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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA – LUCAS 1,57-66.80




Hoje, a liturgia contempla a solenidade da natividade de São João Batista, ao invés de celebrar o décimo segundo domingo do tempo comum. O texto evangélico proposto é Lc 1,57-66.80, relato que contempla o nascimento, a circuncisão e a imposição do nome do santo precursor de Jesus Cristo. Depois de Jesus, João Batista é o personagem com mais dados biográficos oferecidos pelo Novo Testamento, o que evidencia a importância e a grandeza da sua missão. Quem mais contribuiu para isso foi o evangelista Lucas, como percebemos no Evangelho de hoje. Até quando os apóstolos consolidaram a pregação sobre Jesus, fizeram questão de recordar o Batista: “Jesus de Nazaré, começando pela Galileia, depois do batismo proclamado por João” (cf. At. 10,37).

A figura de João é central na história da salvação: “A lei e os profetas até João” (Lc 16,16a). Portanto, se trata de um personagem que não pode ser esquecido. Liturgicamente, a Igreja compreendeu bem isso, reservando-lhe duas datas no calendário: a sua natividade, celebrada hoje (24 de junho), e o seu martírio, celebrado em 29 de agosto. O primeiro evento narrado por Lucas em seu evangelho é o anúncio do nascimento de João (cf. 1,5-23), apresentando-o desde o início com as características de profeta e como um prodígio de Deus para a humanidade, recordando que seus pais, Zacarias e Isabel, era anciãos e estéreis, já inaptos à procriação. Nesse casal, descrito como justo (cf. 1,6) o evangelista viu a situação de Israel: mesmo observando minuciosamente os preceitos da lei, faltava alegria e sinal de vida neles!

Aquela esterilidade significava o esgotamento da lei e da religião por eles observada, o judaísmo do segundo templo. Por mais que se esforçassem, os condicionamentos sociais, culturais e religiosos não permitiam que vida nova brotasse daquela situação. Somente uma intervenção de Deus poderia mudar o rumo daquela história. Fiel às suas promessas, Deus intervém, inaugurando uma nova fase na história da salvação, fazendo surgir um “profeta do altíssimo” (cf. 1,76).  Assim como os profetas do A.T. previam um “resto de Israel” fiel e justo, o evangelista Lucas identificou esse resto em nos personagens que ilustram o chamado “evangelho da infância” (capítulos 1 e 2 de Lucas): Zacarias e Isabel, Maria e José, Simeão e Ana. Neles, as promessas de Deus, desde os patriarcas, chegam ao cumprimento. Por mais que Israel estivesse esgotado e estéril, era dele que a salvação brotaria. Lucas compôs a sua dupla obra (Evangelho e Atos dos Apóstolos) segundo a dinâmica promessa-cumprimento. O nascimento de João é o início do cumprimento.

Olhemos, para o texto: “Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho” (v. 57). Com a clássica e conhecida expressão bíblica “completou-se o tempo”, o evangelista associa o nascimento de João às promessas de Deus. Não se trata apenas de uma gravidez concluída e uma criança a mais no mundo; significa a conclusão de uma etapa na história da salvação, e abertura de uma nova. O nascimento de João tem uma dimensão comunitária, pública; por isso, “os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela” (v. 58). Aqui, o evangelista introduz dois temas centrais da sua grande obra (Evangelho e Atos): a misericórdia e a alegria. Os parentes e amigos representam a abertura da salvação que, aos poucos, Lucas vai mostrando. O nascimento de João é recebido como uma ação favorável de Deus.

Sendo Isabel e Zacarias, “justos e irrepreensíveis observantes da lei” (cf. 1,6), “no oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias” (v. 59). Querendo simplificar a história, o evangelista faz uma pequena confusão: o nome da criança era dado logo no nascimento, e não no momento da circuncisão, ao oitavo dia. Também não era costume dar o nome do pai, e sim o nome do avô da criança. Mais uma vez, o evangelista ressalta a dimensão comunitária do nascimento de João: a comunidade, parentes e amigos, participam da sua vida, assim como o seu ministério profético estará a serviço de todo o povo.

Dar o nome à criança era atributo exclusivo do pai, de acordo com a tradição bíblica e com as tradições de outros povos da antiguidade. É importante perceber o papel inovador da mãe, ressaltado por Lucas: “A mãe, porém, disse: ‘Não! Ele vai chamar-se João!” (v. 60). Desde o início do seu evangelho, Lucas pensa a mulher como sujeito com voz e poder de decisão, rompendo com as tradições e condicionamentos da época: “Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” (v. 61). Os outros aqui, são os parentes e vizinhos; apegados à lei, não aceitam a novidade que começa a se configurar; querem que as coisas permaneçam como sempre, incluindo a mulher sem direito de opinar. É o Israel necessitado de conversão, a quem João se dirigirá em seu ministério e, posteriormente, Jesus. A imposição do nome João já tinha sido indicada pelo anjo no anúncio a Zacarias (cf. 1,13). João é um nome hebraico que significa “Deus é favorável” (significados correlatos: Deus é clemente; Deus é misericordioso; agraciado por Deus).

Com a mentalidade ainda fechada, os parentes e vizinhos não admitem o protagonismo da mulher; por isso, recorrem à autoridade masculina: “Então fizeram sinais ao pai, perguntando como queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: ‘João é o seu nome’. E todos ficaram admirados” (vv. 62-63). Zacarias tinha ficado sem poder falar, por não crer no anúncio do anjo (cf. 1,20), por isso se comunicava por meio de sinais. Ao escrever como o menino será chamado, ele ratifica a decisão de Isabel, e ambos confirmam a promessa de Deus através do anjo. Todos ficaram admirados por contemplar Deus agindo na história, cumprindo as antigas promessas de um jeito novo e com novos sujeitos.

Como o anjo tinha afirmado que Zacarias só voltaria a falar quando o menino nascesse, a promessa foi cumprida e, “no mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus” (v. 64). O ápice do louvor a Deus proclamado por Zacarias é o seu cântico, o Benedictus, o qual a liturgia de hoje omite, mas é bastante conhecido. A transformação de Zacarias, da incredulidade ao louvor a Deus, é a passagem que, inicialmente, Israel e depois a humanidade inteira, devem fazer: reconhecer e aceitar a ação misericordiosa de Deus em seu favor e abrir-se à conversão. Zacarias se torna, assim, o primeiro convertido pelo Batista.

Diante de tudo isso, a reação dos vizinhos não poderia ser outra, senão de espanto: “E todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia” (v. 65). A tradução litúrgica deixa a desejar optando pelo medo ao invés de temor. Na verdade, a reação de quem contempla uma intervenção de Deus é de temor, que significa mais admiração e respeito do que medo, propriamente. Lucas não perde a oportunidade de mostrar a publicidade e difusão da ação de Deus na história; por isso, diz que a notícia do nascimento de João “espalhou-se por toda a região montanhosa”. Faz parte de suas estratégias literárias e teológicas mostrar a repercussão dos eventos narrados. Aqui ele já antecipa o propósito de suas duas obras (Evangelho e Atos): apresentar a salvação rompendo limites e barreiras para, um dia, atingir até os confins da terra.

Além de mencionar o espalhar-se da notícia, como antecipação da “Boa-Notícia” por excelência, o evangelista destaca o seu efeito: “E todos os que ouviam a notícia, ficavam pensando: ‘O que virá a ser este menino?’ De fato, a mão do Senhor estava com ele” (v. 66). As notícias das maravilhas de Deus geram repercussão em quem escuta, não são notícias vagas; causam efeitos porque carregam em si a força inerente à Palavra. O questionamento sobre o futuro do menino reforça o superdimensionamento da sua missão. Se seus pais, anciãos e estéreis, desejavam um filho simplesmente para “deixarem de passar vergonha perante os homens” (cf. 1,25) – a falta de um filho era sinal de humilhação para um casal – eis que Deus fez muito mais por eles. O menino recém-nascido tinha pela frente uma missão inconfundível na história, a ponto de ser difícil de cataloga-lo e identifica-lo. Até mesmo no auge da sua pregação, era difícil saber quem era João Batista; até com o messias ele foi confundido (cf. 3,15). Com a expressão “a mão do Senhor estava com ele”, o evangelista reforça a escolha e origem divina de sua futura missão de profeta.

Na conclusão do texto, é apresentada uma síntese da vida de João, da infância ao início da vida pública: “E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel” (v. 80). Aqui está a prova de que a mão do Senhor estava realmente com ele. O evangelista está preparando o leitor para apresentar, posteriormente, o seu ministério de precursor do messias. Paralelo ao crescimento natural, ele se preparava para a missão. A vida no deserto, embora marcada pelas dificuldades, é ideal para a relação com Deus. Seu pai era sacerdote do templo e, por isso, o ambiente familiar não seria favorável a uma educação ascética e crítica em relação às instituições de Israel. O deserto significa o lugar da obediência a Deus, do diálogo, da oração; enfim, viver no deserto é ser educado por Deus, resgatando o verdadeiro sentido da lei: instrução para o povo.

Mais do que recordar um grande personagem, o evangelho de hoje constitui um verdadeiro convite para retornar ao que, de fato, é essencial na vivência da fé, procurando compreender os sinais de Deus na história e a necessidade de aderir aos seus propósitos. A fidelidade a Jesus e seu Evangelho implica aceitar os seus valores, acolher a sua misericórdia e a coragem de romper com todos os possíveis entraves à difusão do seu amor. A ousadia de Isabel, apresentada por Lucas, junto com a vida e o ministério do Batista, são sinais autênticos da necessidade contínua de conversão para acolher o Evangelho com suas exigências. Se a missão do Batista foi preparar os caminhos do Senhor, só tem sentido celebrá-lo com disposição para seguir esses caminhos!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN


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REFLEXÃO PARA O XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 4,26-34 (ANO B)




A liturgia deste décimo primeiro domingo do tempo comum propõe, para o Evangelho, o texto de Marcos 4,26-34, o qual contém duas pequenas e importantes parábolas sobre a realidade misteriosa do Reino de Deus. A primeira parábola apresenta o Reino sendo comparado a uma semente, não especificada, que cresce sozinha, e a segunda compara o Reino a um grão de mostarda. Por conhecer bem a realidade de seus espectadores, Jesus procurava imagens do cotidiano para ilustrar a sua mensagem. A primeira parábola é exclusiva do Evangelho segundo Marcos, enquanto a segunda consta também em Mateus (cf. 13,31-32) e Lucas (cf. 13,18-19).

O quarto capítulo do Evangelho segundo Marcos é marcado pela presença de uma série de parábolas sobre o Reino de Deus, que visam responder a uma situação de inquietação e crise vivida pela comunidade dos discípulos, inicialmente, e pela comunidade do próprio evangelista, mais tarde. É importante recordar que o capítulo terceiro, como refletimos no domingo passado (cf. Mc 3,20-35), fora concluído com duas situações de desconforto para Jesus e, consequentemente, para os seus discípulos: a calúnia dos mestres da lei, de que Jesus estava endemoniado (cf. 3,22-30), e a incompreensão dos seus familiares, acusando-o de estar louco, ou seja, fora de si (cf. 3,20.31-35). Sem dúvidas, essas situações repercutiram também na vida dos discípulos, gerando uma crise na comunidade.

A credibilidade de Jesus e de sua mensagem fora posta em dúvidas. Ora, os discípulos primeiros tinham deixado família, trabalho e bens, pensando em algo melhor para suas vidas, inclusive esperando sucesso, fama e poder. Aos poucos, perceberam que estavam seguindo a uma pessoa que a religião oficial condenava (os mestres da lei o acusaram de estar endemoniado) e nem os seus familiares o levavam a sério. Paralelo às desconfianças dos discípulos, também Jesus percebia as contradições e incompreensões neles: eles sonhavam com poder e força, queriam construir um sistema de dominação semelhante às grandes potências da terra, algo que nada tinha a ver com o seu projeto de Reino, ou seja o Reino de Deus.

Algumas décadas mais tarde, também na comunidade de Marcos surgiram problemas semelhantes. A comunidade era perseguida por todos os lados: pela dominação romana e pelo judaísmo oficial, a ponto de parecer diminuir a cada dia, ao invés de crescer, como esperavam que acontecesse; isso causava desânimo, desconfiança e impaciência, com fortes tendências à desistência, pois não se viam resultados nem efeitos imediatos gerados pela pregação e a forma de vida cristã. O evangelista respondeu à crise da sua comunidade recordando a resposta de Jesus, outrora, aos primeiros discípulos: é necessário ter paciência, humildade e confiança na força da Palavra. As parábolas do Evangelho de hoje são a síntese dessa resposta.

Mesmo tendo a multidão como auditório, como afirma o texto, o público alvo das parábolas é o grupo dos discípulos, ainda confusos com os últimos acontecimentos, e a comunidade cristã de todos os tempos. Como o Reino de Deus não pode ser comparado com nenhum sistema de organização social até então experimentado, Jesus o comparava com elementos da natureza, privilegiando a imagem da semente: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece” (vv. 26-27). O Reino de Deus (em grego: h` basilei,a tou/ qeou/ – hé basileia tú Theú) proposto por Jesus não é um consolo para o pós-morte, mas um projeto de vida e de sociedade para ser implantado já nesse mundo, com novas relações conduzidas pelo amor, a justiça, a solidariedade e a igualdade, sem nenhum sinal de grandeza ou poder.

Os discípulos ainda cultivavam a ideologia nacionalista, sonhando com a restauração do reino davídico-salomônico, um projeto de poder que visava a dominação de Israel sobre as outras nações e, por isso, tinham muita dificuldade de aceitar a proposta inovadora de Jesus. Ao comparar com uma semente jogada na terra, Jesus mostra a simplicidade e, ao mesmo tempo, a complexidade do Reino de Deus. Por mais que os discípulos colaborem, afinal são eles que devem lançar a semente, o mérito nunca será deles, mas sempre da força da Palavra, a semente na parábola: “A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga; quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou” (vv. 28-29). Na construção do Reino de Deus, competem duas atividades ao ser humano: plantar e colher. O processo de desenvolvimento da semente é próprio e autônomo, não pode ser manipulado por ninguém.

A terra na parábola é a consciência e o coração de cada pessoa que recebe o anúncio da Palavra. Há uma fase da semeadura que não está ao alcance do agricultor: o desenvolvimento da semente embaixo da terra; é algo invisível e misterioso que requer paciência e cuidado. Por mais competente que seja o agricultor, a qualidade dos frutos será sempre mérito da semente. Assim é a Palavra na vida das pessoas: a comunidade não pode cobrar respostas imediatas, nem moldar as pessoas; cada um e cada uma tem seu jeito próprio de fazer a Palavra germinar dentro de si. À comunidade, cabe a paciência e o discernimento para reconhecer o tempo de plantar e o tempo de colher.

Ao continuar sua apresentação do Reino de Deus, Jesus interage com o seu auditório, com uma pergunta retórica para prender a atenção dos ouvintes: “Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representa-lo?” (v. 30). É importante reforçar que o Reino de Deus é indescritível porque ainda não foi completamente experimentado, por isso, só pode ser comparado, jamais descrito. E o gênero literário da parábola (em grego: parabolh/| – parabolé) significa exatamente isso: comparação, analogia; é a explicação de uma realidade desconhecida tomando uma imagem conhecida como comparação.

Após a pergunta, eis que Jesus apresentou a parábola conclusiva da série: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra” (v. 31). Com essa parábola, Jesus responde aos projetos de grandeza e poder alimentados pelos seus discípulos de outrora e pela comunidade cristã em todos os tempos. Ora, diante da força e poderio do império romano e da estrutura da religião judaica, com sinagogas espalhadas em todos os lugares, o projeto de Jesus era praticamente invisível e parecia não causar efeito algum no mundo. Para os discípulos, alguns movidos por ambições pessoais (cf. Mc 10,35-45), era difícil compreender e aceitar aquela situação. Por isso, Jesus apresentou essa parábola, e o evangelista recordou à sua comunidade.

O grão de mostarda era o menor grão conhecido até então. Com essa imagem, Jesus afirma que a comunidade precisa aceitar a condição de pequenez em que se encontra, e deve reconhecer essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino. Esse, o Reino, não pode impor-se por sinais de grandeza nem de espetáculo. O importante é que esse seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com o grão de mostarda: Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra (v. 32). Mesmo em seu máximo crescimento, a planta que brota de um grão de mostarda é sempre uma hortaliça, alcançando no máximo três metros de altura, jamais será uma árvore imponente ou atraente pela beleza.

A comunidade cristã não pode almejar triunfos nem apoteoses. Como embrião do Reino de Deus, a comunidade cristã deve ter somente a pretensão de servir: oferecer sombra e abrigo para quem necessitar, como o pé de mostarda abriga os pássaros com seus ninhos. Mesmo em seu máximo desenvolvimento e cumprimento, o Reino de Deus será, aparentemente, sempre tímido, porque não pode ser edificado sob os mesmos alicerces dos pseudo-reinos deste mundo. Nele, o que menos importa é a aparência, como deve ser na comunidade cristã. O que deve preocupar os seguidores e seguidoras de Jesus é se, de fato, estão sendo sombra e abrigo para os mais necessitados, mesmo no anonimato e na simplicidade. Comparada aos decretos imperiais e às leis religiosas impostas pelos escribas, a pregação simples de Jesus parecia insignificante. Passados anos e décadas, a história reconheceu a sua força e eficácia, através do testemunho de tantos cristãos e cristãs que tornaram o mundo diferente, mais humano e convivial.  

A sequência de parábolas é concluída com um importante e sintético enunciado: Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo” (vv. 33-34). A primeira informação relevante do enunciado é que o Evangelho escrito contém apenas algumas das “muitas parábolas” contadas por Jesus. A pregação do Nazareno foi bem mais ampla, indo muito além daquilo que os evangelistas conseguiram resgatar. Como bom mestre, Jesus falava conforme a capacidade de entendimento das pessoas. Sabia ler os sinais dos tempos e adaptar-se às diferentes realidades, como devem fazer as comunidades de hoje.

O evangelista distingue os discípulos das multidões: “quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo”. Com essa distinção, ele não pretende criar uma classe de privilegiados, mas acentua a responsabilidade de ser discípulo e discípula. Não basta ouvir uma vez aleatoriamente; é necessário sentar com Jesus e ruminar a sua palavra para, de fato, ela frutificar na vida de cada um. O evangelista não via a multidão como uma massa excluída, em oposição ao privilégio dos discípulos, mas como uma primeira etapa do discipulado. A Palavra que ecoa no meio da multidão, de modo tímido e anônimo, é capaz de germinar, crescer e frutificar, gerando assim novos discípulos e discípulas para o Reino.

Com essas duas parábolas, de modo brilhante, Jesus respondeu aos questionamentos gerados pela crise entre os discípulos, e Marcos resgatou-as para responder também a uma situação semelhante de crise na sua comunidade. Certamente, essa resposta é válida para todos os momentos da história. O Reino de Deus, como um mundo de justiça, amor, solidariedade, fraternidade e igualdade, não surgirá repentinamente; é uma realidade misteriosa, dinâmica e lenta, que exige paciência e humildade em sua edificação. Além de paciência, humildade e discernimento, a sua construção exige, sobretudo, confiança na força transformadora da Palavra. O Evangelho de hoje é um convite ao resgate dessa confiança.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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REFLEXÃO PARA O X DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 3,20-35 (ANO B)




Neste décimo domingo do tempo comum, o texto evangélico proposto pela liturgia é Mc 3,20-35. Esse texto é bastante significativo para a compreensão do ministério e do mistério de Jesus enquanto messias e responsável por neutralizar as forças do mal com a sua mensagem e práxis libertadoras. O texto retrata mais um momento da atuação de Jesus na Galileia com as tradicionais características de adesão e contestação à sua atividade messiânica, mostrando que nenhum esquema religioso, social e cultural é capaz de contê-lo ou controlá-lo.

O episódio narrado faz parte ainda do início do seu ministério na Galileia, embora sua fama já estivesse bem espalhada, como o texto faz perceber. Após a última controvérsia com os fariseus, quando curou um homem da mão seca na sinagoga em dia de sábado (cf. 3,1-6), a multidão que o acompanhava em busca de milagres e prodígios, só crescia (cf. 3,7-12); isso o levou a constituir o grupo dos Doze (cf. 3,13-19), para que sua ação libertadora se expandisse cada vez mais (cf. v. 14). À medida em que as multidões sedentas de dignidade, de justiça e de amor, cansadas de tanta opressão, aumentavam ao redor de Jesus, também aumentava a oposição daqueles que não aceitavam o seu comportamento fora dos padrões estabelecidos pela sociedade e a religião. É isso que o Evangelho de hoje mostra: Jesus rodeado por uma multidão na casa e, ao mesmo tempo, sendo contestado e mal compreendido pelos familiares e pelas autoridades religiosas.

Após a constituição do grupo dos Doze, o evangelista diz que “Jesus voltou para casa com os seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer” (v. 20). A casa (em grego: oivki,a – oikia) tem um valor muito significativo para o Evangelho segundo Marcos: é a alternativa proposta por Jesus para a realização do seu projeto em sua dimensão espacial primeira, como oposição à sinagoga e a qualquer instituição. A casa é o espaço eclesial por excelência; é na casa onde Jesus fala abertamente com seus discípulos. A Igreja primitiva adotou a casa como o lugar da liturgia, da catequese e do encontro. Se é na casa onde acontece a vida, deve ser na casa o culto ao Deus da vida; um culto não ritual, mas serviçal. 

Aqui, não se trata da casa de Nazaré, mas da casa adotada por ele em Cafarnaum, provavelmente a casa dos irmãos André e Pedro. A multidão reunida ao seu redor demonstra o sucesso de sua pregação junta às camadas mais populares da sociedade. Com tanta gente ao redor, Jesus e seus discípulos “nem sequer podiam comer”, porque a prioridade era o serviço; com essa expressão o evangelista ressalta o aparente sucesso e, ao mesmo tempo, a dimensão do serviço na vida da comunidade: antes de tudo, o serviço e a atenção aos necessitados. O discípulo deve pensar mais no outro do que em si próprio; nada de egoísmo na comunidade de Jesus.

Como já acenamos, a acolhida da mensagem de Jesus não era igual entre todos os grupos ou classes sociais. Ao contrário da multidão que o buscava constantemente, havia quem o contestasse e procurasse desqualificar a sua atuação libertadora, seja por incompreensão ou mesmo por maldade e medo de perder privilégios. Entres os que não o compreendiam, estavam os seus familiares: “Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si” (v. 21). Jesus já tinha deixado a família em Nazaré a algum tempo, e adotado a cidade de Cafarnaum como ponto de apoio para seu ministério itinerante. Porém, como sua fama se espalhava com facilidade, também chegaram notícias suas em Nazaré e, por sinal, não muito boas. Envergonhados pelo seu comportamento subversivo, seus familiares chegaram à conclusão de que ele só podia estar louco, ou seja, “fora de si”; diante disso, eles tomaram a decisão de procurá-lo para prendê-lo, levá-lo para casa e, assim, evitar que ele continuasse a envergonhar o nome da família com um comportamento fora dos padrões estabelecidos.

Com rapidez, a fama de Jesus chegou também em Jerusalém, centro do poder religioso e político, onde estavam as autoridades constituídas para manter a ordem e o controle social e ideológico. Se na pequena Nazaré Jesus era considerado louco, na capital era visto como “endemoniado”, provocando a ida de uma comitiva oficial a Cafarnaum, para tentar impedir que ele continuasse o seu ministério. Assim atesta o evangelista: “Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Beelzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios” (v. 22). A acusação é grave, considerando o teor e contexto. Enquanto Jesus anuncia a chegada do Reino de Deus, compreendido como um projeto de sociedade marcada pela igualdade, justiça e amor, seus adversários tentam desqualificá-lo, acusando-o de agir em nome do demônio; Beelzebu, cujo nome pode significar “senhor da casa, senhor das moscas ou senhor do esterco”, era uma divindade filisteia, considerado portador de doenças em Israel. Era a expressão máxima do mal para os judeus mais devotos.

Além de perversa e hipócrita, a acusação dos mestres da lei é também contraditória, por isso foram desmascarados instantaneamente: “Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: ‘Como é que Satanás pode expulsar Satanás?” (v. 23). Se toda a atividade de Jesus, desde o início do seu ministério, consistia no anúncio do Reino de Deus e, consequentemente, a eliminação do mal, a acusação dos mestres da lei não tinha o mínimo fundamento. “Satanás” é a expressão do antagonista de Deus, conforme a mentalidade bíblica e, por isso, era o opositor de Jesus, aquele que precisava ser derrotado. Para deixar ainda mais claro o quanto os mestres da lei estavam mal intencionados, Jesus aprofunda a contradição deles com mais algumas pequenas parábolas: tanto um reino quanto uma casa não podem sobreviver com divisões internas; as divisões são sempre causas de ruína e destruição (cf. v. 24-27).

Jesus encerra a discussão com os mestres da lei com uma declaração solene bastante impactante: “Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas culpado de um pecado eterno” (v. 28-29). A introdução “em verdade vos digo” (em grego: VAmh.n le,gw u`mi/n – amén lêgo himin) significa que aquilo que está para ser anunciado é de fundamental importância para o auditório: o pecado contra o Espírito Santo é imperdoável. Mas, qual é mesmo o pecado contra o Espírito Santo? É aquilo que os mestres da lei estavam fazendo: lúcida e voluntariamente, eles negavam a ação de Deus em Jesus. É inadmissível que não se reconheça que tudo o que Jesus fazia e faz é trazer Deus para a vida das pessoas, torna-lo acessível. Na verdade, era essa acessibilidade a Deus, livre e gratuita, oferecida por Jesus que irritava os mestre da lei e as demais autoridades religiosas do seu tempo, pois isso significava para elas perda de poder e privilégios.

Conhecendo o Deus amoroso revelado por Jesus, as pessoas deixavam de aceitar o Deus juiz, vingativo e mercantilista do templo. A pregação de Jesus era uma ameaça à sobrevivência daquela religião. Por isso, as autoridades faziam de tudo para impedi-lo de continuar o seu ministério. Para Jesus, a tentativa de bloquear a ação de Deus na história, revelada por ele com a mensagem e a práxis, é a verdadeira blasfêmia, é o grande pecado. O pecado contra o Espírito Santo é, portanto, a pretensão de todo sistema religioso que pretende determinar ou negar o agir de Deus na história.

Após desmascarar as autoridades religiosas, representadas no texto pelos mestres da lei, o evangelista volta a atenção para o conflito de Jesus com os seus familiares que pretendiam prendê-lo: “Nisto chegaram sua mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura’” (vv. 31-32). Jesus estava na casa e circundado por uma multidão que, certamente, o escutava atentamente. De propósito, o evangelista enfatiza duas posturas opostas diante de Jesus: ficar do lado de fora e apenas ouvir o que se diz a seu respeito, ou entrar na casa e sentar-se ao seu redor, experimentando pessoalmente o amor e a plenitude de vida que ele transmite.

O evangelista não pretende mostrar nem criar oposição ou rivalidade entre os familiares de Jesus e a comunidade dos discípulos; ele quer apenas ajudar a sua comunidade a compreender que, aceitar a proposta de vida de Jesus implica assumir uma maneira diferente de viver, com novos critérios de pertença e relação; é isso que fica claro com a resposta de Jesus: “‘Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?’ E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (v. 33-35). Com essa afirmação, ao invés de menosprezar os seus familiares, ele está dando a oportunidade de também eles entrarem na dinâmica do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, que qualquer pessoa, independente da origem, pode fazer parte da sua família.

Para fazer parte da comunidade de Jesus, o único critério e exigência é tornar-se discípulo ou discípula; para isso, é necessário ouvir a sua palavra e fazer a vontade de Deus. Se trata de uma regra sem exceção. A adesão ao Reino exige uma conversão completa, ou seja, mudança de mentalidade, inclusive na concepção de família. O seguimento a Jesus não comporta meios termos. Seu projeto de vida exige tomada de decisão. As notícias a seu respeito se espalhavam de Jerusalém a Nazaré; muitas incompreensões surgiam com isso. Diante de isso, era e continua sendo indispensável “entrar na casa” e sentar-se ao seu redor para escutá-lo; sem essa experiência, qualquer juízo sobre a sua pessoa será distorcido ou parcial.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



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REFLEXÃO PARA O IX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 2,23 – 3,6 (ANO B)





Com a retomada do tempo comum, também retomamos a leitura contínua do Evangelho segundo Marcos, como prescreve a liturgia para o ano B. Neste nono domingo, o texto proposto é Mc 2,23 – 3,6, o qual narra duas situações polêmicas de Jesus com os seus tradicionais adversários, os fariseus, e certamente com outros fiéis observantes do judaísmo frequentadores do culto sabático na sinagoga. Se trata de dois episódios envolvendo a interpretação livre e autônoma de Jesus em relação ao sábado com as reações contestadoras dos fariseus.

A observância rigorosa do sábado tinha se tornado o traço mais importante da religiosidade praticada pelos fariseus. Havia, inclusive, uma grande vigilância deles em relação a esse preceito, principalmente nas pequenas cidades e aldeias, distantes de Jerusalém e do templo. A vida rural, totalmente dependente das atividades manuais, oferecia bem mais possibilidades de “transgressão”, conforme a mentalidade farisaica. O contexto do texto é o ministério de Jesus na Galileia, marcado por uma série de polêmicas que lhe renderam diversas acusações pelos fiéis observantes das tradições religiosas.

Marcos apresenta uma série de polêmicas envolvendo Jesus nos capítulos 2 e 3 do seu Evangelho. Ainda no início do seu ministério, Jesus é acusado de: fazer-se igual a Deus, ao perdoar pecados (cf. Mc 2,1-12); comer com publicanos e pecadores (cf. Mc 2,15-17); não ensinar seus discípulos a praticarem o jejum (cf. 2,18-22); transgredir o sábado junto com os discípulos, como relata o evangelho de hoje: Mc 2,23-28 e 3,1-6. Com duas polêmicas seguidas sobre o sábado, o evangelista evidencia o zelo que os fariseus tinham por esse mandamento e a necessidade de Jesus ressignificá-lo, colocando-o a serviço da vida.

O texto de hoje se encontra também nos outros sinóticos, com algumas leves modificações (cf. Mt 12,1-14; Lc 6,1-11). Do primeiro versículo, podemos colher muitas informações importantes para a interpretação de todo o texto: “Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam” (v. 23). Havia um limite de percurso para se caminhar em dia de sábado, o que não deveria ultrapassar os 1.200 metros. O texto faz pensar que esse limite estava sendo desobedecido por Jesus, embora não entre nas acusações posteriores. Enquanto as versões de Mateus e Lucas dizem que os discípulos arrancaram as espigas para comer, Marcos diz que arrancaram para abrir caminho, embora a tradução litúrgica não deixe claro; a tradução mais correta seria: “Seus discípulos começaram a abrir caminho, arrancando as espigas” (v. 23b). Esse diferencial de Marcos acentua ainda mais o grau de transgressão; arrancar espigas para fazer caminho é, literalmente, realizar uma atividade braçal.

A reação dos fariseus revela a prática de uma religião caduca, vigilante e punitiva: “Então os fariseus disseram a Jesus: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” (v. 24). Ao invés de estarem cultuando a Deus ou fazendo o bem ao próximo, os fariseus estavam vigiando se Jesus e seus discípulos estavam observando o mandamento. O rigorismo farisaico era tão forte a ponto de espalharem vigilantes para observar se alguém transgredia a lei. É esse tipo de religião que Jesus denuncia com sua interpretação livre e prática libertadora, e o evangelista Marcos faz questão de recordar para sua comunidade. O Reino a ser construído pelos discípulos e discípulas de Jesus não pode seguir os parâmetros daquela religião.

Antes, Jesus já tinha sido questionado pelo comportamento dos seus discípulos em relação ao jejum (cf. Mc 2,18-22). Naquela ocasião, usou como a argumento a presença do noivo como sinônimo de alegria, tornando o momento impróprio para o jejum. Dessa vez, a resposta se fundamenta diretamente na Escritura, mostrando que também Davi, quando teve necessidade, transgrediu a lei com seus companheiros, comendo do pão que só era permitido aos sacerdotes (cf. vv. 25-26; 1 Sm 21,2-10). Há um pequeno equívoco do evangelista em relação ao nome do sacerdote no episódio de Davi: ao invés de Abiatar, era seu pai Aquimelec. Porém, o importante não são esses detalhes, mas a mensagem em seu complexo: a obsessão dos fariseus pelo sábado fecha-os completamente, a ponto de não compreenderem a Escritura. 

Jesus resolve a primeira polêmica com uma afirmação de caráter sapiencial, e exclusiva do Evangelhos de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (v. 27); nessa, ele deixa claro o sentido do sábado e de toda a lei: o bem do ser humano. Nenhum aspecto da lei deve ser usado para impedir o bem do ser humano. O sábado e toda a lei foram feitos para o bem da pessoa humana, para sua plena realização e libertação. Com essa interpretação, ao invés de transgredir, Jesus recupera o sentido verdadeiro do sábado como memorial de libertação (cf. Dt 5,12-15), e o faz com plena convicção de que “o Filho do Homem é Senhor também do sábado” (v. 28). Com o título de “Filho do Homem”, ele reivindica sua condição divina e sua missão de reordenar a criação, colocando o ser humano em seu lugar primordial.

A segunda parte do texto apresenta a conclusão da série de polêmicas. A cena acontece ainda no sábado, e dentro da sinagoga: “Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. (3,1). Ao mencionar a presença de um homem com a mão seca, o evangelista quis enfatizar que se tratava de uma pessoa impossibilitada de trabalhar para o seu sustento e também para fazer o bem. Em uma sociedade basicamente agrícola como aquela, as mãos eram os membros mais valorizados numa pessoa; portanto, aquele homem estava privado de sua dignidade, do respeito, e da capacidade de colaborar com a criação e a sociedade. Para quem praticava uma falsa religião, ou seja, frequentava o culto mas o separava da vida e da prática do bem ao próximo, aquela situação já não preocupava, era vista como normal. Como para Jesus o culto agradável a Deus é sempre o bem do ser humano, a situação daquele homem não poderia lhe passar despercebida.

Como a fama de Jesus como transgressor da lei e dos bons costumes já tinha se espalhado, onde ele chegava era bastante observado e vigiado, principalmente nos ambientes religiosos: “Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo” (3,2). Os adversários já estavam prontos para acusá-lo, caso ele intervisse na situação daquele homem. O evangelista mostra o quanto os praticantes da religião já estavam perseguindo Jesus: o vigiavam enquanto caminhava e também quando parava e entrava em algum lugar. Já estava claro que a prática libertadora de Jesus era uma ameaça e um perigo àquela religião. Onde quer que Jesus se encontrasse, havia representantes da religião vigiando.

É claro que Jesus não se intimidava com a perseguição e vigilância. O bem do próximo, principalmente dos desvalidos e excluídos, era sempre a sua prioridade maior. Eis, então, a sua atitude: “Jesus disse ao homem da mão seca: levanta-te e fica aqui no meio!” (3,3). O primeiro que Jesus faz é restituir a vida; incapacitado para o trabalho, era como se aquele homem não vivesse. Ao ordenar que se levante, Jesus recupera a vida com o seu sentido de liberdade; para a ordem de levantar, o evangelista emprega, no imperativo, o mesmo verbo que usará para expressar a ressurreição de Jesus (o verbo grego e;geirw – egheiro); ao ordenar que fique no meio, Jesus o torna protagonista e mostra que o centro do verdadeiro culto e da religião, deve ser sempre o bem da pessoa humana. Portanto, Jesus resgatou a vida daquele homem, mandando-o levantar-se, e deslocou o ser humano para o centro do culto, deixando de lado a lei com seus preceitos.

Sabendo que estava sendo observado e até mesmo odiado pelas pessoas devotas presentes na sinagoga, Jesus faz uma pergunta decisiva para a compreensão da sua mensagem: “É permitido no sábado fazer o bem ou o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (3,4). A resposta foi o silêncio. A pergunta evidencia a diferença na maneira de compreender o sentido do sábado entre Jesus e seus adversários. Deixar de fazer o bem já é uma forma de fazer o mal. A omissão e a indiferença não podem ser aceitas na comunidade cristã, recorda o evangelista com essa pergunta de Jesus. Não se pode desperdiçar uma única oportunidade de fazer o bem. O espaço e o momento cultual da cena recordam para a comunidade qual a natureza do verdadeiro culto agradável a Deus: fazer sempre o bem ao necessitado.

O agir de Jesus em favor do bem do ser humano não sensibiliza seus adversários que preferem permanecer atacados às tradições e prescrições, preferindo uma religião indiferente à vida: “Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: “Estende a mão. Ele a estendeu e a mão ficou curada” (3,5). Antes mesmo de narrar a cura, o evangelista registra a reação de Jesus à dureza de coração dos adversários: “Jesus encheu-se de ira e tristeza”. Marcos é o único evangelista que apresenta Jesus com esses sentimentos de indignação; é a reação de Deus à rejeição do seu amor. A dureza de coração reflete uma religião petrificada, sem a mínima abertura à novidade do Reino de Deus proposto por Jesus. Endurecendo o coração ao ver Jesus fazendo o bem, os seus adversários demonstram a adesão a uma religião excludente, punitiva, legalista e fechada.

Com a cura, mais que mostrar um ato extraordinário de Jesus, o evangelista alerta a comunidade a colocar sempre a prática do bem como prioridade. A mão curada daquele homem significa a restauração da sua vida; com sua saúde restituída, ele voltou a ser protagonista da própria história, ou seja, voltou a viver. Certamente, Jesus poderia ter deixado para fazer a cura em um outro momento. Mas o fez no sábado e na sinagoga para desmascarar aquela religião segregadora e hipócrita. Fazendo em outro momento, estaria sendo conivente com aquele culto ultrapassado indiferente à vida das pessoas com seus problemas. Fazendo em um contexto cultual, ele deixou explícita a sua denúncia e a sua indignação com uma religião fechada ao amor que é a essência mesma de Deus.

A postura libertadora de Jesus incomoda aos duros de coração; e isso os leva a procurarem uma maneira de eliminá-lo, afinal, Jesus estava sendo um perigo para aquele modelo de sociedade e de religião. Por isso, “Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram contra Jesus, a maneira como haveriam de mata-lo” (3,6). A colisão dos fariseus com os partidários de Herodes mostra o quanto a mensagem de Jesus era inquietante, tornando-se uma ameaça para o sistema, e denuncia o máximo de hipocrisia: é o conluio dos covardes, dos opressores, de quem percebe que seus sistemas falharam e, por isso, apelam para a violência. Eram grupos adversários que tinham escolhido Jesus como inimigo comum. Os herodianos constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como um abomínio, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que ressuscitasse o reino davídico-salomônico. Nesse plano de fariseus e herodianos, está uma antecipação do plano futuro que levará Jesus à morte: a religião e o império romano unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado: Jesus de Nazaré.

Mesmo não sendo observantes do sábado, as comunidades de hoje devem ser questionadas pelo Evangelho de hoje. São convidadas a refletir sobre quais são suas prioridades cultuais, sobre suas opções preferenciais e, principalmente, sobre a presença de Jesus em seu meio. A presença do Ressuscitado numa comunidade provoca mudanças, abala estruturas, desconstrói paradigmas e concepções. Ao ressignificar o sábado, Jesus mexeu com aquilo que o seu povo considerava mais sagrado. Precisamos aprender com ele a discernir entre o essencial e o periférico, sabendo de antemão que o essencial é sempre a promoção do bem e a libertação do ser humano.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – MATEUS 28,16-20 (ANO B)






Neste domingo em que celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, a liturgia oferece o texto evangélico de Mateus 28,16-20. Como de costume, concentramos a nossa reflexão exclusivamente a partir do texto bíblico. Embora curto, apenas cinco versículos, seu conteúdo é precioso, e comporta uma importância ímpar para a vida da Igreja desde os seus primórdios. É a síntese e a conclusão de todo o Evangelho segundo Mateus. Ao escrever as suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fizeram questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado ao longo do Evangelho. O contexto é estritamente pascal, bem como o conteúdo: a manifestação do Ressuscitado aos onze, na Galileia.

Mesmo curto, o texto é complexo; por isso, para compreendê-lo bem é necessária uma certa familiaridade do leitor com todo o Evangelho segundo Mateus.  Na impossibilidade de recordarmos aqui todo o conteúdo do Evangelho, recordamos, como introdução e contextualização, o relato do túmulo vazio e ressurreição (cf. Mt 28,1-10), com as respectivas manifestações de um anjo do Senhor (cf. 28,2) e do próprio Jesus Ressuscitado (cf. 28,9) às mulheres que foram ao túmulo naquele primeiro dia da semana (cf. 28,1). O anjo e Jesus Ressuscitado confiaram às mulheres a missão de convencer os discípulos a retornarem à Galileia para, ali, fazerem também eles a experiência de encontro com o Ressuscitado.

Diferentemente de Lucas, por exemplo, para Mateus Jerusalém só oferece hostilidade ao discipulado e à mensagem de Jesus; permanecendo lá, os discípulos não conseguem encontrar-se com o Ressuscitado. Na verdade, essa ideia já vinha sendo preparada desde o início do Evangelho com o episódio da visita dos magos: eles procuraram “o rei dos judeus” em Jerusalém, em vão; guiados pela estrela, perceberam que ele só podia ser contemplado na periferia, em Belém (cf. Mt 2,1-12). Como centro do poder religioso e político, a capital representava o “contra reino”, ou seja, a negação completa do projeto de Jesus.

Podemos, assim, compreender porque “os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v. 16). A referência aos onze, além de recordar que Judas Iscariotes já não fazia mais parte do grupo, tem um significado muito importante para a comunidade de Mateus: representa a superação de uma mentalidade nacionalista e triunfalista. Ora, o número doze fazia alusão ao antigo Israel, e alimentava a ideologia davídica. Esse projeto faliu, Israel rejeitou o seu verdadeiro messias, causando sua morte na cruz. Fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos à luz da ressurreição, a comunidade de Mateus concluiu que, para a missão universal lograr êxito, é necessário distanciar-se dos antigos esquemas e tradições de Israel. Por isso, mais que incompletude, o número onze é sinal de nova mentalidade e perspectiva. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (cf. At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário abandonar os esquemas do judaísmo.

O retorno à Galileia é muito significativo. Em Jerusalém a experiência fora completamente negativa; além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado lá florescer. Recordemos o conluio dos poderes religioso, militar e político para desacreditar a ressurreição (cf. 28,11-15), com a mentira do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (cf. Mt 28,11-15). Portanto, o retorno à Galileia era necessário para a sobrevivência da comunidade e, ao mesmo tempo, para o reencontro dos discípulos com as motivações originárias do seguimento. Além das incompreensões ao longo da caminhada, inclusive disputa por poder (cf. 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte de Jesus deixaram a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade do retorno ao ideal primeiro, ou seja, retornar à Galileia, onde tudo começou, para fazer a experiência do monte.

Ao longo de todo o Evangelho, há muitas referências ao monte, desde o monte das bem-aventuranças (cf. 5 – 7) até o monte das oliveiras (cf. 24 – 25). O monte é o lugar de encontro com Deus e com a sua palavra. Foi no monte que Jesus lançou o seu programa de vida, as bem-aventuranças (5,1-12), e esse convite para os discípulos retornarem à Galileia, para o monte, é exatamente para voltarem à essência do seu projeto de vida. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré e o Ressuscitado. A Galileia como região desprezada entre os judeus é um alerta aos discípulos quanto aos destinatários primeiros do anúncio: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram” (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o mesmo verbo que tinha usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (cf. 2,2): prostrar-se em adoração (em grego: proseku,new – proskinêo). Esse verbo tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar somente a Jesus e sujeitar-se somente ao que ele ensinou, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da lei. Com esse gesto, o evangelista diz que os discípulos aceitam os valores do reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos lugares da terra.

A dúvida não faz mal à comunidade, pelo contrário; nem mesmo Jesus vê problemas no duvidar, tanto que não repreendeu os discípulos por isso. Como o evangelista não diz o motivo da dúvida, nem mostra Jesus repreendendo-os, podemos dizer que ele está apresentando uma característica necessária para a comunidade do Ressuscitado. Para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas o amor. Portanto, quanto mais se duvida, mais necessidade se tem de amar, e amar sem limites. Podemos dizer que a dúvida e a fé são companheiras inseparáveis na vida da comunidade.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso de envio (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, até porque ele não vai embora da comunidade; são palavras de envio e comissionamento. Ao dizer “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. A verdadeira autoridade, exercida pelo amor, parte da periferia, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá a autoridade é exercida com base na mentira, no medo, no suborno e na violência.

Após uma pequena introdução (v. 18), segue-se o envio universalista e inclusivo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de autoridade. Ele não envia seus discípulos para impor nem dominar, mas para fazer novos discípulos. Essa é, sem dúvidas, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de sociedade. Não envia os discípulos para doutrinarem ninguém, mas para apresentarem uma proposta de vida. Aqui, registramos a força do verbo empregado pelo evangelista para “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular” (maqhteu,w – matheteúô); com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos, os quais não são operadores de tarefas, mas seguidores e testemunhas de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado.

À missão de “discipular” é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal exterior além do batismo. A fórmula trinitária expressa, mais que uma formulação teológica, a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial do movimento fundado por João Batista. A expressão “Em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria essência, expressa a totalidade do ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais que uma ordem: “ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v 20a). Tudo o que Ele ordenou ou ensinou não foi muita coisa, não foi uma doutrina, foi apenas um jeito de viver. O pronome indefinido “tudo” (em grego: pa,nta– panta), expressa a totalidade do que Jesus ensinou e a preocupação para que nada de secundário seja acrescentado e que possa, inclusive, desviar a comunidade do que foi ensinado por Ele. E o que, de fato, Ele ensinou, como já afirmamos, foi um jeito de viver, proposto nas bem-aventuranças e em todo o discurso da montanha (Mt 5 – 7). O que os discípulos têm a ensinar, para que todas as nações sejam “discipuladas” é a vivência das bem-aventuranças, e isso não é doutrina nem código, é vida concreta, é um jeito de ser.

A última frase de todo o evangelho é, na verdade, a síntese: a certeza da presença de Jesus na comunidade e na história: “Eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo estar no futuro, o evangelista o emprega no presente (em grego: eivmi – eimí). O tema da presença é o fio condutor de todo o Evangelho segundo Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. É essa presença constante e perene que confere à comunidade a sua razão de existir.

Que possamos, portanto, viver impregnados da essência de Deus, como discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré que, Ressuscitado, vive e está presente na história, ajudando-nos a compreender e viver tudo o Ele mesmo ensinou. Quando a comunidade tem certeza dessa presença, não tem medo de lançar-se à missão para compartilhar os seus ensinamentos e, ao mesmo tempo, está sempre de portas abertas para acolher a todos e todas sem distinção.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN



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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES – JOÃO 20,19-23



No domingo em que celebramos a solenidade de Pentecostes, o texto evangélico oferecido pela liturgia é João 20,19-23, trecho que relata a primeira manifestação do Senhor ressuscitado à comunidade dos discípulos, ao anoitecer do primeiro dia da semana, ou seja, o domingo mesmo da ressurreição. Esse texto já foi usado pela liturgia neste tempo pascal, como trecho do Evangelho do segundo domingo: Jo 20,19-31.


Pentecostes era uma das três festas mais importantes do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da Páscoa e das Tendas; era celebrada no quinquagésimo dia após a páscoa, por isso recebeu o nome pentecostes. Inicialmente, seu sentido era estritamente agrícola, na qual se celebrava a conclusão da colheita. Na ocasião, os judeus mais devotos iam até Jerusalém para apresentar os melhores frutos da colheita como oferenda, em gratidão a Deus. Com o passar do tempo, a festa foi perdendo sua relação com a agricultura e ganhando um sentido mais religioso, passando a ser a festa do dom da lei. Esse novo sentido já estava consolidado no tempo de Jesus e dos apóstolos: pentecostes era a festa na qual os judeus recordavam a lei dada por Deus a Moisés.

Somente o evangelista Lucas, autor do livro dos Atos dos Apóstolos, faz coincidir o envio do Espírito Santo com a festa judaica de pentecostes. Isso é um mero artifício literário e teológico para levar as comunidades a adotarem os dons do Espírito Santo como única lei a ser seguida. A comunidade cristã, para ser fiel a Jesus e seu Evangelho, já não necessita mais das prescrições da Lei, basta estar sensível e aberta às intuições do Espírito Santo, dom do Ressuscitado.

Ao contrário do que Lucas propõe em Atos dos Apóstolos, a comunidade joanina fez de tudo para que os seus referenciais não coincidissem com os esquemas litúrgicos judaicos. Por isso, de acordo com o evangelista João, o Senhor ressuscitado doa o Espírito, seu dom maior, no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o esquema lucano, a proposta da comunidade joanina tem mais sentido e responde melhor às necessidades dos discípulos, como vemos no Evangelho de hoje. Amedrontada e sem poder de ação, essa não teria condições de esperar cinquenta dias para que o Espírito Santo se manifestasse em seu meio.

Embora estejamos, de fato, há cinquenta dias da páscoa, o Evangelho de hoje nos convida a retornarmos para aquele primeiro dia, o da ressurreição. Somente Maria Madalena tivera, até então, o privilégio de ver o Ressuscitado. Entre os discípulos reina o medo e a dúvida, como diz o texto: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles disse: a paz esteja convosco” (v 19).

Certamente, aquele foi um dia de muita tensão entre os discípulos. Isso se evidencia pelas informações do primeiro versículo: “reunidos a portas trancadas, por medo dos judeus”.  Esse dado evidencia insegurança e medo em demasia. Era uma comunidade em crise, em pleno desmoronamento. Embora em crise e amedrontada, parece que a comunidade estava decidida a não voltar mais aos esquemas de sempre: estava reunida “ao anoitecer do primeiro dia da semana”. Segundo o esquema litúrgico judaico, o anoitecer já não fazia mais parte do mesmo dia. Com esse dado, o evangelista apresenta a necessidade de distanciamento das tradições e prescrições da lei. Na embrionária comunidade cristã é necessário que o dia se prolongue, ou seja, as trevas não podem prevalecer sobre a luz. Mesmo que chegue a noite, o dia continua.

A situação de medo em que os discípulos se encontravam deve ser vista em um sentido mais amplo. Embora o evangelista afirme que era por “medo dos judeus” (em grego fo,bon tw/n VIoudai,wn – fóbon ton iudaion), não podemos generalizar. Nem todos os judeus transmitiam medo aos discípulos. O evangelista se refere às autoridades e fariseus que sempre foram hostis a Jesus e continuavam sendo também aos discípulos (cf. 9,22; 12,42; 16,16). Enquanto não fizer uma experiência de encontro com o Ressuscitado, toda comunidade tende a fechar-se por medo e falta de convicções. Naquele medo estava a angústia, a desilusão e o remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado toda a comunidade perece e sua mensagem é bloqueada; as portas fechadas impedem a boa nova de ecoar e a acolhida ao novo, ao diferente.

Diante dessa situação, eis que “Jesus entrou e, pôs-se no meio deles”. Aqui aparece a primeira condição para a comunidade superar a crise: ter Jesus como centro. Com isso, o evangelista reforça o modelo de comunidade ideal: uma comunidade livre, igualitária, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. Trata-se de um claro combate à tendência hierarquizante na comunidade do discípulo amado. É esse o significado do seu colocar-se no meio.

Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. A paz é sinal da vida em plenitude, o bem-estar do ser humano em todas as suas dimensões, condição indispensável para a felicidade. Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade sonhado e praticado durante toda a sua vida: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado.

Na continuidade da experiência, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado” (v. 20a), ou seja, as marcas do sofrimento, do flagelo e da cruz, garantindo a continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Com isso ele diz que a cruz não foi o fim e, assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o principal motivo da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. É importante recordar sempre: o Ressuscitado tem as marcas do Crucificado. Ora, a cruz não foi um acidente na vida de Jesus, e não pode ser esquecida pela comunidade; pelo contrário, foi consequência de suas opções e do seu jeito de viver, e as opções da comunidade devem ser as mesmas. Portanto, é necessário que os discípulos estejam sempre, em todos os momentos da história, familiarizados com a cruz, não como símbolo ou adorno, mas como disposição de dar a vida por amor, como fez Jesus.

Finalmente, o medo foi vencido: “os discípulos se alegraram por verem o Senhor”. Conforme Ele mesmo tinha garantido, a tristeza dos discípulos foi transformada em alegria (cf. Jo 16,20). De uma situação de medo, a comunidade passa à alegria, como consequência da experiência com o Ressuscitado. A alegria é uma característica marcante da comunidade que vive e celebra a presença do Ressuscitado. A paz é novamente oferecida (v. 21a). Só é possível acolher plenamente os dons pascais com a paz oferecida por Jesus. É a mesma paz transmitida anteriormente como antídoto ao medo. Aqui, nessa segunda vez, a paz precede o envio, como encorajamento para a missão: não basta transformar o medo em alegria, é necessário anunciar e partilhar essa alegria... a alegria do Evangelho!

Ao contrário de Mateus, Marcos e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (cf. Mt 28,19; Mc 16,15; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Jesus simplesmente envia. Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, o mais importante para o Quarto Evangelho é a comunidade. É essa a primeira destinatária da missão, porque é nessa que estão as situações de medo, desconfiança, angústia, falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado. Sendo portadores da sua paz, os discípulos são enviados com as mesmas credenciais, pois Ele os envia como o “Pai o enviou” e, portanto, devem fazer as mesmas opções e assumir as respectivas consequências.

O texto mostra, como sempre, a coerência entre a prática e as palavras de Jesus: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Jesus tinha prometido o Espírito Santo na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, a promessa é cumprida, o Espírito é comunicado. O evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da criação do ser humano: “O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente” (Gn 2,7). O verbo soprar aqui (em grego evmfu,sa,w – empsáo) significa transmissão de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira.

Finalmente, a comunidade foi revivificada e habilitada para a missão. Ao receber o Espírito Santo (em grego pneu/ma a[gioj – pneuma háguios), a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro. A missão da comunidade portadora do Espírito Santo é prolongar no tempo e no espaço a missão do próprio Jesus.

O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, devemos prestar muita atenção à afirmação de Jesus: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). Por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão, equivocadamente. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade à comunidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas e de todos os lugares. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado.

Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus. O Espírito Santo, doado pelo Ressuscitado, recria e renova a humanidade. A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29).

Assim como João, o batista, apontou para Jesus como o responsável por fazer o pecado desaparecer do mundo (cf. Jo 1,29), agora, é Jesus quem confia à comunidade essa responsabilidade.  Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz e animada pelo Espírito. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada! Deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a comunidade atualiza e prolonga, no tempo e no espaço, a missão única do próprio Jesus de revelar o amor de Deus a todas as pessoas.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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