte furacão que fazia as rochas se contorcerem. Mas Deus não estava no furacão. Depois aconteceu um violento terremoto, que sacudiu a terra. Mas Deus não estava no terremoto. Depois desceu um fogo devorador. Mas Deus não estava no fogo. Por fim, veio uma brisa suave, que amenizou todo o ambiente. Era Deus que estava chegando.
Precedendo a este episódio, o mesmo livro narra a cena do confronto de Elias com os 400 sacerdotes do deus Baal. Desafiados por Elias a invocarem o seu deus para que fizesse descer fogo sobre a lenha da oferenda, os sacerdotes gritaram o dia inteiro, mas não foram capazes de se fazerem ouvir por seu falso deus. Ao passo que Elias, com poucas palavras, foi prontamente atendido por Javé.
Há certas manifestações que se assemelham à gritaria dos sacerdotes de Baal. Em nada contribuem para o discernimento objetivo dos problemas a resolver.
A análise objetiva da realidade é garantia mais segura do acerto das decisões a serem tomadas.

Por: Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales-SP

segunda-feira, março 26, 2012

CLARA DE ASSIS: a coragem de um mulher apaixonada

*Leonardo Boff

Há 800 anos, na noite de 19 de março de 1212, dia seguinte à festa de Domingos de Ramos, Clara de Assis, toda adornada, fugiu de casa para unir-se ao grupo de Francisco de Assis na capelinha da Porciúncula que ainda hoje existe. As clarissas do mundo inteiro e toda a família franciscana celebram esta data que significa a fundação da Ordem de Santa Clara, espalhada pelo mundo inteiro.

Clara junto com Francisco – nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que “nunca mais se separariam” segundo a bela legenda da época – representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade. É bom lembrá-la neste mês de março, dedicado às mulheres. Por causa dela, há milhões de Claras e Maria Claras no mundo inteiro. Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico e afluente mercador de tecidos, dos Bernardone.

Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima, conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212 Clara “foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências”. Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em seu livro “Clara de Assis: a primeira mulher franciscana” (Vozes 1994): “neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo”(p. 63). Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a“minha Plantinha”. Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples sem glossas e interpretações que lhe tirariam o vigor.

A cena não tem nada a perder em criatividade, ousadia e beleza, das melhores cenas de amor dos grandes romances ou filmes. Como poderia uma jovem rica e bela fugir de casa para se unir a um grupo parecido com aos “hippies” de hoje? Pois assim devemos representar o movimento inicial de Francisco. Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.
Na noite do dia de 19 de março de 1212, Clara, escondida, fugiu de casa e chegou à Porciúncula. Entre luzes bruxoleantes, Francisco e os companheiros a receberam festivamente. E em sinal de sua incorporação ao grupo, Francisco lhe cortou os belos cabelos louros. Em seguida, Clara foi vestida com as roupas dos pobres, não tingidas, mais um saco que um vestido. 

Depois da alegria, das canções dos trovadores franceses que Francisco tanto gostava e das muitas orações, foi levada para dormir no convento das beneditinas a 4 km de Assis. 16 dias após, sua irmã mais nova, Ines, também fugiu e se uniu à irmã. A família Favarone tentou, até com violência, retirar as filhas. Mas Clara se agarrou às toalhas do altar, mostrou a cabeça raspada e impediu que a levassem. O mesmo destemor mostrou quando o Papa Inocêncio III não quis aprovar o voto de pobreza absoluta. Lutou tanto até que o Papa enfim consentisse. Assim nasceu a Ordem das Clarissas.

Seu corpo intacto depois de 800 anos comprova, uma vez mais, que o amor é mais forte que a morte.

*Teólogo, filósofo, professor e escritor; autor de Francisco de Assis: ternura e vigor, Vozes 2003.

Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2012/03/25/clara-de-assis-a-coragem-de-uma-mulher-apaixonada/

sexta-feira, março 23, 2012

SÃO ROMERO DE AMÉRICA PASTOR E MÁRTIR


O anjo do Senhor anunciou na véspera...
O coração de El Salvador marcava
24 de março e de agonia

Tu ofertavas o Pão, o Corpo Vivo
o triturado Corpo de teu Povo:
Seu derramado Sangue vitorioso
O sangue "campesino" de teu Povo em massacre
que há de tingir em vinhos e alegria a Aurora conjurada!

E soubeste beber o duplo cálice
do Altar e do Povo,
com uma só mão consagrada ao Serviço.

O anjo do Senhor anunciou na véspera
e o verbo se fez morte, outra vez, em tua morte.
Como se faz morte, cada dia, na carne desnuda de teu Povo.

E se fez vida Nova
Em nossa velha Igreja!
Estamos outra vez em pé de Testemunho,
São Romero de América, pastor e mártir nosso!
Romero de uma Paz quase impossível, nesta Terra em guerra.
Romero em roxa flor morada da Esperança incólume de todo Continente
Romero desta Páscoa latino-americana.

Pobre pastor glorioso,
assassinado a soldo, a dólar, a divisa.
Como Jesus, por ordem de Império.
Pobre pastor glorioso, abandonado
por teus próprios irmãos de Báculo e de Mesa.
(As Cúrias não podiam entender-te:
Nenhuma Sinagoga bem montada pode entender a Cristo)


(Poema “São Romero de América” de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia).