sábado, dezembro 03, 2016

REFLEXÃO PARA O II D0MINGO DO ADVENTO – MATEUS 3,1-12 (ANO A)



Continuando o nosso caminho de preparação proposto pelo advento, a liturgia deste segundo domingo nos convida a refletir acerca da figura e do testemunho de João, o batista, como o profeta que antecede, de modo imediato, o Messias, Jesus Cristo. Por isso, é necessário estarmos atentos ao texto evangélico que nos é proposto hoje, Mateus 3,1-12, uma vez que nesse vem descritas as características de João e a síntese da sua mensagem, atividade e missão na história da salvação.

Por se tratar de um texto longo e carregado de informações, procuraremos destacar apenas os seus elementos principais. E, partimos exatamente do primeiro versículo: “Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia” (v. 1); sem dúvidas, nessa pequena afirmação há uma grande concentração de elementos teológicos que nos ajudarão a compreender a importância de João e, sobretudo, a ouvirmos o seu clamor por conversão e libertação. É uma afirmação que apresenta três dados fundamentais para a compreensão do texto: tempo (naqueles dias), atividade (pregando) e cenário (no deserto). Nos deteremos, inicialmente, nas dimensões de tempo e espaço, deixando para falarmos da pregação quando analisarmos diretamente a fala do personagem, ou seja, o conteúdo da sua pregação.

A expressão “naqueles dias” (v. 1a), dimensão temporal, é um indicativo de importância do acontecimento narrado e do personagem apresentado; foi com essa expressão que o redator do livro do Êxodo introduziu a missão de Moisés (cf. Ex 2,11), e muitos profetas introduziam os anúncios das intervenções de Deus na vida do povo (cf. Is 31,7; Jr 3,16.18; Jl 4,1), e Marcos introduziu o ministério do próprio Jesus no momento do batismo (cf. Mc 1,9). Portanto, a ação batizadora de João é apresentada como um evento importante e proveniente de Deus, o que confirma a autenticidade e autoridade do seu ministério.

A segunda informação importante, a dimensão espacial, acerca da atividade do Batista também é fortemente carregada de teologia: “no deserto da Judéia” (v. 2c). Ora, o deserto, em grego evrh,moj – eremos,  é o lugar ideal para a relação entre Deus e o seu povo; representa uma etapa no processo de libertação, como aconteceu no primeiro êxodo; por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf. Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25).

Além de ser o lugar ideal do encontro com Deus, o deserto, nesse contexto, é também uma nítida contraposição às elites de Jerusalém, principalmente a classe sacerdotal. Com essa imagem, o Evangelho diz que o grande templo de Jerusalém já não favorece mais a relação do povo com Deus, pois, à medida em que foi transformado em casa de comércio, Deus afastou-se de lá, deixando-se encontrar somente no deserto, onde não há obstáculo algum: é o lugar do silêncio, é onde se vive somente com o necessário e se percebe que tudo provém de Deus, como o antigo maná (cf. Ex 16).

Outro sentido para o deserto na linguagem bíblica, é o da provação e da confiança, uma vez que, na privação completa de bens, não há outra saída senão confiar somente em Deus. Foi no deserto onde Jesus venceu as tentações de satanás(cf. Mt 4,1-11), e é para o deserto que povo é convidado por Deus, através do Batista, para a conversão e voltar a seguir os caminhos de Deus.

Uma vez que João estava pregando (v. 1b), é importante estarmos atentos ao conteúdo da sua pregação: “Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo” (v. 2). A necessidade de conversão sempre foi recordada, sobretudo, na pregação dos profetas de Israel. Logo, João é apresentado como uma figura profética, tanto pela mensagem da sua pregação, quanto pela maneira como se apresentou diante do povo. Com o imperativo “convertei-vos”, em grego metanoei/te – metanoeite, João faz um apelo para uma mudança de mentalidade. Na Bíblia, conversão, metanoia – metanoia em grego, nunca significa um conjunto de ritos penitenciais, e sim uma mudança de pensamento ou mentalidade.

No mesmo versículo, João diz o motivo da necessidade de conversão: a chegada do reino dos céus. Aqui, verificamos uma particularidade de Mateus: enquanto Marcos e Lucas usam a expressão “Reino de Deus”, Mateus prefere usar “reino dos céus”, em grego basilei,a tw/n ouvranw/n- basileia ton uranon, tendo em vista que sua comunidade era fortemente marcada pelo judaísmo e, como sabemos, a pronúncia do nome de Deus era uma ofensa para os judeus. Por isso, Mateus usa uma expressão equivalente para não ferir a sensibilidade dos irmãos judeus.

O convite à conversão é feito porque, com a mentalidade antiga, não é possível reconhecer o reino que está próximo, ou seja, pensando do mesmo jeito de sempre, é impossível perceber a chegada do reino e, sem perceber, é impossível também acolhê-lo. Por isso, o primeiro convite é para a mudança. Mas, que tipo de mudança? Mudança no modo de conceber e compreender as coisas, sobretudo, a relação com Deus e com o próximo. Portanto, é urgente mudar o jeito de pensar.

É importante reconhecer a urgência da conversão, considerando que o reino “está próximo”. Essa aproximação do reino tem sido pouco compreendida porque, infelizmente, a tradução do texto usado pela liturgia não contribui para uma compreensão mais adequada. A tradução mais justa para o versículo é “Convertei-vos, porque o reino dos céus se aproximou”. O evangelista usa a forma verbal h;ggiken – engikein, cujo significado é aproximou-se, e não aplica no sentido temporal, mas físico; com isso, ele quer dizer que o reino já está presente, já chegou, está perto de cada um e pode, portanto, ser tocado, ser experimentado.

A necessidade da mudança de mentalidade, conversão, deve-se ao fato de o reino dos céus não ter chegado conforme Israel esperava, ou seja, em meio a grandes teofanias, mas veio na simplicidade de um homem, um filho de carpinteiro, Jesus de Nazaré. O reino dos céus é o próprio Jesus com sua mensagem libertadora, conforme Ele mesmo dirá mais tarde, no próprio Evangelho de Mateus, ao contar as parábolas do reino (cf. Mt 13), comparando esse reino a uma rede de pescador (13,47-50), a um tesouro escondido (13,44-46), a um grão de mostarda (13,31-32), ao fermento (13,33), e muitos outros exemplos.

Quem esperava a restauração da dinastia davídica e do reino de Israel, logo, não poderia aceitar o reino inaugurado por Jesus sem passar por uma mudança radical de pensamento. Os que tinham projetado toda a esperança em um futuro escatológico também se decepcionavam com essa pregação, pois o reino que João afirma ter se aproximado e que Jesus confirma, acontece aqui e agora: é o reino dos céus porque é o projeto de Deus para a humanidade, mas não se realiza no céu; realiza-se já aqui e, aceitar essa novidade é o único sinal de conversão exigido.

A descrição de João feita pelo evangelista serve como credencial para ter sua missão profética reconhecida: “Usava roupa feita de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins; comia gafanhotos e mel do campo” (v. 4). De fato, Elias, um dos maiores profetas da história de Israel, é apresentado em 2Rs 1,8 com características semelhantes. É mais uma prova de que o verdadeiro profeta é aquele que anuncia com palavras, ações e, principalmente, com o testemunho; a vida simples de João comprova esse testemunho e ainda serve de contraposição à vida opulenta da elite religiosa e política de Jerusalém.

As credenciais de profeta, descritas acima, davam autoridade e reconhecimento a João, fazendo com que muitas pessoas fossem ao seu encontro: “os moradores de Jerusalém, de toda a Judeia e de todos os lugares em volta do Jordão”; aqui, é necessária mais uma observação de caráter gramatical: o texto litúrgico diz que as pessoas “vinham” ao encontro de João; o verbo usado aqui é evkeporeu,omai – ekporeuomai, cujo significado é “sair”. Portanto, a tradução correta é “os moradores saíam” ao encontro de João, ou seja, um novo êxodo estava acontecendo: as pessoas saíam, faziam a experiência do deserto (v. 1) e, ali, sim, se encontravam verdadeiramente com Deus e podiam perceber que o reino, de fato, estava acessível, ou seja, a libertação estava acontecendo.

As pessoas que saíam das antigas estruturas, “confessavam os seus pecados e João as batizava no rio Jordão” (v. 6). A confissão aqui, não é um rito, mas um reconhecimento do pecado e arrependimento, conforme reza um salmista: “Confessei a ti o meu pecado, e minha iniquidade não te encobri; eu disse: "Vou a Iahweh confessar a minha iniquidade!" (Sl 32,4). Ser batizado no Jordão quer dizer atravessá-lo, é passar por ele, como passou o povo do primeiro êxodo; de fato, a travessia do Jordão foi a última etapa da longa caminhada do povo de Deus antes de entrar na terra prometida, já sob a liderança de Josué, após a morte de Moisés (cf. Js 1,2). Assim, a proposta de João é um convite a um novo êxodo, ou seja, uma nova libertação que se aproxima, e só pode participar quem faz a experiência do deserto e da travessia, ou seja, quem passa de uma mentalidade antiga para uma nova.

Ao contrário do povo simples que “saía”, os fariseus e os saduceus “iam”, realmente (v. 7). Para esses, o autor emprega o verbo grego evrcomai – erkomai, que significa vir ou chegar. Com isso, o evangelista afirma que os fariseus e os saduceus não buscavam um novo êxodo, pois estavam satisfeitos com a situação vigente, concordavam com as injustiças e a violência praticadas, uma vez que faziam parte do sistema de dominação. Por isso, as palavras de João são muito duras e desmascaradoras: “raça de cobras venenosas”; é uma afirmação dura que denuncia o mal representado por eles. A cobra é o pior dos animais, para o imaginário judaico, símbolo do pecado; assim, João está afirmando que, além de não se converterem, os fariseus e os saduceus ainda são obstáculo para a conversão dos demais. Inclusive, a afirmação “muitos fariseus vinham para o batismo”, denota uma atitude fiscalizadora: eles não iam para serem batizados, mas para observar o que estava acontecendo com a atividade de João, pois estavam preocupados, porque sabiam que a chegada do reino dos céus seria o fim do reino deles, marcado pela injustiça e hipocrisia.

Sabendo que, de fato, os fariseus e saduceus não estavam dispostos a mudar de mentalidade, ou seja, a se converterem, João deixa claro que é necessário produzir frutos, e os adverte que um novo jeito de se relacionar com Deus está surgindo com o advento do reino, pois o que vale não é considerar-se filho de Abraão (v. 9), mas fazer a vontade de Deus. Por isso, a linguagem ameaçadora do fogo é um alerta para aqueles que querem entrar no reino sem abraçar os princípios desse reino; o reino não exclui ninguém, são as pessoas que se auto excluem, ao preferirem a mentalidade antiga, como os fariseus e os saduceus.

João Batista tem consciência da provisoriedade da sua missão, por isso, anuncia que depois dele vem alguém mais forte, o messias, Jesus Cristo, aquele que  batizará no Espírito Santo e no fogo (v. 11), ou seja, promoverá o êxodo definitivo. O Espírito, pneu,ma – pneuma em grego, quer dizer vento ou sopro, unido ao fogo, significa uma transformação radical, mudança profunda; não extermínio, mas superação de uma etapa da história, marcada pela injustiça, violência, hipocrisia e opressão, para uma nova etapa, com vida plena e abundante para todos. Para contemplar e experimentar essa mudança, é necessária a conversão, ou seja, mudança radical de mentalidade e pensamento.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues



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domingo, novembro 27, 2016

REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DO ADVENTO – MATEUS 24,37-44 (ANO A)



Neste domingo, a Igreja inicia mais um ano litúrgico, convidando-nos a, mais uma vez, percorrer o caminho de Jesus Cristo e contemplar o mistério da sua vida, morte e ressurreição. Advento é a palavra que designa a primeira etapa do ano litúrgico, cujo significado literal é “vinda” ou “visita”; trata-se de um tempo especial que a Igreja dedica à preparação para a magnífica celebração do Natal do Senhor.

Com o início do novo ano litúrgico, iniciamos também a leitura do Evangelho segundo Mateus, porém, não do início, mas do seu final, exatamente do seu discurso escatológico. Por isso, o texto proposto para hoje é Mateus 24,37-44. O discurso escatológico está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), porém é mais amplo em Mateus, uma vez que é aquele que faz questão de apresentar o ensinamento de Jesus em forma de discursos mais prolongados; é um discurso sobre as realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus, na estrutura dos evangelhos mencionados.

À primeira vista, parece paradoxal que a preparação para o Natal seja iniciada com palavras sobre as realidades últimas. Porém, é necessário ver o advento como uma oportunidade de preparação para a vinda constante do Senhor na vida de cada pessoa, tornando essa vinda uma presença, ao invés de apenas alimentar uma expectativa futurista e preparar para uma apenas uma data ou evento.

O primeiro passo para uma compreensão do texto é colocá-lo no seu devido contexto, como faremos aqui. Ora, como já adiantamos, trata-se de um trecho do discurso escatológico de Jesus. Esse discurso nasceu como resposta à indagação dos discípulos a respeito da sentença sobre a destruição do templo de Jerusalém. Ora, quando Jesus afirmou que daquela belíssima construção “não restaria pedra sobre pedra” (cf. Mt 24,2), seus discípulos, certamente escandalizados, perguntaram-lhe “como” e “quando” tudo isso aconteceria (cf. Mt 24,3). O amplo discurso escatológico é, portanto, a resposta de Jesus a essa pergunta.

Em relação à dimensão temporal, ao seja, ao “quando”, disse Jesus: “Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu nem o Filho, mas unicamente o Pai” (Mt 24,36). Essa confissão de ignorância do Filho parece estranha, uma vez que Ele mesmo já tinha expressado sua intimidade com o Pai: “Tudo me foi entregue por meu Pai” (cf. Mt 11,27a). Antes, é um alerta para não nos deixarmos levar por falsos anúncios de muitos destinatários de visões e aparições. Quanto ao “como”, também Ele não apresenta muitos detalhes, embora seja menos ambíguo que na resposta ao “quando”. É, portanto, nesse contexto que o nosso texto de hoje está inserido.

É nítido o interesse de Jesus em ponderar as expectativas e curiosidade dos discípulos. Portanto, melhor que procurar descrever uma realidade desconhecida é estar preparado para acolher a novidade da vinda do Filho do Homem. E, a melhor forma de preparar-se para tal evento é olhar com atenção para a história e perceber os sinais dos tempos. Por isso, Jesus cita o exemplo do tempo de Noé (v. 37) para apresentar a imprevisibilidade da sua vinda, mostrando que a única coisa a ser feita é prevenir-se a partir do cotidiano. Por isso, Ele diz que “nos dias antes do dilúvio” (v. 38a), todos levavam uma vida normal, aparentemente, e muitos foram surpreendidos.

O dilúvio, em grego kataklusmoj kataklismós, é apresentado como exemplo de como Deus pode surpreender a humanidade e como essa costuma não se prevenir para uma questão tão fundamental como a sua relação com Deus. Por isso, na continuação do versículo, Ele descreve o que acontecia antes do dilúvio: “todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento” (v. 38b); ora, fazia-se o que era normal e consumia-se todas as energias nessas coisas efêmeras, embora necessárias.

As atividades de “comer, beber e casar-se” representam o cotidiano, as coisas que sustentam a vida em sua rotina e normalidade. Jesus quer nos chamar a atenção para nãos nos contentarmos com a normalidade das coisas, pois foi por isso que muitos perderam-se na história. Noé é apresentado como exemplo de prudência, aquele que percebeu os sinais dos tempos que são os sinais pelos quais Deus se comunica com a humanidade.

Devido a sua prudência, “Noé entrou na arca” (v. 38c), enquanto os outro “nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (v. 39a). Mais que um alerta, esse exemplo é um chamado à responsabilidade. Ora, consideremos que o discurso escatológico é direcionado aos discípulos e, portanto, é inadmissível que esses não saibam perceber os sinais dos tempos. Por isso, Jesus não lhes dá respostas prontas, mas convida-os a, inseridos no mundo, perceberem como Deus age na história.

De um exemplo do passado, Jesus parte para o presente e percebe que também no seu tempo as coisas estão acontecendo da mesma forma, ou seja, as atividades do cotidiano continuam distraindo as pessoas. Por isso, Ele cita duas atividades típicas do seu tempo para o homem e a mulher: o trabalho no campo e a atividade doméstica (vv. 40-41). Afirmando que um(a) será levado(a) e outro(a) deixado(a), Jesus não está antecipando a condenação nem a salvação de ninguém, mas está lamentando que, novamente, a humanidade está desperdiçando a oportunidade de renovar-se. O Reino de Deus não é excludente, mas é a própria humanidade que está rejeitando inserir-se nele. Enquanto alguns estão se esforçando para entrar nele, outros simplesmente o ignoram.

As atividades agrária e doméstica nesse contexto representam também o fechamento do homem e da mulher a uma mentalidade antiga. Quem contentar-se somente em fazer estas coisas, sem preocupar-se com nada além disso, obviamente não está interessado no Reino. Estar atentos à vinda do Filho do Homem é estar disposto a lutar e trabalhar pela instauração do Reino, e isso não se faz sem uma mudança de mentalidade. O Filho já veio; o discípulo e a discípula são desafiados, hoje, a reconhecer a sua presença e, assim, dar um novo sentido ao seu cotidiano, sobretudo, transformando-o.

O último exemplo usado para alertar os discípulos sobre a imprevisibilidade da vinda do Filho do Homem é aquele, tão conhecido, do dono da casa que não sabe a que hora pode ser surpreendido por um ladrão (v. 43). Com certeza, essa imagem ajudou a criar um certo medo e angústia entre os primeiros cristãos, levando-os até a distorcerem o sentido da vigilância. No entanto, o que importa é o convite feito aos discípulos para não desanimaram um único instante, como a exortação do último versículo: “ficai preparados” (v. 44).

O convite feito por Jesus no Evangelho de hoje é, portanto, que vivamos em estado constante de preparação para o encontro do Senhor, uma vez que Ele já veio e precisa apenas ser reconhecido. Por isso, é preciso fazer do cotidiano uma constante preparação, ou melhor, preparar-se no cotidiano. Longe de ser uma mensagem de medo, o Evangelho é mensagem de salvação e boa-nova para todos. A “Boa Nova” de hoje é que, sem alarde algum, somos chamados a realizarmos nossas tarefas cotidianas já na presença dEle, tendo em vista que já veio. Por isso, nada de medo, mas o façamos com segurança e certeza de que Ele está conosco.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues 

domingo, novembro 20, 2016

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – LUCAS 23,35-43


Chegamos ao XXXIV Domingo do Tempo Comum, o qual vem intitulado pela Igreja como Solenidade de Jesus Cristo, Rei do universo. O título da celebração, por si, já nos desperta bastante curiosidade e atenção, ao mesmo tempo em que nos convida a uma profunda reflexão acerca da natureza da realiza de Jesus Cristo, confrontando-a com as nossas concepções tradicionais de rei, realeza e reino.

Se, de fato, mais que ao título ou tema da celebração nos determos no texto evangélico que a liturgia oferece para esse dia, certamente compreenderemos em que consiste a realeza de Jesus Cristo. O texto proposto é Lucas 23,35-43, o qual apresenta Jesus crucificado sendo ridicularizado, humilhado e tentado por aqueles que assistiam ao triste espetáculo.

Um simples olhar para esse texto evangélico já deve nos interpela acerca da imagem equivocada de rei que foi atribuída a Jesus ao longo dos séculos pelo cristianismo, e representada por tantas belíssimas obras de arte que, infelizmente, tem levado muita gente a compreender essa realeza com os atributos reais que Ele negou possuir diante de seus contemporâneos irmãos judeus.

Se concebermos Jesus Cristo, Rei do universo como um homem forte, potente, sentado em um trono ornado de ouro, com cetro na mão, ditando, julgando e ordenando uma imensidão de serviçais, guerreando, vencendo e subjugando todos os inimigos, estamos imaginando o rei-messias esperado pelos judeus do seu tempo e rejeitando Jesus de Nazaré. Infelizmente, muitos cristãos, embora adoradores fervorosos da ‘santa cruz’, caricaturaram uma falsa realeza para Jesus, atribuindo-lhe os traços de rei que Ele nunca teve.

Voltemo-nos, pois para o texto bíblico, o qual descreve Jesus crucificado e ridicularizado por aqueles que não o viam como o rei esperado, uma vez que Ele não possuía nenhum sinal de realeza. O cenário é o chamado lugar da Caveira (cf. Lc 23,33) ou gólgota. A cena descrita é comum aos quatro evangelhos, sendo que Lucas enriquece seu relato com algumas peculiaridades, como veremos a seguir.

Infelizmente, a liturgia apresenta o texto incompleto, omitindo a primeira parte do primeiro versículo: “O povo permanecia lá” (v. 35a). Essa pequena omissão compromete uma compreensão mais adequada do episódio, considerando a linha teológica de Lucas. Ele atribui um papel de neutralidade ao povo, ao dizer que ‘estava lá’ mas não participou do ato violento contra Jesus. É intenção do evangelista comprometer apenas os grupos que interagem diretamente com Jesus, insultando-lhe: os chefes (v. 35), os soldados (v. 36) e os malfeitores (vv. 39-40).

Assim começa o nosso texto litúrgico: “Os chefes zombavam de Jesus, dizendo: ‘a outros salvou. Salve-se a si mesmo se, de fato, é o Cristo de Deus, o escolhido” (v. 35). Obviamente, os chefes aqui, em grego a;rcontej – arcontes, são as autoridades religiosas da época, responsáveis diretas pela condenação e morte de Jesus. Unindo essa atitude dos chefes à parte omissa, a presença do povo, Lucas opõe os líderes aos liderados, enfatizando que pela atitude dos chefes, o povo inocente acaba sofrendo graves consequências. Ao mesmo tempo, há uma crítica à passividade do povo: quando esse se cala, os chefes ficam mais à vontade para cometerem arbitrariedades.

Os títulos atribuídos a Jesus pelos chefes religiosos, ‘Cristo de Deus’ e ‘escolhido’, embora ironicamente, mostram o conhecimento religioso que tinham e, ao mesmo tempo a dureza de coração por não reconhecerem a sua verdadeira identidade messiânica de Jesus.

Todos os interlocutores (chefes, soldados e bandido), pedem a Jesus provas de seu poder e força de Filho de Deus e messias. Com isso Lucas retoma o tema das tentações, apresentado no início do evangelho (cf. Lc 4,1-13), quando também ali Jesus fora tentado três vezes pelo diabo. Assim, os chefes, os soldados e um dos bandidos, pedindo a provas, demonstram que assimilaram o espírito do diabo, ao propor que Jesus use de sua condição de Filho de Deus em proveito próprio, contrariando completamente a lógica do Evangelho de dar a vida pelo outro. O autor mostra que o diabo age na história por meio de instrumentos: poder (chefes), violência (soldados) e mentira (bandido).

Sendo o evangelista que melhor apresenta os traços misericordiosos de Deus em Jesus Cristo, Lucas mostra essa característica divina também no calvário com a súplica de misericórdia de um dos malfeitores ou bandidos crucificados junto com Jesus. Trata-se de mais um detalhe próprio de Lucas, muito significativo para a sua teologia. Fazemos um pequeno parêntese para esclarecer que Lucas não usa o termo ‘ladrão’ como a tradição cristã equivocadamente difundiu. O evangelista usa o termo grego kakou,rgoj – kakurgos, cujo significado é malfeitor, bandido ou delinquente, sem especificar o tipo de crime cometido.

Um dos malfeitores reconhece suas culpas e a inocência de Jesus: “para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal” (v. 41). Assim, o evangelista antecipa o que irá desenvolver em sua segunda obra, os Atos dos Apóstolos, ao apresentar Jesus, pela boca de Pedro, como aquele que “passou fazendo o bem” (cf. At 10,38). Aliás, a presença do malfeitor arrependido que pede misericórdia representa mais uma oportunidade para Jesus manifestar a sua missão neste mundo, conforme tinha respondido aos que ficaram escandalizados quando entrou na casa de Zaqueu: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (cf. Lc 19,10). Sem dúvidas, aquele malfeitor estava perdido, por isso, reconheceu sua condição de culpado, clamou a Jesus e foi salvo.

O malfeitor arrependido sentiu que, finalmente, encontrou alguém com quem pudesse contar, que olhasse para sua miséria, criando assim uma relação íntima com Jesus, a ponto de chama-lo pelo nome: “Jesus, lembra-te de mim quando entrardes em teu reino” (v. 42). Na tradição bíblica, chamar alguém pelo nome é sinal de intimidade, é conhecer o outro e tê-lo como amigo. Assim, finalmente alguém percebeu a verdadeira natureza da realeza de Jesus: um rei tão diferente dos reis deste mundo, a ponto de não necessitar de nenhum título de honra para dirigir-se a Ele, basta chamá-lo pelo nome que Ele responde. Assim, o malfeitor arrependido torna-se modelo de convertido para o evangelista Lucas.

Além da intimidade criada entre o malfeitor e Jesus, merece atenção o conteúdo da súplica: “lembra-te de mim” é uma fórmula de oração usada pelos pobres, agonizantes e perseguidos na tradição bíblica do Antigo Testamento (cf. Sl 89,48; 106,4; Jr 15,15). Foi o único a compreender que o Reino de Jesus não é desse mundo, pois sabia ele que, como condenado, jamais teria espaço em um reino desse mundo, por isso, pediu que Jesus se recordasse dele no seu reino. Portanto, o malfeitor elevou uma súplica de confiança e mostrou capacidade para compreender que um reino diferente dos reinos desse mundo é possível e, finalmente ele tinha encontrado, pois estava diante de um rei que não salva a si mesmo, mas aos outros.

Ao que reconhece a verdadeira natureza da sua realeza, Jesus a manifesta plenamente: “Em verdade, te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Essa é a única vez em que a palavra paraíso, em grego paradei,soj – paradeísos, aparece nos evangelhos. Outro pormenor importante da teologia lucana é que a salvação se realiza já no hoje da história, afastando a ideia de um futurismo incerto e utópico. De fato, o termo hoje, em grego sh,meron – semeron, é muito relevante para Lucas: aos pobres pastores é anunciado que “nasceu hoje um salvador” (cf. Lc 2,11), na sinagoga de Nazaré, Jesus diz que “as escrituras se cumpriram hoje” (cf. Lc 4,21); Jesus quer “permanecer hoje na casa de Zaqueu” e diz que “hoje a salvação entrou nessa casa” (cf. Lc 19,5.9).  

Portanto, é com urgência que o reino de Deus é apresentado no Evangelho de Lucas. Infelizmente, nem todos o reconhecem e o acolhem. Na verdade, somente os pecadores, pobres e humilhados demonstram, no decorrer do evangelho, capacidade para tal reconhecimento. Para esses, a salvação não pode ser adiada, é necessário que aconteça logo hoje, agora.

Uma vez que a realeza de Jesus se revela na cruz, no ápice da humilhação, fica difícil reconhece-la, de modo que, até hoje, continua sendo mal compreendida e ensinada. O triunfalismo real alimentado por séculos pela tradição judaica acabou sendo disseminado também entre muitos cristãos que insistem em adorar um Cristo Rei com insígnias reais que jamais Ele aceitaria. E foi, exatamente na cruz onde sua realeza se manifestou tão claramente ao deixar de salvar a si para salvar a um pecador visto como caso perdido.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, novembro 13, 2016

REFLEXÃO PARA O XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 21,5-19 (ANO C)


Ao longo de quase vinte domingos, do décimo segundo ao trigésimo primeiro do ano litúrgico em curso, acompanhamos o grande itinerário catequético, teológico e espiritual de Jesus, através do longo caminho para Jerusalém, apresentado pelo evangelista Lucas em dez capítulos (9 – 19). Eis que a meta foi alcançada e, no Evangelho de hoje (Lc 21,5-19), contemplamos uma importante etapa do curto ministério de Jesus em Jerusalém, mais precisamente nas dependências do imponente templo.

Trata-se de um texto longo e complexo devido, principalmente, ao uso do gênero literário apocalíptico, tão incompreendido e distorcido ao longo da história. É comum nos evangelhos, sobretudo nas partes finais, o uso desse gênero literário que não é indicativo de catástrofe, como tem sido equivocadamente concebido, mas quer dizer revelação, ‘tirar o véu’ de algo para torná-lo conhecido e, portanto, muito usado quando se fala das realidades últimas. Logo, se trata de um texto muito passível de distorções na interpretação, uma vez que faz parte do discurso escatológico do Evangelho de Lucas.

Inegavelmente, a mensagem desse texto de hoje está voltada para o fim; mas um fim como finalidade e não como extermínio. Infelizmente, a maioria das interpretações têm estimulado uma concepção de fim como extermínio, marcado por uma sequência de catástrofes, inculcando medo nas pessoas e levando-as a um fundamentalismo extremo. Na verdade, Jesus está anunciando a transição entre dois reinos: o reino dos homens e o reino de Deus. Obviamente, pelos contrastes entre um e outro reino, essa transição deverá ser marcada por conflitos inevitáveis, tendo em vista que o advento do Reino de Deus pressupõe a superação de tudo o que diz respeito ao reino dos homens. Por isso, Jesus previne e encoraja os seus discípulos para a inevitável tensão no período de transição e os consequentes perigos.

Voltemos, pois, a atenção para o complexo texto que nos é proposto. A cena transcorre nas dependências do templo, ambiente de decepção para Jesus, considerando que, de ‘casa de oração’, foi transformado em ‘covil de ladrões’, conforme ele denunciou anteriormente (cf. Lc 19,45-46). Para Ele, era muito doloroso contemplar todas as arbitrariedades que faziam naquele ambiente, em nome de seu Amado Pai! Na cena anterior ao episódio de hoje, ele tinha lamentado pela pobre viúva explorada (cf. Lc 21,1-4). Ele já estava bastante revoltado com tudo o que tinha visto ali; por isso, foi muito duro ao escutar elogios àquela construção (v. 5), que ao invés de revelar, escondia o verdadeiro rosto de Deus, o seu Pai; por isso, foi curto e grosso: “não restará pedra sobre pedra” (v. 6b). Com essa expressão, Ele externa seu total descontentamento com aquela instituição, dizendo que não há nada a se aproveitar dela: deve ser exterminada o quanto antes!

Considerando que o famoso templo de Jerusalém era uma das grandes maravilhas do mundo na época, pela sua imponência e beleza de seus adornos, uma previsão de sua destruição despertava muitas curiosidades e perguntas como, de fato, são feitas: “Quando acontecerá isso? Qual o sinal de que estas coisas estão para acontecer?” (v. 7). À perguntas desse gênero, Jesus responde com muita cautela e precisão, embora não diga quando, pois não é competência sua, nem se trata de algo relevante. Ele pede, na verdade, para que os discípulos não se apavorem com os acontecimentos que refletem os antigos sinais de fim dos tempos, preditos ao longo da história de Israel pelos antigos profetas: guerras, revoluções e fenômenos naturais como terremotos e pestes (vv. 9, 10, 11). A estes fenômenos e acontecimentos, ele aponta outro perigo: a manipulação de seu nome por falsos pregadores e espertalhões que predizem, sem fundamentação alguma, o final dos tempos e apresentam-se como sabedores das realidades futuras (v. 8b). Ele pede para não nos deixarmos enganar por esse tipo de gente (v. 8a), presente muitas vezes nas comunidades cristãs, infelizmente.

Na sequência, Jesus chama ainda mais a atenção dos seus discípulos para as consequências da fidelidade ao seu projeto de construção de um mundo novo: uma sociedade alternativa baseada em novos valores e princípios. Obviamente, o advento de um mundo novo requer a superação de um mundo antigo, o que exige a substituição dos valores tradicionais cultivados pela sociedade e religião do tempo de Jesus, pelos valores que compõem o seu Evangelho. Eis porque os conflitos se tornam inevitáveis: quem aceitar o Evangelho com seus valores, rejeitará os princípios da antiga ordem estabelecida, mantida pela aparelhagem ideológica da religião e do estado. Tais consequências culminam com as perseguições nos mais diversos âmbitos: religioso, político e familiar.

Quanto às perseguições, que muitos viam como fim dos tempos, Jesus as apresenta como meios que conduzirão o mundo ao seu verdadeiro fim: são sinais de que o Reino de Deus se aproxima. De fato, a fidelidade de seus discípulos será medida pela reação de três instituições a eles: a religião, o estado e a família tradicional. Por isso, Jesus diz que os seguidores do seu Evangelho serão perseguidos e entregues às sinagogas (v. 12), prova de que sua mensagem desmascarava a religião institucional de seu tempo; serão conduzidos diante de reis e governadores (v. 12), sinal da oposição radical entre o Reino de Deus e os reinos dos homens, o estado; e serão entregues e mortos até mesmo pelos próprios familiares (v. 16), o sinal de que até mesmo a instituição familiar é abalada pela mensagem renovadora e libertadora de Jesus.

Diante de uma proposta tão exigente e ousada, Jesus faz um forte apelo à fidelidade e perseverança dos seus discípulos, encorajando-os a não desanimarem diante das adversidades. Antes de tudo, Ele garante que quando estas coisas começarem a acontecer, os discípulos terão a oportunidade de dar testemunho da fé nEle (v. 13). Ora, testemunho, em grego martu,rion – martyrion, significa testemunhar e assumir as consequências desse testemunho, dando a vida se for preciso, como Jesus mesmo prevê (v. 16b). Aconselha-os também a confiarem plenamente nEle, sem preocupações com o que dizer e o jeito de se defenderem diante das acusações e calúnias (vv. 14-15). Basta confiar e testemunhar.

É inevitável que, testemunhando Jesus, os discípulos estarão alimentando o ódio daqueles que querem permanecer ligados às antigas instituições e fechados à novidade do Evangelho. Porém, Jesus garante que o mais importante, a vida, será preservada em sua integridade: “não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça” (v. 18). Ora, o fio de cabelo significava a menor parte da vida de uma pessoa na mentalidade hebraica; assim, Jesus diz que a vida do discípulo e discípula que perseverar no testemunho corajoso do seu Evangelho, será ganha em sua totalidade e abundância (v. 19).

É, portanto, urgente e necessário conceber a adesão ao ensinamento de Jesus como ruptura total com todas as estruturas e instituições tradicionais para, de fato, testemunhar, de modo livre e novo, os valores presentes em seu Evangelho. É urgente que abracemos um mundo novo, caracterizado por novas relações em todos os âmbitos da vida, motivadas única e exclusivamente pelo amor, deixando para trás todas as experiências ultrapassadas, mesmo que usem o nome de Deus, como usava o esplêndido templo de Jerusalém, o qual não merecia outro destino, senão a destruição completa. Por isso, temos a certeza de que Jesus pregava o fim de um mundo antigo insustentável, tendo como finalidade a construção de um mundo novo baseado nos valores do seus Evangelho.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, novembro 06, 2016

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS - MATEUS 5,1-12


Para a solenidade de todos os santos, a liturgia nos oferece a versão mateana das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), a parte introdutória do longo discurso de Jesus na montanha (Mt 5 – 7). Esse é, sem dúvidas, o mais célebre dos discursos de Jesus, no qual Ele apresenta seu programa de vida e as exigências necessárias para os que desejam seguir os seus passos.

O texto de hoje é apenas a primeira parte do amplo discurso que, ao longo dos séculos, tem encantado cristãos e não cristãos. É, sem dúvidas, uma das mais belas páginas das Sagradas Escrituras e, mais que uma simples introdução, é uma síntese de todo o programa de Jesus. Aqui, faz-se necessário recordar o que afirmou o primeiro verdadeiro exegeta cristão da história, Orígenes, que viveu entre 185 e 253 d.C., o qual afirmou que as bem-aventuranças são o retrato de Jesus, ou seja, através delas Jesus disse quem Ele era e como vivia. Com certeza Orígenes tinha razão.

É muito importante recorrermos às fontes e contextualizar o texto, tendo em vista o risco de reduzirmos o sentido desta solenidade fazendo uma simples apologia ao devocionismo que tanto tem se difundido nos últimos anos, levando muitas pessoas refletirem menos sobre a fé que professam. Ora, falar de santos, santas e santidade, deve ser, acima de tudo, refletir sobre o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré, e isso só é possível, quando temos clareza do seu projeto de sociedade e programa de vida.

Certamente, a imagem apresentada em Apocalipse 7,2-14 contribuiu muito para uma ideia de santidade distante das realidades terrenas, mas o próprio cristianismo primitivo também pode nos ajudar a recuperar um sentido mais real e justo sobre essa questão. Poderíamos, inclusive, recorrer à mentalidade hebraica presente no Primeiro Testamento, mas a literatura do cristianismo das origens é suficiente, principalmente os escritos de Paulo.

Quando Paulo, em suas cartas, manda recordações dos santos ou para os santos, o faz referindo-se a pessoas concretas e vivas de suas comunidades. Quando lidera a coleta em favor dos pobres de Jerusalém, ele refere-se a esses como santos (cf. Rm 15,16.31; 1Cor 16,1). Questiona os Coríntios por levarem suas disputas jurídicas aos tribunais civis e não aos santos da comunidade (cf. 1Cor 6,1). No cabeçalho da Segunda Coríntios, ele saúda os santos que se encontram em toda a região (cf. 2Cor 1,1). Esses foram apenas alguns acenos à menção dos cristãos vivos compreendidos como santos.

A Escritura, sobretudo nos Atos dos Apóstolos, atesta o fervor dos primeiros cristãos e a disponibilidade que tinham para viver o que era exigido pelo Evangelho. Infelizmente, com o passar do tempo, houve um distanciamento do ideal evangélico no cristianismo. Daí que as bem-aventuranças passaram a ser vistas como um ideal distante, praticamente inalcançável na vida terrena, embora a história da Igreja esteja marcada por inúmeros homens e mulheres de bem-aventurança indiscutível. Mas, o programa de vida de Jesus não foi destinado apenas a alguns ou algumas, mas a todos e todas, por isso, precisamos guiar a nossa reflexão nessa perspectiva.

Voltemo-nos, pois, para o nosso texto evangélico. Como se trata de um texto de Mateus, é a partir desse evangelho específico que devemos situar nossa reflexão. Até então, Jesus ainda não tinha sequer formado o grupo completo dos Doze. Tinha chamado apenas quatro discípulos: Pedro, André, João e Tiago (cf. Mt 4,18-22), mas já tinha iniciado sua atividade messiânica e despertado o interesse das multidões (cf. Mt 4,23-25). Como não pretendia enganar ninguém, preferiu, logo de início, deixar claro o seu projeto, iniciando exatamente com a proclamação das bem-aventuranças, as quais revelam o seu jeito de ser e como deve ser a vida dos discípulos, destinatários primeiros do seu ensinamento, mesmo circundado pelas multidões (v. 1-2).

Como diz o texto, “vendo as multidões, Jesus subiu ao monte” (v. 1a). Aqui, há uma clara alusão a Moisés que subia ao monte Sinai para comunicar-se com Deus, tendo recebido ali as tábuas da lei (cf. Ex. 19,3; 24,15.18). A montanha é, portanto, o lugar da oração, do encontro com Deus e da sua revelação à humanidade. Aqui, Jesus revela-se Senhor e mestre. O gesto de ensinar sentado e com os discípulos próximos a ele (v. 1-2), mostra a autoridade de mestre, significa que seu ensinamento é sólido, consistente e sério, embora ainda tenha um grupo muito pequeno de discípulos. Ele não consegue esperar seu grupo crescer para dizer como quer que seus discípulos sejam, por isso, apresenta logo ali o seu perfil.

O evangelista usa nove vezes o termo grego Maka,rioi macarioi, cujo significado é felizes, bem-aventurados ou benditos. Com isso, Jesus descreve como devem ser seus discípulos. Na verdade, como todo discípulo deve imitar o seu mestre, e como autêntico e verdadeiro que era, tudo o que Ele já vivia, o propôs para o seu discipulado. O que, de fato, é exigido, é que sejam bem-aventurados, felizes. Talvez um conceito equivocado de felicidade dificulte uma compreensão mais sólida do que Ele apresenta. É importante recordar que as bem-aventuranças não são sugestões, mas exigências radicais que devem ser vividas em sua totalidade. Não se pode escolher uma ou outra. Só tem sentido e valor quando vividas por completo, por isso é desafiante ser discípulo ou discípula de Jesus.

A primeira bem-aventurança (v. 3) é um consolo para quem já é “pobre em espírito” e um convite para que, os que ainda não são, se tornem. De todas, é aquela que mais tem gerado controvérsias na interpretação. A preferência de Jesus pelos pobres é inquestionável. No entanto, alguns para suavizar a interpretação, outros para não se comprometerem, afirmam que Jesus não está aqui se referindo à pobreza como carência de bens, mas como um sentimento. É claro que essa interpretação é absurda, sobretudo se tomamos a mensagem de Jesus em seu conjunto, e recordamos que uma das coisas que Ele mais cobra de seus discípulos é o desapego e a renúncia aos bens. Também não se trata de um convite à resignação. O pano de fundo para essa bem-aventurança é a profecia de Sofonias (cf. Sf 3,11-13), quando apresenta o ‘resto de Israel’ como um povo ‘pobre e humilde’ que buscará refúgio no nome do Senhor. Portanto, os pobres em espírito são aqueles que confiam em Deus, unindo à pobreza, a humildade, uma vez que, não basta ser pobre, é necessário ser humilde para entrar na dinâmica do Reino. A eles, os pobres em espírito, deve ser dado o Reino já agora, uma vez que a condição deles não permite mais esperar por uma transformação futura. E, foi Jesus, por excelência, um pobre no espírito, porque completou sua pobreza material com a confiança no Espírito Santo e no Pai.

A segunda bem-aventurança (v. 4) também tem um texto profético como pano de fundo: a profecia de Isaías que anuncia o ‘consolo dos aflitos’ (cf. Is 61,2). Ser consolado, na linguagem bíblica, não é simplesmente ser confortado ou ter a dor aliviada por alguns momentos, mas é ter o sofrimento eliminado por completo. A não aceitação do projeto de Jesus pelas estruturas sócio-políticas e religiosas causará aflições no seu discipulado, mas resistindo, receberão a verdadeira consolação.

Aos aflitos, somam-se os mansos, a terceira bem-aventurança (v. 5). O próprio Jesus se apresentará, posteriormente, como manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29). Aqui, Jesus alude aos israelitas que foram deserdados injustamente de suas terras (cf. Sl 37,11), por isso, terão como recompensa a herança da terra novamente. Também não é um convite à passividade. É apenas um lembrete para que, diante das injustiças, a comunidade dos discípulos tome as mesmas atitudes de Jesus.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme Ele mesmo experimentara, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão interpelante: ‘bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça’ (v. 6). Ora, a fome e a sede são as necessidades que mais incomodam com o ser humano e o deixam ansioso. Com isso, Ele ensina que, como o alimento e a água são essenciais para a vida, assim deve ser a busca pela justiça em seus discípulos, ou seja, deve fazer parte do dia-a-dia da comunidade e ser tão apreciada quanto o alimento cotidiano.

A misericórdia é tão importante na vida do discípulo, a ponto de ser a condição para receber a misericórdia de Deus (v. 7). Assim é a quinta bem-aventurança. Ora, na Bíblia, a misericórdia é, sobretudo, ação em favor dos necessitados. Não se trata de um simples sentimento de piedade. É uma das principais características de Deus, por isso, é indispensável na vida do discípulo, o qual deve estar sempre atento e solícito às necessidades do próximo.

Com a sexta bem-aventurança (v. 8), Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica, os quais não permitiam que as pessoas vissem o verdadeiro rosto de Deus. Por isso, diz que bem-aventurados são ‘os puros de coração’, e não os que se submetem constantemente aos ritos estéreis e vazios, os quais, ao invés de aproximar as pessoas de Deus, causavam divisões e exclusões. A verdadeira pureza é aquela interior, ou seja, do coração, porque permite ver os outros com os olhos de Deus e, assim, dar a conhecer o próprio Deus.

Considerando que os discípulos seriam imersos em situações de conflito, Jesus pede, com a sétima bem-aventurança (V. 9), que sejam ‘promotores da paz’. É claro que paz a promovida pelo discípulo de Jesus será sempre uma paz inquieta como foi a dele. Lutar pela paz é tão imprescindível na vida do discípulo, a ponto de ser condição para ser considerado filho de Deus. Se trata de algo muito profundo, considerando a riqueza teológica da palavra hebraica ~Al)v'. –  Shalom: paz como o bem-estar total do homem, harmonia com Deus, consigo mesmo e com o próximo em todas as dimensões. É por esse tipo de paz que o discípulo de Jesus deve lutar, ou seja, por uma vida digna e íntegra para todos.

Com a oitava bem-aventurança (v. 10), Jesus apresenta aquilo que vai comprovar se o discípulo está imitando-o ou não, ou seja, se está vivendo ou não as bem-aventuranças: ‘ser perseguido por causa da justiça’. O principal sinal de adesão plena ao Reino é ser perseguido! Por isso, ser discípulo de Jesus é um desafio, porque a lógica do Reino contrapõe-se a todo e qualquer sistema humano de gerenciamento da vida. Viver as bem-aventuranças é abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entrará em coalisão com os sistemas dominantes. Obviamente, ao invés de aplausos, os discípulos receberão perseguições, calúnias e injúrias, completando assim a nona bem-aventurança (v. 11). E, diante de tudo isso, Jesus ainda convida a alegrar-se e exultar (v. 12), na certeza de que a sua proposta de vida é a única viável para a construção de um mundo justo, solidário e fraterno, em contraposição a todos os sistemas humanos já experimentados.
É, portanto, olhando para o perfil que Jesus apresenta de si e exige que seus discípulos o assimile, assemelhando-se a Ele, que queremos celebrar todos os santos e santas, conhecidos e anônimos que, independente de reconhecimento eclesiástico, viveram e vivem as bem-aventuranças nas mais diversas realidades de outrora e de hoje!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues