sábado, junho 17, 2017

REFLEXÃO PARA O XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 9,36 – 10,8 (ANO A)


Com a retomada do tempo comum, retomamos também à leitura, quase contínua, do Evangelho segundo Mateus na liturgia dominical. Neste décimo primeiro domingo, o texto evangélico que a liturgia oferece é Mt 9,36 – 10,8. Se trata de um texto de transição entre uma seção narrativa e um discurso de Jesus. Por sinal, a alternância entre narrativa e discurso é uma característica da obra mateana.

O texto compreende, portanto, a conclusão da seção narrativa que seguiu-se ao discurso da montanha (9,36-38), e a introdução de um novo discurso (10,1-8), o chamado discurso missionário ou apostólico. Em seu conjunto, o texto mostra Jesus constatando uma situação e tomando iniciativa para transformá-la. Essa postura de Jesus deve ser a mesma da comunidade cristã em todos os tempos.

Consideramos importante recordar o versículo que antecede o nosso texto, para o compreendermos melhor: “Jesus percorria todas as cidades e povoados ensinando em suas sinagogas e pregando o Evangelho do Reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades” (9,35). Esse versículo sintetiza a missão de Jesus até então e, ao mesmo tempo, prepara o leitor para o que o texto de hoje irá apresentar: a continuidade e a extensão da missão de Jesus pela comunidade cristã.

Por se tratar de um texto relativamente longo, não nos deteremos na análise de cada versículo, mas procuraremos colher a mensagem global, embora seja imprescindível enfatizar alguns versículos específicos, como por exemplo, o de abertura do texto: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (9,36). É a partir dessa constatação que Jesus vai tomar iniciativa para transformar a realidade.

A itinerância da atividade de Jesus (cf. 9,35) lhe dava propriedade para ver em profundidade a situação de miséria das multidões. Sua visão das realidades não era superficial, mas muito real e profunda. Como a miséria é a privação da vida, Ele sabia que aquela situação era o maior entrave para a implantação do Reino. Portanto, era necessário transformá-la para o Reino ser implantado. Daí nascia o sentimento de Jesus diante do que contemplou nas multidões: “compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas”.

Compadecer-se é o mesmo que sentir compaixão. Não se trata de um mero sentimento, mas é algo muito mais profundo, é um “mexer-se por dentro”. O verbo grego usado pelo evangelista (σπλαγχνίζομαι splanknizomai) deriva de um substantivo que significa vísceras (σπλαγχνoν splanknon). Sentir compaixão é, portanto, contorcer-se nas entranhas, o núcleo mais profundo e íntimo do ser humano, conforma a mentalidade hebraica. Mais profundo até que o coração. É a expressão máxima da misericórdia do Pai.

O que fazia Jesus contorcer-se até as entranhas era a situação das multidões: “estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não tem pastor”. Não se trata de um simples cansaço físico, o qual poderia ser sanado com algumas horas de repouso. O evangelista usa uma palavra grega que se traduz melhor por molestadas ou violentadas (εσκυλμενοι eskilmemoi). E ao invés de abatidas, a melhor tradução seria dispersas ou abandonadas. Portanto, Jesus constata que o povo foi violentando e abandonado pelo poder dominante, religioso e político.

A comparação com “ovelhas que não tem pastor” reflete o grau máximo de abandono e de degradação do qual as multidões eram vítimas. E revela, ao mesmo tempo, a corrupção e hipocrisia dos dirigentes, causa principal da situação de miséria do povo. A imagem da ovelha é sinônimo de mansidão e vulnerabilidade; a ausência de um pastor que a conduza e proteja significa exposição aos perigos. Assim era a situação das multidões. É claro que a falta de pastores que cuidem das multidões é uma nítida crítica aos dirigentes religiosos, principalmente. Poderíamos recorrer a muitas passagens do Antigo Testamento e a outras do Novo para melhor fundamentar essa imagem. Preferimos não fazer isso para evitar um maior prolongamento.

Diante de uma situação de calamidade, vendo o povo ser violentado e completamente abandonado, Jesus não se conforma nem se desespera. Reforça sua confiança no Pai e pede a colaboração aos seres humanos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a colheita” (9,37-38). No discurso da montanha, Ele já tinha recomendado aos discípulos que confiassem no Pai através da oração (cf. Mt 6,4.9-15.26). Aqui novamente Ele recomenda.

Consciente de que a missão será árdua, a imagem da “messe grande” significa isso, Ele sabe que a confiança no Pai e o trabalho humano são indispensáveis e inseparáveis para que a vida violentada pelo sistema dominante seja restaurada. A comunidade cristã não pode se acomodar e esperar apenas pelo Pai, muito menos confiar somente em suas próprias forças. Jesus pede que essas duas dimensões se unam para o resgate da vida violentada.

Se algo tem que ser feito, deve começar pelos mais próximos. Por isso, “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (10,1). Diante da situação deplorável em que se encontrava o povo, Jesus toma uma atitude libertadora, estendendo aos discípulos as mesmas prerrogativas que recebeu do Pai. Não se trata de poderes extraordinários para operar milagres. Dar poder ou autoridade aos discípulos significa autorizá-los a fazer o mesmo que Jesus fazia (cf. 9,35). “Expulsar os espíritos maus, curar doença e enfermidade” é apenas uma figura de linguagem que evoca a responsabilidade da comunidade cristã: restituir a vida e a dignidade às pessoas que tinham sido espoliadas pelo sistema dominante político e religioso, principalmente.

De discípulos, os doze passam a ser apóstolos, conforme o evangelista menciona todos os nomes, de Simão, chamado Pedro a Judas Iscariotes (10,2). Não é uma lista hierárquica, bem como a introdução da designação de apóstolos não corresponde a uma “mudança de patente”. É apenas uma mudança de estado: de meros seguidores de Jesus a enviados. Até então, no discipulado, eles apenas assistiam ao que Jesus fazia. De agora em diante, Jesus os envia para que façam o mesmo. A designação de apóstolos (em grego αποστολοι apóstolos) não significa um título de honra, mas um estado: enviado, um estado de missão.

Quando o evangelista diz que “Jesus enviou esses doze com as seguintes recomendações: ‘Não deveis ir aonde moram os pagãos nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!”, ele não está demonstrando nenhuma condição privilegiada de Israel, nem reforçando a exclusão dos samaritanos e pagãos. Israel não recebe o anúncio do Reino por ter sido o primeiro destinatário das promessas de Deus. É um grande equívoco imaginar que o Evangelho segundo Mateus visa a restauração do antigo Israel. Pelo, contrário, é o Evangelho que mais evidencia a ruptura da comunidade cristã com a religião judaica.

Quando ele apresenta “as ovelhas perdidas da casa de Israel” como destino primeiro da missão da comunidade cristã, ele está dizendo que, ao invés de privilegiado, Israel é o mais necessitado da Boa Nova e, portanto, da libertação. De todas dominações, a pior é a religiosa. Os samaritanos e os pagãos estavam, assim como os judeus, sob o domínio político do império romano, mas não submetidos ao templo de Jerusalém. O império romano será contestado também, obviamente. Porém, é mais urgente libertar o povo da dominação e alienação religiosa. Além do domínio político de Roma, os judeus sofriam também com a dominação religiosa, muito mais danosa que o império romano. Se o povo estava violentado e abandonado, a culpa principal era da religião, graças aos abusos e omissões daqueles que deveriam agir como pastores.

O conteúdo do anúncio não deve ser outro: é apenas o advento do “Reino dos céus” (em grego βασιλεια των ουρανων basileia ton uranon). De fato, o Reino dos céus, o qual se manifesta como vida em plenitude, justiça, solidariedade, amor e inclusão é o único antídoto e resposta aos reinos deste mundo. Esse Reino não pode ser imaginado como um evento futuro, porque é no presente que as multidões são mutiladas e maltratadas, exploradas e privadas de vida e dignidade.

Os discípulos, convertidos em apóstolos, são enviados na gratuidade e no amor, para recuperarem a vida ameaçada e explorada. Por isso, devem ser promotores da libertação, como pede Jesus. Não cumprindo gestos mágicos ou fantasiosos, mas sendo sinais de vida, com atuação profética e cristã.

Ainda h0je, são muitos os males que impedem a realização plena do Reino dos céus já aqui. A comunidade cristã é chamada, assim como fez Jesus, a olhar para as multidões, perceber suas necessidades e intervir para transformar. Isso só será possível se a Igreja se colocar cada vez mais em estado de saída, pois somente saindo de si é possível ver a necessidade do outro!


Mossoró-RN, 17 de junho de 2017, Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues 

sábado, junho 10, 2017

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – JOÃO 3,16-18



Neste domingo dedicado à Santíssima Trindade, a liturgia nos oferece Jo 3,16-18 como texto evangélico. Como sempre, a nossa reflexão será pautada pelo Evangelho, e não por afirmações dogmáticas a respeito da Trindade. Como bem sabemos, os Evangelhos não apresentam nenhuma definição de Trindade, embora possamos, a partir deles, encontrar referências e fundamentos que sustentem uma teologia trinitária. Ao invés de conceituar a Trindade, o Evangelho de hoje nos convida mesmo é a confrontar a ideia que fazemos de Deus com o Deus que Jesus apresenta.

O texto oferecido é composto de apenas três versículos, muito profundos por sinal, os quais não podem ser bem compreendidos fora do contexto em que estão inseridos dentro do Quarto Evangelho. Faz parte do edificante diálogo entre Jesus e Nicodemos em Jerusalém. Jesus se encontrava em Jerusalém por ocasião da festa da páscoa (cf. 2,13; 3,1-2). Nesse diálogo, Jesus prolongou-se em uma das respostas, e é dessa resposta prolongada que o nosso texto foi extraído.

Nicodemos era um homem notável entre os judeus, um fariseu (cf. 3,1), estudioso e bom conhecedor da doutrina judaica, sobretudo da lei. Procurou Jesus na “calada da noite” (cf. 3,2). Sua curiosidade ao falar com Jesus revela sinceridade, respeito e desejo de conhecê-lo melhor. Era alguém que desejava uma boa reforma naquela estéril religião. Mesmo assim não estava pronto para aderir ao projeto de Jesus. Mas se distinguia dos demais fariseus com quem Jesus se confrontou.

Por precaução e medo de ser repreendido pelos seus colegas de doutrina, Nicodemos não quis ser visto com Jesus, por isso o procurou à noite. Afinal, Jesus tinha, há pouco tempo, desmascarado a religião judaica, ao denunciar o comércio e a hipocrisia praticados na casa que deveria ser do seu Pai, Deus, no episódio que chamamos equivocadamente de “purificação do templo” (cf. 2,13-22). Ora, qual a necessidade de purificar um edifício/instituição prestes a ser demolido? Portanto, Jesus não purificou o templo. Pelo contrário, decretou a sua falência e calamidade, defendendo a sua destruição.

Entremos, pois, no texto proposto com o primeiro versículo: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v. 16). Jesus apresenta Deus como aquele que ama incondicionalmente e, ao mesmo tempo, se auto apresenta como a prova desse amor incondicional de Deus, já que é, Ele mesmo, o Filho doado. O mundo é o destinatário do amor de Deus. Esse mundo é a humanidade inteira. Ao apresentar essa novidade, Jesus estava destruindo um dos principais pilares de sustentação da ortodoxa religião judaica: o privilégio da eleição exclusiva de Israel como povo de Deus e destinatário único de suas promessas.

Com Jesus, a pertença a Deus deixa de ser privilégio de um povo e passa a ser um direito da humanidade. Jesus praticamente inverte o primeiro mandamento: foi Deus quem amou a humanidade sobre todas as coisas! A afirmação “Deus amou o mundo” (em grego hvga,phsen o` qeo.j to.n ko,smon – egapessen hó theós ton kósmon) é única em toda a Bíblia. É uma exclusividade do Quarto Evangelho. A prova maior desse amor da parte de Deus é o seu dom: o Filho unigênito doado ao mundo para que, ao ser acolhido, se estabeleça na humanidade a vida eterna.

É importante recordar e jamais esquecer que “Deus deu o seu Filho” para a humanidade. O mundo inteiro é convidado a receber esse dom do Pai. Quem o acolhe, recebe a vida eterna. Essa, a vida eterna (em grego zwh. aivw,nioj – zoé aiônios), não significa uma vida no além. “Eterna” aqui não é a duração, mas é a qualidade da vida de quem acolhe Jesus e seu evangelho. A “vida eterna” não é um prêmio que os bons receberão no futuro, como pensavam os fariseus e ainda pensam muitos cristãos. A vida se torna eterna quando se faz opção por Jesus e seu projeto. Essa vida é eterna porque é tão plena, a ponto de nem a morte poder destruí-la. À medida que o ser humano encontra sentido para a sua existência, ele eterniza a sua vida. E o sentido pleno da vida só pode ser encontrado quando se consegue viver bem como imagem e semelhança do Criador.

O segundo versículo reforça o que diz o primeiro: “De fato, Deus não enviou o seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (v. 17). Se o primeiro declarava o que o Filho de Deus veio fazer entre nós, esse segundo diz o que não veio fazer: julgar! Aqui é necessário fazer uma pequena observação a respeito da tradução do texto litúrgico: ao invés do verbo “condenar”, é mais apropriado usar a expressão “dar sentença” ou o verbo “julgar” (verbo grego kri,nhw - krinô), uma vez que a condenação seria o efeito do julgamento. Portanto, Deus não enviou seu Filho nem mesmo para julgar. Só condena quem antes julga. Como Deus só sabe amar, não julga e, portanto, não condena ninguém.

Mais uma vez Jesus contradiz a ortodoxia judaica, ao excluir a ideia de Deus como um juiz. Obviamente, quem esperava um messias juiz que viesse ao mundo para separar os bons dos maus, os puros dos impuros e, assim, salvar os primeiros e condenar os segundos, não poderia acreditar no Deus que Jesus veio revelar: um Pai louco de amor, apaixonado pela humanidade, a ponto de dar o próprio Filho. Quem julga e condena são os próprios seres humanos com suas religiões falsamente fundadas em nome de Deus. O Deus de Jesus nem a juízo leva. Enquanto os homens julgam, Deus apenas justifica, ou seja, apenas salva, porque de quem é amor só pode sair amor.

O mesmo Deus que doou livremente o seu Filho, deu também liberdade à humanidade, de modo que essa pode acolher ou não o seu Filho, Jesus. A acolhida se dá pela fé, uma adesão profunda capaz de deixar-se conduzir pelo seu amor.  Por isso, Jesus disse: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito” (v. 18). O ser humano que rejeita a oferta de vida em plenitude que é Jesus, fica privado da qualidade de eternidade em sua vida e, portanto, estará condenado. Isso não depende de um juízo divino, é escolha do ser humano. Deixar de acreditar no nome do Filho unigênito é se recusar a fazer comunhão com ele.

Aceitar o dom do Pai, Jesus, não significa abraçar uma doutrina, repeti-la e até impô-la, como muito se fez ao longo da história, e ainda se faz até hoje. A oferta que Deus fez e faz é livre, como livre deve ser a resposta. A imposição é falta de segurança e de consistência no anúncio. O Pai simplesmente enviou, doou.... Sua proposta é sempre positiva. Ele não julga, nem condena.

O Evangelho não diz se Jesus conseguiu convencer Nicodemos. Provavelmente sim, pois ele aparecerá em mais dois episódios, sempre tomando partido por Jesus: defendendo-o da ira dos fariseus quando tinha se apresentado como fonte de água viva (cf. 7,50) e ajudando no seu sepultamento (cf. 19,39). Certamente, o diálogo com Jesus lhe comoveu. Mesmo que não tenda aderido completamente a Jesus, passou a ver com outros olhos aquela rígida doutrina judaica.

Assim como serviu para Nicodemos, que a face do Pai louco de amor que Jesus apresenta hoje sirva para, pelo menos, compararmos se o Deus em quem acreditamos parece com o Deus de Jesus ou se é apenas aquele das religiões: juiz e soberano, aplicador de castigos ou prêmios.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
  

sábado, junho 03, 2017

REFLEXÃO PARA O DOMINGO DE PENTECOSTES – JOÃO 20,19-23


Para o domingo de pentecostes, o texto evangélico oferecido pela liturgia é João 20,19-23, o relato da primeira manifestação do Senhor ressuscitado à comunidade dos discípulos, no primeiro dia da semana. Esse texto já foi usado pela liturgia, como parte do Evangelho do segundo domingo da páscoa: Jo 20,19-31.

Ao contrário do que Lucas propõe em Atos dos Apóstolos, a comunidade joanina fez de tudo para que os seus referenciais não coincidissem com os esquemas litúrgicos judaicos. De fato, o envio do Espírito Santo no dia da festa judaica de Pentecostes é um elemento exclusivamente lucano. Pentecostes era uma das três grandes festas judaicas de peregrinação (Páscoa, Pentecostes e Festa das Tendas), era celebrada no quinquagésimo dia após a festa dos ázimos, a páscoa.

Para a comunidade joanina, o Senhor ressuscitado doa o Espírito, seu dom maior, no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o esquema lucano, a proposta da comunidade joanina tem mais sentido e responde melhor às necessidades dos discípulos, como vemos no Evangelho de hoje.

Embora estejamos, de fato, há cinquenta dias da páscoa, o Evangelho nos convida a retornarmos para aquele primeiro dia, o da ressurreição. Somente Maria Madalena tivera, até então, o privilégio de ver o Ressuscitado. Entre os discípulos reina o medo e a dúvida, como diz o texto: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles disse: a paz esteja convosco” (v 19).

Certamente, aquele foi um dia de muita tensão entre os discípulos. Isso se evidencia pelas informações do primeiro versículo: “reunidos de portas trancadas, por medo dos judeus”.  Embora a versão litúrgica do texto use a expressão “portas fechadas”, o evangelista usa mesmo é “de portas trancadas”, (em grego tw/n qurw/n kekleisme,nwn – ton thyron kekleisménon). Isso denota insegurança e medo em demasia. Era uma comunidade em crise, desmoronando.

Embora em crise e amedrontada, parece que a comunidade estava decidida a não voltar mais aos esquemas de sempre: estava reunida “ao anoitecer do primeiro dia da semana”. Segundo o esquema litúrgico judaico, o anoitecer já não fazia mais parte do mesmo dia. Na embrionária comunidade cristã é necessário que o dia se prolongue, ou seja, as trevas não podem prevalecer sobre a luz.

A situação de medo em que os discípulos se encontravam deve ser vista em um sentido mais amplo. Embora o evangelista afirme que era por “medo dos judeus” (em grego fo,bon tw/n VIoudai,wn – fóbon ton iudaion), não podemos generalizar. Nem todos os judeus transmitiam medo aos discípulos. O evangelista se refere às autoridades e fariseus que sempre foram hostis a Jesus e, continuavam sendo também aos discípulos (cf. 9,22; 12,42; 16,16).

Enquanto não fizer uma experiência de encontro com o Ressuscitado, toda comunidade tende a fechar-se por medo e falta de convicções. Naquele medo estava a angústia, a desilusão e o remorso de alguns. O medo é, portanto, a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado, toda comunidade perece.

Diante dessa situação, eis que “Jesus entrou e, pôs-se no meio deles”. Aqui aparece a primeira condição para a comunidade superar a crise: ter Jesus como centro. Com isso, o evangelista reforça o modelo de comunidade ideal: uma comunidade livre, igualitária, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. Trata-se de um claro combate à tendência hierarquizante na comunidade do discípulo amado. É esse o significado do seu colocar-se no meio.

Somente tendo o Ressuscitado como centro, a comunidade pode acolher os seus dons. E o primeiro dom oferecido é a paz. A tradução litúrgica diz “a paz esteja convosco”, mas o correto é “paz a vós” (em grego eivrh,nh u`mi/n – eiréne himin), quer dizer que essa paz é atemporal, não pode faltar jamais na comunidade. A paz é sinal da vida em plenitude, o bem-estar do ser humano em todas as suas dimensões, sinal da autêntica felicidade. Obviamente, se o Ressuscitado não estiver no centro, a comunidade não poderá alcançar esse estado de vida.

Na continuidade da experiência, Jesus mostra as mãos e o lado (v. 20a), ou seja, as marcas do sofrimento, da cruz, garantindo a continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Com isso, Ele diz que a cruz não foi o fim. Assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o motivo principal da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. A cruz não foi um acidente nem algo a ser esquecido pela comunidade; pelo contrário, foi consequência das opções de Jesus, e as opções da comunidade devem ser as mesmas. Portanto, é necessário que os discípulos estejam sempre habituados com a cruz.

Finalmente, o medo foi vencido: “os discípulos se alegraram por verem o Senhor”. Conforme Ele mesmo tinha garantido, a tristeza dos discípulos foi transformada em alegria (cf. Jo 16,20). De uma situação de medo, a comunidade passa à alegria, como consequência da experiência com o Ressuscitado. A alegria é uma característica marcante da comunidade que vive e celebra a presença do Ressuscitado.

A paz é novamente oferecida (v. 21a). Só é possível acolher plenamente os dons pascais com a paz oferecida por Jesus. É a mesma paz transmitida anteriormente como antídoto ao medo. Aqui, nessa segunda vez, a paz precede o envio, como encorajamento para a missão: não basta transformar o medo em alegria, é necessário anunciar e partilhar essa alegria... a alegria do Evangelho!

Ao contrário de Mateus e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (cf. Mt 28,19; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Jesus simplesmente envia. Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, o importante para o Quarto Evangelho é a comunidade. É essa a primeira destinatária da missão, porque é nessa que estão as situações de medo, desconfiança, falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado. Sendo portadores da sua paz, os discípulos são enviados com as mesmas credencias, pois Ele os envia como o “Pai o enviou” e, portanto, devem fazer as mesmas opções e assumir as respectivas consequências.

O texto mostra, como sempre, a conexão entre a prática e as palavras de Jesus: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Jesus tinha prometido o Espírito Santo na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, a promessa é cumprida, o Espírito é comunicado. O evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da criação do ser humano: “O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente (Gn 2,7). O verbo soprar (em grego evmfu,sa,w – empsáo) significa transmissão de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira.

Finalmente, a comunidade foi revivificada e habilitada para a missão. Ao receber o Espírito Santo (em grego pneu/ma a[gioj – pneuma háguios), a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro.

O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, devemos prestar muita atenção à afirmação de Jesus: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). Por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão, equivocadamente. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do ressuscitado a todas as pessoas e de todos os lugares. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado.

Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus. O Espírito Santo, doado pelo Ressuscitado, recria e renova a humanidade. A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29).

João, o batista, apontou para Jesus como o responsável por fazer o pecado desaparecer do mundo. Agora, é Jesus quem confia à comunidade essa responsabilidade.  Os pecados são perdoados à medida que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz e animada pelo Espírito. São essas as condições que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada!

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues


sábado, maio 27, 2017

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO – MATEUS 28,16-20



Neste domingo da ascensão, a liturgia nos oferece o texto evangélico de Mt 28,16-20, para nossa a reflexão e meditação. É importante destacar, logo no início, que o evangelho segundo Mateus não descreve a ascensão. Aliás, essa vem descrita apenas na obra lucana (cf. Lc 24,50-51; At 1,6-11) e no acréscimo redacional de Marcos (cf. Mc 16,19). Em Mateus, o que é narrada é a manifestação do Ressuscitado, como lemos hoje, com ênfase para a sua presença constante e perene na comunidade.

Podemos dizer que o texto de hoje é uma síntese conclusiva de todo o evangelho segundo Mateus. À medida que escreve suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fazem questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado. É isso que percebemos hoje. No entanto, mesmo supondo uma familiaridade com todo o evangelho, a principal chave de interpretação para o evangelho de hoje, está no relato do sepulcro vazio e ressurreição (cf. Mt 28,1-10), com as respectivas manifestações de um anjo do Senhor (v. 2) e do próprio Jesus (v. 9). Tanto o anjo quanto Jesus haviam dado às mulheres a missão de convencerem os discípulos a retornarem à Galiléia para, ali, fazerem eles também a experiência do encontro com o Ressuscitado.

Podemos, pois, compreender porque “Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus tinha indicado” (v. 20). A menção aos onze recorda a perda de Judas, o qual já não fazia mais parte do grupo. Mas, tem também um outro significado: o número doze representava um projeto de reconstituição do antigo Israel, alimentando a ideologia nacionalista e triunfalista. Esse projeto faliu, devido a rejeição de Israel, levando Jesus ao escândalo da cruz. À luz da ressurreição, a comunidade mateana, fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos, percebe que a missão universal não precisa mais ser configurada segundo as tradições de Israel. Por isso, o número onze não significa incompletude na comunidade, mas é sinal de uma nova perspectiva. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (cf. At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário abandonar os esquemas do judaísmo.

Segundo a recomendação, os discípulos foram para a Galileia, ao monte indicado (v. 20). Em Jerusalém acontecera a grande tragédia para a comunidade dos discípulos. Além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado lá florescer. Basta recordar o conluio dos poderes religioso, militar e político para desacreditar a ressurreição, com a ideia do roubo do corpo pelos discípulos (cf. 28,11-15). Portanto, o retorno à Galileia era motivo para a sobrevivência da comunidade e, ao mesmo tempo, para o reencontro com as motivações e bases originárias. Além das incompreensões ao longo da caminhada, inclusive disputa por poder (cf. 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte deixaram a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade de retorno ao ideal primeiro, ou seja, retornar à Galileia para fazer a experiência do monte. Aqui, não se trata de indicações geográficas, mas teológicas.

Ao longo de todo o evangelho, há muitas referências ao monte, desde o monte das bem-aventuranças (cf. 5 – 7) até o monte das oliveiras (cf. 24 – 25). É o lugar de encontro com Deus e com a sua palavra. Foi no monte que Jesus lançou o seu programa de vida, as bem-aventuranças (5,1-12), e esse convite para os discípulos retornarem à Galileia para o monte é exatamente para voltarem à essência do projeto de vida indicado por Jesus. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré e o Ressuscitado. A Galiléia como região desprezada entre os judeus é um alerta aos discípulos quanto aos destinatários primeiros do anúncio: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram” (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o verbo grego prosku,new – proskinêo, o mesmo usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (cf. 2,2). Esse verbo tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar e sujeitar-se somente ao que foi ensinado por Jesus, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da lei. Assim como os magos, os discípulos aceitam os valores do reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos lugares da terra.

A dúvida não faz mal à comunidade, pelo contrário; Nem mesmo Jesus vê problemas no duvidar, tanto que não irá repreender os discípulos por isso. Como o evangelista não diz o motivo da dúvida, nem mostra Jesus repreendendo-os, podemos dizer que ele está apresentando uma característica necessária para a comunidade do Ressuscitado. Para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas o amor. Portanto, quanto mais se dúvida, mais necessidade se tem de amar, e amar sem limites.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso de envio (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, são de envio e comissionamento. Ao dizer “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. Está também reivindicando para si a identificação com a figura do “Filho do Homem” de Daniel (cf. Dn 7,13-14) e, ao mesmo, tempo corrigindo: ao Filho do Homem de Daniel, foram dados poder e domínio. Jesus trocou o domínio pelo serviço (cf. Mt 20,28), preferindo exercer sua autoridade no amor. A verdadeira autoridade, motivada pelo amor, parte da periferia, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá a autoridade é exercida com base na mentira, no medo, no suborno e na violência.

Após uma pequena introdução (v. 18), segue-se o envio universalista e inclusivo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de autoridade. Ele não envia seus discípulos para impor nem dominar, mas para fazer novos discípulos, uma vez que no seu reino não há súditos, mas irmãos. Essa é, sem dúvidas, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de sociedade. Não envia os discípulos para doutrinarem ninguém, mas para apresentarem uma proposta de vida. Aqui, registramos a força do verbo empregado pelo evangelista para “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular”, maqhteu,w – matheteúô; com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos, os quais não são operadores de tarefas, mas seguidores de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado.

À missão de “discipular” é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade, obviamente, marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal exterior além do batismo. A fórmula trinitária expressa a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial de João Batista. A expressão “Em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria essência, expressa a totalidade do seu ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais que uma ordem: “ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v 20a). Tudo o que Ele ordenou ou ensinou não foi muita coisa, não foi uma doutrina, foi apenas um jeito de viver. O pronome indefinido tudo, em grego pa,nta – panta, expressa a totalidade do que Jesus ensinou e a preocupação para que nada seja acrescentado de secundário e que possa, inclusive, desviar a comunidade do que foi ensinado por Ele. E o que, de fato, Ele ensinou, como já afirmamos, foi um jeito de viver, proposto nas bem-aventuranças e em todo o discurso da montanha (Mt 5 – 7). O que os discípulos têm a ensinar, para que todas nações sejam “discipuladas” é a vivência das bem-aventuranças, e isso não é doutrina nem código, é vida concreta, é um jeito de ser.

A última frase de todo o evangelho é, na verdade, a síntese: a certeza da presença de Jesus na comunidade: “Eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo estar (em grego eivmi – eimí) no futuro, o evangelista o emprega no presente. A presença é um tema central no evangelho segundo Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. Por isso, com essa certeza, Mateus não tinha motivos para descrever Jesus subindo para o céu, como fez Lucas. O importante é que a comunidade possa sentir sua presença e que essa a estimule a viver e ensinar somente o que Ele ensinou.

O Ressuscitado está, de fato, presente na comunidade que vive o ideal de vida proposto nas bem-aventuranças. Nessa comunidade todos são discípulos e irmãos. Essa comunidade celebra, acolhe, convence pelo testemunho e coloca-se em saída para, com alegria, compartilhar tudo o que Ele ensinou!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, maio 13, 2017

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 14,1-12


Neste Quinto Domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece João 14,1-12 como texto do evangelho. Trata-se de um trecho do amplo discurso-testamento de Jesus na última ceia com seus discípulos, apresentado nos capítulos 13–17 do Quarto Evangelho. É importante recordar o que antecede o nosso texto para o compreendermos melhor. Em primeiro lugar, insistimos que, mais que uma simples degustação de comidas, a ceia é um momento de catequese, diálogo transparente, sincero e amável entre os participantes, no caso, Jesus e seus amigos.

Há quatro momentos importantes acontecidos na ceia que antecede o texto da liturgia de hoje: o lava pés ou o mandamento do serviço (cf. 13,1-15), o anúncio da traição de Judas (cf. 13,21-30), a entrega do mandamento do amor (cf. 13,31-35), e o anúncio da negação de Pedro (cf. 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (cf. 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como fim. Portanto, aquela ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperá-lo com a continuidade do seu discurso, tenta tornar suportável para seus discípulos a realidade de sua despedida, de seu adeus.

Podemos compreender a inquietação e a incompreensão dos seguidores de Jesus narrada por João. Por acusa desse mal-estar, Jesus pede: “Não se perturbe o vosso coração” (v. 1a). A palavra coração, no grego (h` kardi,a – hé kardia), encontra-se no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé; é o coração da comunidade que crê que deve estar tranquilo e não cada coração individualmente. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode abrir mão de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e mandamento. Mais que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Que esta estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões, já era sabido. Ele já havia confidenciado que havia entre eles um traidor, Judas, e um covarde, Pedro (cf. 13,21-30; 36-38), embora Judas já tivesse saído do ambiente da ceia, conforme relatado em 13,30.

O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus; por isso, ele pede que os discípulos renovem a adesão naquele que acompanharam até o momento derradeiro: “Tende fé em Deus, tende fé em mim também” (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao evangelho de João e aparece em todo o texto: o evangelista usa cinco vezes o verbo grego pisteu,w – pistêuô,  que significa confiar, acreditar ou ter fé (cf. vv. 1.11.12). O número cinco não é à toa; é o número da Torah. Não estaria João dizendo aos seus seguidores que a confiança deles deveria mudar de foco, que ele próprio é a Torah e que eles não precisavam mais das tábuas da Lei mas da Nova Lei (seu evangelho), inscrita em seus corações pelo Espírito? A fé da comunidade estava abalada: como confiar em um mestre que se fez escravo e lavou os pés de todos? (cf. 13,1-15). Para quem alimentava as esperanças messiânicas tradicionais, como Pedro, o gesto do lava-pés era inconcebível (cf. 13,6-9). Portanto, o que Jesus pede a eles é uma fé renovada e ressignificada, o que também é exigido de nós, discípulos de hoje.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga, o templo, fora transformada em casa de negócio (cf. Jo 2,16). Por isso, a afirmação categórica e firme: “Na casa do meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós” (v. 2); essa é, sem dúvidas, uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos pela tradição cristã católica, principalmente. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada eterna, nem o prometendo aos seus discípulos. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas.

No templo de pedras, a antiga casa do Pai, havia uma única morada; as pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar em espírito e em verdade (cf. Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (cf. Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Ao invés de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: “voltarei e vos levarei comigo, afim de que onde eu estiver, estejais também vós” (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo levá-los para o céu, mas dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será casa do Pai quando nela vigora a lei do amor e sua aplicação prática, o serviço.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho (v. 4) ou método para todo esse processo de ida-retorno-presença, ou seja, morte-ressurreição, melhor traduzido por amor-doação. No entanto, a incompreensão persiste neles, embora somente Tomé seja sincero o suficiente para confessar a ignorância: “Tomé disse a Jesus: Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (v. 5). Como sempre, a sinceridade de Tomé se torna notável, apesar do equívoco. De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade; ele vê a morte como fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado no episódio da reanimação de Lázaro: “Nós iremos para morrer com ele” (Jo 11,16).

À pergunta de Tomé, Jesus responde reivindicando a condição divina para si, acompanhada de três predicados e reforçando a certeza de que Ele é o único mediador entre Deus e a humanidade: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v. 6). “Eu sou”, em grego evgw, eivmi – egô eimí, é a fórmula típica da auto revelação de Deus ao longo da história (cf. Ex 13-15) e aplicada a Jesus no Quarto Evangelho. A tríplice predicação parece enigmática, mas na verdade é simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve uma regra, não estabelece uma lei nem deixa uma doutrina; as dúvidas nos discípulos surgem daí. Para simplificar, Jesus diz que é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa.

Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus apenas diz que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa; o itinerário a ser percorrido é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é o seu ensinamento e a vida a ser vivida é aquela que Ele deu em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida, em grego o`do.j – hodós, avlh,qeia – aletéia, e zwh, – zoé, respectivamente. Certamente, Jesus pensou no sentido prático dos termos: sem Ele a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai.

Como a unidade entre Jesus e o Pai já foi ressaltada na certeza das moradas em sua casa (vv. 2-3), e na sua resposta a Tomé, não nos prenderemos tanto à pergunta de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (v. 8). A resposta de Jesus mostra uma espécie de lamentação pela falta de conhecimento do Pai nos discípulos, considerando que tudo o que fizera até então fora mostrar o rosto do Pai através dos sinais realizados e, sobretudo, do amor transmitido. Por isso, a repreensão: “Há muito tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai.” (v. 9). É claro que as vozes de Filipe e Tomé representam a voz da comunidade toda.

A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades de hoje também. É perceptível que o Quarto Evangelho concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. Em João, discípulos secundários para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, tem um certo protagonismo (cf. 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo, o discípulo amado. Essa observação nos leva a concluir que, para a tradição joanina, o modelo de organização não está baseado em uma relação hierárquica, mas fraterna, tendo como base única o amor.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 11). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica em compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (cf. Jo 10,10).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues