segunda-feira, setembro 26, 2016

REFLEXÃO PARA O XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 16,19-31 (ANO C)

Neste XXVI Domingo do Tempo Comum, a liturgia continua a nos situar no longo caminho de Jesus rumo a Jerusalém. O texto evangélico oferecido é a famosa parábola do rico avarento e o pobre Lázaro (Lc 16,19-31). Trata-se de uma parábola exclusiva de Lucas, a segunda do décimo sexto capítulo; a primeira, também exclusiva de Lucas, do chamado administrador astuto (Lc 16,1-8), seguida de algumas máximas (16,9-13), fora objeto de nossa reflexão no último domingo (XXV). O tema de todo o capítulo diz respeito ao uso dos bens materiais e à relação do homem com os mesmos. Por sinal, um tema muito importante para a catequese de Jesus aos seus discípulos.

Assim, podemos dizer que a reflexão de hoje se coloca em perfeita continuidade com aquela apresentada há uma semana atrás. No entanto, embora o tema seja praticamente o mesmo, é importante percebermos alguns detalhes importantes a respeito do contexto, para uma compreensão mais ampla.

O primeiro dos detalhes observado diz respeito aos destinatários. Na primeira parábola, conforme lemos no domingo passado, os destinatários diretos eram os discípulos, conforme o primeiro versículo dizia: “Disse Jesus aos seus discípulos: Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens” (cf. Lc 16,1). Para elucidar o enigmático conteúdo da parábola, Ele proferiu algumas máximas em estilo proverbial. Embora fossem os discípulos os destinatários, também os fariseus escutaram e, obviamente, reagiram negativamente.

Reações negativas dos fariseus aos ensinamentos de Jesus são muito comuns em todo o evangelho. Reagiam com murmúrio (cf. Lc 5,30), com perguntas (cf. Lc 6,2), com perseguição (cf. Lc 11,53). Mas dessa vez reagiram de outro modo. Como a catequese de Jesus sobre o dinheiro e riqueza foi muito radical, os fariseus zombavam: “Os fariseus amigos do dinheiro ouviam tudo isso e zombavam dele” (Lc 16,14). É, portanto, dessa reação sarcástica dos fariseus que nasceu a parábola de hoje, tendo sido precedida também por algumas máximas. Os destinatários diretos dela são os fariseus e todos os “amigos do dinheiro”, como eles.

A parábola é iniciada com um indicativo muito importante, típico de Lucas: “Havia um homem rico” (v. 19a). É a terceira vez que essa fórmula aparece no evangelho de Lucas e sempre de modo negativo; a primeira vez apareceu na parábola do rico insensato que mandou derrubar seus celeiros e construir outros maiores para armazenar toda a sua produção, a ponto de ser chamado de ‘louco’ (cf. Lc 12,16-20), a segunda vez foi na parábola refletida domingo passado (cf. Lc 16,1-8). Hoje, na terceira vez, a perspectiva é ainda mais negativa, uma vez que apresenta a riqueza como motivo da degeneração completa e condenação perpétua, embora o objetivo da parábola não seja apresentar o destino final das pessoas, nem tampouco descrever as realidades futuras.

É muito significativa a forma como a parábola é introduzida, descrevendo dois personagens completamente diferentes: um rico elegantemente vestido e festivo (v. 19) e um pobre ferido e mendigo, um miserável (v. 20). Se trata de um verdadeiro paradoxo, técnica literária muito apreciada por Lucas, sobretudo quando desenvolve um dos seus temas mais caros, o uso das riquezas e a predileção pelos pobres, desde o cântico de Maria (cf. 1,52-53), passando pelas bem-aventuranças e maldições (cf. 6,20.25), até a parábola de hoje. É um modo de chamar a atenção do leitor.

O primeiro detalhe para evidenciar as diferenças entre os dois personagens é o fato de que apenas um deles ter nome, o pobre. Esse é um detalhe muito importante, pois o nome na bíblia significa a identidade e ao mesmo tempo a dignidade da pessoa; quem dá o nome é Deus, pois é Ele o Senhor, pai e artífice do universo. Aquele que tem nome é, portanto, conhecido por Deus, contado entre os seus. E, se ter um nome já significativo, mais ainda é o significado do nome do personagem da parábola: Lázaro, nome que tem sua origem no hebraico rz"ß['l.a, - El’azar – cujo significado é “Deus ajuda” ou “ajuda de Deus”. Outro dado significativo é que essa é a única parábola em que Jesus dá nome a um personagem; em todas as demais, os personagens são anônimos, como o rico desta.

A parábola apresenta, então, dois homens que, embora fisicamente vizinhos, viviam em mundos completamente diferentes; separados fisicamente apenas pela porta da casa do rico (v. 20), e por um grande abismo de mentalidade construído pela indiferença do homem rico. É interessante perceber que a parábola não descreve o caráter de nenhum dos personagens, não fala da conduta ética e moral deles. Apenas descreve as condições de cada um: um era muito rico e o outro muito pobre. Não diz se o rico era uma má pessoa, diz apenas que era rico e levava uma vida luxuosa. Do pobre, não se diz se era justo, bom ou trabalhador; se diz apenas que muito pobre, mendigo. Certamente, esses detalhes devem ser considerados, sobretudo na perspectiva da teologia lucana.

No quadro das bem-aventuranças e maldições no Evangelho de Lucas (5,20-26), a primeira bem-aventurança é dirigida aos pobres, afirmando ser deles o Reino de Deus (cf. Lc 5,20). Lá, não se diz que são felizes os pobres de bom coração, os pobres em espírito, os pobres justos... nada disso! Se diz que são bem-aventurados por serem pobres. No elenco das maldições, Jesus utiliza a fórmula de denúncia profética “ai de vós” dirigindo-se aos ricos por serem ricos, sem qualifica-los (cf. Lc 5,24). Portanto, em Lucas os pobres são ‘benditos’ por Jesus por serem pobres e os ricos são malditos por serem ricos. É claro que há muitas tendências de interpretação que visam amenizar o impacto destas afirmações, embora desde o início do evangelho essa perspectiva esteja muito clara.

O pobre Lázaro não queria muita coisa: “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico” (v. 21a). Vivia em estado de impureza legal, uma vez que suas feridas eram expostas a ponto de atrair a atenção dos cachorros, animais impuros, que vinham lambê-las (v. 21b). Portanto, tinha todas características de uma pessoa amaldiçoada por Deus, segundo ‘teologia da prosperidade’ tão comum nos ambientes farisaicos; de fato, imaginava-se que quanto mais riquezas o homem conseguisse acumular, mais seria abençoado por Deus, assim como quanto mais pobre fosse, mais seria amaldiçoado. Era essa a visão dos fariseus amigos do dinheiro que zombaram de Jesus (cf. Lc 16,14). Com a parábola, Jesus quer desconstruir essa falsa teologia, apresentando exatamente o contrário: quando mais rico, mais distante dos desígnios de Deus e, portanto, de seu Reino.

Como a parábola tem uma função didática muito forte, Jesus acaba usando uma linguagem até apocalíptica, ao aplicar as imagens do destino final dos dois personagens, embora não seja sua intenção descrever as realidades futuras, ou seja, mostrar o céu e o inferno, como muitos pregadores têm, equivocadamente, interpretado. Ao dirigir-se aos fariseus, Jesus usa uma linguagem acessível a eles, como de fato acreditavam em categorias como prêmio para os bons e castigos para os maus. Realmente, era muito comum nas pregações dos fariseus a advertência com estas categorias. Jesus aplica-as, mas de modo inverso, contradizendo-os, ao apresentar os pobres como beneficiários das consolações eternas.

Fala-se, pois da morte dos dois homens. Interessante perceber a religiosidade do homem rico: “Pai Abraão” (vv. 24.27). Ele era, portanto, um bom fariseu, reconhecia, como todo bom judeu da época, a paternidade de Abraão, o pai na fé de todo o povo eleito. As respostas de Abraão reforçam as consequências do abismo construído pela indiferença do rico ainda em vida. Ao dar a sua causa por perdida, o homem pensa, embora tarde, nos seus familiares (vv. 27-28). Mais uma vez, só reforça sua mentalidade mesquinha e egoísta, pois pensa em si e no máximo, em seus familiares. Não pensa nos outros, na coletividade, mas apenas no seu pequeno mundo, naqueles que com ele se banqueteavam. E, recordamos que Jesus já tinha, outra parábola, advertido sobre os critérios utilizados para a escolha dos convidados nos banquetes (cf. Lc 14,12-14).

A resposta de Abraão às súplicas do rico é muito clara: eles têm Moisés e os profetas (vv. 29.31). Com essa expressão, diz-se que eles têm a Escritura. De fato, desde Moisés (cf. Ex 5,6; 23,10; Lv 19,10) até os profetas cf. Am 4,1; 6; 8,4), a palavra de Deus adverte para a necessidade do cuidado com os pobres, mostrando claramente sua opção por eles. Portanto, negligenciar o cuidado para com os pobres é negligenciar o próprio Deus. Por fim, o homem pede, em súplica, um fenômeno sobrenatural para advertir seus familiares, pedindo que Abraão libere Lázaro para que vá até a terra e apareça-lhes. Ou seja, diz que, recebendo uma ‘visão’, eles se converteriam. Como resposta, mais uma vez a Escritura é apresentada como única base e fundamento para a fé. É em vão fundamentar a fé em visões, aparições e sonhos. A fé autêntica e comprometida se fundamenta unicamente na Palavra de Deus. E a Palavra nos adverte para o cuidado com os mais necessitados, porque essa é a opção do próprio Deus.

Fazer opção pelos pobres, portanto, não é comunismo nem oportunismo; é apenas compreender e fazer a mesma opção de Deus, revelada na Sagrada Escritura!



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, setembro 18, 2016

REFLEXÃO PARA O XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 16,1-13 (ANO C)

Não são raras as ocasiões em que Jesus nos surpreende com o seu ensinamento. E, o texto que a liturgia deste XXV Domingo do Tempo Comum nos apresenta parece conter uma das maiores surpresas desse ensinamento, pois Ele apresenta um homem desonesto como modelo a ser imitado, pelo menos aparentemente. Trata-se da chamada “parábola do administrador desonesto”, a primeira do capítulo dezesseis (vv. 1-8), seguida de algumas máximas de caráter proverbial (vv. 9-13).

É importante destacar que o texto compõe o amplo conjunto do caminho catequético apresentado por Jesus em sua viagem para Jerusalém. No capítulo em questão, o décimo sexto do terceiro evangelho, o tema central é exatamente o uso dos bens materiais, ou melhor, da riqueza, especificamente. Esse tema é ilustrado por duas parábolas: a do administrador “desonesto” (vv. 1-8) e aquela do pobre Lázaro e o rico avarento (vv. 19-31), intercaladas por algumas máximas de efeito prático-exortativo em estilo proverbial, que funcionam como interpretação da primeira parábola, a de hoje, e preparação para a segunda. É importante também recordar que as duas parábolas são exclusivas de Lucas, o evangelista que mais combate a concentração de riquezas, propondo a partilha e a solidariedade.

Assim, tendo já identificado o contexto da parábola, a catequese sobre o uso dos bens e riquezas, podemos, logo de início, identificar os destinatários da mesma: os discípulos, como vem afirmado logo no início: “Jesus dizia aos discípulos” (v. 1a). Quando o evangelho diz que Jesus ensina diretamente aos seus discípulos, quer dizer que se trata de algo urgente e, portanto, inadiável. Quando Ele insiste com um mesmo tema, significa que se trata de algo muito importante e, ao mesmo tempo, que os discípulos estão sendo lentos demais na compreensão, a ponto de ser necessário repetir diversas vezes e de diferentes modos. Tudo isso se verifica quando se trata do cuidado com o uso dos bens e das riquezas.

Recordemos algumas ocasiões, ao longo do ‘caminho’, em que os discípulos foram advertidos sobre o uso dos bens materiais: no Pai Nosso, ao recomendar que se peça apenas o necessário para cada dia (cf. Lc 11,3), quando negou-se a interferir em questões relacionadas à divisão de herança, contando a parábola do homem rico insensato (cf. Lc 12,16-21), na apresentação das exigências para o seu seguimento, ao colocar a renúncia de todos os bens como condição para ser seu discípulo (cf. Lc 14,33). Como se vê, há uma insistência de Jesus ao apresentar o tema do uso da riqueza, e isso se deve à resistência dos discípulos, ou seja, faziam pouco caso com uma questão fundamental, a ponto de Jesus, por necessidade, tornar-se repetitivo.

Feitas as devidas considerações introdutórias, entramos diretamente no conteúdo da parábola, recordando a sua trama, como é sinteticamente apresentada logo no primeiro versículo: “Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens” (v. 1b). É interessante que a parábola não diz como o administrador esbanjava os bens do seu patrão. Isso poderia acontecer de diversas maneiras, inclusive ajudando aos mais necessitados, o que na ótica da economia, ao contrário do Reino, seria um modo de esbanjar. Recordemos que Lucas é o único evangelista que usa o termo administrador, em grego oivkono,moj (oikonomos), cujo significado literal é “aquele que cuida dos bens da casa” como um supervisor, tendo total liberdade na gerência dos negócios do patrão.

Diante da acusação de esbanjar os bens que não lhe pertenciam, o destino do administrador não poderia ser outro, senão a demissão ao ser chamado pelo patrão (v. 2). Parece que o próprio administrador aceita ser tratado como desonesto, pois nem sequer pediu perdão ou desculpas ao patrão; na iminência da demissão, o que lhe vem em mente é a preocupação com o futuro. Isso o leva a uma profunda reflexão (v. 3-4). Trata-se de uma reflexão bem calculista, própria do ‘ecônomo’. Em outras ocasiões, Jesus tinha convidado seus discípulos também à reflexão até de modo calculista (cf. Lc 14,25-33), como refletimos no XXIII Domingo. A reflexão leva o administrador a tomar uma atitude, por sinal, bastante prudente, como fruto dos cuidadosos cálculos.

O medo do trabalho braçal e a vergonha de mendigar (v. 3) levo-o a uma decisão firme e corajosa (vv. 5-7), própria de quem fez uma ampla reflexão. Não sabemos se as medidas tomadas trouxeram ainda mais prejuízos para o patrão, mas parece que não, pois o próprio patrão o elogiará posteriormente (v. 8), por ter agido com “esperteza”. Na verdade, bem mais que esperteza, o termo que Lucas utiliza é froni,mwj (fronimos), que designa ‘aquele que está em pleno uso da razão’, o que é sábio, inteligente, prudente e sagaz, como deve ser a atitude do discípulo de Jesus.

O coração da parábola está nos vv. 5-7. O sistema tributário da época era bastante arbitrário, contrariando, inclusive, as leis do Antigo Testamento que proibiam a usura, ou seja, o empréstimo por juros (cf. Ex 22,19; 25,36-37; etc.). A reflexão do administrador parte de um dilema: agradar ao patrão ou aos devedores? Pensando no futuro, prefere a segunda opção e convida os devedores a uma revisão nas contas, por isso “chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão” (v. 5). Embora a parábola apresente apenas dois devedores, supõe-se que havia um número muito grande, devido as proporções e consequências do caso, a ponto de causar a sua demissão. Os dois casos descritos, um devedor de azeite e outro de trigo, ajudam a compreender que, mesmo tratando-se de quantias exorbitantes, se trata de produtos de subsistência, embora de grande valor, mas eram necessidades primárias para a alimentação no dia-a-dia, o que vem a supor que os devedores eram pobres.

A revisão nas contas prova que o administrador fez uma opção clara: escolheu o lado dos mais fracos, os endividados, tornando-se amigo deles (v. 9), pois somente os fracos e pobres tem generosidade para partilhar o pouco que tem, dando acolhida ao próximo (v. 4), como visava o administrador. Muitos intérpretes, sem base alguma nas linhas e entrelinhas da parábola, dizem que o administrador com os supostos descontos de cinquenta por cento para um e vinte para o outro, estava apenas abrindo mão da sua desonesta comissão. Mas não há fundamentos claros nem na parábola nem nos versículos explicativos que a seguem (vv. 9-13).

Juntemos, mais uma vez, algumas peças na montagem do ‘quadro’ pintado por Lucas: o administrador foi “acusado de esbanjar os bens do patrão” (v. 1b) e chamado de desonesto somente pelo próprio patrão (v. 8a). Esse dado é muito importante para compreendermos a diferença dos pontos de vista. A visão do patrão era meramente acumulativa, pensava somente em lucros e, à medida que o administrador diminuísse seus lucros no repasse dos bens administrados, não poderia ser acusado de outra coisa senão de desonestidade. Mas, a lógica do patrão é exatamente o contrário da lógica do Reino. O projeto do Reino de Deus é antítese à ideologia do mercado. Enquanto o mercado incentiva o acúmulo, o Reino convida à partilha e à solidariedade.

O administrador foi solidário com os endividados, usando o dinheiro injusto para fazer amigos (v. 9), ou seja, preferiu bens que não passam, e a amizade é um destes bens eternos, ao aumento dos lucros do seu patrão. De fato, o dinheiro acumulado será sempre injusto, porque foi sugado de alguém, dos pobres. Estar em dia com as leis deste mundo não equivale a estar em dia com o Reino. Dos discípulos, Jesus pede fidelidade ao Reino, e por isso, muitas vezes, é necessário negar-se ao cumprimento das leis “deste mundo”, a maioria injustas.

Concluímos, então, com uma referência ao último versículo (v. 13), o qual convida o discípulo a cada vez mais amadurecer em suas opções, tendo clareza de que não se pode servir a dois senhores, ou seja, a Deus e ao dinheiro. Por incrível que pareça, o administrador, aparentemente, desonesto, acaba sendo o exemplo de quem levou a sério esse ensinamento e escolheu um único senhor, diante das duas opções: ajudando seu patrão no acúmulo, estaria servindo ao dinheiro; como preferiu ajudar aos pobres endividados, escolheu servir a Deus. Ele fez uma opção clara, típica de quem está em pleno estado de lucidez (v. 8) para perceber qual é o lado de Deus.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, setembro 11, 2016

REFLEXÃO PARA O XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 15,1-32 (ANO C)

O Evangelho deste XXIV Domingo do Tempo Comum, composto de três parábolas, continua situando-nos no longo caminho de Jesus com seus discípulos para Jerusalém, oportunidade que Ele aproveita para reforçar a sua catequese, deixando claras quais as características do seu Deus. Após apresentar as exigências necessárias para quem quer entrar no seu discipulado, como refletimos no domingo passado (cf. Lc 14,25-33), hoje Ele nos convida a conhecer o rosto do seu Deus, o qual, mais que uma divindade, é, sobretudo, um Pai.

Além de constituir-se como um dos principais conteúdos de sua catequese para os discípulos e discípulas que o seguem, a mensagem do ensinamento de Jesus nas três parábolas oferecidas pela liturgia de hoje, é também uma bem elaborada resposta à concepção equivocada de Deus da parte dos grupos religiosos predominantes na sua época, os fariseus e os mestres da lei.

Chamadas de ‘parábolas da misericórdia’, estas contêm o núcleo básico e essencial do ensinamento de Jesus: o amor e a misericórdia do Pai. Por isso, não exageram os biblistas quando dizem que esse trecho é como se fosse “o Evangelho do Evangelho”. É claro que a ênfase maior vai para a terceira parábola (vv. 11-32), aquela do “Pai misericordioso”, equivocadamente chamada do “Filho Pródigo”. Essa é, sem dúvida, a mais lida, citada e estudada de todas as parábolas do Novo Testamento. As duas que a precedem tem a função didática de prepará-la: a da ovelha perdida e reencontrada (vv. 3-7) e a da moeda perdida e reencontrada (vv. 8-10).

Para uma boa compreensão das três parábolas, é importante perceber a introdução apresentada nos dois primeiros versículos, pois é daí que conhecemos o contexto e os destinatários das mesmas. O contexto é o de mais um encontro de Jesus com os publicanos e pecadores, cena comum no Evangelho de Lucas (cf. Lc 5,30; 7,34). Esses, publicanos e pecadores, “aproximavam-se de Jesus para escutá-lo” (v. 1), certamente porque encontravam acolhida e compreensão. Como classes rejeitadas social e religiosamente, admiravam-se porque tinham encontrado alguém que os acolhia sem discriminações. É claro que isso comprometia a reputação de Jesus, principalmente perante os líderes religiosos, considerados justos, como os fariseus e os mestres da lei, os quais o "criticavam". Na verdade, ao invés de criticar, o texto grego traz o verbo diago,gguzw – (diagongyzu) – que significa murmurar, o que que quer dizer protestar, levanter-se contra, e isso é muito mais que uma simples critica. Portanto, os fariseus e os mestres da lei protestavam contra Jesus devido o seu comportamento herético, pois além de acolher os pecadores ainda sentava com eles para comer.

Assim, identificamos, obviamente, que são os fariseus e os mestres da lei os destinatários das chamadas parábolas da misericórdia. Logo, muito mais que persuadir pecadores para a conversão, estas parábolas tem a função de abrir a mente dos que se consideram justos, chamando-os a uma nova concepção sobre Deus. Jesus quer mostrar que o Deus, seu Pai, não age conforme o receituário da religião.

As duas primeiras palavras, como já afirmamos anteriormente, tem a função didática de preparar a terceira, mas nem por isso são privadas de valor. Ambas construídas a partir do trinômio “perda-reencontro-festa”, enfatizam a misericórdia de Deus que não aceita que nenhum dos seus filhos se perca e, por isso, busca-os constantemente. Na primeira, da ovelha perdida, nos deparamos com categorias bastante comuns da Escritura hebraica, como pastor, ovelha rebanho (cf. Ez 18,23; Jer 24,7). O amor de Deus pelos seus, apresentam uma dimensão importante da conversão. Um dado que passa quase despercebido, mas muito relevante, é apresentado no versículo quarto: o pastor verdadeiro arrisca a vida das noventa e nove, por amor àquela que se perdeu; ele não espera protegê-las no curral para depois sair em busca daquela perdida; deixa-as no deserto, expostas ao perigo de feras e assaltantes e não descansa enquanto não resgata a única que se perdeu. Essa é uma das características do Deus-Pai que Jesus revela, para o qual as pessoas piedosas da sua época se fecharam.

Na segunda, a grande inovação é o fato de Deus ser apresentado com uma figura feminina. Construídas-as em perfeita simetria, ambas justificam o comportamento de Jesus ao acolher pecadores e publicanos e até sentar-se com eles à mesa. Fazer refeição juntos é fazer comunhão, é dar e receber. Essa era uma ferramenta importante para conhecer em profundidade e deixar-se conhecer. E, ao deixar-se conhecer Jesus conquistava as pessoas, sobretudo aquelas que sentiam-se excluídas e rejeitadas social e religiosamente. Foi para estas que Ele veio ao mundo. Por isso, Ele enfatiza o aspecto festivo que marca o reencontro com o que parecia perdido.

A terceira parábola (vv. 11-32), chamada equivocadamente de “Parábola do filho pródigo”, é a obra prima de Lucas. Na verdade, é muito mais justo o título de “Parábola do Pai bondoso ou misericordioso”, como tem sido chamada nos últimos anos. De fato, é o “Pai” que está no centro do ensinamento a partir da relação entre o pai e os dois filhos. Como se trata de um ensinamento dirigido aos considerados justos, fariseus e mestres da lei, a parábola apresenta com ênfase a misericórdia do Pai, e não um modelo de convertido, como erroneamente já se apresentou o filho mais novo como modelo de conversão.

“Um pai tinha dois filhos” (v. 11), mas nenhum dos dois tinha experimentado o amor desse pai. Ambos o viam mais como um patrão, a ponto de um deles não mais o suportar e pedir a parte da herança devida, no caso, um terço dos bens, já que era o filho mais novo. Para a cultura judaica, quando um filho pedia a herança com o pai ainda vivo, era como se o estivesse matando e ao mesmo tempo morrendo: a relação entre os dois estava completamente acabada. A sua partida para um lugar distante (v. 13) confirma isso ainda mais. Aos poucos, à medida que esbanja os bens, vem a decadência, e torna-se praticamente escravo de um estrangeiro a ponto de submeter-se ao pior dos trabalhos para um judeu: cuidar de porcos (v. 15). Essa situação de humilhação leva-lhe a uma reflexão, mas não a uma conversão, ao contrário do que dizem as interpretações tradicionais. De fato, sua fala não mostra sinal de conversão: “Quantos empregados do meu Pai têm pão com fartura e eu aqui morrendo de fome” (v. 17). Como se vê, as motivações foram meramente materiais, ou seja, ele sentiu falta da mesa farta, e não do amor do pai. Mas, a certeza da fartura na casa do pai foi o suficiente para tomar a firme decisão de voltar e pedir para ser tratado, pelo menos, como empregado.

Certamente, a conversão aconteceu, não tenhamos dúvida. Mas, aconteceu com a acolhida que o Pai lhe proporcionou, com o sentimento de compaixão, próprio de Deus, e o abraço seguido de beijos (v. 20) e, por fim, a restituição dos bens e da dignidade de filho, através da imagem da túnica, anel e sandália (v. 22). Destes sinais, o mais significativo é o anel, pois mais que adorno, era o sinal da confiança resgatada, pois o mesmo dava autoridade para gerenciar negócios em nome do pai. Com tanto amor demonstrado, não tem como pensar que não houve conversão. Mas é interessante perceber a conversão como resposta ao acolhimento, pois na primeira motivação do filho, o interesse estava apenas na mesa farta.

O filho mais velho, guardião da moral e dos bons costumes, obediente ao extremo, entra em cena exatamente no momento em que a festa acontece (vv. 25-30). Sente-se escandalizado e até traído pelo pai, por acolher um filho errante com festa, enquanto ele, sempre fiel, jamais teve direito a fazer qualquer comemoração com seus amigos. Esse é tão fechado em si, tem uma ideia tão distorcida do pai, a ponto de nem considerar o outro como irmão; simplesmente diz ao pai: “esse teu filho” (v. 30). É esse o comportamento de Israel fechado em si, que insiste em manter uma caricatura de Deus, desconhecendo a beleza do Deus que Jesus apresenta, um Pai cheio de amor e misericórdia.

Muitas leituras podem ser feitas a partir dessa parábola. Considerando os destinatários imediatos e a perspectiva universalista de toda a obra de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos), a leitura mais sensata, a qual tem prevalecido nos estudos mais recentes, é a representação da relação tensa entre judeus e pagãos no cristianismo das origens. O filho mais velho representa os judeus fechados em si, e o mais novo, os pagãos, os quais são acolhidos no novo povo de Deus, a Igreja, sem nenhuma distinção.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, setembro 03, 2016

REFLEXÃO PARA O XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 14,25-33 (ANO C)


Neste XXIII Domingo do Tempo Comum, o Evangelho apresenta Jesus retomando o caminho, após uma breve pausa em certo povoado, onde fez até uma refeição na casa de um fariseu, após o culto sabático da sinagoga. Foi isso o que nos apresentou o texto evangélico do domingo passado, enfatizando o tom polêmico e controverso que sempre marcou os encontros de Jesus com os grupos mais observantes da religião judaica.

Hoje, nós o contemplamos novamente caminhando rumo a Jerusalém. Como já conhecemos a natureza desse caminho, podemos dizer que Ele continua ‘ensinando’, já que o objetivo desse itinerário é catequético-teológico, muito mais que geográfico. À medida que avança no percurso, aprofunda o conteúdo da sua catequese e, consequentemente, as exigências para o seu seguimento vão tornando-se mais claras. Pois, quanto mais se aproximam do destino, mais necessárias se tornam as convicções para tal seguimento. Por isso, Ele apresenta três exigências muito fortes, que exigem uma tomada de decisão bastante radical.

O texto diz, logo no início, que “Grandes multidões acompanhavam Jesus” (v. 25a). Com essa afirmação podemos concluir que a pregação de Jesus estava fazendo sucesso, impressionando as pessoas por onde Ele passava. E, como a busca pelo sucesso não era seu objetivo, Ele até estranha a presença de multidões atrás de si. Por isso, Ele “voltou-se” (v. 25b) e fez uma chamada de atenção, pois, consciente da radicalidade de suas próprias exigências, Ele percebia que havia, ali, um mal-entendido.

No início do caminho, Jesus tinha tratado seu grupo como “pequeno rebanho” (cf. Lc 12,32). Quanto mais caminhava, mais exigia coragem e convicção. Seria, então, mais lógico que diminuísse o número dos que o acompanhavam, ao invés de aumentar. Se aumentavam as multidões, era porque havia equívoco no modo de acolher a sua mensagem. Jesus sabia que o interesse de muitos era o triunfalismo. Muitos o acompanhavam imaginando que Ele fosse o messias davídico, o restaurador do poder político, aquele que combateria com os romanos até retomar o poder e restaurar o reino de Israel. Foi a essa mentalidade que Ele percebeu e quis combater, ao esclarecer as exigências necessárias para o seu discipulado, no Evangelho de hoje.

Como bom mestre, Jesus costumava começar seus discursos com expressões muito fortes e impactantes. Recordemos o Evangelho de três domingos atrás, o qual, logo na sua primeira expressão, Jesus dizia: “Eu vim trazer o fogo sobre a terra” (cf. Lc 12,49). É uma técnica retórica comum nos ambientes semitas e gregos, muito usada pelos rabinos, com a finalidade de despertar a atenção logo no início, causando impacto. Assim, Ele o faz ao expor a primeira exigência para o seu seguimento: o rompimento com os laços familiares (v. 26). Infelizmente, a tradução do texto litúrgico não consegue expressar bem o sentido da afirmação de Jesus. No texto original não aparece o verbo ‘desapegar’; aparece um muito mais forte: odiar, em grego misei/ - misei. Portanto, a tradução mais justa seria: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, a mulher e os filhos, os irmãos e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo”; e essa é muito mais impactante.

Certamente, aqueles que o escutaram ficaram perplexos. A princípio, parece um convite a abandonar o quarto mandamento da Torá, “honrar pai e mãe” (cf. Ex 20,12). Claro que não se trata disso. Jamais Jesus pregaria a disseminação do ódio entre as pessoas, até porque seria contradizer a sua própria natureza. O que Ele pede é uma adesão incondicional, que nada nem ninguém ocupe um lugar acima do seu, na vida de seus discípulos. Ele pede coragem para romper com os laços mais íntimos, representados pela família. Além disso, a família enquanto instituição representava a tradição, e o seu anúncio do Reino exigia uma ruptura com as antigas tradições. Há também nessa afirmação, sinais de continuidade com as observações dirigidas aos fariseus durante a refeição (cf. Lc 14,1-14), conforme refletimos no domingo passado: os critérios para convidar alguém para uma refeição em casa não pode ser o laço familiar. Enfim, na proposta de vida nova apresentada por Jesus, as relações familiares não são mais centrais.

Jesus não está abolindo o quarto mandamento. Está apenas inaugurando novos critérios de relação. Indo mais além, exige que o Reino esteja acima da própria vida do discípulo. Enfim, a opção pelo seu seguimento requer tomadas de decisões firmes e corajosas, as quais não podem ser feitas de improviso. É necessário refletir e discernir se vale a pena mesmo seguí-lo. O convite à reflexão, Ele faz após expor a segunda exigência, com as duas pequenas parábolas (vv. 28-32).

A segunda exigência é ainda mais impactante, se conseguirmos captar bem o sentido da cruz aqui empregado: “Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo” (v. 27). No tempo de Jesus a cruz não era um sinal sagrado. Pelo contrário, era sinal de maldição, de desgraça. Mais que de tortura, era sinal de crime, de subversão, já que era a pena aplicada aos agitadores sociais, àqueles que, como Jesus, ousavam questionar a ‘pax romana’ (cf. Lc 12,51). Muitos, erroneamente, tem interpretado essa afirmação como um convite de Jesus a suportar, com paciência e passividade, os sofrimentos e obstáculos, dores e perdas do dia-a-dia. Não se trata disso! Jesus não está pedindo conformismo. É exatamente o contrário disso! Com essa expressão, Ele está se opondo radicalmente à doutrina dos rabinos de sua época, os quais exigiam dos seus discípulos o cumprimento e à obediência às leis. Jesus pede a subversão! Se a cruz era uma modalidade de pena, e Jesus pede que seus discípulos a carreguem a cada dia, com isso Ele pedia que eles fossem desobedientes e subversivos, questionadores da ordem estabelecida, inconformados com as injustiças presentes no mundo. Ele, não apenas pede, mas exige, que seus discípulos tenham a coragem que Ele teve.

Certamente, Ele percebeu que estava sendo muito exigente. Por isso, antes de apresentar a terceira exigência, Ele conta duas pequenas parábolas, com a intenção de ‘suavizar’ um pouco e, ao mesmo tempo, fazê-los pensar sobre o que estavam fazendo. Assim, está claro que o objetivo das parábolas, da torre (vv. 28-30) e da guerra (vv. 31-32) é chamar os que o acompanham à reflexão: estando convictos de que o seu caminho não é um caminho de sucessos, não há nenhuma garantia ou segurança material, querem ainda continuar acompanhando-o? É um caminho marcado por desafios e renúncias, com muitas exigências. É como se Jesus perguntasse: “vocês já pararam para pensar sobre isso? Estão prontos para morrer como bandidos? É isso mesmo que vocês querem?”. É isso que está por trás da imagem do cálculo a ser feito pelo construtor (v. 28) e pelo rei (v. 31). Para evitar futuras decepções, é aconselhável que reflita-se antes, para que a decisão tomada seja séria, como é sério o projeto do Reino de Deus.

Por fim, Ele apresenta a terceira exigência: “Quem não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” (v. 33b). Ora, Jesus quer pessoas completamente livres no seu seguimento. O apego aos bens era um dos grandes obstáculos. Em outras palavras, não colocar a segurança nas coisas que se possui e sim pôr a própria segurança no que se doa, a própria vida. Tudo isso porque Jesus quer ao seu seguimento somente pessoas livres. De fato, as três condições para o seguimento são todas escolhas de liberdade e para a liberdade. Ele pede decisões que não podem ser tomadas no improviso. É, sem dúvidas o máximo de radicalidade. O apego aos bens materiais parecia tão forte, a ponto de prevalecer até mesmo sobre o apego aos familiares. É isso que explica o fato de ser a última exigência apresentada, e ter sido preparada pelas parábolas. 

Chama-nos a atenção, a fórmula de conclusão de cada exigência apresentada: “não pode ser meu discípulo!” (vv. 26. 27. 33). Nossa reflexão pessoal deve partir exatamente dessa pergunta: podemos ser discípulos de Jesus do jeito que somos e estamos? A positividade ou negatividade da resposta depende das renúncias e opções que fazemos!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues


sábado, agosto 27, 2016

REFLEXÃO PARA O XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 14,1.7-14 (ANO C)

Continuamos a acompanhar Jesus em seu longo caminho para Jerusalém. Nesse caminho, o evangelista Lucas nos mostra muitas ‘paradas’, como se fossem estações, nas quais prevalece o ensinamento à ação de caminhar. Trata-se mais de um itinerário teológico-catequético que uma distância percorrida. O texto de hoje, Lc 14,1.1-7, apresenta Jesus em uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus. Por sinal, essa é a terceira vez que Lucas o apresenta comendo na casa de um fariseu (cf. 7,36; 11,37; 14,1). Esse dado é importante porque nos ajuda a reformular a imagem distorcida de que Jesus e os fariseus eram inimigos.

É verdade que sempre há muitas discórdias nesses encontros, mas o fato de eles convidarem Jesus para comer em suas casas é sinal de que havia uma certa estima e curiosidade. E, por outro lado, o fato de Jesus aceitar tais convites mostra que, de fato, não fazia distinção de pessoas: comia com os pecadores e publicanos, para o murmúrio dos próprios fariseus (cf. Lc 5,30), e também aceitava o convite dos partidários desse grupo religioso tão observante e zeloso para com os preceitos da Lei.

Jesus aceitava convite de todos. O que não combinava com Ele era o isolamento, o fechamento egoísta e solitário. É inegável que o encontro de Jesus com os fariseus sempre terminava em conflito. Havia, sem dúvidas, uma forte oposição entre a mensagem libertadora de Jesus e a mentalidade conservadora e legalista dos fariseus. Mas, pelo menos segundo Lucas, eles conseguiam conviver.

Como afirma logo o primeiro versículo, “Num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus” (v. 1a). Essa é uma informação muito importante para a compreensão de todo o texto, porque nos dá as indicações de tempo (dia de sábado) e de espaço (casa de um fariseu). Esses dados são indicativos de que vem confusão pela frente! A refeição tinha um sentido muito forte para o povo judeu. Nos dias de sábado, após o culto matinal na sinagoga, as famílias almoçavam festivamente; a comida tinha sido preparada na véspera, a sexta-feira, o “dia da preparação”, como eles chamavam, uma vez que nenhum trabalho poderia ser feito no sábado, dia de culto e repouso.

Nos povoados, os judeus mais influentes costumavam oferecer verdadeiros banquetes, convidando com frequência o pregador daquele dia na sinagoga, de modo que o almoço fosse uma extensão do culto. Assim, à mesa se discutia o assunto da pregação, tirando as dúvidas suscitadas. Isso nos faz supor que, naquele sábado, Jesus pregou na sinagoga e após o culto, recebeu o convite para uma refeição na casa de um chefe dos fariseus, alguém importante do lugar. Como a fama de Jesus já tinha se espalhado bastante, os primeiros interessados em conferir o teor de sua mensagem eram os fariseus, verdadeiros guardiães da sã doutrina na época.

A continuação do versículo diz que “os fariseus observavam Jesus” (v. 1b). Essa é também uma informação de grande importância, porque mostra qual era a intenção deles ao convidarem Jesus: observar cuidadosamente seus gestos e palavras e o acusarem de blasfemo e transgressor da Lei de Deus, uma vez que a interpretação de Jesus lhes contradizia. Podemos dizer que havia uma dupla malícia: os fariseus convidavam Jesus para observá-lo e depois acusá-lo, e Jesus aceitava tais convites para desmascará-los, muito mais que para degustar da fartura do banquete. Infelizmente, o texto litúrgico nos priva de conhecer a origem da controvérsia, ao omitir o trecho que vai do segundo ao sexto versículo: a cura de um hidrópico em dia de sábado (vv. 2-6). Foi aí que o conflito teve início.

Considerando aquilo que o texto litúrgico propõe, percebemos que Jesus também os observava com muita atenção. E dessa observação, Ele fez duas importantes advertências, muito duras, por sinal: aos convidados (vv. 7-11), e ao dono da casa (vv. 12-15). Destas advertências a pessoas específicas, surge um ensinamento universal, direcionado, inicialmente, aos discípulos, mas estendido aos cristãos de todos os tempos: o cultivo da humildade e da gratuidade nas relações, ou seja, um estilo de vida baseado em novos critérios, em discordância com os valores defendidos pelas tradições ultrapassadas, como o judaísmo oficial da época.

Ao advertir os convidados (vv. 7-11), Jesus recorre à tradição sapiencial e constrói uma pequena parábola, baseada em uma citação do livros dos Provérbios: “Não te vanglories na frente do rei, nem ocupes o lugar dos grandes; pois é melhor que te digam: ‘Sobe aqui!’ do que seres humilhado na frente de um nobre” (Pr 25,6-7). Tendo notado que os convidados escolhiam os primeiros lugares, foi muito oportuna a chamada de atenção. A princípio, parece um convite à esperteza: como lograr de sucesso na frente dos demais ao ser promovido, passando do último para o primeiro lugar (v. 10). Era essa a mentalidade do autor sapiencial. Mas, Jesus usou o texto de Provérbios apenas como ilustração. O que, de fato, Ele quer apresentar é a dinâmica do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, prevenir seus discípulos para não imitarem o comportamento dos fariseus. Por isso mesmo, Ele continuará essa observação em outras ocasiões: na parábola do fariseu e o publicano (cf. Lc 18,9-14) e, já em Jerusalém, no discurso contra os escribas (cf. Lc 20,45-47). Portanto, o contexto é o da formação dos discípulos.

Ora, a busca pelos primeiros lugares, característica do grupo dos fariseus, não pode fazer parte do discipulado de Jesus. A atitude do cristão deve ser sempre a do serviço, e quem serve não pensa nos lugares de honra. Certamente, esse texto reflete também a preocupação de Lucas com a uma tendência hierarquizante na Igreja primitiva. O banquete dos fariseus é, aqui, apresentado como o anti-modelo do banquete cristão, o qual deve prefigurar o banquete do Reino. Assim, renunciar aos lugares de destaque é, mais que humildade, um gesto de amor. É dar espaço para o outro, optando por uma modelo de sociedade alternativa, renunciando a qualquer indício de concorrência e egoísmo. É uma atitude inclusiva, como será desenvolvido na sequência do texto.

Assim, a segunda advertência completa a primeira: “dirigindo-se a quem o tinha convidado” (v. 12a). Tendo “observado como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (v. 7a), Ele percebeu também as características destes convidados, e os critérios usados pelo dono da casa para convidá-los. Estava muito clara a política da retribuição naquele ambiente. Aqui, Ele retoma o discurso das bem-aventuranças: “fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca” (cf. Lc 6,35). Esse conselho dado ao dono da casa é completamente contrário aos costumes da época. Trata-se de algo revolucionário. O convite à gratuidade nas relações é, aqui, apenas um dos ricos significados desse trecho. Fazer o bem sem esperar recompensa é, de fato, uma atitude necessária para a comunidade dos discípulos. Mas a proposta apresentada aqui vai muito além disso!

Há um forte apelo a uma revolução social, ao conceber as novas relações, além de um convite para uma luta da qual nenhum cristão pode fugir: a superação de todas as formas de exclusão e marginalização. Ele observou, naquele ambiente, quatro categorias de convidados: “amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos” (v. 12), e todas com capacidade de retribuir. Para reverter essa situação, Ele propõe outros critérios, sendo o primeiro a impossibilidade de retribuição. Por isso, sugere também quatro categorias: “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (v. 13). Para aquele fariseu, isso foi apenas sugestão. Para os cristãos, isso é compromisso e condição: não há cristianismo sem luta pela inclusão. É interessante observar a fórmula “quatro por quatro”: tirar os privilégios de quatro grupos específicos, e incluir quatro grupos que representam todas as categorias de excluídos, inclusive da vida religiosa, uma vez que os aleijados, os coxos e os cegos nem entrar no templo podiam. Assim, o projeto do Reino, anunciado já no cântico de Maria, prevendo a ascensão dos humildes e a queda dos poderosos (cf. Lc 1,52), vai ficando cada vez mais claro. Não podemos deixar de perceber aqui uma antecipação da Eucaristia e seu sentido mais profundo: banquete para todos, motivado por amor-doação, sem exclusão alguma.

Na conclusão, novamente Ele retoma o tema das bem-aventuranças, completando-o: “Tu serás feliz!” (v. 14a). Já tendo dito que “Felizes são os pobres porque deles é o Reino de Deus” (cf. Lc 6,20), agora Ele diz que é feliz também quem fica do lado dos pobres. Essa conclusão tem um significado muito relevante para a teologia de Lucas: além de bem-aventurado, o pobre é também fonte de bem-aventurança, portanto, um lugar teológico privilegiado.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues