sábado, novembro 16, 2013

SERVIU PRA ALGUMA COISA, A LUTA? SERVIU...


Acabo de ler mais um capítulo de ‘Introducción al profetismo bíblico’ de José Luiz Sicre Diaz, biblista espanhol, conhecido internacionalmente como o maior estudioso do profetisimo bíblico na contemporaneidade. Como ninguém pode falar de profetismo bíblico sem falar de justiça, um dos capítulos do livro é exatamente sobre a justiça, intitulado ‘A luta profética por justiçal’, (o que acabo de ler!) no qual o autor faz um apanhado geral da luta dos profetas bíblicos escritores pela justiça, e de modo particular, pela justiça social.
Sicre faz um levantamento geral da crítica profética, e percebe que a classe mais criticada é exatamente a magistratura, exatamente porque era a mais corrupta. Os juízes do antigo Israel transformaram o direito em veneno (Am 5,7): “Eles que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça”. O profeta se refere aos que julgavam na base do suborno (+/- 700 a.C.), e prazerosamente condenavam pessoas inocentes.
Após uma longa demonstração da corrupção da suprema corte de Israel e da luta incansável dos profetas, o autor conclui o belo capítulo com uma pergunta: “Serviu pra alguma coisa a crítica profética?” Ele não responde imediatamente à pergunta. Primeiro, mostra que na conjuntura de Israel, quase nada mudou, apesar da constante luta dos profetas; os juízes continuaram corruptos, tanto que 700 anos depois, outro profeta, Jesus Cristo, continuou a criticar os doutores da lei.  
O autor (Sicre) não responde à sua pergunta com suas próprias palavras... ele responde com os versos do grande poeta da Guatemala, Julio Fausto Aguilera ‘A batalha do verso’:

Com um verso,
é verdade,
não se derruba um tirano.

Com um verso não se traz pão e abrigo
a crianças sem-teto,
nem se leva medicamentos para o camponês doente.
Então, não se pode fazer nada,
com um verso.

Mas, vamos ver:
Um verso bem feito e vigoroso,
e outro mais incendiado,
e outro mais claro,  
e outro verso ainda mais forte e mais verdadeiro,
podem dar vida a um sonho que esconderam.

E o sonho de muitos, já nutrido,
torna-se uma consciência,
e esta consciência, uma paixão, um desejo ...

Até que um dia,
todo,
-sono, consciência, desejo-
compacto se organiza...

E então,
vem o grito e o punho,
e a conquista ...

Na esfinge da conquista
brilha um diadema: o verso....

Talvez os companheiros e companheiras, sonhadores e sonhadoras se perguntem, diante da atuação arbitrária dos atuais ‘doutores da lei’ do Brasil, que lançaram a justiça por terra, se serviu pra alguma coisa a luta de pessoas como Genuíno e Dirceu.

Valeu a pena sim! A luta de Genoíno e Dirceu é a nossa luta! Quem luta por um Brasil melhor, mais justo, está com eles! Quem sente vergonha dos atuais ‘doutores da lei’, e tem certeza que a mídia golpista é um dos maiores males da nossa terra, está com Dirceu e Genoíno, e vai lutar com eles!

Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, setembro 01, 2012

Minha veneração pelo Cardeal Martini


Conheci um pouco do pensamento do Cardeal Carlo Maria Martini estudando filosofia, especificamente pagando a cadeira ‘Filosofia da Religião’, ministrado pelo amigo e bom professor Dr. Anderson Alencar Menezes. Na oportunidade, o professor indicou na bibliografia do curso, o livro ‘Em que crêem os que não creem?’ do Cardeal Martini com Umberto Eco. Trata-se de um diálogo entre os dois, publicados pela revista italiana ‘Liberal’. A cada edição um deles perguntava e respondia à provocação do outro. Quem abriu o diálogo foi Umberto Eco, e aqui transcrevo o início do debate. Me chamou muito a atenção já as primeiras considerações de Eco, sobretudo seu grande respeito por Martini. 

Gostei muito do livro, mas só voltei a ter contato com o pensamento de Martini depois que vim para a Itália, e o acesso à sua obra tem sido ao longo de 4 anos, uma das coisas mais proveitosas da minha estadia em Roma. Poderia considerar coisas maiores de sua vida, como o fato de ser o maior exegeta católico dos últimos tempos, um grande mestre da vida espiritual... mas a minha paixão por ele é sobretudo pela sua coragem ao se expressar, sem medo de tocar em temas polêmicos, sempre em defesa do diálogo, da justiça e da paz. Uma grande voz da Igreja que falava sempre com linguagem viva e atual, mantendo sempre o respeito e a obediência à tradição da qual era guardião.

Um homem de fé, um mestre, um profeta... aqui transcrevo as páginas 11 e 12 do livro “Em que crêem os que não creem?”, recordando mais uma vez que foram tais páginas que acenderam em mim uma paixão forte pelo seu pensamento, a ponto de se tornar veneração. 

Eis então, as palavras de Umberto Eco:

Caro Carlo Maria Martini,

Não me considere desrespeitoso se me dirijo ao senhor chamando-o por seu próprio nome, sem referir-me às vestes que enverga. Entenda-o como um ato de homenagem e de prudência. De homenagem, pois sempre me impressionou o modo como os franceses, quando entrevistam um escritor, um artista, uma personalidade política, evitam usar apelativos redutivos, como professor, eminência, ou ministro. Há pessoas cujo capital intelectual é dado pelo nome com que assinam as próprias ideias. Assim, os franceses se dirigem a qualquer pessoa cujo maior título é o próprio nome, com “diga-me, Jacques Maritain”, “diga-me” Claude Lévi-Strauss”. É o reconhecimento de uma autoridade que o sujeito manteria mesmo se não tivesse se tornado embaixador ou acadêmico da França. (...).

Ato de prudência, eu disse também. De fato, poderia parecer embaraçoso o que esta revista solicitou-nos, a ambos, isto é, uma troca de opiniões entre um leigo e um cardeal. Poderia dar a impressão de que o leigo induzia o cardeal a exprimir pareceres como Príncipe da Igreja e pastor de almas, o que seria uma violência contra quem é chamado a responder e contra quem ouve a resposta. Melhor que o diálogo se apresente como aquilo que, nas intenções da revista que nos convocou, pretende ser: uma troca de reflexões entre homens livres. Por outro lado, dirigindo-me ao senhor desta maneira, pretendo sublinhar o fato de ser o senhor considerado um mestre de vida intelectual e moral mesmo por aqueles leitores que não se sentem vinculados a nenhum magistério que não o da justa razão.

Superados os problemas de etiqueta, permanecem os da ética, pois é principalmente deles que deveríamos tratar no curso de um diálogo que pretende encontrar alguns pontos comuns entre o mundo católico e o mundo laico.

O trecho transcrito corresponde às páginas 11 e 12 do livro Em que crêem os que não crêem? de Umberto Eco e Carlo Maria Martini, ed. Record, Rio de Janeiro, 2006.

Francisco Cornelio F. Rodrigues.

quarta-feira, julho 25, 2012

As Bem-Aventuranças do Educador

                                                                               
A. Felizes os Educadores
   que tomam consciência do conflito social em que estão metidos
   e nele tomam partido pelo projeto social dos empobrecidos
   porque assim contribuirão para a transformação da sociedade.

B. Infelizes os Educadores
   que imaginam que a ação educativa é politicamente neutra
   porque acabam transformando a educação num instrumento de ocultação
   das contradições da realidade social
   e de reprodução da ideologia e das relações sociais vigentes.

A. Felizes os Educadores
   que sabem articular o saber chamado científico com o saber popular
   porque ajudarão as classes populares a afirmar sua identidade cultural.

B. Infelizes os Educadores
   que transmitem mecanicamente um saber elitista
   porque contribuem para reforçar a marginalização
   e a dominação cultural do povo.

A. Felizes os Educadores
   que aprendem a dialogar com os educandos
   porque resgatam a comunicação pedagógica criadora no processo educativo.

B. Infelizes os Educadores
   que impedem os educandos de dizerem sua palavra,
   porque estão reproduzindo a educação do colonizador.

A. Felizes os Educadores
   que se tornam competentes em suas "disciplinas"
   ensinando a "desopacizar" ideologicamente seus conteúdos
   porque ajudarão os educandos a se apropriarem do saber
   como ferramenta de luta na defesa e afirmação de sua dignidade.

B. Infelizes os Educadores
   que não se esforçam para ser criticamente competentes
   porque enfraquecerão mais ainda o poder cultural das classes oprimidas
   reforçando o autoritarismo cultural das classes dominantes.

A. Felizes os Educadores
   que procuram se organizar para conquistar
   melhores salários e melhores condições de ensino
   porque estão ajudando a conquistar a educação a que o povo tem direito.

B. Infelizes os Educadores
   que atuam isoladamente, buscando apenas seus próprios interesses
   porque deixarão de contribuir para a conquista de uma escola digna.

A. Felizes os Educadores
   que iluminam sua prática com o sonho de um futuro novo
   em que as pessoas aprendam, através de novas relações sociais,
   as lições da justiça e da solidariedade.

B. Infelizes os Educadores
   que não sonham
   porque não terão a coragem de se comprometer na luta criadora
   de uma nova sociedade a partir de sua prática educativa.

 A. Felizes os Educadores
   que aprendem a fazer da ação de cada dia
   a semente da nova sociedade.

  B. Infelizes os Educadores
   que pensam que as coisas novas só aparecerão no futuro
   porque não perceberão, nem farão perceber
   que o "novo" já está no meio de nós,
   brotando de nossas práticas transformadoras,
   solidárias com as lutas dos espoliados da terra.

 José Ivan Pimenta Teófilo, padre e educador Salesiano, grande promotor do Reino por meio do Evangelho e de da educação, deixou essa vida em 1990.


domingo, julho 15, 2012

PRISIONEIROS DA PRÓPRIA FÉ

O coração humano nem sempre crê com liberdade. Para alguns judeus é inconcebível que Deus seja Alá ou tenha escolhido Maomé como seu profeta. Para um muçulmano é inadmissível que Deus tenha se encarnado como profeta judeu. Para um judeu é inadmissível crer, com os cristãos, que seu profeta de Nazaré seja o próprio Deus. Para um cristão, sobretudo os mais falantes e fazedores de adeptos, é inimaginável que as outras religiões e os ateus ainda não tenham percebido que Jesus é Deus que e encarnou entre nós. Assim com budistas, shintoistas. Dentro de todas as religiões, grupos mais radicais costumam afirmar sua fé como a única e melhor e a dos outros como cheias de erros crassos, por mais gente boa que tenha formado.

No fundo, somos todos prisioneiros da fé que assumimos. Bastaria assumir uma fé e tentar vive-la, o que já é sumamente difícil. Desconfiemos sempre do pregador de fé fácil e garantida. Uma vez que aderirmos, ele vai complicá-la e, como estes contratos cheios de más intenções por conta de clausulas ocultas ou subentendidas, dirá que não mentiu e que foi o fiel que não entendeu…

São poucos os pregadores que admitem não ter todas as respostas na ponta da língua, poucos os que aceitam aprender com os outros, poucos os que, tendo profetizado e curado errado, admitem seu erro. É praxe dar o microfone para o testemunho do fiel curado e agraciado. Nunca vi os mesmos pregadores darem o microfone para o mesmo fiel que volta com atestado médico afirmando que a doença voltou com mais intensidade. No médico existe o direito ao retorno e nova consulta gratuita, mas em alguns púlpitos transformados em show de curas e exorcismos, quase nunca se vê fieis retornarem para testemunhar que não foram curados da primeira vez… Se houver eu gostaria de saber onde e como. O que vejo é o marketing afirmativo da maioria dos pregadores. Não há talvez, nem “desculpem: enganei-me”. Falam como quem tem certeza de tudo.

A Bíblia que eu conheço ensina, sobretudo no Novo Testamento que a vontade de Deus é soberana. O próprio Jesus ensinou a orar e pedir, mas a aceitar, como ele mesmo fez, a vontade do céu. Se ele é Deus como afirmamos, então ele, humanado, estava ensinando que há um Deus Uno e Trino cuja vontade é decisiva e decisória. 

Não estranhemos se outras religiões acham nossa fé estranha. Se achamos estranhas as deles, por que exigiríamos que creiam como nós? Convicção pessoal é uma coisa; impô-la nos outros é bem outra. Não aceitaríamos usar os óculos de outro míope só porque fizeram bem a ele. Cada míope com a sua miopia. Nossa fé pode ter resolvido nossa miopia, mas não resolverá a dos outros. Vivamos o que cremos e respeitemos quem vê o céu e a terra de outro ângulo. O Deus que amamos os ama! 

Pe. Zezinho, scj


Fonte: http://www.padrezezinhoscj.com/wallwp/archives/6890

sexta-feira, maio 25, 2012

ONDE SOPRA O ESPÍRITO?

A festa de Pentecostes, celebrada neste domingo, lembra a vinda do Espírito Santo sobre os primeiros cristãos, reunidos no cenáculo em Jerusalém. Com a força do Espírito, sentiram-se animados a partir em missão.
Daí para a frente, o Espírito Santo iria conduzir a Igreja. Ele se encarregaria de indicar os rumos, e até de antecipar os passos que os cristãos deveriam dar.
Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Pedro foi procurado por Cornélio, um pagão, que o convidava a visitar sua casa. Ao entrar, Pedro se surpreendeu, vendo que o Espírito Santo descia sobre os pagãos, da mesma maneira como tinha descido sobre eles em Pentecostes.
Pedro então compreendeu que os pagãos eram destinatários do Evangelho, tal como o povo de Israel. A Igreja aprendeu a estar atenta aos sinais do Espírito, para tomar suas decisões com segurança.
Foi o que aconteceu em nossa época, com o anúncio do Concílio Vaticano Segundo, em janeiro de 1959. O Papa João 23 não se cansava de testemunhar que a idéia de um concílio tinha surpreendido a ele mesmo. A certeza da inspiração divina lhe vinha da pronta adesão do povo, que de imediato se identificou com a proposta do papa. Com esta certeza, a Igreja pôde levar em frente a realização do Concílio.
Algumas manifestações do Espírito são fáceis de identificar. Sobretudo quando contam com o aval do povo. A própria teologia reconhece que o "sensus fidelium”, a "intuição dos fiéis” é sinal seguro de procedimento eclesial.
Mas existem situações mais complicadas. Nem sempre o clamor do povo é porta-voz do Espírito Santo. Há certas manifestações, também políticas e sociais, cuja ênfase, em vez de manifestar caminhos seguros de procedimentos corretos, esconde interesses não confessados, e tenta forçar rumos que não levam ao bem comum.
Por isto, não dá para colocar na conta do Espírito Santo todas as manifestações populares. A confiança no Espírito de Deus não dispensa o esforço de discernimento, para perceber os valores que estão em jogo.
O próprio Evangelho nos dá uma pista, quando Jesus explica como seria o procedimento do Espírito. Disse Ele que o Espírito "não falará de si mesmo...; mas, receberá do que é meu e vo-lo anunciará” (Jo 16, 13).
Com esta afirmação, Jesus sinaliza a necessidade de constatar a coerência entre o que ele fez e ensinou, com as manifestações que possam ocorrer. Para serem do Espírito, precisam estar em sintonia com as verdades objetivas proclamadas por Cristo.
A Bíblia conta uma bonita história, para advertir da necessidade de discernir a presença de Deus. Elias estava refugiado na caverna, nas proximidades do monte Horeb. Foi avisado que Deus passaria naquela noite. Ele se colocou então na entrada da caverna. Veio um forte furacão que fazia as rochas se contorcerem. Mas Deus não estava no furacão. Depois aconteceu um violento terremoto, que sacudiu a terra. Mas Deus não estava no terremoto. Depois desceu um fogo devorador. Mas Deus não estava no fogo. Por fim, veio uma brisa suave, que amenizou todo o ambiente. Era Deus que estava chegando.
Precedendo a este episódio, o mesmo livro narra a cena do confronto de Elias com os 400 sacerdotes do deus Baal. Desafiados por Elias a invocarem o seu deus para que fizesse descer fogo sobre a lenha da oferenda, os sacerdotes gritaram o dia inteiro, mas não foram capazes de se fazerem ouvir por seu falso deus. Ao passo que Elias, com poucas palavras, foi prontamente atendido por Javé.
Há certas manifestações que se assemelham à gritaria dos sacerdotes de Baal. Em nada contribuem para o discernimento objetivo dos problemas a resolver.
A análise objetiva da realidade é garantia mais segura do acerto das decisões a serem tomadas.

Por: Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales-SP