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REFLEXÃO PARA O 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 9,30-37 – ANO B



A liturgia do vigésimo quinto domingo do tempo comum apresenta mais um passo importante do caminho de Jesus com seus discípulos, conforme a dinâmica narrativa e teológica de Marcos. Trata-se de um caminho em dois níveis: o primeiro, compreende um percurso físico da Galileia para Jerusalém; o segundo é um itinerário catequético-teológico que visa despertar nos discípulos um conhecimento mais aprofundado da identidade de Jesus, tendo em vista reforçar as convicções do seguimento. Os resultados, contudo, não são tão positivos; à medida em que avançam no caminho, a mentalidade dos discípulos se distancia cada vez mais da proposta de Jesus. O evangelho de hoje – Mc 9,30-37 – mostra muito bem isso. Embora não seja a sequência imediata do texto lido no passado (cf. Mc 8,27-35), ambos estão intrinsecamente relacionados. Enquanto aquele do domingo passado continha o primeiro anúncio da paixão, o de hoje contém o segundo anúncio.

É importante recordar que os anúncios da paixão são sempre seguidos de atitudes dos discípulos que contradizem completamente o ensinamento de Jesus. E isso é bem evidenciado no texto de hoje. À incompreensão/contradição dos discípulos, Jesus reage e reforça a sua catequese, apresentando uma criança como exemplo para a comunidade, mostrando que o Reino de Deus tem como protagonistas e destinatários os pequenos e humildes, ao contrário do que pensavam os discípulos, que imaginavam uma comunidade hierárquica. O texto divide-se claramente em duas partes demarcadas pela dimensão espacial: a primeira (vv. 30-32), acontece no caminho, enquanto a segunda acontece na casa (vv. 33-37), em Cafarnaum. Casa e caminho representam os dois cenários privilegiados para a pregação de Jesus e para a vida da comunidade cristã, especialmente a comunidade do evangelista Marcos que, rompida definitivamente com a sinagoga, não tinha um espaço fixo para as suas reuniões. O caminho tem como significado a instabilidade, os perigos e, ao mesmo tempo, o dinamismo e a dimensão missionária da comunidade; é uma prova de que a Igreja nasceu para estar, realmente, em saída. Já a casa, significa a necessidade das relações fraternas e sinceras que devem marcar a vida da comunidade; é um espaço de acolhida, compreensão e vivência do amor. Caminho e casa, portanto, são dois espaços importantes para identidade da comunidade. Revelam, inclusive, o aspecto de marginalidade do cristianismo em suas origens.

Como diz o texto, “Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso” (v. 30). Essa travessia pela Galileia acontece após o episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-13) e a expulsão de um espírito impuro de um jovem epilético (cf. Mc 9,14-29). Já faz parte do caminho para Jerusalém, embora ainda esteja na fase inicial. Jesus percebeu que era extremamente necessário aprofundar o ensinamento sobre o seu destino aos discípulos, que continuavam resistentes e fechados na mentalidade nacionalista de espera por um messias poderoso. Por isso, nessa fase, Jesus prefere o anonimato e o isolamento das multidões para intensificar a catequese. De fato, o próprio texto atesta isso; ele atravessava a Galileia com os discípulos praticamente às escondidas, com cuidado para não ser visto, “Pois estava ensinando a seus discípulos” (v. 31a). Ora, a incompreensão de Pedro após o primeiro anúncio da paixão (cf. Mc 8,31-35), conforme mostrou o evangelho do domingo passado, serviu de advertência para Jesus: até então, os discípulos ainda não tinham compreendido praticamente nada dos seus ensinamentos sobre sua identidade, seu projeto de Reino e seu destino. Por isso, ele sentiu a necessidade de estar sozinho com eles para aprofundar o ensinamento.

O conteúdo dessa fase específica da catequese é exatamente aquilo que os discípulos mais tinham dificuldade de compreender e aceitar, ou seja, o drama da paixão que se aproximava cada vez mais, não como predestinação, mas como consequência das opções feitas e posições assumidas até então por Jesus. Por isso, “dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará” (v. 31bc). Esse é o segundo anúncio da paixão. Enquanto os discípulos, conforme a ideologia nacionalista, esperavam que o messias matasse, declarando guerra ao poder romano para recuperar o trono dravídico-salomônico, Jesus afirma o contrário: é ele quem vai morrer. Inclusive, ao invés de messias, Jesus aplica a si mesmo o título de “Filho do Homem”, que significa o humano em sua condição plena. O termo messias era facilmente manipulado política e ideologicamente. Embora nesse segundo anúncio não esteja tão claro quem serão seus algozes, ele já tinha declarado no primeiro: anciãos, sacerdotes e escribas (cf. Mc 8,31), ou seja, as autoridades religiosas, em conluio com o poder imperial, até então controladoras de Deus, e agora inconformadas porque Jesus estava, com seu ministério, apresentando um Deus completamente diferente. O Deus dos chefes era cruel, vingativo e exigente, enquanto o Deus de Jesus é amoroso, misericordioso, acolhedor e justo.

A incompreensão dos discípulos continua, e parece aumentar, gerando até medo: “Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar” (v. 32). Se não compreendiam, muito menos aceitavam a realidade como Jesus apresentava. Eles tinham medo de fazer perguntas porque sabiam que a explicação de Jesus não corresponderia às suas expectativas de triunfo e sucesso. Seria mais um desmascaramento. Por isso, covardemente, preferem conversar entre si, alimentando sonhos triunfalistas e distantes da proposta de Jesus. Porém, Jesus os conhecia muito bem e sabia o que eles pensavam; lhes perguntar apenas por protocolo: “Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “O que discutis pelo caminho?” (v. 33). A cidade de Cafarnaum, onde Jesus realizou boa parte do seu ministério, tem um significado especial para a comunidade. É o ponto de partida da Boa Nova. Ao questionar os discípulos em casa, nessa cidade, Jesus revela a necessidade de renovação constante e de retorno às origens do chamado, com coragem para recomeçar. De fato, com o caminho da paixão já delineado, se torna cada vez mais necessário reavivar nos discípulos as motivações para o seguimento com bastante clareza.

Cientes do absurdo e da incompatibilidade entre o que eles conversavam e o que Jesus lhes apresentava, “eles ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior” (v. 34). Com essa informação, o evangelista revela que os discípulos estavam em total oposição ao projeto de Jesus. Ora, discutir quem é o maior, é negar completamente o projeto de Reino de Deus como fraternidade e igualdade. Essa discussão revela ambição e alimenta rivalidade, elementos inaceitáveis para uma comunidade que deve viver o princípio da igualdade e do amor. O silêncio deles denuncia a incoerência e a covardia. Após dois anúncios da paixão, já deveriam saber que qualquer projeto de grandeza era totalmente incompatível com o seguimento de Jesus. Ora, ser o maior significa ter poder para sobrepor-se aos demais, é ter voz de comando; é adotar na comunidade os mesmos mecanismos do sistema opressor, enquanto o projeto de Jesus é totalmente contra hegemônico e anti-hierárquico. Os discípulos sonhavam com a tomada do poder político, quando chegassem em Jerusalém; expulsariam os romanos, mas manteriam o mesmo sistema de dominação. Eles ainda não tinham compreendido que Jesus proponha uma sociedade alternativa, com igualdade e fraternidade, construída pela revolução do amor e chamada de Reino de Deus.

É interessante que a atitude de Jesus diante da grande incoerência dos discípulos não é de condenação, mas de insistência no ensinamento e de renovação do chamado. Ele não desmancha o grupo de seguidores, mas insiste em humanizá-los. Ao invés de abandoná-los, ele prefere aprofundar a catequese, demonstrando uma imensa capacidade pedagógica: “Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Ao sentar-se para ensinar, Jesus reafirma sua condição de mestre, o único que poderia reivindicar a condição de maior naquele grupo. Chamando os doze para perto de si, ele os convida, antes de tudo, a renovar a vocação originária, deturpada pelos sentimentos de grandeza e ambição que eles tinham alimentado. Para aprender e aceitar o ensinamento, é necessário que os discípulos estejam muito próximos ao mestre, sendo influenciados somente por ele. O ensinamento aqui é bastante didático e claro: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Enquanto os discípulos pensavam em poder e grandeza, tema da discussão no caminho, Jesus mostra um caminho oposto. Só há uma forma de ser o primeiro na comunidade: tornando-se o último de todos e o servidor de todos. Ser o maior, como queriam os discípulos, significava ser o primeiro de todos e ser servido. Portanto, a proposta de Jesus não é apenas diferente, mas totalmente oposta às pretensões dos discípulos. Tornar-se servidor de todos é o mesmo que “renunciar a si mesmo”, como ele já tinha dito anteriormente (cf. Mc 8,34). O discipulado não é um caminho para o sucesso, mas para o serviço. O sentido de ser discípulo é, portanto, a disposição de fazer para os outros e estar sempre a serviço, desinteressadamente.

Concluindo a sua catequese de contraponto às ambições de poder dos discípulos, Jesus faz um gesto bastante significativo, e finaliza com uma frase relacionada ao gesto: “Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou” (vv. 36-37). Aqui está o ponto alto da sua catequese; não basta falar, é necessário demonstrar com ações a veracidade da fala, o que faz recordar as ações simbólicas dos antigos profetas de Israel, com quem Jesus se identificou bastante. O gesto de pegar uma criança, é bastante provocatório, uma vez que, na época, a criança não gozava de nenhuma estima e consideração, a não ser pelos próprios pais. Tanto o mundo hebraico quanto o grego, tinham visões muito negativas a respeito da criança, considerando-a uma pessoa inacabada e incapacitada para qualquer coisa. Jesus, pelo contrário, via com outros olhos: a criança é sinal de pequenez, característica que já a torna protagonista do Reino, mas também simboliza a capacidade de aprendizagem, que é condição indispensável para o discipulado. Mas Jesus não apenas aponta para a criança, mas a abraça. E o abraço é um gesto muito significativo: além de demonstração de afeto, significa identificação. Na cultura semita, abraçar alguém significa identificar-se com a pessoa abraçada, compartilhando não apenas sentimentos, mas anseios, projetos e sonhos. Neste caso específico do abraço de Jesus na criança, é também mais uma maneira de desarmar os discípulos de suas ambições. Ora, no projeto de poder que eles tinham em mente era pressuposto o uso da força e da violência, pois visavam expulsar os romanos; isso não seria possível sem a luta armada. Com o abraço na criança, Jesus mostra que seu projeto de Reino se edifica pelo amor e pela ternura.

Colocando a criança no meio, Jesus a tornou protagonista e centro da comunidade. Na criança estão representadas todas as pessoas vulneráveis, necessitadas e desprezadas, que devem ser acolhidas com preferência na comunidade cristã. De modo bastante claro, Jesus diz que acolher as pessoas desprezadas, representadas pela criança, é acolher a ele próprio e ao Pai que lhe enviou. Desse modo, podemos concluir que as pessoas consideradas pequenas, humildes, pobres, mulheres crianças e todas as categorias desprezadas pela sociedade são destinatárias e protagonistas do Reino, porque devem ocupar o centro da comunidade, uma vez que nelas se revelam Jesus e o Pai. A comunidade é, de fato, cristã quando, ao invés de excluir, acolhe e coloca em seu centro as pessoas historicamente condenadas e excluídas pela(s) sociedade(s). Em outras palavras, para uma comunidade/igreja considerar-se cristã deve ser, acima de tudo, casa de acolhida dos pequenos.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 8,27-35 – ANO B

 


A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo comum nos coloca exatamente diante do centro temático e literário do Evangelho de Marcos: a confissão de fé de Pedro, em nome de todo o grupo dos discípulos, com o primeiro anúncio da paixão e a apresentação das condições essenciais para o discipulado – Mc 8,27-35. Esse episódio é um divisor de águas também no itinerário missionário e messiânico de Jesus, pois marca o início do seu caminho para Jerusalém, onde acontecerão os eventos da sua paixão e morte, culminando com a ressurreição. É, portanto, o início de uma etapa decisiva que exige muita convicção nos discípulos. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (cf. Mc 8,27ss; Mt 16,13-19; Lc 9,18-22), cuja versão mais rica é essa de Marcos, com mais traços de originalidade.

Dividido em duas grandes partes, o Evangelho segundo Marcos tem como finalidade apresentar Jesus como o Cristo, ou seja, como o messias, e como o Filho de Deus, como já se percebe em seu primeiro versículo: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Toda a primeira parte, capítulos de 1 a 8, visa gerar na comunidade a certeza de que Jesus de Nazaré é o messias, tão esperado por Israel ao longo dos séculos, embora não seja revestido das características tradicionais de messias. Essa primeira parte é concluída com a proclamação solene de Pedro, em nome da comunidade dos discípulos, afirmando “Tu és o Cristo” (o nome Cristo – em grego χριστóς – christós – significa messias ou ungido). Já a segunda parte, capítulos de 9 a 16, visa levar a comunidade a acreditar que o messias é também o Filho de Deus, cuja certeza é dada pela confissão do centurião romano no momento da morte de Jesus: “realmente, esse homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A maturidade da comunidade, portanto, pode ser verificada pela sua capacidade de professar livremente essas duas verdades a respeito da identidade de Jesus de Nazaré, dando-lhe adesão até as últimas consequências.

Olhando especificamente para o texto de hoje, a nossa primeira observação diz respeito à dimensão espacial: “Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe” (v. 27b). Essa informação possui grande relevância, considerando a localização e a importância da cidade de Cesaréia de Filipe. Ora, como Cesareia estava localizada no extremo norte da Galileia, em área já considerada pagã, esse dado representa uma espécie de isolamento dos discípulos em relação à ideologia nacionalista. Lá, eles estariam livres para emitir uma opinião isenta de qualquer influência ideológica e preconceitos. Com isso, o evangelista ensina que para reconhecer a verdadeira identidade de Jesus é necessário isolar-se dos tradicionais esquemas religiosos de Israel. Além disso, a cidade de Cesareia, como o próprio nome indica, era uma homenagem a César, um dos títulos de honra do imperador romano; logo, o reconhecimento de Jesus como messias, na “cidade de César” representava a oposição do projeto do Reino de Deus às forças de morte movidas pelo poder opressor romano.

Com esse dado, o evangelista quer ensinar que as duas primeiras exigências para o seguimento convicto de Jesus é o rompimento com as ideologias, religiosas principalmente, e a coragem para confrontar toda forma de poder oposta ao Reino de Deus. Essa era a situação da comunidade do evangelista Marcos, na época da redação do evangelho: escrito fora da Palestina, quando a convivência com a comunidade judaica já tinha se tornado insuportável e, especificamente, na cidade de Roma, capital do império, em época de forte perseguição. Portanto, o evangelista, para fortalecer os cristãos da sua comunidade, narra esse episódio para mostrar que aquela situação presente já tinha sido prevista e vivida pelo próprio Jesus com seus primeiros discípulos.

Em situações de hostilidade, é necessário renovar as convicções para continuar o seguimento. Assim, Jesus faz uma espécie de consulta a respeito da sua própria imagem, não interessado em fama, mas somente para saber se estava sendo compreendido juntamente com a sua mensagem; não era preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio na comunidade. Por isso, ainda “no caminho, perguntou aos discípulos: ‘Quem dizem os homens que eu sou?’” (v. 27). Aqui, o evangelista faz questão de evidenciar o caráter itinerante e a falta de comodidade no discipulado. Por isso, “o caminho” com os inerentes perigos é lugar de catequese e anúncio, o que também reflete a situação da comunidade do evangelista: expulsos da sinagoga, os cristãos já não tinham lugar fixo para a pregação, buscando espaços alternativos, como as casas, as estradas e até os cemitérios. Não obstante esses desafios, a clareza e a convicção do seguimento são fundamentais para a vida da comunidade.

A resposta dos discípulos à pergunta de Jesus revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava entre o povo, certamente o povo simples, com quem Ele interagia e por quem mais lutava. Eis a resposta: “alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias, outros, ainda, que és algum dos profetas” (v. 28). Como se vê, não resta dúvidas de que Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. De fato, os personagens citados foram grandes profetas, homens que acenderam a esperança de libertação, anunciando, denunciando e testemunhando. Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Contudo, é inegável que o povo já o estimava, mesmo que não tivesse muita convicção da sua verdadeira identidade, ainda considerando que os familiares o tinham por louco e as autoridades religiosas o consideravam um enviado de satanás (Mc 3,20-30).

A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, Jesus queria saber mesmo era o que seus discípulos pensavam dele. Afinal, já tinham um bom tempo de convivência. Inclusive, boa parte dos ensinamentos tinham sido dirigidos exclusivamente aos discípulos, como até mesmo a explicação de algumas parábolas mais ambíguas (Mc 4,34). Esperava-se, portanto, que os discípulos o conhecessem melhor. Por isso, lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 29a). Que as pessoas de fora o conhecessem apenas superficialmente, seria tolerável, mas dos discípulos, esperava-se uma resposta mais profunda e convicta, como de fato aconteceu: “Pedro respondeu: ‘Tu és o Messias’” (v. 29b). Aqui, Pedro fala em nome do grupo. Essa é a resposta da comunidade, de quem Pedro se faz porta-vos. Embora correta, a resposta de Pedro e da comunidade não é satisfatória, por isso, “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito” (v. 30). Dizer que Jesus é o Messias, é o mesmo que dizer o Cristo, como de fato ele era, já que as duas palavras possuem o mesmo significado. Porém, Jesus não confia na resposta de Pedro e, por isso, proibiu a ele e aos demais de falaram a seu respeito.

Chega a ser surpreendente a reação de Jesus. É verdade que ele proibia as pessoas curadas e exorcizadas de contar os milagres feitos (Mc 1,44; 7,36). Mas aqui a proibição é muito mais severa: ele proibiu de falar a seu respeito! Mas o que fez Jesus proibir Pedro de repetir essa fórmula foram as possibilidades de incompreensão que essa comportava. Ora, o messias esperado pelos judeus, cujas expectativas foram alimentadas por muitos séculos, desde a época do exílio, era um guerreiro, um restaurador do reino de Davi. Essas expectativas diziam respeito a um único povo e religião, enquanto a mensagem de Jesus é universalista e acessível a todos os seres humanos, independentemente de qualquer cultura, etnia e religião. Portanto, podemos afirmar que Pedro deu a resposta correta – Jesus é mesmo o Cristo – mas não tinha ainda a consciência ideal – Jesus não veio para restaurar o reino de Davi, mas para implantar o Reino de Deus, como realidade universal. Na resposta de Pedro estava um projeto religioso nacionalista com o qual Jesus não compactuava.

Diante do equívoco dos discípulos, representados por Pedro, Jesus inaugura uma nova etapa da sua catequese, buscando revelar a sua verdadeira identidade de messias “às avessas”: o messias descendente de Davi, esperado pelos judeus, era um guerreiro, viria ao mundo para combater e matar os inimigos de Israel, restaurando o trono outrora ocupado por Davi e Salomão; Jesus mostra que sua missão é o contrário de tudo isso: “o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias” (v. 31). Esse é o primeiro dos três anúncios da paixão presentes no evangelho. Ao invés de matar os inimigos, o Messias Jesus é quem padece e, por consequência, essa deveria ser também o destino dos seus discípulos. Não se trata de uma predestinação e nem adivinhação do futuro. É apenas consciência das opções feitas. Jesus sabia que, com seu projeto de Reino inclusivo, restaurando o que a religião e a sociedade tinham descartado, seu destino não poderia ser outro senão a cruz, a pena que o império destinava aos subversivos, como ele.

Fechado na mentalidade nacionalista, Pedro não aceita um messias sofredor, por isso, “tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo” (v. 32). Essa atitude de Pedro é absurda e inaceitável. O verbo repreender (em grego: ἐπιτιμάω – epítimao) significa condenar por um erro, reprovar bruscamente. Trata-se de algo tão absurdo que Pedro não teve coragem de fazer na frente dos outros discípulos, mas o faz à parte. Fazendo isso, Pedro nega a sua condição de discípulo, e é chamado por Jesus a assumir o seu verdadeiro lugar: “Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: ‘Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens’” (v. 33). Jesus, como mestre, tem autoridade para “repreender” e condenar a atitude absurda de Pedro. Ao chamá-lo de satanás, Jesus está apenas dizendo que, com aquela postura, Pedro está sendo obstáculo para o Reino de Deus. O papel de satanás é dificultar a realização do Reino; e muitas vezes, como neste caso relatado por Marcos, quem age como satanás são membros da própria comunidade, inclusive os que ocupam lugares de destaque, como Pedro ocupava na primitiva comunidade cristã.

Pedro queria evitar a cruz para Jesus e seus companheiros. Jesus, ao contrário, afirma que a cruz é condição para o seguimento (v. 34). Porém, ao contrário do que a tradução litúrgica do texto afirma, Jesus não manda Pedro para longe, mas apenas para trás de si. Aqui, ele usa a mesma expressão do chamado vocacional: “segue-me” ou “vem atrás de mim” – empregada em Mc 1,17; 8,34 (em grego: ὀπίσω μου – opísso mu). Jesus repreende Pedro, mas não o expulsa do grupo, apenas diz “vai para trás de mim”, “assume teu lugar de discípulo”, ou simplesmente “segue-me”. Com isso, o evangelista ensina que a última palavra na comunidade deve ser sempre a de Jesus. O discípulo nunca deve tomar o lugar do mestre, assim como, na comunidade cristã, nenhuma pessoa pode ter a última palavra, pois essa é sempre de Jesus.

Devido à tentação de Pedro, querendo suavizar o seguimento, diminuindo as suas consequências, Jesus aproveita para reforçar as convicções e a necessidade de disposição de dar a vida por sua causa e pelo Evangelho (vv. 34-35). De fato, o discipulado é incompatível com o egoísmo e a falta de coragem de dar a vida por causa do Evangelho. Jesus expõe as condições necessárias para o seu autêntico seguimento, mostrando que só tem vez na dinâmica do Reino quem coragem de perder, quem faz opções pelos perdedores de sempre. Ao mesmo tempo, garante que, quem abraçar a cruz de maneira livre e consciente como ele, a perspectiva de ressurreição é certa. A comunidade se torna, de fato, cristã, ou seja, discípula, quando encontra o seu verdadeiro lugar: sempre atrás do mestre, no seguimento, não impondo os pensamentos humanos, mas apenas seguindo e fazendo o que Jesus pediu.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 7,31-37 – ANO B

 


O evangelho deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum é Mc 7,31-37, texto que compreende o relato da cura de um surdo-mudo por Jesus, em terras pagãs. É um texto exclusivo do Evangelho de Marcos, e que possui grande significado para a sua teologia. Isso se evidencia pela riqueza de pormenores que traz, desde a dimensão espacial até a forma como se dá a relação de Jesus com o personagem por ele curado. De todos os relatos de cura atribuídas a Jesus, esse é o mais rico em detalhes, carregado de gestos simbólicos.  Trata-se, portanto, de um episódio paradigmático. Nele, Jesus revela o máximo da sua pedagogia do cuidado e da atenção. Para compreendê-lo de modo mais adequado, seguimos com a contextualização.

Tendo decretado a inutilidade e o fim das leis de pureza alimentar, como refletimos no domingo passado (Mc 7), Jesus praticamente aboliu, pelo menos para os seus seguidores, qualquer obstáculo que impedisse a relação com os povos pagãos. Ora, como nada do que é externo pode tornar a pessoa humana impura, mas somente o que é gerado no coração, não pode mais haver impedimento para o contato físico e a convivência fraterna com as pessoas de outras etnias, culturas e religiões diferentes. Por isso, Jesus fez, logo em seguida, uma pequena campanha missionária em terras pagãs, cumprindo, também ali, sinais semelhantes aos já cumpridos na Galileia, com duas curas exemplares: a expulsão de um demônio da filha de uma mulher pagã, a siro-fenícia (7,24-30) – episódio saltado pela liturgia – e a cura de um surdo-mudo, episódio relatado no evangelho de hoje: 7,31-37.

Os relatos de milagres de Jesus relacionados com os olhos, os ouvidos e a língua têm um significado simbólico muito relevante, sobretudo no Evangelho de Marcos. Muito mais do que uma demonstração de poderes sobrenaturais de Jesus, são oportunidades para o evangelista chamar a atenção da comunidade cristã a respeito das suas necessidades concretas, com as deficiências que a impedem de um seguimento mais perseverante e fiel. Significa que, na comunidade cristã, todos os seus membros tenham capacidade e oportunidade de ver, ouvir e falar. É também uma forma de reforçar, entre os membros da comunidade, a responsabilidade na luta pela superação de todas as barreiras que impedem as pessoas de viverem com a justa e necessária dignidade, bem como um convite à inclusão, tolerância e respeito às diferenças individuais e culturais.

A grande densidade simbólica do episódio narrado no evangelho de hoje já se evidencia no primeiro versículo, com a descrição de uma dimensão espacial completamente improvável: “Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole (v. 31). A forma como o versículo está estruturado no texto litúrgico não denuncia a incoerência do percurso, mas em uma tradução melhor isso se torna muito evidente. Porém, como sabemos, os evangelhos não são livros de crônicas, mas de teologia. O importante nessa descrição é a passagem de Jesus por regiões pagãs, abrindo o horizonte da comunidade para essa necessidade. Logo, a inconsistência do dado geográfico não reflete desconhecimento do evangelista, mas é fruto de suas intenções teológicas. Tanto Tiro, quanto Sidônia e as dez cidades da Decápole eram terras pagãs. Com isso, o evangelista diz que, ao contrário da Lei, o evangelho não é destinado apenas a Israel, mas ao mundo inteiro. Nenhuma barreira cultural ou religiosa pode impedir a difusão do evangelho, a boa notícia que, de fato, comunica vida.

Após os indicativos espaciais, o evangelista apresenta o personagem com quem Jesus irá interagir: um homem surdo, que falava com dificuldade. Além de mostrar a necessidade de inclusão das pessoas portadoras dessas necessidades, o evangelista quer descrever a situação da comunidade: fechada para ouvir a boa nova, essa se torna também incapaz de anunciar, ou seja, de falar do amor e da justiça propostos por Jesus. Essa precisa ser ajudada, como foi o personagem do evangelho: “Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão” (v. 32). O gesto de alguém ter levado o homem até Jesus revela a necessidade da comunidade para a experiência da fé. É importante que quem já conhece o evangelho facilite para que outras pessoas também possam conhecê-lo, não obstante as dificuldades e barreiras. A surdez era sinônimo de maldição, conforme a mentalidade judaica, pois impedia a pessoa de ouvir a proclamação e a explicação da Torá; ora, sem as normas da Torá, o ser humano estava perdido, sem rumo, impedido de caminhar retamente. Ao colocar Jesus em contato com um homem surdo-mudo, o primeiro ensinamento transmitido pelo evangelista é a acolhida e a inclusão.

A acolhida de Jesus ao homem deficiente que lhe portaram revela a grandeza da sua pedagogia: ele olha para cada um em particular, e age de acordo com as reais necessidades. A imagem da multidão no evangelho, tem um papel ambíguo e, na maioria das vezes, negativo; representa a indecisão, a falta de compromisso, a superficialidade e a indiferença ao Evangelho. Por isso, um passo importante para a conversão e adesão ao Evangelho é afastar-se da multidão, como mostra o evangelista: “Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” (v. 33). Esse afastar-se não significa puritanismo nem exclusão, mas a profundidade da relação estabelecida por Jesus: o contato com ele é pessoal, ele olha e toca em cada um e cada uma em particular, olha nos olhos, interage, cria relação. Afastar-se da multidão é, também, o primeiro passo para se tornar discípulo e discípula.

Os gestos descritos pelo evangelista são muito significativos, e é isso o que mais impressiona neste relato. Até então, Jesus tinha curado pessoas e feito exorcismos usando a palavra e o gesto de um simples toque apenas. Dessa vez, tudo é diferente. Ele toca nos ouvidos e cospe com a saliva. Isso supõe um contato mais demorado com o enfermo, e não um encontro acidental. Esses gestos significam o cuidado ímpar que Jesus dispensa a cada pessoa necessitada, e o evangelista ensina que essa deve ser a postura da comunidade. Ao tocar, ele deixa sua marca no outro, transmite a sua essência. É também um modo de denúncia à tendência de espiritualizar demais o cristianismo, problema vivido pela comunidade de Marcos e por tantas outras ao longo dos séculos. O cristianismo deve ser a religião do toque contato e do cuidado; só se cuida bem tocando, sem medo e nem preconceitos. O toque é um modo de comprometer-se com a situação do outro. Ao tocar nos ouvidos, Jesus transmite o dom da escuta ao Evangelho. As palavras comprometedoras do Evangelho não conseguem ressoar em quaisquer ouvidos; antes de tudo, é um dom, como ele estava concedendo aquele homem. Do dom da escuta, nasce o do anúncio; é esse o sentido do tocar na língua com a saliva. Para a mentalidade semita, a saliva continha o espírito da pessoa; por isso, o evangelista quer afirmar que Jesus transmitiu seu espírito vivificador àquele homem, tornando-o apto também para o anúncio do Evangelho e para expressar suas necessidades, externar seus dramas. Com isso, ensina o evangelista que a comunidade não é espaço de silenciamento. Todos devem ter vez e voz na comunidade onde há seguimento autêntico de Jesus.

A sequência do episódio mostra, ainda mais, a sua importância. O evangelista diz que, Jesus “olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” (v. 34). Ora, o detalhe de Jesus olhar para o céu é raro ao longo dos evangelhos. Ele não faz isso em qualquer situação. Esse gesto significa a oração e a comunhão com Deus, o Pai. É o reconhecimento dos limites das forças humanas e a confiança no divino, o que revela ainda mais a importância desse sinal. O imperativo “abri-te” (em aramaico: efatá) é uma ordem dada não apenas aos órgãos deficientes (ouvidos e língua), mas a toda a pessoa. O verbo grego usado pelo evangelista (διανοιγω – dianóigo) significa abrir completamente, escancarar, como deve ser o ser humano diante do Evangelho, para que esse possa ser um elemento transformador. Certamente, o homem curado tinha muito para desabafar, muitos dramas para compartilhar e denúncias a fazer, sobretudo pelo sofrimento causado pela deficiência, que na época era considerada maldição, castigo de Deus.

À ordem de Jesus, segundo o texto, “imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade” (v. 35). Isso revela a mudança radical que a palavra de Jesus é capaz de provocar no ser humano. O evangelista insiste, com isso, na urgência com que a comunidade cristã deve estar atenta ao Evangelho. É preciso ter ouvidos abertos e atentos para ouvir, e a língua livre para anunciar. Sendo aquele homem um pagão, o evangelista quer dizer que o anúncio do Evangelho não é privilégio de um povo, como era a Lei, mas um dom ofertado a todas as nações. Os critérios de etnia, religião e cultura não tem valor algum diante da palavra de Jesus. O que importa é ter coração disponível para o amor.

Como é praxe em Marcos, mais uma vez “Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam” (v. 36). Esse pedido de Jesus nunca era atendido. Ele costumava pedir segredo quando cumpria um gesto prodigioso. Ele temia que sua fama de messias se espalhasse com distorções, embora nesse episódio essa ordem não tenha muito sentido, pois a fama de messias se espalhava entre os judeus e, nesse caso, ele se encontrava em território pagão. A ênfase aqui é dada na difusão da sua atividade também em terras pagãs, ou seja, fora de Israel.

A conclusão é muito significativa, pois associa a obra de Jesus à obra do Deus criador: “Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (v. 37). Fazer bem todas as coisas é a característica do Deus Criador que, ao final de cada obra criada, contemplava que aquilo era muito bom (cf. Gn 1). Fazer bem as coisas é, portanto, agir como Deus, cuja ação é sempre em favor do bem das pessoas e de toda a criação. Fazer os surdos ouvir e os mudos falar é a realização das expectativas messiânicas anunciadas pelo profeta Isaías (cf. Is 35,5), o que significa uma nova criação. Assim, Jesus, restituindo a vida e a dignidade àquele homem, re-cria, à maneira do Pai, fazendo bem, e elevando a criação à sua máxima realização.

Como destinatários do evangelho, hoje, somos chamados, antes de tudo, a permitir que sejam escancarados nossos ouvidos a tudo o que Jesus ensinou, para que, vivenciando seu ensinamento, seja autêntico o nosso anúncio. Devemos também lutar para que seja reconhecido o lugar de fala de cada pessoa; que ninguém seja silenciado por posturas autoritárias e antievangélicas. Como comunidade de fé, devemos promover a libertação em todas as instâncias, sobretudo, identificando na multidão, quem necessita de cuidado e atenção especiais, como fez Jesus com o homem surdo-mudo. Que a ordem “abri-te” continue ecoando, para tornar nossas comunidades mais acolhedoras, compreensivas, inclusivas e abertas.

 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 7,1-8.14-15.21-23 – ANO B


A liturgia deste domingo – o vigésimo segundo do tempo comum – retoma a leitura do Evangelho de Marcos, após uma interrupção de cinco domingos seguidos, quando foram lidos trechos do capítulo sexto do Evangelho de João e um trecho de Lucas, na solenidade da Assunção. O texto proposto para hoje é Mc 7,1-8.14-15.21-23; está bastante fragmentado, como se vê. Seria mais interessante a leitura completa (vv. 1-23); contudo, devemos nos contentar com o que a liturgia oferece. O trecho selecionado mostra mais uma controvérsia de Jesus com os fariseus e mestres da lei. Os devotos praticantes da religião oficial, fiéis guardiões da moral e dos bons costumes, observam que o comportamento de Jesus e seus discípulos não condiz com as tradições ensinadas e transmitidas pelos antepassados, por isso fazem alguns questionamentos e acusações, sendo não apenas respondidos, mas desmascarados por Jesus. A controvérsia presente no texto de hoje diz respeito às leis de pureza relacionadas às práticas alimentares, uma das principais causas dos conflitos entre o judaísmo oficial e as primeiras comunidades cristãs.

Diz o texto que “Os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus. Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado” (vv. 1-2). Já fazia algum tempo que Jesus era considerado uma pessoa perigosa para a religião e o sistema dominante como um todo, devido à sua maneira autônoma e livre de interpretar os costumes e tradições do seu povo, colocando sempre o bem da pessoa humana acima de qualquer norma. Por isso, seu ministério era monitorado pelas autoridades religiosas de Jerusalém que, informadas pelos fariseus da Galileia, enviavam comitivas para fiscalizar e conferir o seu comportamento fora dos padrões estabelecidos pela religião e a cultura da época (cf. Mc 3,22). Dessa vez, os alvos da denúncia são os discípulos, acusados de não observar as leis de pureza relativas à alimentação, e não Jesus mesmo. Isso mostra que o texto reflete mais a época da redação do Evangelho (anos 60–70 d.C.) do que propriamente o tempo de Jesus. Porém, é impossível separar a prática dos discípulos da prática do mestre. Portanto, é inegável que o próprio Jesus recebeu críticas e acusações por causa dessa prática, e a vida dos discípulos das primeiras gerações era verdadeira extensão da sua. A acusação é de que os discípulos comiam sem antes lavar as mãos. A prática de lavar as mãos antes da refeição não era uma regra de higiene, como é hoje, mas um preceito religioso: deixar de lavar as mãos tornava a pessoa impura e, por isso, distante de Deus. A não observância desse preceito pelos discípulos e, certamente também por Jesus, era uma denúncia a essa mentalidade religiosa fundamentalista e excludente, que reduzia a relação com Deus a práticas ritualistas e exteriores. Era uma regra de higiene o lavamento dos pés, a mais humilhante função do escravo, e isso Jesus recomendou que os discípulos fizessem uns aos outros como sinal de serviço (cf. Jo 13,1ss). 

Escrevendo seu evangelho fora da Palestina, provavelmente em Roma, e para uma comunidade que já não conhecia tão bem as tradições judaicas de pureza alimentar, o evangelista, para informar melhor os seus leitores, oferece uma nota explicativa: “Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre” (vv. 3-4). Conforme a maioria dos estudiosos, essa explicação do evangelista é um dos principais elementos que atestam a redação da obra fora da Palestina, e a predominância de cristãs de origem não judaica como destinatários, ou seja, pessoas que não conhecia certos costumes judaicos. Com ela, o evangelista visa advertir seus leitores a não reproduzirem na comunidade cristã as atitudes que Jesus reprovou na religião judaica de seu tempo. Como já afirmamos acima, as motivações de tal comportamento imposto pela religião não eram higiênicas, mas religiosas. O motivo de ter de tomar banho ao voltar da praça, por exemplo, era que o contato com outras pessoas que não praticassem a mesma religião tornava o judeu impuro e, de consequentemente, longe de Deus. A praça (em grego: ἀγορά – agorá), que poderia ser  traduzida também por mercado, era o espaço de circulação de pessoas, comercialização de produtos e propagação de doutrinas filosóficas e religiosas, onde se encontravam pessoas de diversas culturas; para os judeus mais fundamentalistas, era um lugar perigoso, pois o simples contato com uma pessoa de outra cultura já tornava o judeu impuro; por isso, ao retornar para casa, era necessário purificar-se o quanto antes, com o ritual do lavar-se (ablução). Havia prescrições determinando até mesmo a maneira de lavar os objetos domésticos (v. 4).

No mundo antigo, tanto na cultura greco-romana quanto na semita, os mestres tinham a responsabilidade de responder pelo comportamento dos seus discípulos. Por isso, quando se via em algum discípulo um comportamento irregular, fora dos padrões estabelecidos, era ao mestre que se reclamava e criticava. Inclusive, escritos extra-bíblicos do final do primeiro século e início do segundo, sobretudo de autores a serviço do império romano, continuavam “culpando” um certo “Cristo” pelo comportamento subversivo dos cristãos, o que reforça a responsabilidade do mestre do mestre em relação aos discípulos. É nessa perspectiva, portanto, que os vigilantes da religião pedem satisfações a Jesus: “Os fariseus e os mestres da Lei perguntaram então a Jesus: ‘Porque os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” (v. 5). Mais do que um simples questionamento, essa pergunta dos fariseus e mestres contém uma grave acusação: os discípulos de Jesus não seguem as tradições dos pais! Ora, além dos numerosíssimos mandamentos da Torá, principalmente as leis do Levítico, os judeus mais fiéis, como os fariseus, seguiam também as leis da “tradição oral”; a essa tradição, eles atribuíam o mesmo valor da lei escrita, a Torá, pois também consideravam proveniente de Deus e transmitida a Moisés, o qual a repetiu para Josué e depois aos sucessivos chefes religiosos. Deixar de cumprir um só daqueles preceitos era ofender a Deus e desonrar os antepassados.

À pergunta acusatória dos fariseus e mestres da lei, “Jesus respondeu: ‘Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos. Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens” (v. 6-7). A resposta de Jesus se fundamenta na herança mais autêntica da religião de Israel: a profecia! Ele cita explicitamente Isaías 29,13, denunciando a falsidade da religiosidade dos fariseus e mestres da lei e, ao mesmo tempo, provocando-os a buscar uma religião autêntica, vivida a partir de dentro, ou seja, do coração. Mesmo que tenha sido cultivada e transmitida durante muitos séculos, a tradição que separa, segrega e condena, não passa de preceito humano, não pode ser de origem divina. Ao chamar os fariseus e mestres da lei de hipócritas (ὑποκριτής – hipocritês), termo grego que significa ator de teatro, Jesus denuncia que toda aquela religiosidade não passava de encenação, era um mero espetáculo, como é toda religião que, independente da época histórica, prioriza o rito e o preceito ao invés do amor, da justiça e da misericórdia. Jesus atualizou a denúncia profética de Isaías e o evangelista Marcos convida os seus leitores de todos os tempos a fazer o mesmo, inclusive a ler as Escrituras somente tendo Jesus como chave interpretativa.

Jesus troca de interlocutores, considerando o risco que era a mentalidade dos fariseus para a multidão. Por isso, à multidão, transmite um ensinamento solene e importante: “Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: “Escutai, todos, e compreendei: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” (vv. 14-15). Com esse ensinamento, Jesus decreta a inutilidade e ineficiência dos ritos judaicos de purificação e proclama que a relação do ser humano com Deus não depende de fatores externos, mas simplesmente do interior, ou seja, do coração. O mal não entra de fora no ser humano por contato com pessoas, coisas, lugares e alimentos, mas pode nascer de dentro quando o amor não é cultivado no coração, como ele mesmo afirma, na sequência: Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (vv. 21-22)Esses treze elementos citados constituem o que pode realmente tornar o ser humano impuro, ou seja, longe de Deus, e são típicos de quem se fecha ao amor e à justiça; não são ocasionados por situações exteriores, mas depende somente do coração da própria pessoa. Por “falta de juízo”, o último dos males elencados, entende-se o egoísmo desenfreado que faz a pessoa pensar somente em si.

Assim, como “todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (v. 23), a boa religião para Jesus é aquela que ajuda o ser humano a promover o bem e a ser, a cada dia, uma pessoa melhor. Na perspectiva de Jesus, conforme o relato de Marcos, a religião só tem sentido se ela for um fator de humanização. Reduzida a um conjunto de tradições, ela é apenas um elemento, talvez o mais perverso, a serviço do sistema dominante. O ser humano é impuro quando não permite que de seu coração saiam coisas boas. Nenhum rito ou norma é capaz de determinar a relação com Deus, nem de determinar a bondade do ser humano, mas somente a disposição interior de fazer o bem. E, é claro, o contato com o Evangelho de Jesus ajuda na criação das disposições interiores à prática do bem.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 6,60-69 – ANO B



Com a liturgia deste vigésimo primeiro domingo do tempo comum, conclui-se a sequência de cinco domingos de leitura do sexto capítulo do Evangelho de João, embora tenham sido utilizados somente quatro domingos, devido à solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada no domingo passado. O texto lido hoje é Jo 6,60-69, e contempla a reação final dos discípulos, incluindo os Doze, diante do longo e exigente discurso de Jesus sobre o pão da vida, que é ele mesmo, e a necessidade de alimentar-se dele para obter vida em plenitude. Tudo isso, ainda, como desdobramento do sinal da multiplicação (condivisão) dos pães no início do capítulo (cf. 6,1-15).

A multidão que tinha sido saciada com a partilha dos cinco pães e dois peixes quis, de imediato, proclamar Jesus como rei (cf. 6,15). Diante de uma ideia tão absurda, Jesus refugiou-se (cf. 6,15), mas a multidão o encontrou novamente, já na sinagoga de Cafarnaum, do outro lado do lago (cf. 6,22-25), esperando comer de novo pão gratuito e em abundância (cf. 6,26). Ao sentir-se incompreendido, Jesus aproveitou a oportunidade para fazer uma ampla catequese, apontando para a importância de se buscar não apenas o pão material, pois, embora necessário e essencial, esse é perecível e seus efeitos duram poucas horas. Por isso, apontou para a necessidade de um alimento que dura por toda a vida, mostrando que esse alimento é a sua própria pessoa (cf. 6,27-40).

Ao apresentar-se como verdadeiro alimento, ou seja, como pão da vida ou pão vivo descido do céu, e convidar os ouvintes a comer a sua carne e beber o seu sangue, Jesus causou perplexidade, questionamentos, incredulidade e ira no seu auditório; enfim, provocou as mais variadas reações. O evangelista João recorda tudo isso para ajudar a sua comunidade a discernir e tomar decisões: o seguimento de Jesus é comprometedor... ser discípulo e discípula dele não é memorizar uma doutrina para depois repeti-la, mas é entrar em comunhão plena com a sua pessoa, assimilando seu jeito de ser; é esse o sentido de comer a sua carne e beber o seu sangue (cf. 6,54). Recebê-lo como alimento é tornar-se também alimento para os outros. Uma proposta de vida tão exigente assim não poderia ser absorvida com facilidade.

Tendo já mostrado as reações de outros interlocutores, como a própria multidão e “os judeus”, ao discurso de Jesus como verdadeiro alimento e pão para a vida eterna, o evangelista quis mostrar também a reação dos discípulos, pois era essa a que mais interessava à sua comunidade que se encontrava com a fé comprometida, devido as perseguições e o “esfriamento” no fervor de alguns membros. Por isso, o evangelista recordou que “Muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: ‘Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la’?” (v. 60). Os próprios discípulos contestam o discurso de Jesus, e essa é a grande novidade do evangelho de hoje. Ora, os evangelhos mostram muitas situações em que Jesus é contestado pelos seus tradicionais adversários (fariseus, saduceus, mestres da lei), mas raramente pelos discípulos. O máximo que os discípulos ousavam era fazer perguntas e pedir esclarecimentos sobre alguns aspectos da sua vida e do seu ensinamento. Normalmente, eles concordam, ou pelo menos fingem concordar, com tudo o que Jesus diz, exceto nos anúncios da paixão dos Sinóticos.

A reclamação dos discípulos é um verdadeiro protesto contra Jesus: “Esta palavra é dura”. O adjetivo grego empregado pelo evangelista, traduzido por dura, é sklerós (σκληρός), do qual deriva a palavra esclerosado/a. Além de dura, essa palavra significa também difícil, insuportável, inadmissível, ofensivo e violento. Os discípulos se sentiam completamente incapacitados para continuar no seguimento, uma vez que o anúncio de Jesus parecia inviável. A dureza da palavra de Jesus consiste no comprometimento que dela deriva: diante dela, é preciso tomar posições firmes, como tornar-se alimento para os outros, fazendo as mesmas opções de Jesus e, consequentemente, assumindo as consequências. É uma palavra dura porque não se trata de um discurso para ouvir uma vez por semana, como a liturgia da sinagoga, mas exige uma coerência de vida cotidiana; não é uma palavra para ser simplesmente proferida, mas para ser vivida.

Além da reclamação, Jesus percebeu que “seus discípulos estavam murmurando, e por causa disso mesmo, perguntou: ‘isto vos escandaliza?” (v. 61). Murmurando, os discípulos repetem um dos antigos pecados de Israel. No contexto do êxodo, os israelitas recém-libertados murmuravam constantemente contra Deus e Moisés (cf. Ex 16,2-4). O verbo murmurar, como emprega o evangelista (em grego: γογγύζω – gonguízo) expressa uma revolta contra Deus; considerando toda a simbologia do mundo bíblico, é a negação da fé. No contexto dos evangelhos, é o verbo empregado tradicionalmente para descrever a reação dos adversários de Jesus (fariseus, saduceus, sacerdotes, etc.). Portanto, os discípulos, ou pelo menos uma parte deles, estavam agindo como adversários de Jesus, pois se sentiram ofendidos pelo seu discurso. Ao perguntar se aquilo, o discurso, os escandalizava, ou seja, se era impedimento para a fé deles, Jesus vai bem mais além, dizendo, em outras palavras, que era como se os discípulos “ainda não tivessem visto nada”: “E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?” (v. 62). Ora, uma das passagens mais chocantes do discurso de Jesus foi dizer ser ele “o pão vivo descido do céu”; um absurdo para seus ouvintes que conheciam até mesmo seus pais e sabiam que ele não passava de um carpinteiro (cf. 6,41-42). Logo, a sua subida seria muito mais chocante para os discípulos, uma vez que compreendia a morte na cruz, que deveria ser o destino reservado também a eles. Aqui, portanto, Jesus os previne: coisas piores estão por acontecer. Ora, se ficaram escandalizados porque Jesus desceu do céu, muito mais ficariam com a subida, uma vez que essa pressuponha a cruz, e o destino dos crucificados, conforme a tradição, era a condenação eterna.

Diante da reação negativa, Jesus não procura conformar seu discurso e suas exigências às capacidades e disposições dos discípulos; pelo contrário, reforça o que já havia dito e deixa claro que já previa a resistência e até mesmo a negação completa de seu projeto por alguns discípulos: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não crêem’. Jesus sabia desde o início, quem eram os que tinham fé e quem havia de entregá-lo” (vv. 63-64). A revolta dos discípulos não faz Jesus alterar seu projeto. Ele reforça sua confiança no Pai e a relação intrínseca entre os dois: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai” (v. 65). Se foi o Pai quem o enviou, é também o Pai quem chama e atrai para o seu seguimento. Na história da salvação, a iniciativa é sempre de Deus. Quem se deixa atrair pelo Pai e vai a Jesus, terá a plenitude da vida, não como prêmio, mas como consequência. Os evangelistas fazem questão de ressaltar, e João com mais precisão ainda, que a salvação é um projeto originado no Pai, de quem Jesus é o agente autorizado para torná-la acessível a toda a humanidade.

O evangelista apresenta aquele momento como um divisor de águas na vida de Jesus e dos discípulos, pois fora a sua máxima revelação, até então, na dinâmica do Quarto Evangelho. Foi o momento em que Jesus mais falou de si, deixando-se conhecer completamente. O evangelista sentia que a sua comunidade, vivendo momentos de altos e baixos no discipulado, precisava tomar decisões importantes e, para isso, era necessário tornar Jesus cada vez conhecido em toda a sua profundidade, inclusive deixando mais claro o seu programa de vida com as exigências nesse implicadas. Até mesmo o encontro semanal da fração do pão (eucaristia) estava perdendo a sua importância na comunidade joanina, passando a ser apenas um conjunto de ritos, deixando de ser verdadeiro encontro de comunhão transformadora. Assim como Jesus mesmo fez, também o evangelista quis mostrar que o discipulado não é uma obrigação, e sim uma opção, por sinal, radical e exigente. Por isso, “A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (v. 66). Houve desistência entre os discípulos porque nem todos estavam dispostos a aderir aos compromissos do discipulado. As “palavras duras” são realmente difíceis de ser assimiladas e vividas, de modo que um seguimento superficial não tem como se sustentar. Por isso, muitos desistiram de continuar seguindo-o. A “debandada” de discípulos nas comunidades de tradição joanina parece ter sido marcante, pois na Primeira Carta o autor faz referência, embora com outras palavras, ao mesmo fato: “Eles saíram de nosso meio, mas não eram dos nossos; se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco”. (1Jo 2,19). Por isso, no discurso de despedida, o verbo mais utilizado por Jesus será o verbo “permanecer” no modo imperativo (cf. Jo 14-17). 

Entre os discípulos e discípulas, estava o seu núcleo primeiro, o chamado grupo dos Doze, a quem Jesus se dirige com muita firmeza: “Vós também vos quereis ir embora?”  (v. 67). Com essa pergunta, Jesus mostra seu respeito pela liberdade de cada pessoa e, sobretudo, as convicções do seu projeto: ele prefere ficar sem discípulos do que mudar o seu programa. Suas exigências são inegociáveis. Em uma sociedade dominada pelo egoísmo, injustiça, privação de liberdade, exclusão e hipocrisia, as “palavras duras” são necessárias para desestabilizar o sistema e, assim, iniciar a construção de um mundo novo repleto de amor, justiça, fraternidade e paz. Essa é a primeira vez que João se refere ao grupo dos discípulos como os Doze; e só fará isso mais três vezes (cf. Jo 6,67.71; 20,24). No contexto do sinal da partilha dos pães, essa menção adquire um sentido ainda maior: assim como sobraram doze cestos de pães, após a multidão se saciar (Jo 6,13), sobraram doze discípulos para Jesus. É um claro recado do evangelista às suas comunidades e aos seus leitores de todos os tempos: a comunidade de Jesus é feito das sobras, das margens, dos excluídos. Os Doze não foram os melhores, foi o que sobrou para Jesus.

Mesmo não sendo totalmente coerente, o grupo dos Doze optou por continuar no seguimento, como mostra o evangelista com a resposta de Pedro: “Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o santo de Deus” (v. 68-69). Do que sobrou, Jesus encontrou resposta para seu projeto de libertador. Ao responder no plural, Pedro fala em nome dos Doze. É a resposta da comunidade que, embora pequena numericamente, procura perseverar com fidelidade no seguimento, reconhecendo que, mesmo duras, as palavras de Jesus contêm vida, são palavras de vida eterna, as únicas que podem restituir vida em abundância e esperança para todos, sobretudo os mais necessitados, ou seja, os restos descartados pelos sistemas de dominação. A resposta de Pedro indica reflexão. Não há outro a quem ir; não há outro que tenha uma proposta tão inclusiva. Num mundo hostil e perverso, explorado pela religião e pelo império romano, a comunidade joanina, mesmo sendo um pequeno resto, não via outra possibilidade de encontrar vida e sentido para a vida senão nas palavras de Jesus.

Além da confiança nas palavras de Jesus, a resposta de Pedro também expressa a fé da comunidade: “nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (v. 69)Provavelmente, essa expressão é uma adaptação que o evangelista faz da solene profissão de fé de Pedro nos evangelhos sinóticos: “Tu és o Cristo” (cf. Mc 8,29; Mt 16,16; Lc 9,20). Quem o reconhece como o “Santo de Deus” não se deixa escandalizar pelas suas declarações como pão descido do céu; pelo contrário, nessas palavras encontra forças para crescer na fé. Assim, os Doze conseguem assimilar a outra dimensão da dureza: a firmeza, a coragem e a força, elementos necessários e essenciais para implantar, no mundo, a civilização do amor. A proclamação de Jesus como “O Santo de Deus” é também uma forma de dizer que ele é o único agente de Deus para agir em seu nome com legitimidade. Desse modo, a religião do templo, da sinagoga na época da redação do evangelho, não tinha mais autoridade para revelar Deus e agir em seu nome. Só Jesus revela Deus. Só se conhece Deus passando por Jesus, e só passa por Jesus quem come sua carne e seu sangue, ou seja, quem assimila seu jeito de viver.

Que saibamos reconhecer que as palavras duras de Jesus são também portadoras de espírito e vida, por isso, indispensáveis para a missão. Que essas mesmas palavras nos ajudem a discernir e escolher a qual projeto e religião seguir: um projeto de vida consistente e comprometedor, que não exige meios termos, mas apenas um engajamento total e transformador ou, simplesmente, uma religião como conjunto de ritos e normas com encontros dominicais fervorosos e semanas vazias de sentido e de amor. O Evangelho de hoje nos coloca na encruzilhada; é preciso tomar decisão: continuar seguindo-o ou abandoná-lo. Ele nada impõe, cada pessoa é livre para segui-lo ou não. Porém, de quem escolhe segui-lo exige-se o compromisso de ser portador de uma palavra dura, embora portadora de vida, esperança e amor.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – LUCAS 1,39-56

 


Independentemente do ano litúrgico, o evangelho proposto para a solenidade da Assunção de Maria é sempre Lc 1,39-56, um texto importante do Evangelho de Lucas, que compreende a visitação de Maria à sua parenta Isabel, e o famoso cântico do Magnificat. Embora a assunção só tenha se tornado dogma em 1950, pelo papa Pio XII, as tradições relativas são muito antigas. Inicialmente, celebrava-se essa festa com o nome de “dormição de Nossa Senhora”, título que as igrejas do Oriente preservam até hoje. Contudo, como sempre, concentramos a nossa reflexão exclusivamente a partir do texto evangélico proposto, o qual possui grande importância para o conjunto da obra de Lucas. E é importante começar pelo contexto, que é o chamado “Evangelho da Infância” de Lucas (Lc 1–2). Nestes primeiros dois capítulos, o evangelista sintetiza toda a sua obra, antecipando as suas principais linhas teológicas, e o trecho lido hoje é uma boa demonstração disso.

A primeira novidade que o texto evidencia é o protagonismo feminino: a cena é dominada pelo encontro de duas mulheres que, em diálogo, expressam suas impressões sobre os últimos acontecimentos, reconhecendo neles o agir de Deus. Com isso, o evangelista preconiza o início de uma nova história para a humanidade, com novas perspectivas e esperanças; trata-se de uma história construída e escrita a partir dos pobres, desprezados e marginalizados da sociedade, como eram as mulheres na época em que Evangelho foi escrito. O que Deus sempre propôs à humanidade, começa a cumprir-se e realizar-se definitivamente a partir do sim de Maria. Como pessoas simples e humildes, Maria e Isabel, protagonistas do episódio, são uma prova de que o Deus de Israel tem um lado na história: o lado dos pobres, humildes e marginalizados, a quem ele dirige o seu olhar misericordioso (v. 48).

Certamente admirada com tudo o que estava acontecendo consigo e com Isabel, pois o anjo lhe informara (cf. Lc 1,36), Maria tomou a firme decisão de ir visitar sua parenta: “Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia” (v. 39). Embora a maioria das interpretações apontem o desejo de servir a Isabel como o motivo da partida apressada de Maria, o texto não fornece nenhum indício. Sem dúvidas, o serviço ao próximo sempre fez parte do estilo de vida de Maria, sobretudo após o seu sim a Deus. Mas aqui podemos ver algo além disso. Ora, quando Maria questionou o anjo no momento do anúncio, sobre como poderia engravidar se não tinha relação homem algum (cf. Lc 1,34), o anjo disse que tudo seria obra do Espírito Santo, e ainda deu um exemplo concreto e próximo de que nada é impossível para Deus: Isabel, uma anciã estéril estava grávida (cf. Lc 1,36). A gravidez de uma anciã estéril seria tão surpreendente quanto a de uma jovem virgem. É normal e compreensível que Maria tenha procurado Isabel para confirmar se o que anjo lhe dissera era verdade. Também é normal que tenha procurado sua parenta para partilhar a alegria do que estava acontecendo com ambas, como sinal da fidelidade de Deus ao seu povo, Israel, de quem as duas são imagens.

Ao conceder tanto espaço a Maria no início do seu Evangelho, Lucas está criando o modelo de discípulo/discípula ideal para Jesus. Por isso, é importante apresentá-la em movimento, disposta a proclamar, até nos lugares mais distantes, as maravilhas de Deus e a certeza de que ele está construindo uma nova história. A partida de uma jovem grávida de Nazaré, na Galileia, para a Judeia antecipa os desafios e a necessidade dos discípulos de todos os tempos estarem sempre em estado de saída. Mesmo que a distância não fosse tão grande, as circunstâncias eram muito adversas para uma mulher jovem e grávida. É típico da obra lucana o movimento, o sair de si. Essa partida imediata de Maria faz dela um modelo de discípula e, ao mesmo tempo, inaugura o primeiro movimento de Jesus: ainda no ventre, Ele já estava inquieto e pronto a romper qualquer situação de estabilidade e tranquilidade, mesmo enfrentando adversidades e perigos, como Maria enfrentou ao partir sozinha para uma região montanhosa e de difícil acesso.

Ao chegar ao destino, Maria “Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel” (v. 40). Muito mais que cumprimentar, o verbo “saudar” seria mais apropriado na tradução do texto. A expressão hebraica para a saudação é o desejo de paz (em hebraico: shalom). Ao enviar os discípulos em missão, Jesus ordenou que eles desejassem a paz em cada casa que entrassem (cf. Lc 10,5). Aqui, mais uma vez, Maria antecipa a atitude de cada discípulo e discípula: ser portador(a) da paz! Como mulher inovadora e corajosa, ela ignora a tradição patriarcal e saúda a mulher ao invés do homem (v. 40). Assim, ela provoca uma verdadeira revolução e inversão de valores nas relações sociais, como aprofundará no seu hino, o Magnificat. Na sociedade do seu tempo, quem deveria ser saudado era o dono da casa; saudando a mulher, ela afirma que um tempo novo está surgindo, com novas relações e uma nova ordem.

A saudação de Maria irradia paz no ambiente, a ponto de fazer até mesmo a criança, ainda no ventre, agitar-se (v. 41a). Isso porque Isabel fica “cheia do Espírito Santo” (v. 41b). Trata-se do mesmo Espírito prometido pelo anjo a Maria no momento do anúncio: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (cf. Lc 1,35a). Como força vital, o Espírito Santo é luz irradiante e interpelante, que pode ser sentido quando transmitido por pessoas cheias dele, como Maria. Quem recebe o Espírito Santo, o irradia por onde passa e onde chega. A atitude de Isabel não poderia ser outra, senão exclamar, gritando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (v. 42). É a palavra profética que nela se atualiza. Sabendo que Maria carregava dentro de si o Messias, isso fazia dela a mais “bendita” entre todas as mulheres. Assim, Isabel torna-se a primeira a proclamar as “bem-aventuranças” no Evangelho de Lucas. Ora, gerar filhos na mentalidade bíblica, era sinal de bem-aventurança e bênção; uma confirmação de que se tinha Deus a seu favor. Logo, gerar o Messias seria prova de uma dignidade inigualável.

Tendo composto seu Evangelho com muita atenção para a Escritura hebraica, o Antigo Testamento, Lucas procura atualizá-lo no “evento Cristo”. Assim, na continuação da exclamação de Isabel, o evangelista desenha Maria como a nova “Arca da Aliança”. Como sabemos, na arca da aliança eram guardadas as tábuas da lei, sinal máximo da presença de Deus no meio do seu povo. Com a exclamação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (v. 43), Lucas relembra e atualiza as palavras de Davi quando estava para receber a Arca em sua casa: “Como virá a Arca de Iahweh para minha casa?” (2 Sm 6,9). Portanto, Lucas percebe em Maria a arca da nova da aliança, não mais portadora da Lei, mas portadora do amor e da misericórdia de Deus. Davi exclamou com medo (cf. 2 Sm 6,10), enquanto Isabel exclamou de alegria, o que mostra que a Lei escraviza e o amor liberta.

E, mais uma vez, Maria é reconhecida como bem-aventurada“Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45). Além de exaltar as qualidades de Maria, as palavras de Isabel são também uma repreensão ao seu esposo Zacarias, o qual, ao contrário de Maria, não acreditou no anúncio do anjo (cf. Lc 1,20), por isso ficou mudo até que o menino nascesse. Isabel combate a incredulidade do marido e reforça a sua fé renovada pela presença de Maria, como ela confessou: “Será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45b). Ao repreender a incredulidade do esposo Zacarias, um sacerdote, Isabel proclama a decadência da antiga religião oficial do templo, demonstrando que somente os pobres, simples e humildes são capazes de acolher as intuições do Espírito Santo, como Maria. Assim, a religião do rigor e da Lei está superada.

Provavelmente constrangida com tantos elogios da parte da sua parenta, Maria a interrompe e, exultando de alegria, expressa seu louvor a Deus com o seu cântico, conhecido como Magnificat (vv. 46-54). Isso reflete também a preocupação do evangelista com a construção futura da imagem de Maria na Igreja: não é ela que deve ser louvada, mas o Deus que nela age. O centro do culto e da vida cristã é sempre Deus, pois é ele o autor das maravilhas operadas e, portanto, é a ele que o reconhecimento e o louvor devem ser dirigidos. O Magnificat é o primeiro dos cânticos que Lucas apresenta em seu Evangelho. Trata-se de uma composição que sintetiza todo o Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, antecipa a missão de Jesus. Lucas faz uma construção nova com pedras antigas, pois o texto é um verdadeiro mosaico de citações do Antigo Testamento. A estrutura geral é tomada do cântico de Ana (1Sm 2,1-10), o que se explica pela semelhança das duas situações, uma vez que, assim como Isabel, também Ana era considerada estéril e concebeu um profeta, Samuel, como Isabel concebeu João Batista. Se Isabel estava maravilhada por contemplar grandes coisas (vv. 42-45), Maria lhe ajuda a compreender melhor tal situação, convidando-a a olhar para a história e perceber que, na verdade, esse Deus de Israel nunca esqueceu o seu povo, sempre fez grandes coisas em seu favor e, portanto, é a Ele que o louvor deve ser dirigido. Tudo o que estava acontecendo era dom de Deus.

Maria personifica todo o Israel e resume os grandes feitos de Deus na história, destacando, sobretudo, a sua predileção pelos pobres, humildes e humilhados. Quando reconhece que “o Todo-Poderoso fez e faz grandes coisas” (v. 49), ao mesmo tempo se afirma que não há outros poderosos, exatamente porque devem ser derrubados de seus falsos tronos (v. 52). E essa é a primeira condição para o início da edificação do Reino de Deus: a queda dos poderosos, ou seja, de todos os detentores de poder que oprime e mata. Um só é o Poderoso, Deus, e destina seu poder em favor da libertação dos pequenos. Temos, então, o início do cumprimento das antigas promessas, agora sob a responsabilidade de Jesus e da comunidade dos discípulos, da qual Maria é modelo. A versão de Lucas das bem-aventuranças e maldições é também aqui antecipada: a expressão “Encheu de bens os famintos” (v. 53a) antecipa as bem-aventuranças dirigidas aos pobres (Lc 6,20-21); já a expressão “Despediu os ricos de mãos vazias” (v. 53b) antecipa as repreensões – ai de vós – dirigidas aos ricos (Lc 6,24-25). É, sem dúvidas, a síntese da oração de Israel que deverá ser continuada pela comunidade dos discípulos, a Igreja cristã. É clara, portanto, a intenção de Lucas de antecipar a missão de Jesus. Isso mostra também que ele é o evangelista que mais retoma a mensagem profética de denúncia às injustiças sociais. A predileção de Deus pelos pequenos, tão clara no ministério de Jesus, era central na mensagem dos profetas do Antigo Testamento. E o Magnificat evidencia bem essa continuidade.

A conclusão do texto reafirma a imagem de Maria como nova arca da nova aliança: “Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa” (v. 56). Há uma expressão muito parecida aparece em 2Sm 6,11: “A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom e a toda a sua família”. A presença de Maria na casa de Isabel foi, com certeza, a confirmação da bênção de Deus sobre ela, seu esposo Zacarias e o filho esperado, João Batista. Na arca da nova aliança não há tábuas da Lei, não há norma nem preceito, há apenas Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com toda a humanidade. O tempo de permanência de quem irradia o Espírito Santo e a alegria do Evangelho, como fez Maria e assim devem fazer os discípulos de todas as épocas, é o suficiente para ressignificar a vida e ler os acontecimentos do presente à luz de tudo o que Deus tem realizado ao longo da história.

  Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN