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REFLEXÃO PARA O SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 2,1-11 (ANO C)





A liturgia do segundo domingo do tempo comum, independente do ano, sempre propõe um texto do Evangelho segundo João (Ano A: Jo 1,29-34; Ano B: Jo 1,35-42). Neste ano C, o texto proposto é Jo 2,1-11, a narrativa do episódio conhecido como as “Bodas de Caná”. Ao longo do ano, a liturgia do tempo comum faz uma apresentação contínua da vida pública de Jesus, desde os seus primeiros passos na Galileia até o seu final em Jerusalém. Recorre-se, portanto, ao Evangelho segundo João no segundo domingo, como estratégia didático-catequética, porque é esse o evangelho que melhor introduz a vida pública de Jesus, através da chamada “semana inaugural”, iniciada com o envio de uma comitiva pelas autoridades de Jerusalém para fiscalizar a atividade do Batista (cf. Jo 1,19-28), e concluída com o episódio das bodas de Caná, evangelho de hoje.

Embora simples do ponto de vista narrativo (uma história com trama, cenário e personagens bem definidos), o texto apresenta uma grande complexidade teológica. Por isso, preferiu-se, ao longo dos séculos, uma interpretação quase literal, limitada a fundamentar a intercessão de Maria e, assim, fomentar a devoção. Tem sido grande o esforço da exegese atual para restituir ao texto o seu valor cristológico, praticamente ofuscado pela leitura devocionista aplicada ao longo do tempo. O primeiro passo para isso é situar o texto no seu devido contexto. Como acenamos acima, João introduz a vida pública de Jesus com episódios distribuídos ao longo de uma chamada “semana inaugural”; o ponto alto dessa semana é o episódio das bodas de Caná, o qual funciona como introdução e porta de entrada para todo o Evangelho. Tudo o que será desenvolvido ao longo do Evangelho, portanto, serão desdobramentos desse episódio.

O texto inicia com um dado importante, omitido pela liturgia: “No terceiro dia”, substituído pela genérica e desnecessária expressão “Naquele tempo”. Embora seja já o dia conclusivo da semana, o sexto dia, o evangelista omite alguns dias de propósito, para que este episódio se realize no “terceiro dia”. Ora, o último episódio narrado tinha sido o encontro de Jesus com Filipe e Natanael (cf. Jo 1,43-51); as bodas de Caná, portanto, acontecem no “terceiro dia” após esse episódio. Mais que um dado cronológico, a expressão “terceiro dia” é um indicativo teológico: significa uma manifestação especial de Deus; de imediato, pensamos na ressurreição de Jesus, o maior dos acontecimentos ao “terceiro dia”, mas há outros episódios importantes na Bíblia que também aconteceram no “terceiro dia”: foi no “terceiro dia” que Abraão subiu à montanha para sacrificar Isaac, provando a sua fé (cf. Gn 22,4), e foi no “terceiro dia” que Deus manifestou a sua glória no Sinai e entregou a Lei a Moisés (cf. Ex 19,16ss). Ao apresentar o primeiro sinal de Jesus ao “terceiro dia”, João sinaliza que toda a sua vida será manifestação e intervenção de Deus na história, cujo ápice será a ressurreição, também no “terceiro dia”. Portanto, “terceiro dia” é uma expressão teológica que indica o agir de Deus.

Eis, então, o que houve no “terceiro dia”: “um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente” (v. 1). As festas de casamento, na cultura semita, eram esperadas com muita ansiedade; normalmente, duravam uma semana, mas a depender das condições dos noivos, poderia se estender até por duas semanas. Além do seu sentido social, o matrimônio servia como símbolo da relação entre Deus e o seu povo, Israel, desde o profeta Oséias (século VIII a.C.). Com essa festa, portanto, o evangelista quer mostrar a situação da aliança, como o povo de Israel estava se relacionando com Deus, e a necessidade urgente de uma intervenção. A mãe de Jesus não é mencionada pelo seu nome próprio nesse episódio, porque ela é uma personagem corporativa, ou seja, representa uma comunidade, e não apenas a síngula pessoa de Maria. Quando os profetas denunciavam as injustiças e a corrupção reinantes em Israel, mencionavam também um “resto” fiel que veria a realização das promessas de Deus. A mãe de Jesus é, nesse relato, a imagem do resto fiel de Israel que nunca se distanciou de Deus. Por isso, ela já “estava presente” no casamento, porque fazia parte daquela comunidade.

Ao contrário da mãe que já “estava presente”, o evangelista diz que “Jesus e os discípulos foram convidados para o casamento” (v. 2); embora sutilmente, o evangelista faz uma distinção: Jesus e os discípulos foram à festa, mas não faziam parte. Ao longo de todo o Evangelho, João mostrará como Israel não aceitou Jesus, tratando-o como um estranho, inclusive no prólogo já tinha antecipado: “Veio para os seus, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11). Porém, para conhecer as reais necessidades e problemas é necessário estar inserido e fazer parte da realidade; tampouco basta conhecer as necessidades e os problemas; é preciso tomar iniciativa e buscar soluções, como fez a mãe: “Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho” (v. 3). A mãe de Jesus, como imagem do Israel fiel, é a mais legítima conhecedora das carências e falhas na relação de seu povo com Deus; ela não faz um pedido a Jesus, como insinuam as interpretações devocionistas. Ela constata uma situação e faz uma denúncia: a falta de vinho nessa festa de casamento é, na verdade, a falta de amor e de alegria na antiga aliança. A mãe constata que Israel falhou em sua relação com Deus e, portanto, a aliança fracassou. O vinho era essencial numa festa e, na Bíblia, é sinal de alegria, amor e felicidade.

A mãe de Jesus é a primeira a perceber a esterilidade da relação de Israel com Deus. Ora, o povo de Israel imaginava que entrava em comunhão com Deus através de sacrifícios, purificações e ritos, independente da prática da justiça e da conduta ética, sobretudo na relação com o próximo; praticava-se a religião do mérito com muitas ofertas e sacrifícios. Foi isso que a mãe de Jesus constatou ao lhe dizer que não havia mais vinho na festa. Não havia mais amor e alegria na maneira do povo relacionar-se com Deus. Ela percebeu também que somente Jesus poderia contornar aquela situação. A proposta de vida de Jesus, fundamentada no amor, era a única saída para Israel reencontrar-se consigo mesmo e com Deus, e continua sendo, para toda a humanidade. Como a mãe, nesse episódio, representa toda a comunidade do resto fiel de Israel, a sua relação com Jesus carrega uma certa formalidade: “Jesus respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou” (v. 4). Jesus não a chama de mãe, apenas de mulher, e esclarece que não depende somente dele, ao dizer que a sua hora ainda não chegou; depende do Pai, sobretudo.

Mesmo sem receber uma resposta positiva, a mãe confia na providência, como modelo de crente. Como conhecedora da situação, ela vê como urgente a intervenção de Deus, através de Jesus; por isso, ordenou aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser” (v. 5). Ora, a antiga aliança foi concluída com a resposta solene do povo a Moisés: “Sim, nós faremos tudo o que Iahweh disse!” (Ex 24,7). A história mostra que Israel falhou e não fez a vontade de Deus. A antiga aliança fracassou exatamente porque o povo não cumpriu essa promessa, e a mãe de Jesus sabia disso; por isso a recomendação para fazer o que ele disser, de agora em diante. O evangelista prossegue denunciando ainda mais a esterilidade da religião de Israel: “Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros” (v. 6). Essas talhas (jarros) de pedra simbolizam a lei; estavam vazias; através delas, os judeus faziam ritos de purificação, mas não se encontravam verdadeiramente com Deus.

Jesus se solidariza com seu povo: nem tudo está perdido. Na figura da mãe, ele vê um sinal de esperança no seu povo; por isso, toma a iniciativa: “Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”. Encheram-nas até a boca” (v. 7). “Os que estavam servindo” (em grego: διακονος = diáconos) prefiguram a comunidade ideal de discípulos e discípulas que devem agir conforme “tudo o que Jesus disser”; são esses que devem preencher o vazio de amor em Israel e, posteriormente, em toda a humanidade, enchendo as talhas até a boca, quer dizer, servindo e amando sem medidas. Jesus dá mais uma ordem: “Agora tirai e levai ao mestre-sala”. E eles levaram” (v. 8). O mestre-sala era o responsável pela organização e coordenação da festa; era ele quem deveria vigiar e ficar atento se estava faltando alguma coisa. Porém, negligenciou completamente o seu papel, não percebeu que o vinho tinha acabado. Nesse episódio, ele representa os anciãos e sacerdotes (a classe dirigente de Israel) que tinha se distanciado de suas responsabilidades, não conheciam mais as necessidades do povo, estavam alheios à vida cotidiana das pessoas.

 Distante da realidade, o mestre-sala não sabia sequer que o vinho tinha acabado, menos ainda de onde tinha surgido o vinho novo: “O mestre-sala experimentou a água que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois era eles que tinham tirado a água” (v. 9); porém, ficou surpreso com o seu sabor:  “O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (v. 10). Aqui, o evangelista ironiza e denuncia o distanciamento dos chefes de Israel em relação ao cotidiano das pessoas. Mesmo sem conhecer a origem, o mestre-sala reconhece a qualidade do vinho. Pela primeira vez no relato, o evangelista faz referência ao noivo, quem deveria ser o verdadeiro protagonista da festa. Esse noivo é o próprio Deus; a missão de Jesus, fornecendo amor em abundância, representado pelo vinho, é reatar os laços entre o Deus, o noivo-esposo, e a humanidade inteira, a noiva-esposa.

Como esse episódio é a verdadeira porta de entrada de todo o Evangelho segundo João, esse “este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele” (v. 11). Um sinal, como sabemos, não é um fim em si mesmo, mas aponta para uma realidade muito mais profunda. O sinal da mudança da água em vinho preconiza muitas transformações que Jesus irá fazer e propor ao longo de todo o evangelho. A principal transformação, a primeira e mais necessária, diz respeito à maneira de relacionar-se com Deus. De uma relação servil e ritualista, ele nos convida a uma relação de amor, cuja imagem mais visível e clara é a do matrimônio, pois pressupõe um amor recíproco, com liberdade e confiança. O vinho novo, de qualidade superior, representa essa nova relação. É nisso que a sua glória se manifesta, e o que fortalece a fé.

Para ser autenticamente discípulo e discípula é necessário ser como a mãe e os servidores, ao mesmo tempo: perceber as reais necessidades do próximo, tomar iniciativas concretas e fazer tudo o que Jesus disser. A abundância do vinho, imagem do amor, depende unicamente da disposição de fazer o que Jesus disse.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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REFLEXÃO PARA A FESTA BATISMO DO SENHOR – LUCAS 3,15-16.21-22 (ANO C)




Celebramos, neste domingo, a festa do Batismo do Senhor, concluindo o tempo do natal. O evangelho proposto é Lc 3,15-16.21-22.  O batismo, conforme relatam os evangelhos, é um dos episódios da vida de Jesus que os estudiosos mais consideram como um fato histórico, um evento real. Contribui para isso o fato de ser um dos poucos acontecimentos presente nos quatro evangelhos (explicitamente em Mateus: 3,13-17, Marcos: 1,9-11, e Lucas: 3,21-22; e implicitamente em João: 1,19-34). Além da pluralidade literária, o que mais se tem levado em conta ao aceitar o batismo de Jesus como um fato histórico são os problemas de interpretação desse evento desde a Igreja primitiva. Se não se tratasse de um evento concreto e importante da vida de Jesus, certamente os evangelistas teriam evitado tratá-lo em seus respectivos escritos. Quais são esses problemas? Ora, o batismo poderia levar as pessoas, inclusive muitos teólogos, a imaginar que Jesus fosse também necessitado de conversão, como os pecadores, e um homem inferior a João; essas interpretações aconteceram, de fato, desde os primórdios, inclusive na comunidade do evangelista Lucas, a primeira destinatária do evangelho de hoje.

O fato de estar presente nos quatro evangelhos – de modo explícito nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e implícito em João – não significa que os evangelistas narraram o batismo de modo igual; cada um narrou à sua maneira, conforme as informações recebidas de suas fontes e as necessidades de suas respectivas comunidades. A pregação de João estava gozando de um grande êxito (cf. Lc 3,1-14); ele pregava um batismo de conversão (cf. v. 3) e proponha um jeito novo de viver, incentivando o povo a produzir frutos (cf. v. 8), já que a religião judaica se encontrava em plena esterilidade, com a decadência ética, moral e espiritual dos dirigentes do templo de Jerusalém. A mensagem de João foi além do esperado: até mesmo cobradores de impostos e soldados, pessoas abomináveis para o judaísmo da época, se interessaram pela sua mensagem (cf. vv. 12-14). A pregação de João, portanto, sinalizava que um novo tempo estava surgindo.

O povo vivia sufocado pela dupla exploração: do império romano e do templo de Jerusalém; Roma cobrava impostos em excesso e o templo exigia ofertas e dízimos também em excesso, em nome de Deus. Por isso, a expectativa pela vinda do messias libertador aumentava cada vez mais. Dessa expectativa do povo, muitos se aproveitavam, se passando pelo messias, para roubar e explorar ainda mais. Por isso, as dúvidas em relação a João. O povo já estava certo de que ele era, realmente, um enviado de Deus, imaginando até que já fosse o messias, como inicia o evangelho de hoje: “O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias” (v. 15). Porém, João tinha plena consciência do seu papel e da sua missão. De acordo com o evangelista, ele mesmo tratou de esclarecer que não era o messias: “Por isso, João declarou a todos: Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Eles vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (v. 16). Esse esclarecimento era muito necessário, tanto para os ouvintes diretos da pregação, quanto para a comunidade do evangelista e os futuros leitores de sua obra, como nós; o próprio Lucas registra, em seu outro livro (os Atos dos Apóstolos) que, mesmo quando João não era mais confundido com o messias, o seu batismo continuava sendo realizado como se fosse o batismo cristão, pois as pessoas não compreendiam a diferença, e isso gerava confusão em algumas comunidades, como em Éfeso, por exemplo (cf. At 19,1-7). Por isso, a necessidade de fazer a distinção, usando algumas imagens.

Na distinção entre o seu batismo e o que Jesus iria inaugurar depois, João esclarece a natureza do seu: batiza com água, como um sinal externo de purificação e penitência; a água não penetra no íntimo da pessoa; embora importante, permanece na exterioridade. Por isso, é necessário que venha “aquele que é mais forte” para batizar “no Espírito Santo e no fogo”; assim, o batismo de Jesus, praticado pelos comunidades cristãs, inclusive a do evangelista, terá uma outra dimensão. “No Espírito Santo” significa que esse batismo penetra no íntimo da pessoa e realmente transforma, como o efeito do fogo. Embora o fogo seja também um elemento externo, usado nos ritos cristãos posteriores (junto com a água), possui uma força transformadora mais forte que a água. Se ambos os batismos permanecessem no plano simbólico, o de Jesus ainda seria superior, considerando o efeito visível do fogo. A verdadeira distinção entre os dois batismos, no entanto, está no conferimento do Espírito Santo, e esse só pode ser conferido por Aquele no qual o Espírito Santo realmente desceu, como mostra a sequência do texto de hoje.

Com a expressão Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”, João está fazendo alusão a Israel (e a humanidade inteira) como a esposa e Jesus como o noivo que vem ao seu encontro; por isso, além de um gesto de humildade, por reconhecer o seu papel, a expressão também contém um alto teor teológico. Aqui, ele cita a lei judaica do levirato: o gesto de tirar a sandália era um rito que significava apropriar-se do direito de tomar a mulher viúva como esposa, para lhe dar descendência (cf. Dt 25,5-10; Rt 3,5-11). Ora, quando uma mulher ficava viúva sem filhos, um de seus cunhados ou outra pessoa do clã, conforme a ordem de idade, tinha o dever e o direito de tomá-la como esposa, para gerar descendência com ela; em caso de recusa ou de negociação, a passagem desse direito para um outro cunhado ou pessoa próxima, era feita com o rito do “descalçamento”: o novo pretendente desamarrava as sandálias do titular, assumindo o direito de casar-se com aquela mulher. Assim, João deixa claro que não é ele o esposo, porque essa missão não lhe compete. O direito de fecundar Israel é exclusivo de Jesus, para tornar novamente fértil aquela esposa explorada e tornada estéril, como uma viúva, pela elite sacerdotal de Jerusalém e pelo poder romano.

Infelizmente, a liturgia de hoje salta alguns versículos (vv. 17-20), privando-nos de uma informação importante para compreender o batismo de Jesus no contexto da catequese de Lucas: a prisão de João Batista (cf. vv. 19-20). Para combater equívocos e confusões a respeito dos papéis de João e Jesus, e os efeitos de seus respectivos batismos, Lucas faz questão de tirar João de cena para poder colocar Jesus em evidência; por isso, antes de apresentar Jesus indo ao batismo, ele diz que João foi preso; os discípulos de João continuaram batizando, mesmo após a sua prisão. A obra toda de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos) tem as características de uma peça de teatro com as cenas e os personagens bem delimitados. Nessa engrenagem, ele nunca coloca Jesus e João na mesma cena, exceto na visitação, quando ambos ainda estavam nos ventres de suas respectivas mães, Maria e Isabel (cf. Lc 1,39-56); tudo isso para deixar claro à sua comunidade que, embora contemporâneos, eles fazem parte de tempos diferentes no conjunto da história da salvação, como afirmará mais na frente: “A lei e os profetas até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus” (Lc 16,16). Tudo isso reflete o cuidado do evangelista com a catequese da sua comunidade, para não confundir João com Jesus. João é um personagem da antiga aliança, embora faça parte do processo de transição para a nova aliança. Em outras palavras, para Lucas, ele ainda faz parte do Antigo Testamento, como o último representante da lei e dos profetas.

Na continuação do texto temos a confirmação do batismo de Jesus: “Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu” (v. 21). É importante a forma como passa essa informação: Jesus está junto com o povo, não se separa. O povo estava lá por necessidade de conversão e de sentido para a vida; Jesus não tinha necessidade disso. No entanto, por solidariedade, ele se junta a esse povo; com isso, o evangelista antecipa a dinâmica da atuação de Jesus: ele não pregará de púlpitos ou tronos, mas no meio do povo, olhando no rosto das pessoas, tocando nas suas chagas, abraçando, dando a mão aos necessitados; seu ministério será acessível a todos e todas. Um dos traços característicos de Jesus apresentado por Lucas é a sua assiduidade na oração, desde o batismo até a cruz (cf. Lc 22,46). Nesse intervalo, entre o batismo e a cruz, são frequentes e significativos os momentos em que Lucas apresenta Jesus em oração: enquanto cura (cf. 5,16), antes de escolher os doze apóstolos (cf. 6,12), antes de fazer o primeiro anúncio da paixão aos discípulos (cf. 9,18), antes e durante a transfiguração (cf. 9,28-29), e ainda ensina seus discípulos a orar (cf. 11,1-2); na paixão, a oração será ainda mais intensa (cf. 22,32; 22,39-46; 23,34.46). Com isso, Lucas revela a intimidade de Jesus com o Pai e apresenta um modelo para a sua comunidade viver em constante oração, como é demonstrado em diversas passagens do livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 1,14; 1,24; 6,6; etc).  

Através da oração se cria intimidade com o Pai e abre caminho para o Espírito Santo se manifestar: “E o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (v. 22). A imagem do Espírito Santo assumindo a “forma corpórea” é uma novidade na linguagem bíblica; embora a tradução litúrgica traduza por “visível”, o mais correto é “forma corpórea”, de acordo com o termo grego usado pelo evangelista (σωματικω = somatikô); embora alguns estudiosos tenham tentado conciliar essa imagem com o “pairar” do Espírito de Deus sobre as águas no princípio da criação (cf. Gn 1,2), ou com a pomba que Noé soltou da arca durante o dilúvio (cf. Gn 8,8), essas interpretações já não são mais convincentes. O acontecimento é inovador em tudo, até mesmo na simbologia. Ora, as imagens mais usadas para o Espírito de Deus na Bíblia são o fogo e o vento, inclusive, o próprio Lucas os aplica no episódio de Pentecostes (cf. At 2,1-13). Porém, tanto o fogo quanto o vento, simbolizam o Espírito Santo pela força e capacidade de criação e transformação; em Jesus essas imagens não teriam sentido, pois o Espírito não desceu sobre ele para transformá-lo, mas apenas para confirmá-lo como o Filho amado do Pai, e para tornar pública essa confirmação. O Espírito preenche e transforma quem é carente dele; em quem já o possui em plenitude, como Jesus, apenas confirma. Desde a sua geração na eternidade e encarnação no ventre de Maria, Jesus já possuía o Espírito Santo em plenitude. A pomba evoca serenidade, tranquilidade, paz e consolo; não causa assombro algum; é esse o sentido da manifestação do Espírito com essa forma no batismo de Jesus: ele não foi transformado pelo Espírito naquele momento, porque já era fruto desse mesmo Espírito.

Mais importante que a forma corpórea da pomba, assumida pelo Espírito, é a comunicação restabelecida entre a humanidade e Deus, não passando mais pela mediação das lideranças religiosas de Jerusalém, mas somente pela pessoa de Jesus. O céu se abre, Deus fala e afirma que o “seu bem-querer”, ou seja, a sua satisfação, não está nos inúmeros sacrifícios oferecidos no templo de Jerusalém, mas no seu Filho Amado. Mesmo com ecos antico-testamentários (cf. Is 42,1; Sl 2,7), a afirmação de Deus aqui é completamente nova de significado, superando todas as expectativas e promessas: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”. O messias que povo esperava era apenas um servo de Deus e filho de Davi, o que seria um mediador a mais. Deus envia o seu próprio Filho como único mediador. A voz que sai do céu significa Deus falando diretamente com a humanidade. Isso é realmente a inauguração de um novo tempo.

Que a recordação do batismo de Jesus reforce em nós a necessidade de estarmos em sintonia com o Pai, ouvido a sua voz com sensibilidade aos impulsos do Espírito Santo que se manifesta nas diversas situações cotidianas. Que sejamos confirmados como filhos e filhas de Deus, em seu amor, para viver como irmãos e irmãs.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (MATEUS 2,1-12)




Celebramos neste domingo a solenidade da Epifania do Senhor, dando continuidade, ainda, ao tempo do Natal. A palavra epifania quer dizer manifestação, deriva do verbo grego “epifaino” (επιφαινω), cujo significado é manifestar, aparecer, resplender. Nesta solenidade celebramos, então, a manifestação de Deus em Jesus como luz, guia e Senhor de todo o universo, incluindo todos os povos e culturas. Apesar de celebrarmos a manifestação do Senhor, o texto evangélico proposto – Mateus 2,1-12 – apresenta um movimento oposto: é o mundo com sua pluralidade de raças e culturas, representado pelos magos do Oriente, que manifesta sua adesão e aceitação do senhorio de Jesus, indo ao seu encontro. Assim, podemos dizer que em sua manifestação, o Senhor aparece quase escondido na simplicidade de um menino recém-nascido com sua mãe.

O texto evangélico referido é, além de longo, muito complexo, rico em teologia e simbologia e, sobretudo, belo e encantador. É uma das páginas mais ricas de toda a catequese que Mateus propõe à sua comunidade por escrito. Infelizmente, ao longo da história, foi interpretado mais folcloricamente que teologicamente. Daí a dificuldade de apresentarmos uma interpretação mais fiel e próxima às intenções do autor, tendo em vista que as interpretações folclóricas, consolidadas pelo cristianismo oficial, estão muito enraizadas no imaginário popular. Nossa reflexão visa adentrar no texto em seu sentido catequético e teológico originários.

Antes de tudo, devemos esquecer a linda e romântica imagem do presépio para compreendermos bem o texto bíblico, partindo dos primeiros versículos: “Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (v. 1-2). Percebemos que Mateus, ao contrário de Lucas, não narra o momento do nascimento de Jesus, apenas o menciona como um fato já acontecido, dando, porém, informações importantes de tempo e espaço: nasceu em Belém, no tempo do rei Herodes.

A princípio, já é possível perceber a intenção do autor com essa informação: está surgindo uma alternativa de poder e realeza diferente do sistema vigente; há um deslocamento do centro para a periferia, ou seja, começa uma descentralização, o que vem a indicar que o poder, exercido até então na capital, está ruindo. É claro que é necessário o complemento da informação para termos clareza da oposição que o autor quer apresentar entre o poder centralizado e o projeto alternativo que surge: “nasceu um rei para os judeus” (v. 2); portanto, o poder ilegítimo de Herodes está sendo desmascarado. As indicações de tempo e espaço também servem para legitimar a historicidade do homem Jesus de Nazaré. Ora, os cristãos da comunidade de Mateus não tinham conhecido o Jesus terreno e, por isso, poderiam questionar a sua existência. Com esses dados, o evangelista quer reforçar que Jesus foi um homem concreto, gente de carne e osso que nasceu e viveu em um período histórico determinado.

A outra grande novidade do relato, percebida ainda no primeiro versículo, está na peculiaridade dos personagens apresentados pelo autor: “alguns magos do Oriente” (v. 1); Ora, os magos, em grego “magoi” (μαγοι), eram estudiosos orientais e adivinhos, responsáveis pela interpretação dos sonhos e pela leitura dos fenômenos naturais, mas também eram vistos como feiticeiros e charlatões, operadores da magia e sacerdotes de cultos pagãos da Pérsia e Babilônia,  portanto, pertenciam a uma categoria condenada pelo judaísmo e pelo cristianismo das origens. De fato, a lei de Moisés condenava explicitamente a magia e quem a praticava (cf. Lv 19,26; Dt 18,9-12). Dois episódios particulares nos ajudam a perceber o quanto a prática da magia era condenada pela tradição bíblica: a saga de Balaão no Antigo Testamento (cf. Nm 22 – 23), e a tentativa de compra do dom do Espírito Santo pelo mago Simão no Novo Testamento (cf. At 8,9-24). Portanto, os magos eram pessoas abomináveis à luz da religião de Israel e dos primeiros cristãos.

Infelizmente, a tradição cristã revestiu os magos de características que não eram suas, ao caricaturá-lo de reis. Ao invés de ajudar na compreensão do texto, esse tratamento de realeza dispensado aos magos distorceu completamente o sentido aplicado por Mateus ao criar personagens tão peculiares; é importante reforçar que esses personagens são fruto da inteligência e da criatividade teológica do evangelista, ou seja, os magos não são personagens reais, mas simbólicos. De fato, a intenção do evangelista e de sua comunidade ao apresentar tais personagens era exatamente mostrar que também aos distantes e sem reputação Deus se revela, e são exatamente esses os que com mais sinceridade buscam o verdadeiro rosto de Deus, tão difícil de ser reconhecido na pessoa de uma frágil e pobre criança, como as elites, religiosa e política, não foram capazes de reconhecer. Ainda sobre o revestimento dado pela tradição, é importante recordar que o texto bíblico não faz menção alguma ao número dos magos; não diz que eram três, como propagou a tradição, com base apenas no número dos dons por eles oferecidos: ouro, incenso e mirra. Além do número três, sem fundamento algum no texto bíblico, a tradição lhes deu nomes (Gaspar, Baltasar e Melchior) e meio de transporte (camelos). Por isso, como afirmamos no início, é necessário deixar de lado a imagem fantasiosa do presépio para compreender bem o texto de Mateus.

Está mais do que clara a oposição: os magos vieram de longe para adorar ao Deus verdadeiro. Foram a Jerusalém, mas lá não era possível encontrar o verdadeiro Deus porque a elite religiosa o tinha monopolizado e distorcido a sua identidade. Como gentios, os magos eram barrados pelas paredes do templo que segregava os pagãos dos judeus piedosos. Com a pergunta “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” (v. 2a), os magos afirmam que não reconhecem a autoridade de Herodes, ou seja, o consideram um rei ilegítimo; com a afirmação “nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (v. 2b), eles desafiam também a elite religiosa, mostrando que as paredes do templo já não conseguem mais conter esse Deus que se revela em todo o universo e a todos os povos. Portanto, os poderes político e religioso de então, exercidos ilegitimamente, são ameaçados com o nascimento de Jesus.

Enquanto Herodes exercia o poder pela força e a violência, Jesus exercerá a sua autoridade pelo serviço; enquanto a relação com Deus, monopolizado pela elite religiosa, era mediada por uma casta sacerdotal corrompida e através de sacrifícios e ofertas, em Jesus é Deus quem se manifesta plenamente, sendo Ele mesmo quem à humanidade se oferece, ao invés de exigir oferendas. Por isso, “o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda Jerusalém” (v. 3), pois viam que um novo tempo estava surgindo, novas relações estavam sendo gestadas, uma sociedade alternativa estava nascendo; enfim, o Reino de Deus estava começando e, portanto, todos os reinos humanos deveriam desaparecer.

As preocupações de Herodes e de “toda Jerusalém”, compreendida como a elite política, religiosa e intelectual predominantes, ou seja, sacerdotes e escribas, leva-os a um medíocre pacto (vv. 4-6), o qual se repetirá posteriormente e levará Jesus à morte de cruz, com as mesmas motivações: o medo que as autoridades tinham de um autêntico “Rei dos Judeus” (cf. Mt 26,3 – 27,44). No nascimento, o pacto é feito entre Herodes e toda Jerusalém; na paixão será entre Pilatos e o sinédrio, mas são as mesmas forças, com as mesmas práticas. Como último recurso, Herodes tenta a fraude e o suborno, exigindo que os magos retornem a ele quando encontrassem o menino (vv. 7-8), com as falsas intenções de querer também adorá-lo.

Ajudados pela Escritura e pelo próprio Herodes, os magos foram a Belém e lá, de fato, encontraram o que estavam procurando: Jesus, Deus e luz que ilumina todos os povos, inclusive eles, operadores de práticas abomináveis aos olhos do judaísmo. A reação deles não poderia ser outra:  “Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”  (v. 10); a tradução do texto litúrgico, não consegue expressar suficientemente esse sentimento dos magos; o autor usa a expressão grega “ekaressan karan megalen” (εχαρεσαν χαραν μεγαλην), para a qual a tradução mais adequada é “alegraram-se com uma alegria muito grande”, ou seja, uma alegria exagerada; é compreensível o exagero do autor, considerando o seu esforço em mostrar que aquele Deus que parecia distante e inacessível pode, de fato, ser contemplado e visto por todos. A luz de Deus, até então sufocada por uma religião ritualista e segregadora, agora ilumina o universo inteiro e convida todos os povos a alegrar-se com isso, pois significa o fim de todas as barreiras, o desmoronamento de todos os muros e sinais de separação.

Certamente, a alegria deles aumentou ainda mais: “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11a). Por serem pagãos e magos, eles não podiam adentrar mais que o pátio do templo reservado para os gentios e, portanto, não podiam contemplar nem adorar verdadeiramente; agora, é tudo diferente: eles entram e vêem porque é o próprio Deus quem se deixa ver e conhecer em Jesus e na comunidade cristã, personificada em Maria, a mãe. Essa passagem é muito importante, pois em todo o primeiro capítulo de Mateus houve uma centralidade e importância dadas à figura de José; nessa cena, ele não é mencionado, mas apenas Maria; em Lucas, “os pastores encontraram Maria, José e o recém-nascido” (cf. Lc 2,16); na primeira aparição de Jesus, Mateus tira José de cena. Certamente, o evangelista teve uma intenção especial com esse detalhe: quis mostrar que Deus se deixa conhecer parcialmente na criação, através da estrela (vv. 2.9.10), na Escritura (vv. 4-6), mas de modo pleno, só é possível fazer uma verdadeira e autêntica experiência na comunidade reunida, personificada em Maria (v. 11); Maria é a imagem da comunidade cristã  , e quem quiser encontrar-se verdadeiramente com Jesus deve se aproximar da comunidade.

É necessário recordar o que o texto diz, desde o início, sobre o objetivo dos magos: adorar o rei dos judeus (v. 2). Tinham empreendido um longo caminho, inclusive errando a rota, pois foram primeiro a Jerusalém, mas lá não o encontraram, devido a estrutura rígida e decadente da religião oficial. Somente deslocando-se para a periferia puderam, de fato, experimentar o Deus que tanto buscavam. Aqui, está o ápice do contraste que o evangelista quer apresentar: o templo perdeu seu sentido, Deus não habita mais nele; é necessário retirar-se para a periferia, inserir-se na comunidade e, assim, adorar e experimentar a beleza desse Deus que quer apenas misericórdia e amor, e não mais sacrifícios.

Quando perceberam que encontraram aquele que tanto buscavam, “ajoelharam-se diante dele e o adoraram” (v. 11). Essa atitude mostra que, finalmente, se saciaram, encontraram sentido para suas vidas e, portanto, esvaziaram-se de si, oferecendo o que haviam de precioso. Não ofereceram porque lhes fora exigido, como exigia o templo, mas porque sentiram-se confortados e correspondidos. Enquanto os poderes oficiais se uniam para matar, os magos, como figuras dos marginalizados, se prostram unidos para adorar. A adoração verdadeira, ou seja, o autêntico culto, não depende mais de um espaço específico delimitado pela religião; é feita na própria casa; a única exigência é que seja feita em “espírito e em verdade” (cf. J 4,24).

É claro que os presentes oferecidos pelos magos, ouro, incenso e mirra (v. 11b) são simbólicos e revelam, por um lado a identidade de Jesus e, por outro, a nova relação entre a humanidade e Deus. O ouro, revela que Jesus é rei enquanto o recebe, mas ao mesmo tempo diz que todas as nações podem participar do seu reino, enquanto foi oferecido por pagãos; assim, o privilégio de Israel como povo escolhido perde o seu sentido, pois a pertença ao Reino de Deus não é determinada por raça ou cultura, mas pela sinceridade de coração. O incenso representa a divindade de Jesus, ou seja, é o reconhecimento de que Ele é Deus, mas a humanidade não precisa mais dos sacerdotes do templo para se comunicar com Ele, pois qualquer pessoa e em qualquer lugar pode fazer isso. A mirra é o mais ambíguo dos três presentes: é, antes de tudo, o sinal da humanidade de Jesus, uma vez que era um perfume usado pelos judeus para embalsamar os cadáveres, como acontecera com o corpo do próprio Jesus, quando morreu; porém, no Cântico dos Cânticos, em diversas passagens, a mirra é citada como o perfume da esposa amada (cf. Ct 5,5.13) e, com muita probabilidade, Mateus quis dizer que a esposa amada de Deus deixou de ser Israel e passou a ser toda a humanidade.

O texto termina com uma afirmação de muita relevância para a comunidade cristã e para todas as pessoas de todos os tempos e lugares: os magos retornaram seguindo outro caminho (v. 12). Para viver essa nova relação com Deus, é necessário desviar-se das antigas rotas e estruturas, representadas por Herodes e o templo. Quem faz uma experiência autêntica com Deus, de fato, segue outro caminho, em grego “allés hodú” (αλλης οδου). Eles perceberam, finalmente, que Jerusalém só oferecia exploração, ganância e violência. A experiência com Deus faz o ser humano mudar a mentalidade e, consequentemente, o caminho a percorrer. Esse caminho significa o agir, o jeito de viver.

Concluindo, podemos deixar como reflexão permanente: já quase concluindo o tempo do Natal, quais os caminhos que iremos percorrer de agora em diante? Se serão os caminhos de sempre, ou seja, se continuarmos com as mesmas maneiras de pensar e compreender as coisas, principalmente a nossa relação com Deus e o próximo, Jesus não nasceu em nós... e, se não nasceu, não poderemos manifestá-lo ao próximo!

Pe. Franciso Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – LUCAS 2,41-52 (ANO C)





Na continuidade da oitava de natal, a Igreja celebra hoje a festa da Sagrada Família: Jesus Maria e José. Por isso, o evangelho proposto pela liturgia é Lc 2,41-52, trecho que narra o episódio conhecido popularmente como “a perda e o encontro de Jesus no templo de Jerusalém”, quando tinha doze anos. Esse é o último episódio da primeira parte do Evangelho segundo Lucas, conhecida como “evangelho da infância” (cf. Lc 1 – 2), o que reforça ainda mais a sua importância, pois funciona como transição entre a infância e a vida pública de Jesus; nessa transição, o evangelista antecipa muitos aspectos importantes de sua teologia. Por isso, o objetivo de Lucas, ao narrar este episódio, não é apresentar um tratado sobre a família, mas mostrar elementos do cotidiano de Jesus, compreendendo seus costumes, o ambiente em que foi criado com suas tradições e, sobretudo, como ele sempre esteve atento “às coisas do Pai” sem, no entanto, negar a sua condição humana. Se o objetivo do evangelista fosse simplesmente apresentar o retrato de uma família perfeita, certamente teria contado a história de outra maneira, omitindo alguns elementos do relato atual.

Além de ser um dos evangelhos mais tardios, e escrito provavelmente fora da Palestina, Lucas convivia com um cristianismo muito entusiasta do anúncio do Cristo Ressuscitado e glorioso, a ponto de quase esquecer que, mesmo sendo o Filho de Deus, Jesus de Nazaré foi um ser humano, nascido de uma mulher e crescido em uma família normal, conforme as condições e os costumes da época. Por isso, é Lucas o evangelho que mais fala da infância de Jesus e da convivência com seus pais. Para apresentar Jesus inserido na cultura e na tradição do seu povo, o evangelista apresenta seus pais como fiéis devotos judeus; por isso, diz que iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa” (v. 41). Conforme a lei, os judeus adultos tinham a obrigação de ir a Jerusalém para as três grandes festas anuais: páscoa, a festa das tendas e pentecostes (cf. Dt 16,16); porém, esse preceito era obrigatório apenas para as pessoas adultas e do sexo masculino.

A peregrinação anual da família completa de Jesus mostra o quanto seus pais eram fiéis observantes e cumpridores dos preceitos religiosos de então. Além disso, ainda antecipam as obrigações do filho: “Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume” (v. 42). A idade mínima exigida para que o filho homem começasse a participar publicamente da vida religiosa era treze anos; evangelista apresenta a precocidade de Jesus para contrastá-lo com as outras crianças da época, mostrando que ele era portador de traços diferenciados. A festa inteira da páscoa durava uma semana, mas raramente os peregrinos pobres passavam todos os sete dias em Jerusalém; geralmente, passavam dois ou três dias e voltavam; o importante era passar pela cidade santa naquele período. O evangelista parece reforçar a piedade de José e Maria, fazendo supor que eles passaram todo o período da festa em Jerusalém, mas ao mesmo tempo mostra uma grande falta de atenção para com o filho: “Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem” (v. 43). Se o objetivo do evangelista fosse apresentar uma crônica exata dos acontecimentos e a exemplaridade do casal, certamente teria omitido esse detalhe.

Durante a páscoa, a população de Jerusalém triplicava com a grande quantidade de peregrinos que por lá passavam, tornando a cidade quase intransitável, o que exigia muito cuidado dos pais para com os filhos, para que não se perdessem. Somente pais muito desatentos iniciariam a viagem de volta sem dar-se conta do sumiço do filho; e o evangelista ainda diz mais: “Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos” (v. 44). Era costume, nas caravanas, que as crianças e as mulheres caminhassem à frente dos homens; porém, qualquer mãe atenta se certificaria da presença de um filho antes de iniciar uma viagem longa e perigosa como aquela de Jerusalém para Nazaré. Depois de um dia inteiro de caminhada, os pais de Jesus “não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura” (v. 45). Supõem-se que já estivessem bastante longe, após um dia inteiro de caminhada; porém, o interesse do evangelista é teológico e catequético e, como sabemos, o movimento e o colocar-se em caminho é um tema muito caro para Lucas, do início ao fim de sua dupla obra (Evangelho e Atos dos Apóstolos).

O evangelista quer ensinar que encontro autêntico com Jesus é consequência de uma busca que todas as pessoas devem fazer, independente da familiaridade com ele. Nas comunidades do evangelista havia muitas pessoas seguras em si mesmas, fechadas em suas convicções, e outras muito vulneráveis e sem ânimo para acolher a boa nova; diante disso, Lucas insiste que é necessário buscar sempre o Senhor, pois ele não é posse de ninguém, como não foi sequer da sua família. Até mesmo quem conviveu com ele, como seus pais, tiveram que procurá-lo e só o encontravam depois de um certo esforço: “Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas” (v. 46). Com essa cena, o evangelista antecipa o drama da comunidade dos discípulos na próxima vez em que Jesus for a Jerusalém para celebrar também a páscoa: após o drama da paixão, só o reencontrarão no terceiro dia, ressuscitado. Assim, o evangelista reforça ainda mais, para a sua comunidade, a continuidade entre Jesus de Nazaré, o filho de Maria e José, e o Senhor ressuscitado.

Chama a atenção o local e o contexto em que os pais de Jesus o encontraram: no templo, interagindo com os mestres da lei e conhecedores das Escrituras. Além dos mestres, os interlocutores, supõem-se que havia também um público considerável assistindo ao debate entre o adolescente e os mestres: “Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas” (v. 47). Durante as festas, era normal que os mestres rabinos se apresentassem com seus discípulos, exibindo conhecimento e domínio da lei entre as colunas do templo, muitas vezes apenas para chamar a atenção dos peregrinos; porém, esses iam com perguntas e respostas previamente ensaiadas entre eles, para evitar constrangimentos. Como Jesus era muito novo e não fazia parte de nenhuma escola, a sua desenvoltura chamava a atenção de todos. Nesse aspecto também, há uma antecipação da sua futura atuação: o curto ministério em Jerusalém, na semana da paixão, será marcado por discussões doutrinais com os mestres da lei, escribas e sacerdotes (cf. Lc 20 – 21).

Diante de uma cena como essa: um menino de Nazaré, uma aldeia pobre e distante, discutindo com a elite intelectual do judaísmo, quem mais tinha motivos para se admirar eram os seus pais, como afirma o evangelista: “Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (v. 48). Na perspectiva de Lucas, Maria é quem assume a liderança da família, dando protagonismo à mulher. Além da admiração com a cena inusitada, a mãe repreende o filho pela situação desagradável e preocupação que os fez passar. A incompreensão dos pais, aqui, é um sinal de que não será fácil também para os discípulos compreenderem Jesus com suas opções. A aceitação e a compreensão de Jesus e sua mensagem é um processo longo; no início, os pais, durante a vida pública, os discípulos, todos têm dificuldade de compreender Jesus.

Em resposta à reação de seus pais e às repreensões da mãe, o autor faz Jesus falar pela primeira vez neste evangelho: “Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” (v. 49). Numa crônica descritiva de um modelo de família, certamente também essa resposta de Jesus teria sido omitida. Em público, diante dos mestres e dos demais ouvintes, ele responde à mãe como um adolescente meio rebelde e malcriado; uma criança obediente, apenas baixaria a cabeça e, se respondesse, seria um pedido de desculpas aos pais pelo preocupação e constrangimento causados. Essa resposta, no entanto, consiste na primeira revelação que Jesus faz de sua identidade; até então, sua identidade divina tinha sido revelada pelo anjo (cf. 1,28-35; 2,10), por Isabel (cf. 1,42-43), por Zacarias (cf. 1,67-79) por Ana e Simeão (cf. 2,25-40); dessa vez, foi o próprio Jesus que falou de si. Ele não dispensa seus pais terrenos, mas afirma que é a Deus que deve obedecer e fazer a sua vontade. Na verdade, Jesus não fala em “casa do Pai”, como consta na tradução litúrgica, mas em “coisas do Pai”; até porque, no futuro ele defenderá a destruição do templo. Em resposta à sua mãe, ele diz que deve estar tratando “do que é do Pai”, provavelmente contestando a doutrina dos mestres da lei que ofuscava a identidade do Pai.

Em relação aos seus pais, Maria e José, é claro que “Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera” (v. 50), mas Maria se antecipa, mais uma vez, como modelo de discípula: “Sua mãe porém, conservava no coração todas estas coisas” (v. 51b). Para ser verdadeiro discípulo ou discípula, o mais importante não é a compreensão, mas a disposição e a capacidade de conservar no coração aquilo que é essencial: a fé, a confiança em Deus e a disponibilidade para o serviço, mesmo sem compreender. Mais uma vez, o evangelista reforça a inserção e pertença de Jesus à sua família: “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente” (v. 51a), mostrando que isso não o impedia de ser também o Filho de Deus; por isso, sintetiza o seu crescimento nas duas dimensões, a humana e a divina: “E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens” (v. 52). Que possamos aprender a cuidar e tratar somente das coisas do Pai, como Jesus, e a conservar tudo no coração, mesmo sem compreender tudo, como Maria e os demais discípulos.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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REFLEXÃO PARA O QUARTO DOMINGO DO ADVENTO – LUCAS 1,39-45 (ANO C)




A preparação para o natal do Senhor, proposta pelo advento, se torna mais intensa à medida em que a sua conclusão se aproxima. Nesse sentido, é importante evidenciar os personagens humanos que Deus escolheu para intermediarem a transição entre as duas etapas da história da salvação: a antiga, baseada na lei e na expectativa do cumprimento de tantas promessas, e a nova, fundada em Jesus, o Cristo, nascido de Maria, ápice da comunicação entre Deus e a humanidade, e cumprimento das antigas promessas de salvação. Enquanto no último domingo a liturgia destacava a figura de João, o Batista, e os efeitos de sua pregação, o evangelho de hoje – Lucas 1,39-45 – destaca o encontro e o papel de duas mulheres, Maria e Isabel, evidenciando cada vez mais as preferências e opções de Deus pelo que aparenta ser mais frágil e inútil, como era vista a mulher na época da cena narrada no evangelho. Para transformar o mundo, Deus não chama os grandes e potentes, e sim os/as humildes e pequenos(a); a escolha de Maria para ser mãe de seu Filho, não por suas qualidades, e sim pela sua pequenez e simplicidade, é a maior demonstração, e o evangelho de hoje nos ajuda a perceber isso, ao colocar duas simples mulheres juntas em diálogo, como as primeiras a compreender e perceber o início de uma nova história e de um mundo novo.

O texto – Lucas 1,39-45 – narra o episódio tradicionalmente chamado de “visitação”; se trata de um texto bastante conhecido, muito utilizado nas solenidades e festas marianas com o acréscimo dos versículos que compreendem o Magnificat (cf. Lc 1,46-56). Hoje, especificamente, a liturgia utiliza apenas os versículos que tratam da apressada viagem de Maria e o seu encontro com Isabel (vv. 39-45). Esse é o episódio que sucede de imediato ao anúncio do anjo; é importante perceber a relação entre os dois episódios para melhor compreender o texto de hoje. Com o anúncio do anjo, Maria ficou espantada, e com razão (cf. Lc 1,29). Ora, como é possível uma jovem virgem ser mãe sem ter relação com um homem? À primeira vista, a notícia do anjo representou uma tragédia para Maria, colocando em risco seu futuro matrimônio, uma vez que ela já estava comprometida com José. Corajosamente, Maria questionou o mensageiro divino, pediu-lhe explicação (cf. Lc 1,34). O próprio anjo tratou de acalmá-la, mostrando que tudo o que estava acontecendo era iniciativa do Deus que faz coisas impossíveis, agindo contra a lógica humana; ainda deu um exemplo: Isabel, uma mulher anciã e estéril já estava no sexto mês de gravidez (cf. Lc 1,3-37); esse exemplo parece ter ajudado a convencer Maria de que também nela poderia acontecer algo de maravilhoso e fora dos padrões e esquemas tradicionais; por isso, respondeu sim, tomando uma decisão corajosa e ousada. A mulher, na época, não tinha poder de decisão sobre nada; sendo solteira, deveria consultar o pai ou o irmão mais velho, antes de qualquer decisão, sendo casada, consultava o marido. A decisão de Maria, sozinha, representa um grande passo para o protagonismo da mulher na história, que Lucas introduz em seu Evangelho. Esse protagonismo é evidenciado no evangelho de hoje, ao colocar duas mulheres como protagonistas da cena.

Diz o texto que “Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo apressadamente, a uma cidade da Judeia” (v. 39). O indicativo temporal “naqueles dias” revela a relação e a continuidade deste episódio com os anteriores, na trama narrativa de Lucas; quer dizer que pouco depois da anunciação do anjo “Maria partiu”. O texto não diz quais foram os motivos da partida de Maria; muitos interpretam como a vontade de Maria colocar-se a serviço do próximo, no caso, da sua parenta Isabel; porém, o texto não evidencia nem sinaliza para isso. O destino também é vago e genérico: “a uma cidade da Judeia”, na “região montanhosa”. Partir, sair de si “apressadamente”, é a postura de quem acolhe a salvação oferecida por Deus, postura essa assumida por Maria. Dizer sim aos propósitos de Deus, como fez Maria, é deixar-se transformar pela sua Palavra. Quem sente a ação de Deus em sua vida, põe-se em marcha, não permanece na mesma posição, nem com a mesma mentalidade; é isso que o evangelista quer destacar. Como a concepção de Isabel foi colocada pelo anjo como exemplo de que nada é impossível para Deus, a viagem de Maria pode também ser interpretada como expressão da sua curiosidade e vontade de comprovar a veracidade do anúncio. Além disso, há uma clara intenção de Lucas de colocar as duas mães juntas: a jovem e a anciã, a virgem e a estéril, reforçando que, nas contradições da história, Deus se manifesta; além disso, colocando juntas as mães, também os filhos se encontram, os protagonistas implícitos da cena.

Ao colocar Maria em viagem, Lucas antecipa um dos temas mais fortes da sua teologia: o caminho como figura da dinâmica do Reino e da Palavra de Deus. Desde essa visita de Maria até chegada de Paulo prisioneiro em Roma (cf. At 28), Lucas faz de sua dupla obra – Evangelho e Atos dos Apóstolos – um itinerário da Palavra; mesmo encontrando obstáculos, a Palavra não pode ficar presa em nenhuma estrutura; ela deve ecoar sempre. Maria se torna, assim, modelo antecipado do discipulado que Jesus formará logo no início da sua vida pública. O evangelista não perde tempo descrevendo a viagem, e logo diz que Maria chegou ao destino e “Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel” (v. 40), porque seu objetivo é mostrar a chegada da Boa-Nova e seus efeitos. Zacarias, o esposo de Isabel, foi o primeiro destinatário do anúncio do anjo (cf. Lc 1,8-23), mas não acreditou, por isso aqui é um personagem secundário. O evangelista quer mostrar a experiência de fé das duas mulheres sendo partilhada.  A fé transformadora vivida por cada uma das mulheres não pode ficar oculta, por isso o evangelista coloca as duas frente a frente; e essa fé, quando partilhada, cresce e se fortalece, como mostra a sequência do texto: a companhia de Maria faz aumentar as convicções da fé de Isabel e, consequentemente, de Maria, culminando no Magnificat (cf. Lc 1,46-56), a sua explosão de louvor a Deus.

O evangelista não revela o conteúdo da saudação de Maria, mas certamente foi o tradicional shalom hebraico, saudação típica do povo judeu. Como modelo de discípulo e discípula, Maria antecipa o que Jesus pedirá aos seus discípulos quando enviá-los: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: paz para esta casa” (Lc 10,5). Essa saudação não é mero palavreado, mas é comunicação de vida, doação de amor e de energia transformadora, por isso “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (v. 41). Mãe e filho, cada qual preenchidos pelo Espírito Santo, reagem, cada um à sua maneira e conforme as suas possibilidades: o filho, pulando no ventre, a mãe com palavras, tornando-se verdadeira profetisa. De fato, após a saudação de Maria, o evangelista dá a palavra a Isabel que faz grandes declarações de fé e alegria diante de tudo o que tem contemplado em sua vida, e com razão. Ora, como Zacarias tinha ficado mudo, devido a sua incredulidade diante do anúncio do anjo (cf. Lc 1,20), Isabel já não tinha com quem dialogar sobre os últimos acontecimentos; precisava de alguém que lhe ouvisse, por isso, é só ela quem fala na cena: “Com grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria em meu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (vv. 42-45). Inspirada no Antigo Testamento, Isabel expressa a imensa alegria de ser contemplada com os favores de Deus, sendo alvo da sua misericórdia. A sua anterior condição de estéril era motivo de vergonha e humilhação; ninguém lhe dirigia a palavra, a não ser com insultos, e ninguém a escutava. O menino concebido em seu ventre provocava um verdadeiro êxodo em sua vida, transformando-a em mulher livre.

Lucas construiu o discurso de Isabel recorrendo ao Antigo Testamento para mostrar, sobretudo, o cumprimento das antigas promessas, e o começo da distinção entre João Batista e Jesus. A primeira declaração é também a primeira bem-aventurança do Evangelho de Lucas; as bem-aventuranças proclamadas por Jesus serão expressão do retrato ideal do seu discipulado; aqui, Maria é, antecipadamente, proclamada a discípula ideal; ora, a missão do discípulo e discípula de Jesus consiste em torná-lo presente onde quer que o discípulo esteja. Por isso, Isabel reconhece Maria como a primeira bem-aventurada, pois a partir do ventre, ela já era portadora de salvação. Quem interpretava os sinais de Deus na história eram os sacerdotes e mestres da lei; Lucas inverte a ordem das coisas e mostra uma mulher, até pouco tempo vista como amaldiçoada, devido a esterilidade, percebendo e interpretando os sinais de Deus presentes, não mais nas estruturas faraônicas do templo, mas na simplicidade de outra humilde mulher. Já consciente de ser a mãe do precursor, e feliz por isso, Isabel reconhece que Maria é a mãe do Senhor. Como estéril, Isabel era vista como esquecida por Deus; cheia do Espírito Santo, reconhece hospedeira o Senhor, presente no ventre de sua mãe, Maria. Uma verdadeira reviravolta na história. É a expressão dos(a) humildes que reconhecem reciprocamente suas forças, seus valores e seu poder de transformação quando se dispõem a viver conforme a Palavra de Deus.

Isabel identifica o motivo da bem-aventurança de Maria e o que a habilita como modelo de discípula: a fé, pois é “Bem-aventurada aquela que acreditou”. De fato, o texto bíblico, sobretudo o Evangelho segundo Lucas, aquele que mais fala sobre ela, não apresenta um currículo da vida de Maria como atrativo para o chamado de Deus; apenas a apresenta como alguém que foi agraciada por Deus e, diante disso, respondeu sim, deu uma adesão de fé. E, como mostra a Bíblia, Deus costuma escolher o que é historicamente rejeitado, excluído e humilhado. Isabel reconhece em Maria o exemplo maior de fé, antecipando a dinâmica do Reino que será anunciado por Jesus e continuado pelos seus discípulos e discípulas de todos os tempos.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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REFLEXÃO PARA O TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO – LUCAS 3,10-18 (ANO C)




No terceiro domingo do advento, a liturgia nos apresenta, mais uma vez, a figura de João Batista, profeta importante que anuncia, prepara e até antecipa a missão de Jesus. Neste itinerário catequético-espiritual proposto pelo advento, conhecer a missão e a mensagem de João é, portanto, imprescindível, pois ele se aproxima verdadeiramente de Jesus. Por isso, a liturgia propõe Lucas 3,10-18 como o texto evangélico para hoje. No domingo passado foi feita uma introdução à missão de João: a Palavra de Deus lhe foi dirigida no deserto, nos tempos do imperador Tibério e dos sacerdotes Anás e Caifás (cf. Lc 3,1-2), confirmando as opções de Deus pelas margens e a intolerância com os sistemas de poder vigentes na época; o evangelista afirmava que João pregava um batismo de conversão, apresentando-se como a voz de quem clama no deserto (cf. Lc 3,3-6); citando o profeta Isaías (cf. Is 40,3-5). O conteúdo da pregação de João foi saltado pela liturgia (cf. Lc 3,7-9), mas, pela reação dos seus ouvintes no evangelho de hoje, sabemos repercutiu, causou grandes efeitos em quem o escutou.

Certamente, nem todas as pessoas gostaram da pregação de João, afinal, até de “raça de víboras” ele chamou os seus ouvintes (cf. Lc 3,7); porém, é certo que muita gente se interessou pelo seu ensinamento, percebendo que o modelo vigente de religião, controlado pela hierarquia do templo de Jerusalém, conivente com a dominação romana, já não permitia um encontro verdadeiro com Deus; o templo tinha se transformado em mercado, como Jesus vai denunciar em seu ministério. Por isso, muitas pessoas que escutaram, interessadas em conhecer mais, o procuraram, perguntando “o que devemos fazer?”, para assimilar melhor o novo jeito de relacionar-se com Deus. A curiosidade dessas pessoas mostra a decadência da antiga religião e como os caminhos estavam, realmente, sendo aplainados para a vinda do Senhor ao encontro da humanidade. O evangelho de hoje apresenta a reação de três grupos de ouvintes da pregação de João, e as respostas concretas do próprio João a esses grupos. Assim, de uma pregação ampla e generalizada, João passa a uma mais particularizada, de acordo com as situações específicas de quem lhe procurava.

Olhemos, então, para o texto: “As multidões perguntavam a João: ‘Que devemos fazer?” (v. 10). Supõe-se que se trate de um grupo amplo e diversificado, mas composto majoritariamente por gente simples e pobre, como as multidões que seguirão Jesus na sequência do evangelho. A pergunta reflete um sincero desejo de acolher a proposta de conversão apresentada por João para entrar na nova dinâmica da salvação. É surpreendente a resposta de João: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida faça o mesmo!” (v. 11); ora, ele estava anunciando um batismo de conversão e, na época, o que os líderes religiosos exigiam como sinais de conversão era o jejum, a intensidade na oração, a penitência, a oferta de sacrifícios no templo, uma solene profissão de fé e, por último, a esmola. A resposta de João é uma novidade para as multidões, embora esteja alinhada à pregação dos profetas do Antigo Testamento, mas que tinha sido ofuscada pela hierarquia sacerdotal interessada em lucrar às custas dos sacrifícios oferecidos no templo. Alimento e vestimenta são necessidades básicas de cada pessoa, coisas do cotidiano, e conversão é algo concreto, diz respeito ao modo de gerir a vida e a relação com o próximo; assim, é convertido quem não pensa em acumular e partilha com o próximo, não o que lhe sobra, mas o que o próximo necessita. João parte do que é mais simples: roupa e alimento, para mostrar que a partilha é indispensável, até mesmo para os que tem pouco.

Na sequência, o texto apresenta, de modo surpreendente, membros de dois grupos específicos também sedentos de conversão e interessados pela proposta de João: cobradores de impostos e soldados (cf. vv. 12-14). É claro que nem todos os cobradores de impostos e soldados estavam ali, mas é importante perceber a presença e o interesse de membros desses dois grupos pela pregação de João. Ambos os grupos, eram colaboradores diretos da administração romana e, por isso, muito mal vistos pelo povo, inclusive excluídos da religião, principalmente os cobradores de impostos; somente Lucas apresenta esses grupos interessados em conversão, o que reforça a sua teologia de universalidade da salvação: ninguém é excluído pela condição social, étnica ou religiosa; a salvação é oferecida a toda a humanidade, e não a grupos privilegiados específicos. No decorrer da sua obra, Lucas vai mostrar a salvação sendo acolhida por cobradores de impostos e soldados (cf. Lc 5,27-39; 19,1-10; At 10,1-48).   

A pergunta dos cobradores de impostos e dos soldados é a mesma das multidões: “O que devemos fazer?”; na verdade, essa pergunta funciona como um refrão neste trecho do evangelho, e como um convite do evangelista aos seus leitores de todos os tempos para também se perguntarem sobre o que se deve fazer para viver o Evangelho e fazer o Reino de Deus acontecer; todos tem responsabilidade e podem colaborar nesse processo.  Também dos cobradores de impostos, João não exige penitência nem sacrifícios, mas apenas justiça: “Não cobreis mais do que foi estabelecido” (v. 13). Por serem representantes do opressivo sistema de dominação romano, os cobradores de impostos eram automaticamente mal vistos; os impostos que Roma cobrava já eram bastante altos, além disso, os cobradores ainda exigiam quantias maiores do que as estabelecidas, assim, além do salário, ainda lucravam com a exploração, pois o que cobravam acima dos valores legais ficava para si; eram corruptos e ladrões profissionais. A resposta de João a eles também é surpreendente: basta fazer agir corretamente. Não deviam abandonar a profissão, pois dependiam dela para sobreviver; deviam, no entanto, exercê-la com justiça e ética.

As exigências aos soldados tem o mesmo sentido: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!” (v. 14); também a eles, João não pede penitência nem que abandonem a profissão, mas exige que a exerçam com justiça, retidão e sem violência. Muitas vezes, os soldados trabalhavam juntos com os cobradores de impostos, talvez por isso Lucas tenha recordado e mencionado os dois grupos em paralelo; como os cobradores exageravam nas taxas, cobrando além do estabelecido, muitas pessoas se recusavam a pagar e, diante disso, os cobradores pediam ajuda aos soldados, tomando o dinheiro à força, e depois repartiam entre si o valor excedido. Havia abuso de poder, corrupção generalizada e conivência entre os dois grupos. De todo o aparato administrativo, os cobradores de impostos e os soldados eram os que estavam diretamente em contato com o povo, por isso eram muito rejeitados e, sem dúvidas, davam muitos motivos para isso. Eram totalmente excluídos pela religião, inclusive o templo tinha seus próprios guardas, porque os soldados romanos eram considerados impuros e não podiam entrar lá.

A expectativa pela chegada do messias era muito grande, inclusive muitos pregadores, vez por outra, se apresentavam como tal; por isso, muitos se perguntavam se João não seria o próprio messias (cf. v. 15), até pela novidade da sua pregação. De acordo com o evangelista, o próprio João esclareceu não ser ele o messias: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga” (v. 16-17). Esse esclarecimento era muito necessário, tanto para os ouvintes diretos da pregação, quanto para a comunidade do evangelista e os futuros leitores de sua obra, como nós; o próprio Lucas registra, em seu outro livro (os Atos dos Apóstolos) que o batismo de João continuava sendo realizado como se fosse o batismo cristão, pois as pessoas não compreendiam a diferença, e isso gerava confusão em algumas comunidades, como Éfeso, por exemplo (cf. At 19,1-7). Por isso, a necessidade de fazer a distinção com o uso de imagens tão fortes.

A referência ao gesto de desamarrar as sandálias é uma alusão a Israel como esposa e Jesus como o noivo que vem ao seu encontro; por isso, não se trata de uma lição de humildade de João. Aqui, ele cita a lei judaica do levirato: tirar a sandália era um rito que significava apropriar-se do direito de tomar a mulher (viúva) como esposa, para lhe dar descendência (cf. Dt 25,5-10; Rt 3,5-11). Assim, João deixa claro que não é ele o esposo, porque essa missão não lhe compete. O direito de fecundar Israel é exclusivo de Jesus, para tornar novamente fértil aquela esposa explorada e tornada estéril pela elite sacerdotal de Jerusalém e pelo poder romano. O batismo de João, com água, era apenas um sinal, um alerta sobre o tempo novo que estava por vir; batismo por excelência é o de Jesus, com o Espírito Santo; esse batismo é definitivo, é o cumprimento de profecias e condição para Israel e toda a humanidade voltar à condição de povo de Deus (cf. Ez 36,24-28), e ao mesmo tempo sinal de universalização da salvação: o Espírito Santo, como superação e substituição da Lei, dará condições, ao ser acolhido, para que todos os povos sejam contemplados com a libertação inaugurada por Jesus. O uso das imagens da pá e do fogo não é de julgamento, mas significa a força da mensagem de Jesus; a ele não interessam as aparências, mas somente os frutos; assim como só fica o trigo no celeiro, só pertence ao Reino quem vive segundo a justiça e o amor; a palha a ser queimada é a injustiça, a indiferença, o orgulho, a ambição e todos os males que afetam a dignidade humana. O “fogo que não se apaga” não é sinal de condenação, significa a falta de sentido para a existência, como é a vida de quem não faz opção pelo Reino.

Conclui o evangelista, que “ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa-Nova” (v. 18). Aqui Lucas reforça que a pregação de João constituía também uma boa notícia, como será a de Jesus. Essa boa notícia era, sobretudo, a possibilidade cada pessoa se relacionar com Deus sem depender das imposições da religião judaica; para fazer parte do Reino de Deus não depende da autorização de um sistema religioso, mas da atitude interior e decisão pessoal de cada um e cada uma que descobriu “o que é preciso fazer”. É importante perceber e recordar que a nenhum dos grupos que o procuram, João pediu para se tornarem pessoas mais religiosas e devotas; pediu apenas que se tornassem pessoas melhores, se solidarizando com o próximo e praticando a justiça. A religião só tem sentido se nos ajudar a fazer isso!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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