Páginas

REFLEXÃO PARA O XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 6,41-51 (ANO B)




Na liturgia deste décimo nono domingo do tempo comum, continuamos a leitura do capítulo sexto do Evangelho segundo João. No texto proposto para hoje – Jo 6,41-51 – Jesus continua seu discurso de auto apresentação como pão descido do céu e alimento para a vida. Esse discurso é a resposta de Jesus à multidão que, alimentada pelo pão partilhado na outra margem do mar (ou do lago), e maravilhada com o sinal cumprido, quis logo proclamá-lo rei, imaginando tirar cada vez mais proveito de suas ações prodigiosas. Jesus refugiou-se, percebendo a interpretação equivocada, mas a multidão o encontrou novamente querendo pão gratuito com fartura. Jesus percebeu tais intenções e, aproveitando a oportunidade, chamou a atenção para a importância de um alimento duradouro e essencial: a sua própria pessoa, pão vivo descido do céu, enviado pelo Pai para dar vida ao mundo.

A auto apresentação de Jesus como pão descido do céu e alimento para a vida eterna foi duramente criticada e questionada pelos seus ouvintes, praticantes da religião tradicional. Para esses, a única referência de pão descido céu era o maná do deserto, mas aquele era um alimento perecível, tanto que os antepassados que dele se alimentaram, morreram todos. Portanto, a afirmação de Jesus soava como pretensão e afronta. Por isso, o questionamento: “Os judeus começaram a murmurar a respeito de Jesus, porque havia dito: ‘Eu sou o pão que desceu do céu” (v. 41). Quando João menciona “os judeus”, não se refere a todo o povo, mas às autoridades religiosas, quem mais se incomodava com as afirmações de Jesus. De fato, as declarações de Jesus eram verdadeiras ameaças para aquela religião, pois abriam caminho para a humanidade encontrar-se diretamente com Deus, através da sua pessoa, dispensando a mediação dos líderes religiosos.

O murmúrio, mais que um simples lamento, é uma contestação da graça e do poder de Deus, por isso, é um pecado. É a atitude de um povo rebelde e fechado que rejeita a libertação oferecida por Deus, como acontecera no deserto: “Murmuraram contra Moisés e contra Aarão todos os filhos de Israel, dizendo consigo toda a assembleia: antes tivéssemos morrido na terra do Egito! Estamos morrendo neste deserto!” (Nm 14,2). O murmúrio das autoridades religiosas contra Jesus é, portanto, a confirmação do fechamento de Israel, desde o antigo êxodo, à proposta libertadora de Deus, levada a cumprimento em Jesus de Nazaré.

Para desqualificar Jesus e negar a sua condição divina, alegam a sua origem humana e simples: “Eles comentavam: ‘Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?” (v. 42). Como a religião oficial tinha caricaturado Deus como um soberano distante da terra, inacessível ao ser humano, as afirmações de Jesus soavam como absurdas. Segundo aquela mentalidade, era impossível que aquele Deus pudesse ser manifestar através de um simples carpinteiro. Sendo habitante da região, com pai e mãe conhecidos, Jesus não tinha credencial de revelador de Deus, segundo a imagem de Deus criada por aquela religião. Como ser imensamente superior, Deus só poderia se manifestar através de sinais extraordinários, jamais em um homem pobre e ousado como Jesus. Se aceitassem Jesus como revelador do Pai, estariam desconstruindo um discurso sustentado há séculos e colocando em risco seus privilégios. Ao associar Jesus a seus pais terrenos, os judeus afirmavam que ele não poderia ter descido do céu.

Jesus não entra diretamente na discussão, pois não sente necessidade de reafirmar a sua origem divina para aquele povo duro de coração. Apenas interrompe o comentário, repreendendo as murmurações: “Jesus respondeu: Não murmureis entre vós” (v. 43). Jesus não quer a perpetuação dos erros de Israel que, historicamente, tem interpretado mal a presença de Deus em seu meio, rejeitando-o inúmeras vezes. Com muita tranquilidade e consciência, Jesus deixa claro que é preciso deixar-se atrair pelo Pai para chegar até ele: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia” (v. 44). Não obstante as rejeições sofridas, Jesus reforça sua confiança no Pai e a relação intrínseca entre os dois. Se foi o Pai que o enviou, é também o Pai que atrairá cada um a si. Na história da salvação, a iniciativa é sempre de Deus, cuja expressão máxima é a ressurreição. Quem se deixa atrair pelo Pai e vai a Jesus, terá a plenitude da vida, não como prêmio, mas como consequência.

Em Jesus, toda a humanidade tem a oportunidade de unir-se a Deus, através do discipulado gerado pela escuta do Pai (cf. v 45). Ora, escuta o Pai quem se deixa conduzir pela sua Palavra eterna, o seu filho Jesus, cujo convite já ressoava desde os tempos dos profetas. O Evangelho de Jesus é a voz do Pai ecoante no mundo e acessível a toda a humanidade. Ainda como resposta ao murmúrio dos seus adversários, Jesus reforça sua condição de único mediador entre o Pai e a humanidade: “Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai” (v. 46). Somente pode revelar com clareza o rosto amoroso do Pai quem vive em comunhão plena com ele e dele foi gerado. Enquanto a religião oficial comercializava um personagem distante, violento e vingativo, caricaturado de Deus, Jesus em sua simples condição humana revelava de modo claro a identidade do Pai, o qual não exige sacrifícios nem ofertas, mas apenas uma adesão de fé.

 De fato, disse Jesus: “Em verdade, em verdade, vos digo, quem crê, possui a vida eterna” (v. 47). Crer (em grego: pisteu,wn – pistêuo), aqui, significa deixar-se conduzir pelo Evangelho, aceitando-o como único programa de vida. Como consequência, quem faz essa adesão se torna possuidor da vida eterna, a qual não é uma vida no além, como prêmio para quem praticou boas obras, mas um dom oferecido já nesta vida a quem conduz a sua existência de acordo com o Evangelho. O evangelista faz questão empregar o verbo possuir no tempo presente: quem crê já é possuidor da vida eterna. Essa, a vida eterna (em grego: zwh.n aivw,nion – zoén aiónion) é a vida conduzida conforme a de Jesus, a qual nem a morte é capaz de destruí-la.

Mais uma vez se apresentando como pão da vida e alimento perene (cf. v. 48), Jesus põe em questão o maná comido pelos antepassados no deserto, mostrando a ineficácia daquele alimento: “Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram” (v. 49). Jesus dá mais um sinal de rompimento com aquela tradição ao falar “vossos pais” ao invés de “nossos pais”, pois ele também era judeu de origem; ele quer se distanciar de uma tradição ultrapassada, fechada em seus próprios conceitos e incapaz de abrir-se ao novo. Todos os que foram alimentados pelo maná no deserto, morreram sem entrar na terra prometida. Mesmo assim, os judeus continuavam “devotos” do maná, considerando-o como o único alimento descido do céu. Jesus quer se contrapor: está sendo dada a oportunidade de provarem um alimento verdadeiramente descido do céu, ele mesmo, como disse: “Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá” (v. 50).

Apresentando-se como pão, Jesus garante a sua eficácia como alimento e deixa ainda mais clara a oferta total de si para a vida do mundo: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (v. 51). Ora, o maná no deserto fora dado a um povo específico e privilegiado que, mesmo assim, murmurava constantemente. A oferta de Jesus é universal, não é mais para a vida de um povo, mas para a vida do mundo. A sua oferta é universal, porque tem a humanidade toda como destinatária, e total, porque é a inteireza do seu ser, é carne e espírito. Aceitar essa oferta é condição para viver eternamente. Se é pelo dom da sua carne que é dada vida ao mundo, também é na condição carnal que o ser humano é chamado a acolher a salvação, quer dizer, nas contradições da existência terrena. Do pão enquanto palavra, passa-se ao pão enquanto carne, abrindo assim o discurso para uma perspectiva eucarística. Porém, a leitura do discurso será interrompida no próximo domingo para a solenidade da assunção de Nossa Senhora.

Acolher Jesus como pão descido do céu é aceita-lo como único mediador e revelador do Pai. Recebe-lo como alimento perene é aceitar o Evangelho como único programa de vida. A insuficiência e ineficácia do maná está ficando cada vez mais clara no discurso de Jesus, assim como o pão partilhado para a multidão no outro lado do mar. Com isso, se torna cada vez mais necessário e urgente que o único alimento, realmente duradouro e capaz de gerar vida eterna é o próprio Jesus na inteireza do seu ser.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 6,24-35 (ANO B)




Neste décimo oitavo domingo do tempo comum, continuamos a leitura do capítulo sexto do Evangelho segundo João. Embora a liturgia salte alguns versículos (cf. Jo 6,16-23), o texto proposto para hoje – João 6,24-35 – está em perfeita continuidade com aquele do domingo passado (cf. Jo 6,1-15). Após o sinal da partilha ou multiplicação dos pães, a multidão, saciada e impressionada com o sinal cumprido por Jesus, teve a tentação de querer proclamá-lo rei, o que fez com que Jesus se afastasse, pois aquela ideia era uma distorção do sinal cumprido e da sua própria missão de enviado de Deus. Uma interpretação equivocada dos sinais cumpridos por Jesus e da sua identidade de messias servidor colocava em risco a eficácia do seu projeto de redenção e vida plena para a humanidade inteira.

Enquanto Jesus se refugiou para não alimentar os anseios triunfalistas e interesseiros da multidão, essa o procurou até encontra-lo, já na outra margem do mar ou lago, na cidade de Cafarnaum, como mostra o texto: “Quando a multidão viu que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, subiram ás barcas e foram à procura de Jesus, em Cafarnaum” (v. 24). Embora Jesus mesmo tenha se afastado, era compreensível a ânsia da multidão querendo estar ao seu redor, uma vez que essa é a mesma multidão que padecia, abandonada como ovelha sem pastor, de quem Jesus sentiu compaixão (cf. Mc 6,34). Diante da multidão abandonada, Jesus agiu como pastor e guia, ensinando o dom da partilha como primeiro meio de superação da crise material pela qual passava. Porém, Jesus se preocupava com as reais intenções da multidão à sua procura e não queria alimentar falsas e ilusórias expectativas.

Ao encontrar Jesus, a multidão interage com ele, pela primeira vez: “Quando o encontraram no outro lado do mar, perguntaram-lhe: “Rabi, quando chegaste aqui?” (v. 25). A pergunta em si é pouco significativa e carente de profundidade, mas muito importante porque abre caminho para uma interação cada vez maior entre o Mestre – Rabi, em hebraico – e o povo. Ao dirigir essa pergunta, a multidão consegue ver Jesus como alguém acessível, o que poderia ser o início de uma nova compreensão a seu respeito. De fato, essa é a primeira vez que a multidão fala direta e abertamente com Jesus. Ao considera-lo mestre, abre-se a possibilidade para o nascimento de um novo discipulado. De fato, fazia parte da pedagogia de Jesus gerar discípulos e discípulas a partir das multidões anônimas.

À pergunta da multidão, “Jesus respondeu: ‘Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos” (v. 26). Com bastante clareza e objetividade, Jesus expõe as intenções da multidão lhe procurar. Não se tratava de reconhece-lo e aceita-lo como aquele que Deus enviou ao mundo para salvar e dar vida em abundância (cf. Jo 3,16; 10,10), mas de querer perto de si alguém que fornece pão gratuitamente. Jesus sabia que estava sendo procurado pelo que tinha feito, e não pelo que realmente era. Porém, não desperdiçou a ocasião, mas aproveitou para iniciar uma ampla e profunda catequese, recordada pelo evangelista João como essencial para a sua comunidade e para a comunidade cristã de todos os tempos.

Cercado por uma multidão saciada recentemente por poucos pães e peixes, mas já faminta de novo, Jesus a convida a buscar algo muito maior e mais eficaz: “Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é que o Pai marcou com seu selo” (v. 27). Esse convite-imperativo se assemelha muito ao que Jesus já tinha feito à mulher samaritana que buscava água no poço de Jacó; ali, Jesus falara que a água daquele poço saciava por alguns momentos e, embora necessária, beber dela não era suficiente para o ser humano viver saciado. Por isso, ele falou de uma água que saciava para sempre (cf. Jo 4,1-42). Aqui, com a multidão, ele faz praticamente o mesmo: convida a alimentar-se com um alimento que não se perde, mas que permanece até a vida eterna. Esse alimento só pode ser dado por ele mesmo, pois é ele o Filho do Homem, marcado pelo Pai com o seu selo, o Espírito Santo e o amor que os une.

Com o sinal da partilha dos pães, Jesus tinha ensinado a multidão a superar, por si mesma, as suas dificuldades, principalmente o problema da fome. Com os pães e peixes apresentados pelo menininho, ficou a lição da partilha e solidariedade que brota dos pequenos. Aquele gesto poderia ser feito sem a presença física de Jesus, por isso, ele via como desnecessária a busca da multidão por algo que ela mesma era capaz de fazer. Daí, o convite para buscar algo mais profundo e não menos necessário: o alimento para uma vida plena, com sentido e dignidade plenos, a vida eterna, imune até mesmo à morte. O pão que nutre para a vida eterna, de fato, só pode ser dado por Jesus, porque é ele mesmo na inteireza do seu ser. Alimentar-se desse pão é assumir na concretude da vida o estilo de Jesus, fazendo escolhas semelhantes às suas, amando com um amor à sua maneira. É isso que gera eternidade de vida, pois, uma vida autêntica assim não pode ser destruída nem mesmo pela morte.

As palavras de Jesus geraram reflexão na multidão, e um desejo de aprofundamento, embora essa ainda estivesse presa à teologia retributiva da lei: “Então perguntaram: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” (v. 28). A pergunta sobre “o que fazer” é típica da mentalidade judaica, de quem foi educado para fazer e não para ser. Fazer obras para merecer algo é negar a salvação como dom de Deus. Por isso, a resposta de Jesus é categórica: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou” (v. 29). Embora fosse uma característica das comunidades paulinas, parece que a dicotomia entre fé e obras estava presente também na comunidade joanina. Pelo menos é isso que esse trecho revela. A resposta Jesus esclarece que não se trata de um fazer, mas de acreditar nele. É claro que aquilo que se deve fazer é importante, mas isso deve partir de uma adesão livre e consciente, e não de uma mera imposição legal. A vida cristã é marcada pelo agir, mas não porque há uma regra que determine, mas sim porque quem dá adesão a Jesus, pela fé, é motivado a agir como ele, servindo, sanando dores e feridas, sobretudo, dos mais necessitados.

Na continuidade da interação entre Jesus e a multidão, da qual surgirá a grande catequese eucarística, a qual será continuada nos próximos domingos, percebemos a curiosidade e o desejo da multidão em aderir à proposta de Jesus, e ao mesmo tempo os entraves ideológicos de uma religião conservadora, ritualista e legalista, como era o judaísmo da época. Por isso, a exigência de sinais e prodígios, e a comparação com o passado: “Eles perguntaram: “Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obra fazes?  Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer” (vv. 30-31). O evangelista mostra, com isso, a sua preocupação com a comunidade que necessita ver a realização de sinais para crer. Isso é impor condições, o que faz tornar secundário aquilo que é essencial: o amor gratuito e incondicional de Deus, ou seja, a graça. Catequizados pelas narrativas portentosas do Pentateuco – a Lei/Torah – as quais exaltam exageradamente os atos de Moisés, as pessoas tinham dificuldades de assimilar e aceitar que Deus pudesse se revelar na simplicidade de Jesus. A menção à experiência do deserto e aos pais que lá comeram o pão, o maná, evidencia a denúncia que o evangelista mostra de como o apega às tradições podem bloquear a comunidade de sentir a graça e o amor vivificante e gratuito de Deus revelado em Jesus.

Jesus responde de modo categórico: “Em verdade, em verdade vos digo, não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dará o verdadeiro pão do céu, pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (v. 32-33). A fórmula “em verdade, em verdade” (em grego: avmh.n avmh.n – amén, amén) sempre introduz um ensinamento de fundamental importância. E a distinção entre Jesus e todos os personagens do Antigo Testamento é muito importante e indispensável para a sobrevivência da comunidade cristã. Jesus esclarece que, na verdade, até mesmo aquele pão comido no deserto pelos antepassados já era dom de Deus, e não obra de Moisés; e aproveita para apresentar a sua novidade, como o verdadeiro “pão de Deus”, o que continua despertando curiosidade e interesse na multidão que pediu: “Senhor, dá-nos sempre desse pão” (v. 34), assim como a samaritana tinha pedido a água eterna.

Jesus percebe que o caminho estava preparado para iniciar a sua grande catequese eucarística: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (v. 35). De doador de pão que alimenta por poucas horas, Jesus se apresenta como o próprio pão que alimenta para a vida toda. Aceitar essa revelação implica criar intimidade com ele, deixar-se alimentar pela sua vontade e, consequentemente, ter toda a vida conduzida conforme o seu modo de viver. Aqui está o início do grande discurso eucarístico de Jesus no Quarto Evangelho, o qual será continuado na liturgia dos próximos domingos.

Impressiona a pedagogia de Jesus: de uma realidade material e efêmera, o pão partilhado que alimentou a multidão, ele eleva o seu auditório ao conhecimento de algo muito mais profundo, que é o dom da sua pessoa como enviado do Pai para, nele, o mundo todo ter vida em abundância. Para isso, a comunidade deve tê-lo como único centro e referência a ser seguida. Se a eucaristia dominical, e até diária, não leva a essa centralidade, não passa de uma versão nova do maná comido pelos antigos israelitas no deserto. A eucaristia alimenta para a vida eterna quando seus partícipes aderem à maneira de viver de Jesus.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 6,1-15 (ANO B)




Neste décimo sétimo domingo do tempo comum, interrompemos, mais uma vez, a leitura do Evangelho segundo Marcos, para uma sequência de cinco domingos nos quais leremos o capítulo sexto do Evangelho segundo João. Para hoje, especificamente, a liturgia contempla os primeiros quinze versículos: Jo 6,1-15, relato do episódio chamado popularmente de “multiplicação dos pães”, embora esse não seja o título mais apropriado. Considerando a extensão do texto, não comentaremos cada versículo, mas procuraremos colher a mensagem geral de todo o texto, embora seja necessário dar maior atenção a alguns versículos específicos.

Antes de contextualizar o texto no conjunto do Quarto Evangelho, é importante recordar que, no domingo passado, ao ler e refletir o texto do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 6,30-34), destacava-se a reação e o sentimento de Jesus diante da multidão que o seguia: “teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,34). Como não bastava o ensinamento, a esse seguiu-se o gesto da partilha dos pães (cf. Mc 6,35-42), como resposta à situação de abandono e sofrimento vividos pela multidão. Jesus sabia muito bem associar ensinamento e práxis, como deve fazer a comunidade cristã em todos os tempos. Os sentimentos de Jesus eram acompanhados de respostas concretas aos sofrimentos das pessoas.  

O episódio da “condivisão dos pães”, expressão mais apropriada que multiplicação, é o único milagre ou sinal de Jesus narrado pelos quatro Evangelhos, com seis versões (Mateus e Marcos narram duas vezes), sendo que a versão joanina é a mais rica em detalhes e, consequentemente, em teologia. Além da riqueza ímpar do relato, João usa o milagre como introdução para uma profunda catequese eucarística, através do longo discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, se auto apresentando como pão da vida e alimento perene para a humanidade, como veremos nos próximos domingos. No conjunto dos sete sinais (ou milagres) operados por Jesus no Evangelho segundo João, esse é o quarto, assumindo uma centralidade tanto literária quanto teológica.

O texto diz que “Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades” (v. 1). Embora fosse apenas um lago, o evangelista se refere como mar para chamar a atenção do leitor e evocar uma cena de libertação. De fato, passar de uma margem a outra do mar é sempre uma recordação do Êxodo, evento fundante da história de Israel, embora seus frutos já não fossem mais experimentados, ou seja, o povo não vivia mais conforme a liberdade sonhada por Deus; tinha voltado a ser escravo do sistema dominante religioso e político e de suas próprias concepções equivocadas de Deus. Por isso, a mensagem de Jesus é um convite à libertação porque o seu povo tinha se tornado escravo novamente.

O destino do novo êxodo não é uma terra distante nem uma vida no além: é o Reino de Deus, um sistema baseado na partilha, solidariedade, amor, justiça e dignidade. Para ingressar nesse, não são necessárias longas caminhadas, mas somente a conversão, ou seja, a mudança de mentalidade. Mesmo na posse da terra, Israel deixou de ser livre ao reproduzir o sistema do antigo opressor. Por isso, o que Jesus propõe é uma mudança de mentalidade e consciência, ou seja, uma mudança interior que, no entanto, conduz a novas práticas, como a partilha, foco central do Evangelho de hoje. Porém, reduzir esse trecho do Quarto Evangelho a uma mera comparação com o antigo êxodo é um grande reducionismo.

Jesus chamava a atenção das pessoas e atraía a multidão em seu seguimento “porque viam os sinais que ele operava a favor dos doentes” (v. 2). Ao mencionar os doentes, o evangelista enfatiza a prática de Jesus em favor dos mais necessitados, pobres e vulneráveis. Os doentes representam as categorias de todas as pessoas excluídas, sofredoras e abandonadas, de quem Jesus sentiu compaixão (cf. Mc 6,34). As multidões se admiram com Jesus, por isso o seguem. Ora, era difícil alguém se preocupar com os marginalizados da sociedade, principalmente os doentes; naquela época, a doença era considerada como castigo pelos pecados, o que tornava o doente uma pessoa desprezível. Como Jesus priorizava as pessoas que o sistema descartava, muitos o viam como sinal de esperança e de mudança, por isso, muita gente o seguia.

As multidões seguiam Jesus enquanto “estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus” (v. 4). Com isso, o evangelista enfatiza Jesus como único sinal autêntico de libertação e alternativa para aquele povo abandonado como ovelha sem pastor. A páscoa, como “festa dos judeus”, tinha sido transformada em instrumento de exploração, dominação e manutenção da ordem vigente. Mesmo sutilmente, o evangelista apresenta uma grande ironia: aquela festa celebrada em Jerusalém já não era Páscoa de Iahweh, mas “festa dos judeus” (em grego: h` e`orth. tw/n VIoudai,wn hé heorté ton Iudaion). Quando João usa o termo judeus, não se refere a todo o povo, mas às classes e grupos dirigentes, principalmente aos sacerdotes do templo que, de fato, tinham desfigurado o rosto verdadeiro de Deus. Portanto, Jesus é a alternativa de Deus à religião opressora do templo, e os primeiros a perceber isso são as pessoas mais simples e humildes, os pobres e excluídos que o seguem, quem tinha sido abandonado pelos maus pastores de Israel.

A multidão que segue Jesus é um povo com necessidades concretas que não podem ser ignoradas. A primeira necessidade é o alimento. Jesus se sente responsável, junto com seus discípulos, e transmite essa responsabilidade para a sua comunidade ao longo da história. Aquele seria um bom momento para medir o aprendizado e a maturidade dos seus discípulos, por isso, provocou Filipe, mesmo já sabendo o que iria fazer: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (v. 5). A resposta de Filipe é baseada em cálculos. Ele simplesmente apela para o campo da economia: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um” (v. 8). A tentação de Filipe é de reproduzir na comunidade do Reino as relações do sistema: compra e venda, enquanto a dinâmica da comunidade deve ser outra: a partilha.

André, outro discípulo, parece começar a compreender a lógica de Jesus, embora ainda não tenha muita convicção: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” (v. 9). Enquanto Filipe pensou em solucionar o problema com base na economia, André olhou para a própria comunidade, percebendo o que já tinha, mesmo reconhecendo não ser suficiente. Aqui está a transição para a proposta de Jesus, a lógica do Reino: a solução dos problemas da comunidade deve ser buscada em seu interior.

Os cristãos não podem esperar que o mundo ofereça condições para o Reino de Deus se estabelecer, mas são eles mesmos quem tem que começar a viver os valores do Reino, mesmo em condições desfavoráveis. Embora considerando insuficiente, a observação de André é muito importante: “um menino tem cinco pães de cevada e dois peixes”. Um menino era uma figura muito pouco representativa na época, sem nenhum valor reconhecido, uma vez que não produzia. Para enfatizar ainda mais esse aspecto, o evangelista emprega o diminutivo: um menininho (em grego: παιδαριον  paidárion). O pão de cevada era o alimento dos pobres, enquanto os ricos comiam o pão de trigo. Os dois peixes servem de complemento numérico para chegar a sete, número que evoca perfeição e totalidade. Mais tarde, a comunidade cristã adotou também o peixe como símbolo eucarístico.

O menininho com cinco pães e dois peixes é a imagem do discípulo e da comunidade cristã. Antes de tudo, para entrar na lógica do Reino é necessário fazer-se e reconhecer-se pequeno. Reino de Deus e grandeza são incompatíveis. Não importa a quantidade daquilo que se tem, mas a disposição de colocar a serviço do próximo. As soluções para os problemas da comunidade devem vir de dentro. Essa é saciada quando o pouco que tem é colocado em comum, quando cada um considera aquilo que tem como dom de Deus e, por isso, destina à partilha. O menininho não mostrou resistências, entregou o que tinha e “Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes” (v. 11). André lamentou que somente cinco pães e dois peixes não seriam suficientes. Jesus foi mais adiante: “tomou os pães e deu graças”, ou seja, agradeceu! O evangelista usa aqui o verbo grego ευχαριστεω (eukaristêo), do qual provém a palavra Eucaristia, cujo significado é agradecimento/rendimento de graças. Ao invés de lamentar-se, Jesus agradeceu pelo pouco que tinha e, daí, veio a abundância.

Muitos pormenores e dúvidas ficam, certamente, nas entrelinhas do texto, o que não ofusca o grande ensinamento de Jesus para a sua comunidade. André observou que um menininho estava com cinco pães e dois peixes, mas não diz que era somente aquele. O importante é que alguém teve de coragem começar a colocar à disposição dos outros o pouco que tinha, e Jesus agradeceu por aquilo. No final, todos ficaram satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o alimento, o pão de cada dia. Tendo ficado todos satisfeitos, percebendo o que ainda tinha sobrado, “Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” Recolheram os pedações e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido” (v. 12-13). O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos e todas. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma prática constante na comunidade.

Assim como todos os sinais cumpridos por Jesus no Evangelho segundo João visam a manifestação da glória de Deus e o despertar da fé no Verbo Encarnado, também o sinal da condivisão dos pães despertou reação e reconhecimento: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo” (v. 14). Porém, essa é uma imagem insuficiente para descrever Jesus. Vê-lo como simples profeta é colocá-lo em continuidade com a antiga aliança e, portanto, negar a insuficiência e decadência daquela aliança que ele denuncia com os sinais cumpridos. Inclusive, a continuidade dos sinais ao longo do livro, mostra a necessidade de Jesus continuar revelando sua novidade messiânica e a superação da antiga aliança.

A prova definitiva da incompreensão do povo em relação a Jesus está no último versículo: “Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (v. 15). Enquanto Jesus queria ver o povo livre e emancipado, ensinando inclusive a encontrar a solução para os problemas dentro da própria comunidade, o povo faz o contrário: ao invés de viver a liberdade, quer um soberano para si, alguém que o domine e governe. Para o problema da fome, por exemplo, Jesus mostrou que a comunidade tem capacidade de superar quando vive o espírito da partilha e da solidariedade. A proclamação de Jesus como rei seria uma deformação do seu messianismo, o que persistirá por muito tempo na comunidade, inclusive entre os discípulos, como mostrará João na última ceia, com a resistência de Pedro à atitude serviçal de Jesus no lava-pés (cf. Jo 13,6ss).

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome, por exemplo. O exemplo do menininho, colocando à disposição da comunidade os cinco pães e os dois peixes, e a atitude de Jesus rendendo graças pelo pouco que tinha, oferecem muitas luzes para os cristãos de todos os tempos. A comunidade não pode esperar ter condições necessárias para viver o programa do Reino, mas é ela mesma que tem que criar tais condições, encontrando dentro de si mesma a solução para os seus problemas, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, como veremos nos próximos domingos. Mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,30-34 (ANO B)




Neste décimo sexto domingo do tempo comum, o Evangelho proposto pela liturgia é Marcos 6,30-34, texto localizado entre os relatos do martírio de João Batista (cf. Mc 6,14-29) e a primeira multiplicação dos pães (cf. Mc 6,35-44). Mesmo intercalando esses dois importantes relatos, o Evangelho de hoje está diretamente em continuidade com aquele que refletimos no domingo passado (cf. Mc 6,7-13): os discípulos enviados dois a dois retornam da missão e contam a Jesus a experiência vivida, ou seja, o que fizeram e ensinaram nos povoados da Galileia por onde passaram.

Entre o envio em missão e o retorno dos discípulos, o evangelista relata um episódio que, embora saltado pela liturgia, não pode ser ignorado: a execução de João Batista por ordem de Herodes. Esse acontecimento, sem dúvidas, marcou a vida de Jesus e da sua comunidade, tanto pelo afeto que os unia quanto pela certeza ele tinha de ser, dentro de pouco tempo, também vítima do poder imperial. Porém, diante das necessidades das multidões, Jesus não se omite nem se deixa amedrontar. Mesmo abalado pela morte do seu mentor, prossegue a sua missão ainda mais encorajado, tendo em vista as necessidades do povo abandonado como ovelhas sem pastor.

Olhemos para o texto, o qual diz que “Os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado” (v. 30). Aqui está o elo de ligação entre o Evangelho de hoje e o do domingo passado: os apóstolos enviados retornam e contam tudo a Jesus. Essa é a única vez em que Marcos usa o termo apóstolos (em grego: avpo,stoloj – apóstolos), cujo significado literal é enviado. Nas outras ocasiões, o evangelista se refere aos discípulos mais próximos de Jesus apenas como os Doze, preservando o sentido original da palavra “apóstolos” como uma função, ao invés de considerar um título.

Como os Doze foram constituídos “para que ficassem com ele e para serem enviados a pregar” (cf. Mc 3,14), tendo retornado do envio, procuram logo “estar com Jesus”, a primeira necessidade e condição do ser discípulo. Como aquela fora a primeira experiência, obviamente tinham muito a contar sobre o que tinham feito e ensinado. “Reunir-se com Jesus” é uma necessidade para a comunidade perseverar e manter-se fiel aos seus ensinamentos. O evangelista recorda esse fato com muito interesse para a sua comunidade. Nas idas e vindas da vida e da missão, é necessário parar para estar com Jesus e confrontar com ele o que se faz e o que se prega. A comunidade cristã precisa ter tempo para constantemente confrontar suas ações, seu calendário e sua organização com a palavra de Jesus, os Evangelhos. Sem essa disposição, dificilmente manter-se-á fiel ao Evangelho.

Certamente, como era a do próprio Jesus, a missão dos apóstolos fora marcada pelas contradições que lhe são características: acolhida e rejeição, fé e incredulidade, elogio e difamação. A rejeição em Nazaré (cf. Mc 6,1-6) serviu de parâmetro para Jesus. Os discípulos, enquanto apóstolos, voltaram cansados e Jesus sentiu a necessidade do descanso. Por isso, “Ele lhes disse: vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (v. 31a). Porém, o descanso proposto por Jesus não é um mero lazer, mas um aprofundamento nas convicções da vocação e da missão. Por isso, Jesus os chamou para um lugar deserto. Ora, na linguagem bíblica, o lugar deserto é propício para o encontro com Deus. Aqui, o descanso dos discípulos no deserto significa, além do necessário e importante repouso físico, a meditação das palavras de Jesus, a oração e a necessidade de renovar constantemente as convicções.

Não era fácil para Jesus nem para os discípulos reservar um momento de descanso e retirada em um lugar deserto, pois “Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer” (v. 31b). Essa é a segunda vez em que o evangelista afirma que a presença das multidões ao redor de Jesus e dos discípulos os impedem até mesmo de comer; a primeira vez, fora na casa, em Cafarnaum, logo após a constituição dos Doze (cf. 3,20). Isso mostra que Jesus não ignorava as pessoas com suas necessidades, o que lhe custava muitas renúncias. Porém, a necessidade do descanso dos discípulos e o tempo para “ficarem sozinhos” com ele é irrenunciável; a comunidade precisa ser ensinada a sentir a necessidade desses momentos.

Mesmo sendo difícil, “Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado” (v. 32). O evangelista mostra a insistência de Jesus com os discípulos: a experiência do lugar deserto é indispensável, mesmo que não seja prolongada, tendo em vista as necessidades das pessoas. Na tradição profética, o deserto é o lugar onde “Deus fala ao coração” (cf. Os 2,16), por isso é indispensável para a comunidade fazer constantemente essa experiência. É importante ressaltar que, ao insistir com a ida ao lugar deserto, Jesus não estava fugindo do povo, nem induzindo os discípulos a fazerem o mesmo; pelo contrário, estava ressaltando a necessidade de aprofundar a experiência de Deus em suas vidas para compreender melhor as necessidades do povo e, assim, servir melhor.

Se antes, apenas com a pregação de Jesus, mesmo sofrendo rejeição em alguns lugares, as multidões já se aglomeravam ao seu redor (cf. Mc 2,1; 3,9.20; 4,1; 5,21), muito mais agora com a sua mensagem dilatada pela missão dos apóstolos. Isso tornava cada vez mais difícil encontrar o tempo necessário para a experiência irrenunciável do lugar deserto. Enquanto Jesus e os discípulos partiram de barco, “muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles” (v. 33). As multidões precedem a Jesus e aos discípulos no outro lado do lago. Saíam “de todas as cidades”, certamente, de onde tinham passado os Doze e de onde também Jesus já tinha passado.

Chegando ao destino, “ao desembarcar, Jesus viu numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas” (v. 34). Embora irrenunciável, a experiência do encontro do lugar deserto não pode se sobrepor às necessidades concretas das pessoas, principalmente das mais vulneráveis. Essa cena não pode ser ignorada pela comunidade que tem acesso ao Evangelho. O evangelista Marcos é muito econômico nas palavras: só utiliza a palavra compaixão em quatro ocasiões (cf. Mc 1,41; 6,34; 8,2; 9,22) que são situações de extrema necessidade. Ao invés de envaidecer-se com o aparente sucesso, pois as multidões o buscavam incansavelmente, Jesus sente compaixão. Compaixão quer dizer o amor profundo e máximo de Deus, que nasce das entranhas, comparável somente ao amor materno; literalmente, significa “contorcer as entranhas”, o núcleo mais profundo e íntimo do ser humano, conforme a mentalidade semítica.

O que fazia Jesus contorcer-se por dentro era a situação da multidão: “estavam como ovelhas sem pastor”. Essa comparação reflete o grau máximo de abandono e degradação do qual as multidões eram vítimas, e revela, ao mesmo tempo, a corrupção e hipocrisia dos dirigentes, tanto religiosos quanto políticos, a causa principal daquela situação. A imagem da ovelha é sinônimo de mansidão e vulnerabilidade; a ausência de um pastor que a conduza e proteja significa exposição aos perigos. A ausência de pastores que cuidem da multidão é uma nítida crítica aos dirigentes religiosos, principalmente.

O plano de retirar-se para um lugar deserto foi alterado porque havia uma necessidade ainda maior: cuidar das pessoas que estavam “como ovelhas sem pastor”, ou seja, exploradas e abandonadas pelos sistemas dominantes da época: a religião oficial judaica e o império romano. Assim como fez Jesus, também deve fazer a comunidade cristã em todos os tempos: ser flexível diante das situações que exigem ações concretas e urgentes. A necessidade da multidão fez Jesus alterar seu programa: “Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”. Ao contrário de Mateus que apresenta os diversos discursos de Jesus, Marcos apenas diz que Jesus ensinou, sem dar a conhecer o conteúdo. Porém, é sabido que seu ensinamento consistia no anúncio do Reino de Deus, marcado pelo convite à conversão para poder fazer parte desse Reino. Esse último versículo (v. 34) já introduz o episódio seguinte: o relato da primeira “multiplicação dos pães” (cf. Mc 6,35-44).

Embora curto, o Evangelho de hoje é bastante rico, como acabamos de refletir. Percebemos que, enquanto comunidade enviada por Jesus, é sempre necessário estar com ele e confrontar o anúncio e a práxis com aquilo que o Evangelho propõe. A comunidade não pode medir esforços nem pôr obstáculos aquilo que é essencial, incluindo o cuidado com as pessoas mais necessitadas. Se uma regra básica para o seguimento de Jesus é a disponibilidade para o serviço, as necessidades do próximo devem estar sempre em primeiro lugar, mesmo que sejam necessários sacrifícios para isso, como Jesus sacrificou o descanso dos discípulos que tinham acabado de chegar da missão.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,7-13 (ANO B)




O Evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que apresenta o envio missionário dos Doze por Jesus. Esse texto é apresentado pelo evangelista como a resposta de Jesus à rejeição sofrida em sua terra natal, Nazaré (cf. Mc 6,1-6), como refletimos no domingo passado. Ao sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito, os esforços deveriam ser dobrados daquele momento em diante. Era necessário que a missão fosse ampliada com urgência. Jesus tinha consciência de que aquela lamentável rejeição em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus habitantes na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o Israel. Por isso, enviou os Doze para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de Deus frutificassem mais rápido, tendo em vista a necessidade urgente: Israel padecia e não havia mais razão para retardar o advento do Reino.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que Jesus constituiu os Doze com duas finalidades: “E constituiu Doze, para que ficassem com ele, e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14). Ora até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando sua pregação e observando os sinais operados. O episódio de Nazaré faz Jesus perceber que era chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (cf. Mc 8,33; 10,35). No entanto, era necessário fazer um primeiro teste, tendo em vista as exigências das circunstâncias.

Ao invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da necessidade de ampliar a sua missão, por isso, “chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois” (v. 7a). Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova do Reino chegar a mais lugares simultaneamente. Jesus os envia dois a dois para enfatizar a dimensão comunitária da fé. Conforme a mentalidade judaica, para um acontecimento importante ser confirmado, era necessário o testemunho de pelo menos duas pessoas. Porém, para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária da vivência da fé. Não há razão alguma para individualismos na comunidade cristã; a fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja, comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos tem mais possibilidades de recordarem que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.

Jesus confere aos discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a sua própria presença durante a missão: “dando-lhes poder sobre os espíritos impuros” (v. 7b). Esses espíritos impuros são todas as forças do mal presentes no mundo que geram violência, injustiça, exclusão, morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável com o Deus da vida e com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como obstáculos à realização do Reino de Deus. Muitas vezes, esses elementos eram criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças físicas e psíquicas. O poder (em grego: evxousi,a – ekzussia) conferido sobre tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Não é um poder de domínio sobre as pessoas, mas o contrário: é o poder de combater tudo o que escraviza e priva o ser humano de sua liberdade e dignidade plenas.

O envio compreende algumas recomendações, das quais depende o êxito da missão: “Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (vv. 8-9). A austeridade e simplicidade de vida é exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus. O discípulo não deve ter outra preocupação além da anúncio da Boa Nova, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torna-lo sobrecarregado. A sobriedade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial, além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de adaptação ao que lhes for oferecido. Ao mandar que os discípulos andassem de sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a como um constante caminhar. O lugar do discípulo não é o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades.

Escrito há cerca de três décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho segundo Marcos já reflete uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial e chamar a atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida que Jesus propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus sobre esse aspecto: “E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida” (v. 10). Aqui, além de chamar a atenção dos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como hospedagem, também se chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e missionários em casa. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos, permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado. Permanecer quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida dos peregrinos e necessitados.

Tendo sido rejeitado em seu próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e possível, por isso, preveniu também os seus discípulos: “Se em alguma lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles” (v. 11). Essa recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado (cf. Mt 6,6) com a rejeição ali recebida, Jesus alerta os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos devem estar disponíveis a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é portador da Boa Nova. O “testemunho contra” não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, tão essenciais para o sentido da vida.

Dadas as instruções de envio, “Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem” (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de conversão. Ora, conversão (em grego: metanoia – metanoia) significa mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, inclusive a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo passasse por um processo de conversão, passando a uma jeito novo de conceber o mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados, propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de Deus.

Imediatamente, o evangelista já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: “Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo” (v. 13). A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Com muita probabilidade, esse Evangelho segundo Marcos foi escrito em Roma, durante a perseguição de Nero. Era uma época em que o mal prevalecia explicitamente, e a ação dos cristãos parecia ter pouco efeito no combate. No entanto, se as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão alcançados. O uso do óleo como um elemento medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade, e o cristianismo conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental. Os doentes são, em Marcos, a síntese do necessitado e, por isso, destinatários privilegiados dos anunciadores da Boa Nova.

Ao ler e meditar hoje esse trecho do Evangelho segundo Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao seu envio, para recuperar aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus, como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.

Se em apenas três décadas após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada mais urgente. Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem de viver radicalmente o que Jesus propõe, para o Reino de Deus ser de novo experimento e vivido.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 6,1-6 (ANO B)




Após uma interrupção de dois domingos seguidos, devido às duas solenidades (Natividade de São João Batista e Apóstolos São Pedro e São Paulo), a liturgia dominical do tempo comum retoma hoje o seu percurso normal com a leitura do Evangelho segundo Marcos. Para este décimo quarto domingo, o texto evangélico proposto é Mc 6,1-6, relato da passagem de Jesus por Nazaré, sua terra natal, e a consequente rejeição e descrédito da sua missão junto aos seus conterrâneos. Para uma melhor compreensão, é essencial fazermos uma pequena contextualização, principalmente devido à interrupção da leitura por duas semanas, como acenamos acima.

O texto possui uma localização estratégica: importantes acontecimentos o antecedem e o sucedem, o que lhe garante também um grau de importância fundamental para todo o Evangelho. É precedido por dois sinais extraordinários praticamente simultâneos: a cura da mulher hemorroíssa, cujo padecimento já durava doze anos, e a reanimação de uma menina de doze anos, filha de Jairo, chefe da sinagoga (cf. Mc 5,21-43). Após esses dois sinais, entrelaçados pelo número doze, o evangelista apresenta Jesus em Nazaré, decepcionado com a incredulidade dos seus conterrâneos (Mc 6,1-6), o texto adotado para a liturgia de hoje. Logo na sequência desse, vem o envio e a missão dos Doze (cf. Mc 6,7-13); a eles, Jesus dá algumas instruções e lhes confere autoridade sobre os espíritos impuros.

Podemos concluir, a nível de contexto, com o seguinte dado: após curar uma mulher de uma enfermidade que durava doze anos, e reavivar uma menina de doze anos, Jesus percebe, na incredulidade dos seus conterrâneos na sinagoga de Nazaré, que o verdadeiro enfermo era Israel com suas tradições, seus costumes e suas concepções de mundo; isso se evidencia pela marca de doze anos nos dois casos. Em Nazaré, Jesus faz o diagnóstico dessa enfermidade crônica de Israel, e percebe que somente o Evangelho, ou seja, a sua proposta de vida, poderia sanar Israel dessa enfermidade, por isso, na sequência, ele enviou os Doze em missão.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: “Naquele tempo, Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam” (v. 1). De início, já identificamos um equívoco na tradução litúrgica: o evangelista não emprega a palavra Nazaré, mas diz apenas que Jesus foi à sua terra ou pátria (em grego: patri,j – patrís), embora saibamos que era Nazaré a sua terra. No entanto, a ausência do nome Nazaré é proposital para o evangelista; com isso, ele amplia a dimensão do evento. O triste episódio de Nazaré é o retrato do que acontecia em todo o Israel: apego exagerado à tradição e fechamento aos sinais dos tempos. Da rejeição de uma aldeia, o evangelista prevê a rejeição futura de todo o país, o que levará Jesus à morte.

Jesus foi acompanhado de seus discípulos, a sua nova família, o que deve ter aumentado o choque nos nazarenos. A última cena em que o evangelista tinha feito referências a habitantes de Nazaré foi no conflito de Jesus com os seus familiares, incluindo a mãe, quando esses foram captura-lo em Cafarnaum, imaginando que ele estava louco (cf. Mc 3,20). Ali, diante dos familiares e da multidão, Jesus afirmou que a sua verdadeira família já não era mais determinada pela consanguinidade, mas somente pela prática da vontade de Deus e escuta da Palavra. Acompanhado dos discípulos, portanto, Jesus reafirma a necessidade de tornar-se seu discípulo para fazer parte da sua família.

Como de costume, também em Nazaré Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga” (v. 2a). Marcos não menciona o conteúdo do ensinamento de Jesus, mas certamente é o mesmo que Lucas detalha (cf. Lc 4,16-27), até pelas reações suscitadas: Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?” (v. 2bc). Ao invés de “ficavam admirados”, a forma mais correta seria “ficavam chocados ou perturbados” (verbo grego evkeplh,ssomai – ekplessomai). A tradução litúrgica empregou “ficavam admirados” para suavizar o texto. Ouvindo Jesus, seus conterrâneos questionam a origem da sua sabedoria, autoridade e conhecimento, bem como a sua capacidade de fazer coisas “diferentes”, os milagres. Não poderiam imaginar que alguém com suas características pudesse agir daquele modo. Para os habitantes da pequena Nazaré, era inaceitável que alguém proponha algo diferente do que sempre foi ensinado e feito.

Para fundamentar a crítica, os ouvintes de Jesus recordam sua profissão e sua origem: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco? E ficaram escandalizados por causa dele” (v. 3). O termo traduzido por carpinteiro (em grego: te,ktwn – tekton) designa o artesão de um modo geral, e não apenas a pessoa que trabalha com madeira; essa era uma profissão comum nos vilarejos. Como era difícil a sobrevivência com apenas uma atividade, geralmente se fazia um pouco de tudo: trabalho com madeira e pedra para construção, principalmente. Citando os parentes conhecidos que moravam no vilarejo, os ouvintes reforçam a incompatibilidade entre a origem de Jesus e a sua atividade messiânica. Ora, o messias, o enviado de Deus para libertar o seu povo, era esperado há séculos em Israel. Mas esperava-se que ele tivesse outras características, como a força e a capacidade para a guerra, jamais que fosse uma pessoa comum e parente de gente simples. Logo, não poderia ser aquele carpinteiro.

A identificação como “filho de Maria”, pejorativa para a época, é mais um indicativo do desprezo recebido por Jesus; as pessoas eram identificadas a partir do nome do pai, autoridade do clã, mesmo que esse já tivesse morrido. O nome da mãe não tinha importância alguma para aquela sociedade. Chama-lo de “filho de Maria” equivalia a chama-lo de filho ilegítimo, o que seria um motivo a mais para não vê-lo como um enviado de Deus. Antes foram os parentes a considera-lo louco ou “fora de si” (cf. Mc 3,20), dessa vez é toda a comunidade a considera-lo assim. Ao invés de repetir o ensinamento da tradição, Jesus procurava apresentar um novo rosto de Deus; um Deus que já não se comunicava pela força, mas pela simplicidade, amor, acolhimento e justiça, por isso, “ficaram escandalizados”, ou seja, sentiam que Jesus estava mais atrapalhando do que ajudando-os a observarem a fé transmitida e ensinada pelos antepassados.

Até então, Jesus tinha recebido oposição severa das autoridades religiosas e da família, apenas. Do povo, em geral, tinha recebido boa aceitação por onde passava. Esse episódio de Nazaré apresenta a primeira oposição coletiva à sua mensagem. Para a mentalidade provinciana dos habitantes de Nazaré, o que deveria ter nas mãos de um carpinteiro seriam calos, e não capacidade de operar sinais extraordinários. Embora ali não tenha feito milagres (cf. v. 5), a sua fama já tinha chegado a Nazaré. Sendo Jesus uma pessoa simples, tendo crescido em um vilarejo simples, não era normal que ele tivesse tamanha sabedoria e, muito menos, que fosse o messias.

Jesus reage à oposição dos seus conterrâneos com um provérbio: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (v. 4). Para ele, não era surpresa um profeta ser rejeitado em sua terra, por parentes e conhecidos. Esse provérbio nasceu e amadureceu a partir da própria vivência dos profetas ao longo da história de Israel. Os principais exemplos dessa experiência de rejeição na própria terra foram Jeremias (cf. Jr 11,18-23; 12,6) e Ezequiel (cf. Ez 2,2-5). Ser rejeitado se torna a sina de quem permanece fiel a Deus e a missão por ele confiada.

A rejeição a Jesus bloqueia a ação salvífica de Deus. Por isso, “ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos” (v. 5). Os milagres de Jesus não eram meras demonstrações de poder e força, mas comunicação com a humanidade, e isso exigia interação e reciprocidade através da fé. Jesus se sentiu bloqueado, não imune de força, mas impedido de interagir, porque o Deus que ele veio revelar é alguém que se comunica, se relaciona com o ser humano de modo pessoal, e não através de sinais grandiosos. A fé é adesão à sua proposta de vida.

Se a reação dos habitantes de Nazaré foi de perplexidade, também Jesus “admirou-se com a falta de fé deles” (v. 6a). A falta de fé é a incapacidade de adesão à sua mensagem; aqui, significa o fechamento e a dureza de coração, a insensatez. Diante da rejeição recebida, a resposta de Jesus é a missão: Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando” (v. 6b). Como em Nazaré ele diagnosticou que Israel todo padecia, eis que reagiu a isso indo ao encontro de mais povoados, e enviando também os Doze com a mesma autoridade com que ele mesmo agia, como refletiremos no próximo domingo.

Os habitantes de Nazaré rejeitaram Jesus porque ele lhes apresentou um Deus acolhedor, misericordioso, justo e simples, fora dos esquemas apresentados pelas tradições de Israel. O Deus de Jesus não age pela força, nem pela imposição, mas se revela na simplicidade e na pequenez. O erro dos habitantes de Nazaré é repetido pelos cristãos quando imaginam e desejam uma Igreja triunfante, forte e poderosa. Que o Evangelho de hoje nos ajude a compreender e viver o que é essencial para a nossa fé, e a acolher a grandeza de Deus que se revela na pequenez.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

ler notícia ›