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REFLEXÃO PARA O XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 25,14-30 (ANO A)



Neste trigésimo terceiro domingo do tempo comum, o penúltimo do ano litúrgico, continuamos a leitura do discurso escatológico de Jesus no Evangelho segundo Mateus. O texto de hoje compreende a chamada “parábola dos talentos”, Mt 25,14-30. Essa é uma das parábolas mais difíceis e complexas de Mateus, por isso, muito passível de distorção em sua interpretação. Nela, continua em evidência o tema  da vigilância, embora de maneira menos explícita que na parábola das dez virgens (cf. Mt 25,1-13), refletida no domingo passado.

Localizada entre a parábola das dez virgens e a cena do julgamento final, a parábola dos talentos tem um significado relevante em todo o Evangelho segundo Mateus e, portanto, seu ensinamento é de fundamental importância para o bem da comunidade cristã em todos os tempos. Certamente, a comunidade de Mateus vivia um momento de relaxamento e desânimo na vivência das bem-aventuranças, núcleo central da mensagem cristã. Ora, os cristãos esperavam um retorno imediato do Senhor e, como isso não acontecia, começavam a desanimar, abandonando a fé ou vivendo-a de modo superficial.

Com essa parábola, o evangelista quis animar aqueles cristãos, mostrando que o tempo de espera não é perdido; pelo contrário, é o tempo oportuno para a comunidade fazer crescer e multiplicar os dons que o Senhor lhe confiou. Assim, essa parábola assume um papel importante para os processos de discernimento dos cristãos a respeito da espera pelo Senhor, ensinando que a melhor maneira de esperá-lo é trabalhando para que o seu Reino se realize no cotidiano, fazendo render o amor, o talento por excelência, que foi confiado a cada um e cada uma na comunidade.

Olhemos, então, para a parábola: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou” (vv. 14-15). Antes de tudo, recordemos que parábola é um gênero literário que apresenta uma mensagem por meio de comparação. É, portanto, com essa imagem apresentada que o evangelista compara a situação da sua comunidade em espera pelo retorno do Senhor. Embora o texto litúrgico empregue a palavra empregados, o correto seria servos, por corresponder com mais fidelidade ao termo grego “dúlos” usado pelo evangelista. O homem viaja, mas não se ausenta, pois continua presente, de modo implícito, nos bens confiados aos servos. Também o Senhor ressuscitado não se ausentou da comunidade; continua presente à medida em que seus seguidores são capazes de fazer o seu projeto se desenvolver, cultivando os dons que lhes foram confiados.

Embora distribuídos em quantidades diferenciadas, ninguém ficou desprovido de bens; cada um recebeu de acordo com a sua capacidade. Esse detalhe é importante para o evangelista. Se todos recebem, todos tem algo a partilhar, a plantar e fazer frutificar. A quantidade diferenciada de bens recebidos por cada um pode ser uma alusão à diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Os talentos não são emprestados, são entregues, verdadeiramente doados. Talento (em grego: ta,lanton – talanton)  era uma medida de peso usada para pesar metais preciosos como ouro e prata; um talento equivalia a aproximadamente trinta quilos de ouro, o que correspondia a seis mil denários; um denário era o salário de um dia de trabalho braçal (cf. Mt 20,2). Assim, até mesmo aquele recebeu apenas um talento, ainda recebeu uma grande fortuna. Isso significa a benevolência e liberalidade do Senhor, bem como a perenidade dos bens que ele doa à comunidade.

Ao receber os talentos ou dons, cada um é livre para usá-los como quiser. A viagem do dono evoca a liberdade dada àqueles que receberam os talentos para usá-los. Como o dono não estava presente para vigiar os servos, eles poderiam multiplicar, extraviar ou apenas conservar os talentos recebidos. A parábola diz qual foi a atitude de cada um: “o que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que recebeu dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão” (vv. 16-18). Os dois primeiros servos trabalharam até duplicarem o que haviam recebido. Embora o texto não indique como eles fizeram isso, o certo é que não ficaram parados, nem tiveram medo. Foram ousados e criativos. O terceiro, simplesmente pensou na conservação; escondendo o talento, o conservou de modo íntegro e fiel.

A aparente ausência do Senhor  pode levar os membros da comunidade a diferentes posturas: para uns, é oportunidade de crescimento, para outros é motivo de medo e insegurança. A comunidade de Mateus vivia esse drama: o que fazer enquanto o Senhor não retorna? O evangelista aconselha que cada um desenvolva os dons recebidos, procurem multiplicar, transformando as realidades com amor e justiça. O Senhor nunca se ausentou; deixou seus dons como forma de continuar presente e operante. Desse modo, o convite à vigilância não visa um momento final específico, mas uma vida toda vigilante, praticando o amor e a justiça, ou seja, vivendo segundo a dinâmica das bem-aventuranças.

A liberdade de cada um no uso dos talentos não os isenta da responsabilidade, pelo contrário. Por isso, diz o texto que “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com  os empregados (v. 19). Ora, se os talentos entregues aos servos equivalem aos dons confiados aos membros da comunidade para a sua edificação, é justo que o Senhor se interesse pelo uso que cada um fez deles. Na comunidade não pode haver individualismo, indiferença nem omissão. Quem recebeu dons e não os fez frutificar, colocando-os a serviço dos demais, obviamente, não está apto a integrar a comunidade. É esse o sentido do acerto de contas mencionado na parábola. O Senhor quer saber o que fazemos com o seu evangelho a nós confiado. Quem multiplicou os talentos, gerou vida, edificou o Reino. Quem o manteve intacto como recebeu, foi omisso, cruzou os braços; na comunidade cristã, responsável pela edificação do Reino, não há espaço para pessoas assim.

Os servos que souberam colocar os dons a serviço da comunidade, multiplicando-os, ou seja, fazendo-os frutificar, são tratados, em tom de elogio, como “servo bom e fiel” (vv. 21-23), (em grego: dou/le avgaqe. kai. piste, – dúle agathé kai pisté). Embora o texto não descreva o que estes servos fizeram precisamente, o certo é que agiram, não ficaram acomodados. O Senhor quer que os dons confiados sejam usados em prol da justiça e do amor, tornando o mundo mais humanizado e parecido com o Reino. Não se trata de um convite ao acúmulo, o que seria contrário à lógica do Reino. É uma mensagem de esperança e perseverança, um convite a perder o medo e arriscar tudo, inclusive a vida, para que as sementes do Reino se multipliquem.

Ao contrário dos dois primeiros servos, o terceiro foi repreendido como “servo mau e preguiçoso” (v. 26), (em grego: ponhre. dou/le kai. ovknhre, – poneré dule kai okneré). É interessante que o texto não menciona nenhuma ação malvada desse servo; pelo contrário, menciona sua precaução em não estragar o talento recebido, o que poderia render-lhe um reconhecimento de prudente. Ora, na lógica do Reino, lógica que a comunidade cristã deve assumir, não basta cometer delitos para ser tratado como mau: basta ser omisso, indiferente e medroso. Não basta não fazer o que é mal, basta deixar de fazer o bem para ficar fora da comunidade e, consequentemente, do Reino. O medo paralisa a comunidade e impede a instauração do Reino. De todos os medos, o mais perigoso é o medo de mudança. É esse medo que leva muitos grupos e movimentos a simplesmente conservarem rigidamente certas tradições, ignorando a ação criativa e constante do Espírito Santo.

Podemos, finalmente, identificar o sentido da vigilância nessa parábola: a autêntica vigilância não é espera passiva, mas é atitude, é serviço em prol do Reino, através da multiplicação dos dons confiados pelo Senhor à comunidade. Quem pensa apenas em conservar a doutrina, os costumes e tradições, trai a confiança depositada pelo Senhor. O Reino exige decisão, ousadia, criatividade e liberdade para o uso dos dons recebidos. Ser vigilante é, portanto, não ter medo de arriscar, é colocar-se a serviço da comunidade, expondo os dons recebidos, mesmo correndo riscos.

Uma vez que os talentos não foram confiados para serem conservados, mas para frutificarem, a atitude do dono é completamente compreensível: “tirar do que tem pouco para dar ao que tem muito” (v. 28). Ora, o que já tinha dez talentos, passando a onze, poderia fazer multiplicar cada vez mais, e quem mais ganharia com isso seria a comunidade, ou seja, o Reino. Com essa afirmação “a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas aquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado” (v. 29), o evangelho não propõe a perpetuação das desigualdades, mas acentuando a natureza da comunidade cristã: só pode participar dela quem produz e multiplica o que lhe foi confiado. Quem recebe o dom e o retém somente para si, não pode entrar em um projeto de vida comunitário como o Reino de Deus.

O destino final de quem se auto-excluiu da comunidade enfatiza a privação total de vida e amor: “choro e ranger de dentes” (v. 30). Essa expressão significa o grau máximo de despero para um ser humano, equivalente a uma vida privada de sentido. Isso não é castigo, mas consequência. De fato, é sem sentido a vida de quem não vive a lógica das bem-aventuranças. Viver para si é um mal. No Reino, só vive quem sabe viver a serviço do bem de todos; só se vive asssim com coragem e amor!


Mossoró-RN, 18/11/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - MATEUS 25,1-13 (ANO A)



Com a proximidade do final do ano litúrgico, o tema da vigilância passa a ocupar o centro da liturgia. Por isso, por três domingos consecutivos, os últimos do ano litúrgico corrente, o Evangelho é retirado do último dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, o chamado “Discurso Escatológico”. É importante, de antemão, ressaltar que a ênfase dada à vigilância não visa provocar medo, e sim reavivar e aumentar nos cristãos a esperança na realização plena do Reino de Deus ou dos céus, como prefere Mateus.

No discurso escatológico prevalece o gênero literário apocalíptico, o que o torna tão enigmático e provocativo. Por isso, é necessário compreendê-lo bem, para que sua mensagem de encorajamento e esperança não seja transformada em medo e terror. Esse discurso é composto pelos capítulos 24 e 25 de Mateus, mas a liturgia dominical faz uso apenas do capítulo 25, composto de três parábolas, das quais a primeira compreende o Evangelho de hoje: a parábola das dez virgens (25,1-13). As outras duas serão lidas nos dois próximos domingos.

Quase cinquenta anos separam a ressurreição de Jesus da redação do Evangelho segundo Mateus. Muitas coisas aconteceram nesse intervalo de tempo, como um esfriamento ou relaxamento na vida de fé dos cristãos. A comunidade mateana vivia uma situação de crise, tanto por causas externas quanto internas. As causas externas eram as perseguições da parte do judaísmo ortodoxo e do império romano; as causas internas eram o conflito entre os cristãos de origem judaica e aqueles de origem pagã e, principalmente, a queda do fervor nos cristãos que começavam a desanimar. O Evangelho segundo Mateus é, portanto, um conjunto de respostas a tudo isso.

No caso específico da parábola que hoje lemos na liturgia, essa é a resposta à crise de fé e de  identidade pela qual passava a comunidade, devido a diminuição no fervor de seus membros. Ora, tendo se passado já quase cinquenta anos da ressurreição, os cristãos não viam suas vidas melhorarem, pelo contrário, até pioravam devido às perseguições. O resultado disso era uma fé cada vez menos viva e sem esperança. Era preciso, portanto, reanimar, encorajar e despertar na comunidade a esperança e o ardor da fé inicial. Ao desânimo, o evangelista pede uma atitude de vigilância. A comunidade deve estar sempre pronta para encontrar-se com o Senhor a qualquer momento. Na verdade, segundo o evangelista, o melhor seria viver na certeza de que o Senhor nunca se ausentou, mas está sempre presente na comunidade. Isso exige solicitude, e é exatamente o que a parábola das dez virgens quer suscitar.

Por se tratar de uma parábola, não comentaremos versículo por versículo, mas apenas a sua mensagem central, embora seja necessário, mesmo assim, observar cuidadosamente algumas expressões particulares. Assim diz o texto em seu início: “O Reino dos Céus é como a história das dez virgens que pegaram suas lâmpadas e foram ao encontro do noivo” (v. 1). Essa é a última parábola do Evangelho em que o Reino dos Céus é comparado a uma realidade concreta conhecida do auditório de Jesus e da comunidade de Mateus. É uma parábola de alcance e interesse universais. A expressão “dez virgens” (em grego:  de,ka parqe,noij – déka parténois) evoca o universalismo da comunidade. Dez é um número que expressa totalidade, por ser a soma de dois números perfeitos: 7+3=10. Com esse pequeno detalhe, Jesus dá um salto de qualidade considerável em sua mensagem: o Reino dos Céus já extrapolou os limites de Israel, o qual seria representado pelo número doze.

A imagem do casamento não era novidade na linguagem de Jesus e nem no judaísmo. Desde o profeta Oséias, a relação entre Deus e seu povo é apresentada em linguagem matrimonial. O que Jesus faz é ampliar o alcance da imagem, cuja noiva-esposa deixa de ser Israel e passa a ser a humanidade inteiro. Por sinal, a parábola não fala da noiva; por ela, subentende-se toda a humanidade, uma vez que é o próprio Jesus o noivo-esposo.

Sem saber como se desenrolava uma festa de casamento no tempo de Jesus, corremos o risco de não compreender a parábola, imaginando que as dez virgens estavam disputando um único noivo. Por isso, tentemos compreender. Após um ano da primeira fase do casamento, a fase da promessa, o casamento era festejado e consumado. No dia marcado, o noivo ia com seus amigos até a casa da noiva. Em sua casa, a noiva reunia suas melhores amigas para esperar o noivo. Após a chegada do noivo, a noiva se despedia dos seus pais, deixava sua casa e ia para a casa do noivo, ao seu lado, onde acontecia a festa. Formava-se assim, o cortejo nupcial da casa da noiva para a casa do noivo. Isso deveria acontecer no início da noite, de modo que o cortejo era iluminado pelas lâmpadas que as moças amigas da noiva levavam.

Seria grande imprudência as moças deixarem faltar óleo para suas lâmpadas no cortejo, uma vez que uma festa de casamento começava a ser preparada com muita antecedência, cerca de um ano. Daí, Jesus faz a sua denúncia e alerta com a parábola, a partir dos distintos comportamentos das virgens: cinco eram imprevidentes e outras cinco eram previdentes. Essa distinção é típica da literatura sapiencial, bastante difusa no tempo de Jesus. O texto litúrgico não emprega os termos mais adequados para essa distinção: sensatas (em grego: mwrai. – morai) e insensatas (em grego: fro,nimoi– fronímoi). A insensatez das primeiras consiste em ter deixado o óleo acabar. A sensatez das segundas consiste em ter óleo suficiente.

A parábola se torna até surpreendente e difícil de ser interpretada, considerando a natureza dos personagens envolvidos. Na verdade, todos os personagens são passíveis de observações negativas, inclusive o noivo e as virgens ditas prudentes: o atraso do noivo poderia pôr em cheque a sua reputação perante a noiva e sua família (v. 5); a falta de solidariedade das virgens prudentes ao não compartilharem o óleo com as imprudentes (v. 9); a falta de perseverança das dez virgens, prudentes e imprudentes, pois todas elas acabaram cochilando (v. 5). Como se vê, não há méritos morais em nenhum dos personagens. Poderíamos até dizer que todos se nivelam por baixo.

Como o objetivo da parábola não é apresentar um padrão de comportamento moral adequado, identificamos pois o centro da sua mensagem: ter ou não ter óleo suficiente. A denúncia e alerta de Jesus consiste exatamente nesse detalhe. Muito tem se discutido nos estudos bíblicos a respeito do significado do óleo (em grego: e;laion – elaion) nessa parábola. É inegável que se trata de algo essencial, pois quem não tem ele fica fora do banquete e, portanto, do Reino (v. 11), e ao mesmo tempo intransferível, ou seja, pessoal (v. 9). Alguns já definiram o óleo como as boas obras, os carismas pessoais, os dons do Espírito Santo, interpretações que não são totalmente satisfatórias.

Acreditamos que a imagem do óleo se refere às bem-aventuranças, inclusive como chave de leitura de todo o Evangelho segundo Mateus, compreendendo-as como a responsabilidade pessoal de cada um na construção do Reino. Essa construção do Reino é um compromisso comunitário, por isso ninguém pode isentar-se da sua responsabilidade pessoal. Essa responsabilidade consiste em viver com seriedade o projeto de Jesus expresso nas bem-aventuranças. Viver as bem-aventuranças é, acima de tudo, fazer a vontade de Deus. A conclusão da parábola nos leva exatamente para o discurso da montanha, pouco após Jesus ter proclamado as bem-aventuranças: “Não é aquele que diz ‘Senhor, Senhor!’ que entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus” (Mt 7,21). E a vontade do Pai não se faz em um momento apenas, mas em toda a vida. 

As cinco moças imprudentes que não alimentaram suficientemente suas lâmpadas com óleo representam aquelas pessoas que ao longo da vida não vivem as bem-aventuranças, imaginando que basta, de última hora, dizer “Senhor, Senhor!” para entrar no Reino. Tudo indica que na comunidade de Mateus havia muitas pessoas assim. Por isso, ele relembrou com muito cuidado as palavras de Jesus que pediam paciência, vigilância e perseverança: “Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora” (v. 13). Essa vigilância não significa longas vigílias de oração, mas uma vida cristã sadia, responsável e comprometida com o Reino. Enfim, é a vida segundo as bem-aventuranças que caracteriza a pessoa vigilante e prudente.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues, Mossoró-RN, 11/11/2017.





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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – MATEUS 5,1-12a




O texto evangélico que a liturgia propõe para a solenidade de todos os santos é Mateus 5,1-12a. Esse é, certamente, um dos trechos mais lidos e conhecidos de todo o Novo Testamento. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha”. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido a repetição constante do termo grego maka,rioi – makárioi, cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados.
As bem-aventuranças compreendem a síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos. É um texto belo, mas muito fácil de ter seu sentido deformado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Ora, falar em todos os santos e santas tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta.
O discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem evangélica, evitando que esta solenidade se transforme em mera apologia ao devocionismo ingênuo que tanto tem se difundido na Igreja Católica nos últimos anos. Por isso, é preciso ter clareza do programa de vida de Jesus com seu projeto de sociedade e, consequentemente, das suas exigências.
De todas as palavras atribuídas a Jesus que encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Infelizmente, isso tem acontecido com muita frequência. Na verdade, quem quer fazer da religião cristã o “ópio do povo”, começa pelas bem-aventuranças. Por isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de encorajamento e transformação.
Na versão mateana, encontramos oito bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido a ocorrência do termo grego maka,rioi – makárioi por nove vezes. Não consideramos a nona ocorrência do termo (v. 11) como uma nova bem-aventurança, mas como uma recapitulação e síntese das oito para os discípulos, reforçando a exigência para que eles de fato vivessem intensamente todas elas.
Para compreendermos as bem-aventuranças em seu sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já afirmamos anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é maka,rioi – makárioi, o qual pode ser traduzido por benditos, felizes ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É importante recordar que, embora escritos em gregos, os evangelhos foram construídos segundo uma mentalidade semítica, sobretudo o de Mateus. Por isso, é importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o hebraico. Ora, o termo corresponde ao grego maka,rioi – makárioi em hebraico é  yrEÛv.a; – asherei, o qual significa uma felicitação, mas é, ao mesmo tempo, uma forma imperativa do verbo caminhar, seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Acreditamos que o evangelista pensou nos dois sentidos ao formular o seu texto. Sem esse segundo sentido, as bem-aventuranças não passariam de conformismo ou resignação; com ele, passam a ser uma mensagem de transformação.
Olhemos, pois, para cada uma das situações contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Eis a primeira bem aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança que tem recebido a pior interpretação ao longo da história, infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à transformação. Na língua grega a palavra pobre (ptwcoj – ptokós) deriva do verbo acocorar-se de medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de humilhação extrema.
O convite de Jesus é para que não desanimem, mas sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em grego pneuma pneuma) é empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente, seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.
A segunda bem-aventurança diz: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados” (v. 4). Ora, jamais será consolado o aflito que se fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado por completo. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar, jamais recuar.
Na terceira bem-aventurança, Jesus diz: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (v. 5). O termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e, aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja, pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se Ele dissesse: “não parem, continuem caminhando e lutando”. Era muito comum os pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja.
Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme Ele mesmo o fizera, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão forte: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). A fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais para a vida, também deve ser a luta por Jesus entre seus discípulos. A comunidade cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta por justiça.
Na quinta bem-aventurança, temos: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia, não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem. A misericórdia é uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também para os seus seguidores. Seguir fazendo o bem ao próximo, sem distinção, é uma das principais exigências do discipulado.
Com a sexta bem-aventurança, Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o discípulo de Jesus deve marchar, avançar.
A sétima bem-aventurança diz: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). Na marcha da comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma, intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra ~Al±v' – shalom: paz como bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamados filhos de Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado seu filho.
A oitava bem-aventurança funciona como uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao Reino: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 10). A justiça, por excelência, é a prática das bem-aventuranças anteriores. A quem adere plenamente à lógica do Reino, não há outra consequência a não ser a perseguição. Mas, mesmo diante da perseguição, a palavra de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando, marchando em busca do Reino que é vosso!
Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro e na sobreposição de uns sobre os demais. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o seu projeto: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (vv. 11-12a). Não consideramos essa afirmação como uma nova bem-aventurança, mas como um reforço e síntese das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como Ele mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver como Ele.
Assim, recordando que Paulo e os demais cristãos de suas comunidades chamavam-se mutuamente de santos, e eram cristãos porque levavam a sério as bem-aventuranças, podemos compreender que celebrar todos os santos é recordar todos os que não aceitam as coisas como são impostas, mas sabem mover-se, avançar e seguir um outro caminho; não para fugir da realidade, mas para transformá-la.
Para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha, caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é libertadora porque convida o discípulo e a discípula a sair de si, colocar-se em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.



Mossoró-RN, 04/11/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 22,34-40 (ANO A)


A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum oferece Mateus 22,34-40 para o Evangelho. É mais uma controvérsia de Jesus com os seus tradicionais adversários, os fariseus, como parte da ofensiva final das autoridades religiosas de Jerusalém com o intuito de desmoralizá-lo e antecipar a sua condenação. O local da cena é, mais uma vez, o templo de Jerusalém, espaço bastante hostil a Jesus, uma vez que sua mensagem era de reprovação total à religião oficial sediada naquele templo.

Os administradores do sagrado – sacerdotes, doutores da lei, saduceus, anciãos, fariseus – sentiam-se ameaçados pela mensagem emancipadora e contestadora de Jesus e, por isso, procuravam incansavelmente uma maneira de deslegitimá-lo. Para isso, formaram uma coalizão de forças. A primeira tentativa foi encabeçada pelos próprios sumos sacerdotes e anciãos do povo, aos quais Jesus respondeu com uma série de três parábolas (cf. Mt 21,28 – 22,14).

Tendo fracassado a tentativa dos sumos sacerdotes e anciãos, entraram em cena os fariseus, com a pergunta sobre a legitimidade do imposto a César (cf. Mt 22,15-21), os saduceus, com a pergunta sobre a ressurreição (cf. Mt 22,23-33), e novamente os fariseus com a pergunta sobre o maior dos mandamentos, no Evangelho de hoje. Trata-se de uma série de tentativas para pôr Jesus em dificuldade e até levá-lo à morte, como de fato acontecerá.

A frase inicial é muito importante para a compreensão de todo o texto: “Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus” (v. 34a). Ora, como Jesus tinha vencido a controvérsia com os fariseus sobre o imposto, os saduceus também entraram em cena com uma pergunta embaraçante sobre a ressurreição. Porém, também aos saduceus Jesus vencera, deixando-os calados, ou seja, sem argumentos. Como havia um verdadeiro consórcio de morte entre os grupos hegemônicos, intelectual e economicamente, à medida que um desses era vencido, outro apresentava a sua investida. Como Jesus já estava em Jerusalém e no templo, seus adversários não podiam mais esperar; a oportunidade de tirar-lhe a vida tinha chegado.

Como Jesus se sobressaíra na questão do imposto e da ressurreição, os fariseus armavam uma nova cilada, como atesta o texto: “Então eles se reuniram em grupo e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo” (vv. 34b-35). A intenção é muito clara, conforme diz o texto. O objetivo é tentá-lo, pô-lo a prova, ação própria de inimigo. Inclusive, o evangelista emprega aqui o mesmo verbo empregado no episódio das tentações, para definir a ação de satanás (cf. Mt 4,1): peira,zw – peirazo = tentar. Assim, os religiosos assumem um papel satânico diante do medo de perderem seus privilégios com a mensagem libertadora de Jesus.

Um dos fariseus, escolhido pelo grupo, faz uma pergunta bastante maliciosa: “Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (v. 36). A maldade dos fariseus já é perceptível pela introdução da pergunta: chamam a Jesus de mestre (dida,skaloj – didáskalos) sem reconhecê-lo como tal. Por sinal, quem costuma chamar Jesus de mestre no Evangelho de Mateus são os seus adversários; seus discípulos nunca o chamam assim. Os adversários o chamam por agirem por pura conveniência. Também o conteúdo da pergunta demonstra ironia e malícia. A especialidade dos fariseus era exatamente o estudo minucioso da lei e dos mandamentos. Com essa pergunta eles não pretendem aprender, mas encontrar motivo para condená-lo, pois consideravam-se autossuficientes em matéria da lei.

Os fariseus consideravam a observância do sábado como o maior dos mandamentos, e já tinham assistido Jesus relativizá-lo, ao colocar o homem e suas necessidades acima do preceito sabático (cf. Mt 12,1-13). A alegação para a primazia do sábado sobre os demais mandamentos na concepção dos fariseus era fundamentada no fato de que até Deus observava o sábado (cf. Gn 2,2-3; Ex 20,8-11; Dt 5,12-15). Eram muito comuns as perguntas sobre uma certa hierarquia entre os mandamentos, uma vez que esses eram muitos: 613, divididos entre 365 proibições e 248 preceitos. Sendo tantos assim, os fariseus tinham a necessidade distinguir quais eram os mais importantes e, portanto, inegociáveis.

Até então, Jesus tinha demonstrado muita liberdade ao interpretar os mandamentos, por isso, os fariseus imaginavam que com essa pergunta teriam argumentos para eliminá-lo por completo. Como sempre, ao invés de incompleta, a resposta de Jesus vai muito além do que fora pedido: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento!” (v. 37). Jesus encontra uma resposta que transcende o decálogo. De fato, a fórmula do primeiro mandamento como nos foi ensinado “amar a Deus sobre todas coisas” não faz parte de nenhuma das versões do decálogo (cf. Ex 19,3-17; Dt 5,6-21), mas é apenas uma adaptação das tradições cristãs.

A resposta de Jesus encontra seu fundamento no credo de Israel, o Shemá: “Ouve ó Israel: O senhor é nosso Deus e único Senhor! Por isso, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (cf. Dt 6,4-5). Com pequenas modificações, Jesus confirma que o ser humano deve amar a Deus com o máximo de si. Como Ele mesmo diz, “esse é o maior e o primeiro mandamento” (v. 38), qualificando-o com dois adjetivos absolutizantes: maior (em grego: mega,lh – megále) e primeiro (em grego: prw,toj – protos),  significando aquilo que é essencial e irrenunciável. Porém, a resposta de Jesus não visa uma hierarquização dos mandamentos, mas uma denúncia: enquanto os fariseus buscavam classificar os mandamentos, Jesus diz que basta viver a genuína fé israelita. O Shemá era proclamado duas vezes ao dia, ao amanhecer e ao anoitecer pelos fariseus, mas na verdade eles não viviam aquilo que proclamavam. Se vivessem em comunhão com Deus, não ficariam preso a preceitos.

Como é praxe, Jesus responde mais do que lhe é perguntado: “o segundo é semelhante a esse: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (v. 39). Também aqui Jesus ignora o decálogo e faz uma citação do livro do Levítico (cf. Lv 19,18b), do contexto das recomendações morais. É importante perceber a introdução: é semelhante (em grego: o`moi,oj homoíos), quer dizer, é equivalente, está no mesmo nível. Para Jesus, o amor a Deus não pode ser separado do amor às pessoas; aqui está a singularidade do seu ensinamento.

Enquanto os fariseus procuravam classificar os mandamentos, focando em minuciosidades, Jesus toma o todo da lei e dos profetas e faz a sua própria síntese, conforme relata o evangelista: “Toda a lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (v. 40). Os fariseus queriam distinguir preceitos, e Jesus mostrou a unidade e coerência da lei e dos profetas. Sem essa visão de conjunto, a religião excluía e até matava. Ao mostrar que o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo, Jesus prega a unidade, coesão e coerência na comunidade.

Jesus dá um passo muito importante com essa resposta. Ele conhecia bem a devoção que seus compatriotas tinham por esses duas partes da Escritura, a lei e os profetas. Ao mesmo tempo, conhecia a exterioridade e esterilidade com que se aproximavam delas. Por isso, respondeu de modo tão enfático, sobretudo, no que diz respeito ao próximo: o ser humano é colocado em uma tríade, cujo centro é o próximo, conforme a ordem da resposta: Deus – Próximo – Eu. Essa relação tríade deve ser guiada por um amor semelhante, para ser verdadeiro. Com isso, Jesus deixa claro que só há uma maneira de demonstrar que amamos a Deus e a nós mesmos: quando o próximo ocupa o centro da nossa vida!


Mossoró-RN, 28/10/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 22,15-21 (ANO A)



Com o Evangelho deste vigésimo nono domingo do tempo comum, Mateus 22,15-21, continuamos a acompanhar o conflito de Jesus nas dependências do templo com as autoridades de Jerusalém. Por sinal, os espaços considerados sagrados sempre foram hostis a Jesus; como tinham sido as sinagogas da Galileia, também foi o templo de Jerusalém. Percebemos pela leitura dos Evangelhos que Jesus de Nazaré nunca foi bem aceito pelas religiões. Tanto que para o cristianismo ser aceito e imposto como religião oficial do império, foi necessário caricaturá-lo o máximo possível, dando-lhe características bem diferentes e improváveis para um pobre judeu da Galileia.

Ao contrário dos últimos três domingos, cujos interlocutores eram os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, no Evangelho de hoje são os discípulos dos fariseus e herodianos que questionam Jesus, armando-lhe uma cilada. Por sinal, o fato de fariseus e herodianos estarem juntos é, por si, curioso, uma vez que eram grupos rivais que se toleravam entre si por mera conveniência. O curto ministério de Jesus em Jerusalém foi marcadamente conflituoso, uma vez que as autoridades religiosas, sobretudo, não aceitavam que alguém questionasse o status quo com tanta veemência como Ele.

Logo ao entrar na cidade, Jesus fez uma grande denúncia contra a situação em que se encontrava o templo: uma casa de oração transformada em covil de ladrões (cf. Mt 21,12-17), estendendo essa denúncia a todos os que mantinham a religião como instrumento de exploração e dominação, a casta sacerdotal e os anciãos do povo. A primeira seção dessa denúncia foi ilustrada por três ricas parábolas – 1. O pai, os dois filhos e a vinha em Mt 21,28-32; 2. Os vinhateiros homicidas em Mt 21,33-43; 3. A festa de casamento do filho do rei em Mt 22,1-14 – refletidas nos últimos três domingos em nossa liturgia. Ao desmascarar o sistema religioso vigente, Jesus deixava claro o seu projeto de restituir ao Pai aquilo que o poder tinha roubado: a vida humana em todas as suas dimensões. Para isso, Ele proponha o Reino de Deus como única alternativa e realidade na qual a vida pudesse ser vivida em plenitude e abundância.

A proposta de Jesus soava absurda para a elite de Jerusalém, de modo que quanto mais Ele falava, mais essa elite se organizava para pôr fim à sua vida. Como as três parábolas citadas deixaram os chefes sem palavras, novos grupos entram em cena com o mesmo propósito: provocar em Jesus uma auto-condenação, armando-lhe ciladas. Dessa vez, foram os fariseus quem armaram a cilada, como atesta o texto: “Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra” (v. 15). O plano consistia em colocar Jesus em situação constrangedora e, assim, acusá-lo publicamente. Queriam eles que o próprio Jesus entrasse em contradição e fosse publicamente desmoralizado.

Do plano à execução: “Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes” (v. 16a). A conveniência leva adversários a se unirem quando há um inimigo comum. Fariseus e herodianos eram grupos rivais, os quais conviviam por mera conveniência. Os herodianos constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como um abomínio, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que ressuscitasse o reino davídico-salomônico. Mesmo assim, pagavam convenientemente todos os impostos exigidos por Roma para evitar o rótulo de rebeldes e subversivos, como os zelotes. Nesse plano de fariseus e herodianos está uma antecipação do plano futuro que levará Jesus à morte: a religião e o império unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado, Jesus de Nazaré.

Como o plano era apanhar Jesus pela palavra, eis a investida: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências” (v. 16). Todas estas palavras elogiosas faziam parte do plano. São palavras que demonstram respeito, admiração e conhecimento da pessoa de Jesus, mas pronunciadas ironicamente por pessoas falsas e mal intencionadas. Se, de fato, reconhecessem Jesus como mestre, não estariam armando-lhe ciladas para Ele.

O falso elogio dos discípulos dos fariseus e partidários de Herodes era apenas um pretexto ou um passo a mais para chegarem ao golpe final, com a pergunta tendenciosa e maliciosa: “Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a César?” (v. 17). Era aqui onde eles queriam chegar, imaginando estar colocando Jesus em um beco sem saída. Ora, realmente, a situação era desfavorável para Jesus, pois Ele deveria opinar sobre um dos temas mais delicados para a vida cotidiana dos judeus da sua época.

Se Jesus respondesse que é lícito pagar imposto a César, estaria agradando aos herodianos e, consequentemente, sendo conivente com a dominação romana e seu sistema de exploração. Ao mesmo tempo, estaria ganhando a antipatia das multidões que até pouco tempo lhe tinham aclamado na entrada de Jerusalém (cf. Mt 21,1-11), passando a ser considerado um traidor do seu povo. Além disso, estaria reconhecendo o senhorio de César, ou seja, do imperador romano.

Se respondesse que não é lícito pagar o imposto, Ele estaria agradando aos fariseus e demais compatriotas judeus e, ao mesmo tempo, antecipando a sua condenação como um rebelde e subversivo político. Recusar pagar o imposto significava declarar guerra ao sistema dominante. O que seus adversários queriam era um motivo para condená-lo a partir da sua resposta: respondendo sim, seria condenado pelo povo e pela religião como traidor; respondendo não, seria preso e condenado imediatamente pelo império. Esse era um plano que parecia perfeito.

Exatamente por ser verdadeiro e não julgar pelas aparências (v. 16), Jesus não caiu na trama dos seus adversários, e logo os repreendeu: “Jesus percebeu a maldade deles e disse: ‘Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?’” (v. 18). Nessa resposta, Jesus usa duas palavras para caracterizar os seus adversários: maldade (em grego ponhri,a – poneria) e hipócritas (em grego u`pokritai, – hipocritai). Isso quer dizer que os fariseus e herodianos, juntamente com os adversários da controvérsia anterior, eram pessoas más, falsas, dissimuladas, mascaradas e, por isso, não merecem credibilidade alguma.

De uma situação de desconforto, Jesus se sobressai e termina deixando seus adversários em situação maus lençóis: “Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda” (v. 19). Como estavam na área interna do templo, num espaço considerado sagrado, não era permitido circular ali com a moeda romana. Jesus começa a desmascará-los daí, e eles que tinham armado a cilada, são agora os que caem: na moeda romana havia a figura e os títulos do imperador com seu reconhecimento divino inscritos: “Tibério César, Augusto filho do divino Augusto, Sumo Sacerdote”. Considerando o primeiro mandamento da Lei de Deus, essa estava sendo transgredida pelos seus mais zelosos observantes, os fariseus.

Jesus, ao ver a moeda, perguntou-lhes: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” (v. 20). Eles não tinham outra resposta senão admitir: “De césar” (v. 21a). Certamente, ficaram desconcertados, talvez até arrependidos da pergunta, uma vez que a armadilha falhara. Como a pergunta tinha sido se era lícito ou não pagar o imposto, a resposta de Jesus vai muito além disso. Na luta por uma sociedade alternativa, denominada Reino de Deus, Jesus já tinha se posicionado diversas vezes contra a falsa “pax romana”, e agora deixa ainda mais claro o seu posicionamento com a sua resposta: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v. 21). O texto litúrgico erra ao empregar o verbo dar; na verdade, o verbo empregada no texto original é restituir ou devolver (em grego avpo,didwmi – apódidomi), uma vez que a César nada deve ser dado. A resposta de Jesus parece complexa, à primeira vista, e fácil de ser distorcida, como foi por muito tempo e continua sendo.

Jesus não estabeleceu duas esferas de poder, uma temporal e outra espiritual, nem traçou a harmonia das relações entre estado e igreja, como muito se tem interpretado a partir dessa afirmação. A ordem para devolver a César o que lhe pertence consiste em abandonar tudo o que não condiz com o Reino. Nesse sentido, o imposto passa a ser apenas um aspecto de uma realidade muito mais ampla e complexa. É necessário deixar de compactuar com a lógica imperial de um modo geral. Isso exige uma consciência nova e uma atitude vigilante constante. É necessário construir uma nova sociedade a partir de perspectiva e lógica diferentes, substituindo o poder pelo serviço. Devolver a César o que é dele exige um esforço da comunidade, a começar por uma autocrítica. Muitas lideranças religiosas tem combatido o poder de César para assumir o seu lugar. Essa mentalidade estava presente em alguns dos primeiros discípulos, na comunidade de Mateus e tem estado ao longo da história, infelizmente.

Devolver a Deus o que lhe pertence é restituir o ser humano, imagem única de Deus, à sua dignidade originária. A religião e o império romano tinham roubado o que Deus fez de melhor: o ser humano, transformado em produto pela combinação dos poderes político-econômico-religioso. A mercantilização do ser humano fere e nega a sua dignidade. Esse foi um problema denunciado pelos profetas desde os tempos de Amós, o qual denunciou que o ser humano tinha se tornado um produto comprado ou vendido por um par de sandálias (cf. Am 2,6; 8,6). Esse ser humano que tem a imagem de Deus, tem que ser devolvido a Ele; a moeda com a figura de César seja restituída a ele.

A opção pelo Reino apresentada por Jesus torna-se cada vez mais exigente, à medida que a sua vida vai sendo ameaçada. Longe de ser uma via conciliatória entre duas realidades, a frase imperativa de Jesus é um convite à reflexão e a uma tomada de posição!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues, 21/10/2017. 
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REFLEXÃO PARA O XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 22,1-14 (ANO A)



A liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum nos oferece Mateus 22,1-14 para o Evangelho, texto composto pela última da série de três parábolas consecutivas de Jesus, em seu primeiro conflito direto com as autoridades religiosas no templo de Jerusalém. Trata-se de mais uma parábola de apresentação do Reino dos céus, em resposta ao questionamento dos sumos sacerdotes e anciãos do povo a respeito da autoridade com que Jesus ensinava (cf. Mt 21,23-27).

À medida que Jesus respondia, sempre através de parábolas, a sua rejeição aumentava naqueles que, achando-se os legítimos representantes de Deus, não admitiam que alguém falasse do Reino com tanto conhecimento e liberdade. Além de apresentar o Reino dos céus com características tão diferentes do que a religião oficial pregava, Jesus decretava a falência e inutilidade daquela religião e, consequentemente, dos seus chefes. Por isso, de adversários, seus interlocutores passarão a algozes, uma vez que não aceitavam ser contrariados.

A parábola de hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a de “um pai que tinha dois filhos e uma vinha” (cf. Mt 21,28-32) e a dos “vinhateiros homicidas” (cf. Mt 21,33-43). Na de hoje, o Reino dos céus é comparado a uma festa de casamento que um rei preparou para o seu filho. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito para o mundo semita oriental, a imagem de um  banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas.

O primeiro versículo nos insere diretamente no contexto, e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso: “Jesus voltou a falar em parábolas” (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme a língua original do texto, o grego, a tradução mais adequada seria “Jesus continuou falando em parábolas”. O auditório é o mesmo das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém.

É surpreendente a imagem com a qual o Reino é comparado: “O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” (v. 2). Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa. E a festa por excelência na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições dos noivos. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, duas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.

A festa em si, é sinônimo de alegria, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento, lembra o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias, lembra a perenidade: um tempo completo, perfeito e eterno. Por isso, a festa de casamento (em grego: ga,moj – gamos) era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. As pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exagerar, inclusive na bebida (cf. Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, ao invés de uma reunião litúrgica ou vigília.


Além de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira aula sobre a história da salvação aos seus interlocutores. Diz ele que o rei “mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir” (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Como Deus não desiste do seu povo, nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 4-5). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre.

O versículo sétimo é, certamente, um acréscimo da comunidade de Mateus, uma vez que o mesmo não consta na versão desta parábola no Evangelho de Lucas (cf. Lc 14,15-24). Na época da redação do Evangelho de Mateus, Jerusalém já tinha sido destruída pelas tropas romanas e, no auge do conflito da comunidade de Mateus com a sinagoga, a destruição da cidade e do templo servia como resposta e explicação para a rejeição dos judeus à mensagem cristã. A própria lógica temporal interna da parábola não comporta tal atitude da parte do rei: se todo o reino estava concentrado e voltado para a festa, e a comida já estava à mesa, como parar tudo de repente para guerrear e depois recomeçar a festa?

A parábola continua seu curso normal no versículo oitavo: “Em seguida, o rei disse aos empregados: a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela”. A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento de Israel à conversão. De fato, é notório que, ao longo da história, a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas. A falta de dignidade dos convidados fora comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição de Israel não inibe os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira.

A nova determinação do rei corresponde à insistência de Deus e à continuidade de sua oferta de vida para toda a humanidade: “Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! A expressão “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto (diexo,doj – diecsódos) significa a saída da cidade. Era lá onde ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.

Finalmente, o convite tornou-se efetivo: quando foi endereçado a todos, a maus e bons, sem distinção. O resultado foi a sala cheia de convidados (v. 10). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Porém, aceitar o convite-anúncio requer compromissos da parte do convidado.

Ninguém é excluído do Reino, mas alguém pode se auto excluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o “traje de festa” (v. 11). Caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. A percepção do rei, notada pelo evangelista, é uma investida para a sua comunidade: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete, e portanto, os membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus.

A reação do rei à falta do traje em um dos convidados não significa castigo, mas auto exclusão do próprio convidado (v. 12). Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é privar-se da vida em plenitude. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida.

O evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e pratica o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: “Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos” (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, há risco de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos foram. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa daquele que chama.

Que ninguém sinta-se seguro por estar na Igreja. Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos e cristãs. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas.


Mossoró-RN, 14/10/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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