sábado, junho 25, 2016

REFLEXÃO PARA O XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 9,51-62



Com o Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum, nós entramos no coração da narrativa lucana: a viagem de Jesus em direção a Jerusalém, a qual ocupa uma extensão de dez capítulos (9,51 – 19,28) de um total de vinte e quatro. Portanto, é uma parte muito relevante para o conjunto da obra do terceiro Evangelho.

É importante recordar que aquilo que o evangelista quer apresentar com a grande viagem de Jesus, não é a descrição de seu percurso ou itinerário propriamente, mas o sentido teológico do Caminho. Logo, não é um diário de bordo, mas uma apresentação teológica da vida de Jesus e da comunidade cristã, com seus respectivos sentidos.

Trata-se de um caminho que será construído ao longo dos capítulos a ele dedicados, os quais serão apresentados ao longo do ano na sequência dos domingos. Nos concentremos agora na etapa do caminho proposta para esse domingo. E, é exatamente o início da longa jornada proposta por Jesus.

O texto se inicia afirmando que “Estava chegando o momento de Jesus ser levado para o céu” (v. 51 a). Ele já tinha preparado seus discípulos antes (cf. Lc 9,22) e sabia muito bem o que lhe esperava na capital. Tinha consciência de que seria levado para o céu, mas também de que, antes disso, deveria ser rejeitado, sofrer, morrer e ressuscitar. Por isso, “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (v. 51b), onde tudo se consumaria. Na segunda parte do versículo falta fidelidade ao texto na sua língua original. A tradução correta seria “endureceu o rosto para ir a Jerusalém”, o que vem ressaltar a importância e a irrevocabilidade da decisão e, sobretudo, a coragem para toma-la, considerando as consequências, como bem as conhecemos: sofrimento, cruz, morte.

Com essa expressão bastante enérgica, Lucas recorda três passagens do Antigo Testamento: (a) o terceiro cântico do servo de Isaías 50,7: “O Senhor Iahweh virá em meu socorro, eis porque não me sinto humilhado, eis porque endureci o rosto como uma pederneira, e tenho a certeza de que não ficarei confundido”; (b) Jeremias 21,10a: “Porque endureço meu rosto contra esta cidade para sua desgraça, não para sua felicidade”. (c) Ezequiel 21,7: “Filho do homem, endurece tua face para Jerusalém, profere a tua palavra na direção do santuário e profetiza contra a terra de Israel”.

Endurecer o rosto em direção a alguém ou algo é ter a coragem de andar contra, é enfrentar. Logo, com essa decisão, Lucas quer dizer que Jesus está completamente convencido que não dá mais para esperar. É necessário e urgente partir para Jerusalém e lá denunciar toda a corrupção e hipocrisia política e, principalmente, religiosa. De fato, suas atitudes ao aproximar-se e chegar na cidade apontam para isso: a lamentação (cf. Lc 19,41-44) e a chamada purificação do templo (cf. Lc 19,45-46).

Da decisão de ir, passamos para os primeiros passos da caminhada nos versículos 52 e 53. Jesus envia mensageiros a sua frente, assim como anteriormente tinha enviado discípulos em missão (cf. Lc 9,1-6), mas esses não obtêm êxito ao entrar em um povoado de samaritanos. Assim, o sentido do caminho vai tornando-se mais claro: nele Jesus envia, ensina, repreende, enfim, catequisa. É um caminho de formação, de vivência e testemunho. É fazer a experiência de e com Jesus. Tanto que nos Atos dos Apóstolos, livro também escrito por Lucas, a própria comunidade cristã é chamada algumas vezes de “o Caminho” (cf. At 9,2; 19,9.23; 24,14.22). A Igreja é “o Caminho” para Lucas, porque deve estar sempre a caminho, como espaço de encontro e experiência autêntica com o Senhor e, ao mesmo tempo, em estado permanente de missão, ou seja, em saída, como tem pedido o Papa Francisco. E, é Lucas, por excelência, o Evangelho da missão. Não podemos também deixar de recordar a auto apresentação que o próprio Jesus faz como Caminho em João 10,6: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. 

Jesus encontra adversidade logo no início do caminho, ao ser rejeitado pelos samaritanos (v. 53). Como o caminho é missão, com essa rejeição Lucas recorda o início da missão de Jesus na Galiléia, quando Ele também lá fora rejeitado pelos seus conterrâneos (cf. Lc 4, 16-30) e, ao mesmo tempo, já antecipa a rejeição que o mesmo sofrerá em Jerusalém (cf. Lc 22 – 23). Desse modo, o evangelista mostra que Jesus sofreu rejeição em todas as etapas da sua missão. Eis porque o seu seguimento comporta tantas exigências, como veremos nos versículos conclusivos (vv. 57-62).

Devemos recordar os motivos da rejeição por parte dos samaritanos: porque Jesus caminhava para Jerusalém (v. 53). Certamente, isso aconteceu porque os discípulos que foram na frente para preparar o caminho e pedir as hospedagens não anunciaram corretamente o que Jesus iria fazer em Jerusalém, pois nem eles mesmos compreendiam. Imaginavam que Ele iria a Jerusalém para lá reinar, e não para contestar e lá ser vítima do mesmo poder ao qual os samaritanos historicamente se opunham. Os discípulos pediram hospedagem para um messias triunfante. Não tinham ainda entendido que o movimento de Jesus para Jerusalém era um movimento contra, de contestação.

A rivalidade entre samaritanos e judeus era secular. Quando a Assíria conquistou Samaria, a capital do Reino do Norte, em 722 a.C., deportou a população local e trouxe povos estrangeiros para habitar na cidade (cf. 2 Rs 17,24-28). Os novos habitantes levaram seus costumes e tradições religiosas, o que levou a Samaria a ser conhecida como terra de sincretismo, de heresias e povo impuro. É essa a origem histórica da relação conflituosa. Inclusive, quando os judeus retornaram do exílio e começaram a reconstruir o tempo e a cidade de Jerusalém, mesmo em meio às dificuldades, rejeitaram a ajuda oferecida pelos samaritanos, como atesta o livro histórico de Esdras (cf. Es 4,3).

Por essa rivalidade histórica, os samaritanos hostilizavam quem por lá passava em direção a Jerusalém. Mas Jesus não ia a Jerusalém para reforçar o poder da capital, mas para contestá-lo. Se os discípulos tivessem deixado isso claro, a receptividade teria sido diferente. Inclusive, Jesus até mostrava simpatia pelos samaritanos em solidariedade ao preconceito que eles sofriam pelos judeus, sendo tratados como inferiores. A parábola do bom samaritano será uma prova disso (cf. Lc 10,29-37).

A proposta de João e Tiago, mandar fogo para destruir os samaritanos (v. 54), é uma clara prova de que os discípulos ainda não tinham compreendido o sentido do caminho nem o sentido do seguimento de Jesus. Na verdade, não tinham clareza da identidade do Mestre. De fato, Lucas revela, mais uma vez, que a mentalidade triunfalista continuava presente nos discípulos de Jesus. Os filhos de Zebedeu revelam-se arrogantes, intolerantes, fanáticos e fundamentalistas. Não é à toa que em Marcos Jesus os chama “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), exatamente pelo caráter autoritário e ambicioso. Na verdade, eles estavam no grupo em busca de poder e privilégio (cf. Mc 10,35-40; Mt 20,20-23).

Com tal proposta os discípulos mostram exatamente o que não se deve fazer. A mensagem de Jesus não pode ser imposta. Deve ser vivida com alegria e convencer pelo testemunho. Aqueles que a recebem tem a liberdade de acolher ou não. Por isso, recebem uma repreensão severa de Jesus (v. 55). Aqui, Lucas aplica o verbo grego επιτιμαω “epitimaô”, o mesmo usado quando diz que Jesus expulsa os demônios. Isso indica que os discípulos, João e Tiago, tiveram uma ideia satânica e, portanto, reprovável para Jesus. Qualquer iniciativa de oposição ao Reino de Deus pode ser considerada satânica, como a violência e a vingança.

Os obstáculos não impedem a caminhada de Jesus e, assim, “partiram para outro povoado” (v. 56), antecipando o que será a sina da comunidade pós pascal, apresentada no livro dos Atos dos Apóstolos pelo próprio Lucas.

No prosseguimento da viagem (vv. 57-62), três personagens anônimos entram em cena, como supostos candidatos ao discipulado: dois voluntariamente (vv. 57 e 61) e outro é interpelado pelo próprio Jesus. São três pequenas cenas, cujo objetivo é mostrar quais são as exigências para um seguimento autêntico e livre. A cada uma das situações Jesus responde com pequenos provérbios bastante interpelantes. A quantidade, três, indica a totalidade, ou seja, a catequese universal presente nas situações. Significa que as exigências impostas por Jesus são válidas para todos os discípulos em qualquer momento da história.

Ao primeiro (v. 58), Jesus expõe suas condições de pobreza absoluta, deixando claro que ninguém o siga pensando em privilégios e seguranças, pois “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Tal situação deve ser também a dos seus discípulos.

Ao segundo, o qual é chamado pelo próprio Jesus (v. 59), é exigido que o mesmo abra mão de um dos direitos e deveres mais sagrados para o povo judeu, o de enterrar os genitores. Com a expressão “Deixa que os mortos enterrem seus próprios mortos”, Jesus quer dizer que a causa do Reino é incompatível com qualquer ideia de vida velha ou passado. Trata-se de um provérbio hiperbólico, cujo sentido é a exigência de uma nova mentalidade e, consequentemente, um novo jeito de pensar e conceber a vida.

No terceiro caso Jesus toma uma imagem agrícola para ilustrar mais uma exigência ou reforçar as outras duas, com a expressão: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (v. 62). Assim, a radicalidade do seu seguimento vem mais uma vez evidenciada, uma vez que o anúncio do Reino não pode mais esperar.

Para o discípulo de ontem, de hoje e de sempre, Jesus exige uma ruptura total com o passado. É urgente o anúncio do Reino, e esse só se faz com plena liberdade e convicção. Qualquer olhar para trás compromete o êxito do caminho a ser construído. As concessões requeridas pelos candidatos a discípulo representam o impacto da primeira dificuldade encontrada por Jesus e os Doze no caminho que tinham iniciado. As interpelações de Jesus representam a adesão total e incondicional.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, junho 18, 2016

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (LUCAS 9,18-24)

A reflexão acerca de Lc 9,18 - 24, texto evangélico deste 12º Domingo do Tempo Comum, obriga-nos a olhar para todo o capítulo nono do terceiro Evangelho e, nesse, situar a passagem em questão, para melhor o compreendermos. 

O capítulo nono de Lucas se inicia com o envio missionário dos Doze para proclamar o Reino de Deus e curar (cf. 9,1-2). Eles foram de povoado em povoado (cf. 9,6). A repercussão da missão foi tanta, a ponto de chegar aos ouvidos do tetrarca Herodes (cf. 9,7-9). O retorno dos discípulos missionários foi marcado pelo entusiasmo, fazendo aumentar, ainda mais, a multidão que seguia Jesus, culminando com o episódio da partilha dos pães (cf. 9,10-17). 

A recordação desses fatos é imprescindível para a compreensão do texto que a liturgia nos oferece pelos seguintes aspectos: (a) os Doze foram enviados para anunciar o Reino; um modo de Jesus saber se o anúncio fora bem feito é conhecendo o que o povo aprendeu. As variadas respostas das multidões comprometem a qualidade da missão e do anúncio; (b) o tumulto criado no retorno dos discípulos leva Jesus a uma espécie de parada, tipo um retiro. Por isso, Ele se retira para rezar em um lugar afastado; o clima de oração cria também o clima para as perguntas íntimas que irá fazer aos discípulos. 

Considerando esses aspectos, nós podemos, finalmente, olhar para o texto de hoje. A primeira informação apresentada é de que Jesus estava com seus discípulos em um lugar reservado para rezar (v. 18). É próprio de Lucas apresentar Jesus em oração, principalmente como antecedente de tomadas importantes de decisões e de momentos decisivos na sua vida: passou a noite em oração na véspera da escolha dos Doze (cf. 6,12), estava em oração no momento da transfiguração (cf. 9,28), ensinou seus discípulos a rezar (cf. 11,1-2), rezava na turbulenta véspera da Paixão (cf. 22,40ss). Esses são apenas alguns exemplos. Portanto, quando Lucas apresenta Jesus em oração, ele indica a importância do episódio.

No entanto, aquele momento de Jesus sozinho com os discípulos não era apenas de oração, mas, principalmente, de formação. Jesus formava continuamente seus discípulos, considerando a novidade de seus ensinamentos e a forte tendência de má interpretação. Por isso, era necessário passar muitas horas ensinando.

Jesus não ensinava apenas expondo conteúdos, mas perguntando, exortando e provocando. Assim, as perguntas que hoje Ele dirige aos Doze, não constituem uma pesquisa de opinião pública sobre a sua popularidade, mas retratam uma preocupação com a forma como a sua mensagem estava sendo anunciada e acolhida, principalmente após a missão dos Doze em diversos povoados (cf. 9,1-6), pois a qualidade do anúncio era reflexo da formação recebida pelos discípulos. Por isso, Ele se preocupa.

Sua preocupação não é com a popularidade, mas se a sua mensagem está sendo compreendida. De fato, é isso o que preocupa Jesus. Daí a pergunta: "Quem diz o povo que eu sou?" (v. 18). Em outras palavras, Jesus pergunta que imagem o povo está tendo dele. Pela resposta dos discípulos, há uma certa confusão na cabeça do povo, já que uns dizem ser o Batista, outros Elias ou algum dos profetas. Na verdade, os discípulos omitiram algumas imagens de Jesus, pois para os fariseus e outros grupos, Ele não passava de um charlatão. Certamente eles não ouviam apenas comentários positivos a respeito do Mestre que nem parecia mestre!

As respostas selecionadas são uma tentativa de engrandecimento de Jesus da parte dos discípulos, uma vez que estas colocam Ele no nível de personagens importantes da tradição judaica antiga (Elias) e recente (João Batista). Em outras palavras, os discípulos dizem a Jesus que o povão o vê como um profeta. Para Jesus, isso não é satisfatório. Principalmente, porque o seu perfil não se alinha muito com as características dos profetas citados. 

Elias e João Batista foram grandes homens, sem dúvida, mas muito diferentes de Jesus. Elias foi um profeta virtuoso para o seu contexto, mas defensor da guerra em nome de Yhaweh contra o culto a baal (cf. 1 Rs 18 - 19). João Batista, com sua austeridade, preferiu isolar-se no deserto ao invés de lidar diretamente com o povo no dia-a-dia. Portanto, as imagens de Jesus que estavam sendo construídas não eram as mais adequadas. Certamente era um prestígio ser comparado e até confundido com personagens tão importantes. Mas, seu papel, sua metodologia e sua mensagem eram muito diferentes. Portanto, a resposta dos discípulos foi algo preocupante para Jesus. Por isso, Ele quis saber a opinião deles próprios.

Consciente da confusão causada no povo quanto à sua identidade, a pergunta aos discípulos é bem precisa: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (v. 20a), ou seja, e vocês, o que acham de mim? Sejam sinceros... Daí, Pedro toma a palavra e responde prontamente: "Tu és o Cristo de Deus" (v. 20b). Essa resposta afirma a messianidade de Jesus, ou seja, Pedro diz que Ele é o Messias de Deus, portanto, o esperado. Resposta correta, mas também não satisfatória.

Ora, a figura de messias na cabeça de Pedro, era a do messias davídico, portanto, a do restaurador, guerrilheiro e dominador. Era essa a imagem do messias esperado por tantos séculos em Israel, e Pedro, juntamente com os Doze, estavam convictos de ter chegado, e mais ainda dos privilégios que teriam quando Jesus assumisse o poder em Jerusalém. 

Por conhecer a mentalidade de Pedro e, portanto, sua ideia de messias, Jesus o proíbe severamente de contar isso a alguém (v. 21). A severidade da proibição indica a gravidade da afirmação de Pedro. Certamente foi essa a imagem que ele transmitiu de Jesus na missão realizada pouco tempo antes (cf. 9,1-6). Com isso, Jesus diz que é melhor ficar calado que anunciá-lo distorcendo a sua mensagem. 

Após combater severamente a mentalidade equivocada dos discípulos, Jesus procura esclarecer a sua verdadeira identidade.  E, o faz recordando, exatamente, a sua condição de homem, através da misteriosa expressão "O Filho do homem" (v. 22a), o que quer dizer que Ele era verdadeiramente homem. Sendo verdadeiro homem, não estava isento do sofrimento nem da rejeição, muito menos da morte. Por isso, cita aqueles que serão os responsáveis diretos pela sua condenação: os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v. 22b), os três grupos que compunham o Conselho máximo de Jerusalém, o Sinédrio, símbolo do poder. Se Ele será morto pelo poder, é porque sua proposta de vida não contempla esse. Pelo contrário, ao invés de poder, a característica do seu ensinamento é o serviço.

Indo mais além, Ele abre completamente o jogo: Esse homem a quem vocês estão seguindo, "deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia" (v. 22c). Certamente, Pedro e seus companheiros jamais tinham imaginado que o destino do Messias seria esse.

Como tínhamos recordado no início, essa recolhida com os Doze em lugar reservado não seria apenas para rezar, mas também para formar e ensinar, e eis, então,  o ápice da formação: Esse messias vai sofrer muito, até morrer; porém, há de ressuscitar ao terceiro dia, ou seja, em plenitude. Se vai morrer verdadeiramente como homem, vai ressuscitar, também verdadeiramente, por ser Deus.

O autor do Evangelho não descreve a reação dos Doze após as afirmações do versículo 22, mas certamente ficaram perplexos, tristes e até indecisos. As entrelinhas apontam para isso, o que se conclui com a sequencia do texto (v. 23): "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga"; se estavam só Ele e os Doze, isso foi direcionado para eles. Provavelmente, alguns pensaram em desistir do seu seguimento ao ouvi-lo falar de morte e cruz, e isso o leva a abrir cada vez mais o jogo, ou seja, deixa claro quais são as consequências do discipulado. Ainda há tempo de voltar atrás! 

Por fim, suas últimas palavras são, de fato, uma reviravolta na mentalidade dos discípulos. Ele apresenta uma dinâmica totalmente nova, jogando por terra a ideia ultrapassada de messias, presente na mente dos Doze e em Israel como um todo. O seu Reino não pode ser imaginado segundo as concepções habituais de seu tempo.

Há critérios e exigências para o seguimento autêntico de Jesus. Aceitar ou não, é pessoal. Mas, uma vez aceitando, devemos procurar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira identidade e assumir as consequências. Segui-lo não é invocar sua proteção e privilégios; é dar a vida como Ele. Quem tem medo de doar a vida não pode ser seu discípulo.

Última colocação: Se a imagem ou imagens que se tem de Jesus são equivocadas, é porque Ele está sendo mal anunciado!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues




domingo, junho 12, 2016

REFLEXÃO PARA O XI DOMINGO COMUM - LUCAS 7,37 - 8,3

O texto evangélico proposto pela liturgia para o XI Domingo do Tempo Comum compreende uma das cenas mais belas de todo o Evangelho de Lucas: uma mulher de má fama invade a casa onde Jesus está participando de um banquete e rouba a cena. É desse encontro inesperado que se revela uma das principais novidades, senão a maior, de todo o programa de Jesus: Ele acolhe pecadores e perdoa os pecados (v. 48). Além dessa, o texto nos traz outra novidade: a presença de mulheres no discipulado de Jesus (8,1-3), algo escandaloso para a sua época.
O fato de que um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa (7,36) é algo que já nos traz alguns questionamentos, pelo menos, a respeito das motivações para tal convite. É certo que a fama de Jesus estava se espalhando cada vez mais, em virtude dos sinais realizados, principalmente os últimos: a cura do servo do centurião (7,1-10) e a reanimação do filho da viúva de Naim (7,11-17). Nesse último, o fato teve uma repercussão ainda maior, pois Jesus foi reconhecido como um grande profeta (7,16). 
É impossível que esses acontecimentos não tivessem causado curiosidade entre os fariseus. E, uma forma de estarem eles bem à vontade com Jesus para fazer-lhe perguntas, conhecer a sua maneira de interpretar a Lei, seria exatamente em um banquete, oportunidade em que estariam em clima descontraído e, portanto, poderiam fazer as mais variadas perguntas. Seria um momento para a classe farisaica tirar algumas conclusões daquilo que já escutavam sobre Jesus, inclusive sua má fama de comilão e beberrão, amigo de pecadores e publicanos (cf. 7,34-35).
Se eram essas as intenções do anfitrião e dos demais convidados, as mesmas foram contempladas, uma vez que, do nada, entrou uma mulher pecadora na sala onde faziam a festiva refeição (7,37). Era uma pecadora pública, cuja fama  era conhecida em toda a cidade. Daí, o fato de a tradição ter intitulada-lhe de prostituta, o que pode ser confirmado pelos seus gestos obscenos para a época: soltar os cabelos (7,38). De fato, o cabelo de uma mulher, no mundo bíblico, era considerado parte íntima, e portanto, tinha um valor erótico, por isso, devia estar sempre coberto.
Somente homens poderiam participar de um banquete como esse. A refeição era realizada na sala, onde ficavam somente o anfitrião com os convidados. A sala ficava aberta para rua, para que aqueles que passassem pudessem perceber que estava havendo festa e, assim, fazer algum juízo sobre a qualidade do banquete. As mulheres e as crianças permaneciam na cozinha ou em outros aposentos da casa; não poderiam participar, nem mesmo olhar para a sala. 
Foi, certamente, em momento de distração que a mulher pecadora entrou. Ela soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu (7,37) e para lá se dirigiu consciente de todos os perigos: ela poderia ser identificada logo na chegada e, até apedrejada. Portanto, sua decisão de ir até lá foi corajosa; ela queria encontrar-se com Jesus a qualquer custo, pois também ela tinha notícia da fama de Jesus, sabia que Ele acolhe pecadores (cf. 7,34-35).
Ao contemplar Jesus, a sua comoção é geral, não contendo-se, derrama muitas lágrimas, banhando, com as mesmas, os pés de Jesus e enxugando-os com os cabelos (7,38). Enquanto ela demonstrava sinceridade, arrependimento e alegria por, finalmente, ter encontrado um homem que não lhe tinha olhado com segundas intenções. Antes de seu encontro com Jesus, ela só tinha recebido dois tipos de tratamento: uns se aproximavam para possui-la e outros para julgá-la. Por isso, suas lágrimas são de alegria, não de remorso; alegria por ter recebido atenção de um homem que não a condenava nem a desejava, e isso foi decisivo para o seu arrependimento e mudança.
A cena é comovente e forte, a ponto de muitos biblistas considerarem um dos trechos mais belos e profundos de todo o Evangelho de Lucas. Para alguns, é a obra prima de todo o conjunto do terceiro Evangelho. 
O comportamento de Jesus diante dela levou o fariseu a tirar também uma conclusão, míope e mesquinha, é claro, como é típico de quem vive à sombra da lei: Se esse homem  fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora (7,39). Nem foi necessário que o anfitrião expressasse esse pensamento em alta voz, mas só no pensamento, e Jesus conhece o pensamento de cada um. O fariseu conclui que não passa de farsa a fama de Jesus como profeta. Isso porque ele também não sabia o que é ser profeta, pois os seus olhos voltados rigidamente para a Lei não permitiam.
Conhecendo seu pensamento, Jesus conta uma pequena parábola, e nessa, coloca em cena o próprio fariseu. Ao perceber que a parábola lhe fora dirigida, diante da pergunta de Jesus, sobre quem amará mais ao credor: aquele a quem pouco foi perdoado ou aquele a quem muito foi perdoado, a sua resposta é fria, própria de quem não absorveu o ensinamento de Jesus: Acho que é aquele ao qual perdoou mais (7,43).
A partir da resposta recebida, Jesus advoga em favor da mulher, mais uma vez, e elenca alguns aspectos dos quais sentiu falta ao ser acolhido na casa do fariseu. Esse faltou com elementos básicos de cordialidade no mundo judaico, enquanto a pecadora esbanjou amor, acolhida e arrependimento com seus gestos aos pés de Jesus.
Aos olhos do fariseu anfitrião, Simão, e demais convidados, as aberrações de Jesus continuam quando Ele diz à mulher: Os teus pecados estão perdoados (7,48). Ora, como pode, aquele que nem profeta é, perdoar pecados, se essa é prerrogativa de Deus, apenas? Com isso, Lucas, artisticamente, apresenta mais um paradoxo desconcertante: para quem dizia que Jesus nem profeta era, Ele mostra que é Deus, tendo autoridade para perdoar pecados e justificar. Certamente, tinha acabado o clima para o banquete continuar.
Para concluir, não podemos esquecer os três últimos versículos do trecho, já no capítulo seguinte (8,1-3): a presença de mulheres no discipulado de Jesus, andando com Ele e os doze, são a prova concreta de sua acolhida e abertura universal. Certamente, a pecadora do banquete tornou-se discípula também! E, com isso, mais uma vez, Ele tem sua reputação posta em questão pelos fiéis observadores da Lei, mas, ao mesmo tempo revela o rosto misericordioso do Pai, por tantos anos encoberto pelas cortinas da lei, do rigor e do fundamentalismo de outrora e de hoje. 


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, maio 28, 2016

REFLEXÃO PARA O 9º DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 7,1-10

Certamente o que mais chamará a atenção no Evangelho deste 9º Domingo do Tempo Comum será a cura feita por Jesus. O seu poder curador será super-exaltado, quando, na verdade, não é o centro da mensagem na perspectiva do autor, Lucas.
De fato, o texto proposto, o trecho de Lucas 7,1-10, apresenta a cura de um servo de um centurião romano. O mesmo episódio é relatado também por Mateus 8,5-13, embora a versão de Lucas seja mais rica em detalhes e significado.
O fato ocorreu logo após Ele ter terminado de 'falar para o povo' (v. 1). Ora, essa fala de Jesus, refere-se ao discurso no qual Ele proclamou as bem-aventuranças e as maldições, sendo estas últimas, exclusivas de Lucas, já que Mateus apresenta também as bem-aventuranças e até com mais profundidade em relação a Lucas.
O cenário da cena é a cidade de Cafarnaum, lugar muito importante para o ministério de Jesus. Era uma cidade alfandegária e, obviamente, munida de forte presença militar. Daí, não ser novidade o fato de que 'havia ali um oficial romano' (v. 2). Trata-se de um centurião, um chefe militar responsável por um grupo de cem soldados.
Assim como os cobradores de impostos, geralmente, os militares também não eram bem vistos pelo povo, uma vez que pertenciam ao aparato estatal do império romano e, consequentemente, eram também ele agentes de exploração. Inclusive, em muitos casos os cobradores de impostos pediam proteção aos soldados, quando a população negava-se a pagar as taxas.
Porém, o texto deixa claro que esse centurião específico era diferente dos demais. Não era visto pelo povo judeu como um inimigo, mas como um homem estimado, conforme as referências dadas a Jesus pelos anciãos (vv. 4-5). Suas credenciais o aproximam de um outro centurião também apresentado por Lucas com características muito semelhantes: Cornélio, personagem dos Atos Apóstolos (cf. At 10,1-33), homem temente a Deus e estimado pelo povo judeu, mesmo sendo pagão.
Ainda sobre as qualidades do oficial romano, uma que ainda se sobressai sobre aquelas apresentadas pelos anciãos judeus a Jesus (vv. 4-5) é a sua estima pelo seu escravo doente (v. 2), o qual vem erroneamente chamado de empregado na tradução do texto litúrgico. O texto grego traz o termo δουλος (dulos), cujo significado é escravo ou servo. Para o trabalhador remunerado ou empregado, o termo correspondente na língua grega é εργατης (ergates). Portanto, chama-nos a atenção o fato de um oficial romano querer tanto bem a um escravo, a ponto de preocupar-se bastante com ele, enviando duas comitivas a Jesus: uma de anciãos judeus (v. 3) e outra de amigos (v. 6).
Aos poucos, os motivos da estima do povo judeu pelo oficial, algo raro, vão ficando cada vez mais claros. Sentimentos como carinho (v. 2), generosidade (v. 5) e humildade (v. 6) não eram comuns no imaginário popular judaico para um soldado romano. E, muito menos fé (v. 9).
Porém, Lucas não está fazendo uma apologia ao exército romano com esse episódio. O que ele quer, na verdade, é apresentar o universalismo da mensagem de Jesus e, consequentemente, de sua ação. Ele quer mostrar para suas comunidades que não pode haver distinção entre os destinatários do Evangelho. Não importa se alguém é de origem judaica ou pagã. O que importa é reconhecer o Senhorio de Deus na pessoa de Jesus Cristo, através da fé, acima de tudo.
O soldado romano era o protótipo do rejeitado no mundo judaico. A atitude de Jesus diante dele é um convite à comunidade cristã, a Igreja, a abrir mão de todo e qualquer tipo de preconceito e discriminação. Lucas reforça a sua tese ao mencionar que a fé do oficial deixou Jesus admirado (v. 9). É importante fazer essa observação por que, de acordo com os quatro Evangelhos, é muito raro Jesus se admirar. Somente em duas ocasiões se diz que ele 'ficou admirado': aqui em Lc 7,9 (e no texto paralelo de Mateus 8,10) e em Marcos 6,6, sendo que nesse último, o motivo da admiração é exatamente o contrário do episódio de hoje: é a falta de fé dos judeus, particularmente de seus próprios conterrâneos.
Portanto, o que deixa Jesus admirado é a fé e a falta de fé. Seria bem mais compreensível a fé dos israelitas e a incredulidade dos pagãos. Mas é exatamente o contrário: a fé dos pagãos e a incredulidade dos judeus, o que vai ser uma marca das comunidades de Lucas, segundo sua segunda obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.
Para concluir, retomamos o que afirmamos na introdução: o que mais chamaria a atenção do Evangelho seria a cura do servo. No entanto, para as intenções de Lucas, o mais importante é a acolhida da mensagem de Jesus da parte dos pagãos, como antecipação da trajetória da Igreja primitiva e a certeza de que não é necessário o contato físico para receber ação salvífica de Jesus, pois, nesse caso, Ele curou o servo à distância. Com isso, Lucas combate a presunção de cristãos que vangloriavam-se de ter convivido com o Jesus terreno, sentindo-se superiores àqueles que abraçaram a fé posteriormente.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, maio 07, 2016

DOMINGO DA ASCENSÃO: LUCAS 24,46-53 (ANO C)

A nossa reflexão não tem como objeto o sentido da solenidade da ascensão em si, mas sim o Evangelho proposto para essa no corrente ano: Lucas 24, 46-53. Obviamente, a reflexão do texto bíblico nos levará a uma compreensão da festa também. Trata-se dos últimos versículos do terceiro Evangelho. É, portanto, a conclusão.
Lucas não escreve o seu Evangelho pensando nesta solenidade e, portanto, não procuremos no mesmo, dados cronológicos exatos que venham comprovar com exatidão a soma dos quarenta dias dias após a ressurreição, como sugere a liturgia. Nem mesmo o dado dos Atos dos Apóstolos, livro também escrito por Lucas, pode fundamentar o número de dias. De fato, Atos 1,3-9, trecho incluído na primeira leitura de hoje, afirma que "durante quarenta dias, apareceu-lhe falando do reino de Deus" (v. 3) e  "Depois de dizer isso Jesus foi levado ao céu à vista deles" (v. 9). Se tomássemos essa afirmação como exata, estaríamos negando outros trechos escritos pelo mesmo autor no Evangelho.
É importante ressaltar que nenhum livro da Bíblia foi escrito para descrever acontecimentos e apresentá-los como dados históricos concretos. A historiografia bíblica preocupa-se com a ação salvífica de Deus na história, e essa não pode ser medida segundo critérios humanos. Como os autores bíblicos eram humanos, logo, tudo nela é aproximativo.
Portanto, a diferença de dados na obra lucana, Evangelho e Atos, não mostra incoerência, mas sim perspectivas diferentes. São simbólicos os quarenta dias de Atos como é simbólico o "terceiro dia" como o dia da ressurreição. Não havia motivos para Jesus passar três dias morto, nem para passar quarenta aparecendo após a ressurreição.
Assim, o dado mais verossímil e que melhor reflete a ressurreição e ascensão é a promessa do paraíso ao malfeitor (erroneamente chamado de bom ladrão) na cruz: "Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,43). O seu grito de morte "Pai, em tuas mãos entrego o meu espirito" (Lc 23,46) confirma mais ainda que, ao morrer, Jesus imediatamente foi para o encontro do Pai no céu, sem esperar três nem quarenta dias. Repetimos, esses números são elementos teológico-catequéticos empregados pelos autores do Novo Testamento para explicar os eventos da Paixão-Morte-Ressurreição de Jesus com embasamento nas Escrituras.
Feitas as considerações, nos concentramos agora no Evangelho de hoje: Lucas 24,46-53. O contexto é o da ressurreição, ou seja, "no primeiro dia da semana" (24,1). É a continuação do célebre episódio dos Discípulos de Emaús. Jesus aparece aos onze e algumas mulheres (24,36), conforme aparecera aos dois no caminho (24,13-35) e refaz a catequese que fizera aos dois no caminho: explica a si mesmo à luz da Escritura (24,27. 43-46).
O versículo 45 diz que Jesus abriu a mente dos discípulos para que compreendessem a Escritura à luz do que estavam contemplando, ou seja, a sua ressurreição. De fato, só alguém com a mente muito aberta poderia conceber e aceitar um Messias que padecesse, mesmo que viesse a ressuscitar (v. 46). Uma vez esclarecidos, começa a missão: anunciar, em seu Nome, a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (v. 48). A primeira missão da Igreja é, portanto, levar a todos os povos a reconciliação, sem distinção.
O começo por Jerusalém é muito significativo. Era em Jerusalém onde estava a sede do poder religioso e, portanto, era para lá que as pessoas iam para receber o perdão de Deus através dos sacrifícios e oferendas rituais no templo. Com essa afirmação, Jesus diz que aquela antiga instituição não funciona. Aquele ritualismo estéril não é capaz de reconciliar o mundo com Deus.
Mais significativo ainda é o fato de ser Jerusalém, com seu aparato religioso e policial, responsável pela sua morte. O perdão e a reconciliação são destinados antes de tudo àqueles que estão em maior débito com Deus, a elite religiosa, responsável direta pela Morte do Messias. E, como o Deus de Jesus, principalmente na perspectiva de Lucas, é substancialmente misericórdia, o perdão é dirigido antes de tudo aos maiores devedores, para depois, chegar a todas as nações.
A promessa do paráclito é reforçada (v. 49), porque dele depende a eficácia da missão recém confiada à comunidade dos discípulos: ser portadora da reconciliação e, portanto, da misericórdia de Deus.
Um dos versículos mais ricos de todo o trecho é, certamente, o 50: "Então, Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os". Com o gesto de levá-los para fora, Lucas evoca o antigo êxodo e o atualiza. É preciso libertá-los definitivamente da antiga mentalidade. Para perto de Betânia significa o início da missão reconciliadora, já que Betânia lembra a amizade pura e desinteressada, amizade vivida por Jesus com a família de Lázaro e suas irmãs Maria e Marta.
Ainda no versículo 49, não menos significativo é o gesto de Jesus abençoar. É a primeira vez que Lucas atribui a Jesus essa função, exatamente no finalzinho do seu Evangelho. Com isso, ele faz uma paralelo com o início do seu Evangelho, por sinal, uma técnica muito utilizada por ele, o paralelismo. Em Lc 1,21-22a se diz que o povo aguardava Zacarias e estranhava que demorasse no Santuário. Quando saiu, não podia falar. Zacarias, então, não podia abençoar. A bênção de Jesus revela a esterilidade do antigo sacerdócio e a fertilidade do novo. O antigo sacerdócio está falido, não tem mais importância alguma, não transmite mais perdão nem bênção. Por isso, é urgente que seja a própria Jerusalém a primeira destinatária da reconciliação, porque é ela que está carente.
A subida de Jesus ao céu coincide com o momento da bênção. Portanto, sua partida deste mundo não é sinal de ausência nem de abandono. Com a bênção Ele confirma que está presente naqueles que a recebem. O gesto de reverência e adoração dos discípulos (v. 52) revela o pleno reconhecimento do senhorio de Jesus. A grande alegria (v. 52) revela a característica principal do discípulo e da discípula de Jesus, já antecipada no início do livro em Maria (1,47), nos pastores e nos anjos (1,8-20), e presente em todo o livro.
Para concluir, podemos dizer que estes poucos versículos (24,46-53) além de marcar a conclusão da missão terrena de Jesus e inaugurar a missão da Igreja, a qual será apresentada de modo mais amplo e claro no segundo volume da obra lucana, o livro dos Atos dos Apóstolos, são a conclusão e síntese do Evangelho, bem como a recapitulação de elementos importantes pré-anunciados no início do Evangelho: a alegria do discipulado (1,28;47 = 24,52), o Espírito Santo como força indispensável na missão (1,35 = 24,49).
Assim como Lucas abriu seu Evangelho no templo, com a esterilidade de Zacarias e Isabel, encerra também no templo. Porém, não mais na carência de bênção nem na infertilidade, mas no vigor e ardor dos discípulos, convictos da missão e, felizes!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues