domingo, agosto 21, 2016

REFLEXÃO PARA A ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (LUCAS 1,39-56)

Neste domingo em que celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia nos oferece um dos textos mais lidos de todo o Novo Testamento, sobretudo nas tradições católicas: Lucas 1,39-56. Concentraremos nossa reflexão unicamente no Evangelho, embora seja oportuno fazer uma leitura de conjunto com os outros textos que a liturgia oferece para esse dia, bem como uma contextualização histórica do dogma proclamado pelo papa Pio XII em 1950. Porém, mais uma vez reiteramos que nos concentraremos apenas no texto evangélico de Lucas.

O texto apresenta a visitação de Maria à sua parenta Isabel, contemplando o famoso cântico ‘Magnificat’ como ápice e conclusão do encontro das duas mulheres, ambas contempladas de modo especial pelo olhar misericordioso de Deus, o qual olha para a “humildade de seus servos e servas” (v. 48). É importante lembrar que o contexto geral do episódio do encontro entre as duas mulheres é o da dupla anunciação: do nascimento de Jesus a Maria (cf. 1,26-38) e de João a Zacarias (cf. Lc 1,5-25), dentro do chamado ‘Evangelho da Infância’, episódio exclusivo da narrativa de Lucas.

Após a retirada do anjo de perto dela (cf. Lc 1,38), tendo ficado embaraçada com o anúncio (cf. Lc 1,29), Maria tomou a firme decisão de ir visitar sua parenta, certamente com o propósito de conferir a veracidade do anúncio feito pelo anjo: “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice, e este é o sexto mês para aquela que a chamavam de estéril” (cf. Lc 1,36). Realmente, a gravidez de uma mulher estéril e anciã seria tão surpreendente quanto a de uma jovem sem relação com homem. Por isso, Maria não pensou duas vezes e “partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia” (v. 39). Muito tem se discutido a respeito da finalidade dessa partida tão apressada. As interpretações mais populares e devocionais atribuem essa partida à vontade de Maria de servir, de ajudar à sua parenta. Porém, em momento algum o texto afirma isso, nem mesmo dá indícios.

O anjo afirmou a Maria que Isabel, sua parenta, já estava no sexto mês de gravidez, e logo que o anjo a deixou, imediatamente, Maria partiu com pressa para a casa de Isabel. Ora, diz o texto que Maria permaneceu três meses na casa da parenta e retornou para casa. Logo, Maria esperou até o nono mês da gravidez de Isabel exatamente para comprovar a informação dada pelo anjo. Tendo retornado após três meses, fica claro que seu propósito não era o serviço, uma vez que é exatamente após o parto que a mulher mais necessita de cuidados e ajuda. E, Maria voltou para casa antes do parto. Se o objetivo da viagem fosse o serviço à parenta, ela teria permanecido com a mesma após o parto.

Portanto, podemos concluir, sem dificuldade, que Maria pôs-se a caminho para a casa de Isabel com o intuito de comprovar a veracidade do anúncio da parte do anjo. Como uma mulher atenta e perspicaz, sensível aos sinais dos tempos, ela fez bem em conferir esse fato. Isso apenas comprova que era uma mulher prudente, de fé sólida. Além disso, o texto revela, de modo antecipado, muitos aspectos da teologia tratada por Lucas ao longo de toda a sua obra (Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos). É típico de Lucas, o movimento. O constante partir de um lugar para outro é um traço característico do Evangelho de Lucas, principalmente da parte de Jesus com os discípulos. Essa partida imediata de Maria faz dela um modelo de discípula e, ao mesmo tempo, inaugura o primeiro movimento de Jesus: ainda no ventre, Ele já estava inquieto e pronto a romper qualquer situação de estabilidade e tranquilidade, mesmo enfrentando adversidades e perigos, como Maria enfrentou ao partir sozinha para uma região montanhosa e de difícil acesso.

O fato de Maria não ter ido à casa de Isabel para servi-la não diminui o seu papel e o seu valor. Antes de tudo, merece atenção e reverência a sua coragem e determinação de partir sozinha e apressada para uma região distante, percorrendo caminhos difíceis e perigosos. Para uma mulher, isso era praticamente inadmissível, e ela, com muita audácia o fez, rompendo muitas barreiras, antecipando o papel da Igreja, da qual ela é modelo: romper barreiras, colocar-se em estado constante de saída, independente do perigo a ser enfrentado. Um dos fatos narrados pelo texto que atestam a coragem de Maria, além de empreender uma viagem perigosa sozinha, é a sua atitude ao chegar ao destino: “Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel” (v. 40). Muito mais que cumprimentar, o verbo saudar é mais compatível com a língua original e o contexto. A expressão hebraica para a saudação é desejar a paz. Ao enviar os discípulos em missão, Jesus ordenou que eles desejassem a paz em cada casa que entrassem (cf. Lc 10,5). Aqui, mais uma vez, Maria antecipa a atitude de cada discípulo e discípula: ser portador (a) da paz! Como mulher inovadora e corajosa, ela ignora a tradição patriarcal e saúda a mulher em lugar do homem (v. 40). Assim, ela provoca uma verdadeira revolução e inversão de valores nas relações sociais, como aprofundará no seu hino, o Magnificat. Na sociedade do seu tempo, o primeiro a receber a saudação era o dono da casa. Saudando primeiro a mulher, ela afirma que um tempo novo está surgindo, com novas relações e uma nova ordem.

A saudação de Maria irradia paz no ambiente, a ponto de fazer até mesmo a criança, ainda no ventre, agitar-se (v. 41a). Isso porque Isabel fica “cheia do Espírito Santo” (v. 41b). Trata-se do mesmo Espírito prometido pelo anjo a Maria no momento do anúncio: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (cf. Lc 1,35a). Como força vital, o Espírito Santo é luz irradiante e interpelante, que pode ser sentido quando transmitido por pessoas cheias dele, como Maria. A atitude de Isabel não poderia ser outra, senão exclamar, gritando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! ” (v. 42). É a palavra profética que nela se atualiza. Sabendo que Maria carregava dentro de si o Messias, isso fazia dela a mais ‘bendita’ entre todas as mulheres. Assim, Isabel torna-se a primeira a proclamar ‘bem-aventuranças’ no Evangelho. Ora, gerar filhos na mentalidade judaica, era sinal de bem-aventurança e bênção; uma confirmação de que se tinha Deus a seu favor. Logo, gerar o Messias seria prova de uma dignidade inigualável.

Tendo composto seu Evangelho com muita atenção para a escritura hebraica, o Antigo Testamento, Lucas procura atualizá-lo no ‘evento Cristo’. Assim, na continuação da exclamação de Isabel, o evangelista desenha Maria como a nova ‘Arca da Aliança’. Como sabemos, na arca da aliança eram guardadas as tábuas da lei, sinal máximo da presença de Deus no meio do seu povo. Com a exclamação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? ” (v. 43), Lucas relembra e atualiza as palavras de Davi quando estava para receber a Arca em sua casa: “Como virá a Arca de Iahweh para minha casa?” (2 Sm 6,9). Portanto, Lucas percebe em Maria a arca da nova aliança, não mais baseada na lei, e sim no amor e na acolhida. Davi exclamou com medo (cf. 2 Sm 6,10), enquanto Isabel exclamou de alegria.

E, mais uma vez, Maria é reconhecida como bem-aventurada: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45). Além de exaltar as qualidades de Maria, as palavras de Isabel são também uma repreensão ao seu esposo Zacarias, o qual, ao contrário de Maria, não acreditou no anúncio do anjo (cf. Lc 1,20), por isso ficou mudo até que o menino nascesse. Isabel combate a incredulidade do marido, por sinal um sacerdote, e reforça a sua fé renovada pela presença de Maria, como ela confessou: “Será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45b).

Provavelmente tímida com tantos elogios da parte da sua parenta, Maria a interrompe e, exultando de alegria, expressa seu louvor a Deus com o hino conhecido como Magnificat (vv. 46-54). É o primeiro dos hinos que Lucas apresenta em seu Evangelho. Trata-se de uma composição que sintetiza todo o Antigo Testamento. Lucas faz uma construção nova com pedras antigas, pois o texto é um verdadeiro mosaico de citações do Antigo Testamento. A estrutura geral é tomada do cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10), o que se explica pela analogia das duas situações. Se Isabel estava maravilhada por contemplar grandes coisas (vv. 42-45), Maria lhe ajuda a compreender melhor tal situação, convidando-lhe a olhar para a história e perceber que, na verdade, esse Deus de Israel nunca esqueceu o seu povo, sempre fez grandes coisas em seu favor e, portanto, é a Ele que o louvor deve ser dirigido. Tudo o que está acontecendo é dom de Deus.

Maria personifica todo o Israel e resume os grandes feitos de Deus na história, destacando, sobretudo, a sua predileção pelos pobres, humildes e humilhados. Quando reconhece que “o Todo-Poderoso fez e faz grandes coisas” (v. 49), ao mesmo tempo se afirma que não há outros poderosos, exatamente porque devem ser derrubados de seus falsos tronos (v. 52). É o início do cumprimento das antigas promessas, agora sob a responsabilidade de Jesus e a comunidade dos discípulos, da qual Maria é modelo. A versão das bem-aventuranças e maldições é também aqui antecipada: “Encheu de bens os famintos” (v. 53a) antecipa as bem-aventuranças dirigidas aos pobres (cf. Lc 6,20-21); “Despediu os ricos de mãos vazias” (v. 53b) antecipa as maldições dirigidas aos ricos (cf. Lc 6,24-25). É, sem dúvidas, a síntese da oração de Israel que deverá ser continuada pela comunidade dos discípulos, a Igreja.

A conclusão do texto reafirma a imagem de Maria como nova arca da aliança: “Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa” (v. 56). Uma expressão muito parecida aparece em 2Sm 6,11: “A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom e a toda a sua família”. A presença de Maria na casa de Isabel foi, com certeza, a confirmação da bênção de Deus sobre ela, seu esposo Zacarias e o filho esperado, João Batista. Na arca da nova aliança não há tábuas da lei, não há norma nem preceito, há apenas Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com a humanidade.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, agosto 13, 2016

REFLEXÃO PARA O XX DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 12,49-53 (ANO C)

O Evangelho deste XX Domingo do Tempo Comum – Lucas 12,49-53 – nos apresenta algumas das mais difíceis e duras palavras de Jesus. São palavras que refletem a tensão existente na comunidade dos discípulos, e que não deixam de causar tensão e perplexidade também nos nossos dias. Não podemos esquecer o contexto do caminho do mestre com seus seguidores para Jerusalém. À medida que caminhavam, as exigências para o seu seguimento iam ficando cada mais claras e radicais. Por isso, decisões importantes deveriam ser tomadas, e os discípulos de Jesus poderiam dizer sim ou não, menos optar pela neutralidade.

O Reino não podia mais esperar. Era necessário e urgente que os discípulos fizessem uma opção radical. Por isso, Jesus usa uma linguagem forte e interpelante, carregada de simbolismos e até de paradoxos. Partindo da imagem do fogo, Ele praticamente obriga a comunidade a fazer a sua escolha e torna-la clara, sem meios termos.

A primeira frase já é bastante assustadora: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra” (v. 49a). Aqui, Ele usa uma palavra muito frequente em toda a Bíblia: fogo. Essa palavra aparece 378 vezes no Antigo Testamento e 71 vezes no Novo. É empregada com diversos significados, de modo que fica difícil, à primeira vista, precisar o sentido aplicado por Jesus aqui. Lucas já havia citado o fogo em outras duas ocasiões anteriores: quando João Batista anunciou que Jesus batizaria com o Espírito Santo e o fogo (cf. Lc 3,16ss), e quando os discípulos Tiago e João quiseram destruir um povoado dos samaritanos com o fogo (cf. Lc 9,53).

Essa é, portanto, a terceira vez que Lucas usa essa imagem. Certamente, o sentido aqui empregado não é o mesmo das duas ocasiões anteriores. Diferente do sentido empregado por João Batista, porque aqui Ele não está se apresentando como alguém que vai batizar, mas que vai receber um batismo (v. 50). Diferente também do sentido literal empregado por João e Tiago, porque o próprio Jesus os repreendeu, opondo-se radicalmente a qualquer forma de violência (cf. Lc 9,53). Aqui, não se trata de um fogo de aniquilamento, nem de purificação. É um sentido completamente novo e diferente em relação às formas mais frequentes do uso dessa imagem em toda a Bíblia.

Na verdade, a imagem do fogo aqui, apenas antecipa o que será dito nos versículos seguintes (vv. 52 e 53). Ele até lamenta que esse fogo ainda não esteja aceso: “E como gostaria que esse fogo já estivesse aceso” (v. 49). Ele veio ao mundo para revelar o rosto misericordioso do Pai e construir o seu Reino. Como seria bom se o povo tivesse escutado o apelo dos profetas, antecipando-se assim, às exigências do Reino! Ele sentiu que o fogo ainda não estava acesso porque as pessoas ainda não tinham optado radicalmente pelo Reino e, portanto, as coisas ainda estavam tranquilas, o mundo ainda carecia de transformação.

A imagem do fogo aqui, significa, portanto, as divisões e contradições causadas pelo advento do Reino de Deus. Jesus, sendo acolhido por uns e rejeitado por outros, será sinal de contradição e divisão, como afirmara o velho Simeão em sua profecia sobre Jesus (cf. Lc 2,33-34). Tirará o mundo da aparente tranquilidade, já que o empenho dos que optarem por ele, será elemento de desestabilização das estruturas. Todos os sistemas alicerçados na injustiça, na opressão e na ganância, sejam eles religiosos ou políticos, serão desmascarados pelos que optarem pelo Reino. Enfim, será um verdadeiro incêndio na terra. Jesus desejou que esse fogo ‘já estivesse aceso’ porque percebeu as injustiças gritantes do seu tempo.

Jesus reconhece que, à medida que vai tornando clara a sua mensagem, vai despertando a ira dos poderosos. Por isso, tinha plena consciência de que seus dias estavam contados. A incompatibilidade entre os valores do Reino e as estruturas do seu tempo era evidente. Quanto a isso, Ele não tinha medo nem escondia, tanto que deixou muito claro: “Devo receber um batismo e como estou ansioso até que isso se cumpra!” (v. 50). A tradução mais correta para esse versículo seria: “Tenho um batismo para ser batizado, e como me angustio até que esteja consumado! ”. O batismo aqui não significa o sacramento cristão nem o rito de purificação judaico, mas a sua morte. É interessante resgatar o sentido literal de batismo: em grego βαπτισμος (baptismos), significa uma imersão na qual se desaparece, afogar-se; mergulhar em uma água que arrasta. É claro que Ele se refere à sua própria morte que se aproximava cada vez mais, à medida que Ele ia anunciando o Reino. E isso o deixava angustiado, não ansioso como diz a tradução do texto litúrgico. A sua angústia se deve ao fato de que o tempo estava passando e sua mensagem não era absorvida, não era bem compreendida pelos seus seguidores. A demora dos discípulos em assumir uma posição radical e urgente o deixava angustiado. Ele temia morrer sem ser compreendido pelos seus. Era esse o motivo da angústia.

A sequência do texto parece ser ainda mais desconcertante. Se recordamos como Lucas inicia e como termina o seu evangelho, podemos até acusá-lo de contraditório, considerando o texto de hoje. Logo no início, o coro angelical anuncia uma paz universal como fruto do nascimento de Jesus: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens que ele ama!” (cf. Lc 2,14). Na conclusão do Evangelho, o Ressuscitado oferece a sua paz como primeiro dom e fruto da ressurreição, encorajando a comunidade amedrontada pelos últimos acontecimentos: “A paz esteja convosco!” (cf. Lc 24,37). Além dessas, são muitas as outras referências à paz no evangelho de Lucas. Portanto, é impossível não nos surpreendermos com essa passagem.

Com certeza, uma das coisas que seus discípulos menos esperavam ouvir de sua própria boca era que Ele não veio trazer a paz, e sim a divisão! (v. 51). O mundo no seu tempo vivia uma falsa paz. Era o tempo da famosa “pax romana”, política imperial de Roma para a contenção de conflitos. Trata-se de uma paz completamente falsa. Em nome da ordem social, eram proibidas todas as formas de manifestação e protesto. Todos eram obrigados a aceitar as determinações do império em nome da ordem e dos bons costumes. Havia um verdadeiro controle interno, graças ao autoritarismo. Devia-se aceitar todas as imposições do império, sem nenhuma reação. Era a isso que chamavam paz. E claro, se paz era isso, Jesus dizia não à paz! A essa falsa paz, Ele se opôs radicalmente.

Ora, Jesus veio para instaurar o Reino de Deus em um mundo inimigo desse Reino. Mantendo as coisas como estavam, o Reino não poderia ser instaurado. Por isso, Ele veio exatamente para desagregar, causar divisão (v. 51). Manter aquela ordem seria opor-se ao Reino. A proposta do Reino exige uma nova sociedade, um novo jeito de conceber as coisas, novas relações. Por isso Ele encontrou resistências por que, de fato, não era e nem é fácil. Deve-se passar para uma nova lógica, uma nova mentalidade. Sair do comodismo, de toda ideia falsa de bem-estar e tranquilidade. Impossível não desagregar quando se propõe isso.

Jesus não queria enganar ninguém, por isso falou claro: sua proposta de vida causaria confusão logo nas famílias (vv. 52-53). Quem aceitasse participar da construção do Reino encontraria oposição até mesmo na própria casa. Isso Ele ilustra com a imagem do rompimento das relações familiares: “pai contra filho, filho contra o pai, mãe contra filha e filha contra mãe” (v. 53). Aqui Ele usa o profeta Miquéias como pano de fundo: “Porque o filho insulta o pai, a filha levanta-se contra sua mãe, a nora contra a sua sogra, os inimigos do homem são as pessoas da sua casa” (Mq 7,6). Essa situação de conflito geral, explica bem o fogo que Ele trouxe.

Ainda sobre essa imagem da família dividida, podemos perceber uma descrição profética das novas relações entre a comunidade cristã e as antigas instituições: filho contra pai, pai contra filho; mãe contra filha, filha contra mãe; porém ele não fala de irmãos contra irmãos. A sua comunidade é uma ‘casa de irmãos’ e entre esses não pode haver divisão. Aqui podem estar representadas as relações tensas entre a igreja nascente e a sinagoga. A oposição entre pai e filho, simbolicamente, é entre o velho e o novo. Dois mundos em conflito: o cristianismo e o judaísmo. O cristianismo é o novo, o filho que se opõe ao fechamento do pai, o velho. É apenas uma relação, mas muito significativa. Os cristãos devem entrar em conflito com as instituições antigas e fechadas, mas jamais entre eles mesmos, pois são todos irmãos.

Quem optar pelo Reino, será sinal de contradição diante de um sistema injusto e desigual. Por isso, as divisões ocorrem em todos os âmbitos, até mesmo na família. Seguir Jesus é absorver novos valores e viver a partir deles. É estar disposto à incompreensão. É ter um coração ardente de desejo por mudança!


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues 

sábado, agosto 06, 2016

REFLEXÃO PARA O XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 12,32-48 (ANO C)

O texto evangélico que a liturgia deste XIX Domingo nos oferece, continua a nos situar no caminho de Jesus para Jerusalém e, portanto, nos impele a refletir na condição de discípulos e discípulas, uma vez que esse caminho é uma profunda catequese para o ontem e o hoje da Igreja. Trata-se do programa formativo de Jesus para o seu discipulado. Diversos temas são tratados nesse contexto, ambos conexos entre si.

O texto de hoje, Lc 12,32-48, apresenta o tema da vigilância e da responsabilidade, como exigências para a comunidade herdeira do Reino, a qual é chamada ao encorajamento diante das dificuldades enfrentadas ao longo do “caminho”. Podemos dizer que esse caminho, aqui, é a própria história no seu desenrolar-se. Ou seja, o que Jesus ensinou aos seus discípulos, continua válido para os cristãos e cristãs de todos os tempos e lugares.

Para uma melhor compreensão, uma vez que é bastante longo, podemos dividir o texto em duas partes: uma introdutiva (vv. 32-34), e uma segunda, composta de três pequenas parábolas (vv. 35-48) que visam apenas ilustrar com imagens o tema apresentado na introdução. Trata-se de um texto longo, mas bastante compreensível, desde que esteja claro o seu contexto, que é o caminho formativo da comunidade.

O primeiro versículo é a grande chave de leitura para todo o texto: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o reino” (v. 32). O pedido de encorajamento (v. 32a) é sinal de que a proposta de Jesus não é de fácil assimilação. As exigências e responsabilidades para segui-lo são muitas, por isso havia tendência à desistência entre os discípulos. À medida que caminhava com seus discípulos e discípulas, pois havia também mulheres no grupo (cf. Lc 8,1-3), aumentavam as hostilidades ao projeto revolucionário de Jesus, principalmente da parte da hierarquia religiosa judaica, responsável pelo confronto final em Jerusalém . Aumentavam também os conflitos internos no grupo, tanto por rivalidade entre os discípulos, quanto por medo e desilusão com as exigências que só aumentavam. Começavam a perceber que Jesus não apresentava nenhum traço do messias ideal, esperado há séculos. Ao invés de messias triunfante, como esperavam os judeus, Jesus parecia um louco fracassado, fadado a terminar sozinho. Por isso, Ele insistia pedindo coragem e perseverança.

Precisavam de muita coragem e perseverança, exatamente porque se tratava de um “pequenino rebanho” (v. 32b), praticamente invisível e sem importância diante das grandes estruturas religiosa e política da época: o judaísmo oficial e o império romano, respectivamente. Paradoxalmente, o pequeno rebanho tem um grande valor, pois “foi do agrado do Pai dar-lhes o reino” (v. 32b). Realmente, trata-se de algo maravilhoso e até surpreendente, mas inconcebível para as pretensões triunfalistas vigentes naquele tempo. O reino proposto por Jesus, confiado pelo Pai à pequena comunidade, não contém os elementos esperados, tais como poder, riqueza, vaidade, concorrência, grandeza e tantos outros. A proposta de Jesus contempla uma verdadeira inversão de valores e, certamente, a comunidade dos discípulos não estava ainda pronta para absolver essa virada radical. Por isso, a insistência de Jesus ao pedir coragem e perseverança.

Na sequência do texto (v. 33), são apresentadas algumas das exigências para continuar ou não como membros do “pequeno rebanho”: “vendei vossos bens e dai esmola” (v. 33a). Com certeza, no grupo dos discípulos ainda havia alguns fazendo média com Jesus, aderindo pela metade, ou seja, aparentemente despojados, mas com algumas reservas escondidas, como Ananias e Safira nos Atos dos Apóstolos (cf. At 5,1-11). Percebendo isso, Jesus pede um desprendimento total. Parece que a parábola do rico insensato, refletida no domingo passado (cf. Lc 12,13-21) , ainda não fora suficiente para esclarecer aos discípulos sobre a incompatibilidade entre o apego aos bens materiais e os valores do Reino. Não basta vender os bens, é necessário aplicar bem o valor destes para que realmente, um tesouro seja adquirido. Mas, como? Partilhando, dando aos pobres. Alguns vendiam e ficavam para si com parte dos valores, como já citamos o caso de Ananias e Safira.

A continuação do versículo mostra o que deve ser o alvo do discípulo: possuir “um tesouro no céu” (v. 33b), ou seja, buscar coisas que não se acabam, mas que permanecem para toda a vida. Os discípulos ainda não tinham assimilado o ensinamento do homem rico da parábola (cf. 12,13-21), ou seja, não tinham compreendido a necessidade de que é necessário perder aos olhos do mundo, para ganhar aos olhos de Deus. Jesus pede para os discípulos buscarem o que é eterno, o que realmente tem valor no Reino que o Pai lhes confiou. E esse é um tema muito caro para Lucas (cf. Lc 11,41; 16,9; 19,8).

A conclusão da primeira parte é feita com um provérbio: “onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (v. 34). Vale a pena recordar a importância do uso da imagem do “tesouro” na Bíblia. O primeiro sentido é a reunião de coisas preciosas acumuladas para serem conservadas como sinal de segurança, por isso, deveria ficar escondido, pois se revelado, logo seria alvo de cobiça e estaria sujeito a assaltos. Como significa algo muito precioso, o termo passou a ser usado como imagem de realidades espirituais, em contraposição a bens materiais, principalmente na literatura sapiencial (cf. Pr 2,4; Sb 7,14; Eclo 1,25). Assim, independentemente do valor, cada judeu tinha um tesouro, porque tinha algo central em sua vida. Jesus se apropria desse uso para ilustrar a sua descrição do Reino de Deus em diversas ocasiões, como no texto de hoje. Como o coração para a mentalidade hebraica significava o pensamento e a consciência do homem, portanto, o centro da vida, Jesus quer dizer que é para o tesouro que a vida do homem se volta. Por isso, exige que seus discípulos acumulem tesouro apenas no céu, pois é para lá que devem estar direcionadas as suas vidas. Daí o sentido do provérbio por Ele usado.

Continuando sua catequese, Jesus apresenta três pequenas parábolas com o intuito de reforçar o ensinamento proposto. Se durante a sua presença física, Ele já via sinais de desânimo entre os discípulos, muito mais seria quando já não estivesse mais fisicamente entre eles. Por isso, as parábolas insistem no tema da vigilância e da responsabilidade, sendo, ao mesmo tempo uma chamada de atenção nos discípulos e uma crítica à hierarquia religiosa judaica.

A primeira parábola apresenta a imagem de um senhor que viaja para uma festa e deixa tudo aos cuidados dos seus servos (vv. 35-38). É introduzida com um imperativo: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas” (v. 35). Parece uma imagem sem sentido para os dias atuais, mas muito significativa no seu contexto. É a imagem de que está em atitude de serviço. A vestimenta básica da época era a túnica; essa não facilitava o serviço, pois atrapalhava o movimento.

A expressão “os rins cingidos”, significa a túnica levantada até a cintura, posição dos rins, presa ao cinto. Com isso, facilitava-se o movimento. Era assim que ficavam enquanto trabalhavam ou viajavam. Jesus pede uma postura vigilante, mas ao mesmo tempo serviçal; seus discípulos devem vigiar sim, eis o sentido das “lâmpadas acesas”; mas, enquanto vigiam colocam-se em prontidão para o serviço. Foi  “cingido” que Jesus lavou os pés dos discípulos na última ceia (cf. Jo 13,4-5). Também os hebreus celebraram a primeira páscoa assim: “E comereis assim: com a cintura cingida, as sandálias nos pés” (cf. Ex 12,11a). Há uma clara intenção da parte de Lucas de incentivar a comunidade a manter-se constantemente em clima pascal. Isso se confirma pela continuação da parábola, na qual se diz que quando o senhor voltar da festa fará os servos sentarem-se à mesa, e os servirá (v. 37). Uma atitude surpreendente para quem é senhor. Somente Jesus, sendo senhor, fez-se servo (cf. Lc 22,27).

A segunda parábola (vv. 39 e 40) apenas reforça a necessidade da vigilância, através da imagem do ladrão que não avisa a hora do assalto, mas procura exatamente surpreender o dono da casa. É necessário que a comunidade não seja surpreendida.

A terceira parábola (vv. 42-48) é uma resposta implícita à pergunta de Pedro: “Senhor, tu contas essa parábola para nós ou para todos? ” (v. 41). Está claro que os discípulos não eram os únicos ouvintes de Jesus no momento. Essa pergunta reflete o medo da responsabilidade que afligia os discípulos. De fato, para um rebanho tão pequeno, era muita responsabilidade herdar o reino e assumir suas consequências. Jesus não responde diretamente, mas com a parábola (vv. 42-48). Nessa Ele faz uma crítica explícita à hierarquia religiosa judaica, acusada de relaxamento e mau exemplo desde os tempos do profeta Ezequiel, através da imagem dos “maus pastores” (cf. Ez 34,1-10), e ao mesmo tempo alerta a comunidade dos discípulos a perseverar como guardiã do Reino. O uso do termo administrador no singular -  oivkono,moj (oikónomos) em grego, exclusivo de Lucas – contrapõe-se aos homens da primeira parábola, no plural. Portanto, provocado pela pergunta de Pedro, e percebendo sua insegurança, Jesus direciona o ensinamento para os discípulos. É deles que serão feitas exigências maiores, exatamente porque a eles foi confiado o Reino. Claro que essas exigências se estendem aos discípulos e discípulas de todos os tempos.

Percebemos, então, com o longo texto evangélico de hoje, o convite de Jesus à comunidade-Igreja para abraçar com humildade (pequeno rebanho, v. 32) a responsabilidade de herdeira do Reino, tendo a missão de fazer esse Reino crescer. Toda a comunidade é convidada a empenhar-se nesse projeto, pois ela toda é herdeira. Porém, há uma exigência maior para aqueles que assumem responsabilidades maiores. Para isso, é necessária a vigilância constante. E para Jesus, a verdadeira vigilância consiste no serviço ao próximo.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues



quinta-feira, julho 28, 2016

REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 12,13-21 (ANO C)

O Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum continua a nos situar no contexto da grande viagem de Jesus para Jerusalém. Como já sabemos, essa viagem, mais que um percurso geográfico, constitui-se como um itinerário teológico-catequético, tendo em vista a formação dos discípulos.  O texto de hoje (Lucas 12,13-21) trata especificamente da temática relacionada ao uso, importância e administração dos bens terrenos. Trata-se de um texto exclusivo de Lucas e, portanto, muito significativo, composto de um diálogo entre Jesus e um personagem anônimo, seguido de uma catequese para os discípulos de ontem e hoje, ilustrada por uma parábola.

Durante a caminhada, certamente em uma das muitas paradas feitas, alguém do meio do povo lhe faz um pedido: "Mestre, dize a meu irmão que reparta a herança comigo" (v. 13). Era comum, no tempo de Jesus, os rabinos serem chamados para resolverem questões jurídicas, uma vez que os mesmos eram grandes conhecedores da lei e, portanto, estavam aptos a emitir julgamentos sobre os mais diversos aspectos da vida cotidiana, principalmente nos pequenos povoados. Quando a questão envolvia herança, ao final do caso, após promoverem o acordo entre as partes envolvidas, o rabino acabava recebendo uma gratificação pelo trabalho de conciliação.

É necessário recordar, aqui, o que a lei determinava a respeito da divisão da herança em Israel: o filho primogênito recebia dois terços dos bens, ou seja, o dobro do irmão menor (cf. Dt 21,17). Como os bens eram administrados pelo primogênito, certamente foi um irmão menor ou mais novo que reivindicou a intervenção de Jesus. Está claro, pois, que a lei não estava sendo respeitada. Certamente o primogênito daquela anônima família não tinha repartido corretamente, gerando o descontentamento do mais novo e levando-o a pedir ajuda externa a um bom conhecedor da lei, Jesus.

A resposta de Jesus ao homem que lhe pediu ajuda mostra um tom de completa reprovação: "Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?" (v. 14). O uso do termo 'homem' no vocativo –   a;nqrwpe  (anthrope) “Ó homem” – significa uma chamada de atenção, quer dizer que Jesus achou aquele pedido absurdo. E, ao questionar sobre “quem o encarregou de julgar ou dividir os bens” Ele quer dizer que não é igual aos demais rabinos de seu tempo.

Jesus se recusa a resolver essa questão. A princípio, podemos até estranhar sua atitude, uma vez que, segundo a lei de Israel, alguém estava sendo injustiçado naquele caso. E, como promotor da justiça e da reconciliação, seria lógico que Jesus intervisse e ajudasse na resolução do problema, deixando cada um com o percentual justo da herança, conforme prescrevia a lei. Com sua aparente omissão, Jesus estaria ajudando a prolongar a discórdia entre os irmãos ou, até mesmo, a agravá-la. Mas, não é isso. Ele não está lavando as mãos.

Antes de tudo, Ele conhecia as intenções daquele irmão. Sabia que sua reclamação não era motivada apenas por sentir-se injustiçado, mas pela ganância, ou seja, por ter depositado toda a confiança naquela herança. E, ajudando a resolver o problema, Jesus estaria ao mesmo tempo alimentando a ganância e desejo de acúmulo daquele homem. E, o problema era muito mais profundo.

Resolvendo um caso a mais, Jesus não mudaria uma mentalidade tão impregnada naquela cultura. Assim, Ele vai à raiz do problema. Ora, aquela herança um dia passaria por nova divisão, quando aquele homem morresse e a deixasse para seus filhos. Poderia ser causa de discórdia novamente. Ele quer mostrar que no seu Reino as heranças não devem ser divididas. Na verdade, elas não devem existir! Isso, Ele deixará claro com a parábola.

A parábola vai sendo preparada aos poucos. Do caso específico do homem que lhe pede intervenção, Ele aproveita para chamar, agora, a atenção dos discípulos: "E disse-lhes: Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida do homem não consiste na abundância de bens” (v. 15). Com a expressão "disse a eles" (tradução literal), está claro que não é mais ao síngulo personagem anônimo, mas ao grupo dos discípulos que Ele está direcionando o ensinamento. É uma dura advertência. Certamente, Ele sentia muita resistência nos seus seguidores no processo de assimilação de seus ensinamentos. Podemos dizer que esse versículo é uma chave de leitura para todo o Evangelho de Lucas. 

Com essa afirmação, Jesus vai de encontro à mentalidade hebraica que via no acúmulo de bens, ou seja, na riqueza, um sinal da bênção de Deus. Jesus contraria esse princípio. O acúmulo de bens é, na verdade, a prova maior da falta de sentido para a vida e, inclusive, causa de discórdias. Portanto, é urgente para seus seguidores e seguidoras libertarem-se dos bens que aprisionam e escravizam. Provavelmente, os discípulos ainda não tinham aprendido a rezar como Ele e estavam pedindo, ainda, mais que o pão necessário para cada dia (cf. Lc 11,2-4).

Continuando sua catequese para os discípulos, Ele conta a parábola que conhecemos como do 'rico insensato'. A introdução "Contou para eles uma parábola" (v. 16a) evidencia que o personagem desconhecido saiu definitivamente de cena. A conversa agora é entre Jesus e os discípulos. A parábola apresenta a figura de um rico, grande latifundiário, o qual fora surpreendido com uma grande colheita (v. 16b). Esse homem apresenta os traços do "anti-discípulo": rico, apegado aos bens, ganancioso, egocêntrico, auto-suficiente e insensato. Tudo o que o discípulo ou discípula de Jesus não podem ser, esse homem era. Alguém voltado somente para si e para seus bens.

Surpreso com uma colheita além do normal, pois seus celeiros não eram suficientes para armazenar tudo, em momento algum ele pensou em repartir e distribuir com os mais necessitados. Sua preocupação era apenas acumular. Por isso, decide consigo mesmo, eis a prova do fechamento egoístico, derrubar os celeiros e construir outros maiores para armazenar tudo (v. 18). É claro que uma colheita tão grande envolvia muitas pessoas. Mas, aquele homem não considerava ninguém além de si próprio. Todas as suas falas são em primeira pessoa. Não permitia que o outro participasse da sua vida. Colhia muito trigo, mas deixava de colher os valores do Reino! Em nenhum momento aquele homem abriu espaço para o outro, para o coletivo. Pensava somente em si e no seu bem-estar (v. 20). 

A intervenção de Deus na parábola (v. 20) não significa um ato vingativo. Quer dizer que é Ele é a fonte da vida. É o sinal de contraposição à falsa segurança depositada, na riqueza, pelo homem (v. 19). Enquanto ele julgava ter vida longa pelo que havia acumulado, Deus entra na história para mostrar o que, de fato, tem valor. A pergunta final: "E para quem ficará o que tu acumulaste?" (v. 20b) é apenas uma ponte com o que gerou toda a discussão e a parábola: o pedido de intervenção daquele homem anônimo na divisão da herança. Além de não garantir vida verdadeira, os bens acumulados ainda são causa de discórdia. Juntar tesouros para si mesmo é, então, empobrecer-se de Deus e para Deus (v. 21).

Jesus ensina, assim, a partir do pedido que o homem desconhecido lhe fez, os seus discípulos a conscientizarem-se da incompatibilidade entre o seu seguimento e as riquezas desse mundo. Parte de um princípio sagrado para o povo judeu, a herança. Com isso, Ele rompe completamente com a tradição do seu povo. Se alguém deixou herança, foi porque acumulou. Se acumulou, foi porque não partilhou. E, se a partilha é a palavra-chave do seu Reino, logo não deve existir discórdia por justiça na repartição de heranças, porque as heranças simplesmente não devem existir.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

domingo, julho 24, 2016

REFLEXÃO PARA O XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 11,1-13 (ANO C)



Após a acolhida de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria, o evangelista Lucas nos apresenta uma verdadeira catequese sobre a oração, ainda no contexto do longo caminho para Jerusalém. O texto evangélico que a liturgia deste XVII Domingo do Tempo Comum nos oferece é exatamente essa catequese: Lc 11,1-13.

Convém mencionar que, além de Lucas, também Mateus apresenta a oração ensinada por Jesus aos seus discípulos, transmitida pela Igreja com o título de "Pai Nosso". Há uma pequena diferença entre as duas versões, como são diferentes também os contextos em que cada um a apresenta. Porém, a essência é a mesma em ambas as versões. A de Lucas é um pouco mais breve, por isso, considerada pela maioria dos estudiosos, a que corresponde melhor às palavras de Jesus.

Inciamos a nossa reflexão com uma constatação simples, mas muito significativa: Lucas faz referência a Jesus rezando/orando sete vezes do batismo à paixão, o que corresponde exatamente à totalidade do seu ministério (cf. 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28-29; 11,1; 22,41). Obviamente, o evangelista quer mostrar que a oração foi o grande alimento de Jesus em sua vida pública. Foi pela força da oração que ele levou a cumprimento o projeto do Pai em sua vida.

Outro dado, não menos importante, é o fato de ser Lucas aquele que mais apresenta Jesus em relação de acolhida e atenção para com os pobres, as mulheres e os pecadores. É, por excelência, o Evangelho da misericórdia. Certamente, a explicação para tudo isso está no fato de Jesus rezar constantemente, e claro, a oração era determinante para o seu agir, como deve ser para cada cristão e cristã. Podemos dizer, então, que Lucas apresenta com o exemplo de Jesus, a oração conjugada às suas implicações concretas.

É comum, em Lucas, afirmar que "Jesus estava rezando num certo lugar" (v. 1a). Independente das circunstâncias, Jesus reservava sempre uma parte do seu tempo para a oração, seu colóquio com o Pai. Sabemos que o contexto em questão é o da viagem para Jerusalém. É muito interessante que "Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos" (v. 1b). Certamente, era bonito seu jeito de rezar. Pelas entrelinhas do texto, podemos afirmar que os discípulos estavam olhando-o, admirados. Tanto que não ousaram interrompê-lo, mas esperaram que terminasse. Impressionados, tiveram vontade de fazer o mesmo. Talvez, e muito provavelmente, estavam angustiados porque conviviam com Ele há tanto tempo e ainda não tinham aprendido muita coisa, nem mesmo a rezar como Ele. E, vale lembrar que o objetivo do discípulo é tornar-se parecido com o mestre, portanto, agir como ele.

Todo mestre ou rabino tinha um jeito próprio de conduzir o seu grupo, com seus ensinamentos e fórmulas, inclusive, de oração. Parece que Jesus tinha deixado seu grupo muito à vontade, nesse sentido. Seus discípulos poderiam sentir-se até inseguros por isso. Por isso, usam o exemplo de João Batista, o que mais se identificava com o movimento de Jesus, dos tantos existentes na época. A particularidade do jeito de Jesus exercer sua liderança era, exatamente, pelo exemplo. Por isso, não tinha preocupação de ensinar fórmulas para serem repetidas, como tinha outros mestres no seu tempo.

Do seu jeito pessoal de rezar, nasce a curiosidade e, da curiosidade, a necessidade nos seus discípulos. Por isso, pediram. Ao pedido dos discípulos, Jesus responde. Mas, não dá uma fórmula, como davam os outros rabinos. Pelo contrário, dá-lhes uma 'anti-fórmula', pois as primeiras palavras da verdadeira oração sugerem exatamente uma quebra de protocolos e paradigma. Aquelas expressões típicas das cerimônias e rituais litúrgicos de exaltação do nome de Deus, tipo "Altíssimo, Todo-Poderoso, Onipotente, Senhor, Santo", ensinadas pelos seus contemporâneos, são abolidas por Jesus. Seu jeito de rezar causa impacto porque ele ensina na oração a chamar a Deus de "Pai". Para nós, hoje, parece não ser algo impactante. Mas, para a sua época foi, de fato, algo revolucionário. 

Com o imperativo "Quando rezardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome" (v. 2a), Jesus quer dizer, antes de tudo, que o primeiro elemento necessário para uma oração autêntica é ter clareza do destinatário da oração. É claro que é a Deus que deve ser direcionada toda oração. E, esse Deus é, antes de tudo, Pai! Logo, Jesus não inaugura uma nova fórmula de oração, mas propõe um novo jeito de se relacionar com Deus. Dessa maneira nova de se relacionar com Deus, emerge a certeza de que Ele está próximo de nós, como se fosse um amigo e, portanto, pode ser invocado a qualquer hora e momento. Desse ponto, já adiantamos o sentido da pequena parábola do amigo inoportuno, contada por Jesus como explicação e complemento da oração (vv. 5-8). Além de Pai, esse Deus próximo é também amigo.

A "santificação do nome de Deus" (v. 2b) e o "advento de seu Reino" (v. 2c) estão intrinsecamente relacionados, a ponto de confundirem-se. Ora, o nome de Deus já é santificado, porque Ele é, essencialmente, santo. O pedido diz respeito ao reconhecimento dessa santidade. Reconhecer a santidade de Deus é saber que Ele é Pai, aceitar a condição de filhos e filhas e, portanto, é viver como irmãos e irmãs. Isso é permitir que o seu Reino seja instaurado entre nós. O Reino que já fora inaugurado por Jesus (cf. Lc 4,16-22), precisa ser difundido pelos discípulos até chegar a todos os lugares épocas. A construção do Reino é, pois, a constatação se o nome de Deus está sendo santificado ou não, ou seja, se Ele está sendo reconhecido como realmente é: Pai.

Na sequência da oração, Jesus vai recomendando o que é necessário pedir, ou seja, quais são as reais necessidades do ser humano. O pedido pelo "pão necessário para cada dia" (v. 3), além de expressar uma necessidade concreta, a alimentação, exprime, sobretudo, a condição existencial do ser humano: ele não pode ser auto-suficiente por um dia, sequer. Um elemento indispensável para que uma comunidade viva efetivamente segundo as características do Reino, é a confiança e a solidariedade. Obviamente, Jesus alude ao antigo maná (cf. Ex 16) com essa petição. Há, aqui, um verdadeiro combate à cultura do acúmulo, tema que será desenvolvido na sequência da viagem, principalmente com as parábolas do rico insensato (cf. 12,13-21) e do rico e o pobre Lázaro (cf. 16,19-31).

A menção ao perdão não poderia faltar na oração que deveria caracterizar a comunidade cristã. Por isso, Jesus recomenda que este pedido não pode faltar na oração autêntica: "Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós perdoamos também a todos os nossos devedores" (v. 4ab). O pedido de perdão a Deus era comum nas orações dos diversos movimentos religiosos daquela época e de todos os tempos. Realmente, é somente Deus quem pode perdoar pecados. Assim como o pedido do pão cotidiano, também esse visa conscientizar o ser humano de sua necessidade diante de Deus. A grande novidade apresentada por Jesus é a condição para buscar o perdão de Deus: "nós também perdoamos aos nossos devedores". Com isso, Ele ensina que o perdão de Deus deve ser mediado pelo perdão fraterno. A abertura total a Deus deve traduzir-se em uma relação nova com o próximo, tema tão caro a Lucas. Isso implica que, mais que ser perdoado, é necessário viver reconciliado. Por isso, o perdão deve ser mútuo.

A última das petições da oração verdadeira é "não nos deixes cair em tentação" (v. 4c). A palavra tentação, em grego peirasmo,j (peirasmós), quando aplicada em relação aos discípulos, significa "desistir", "abandonar". Assim, a comunidade é convidada a pedir ao Pai o dom da perseverança. Em outras palavras, é um pedido de coragem para levar adiante um projeto tão audacioso como o de Jesus. É necessário resistência para lutar pelo Reino, contentar-se apenas com o necessário para cada dia e perdoar aos devedores. Por isso, deve-se pedir constantemente para não abandonar essa proposta de vida tão revolucionária. Isso significa ainda que a nossa continuação no seguimento de Jesus não depende apenas da nossa força ou vontade, mas da graça de Deus.

Na mentalidade hebraica, o filho é aquele que é parecido com o pai. Portanto, chamar a Deus de Pai era bastante comprometedor, pois exigia muitas implicações concretas. Era muito mais cômodo chamá-lo de Altíssimo, Onipotente, Santíssimo, pois estas expressões evocam a alguém distante e inacessível, aquele não está presente no cotidiano da comunidade para relacionar-se com ela. O Deus de Jesus, que é Pai, está presente. Os discípulos deveriam, assim como Jesus, viver como filhos. Diante das exigências, a tendência à desistência era muito comum. Por isso, Jesus pede que eles peçam, constantemente, a graça de não abandonarem o seu projeto.

Como explicação para o conteúdo da oração ensinada, Jesus conta duas pequenas parábolas: a do amigo inoportuno (vv. 5-8) e a do pai (v. 11). Ambas tem a função didática de explicitar a proximidade do Deus-Pai e a necessidade da perseverança da comunidade na oração. Esse Deus é muito mais disponível que um amigo, e muito melhor que um pai terrestre. Desse modo, Ele ressalta que a qualquer momento se pode invocar esse Deus-Pai e, pedindo o que é justo, jamais Ele deixará de atender. 

Mas, qual o critério para fazer o pedido justo? É exatamente pedindo, antes de tudo, o elemento imprescindível da oração, e este só pode ser dado pelo Pai: O Espírito Santo! (v.13). A comunidade que se deixa guiar pelo Espírito Santo, saberá discernir para pedir ao Pai o que é, de fato, essencial. E, pedindo o essencial, é claro que o Pai concederá. 



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues