domingo, julho 24, 2016

REFLEXÃO PARA O XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 11,1-13 (ANO C)



Após a acolhida de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria, o evangelista Lucas nos apresenta uma verdadeira catequese sobre a oração, ainda no contexto do longo caminho para Jerusalém. O texto evangélico que a liturgia deste XVII Domingo do Tempo Comum nos oferece é exatamente essa catequese: Lc 11,1-13.

Convém mencionar que, além de Lucas, também Mateus apresenta a oração ensinada por Jesus aos seus discípulos, transmitida pela Igreja com o título de "Pai Nosso". Há uma pequena diferença entre as duas versões, como são diferentes também os contextos em que cada um a apresenta. Porém, a essência é a mesma em ambas as versões. A de Lucas é um pouco mais breve, por isso, considerada pela maioria dos estudiosos, a que corresponde melhor às palavras de Jesus.

Inciamos a nossa reflexão com uma constatação simples, mas muito significativa: Lucas faz referência a Jesus rezando/orando sete vezes do batismo à paixão, o que corresponde exatamente à totalidade do seu ministério (cf. 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28-29; 11,1; 22,41). Obviamente, o evangelista quer mostrar que a oração foi o grande alimento de Jesus em sua vida pública. Foi pela força da oração que ele levou a cumprimento o projeto do Pai em sua vida.

Outro dado, não menos importante, é o fato de ser Lucas aquele que mais apresenta Jesus em relação de acolhida e atenção para com os pobres, as mulheres e os pecadores. É, por excelência, o Evangelho da misericórdia. Certamente, a explicação para tudo isso está no fato de Jesus rezar constantemente, e claro, a oração era determinante para o seu agir, como deve ser para cada cristão e cristã. Podemos dizer, então, que Lucas apresenta com o exemplo de Jesus, a oração conjugada às suas implicações concretas.

É comum, em Lucas, afirmar que "Jesus estava rezando num certo lugar" (v. 1a). Independente das circunstâncias, Jesus reservava sempre uma parte do seu tempo para a oração, seu colóquio com o Pai. Sabemos que o contexto em questão é o da viagem para Jerusalém. É muito interessante que "Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos" (v. 1b). Certamente, era bonito seu jeito de rezar. Pelas entrelinhas do texto, podemos afirmar que os discípulos estavam olhando-o, admirados. Tanto que não ousaram interrompê-lo, mas esperaram que terminasse. Impressionados, tiveram vontade de fazer o mesmo. Talvez, e muito provavelmente, estavam angustiados porque conviviam com Ele há tanto tempo e ainda não tinham aprendido muita coisa, nem mesmo a rezar como Ele. E, vale lembrar que o objetivo do discípulo é tornar-se parecido com o mestre, portanto, agir como ele.

Todo mestre ou rabino tinha um jeito próprio de conduzir o seu grupo, com seus ensinamentos e fórmulas, inclusive, de oração. Parece que Jesus tinha deixado seu grupo muito à vontade, nesse sentido. Seus discípulos poderiam sentir-se até inseguros por isso. Por isso, usam o exemplo de João Batista, o que mais se identificava com o movimento de Jesus, dos tantos existentes na época. A particularidade do jeito de Jesus exercer sua liderança era, exatamente, pelo exemplo. Por isso, não tinha preocupação de ensinar fórmulas para serem repetidas, como tinha outros mestres no seu tempo.

Do seu jeito pessoal de rezar, nasce a curiosidade e, da curiosidade, a necessidade nos seus discípulos. Por isso, pediram. Ao pedido dos discípulos, Jesus responde. Mas, não dá uma fórmula, como davam os outros rabinos. Pelo contrário, dá-lhes uma 'anti-fórmula', pois as primeiras palavras da verdadeira oração sugerem exatamente uma quebra de protocolos e paradigma. Aquelas expressões típicas das cerimônias e rituais litúrgicos de exaltação do nome de Deus, tipo "Altíssimo, Todo-Poderoso, Onipotente, Senhor, Santo", ensinadas pelos seus contemporâneos, são abolidas por Jesus. Seu jeito de rezar causa impacto porque ele ensina na oração a chamar a Deus de "Pai". Para nós, hoje, parece não ser algo impactante. Mas, para a sua época foi, de fato, algo revolucionário. 

Com o imperativo "Quando rezardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome" (v. 2a), Jesus quer dizer, antes de tudo, que o primeiro elemento necessário para uma oração autêntica é ter clareza do destinatário da oração. É claro que é a Deus que deve ser direcionada toda oração. E, esse Deus é, antes de tudo, Pai! Logo, Jesus não inaugura uma nova fórmula de oração, mas propõe um novo jeito de se relacionar com Deus. Dessa maneira nova de se relacionar com Deus, emerge a certeza de que Ele está próximo de nós, como se fosse um amigo e, portanto, pode ser invocado a qualquer hora e momento. Desse ponto, já adiantamos o sentido da pequena parábola do amigo inoportuno, contada por Jesus como explicação e complemento da oração (vv. 5-8). Além de Pai, esse Deus próximo é também amigo.

A "santificação do nome de Deus" (v. 2b) e o "advento de seu Reino" (v. 2c) estão intrinsecamente relacionados, a ponto de confundirem-se. Ora, o nome de Deus já é santificado, porque Ele é, essencialmente, santo. O pedido diz respeito ao reconhecimento dessa santidade. Reconhecer a santidade de Deus é saber que Ele é Pai, aceitar a condição de filhos e filhas e, portanto, é viver como irmãos e irmãs. Isso é permitir que o seu Reino seja instaurado entre nós. O Reino que já fora inaugurado por Jesus (cf. Lc 4,16-22), precisa ser difundido pelos discípulos até chegar a todos os lugares épocas. A construção do Reino é, pois, a constatação se o nome de Deus está sendo santificado ou não, ou seja, se Ele está sendo reconhecido como realmente é: Pai.

Na sequência da oração, Jesus vai recomendando o que é necessário pedir, ou seja, quais são as reais necessidades do ser humano. O pedido pelo "pão necessário para cada dia" (v. 3), além de expressar uma necessidade concreta, a alimentação, exprime, sobretudo, a condição existencial do ser humano: ele não pode ser auto-suficiente por um dia, sequer. Um elemento indispensável para que uma comunidade viva efetivamente segundo as características do Reino, é a confiança e a solidariedade. Obviamente, Jesus alude ao antigo maná (cf. Ex 16) com essa petição. Há, aqui, um verdadeiro combate à cultura do acúmulo, tema que será desenvolvido na sequência da viagem, principalmente com as parábolas do rico insensato (cf. 12,13-21) e do rico e o pobre Lázaro (cf. 16,19-31).

A menção ao perdão não poderia faltar na oração que deveria caracterizar a comunidade cristã. Por isso, Jesus recomenda que este pedido não pode faltar na oração autêntica: "Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós perdoamos também a todos os nossos devedores" (v. 4ab). O pedido de perdão a Deus era comum nas orações dos diversos movimentos religiosos daquela época e de todos os tempos. Realmente, é somente Deus quem pode perdoar pecados. Assim como o pedido do pão cotidiano, também esse visa conscientizar o ser humano de sua necessidade diante de Deus. A grande novidade apresentada por Jesus é a condição para buscar o perdão de Deus: "nós também perdoamos aos nossos devedores". Com isso, Ele ensina que o perdão de Deus deve ser mediado pelo perdão fraterno. A abertura total a Deus deve traduzir-se em uma relação nova com o próximo, tema tão caro a Lucas. Isso implica que, mais que ser perdoado, é necessário viver reconciliado. Por isso, o perdão deve ser mútuo.

A última das petições da oração verdadeira é "não nos deixes cair em tentação" (v. 4c). A palavra tentação, em grego peirasmo,j (peirasmós), quando aplicada em relação aos discípulos, significa "desistir", "abandonar". Assim, a comunidade é convidada a pedir ao Pai o dom da perseverança. Em outras palavras, é um pedido de coragem para levar adiante um projeto tão audacioso como o de Jesus. É necessário resistência para lutar pelo Reino, contentar-se apenas com o necessário para cada dia e perdoar aos devedores. Por isso, deve-se pedir constantemente para não abandonar essa proposta de vida tão revolucionária. Isso significa ainda que a nossa continuação no seguimento de Jesus não depende apenas da nossa força ou vontade, mas da graça de Deus.

Na mentalidade hebraica, o filho é aquele que é parecido com o pai. Portanto, chamar a Deus de Pai era bastante comprometedor, pois exigia muitas implicações concretas. Era muito mais cômodo chamá-lo de Altíssimo, Onipotente, Santíssimo, pois estas expressões evocam a alguém distante e inacessível, aquele não está presente no cotidiano da comunidade para relacionar-se com ela. O Deus de Jesus, que é Pai, está presente. Os discípulos deveriam, assim como Jesus, viver como filhos. Diante das exigências, a tendência à desistência era muito comum. Por isso, Jesus pede que eles peçam, constantemente, a graça de não abandonarem o seu projeto.

Como explicação para o conteúdo da oração ensinada, Jesus conta duas pequenas parábolas: a do amigo inoportuno (vv. 5-8) e a do pai (v. 11). Ambas tem a função didática de explicitar a proximidade do Deus-Pai e a necessidade da perseverança da comunidade na oração. Esse Deus é muito mais disponível que um amigo, e muito melhor que um pai terrestre. Desse modo, Ele ressalta que a qualquer momento se pode invocar esse Deus-Pai e, pedindo o que é justo, jamais Ele deixará de atender. 

Mas, qual o critério para fazer o pedido justo? É exatamente pedindo, antes de tudo, o elemento imprescindível da oração, e este só pode ser dado pelo Pai: O Espírito Santo! (v.13). A comunidade que se deixa guiar pelo Espírito Santo, saberá discernir para pedir ao Pai o que é, de fato, essencial. E, pedindo o essencial, é claro que o Pai concederá. 



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

domingo, julho 17, 2016

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 10,38-42


O Evangelho deste XVI Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar mais uma etapa do longo caminho de Jesus rumo à Jerusalém. Como bem sabemos, o caminho apresentado por Lucas não é apenas um percurso a ser alcançado, mas é, sobretudo, lugar de revelação, de catequese, auto-afirmação de sua messianidade e de formação do discipulado. Portanto, cada cena presente entre os capítulos nove e dezenove, os quais apresentam o caminho, tem grande relevância. 

O texto de hoje, Lucas 10,38-42, é bastante conhecido. Trata-se do famoso episódio de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria. Porém, ser conhecido não significa necessariamente ser compreendido corretamente, e isso tem sido verificado com as diversas versões interpretativas ao longo dos séculos. Durante muito tempo usou-se esse texto para distinguir a vida contemplativa da ativa e, assim, mostrar a superioridade da primeira sobre a segunda. Marta foi rotulada de ativa demais e Maria de contemplativa e, logo, de modelo para a vida monástica.

Infelizmente, e não é a única vez, a versão litúrgica nos priva da integridade do texto, omitindo a primeira parte do versículo 38: "Enquanto caminhavam". Trata-se de uma omissão prejudicial ao entendimento do texto, pois é o elemento de ligação com a cena anterior e o indicativo do contexto da grande viagem rumo à Jerusalém.

"Enquanto caminhavam, Jesus entrou em um povoado" (v. 38a). A princípio, parece haver um erro de concordância verbal, mas é apenas um detalhe do narrador: estavam caminhando Jesus e seus discípulos, mas somente Ele entra no povoado. Se os discípulos continuaram a viagem sozinhos ou o esperaram, não sabemos. Parece um detalhe sem importância, mas não o é. O primeiro motivo para Jesus entrar sozinho é pelo significado de um povoado no seu tempo. Quer dizer lugar de resistência à novas ideias, sede do conservadorismo e do apego às tradições.

O povo simples e tradicional dos povoados não aceitava a mensagem transformadora e libertadora de Jesus. Logo no início da viagem, Ele tinha sido hostilizado em um povoado dos samaritanos e alguns dos seus discípulos reagiram violentamente, querendo destruí-los com fogo (cf. Lc 9,52-53). Certamente Jesus pensou nisso ao preferir entrar sozinho. Outro motivo foi, sem dúvida, porque Jesus sabia que seus discípulos não compreenderiam o que viria a acontecer naquela casa. E, realmente, foi algo revolucionário!

O primeiro grande absurdo da cena é o fato de que Jesus foi acolhido por uma mulher (v. 38b). No seu tempo, a mulher não tinha autonomia para receber um homem em casa. Esse era papel do homem. Enquanto o homem dava atenção ao hóspede, as mulheres da casa permaneciam na cozinha, preparando o alimento e não ousavam, sequer, saudar o hóspede. Por isso, trata-se de algo novo. Merece destaque o gesto revolucionário de Marta ao acolher Jesus. Ela rompeu barreiras. Por isso, será injusto considerá-la negativamente, como fazem a maioria das interpretações. Antes de tudo, ela foi uma mulher de coragem.

Outra coisa absurda é a atitude da irmã de Marta, Maria: "Sentou-se aos pés do Senhor e escutava a sua palavra" (v. 39). O gesto de sentar aos pés não quer dizer adoração nem devoção, como muitas interpretações afirmavam. Sentar aos pés para escutar quer dizer ser discípulo ou discípula. É aceitar o outro como mestre. Podemos recordar o que Paulo diz em relação a Gamaliel, seu mestre: "Eu sou judeu. Nasci em Tarso, da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, educado aos pés de Gamaliel" (cf. At 22,3). Portanto, Maria se torna discípula com essa atitude. Também ela rompe muitas barreiras. Esse papel não era permitido às mulheres. 

É claro que a atitude mais revolucionária é de Jesus: aceita a hospitalidade de uma mulher ao entrar em sua casa e permite que uma mulher sente aos seus pés para ouvi-lo. Com isso, ele rompe com todos os padrões de mestre da sua época. Rabino algum do seu tempo aceitava mulheres no discipulado. Aos poucos, vai ficando claro porque Jesus preferiu que seus discípulos não entrassem com ele naquele povoado. Eles não compreenderiam isso tudo. Sua mensagem ganha adesão também no(s) povoado(s). Por mais que o conservadorismo esteja enraizado, ele pode ser superado. A mensagem de Jesus deve penetrar em todos os lugares. A sua palavra é, de fato, eficaz.

Na continuação da narração, Lucas diz que "Marta estava ocupada com muitos afazeres" (v. 40a), algo normal para uma dona de casa, principalmente tendo que preparar refeição para uma visita. É a imagem da dona de casa disciplinada que não perde tempo para manter a casa em ordem e servir da melhor maneira possível às visitas, principalmente uma tão ilustre como o "Senhor", como ela se refere a Jesus. Por isso, ela pede que Jesus intervenha, pois fazendo tudo sozinha, talvez, não conseguisse preparar a refeição a tempo. Mas, ela pede muito! Pedir que Jesus mande Maria para ajudá-la é pedir que ela saia de seus pés, portanto, é privá-la da condição de discípula. Seria negar um direito conquistado, um ato de emancipação feminina. 

A resposta de Jesus ao pedido de Marta é um dos motivos de maior equívoco nas interpretações convencionais do texto. Na verdade, Jesus não a repreende. Pelo contrário, age com muita serenidade e lhe faz um convite: "Marta, Marta" (v. 41). O nome pronunciado duas vezes não é sinal de reprovação, mas de chamado vocacional. Recordemos alguns casos de vocações na Bíblia em que o chamado de Deus se apresenta com essa fórmula: "E Deus o chamou do meio da sarça. Disse: Moisés, Moisés! Este respondeu: Eis-me aqui" (Ex 3,4b); "Iahweh chamou: Samuel, Samuel!" (1 Sm 3,4); "Saulo, Saulo, porque me persegues?" (At 9,4). 

Marta é chamada por Jesus à condição de discípula. Assim como os discípulos pescadores foram chamados a deixar as redes para segui-lo, Marta é chamada a deixar certas preocupações e, assim como sua irmã, optar pela "parte boa" (v. 42). Ser discípulo ou discípula de Jesus é optar pela liberdade, abrir mão de todas as formas de prisão existentes. Esse chamado é aberto a todos e todas. Foi compreendido por Maria e Jesus o estende também à sua irmã. A própria Marta já tinha dado um grande passo de emancipação ao atrever-se a acolher um homem em sua casa. Faltava mais um, sentar-se aos pés do mestre para ouvi-lo. Fazendo isso, ela estaria escolhendo a "parte boa" e, logo, conquistando a liberdade plena. Esse chamado é dirigido a todos os homens e mulheres de todos os tempos.

Como complemento para nossa reflexão, querermos relacionar o texto de hoje com outro texto evangélico, no qual os mesmos personagens compõem a cena: o episódio da reanimação de Lázaro em João 11. À narração lucana, João acrescenta duas informações importantes: o nome do povoado, Betânia, e a presença de um irmão, Lázaro, na casa das duas irmãs. 

Embora Lázaro não seja mencionado no texto de Lucas, é consenso que, juntamente com Marta e Maria, formava uma família-comunidade. Por sinal, nem em Lucas e nem em João se fala de pai e mãe deles. Diz apenas que eram irmãos. E esse dado é muito importante! Ora, na época de Jesus o pai de família exercia poder absoluto na casa. Na comunidade ideal, marcada pelos valores do Reino, não há espaço para a autoridade porque as relações são caracterizadas pela fraternidade e, portanto, pela igualdade.

Acreditando que Marta respondeu 'sim' ao chamado de Jesus, podemos afirmar que sua família é o verdadeiro retrato da comunidade cristã: todos escutam com atenção ao Mestre e vivem como irmãos, sem relação de poder, mas de igualdade e fraternidade.



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

domingo, julho 10, 2016

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 10,25-37

A liturgia desse XV Domingo do Tempo Comum, coloca-nos em contato com uma dos textos mais belos e conhecidos de todo o Novo Testamento, a chamada parábola do bom samaritano. Trata-se de um texto próprio de Lucas, inserido na dinâmica do longo caminho empreendido por Jesus rumo a Jerusalém. É um daqueles episódios em que Jesus esbanja misericórdia, o que é muito comum no Evangelho segundo Lucas.

A parábola é usada como uma das respostas de Jesus em um interessante diálogo com um mestre da lei, assumindo a centralidade de todo o colóquio e constituindo-se como uma das principais páginas do terceiro Evangelho.

Diz o texto que "um mestre da lei se levantou e, para tentar Jesus, fez-lhe uma pergunta" (v 25a). Lucas apresenta aqui o mesmo verbo usado no episódio das tentações (cf. Lc 4,1-13): εκπειραζω (ekpeirazô), cujo significado é tentar, pôr alguém à  prova. Esse indicativo é importante porque já confere um caráter diabólico às intenções do mestre lei, pois, tentar Jesus, pondo-o à prova é a atitude de satanás, conforme a linguagem bíblica e lucana, principalmente.

Após apresentar a intenção e a atitude do mestre da lei, tentar Jesus perguntando, temos, então, o conteúdo da pergunta: "Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?" (v. 25b). Se trata de uma pergunta muito profunda e bem elaborada, própria de um bom conhecedor da Escritura, como, de fato ele era.

Como era próprio da cultura dos rabinos responder a uma pergunta com outra pergunta, Jesus assim o faz, e responde perguntando exatamente o que a lei dizia a propósito da observação do interlocutor. Como bom conhecedor, o mestre da lei responde prontamente com duas citações da Escritura: "Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência (cf. Dt 6,5); e ao teu próximo como a ti mesmo (cf. Lv 19,18). Resposta própria de quem examinava a lei dia e noite, como era seu ofício.

A continuidade do diálogo mostra a exterioridade e superficialidade daquele mestre da lei. Teoricamente, seu conhecimento era perfeito, tanto que o próprio Jesus reconheceu: "Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás" (v. 28). Mas, sua tentativa de justificar-se demonstrava o quanto era limitada sua religião. Ele conhecia todas as passagens da Escritura, era um intérprete oficial e no entanto não sabia quem era seu próximo.

E, percebendo o vazio de sentido naquela religião estéril defendida e praticada pelo mestre da lei, Jesus aproveita a oportunidade para apresentar um dos seus mais célebres ensinamentos, com a parábola do samaritano, como resposta.

Disse Jesus que "certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes" (v. 30a). Ora, embora a distância entre as duas cidades não fosse tão grande, apenas 27 km, grandes obstáculos componham aquele caminho. A começar pelo desnível entre as duas cidades. Enquanto Jerusalém estava a mais de 700 metros acima do nível do mar, Jericó estava a aproximadamente 300 metros sob o nível do mar. Além disso, tinha de atravessar o deserto de Judá. Era uma estrada tão perigosa, que somente se andava em grupo, considerando tanto os obstáculos da natureza quanto o perigo dos assaltantes. Logo, Jesus não apresenta nenhuma novidade, uma vez que eram comuns os assaltos naquela estrada.

Na descrição do assalto, Jesus acrescenta detalhes, enfatizando que os assaltantes, além de espancar o homem, levaram tudo e o deixaram quase morto (v. 30b). Claro que há, nisso tudo, uma clara intenção teológico-literária de Lucas visando supervalorizar a atitude do samaritano e contrapô-la à indiferença do sacerdote e do levita.

"Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho" (v. 31a), ou seja, estava voltando de Jerusalém após uma semana inteira de serviço no templo, conforme a distribuição das classes sacerdotais durante o ano litúrgico judaico. Portanto, estava em seu grau máximo de pureza. Por isso, "quando viu o homem, seguiu adiante pelo outro lado" (v. 30b), exatamente porque o contato com um homem quase morto o tornaria impuro também, conforme determinava a lei. A lei estava acima da vida para a religião judaica do tempo de Jesus. O sacerdote cumpre rigorosamente a lei pela metade, assim como o mestre interlocutor de Jesus. Tem dificuldade em reconhecer quem é o seu próximo porque vivia uma religiosidade meramente ritualista e vazia de amor.

A mesma indiferença do sacerdote é repetida por um levita, o auxiliar dos sacerdotes no serviço litúrgico do templo: "chegou ao lugar, viu o homem e seguiu pelo outro lado" (v. 32). Como bom 'sacristão', o levita não poderia ter outro exemplo a seguir senão o do sacerdote, por isso, imita seus gestos, inclusive a indiferença diante do sofrimento do outro. Como voltava do serviço litúrgico, não queria contaminar-se com um quase morto, certamente ensaguentado do espancamento.

A verdadeira afronta de Jesus ao mestre da lei vem colocada a partir do versículo 33, quando ele diz na parábola que "um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão". Como sabemos, os samaritanos eram mal vistos pelos judeus. A maior ofensa que um judeu poderia receber era ser chamado de samaritano. Era o mesmo que dizer herege, pecador, impuro... alguém da pior qualidade possível.

O próprio Jesus com seus discípulos tinham sido rejeitados pelos samaritanos no início do caminho, como vimos há dois domingos atrás, no XIII (cf. Lc 9,53), e hoje Jesus apresenta um samaritano como alguém que age como Deus. De fato, ver e ter compaixão, são atitudes próprios de Deus. E, infelizmente, os homens que pareciam conhecer a Deus, o sacerdote e o levita, não conheciam seus sentimentos, mas um infiel aos olhos da religião.

O sacerdote e o levita viram o estado miserável em que se encontrava o homem, mas foram para o outro lado do caminho. O samaritano viu, sentiu compaixão e aproximou-se. Duas atitudes completamente opostas. A compaixão do samaritano fez com que ele se aproximasse e cuidasse do homem. Quase dez verbos são usados na sequência do texto, e todos eles são verbos de ação. Assim, Jesus contrapõe a omissão dos praticantes da religião à ação movida de compaixão da parte do herege, comovendo ainda mais o mestre da lei.

Um vez que a parábola foi contada como resposta à pergunta "E quem é o meu próximo?" (v. 29), Jesus devolve novamente uma pergunta ao mestre: "Na tua opinião qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" (v. 36). Da pergunta de Jesus emerge um dado muito importante: o próximo não é, o próximo faz-se. Para os judeus, o próximo era o parente, o companheiro de religião e, no máximo, o estrangeiro radicado entre eles. Portanto, era um categoria estática. Jesus diz, com a parábola e a pergunta final, que o próximo faz-se, ou seja, são as circunstâncias que tornam alguém próximo.

A resposta do mestre à pergunta de Jesus é correta, embora ele mesmo não a aceite: "Aquele que usou de misericórdia para com ele" (v. 36a) foi o próximo. Dois aspectos chamam a atenção nessa resposta: primeiro, o mestre evita mencionar 'o samaritano', diz apenas 'aquele'; segundo, usar misericórdia é atribuído somente a Deus em todo o Antigo Testamento e apenas a Jesus no Novo. 

A única vez em que se atribui a um homem o uso da misericórdia é aqui. E não se atribui a um homem da religião, mas a um herege. E, de todos os envolvidos na parábola, foi exatamente o apresentado como exemplo. Por isso, Jesus aconselha ao mestre da lei: "Vai e faze a mesma coisa" (v. 37).

Com isso, Jesus aconselha o mestre da lei e a todos, de ontem e de hoje, a abrir mão de todos os preceitos impostos pela religião e perceber que o amor a Deus e ao próximo são inseparáveis.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, junho 25, 2016

REFLEXÃO PARA O XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 9,51-62



Com o Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum, nós entramos no coração da narrativa lucana: a viagem de Jesus em direção a Jerusalém, a qual ocupa uma extensão de dez capítulos (9,51 – 19,28) de um total de vinte e quatro. Portanto, é uma parte muito relevante para o conjunto da obra do terceiro Evangelho.

É importante recordar que aquilo que o evangelista quer apresentar com a grande viagem de Jesus, não é a descrição de seu percurso ou itinerário propriamente, mas o sentido teológico do Caminho. Logo, não é um diário de bordo, mas uma apresentação teológica da vida de Jesus e da comunidade cristã, com seus respectivos sentidos.

Trata-se de um caminho que será construído ao longo dos capítulos a ele dedicados, os quais serão apresentados ao longo do ano na sequência dos domingos. Nos concentremos agora na etapa do caminho proposta para esse domingo. E, é exatamente o início da longa jornada proposta por Jesus.

O texto se inicia afirmando que “Estava chegando o momento de Jesus ser levado para o céu” (v. 51 a). Ele já tinha preparado seus discípulos antes (cf. Lc 9,22) e sabia muito bem o que lhe esperava na capital. Tinha consciência de que seria levado para o céu, mas também de que, antes disso, deveria ser rejeitado, sofrer, morrer e ressuscitar. Por isso, “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (v. 51b), onde tudo se consumaria. Na segunda parte do versículo falta fidelidade ao texto na sua língua original. A tradução correta seria “endureceu o rosto para ir a Jerusalém”, o que vem ressaltar a importância e a irrevocabilidade da decisão e, sobretudo, a coragem para toma-la, considerando as consequências, como bem as conhecemos: sofrimento, cruz, morte.

Com essa expressão bastante enérgica, Lucas recorda três passagens do Antigo Testamento: (a) o terceiro cântico do servo de Isaías 50,7: “O Senhor Iahweh virá em meu socorro, eis porque não me sinto humilhado, eis porque endureci o rosto como uma pederneira, e tenho a certeza de que não ficarei confundido”; (b) Jeremias 21,10a: “Porque endureço meu rosto contra esta cidade para sua desgraça, não para sua felicidade”. (c) Ezequiel 21,7: “Filho do homem, endurece tua face para Jerusalém, profere a tua palavra na direção do santuário e profetiza contra a terra de Israel”.

Endurecer o rosto em direção a alguém ou algo é ter a coragem de andar contra, é enfrentar. Logo, com essa decisão, Lucas quer dizer que Jesus está completamente convencido que não dá mais para esperar. É necessário e urgente partir para Jerusalém e lá denunciar toda a corrupção e hipocrisia política e, principalmente, religiosa. De fato, suas atitudes ao aproximar-se e chegar na cidade apontam para isso: a lamentação (cf. Lc 19,41-44) e a chamada purificação do templo (cf. Lc 19,45-46).

Da decisão de ir, passamos para os primeiros passos da caminhada nos versículos 52 e 53. Jesus envia mensageiros a sua frente, assim como anteriormente tinha enviado discípulos em missão (cf. Lc 9,1-6), mas esses não obtêm êxito ao entrar em um povoado de samaritanos. Assim, o sentido do caminho vai tornando-se mais claro: nele Jesus envia, ensina, repreende, enfim, catequisa. É um caminho de formação, de vivência e testemunho. É fazer a experiência de e com Jesus. Tanto que nos Atos dos Apóstolos, livro também escrito por Lucas, a própria comunidade cristã é chamada algumas vezes de “o Caminho” (cf. At 9,2; 19,9.23; 24,14.22). A Igreja é “o Caminho” para Lucas, porque deve estar sempre a caminho, como espaço de encontro e experiência autêntica com o Senhor e, ao mesmo tempo, em estado permanente de missão, ou seja, em saída, como tem pedido o Papa Francisco. E, é Lucas, por excelência, o Evangelho da missão. Não podemos também deixar de recordar a auto apresentação que o próprio Jesus faz como Caminho em João 10,6: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. 

Jesus encontra adversidade logo no início do caminho, ao ser rejeitado pelos samaritanos (v. 53). Como o caminho é missão, com essa rejeição Lucas recorda o início da missão de Jesus na Galiléia, quando Ele também lá fora rejeitado pelos seus conterrâneos (cf. Lc 4, 16-30) e, ao mesmo tempo, já antecipa a rejeição que o mesmo sofrerá em Jerusalém (cf. Lc 22 – 23). Desse modo, o evangelista mostra que Jesus sofreu rejeição em todas as etapas da sua missão. Eis porque o seu seguimento comporta tantas exigências, como veremos nos versículos conclusivos (vv. 57-62).

Devemos recordar os motivos da rejeição por parte dos samaritanos: porque Jesus caminhava para Jerusalém (v. 53). Certamente, isso aconteceu porque os discípulos que foram na frente para preparar o caminho e pedir as hospedagens não anunciaram corretamente o que Jesus iria fazer em Jerusalém, pois nem eles mesmos compreendiam. Imaginavam que Ele iria a Jerusalém para lá reinar, e não para contestar e lá ser vítima do mesmo poder ao qual os samaritanos historicamente se opunham. Os discípulos pediram hospedagem para um messias triunfante. Não tinham ainda entendido que o movimento de Jesus para Jerusalém era um movimento contra, de contestação.

A rivalidade entre samaritanos e judeus era secular. Quando a Assíria conquistou Samaria, a capital do Reino do Norte, em 722 a.C., deportou a população local e trouxe povos estrangeiros para habitar na cidade (cf. 2 Rs 17,24-28). Os novos habitantes levaram seus costumes e tradições religiosas, o que levou a Samaria a ser conhecida como terra de sincretismo, de heresias e povo impuro. É essa a origem histórica da relação conflituosa. Inclusive, quando os judeus retornaram do exílio e começaram a reconstruir o tempo e a cidade de Jerusalém, mesmo em meio às dificuldades, rejeitaram a ajuda oferecida pelos samaritanos, como atesta o livro histórico de Esdras (cf. Es 4,3).

Por essa rivalidade histórica, os samaritanos hostilizavam quem por lá passava em direção a Jerusalém. Mas Jesus não ia a Jerusalém para reforçar o poder da capital, mas para contestá-lo. Se os discípulos tivessem deixado isso claro, a receptividade teria sido diferente. Inclusive, Jesus até mostrava simpatia pelos samaritanos em solidariedade ao preconceito que eles sofriam pelos judeus, sendo tratados como inferiores. A parábola do bom samaritano será uma prova disso (cf. Lc 10,29-37).

A proposta de João e Tiago, mandar fogo para destruir os samaritanos (v. 54), é uma clara prova de que os discípulos ainda não tinham compreendido o sentido do caminho nem o sentido do seguimento de Jesus. Na verdade, não tinham clareza da identidade do Mestre. De fato, Lucas revela, mais uma vez, que a mentalidade triunfalista continuava presente nos discípulos de Jesus. Os filhos de Zebedeu revelam-se arrogantes, intolerantes, fanáticos e fundamentalistas. Não é à toa que em Marcos Jesus os chama “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), exatamente pelo caráter autoritário e ambicioso. Na verdade, eles estavam no grupo em busca de poder e privilégio (cf. Mc 10,35-40; Mt 20,20-23).

Com tal proposta os discípulos mostram exatamente o que não se deve fazer. A mensagem de Jesus não pode ser imposta. Deve ser vivida com alegria e convencer pelo testemunho. Aqueles que a recebem tem a liberdade de acolher ou não. Por isso, recebem uma repreensão severa de Jesus (v. 55). Aqui, Lucas aplica o verbo grego επιτιμαω “epitimaô”, o mesmo usado quando diz que Jesus expulsa os demônios. Isso indica que os discípulos, João e Tiago, tiveram uma ideia satânica e, portanto, reprovável para Jesus. Qualquer iniciativa de oposição ao Reino de Deus pode ser considerada satânica, como a violência e a vingança.

Os obstáculos não impedem a caminhada de Jesus e, assim, “partiram para outro povoado” (v. 56), antecipando o que será a sina da comunidade pós pascal, apresentada no livro dos Atos dos Apóstolos pelo próprio Lucas.

No prosseguimento da viagem (vv. 57-62), três personagens anônimos entram em cena, como supostos candidatos ao discipulado: dois voluntariamente (vv. 57 e 61) e outro é interpelado pelo próprio Jesus. São três pequenas cenas, cujo objetivo é mostrar quais são as exigências para um seguimento autêntico e livre. A cada uma das situações Jesus responde com pequenos provérbios bastante interpelantes. A quantidade, três, indica a totalidade, ou seja, a catequese universal presente nas situações. Significa que as exigências impostas por Jesus são válidas para todos os discípulos em qualquer momento da história.

Ao primeiro (v. 58), Jesus expõe suas condições de pobreza absoluta, deixando claro que ninguém o siga pensando em privilégios e seguranças, pois “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Tal situação deve ser também a dos seus discípulos.

Ao segundo, o qual é chamado pelo próprio Jesus (v. 59), é exigido que o mesmo abra mão de um dos direitos e deveres mais sagrados para o povo judeu, o de enterrar os genitores. Com a expressão “Deixa que os mortos enterrem seus próprios mortos”, Jesus quer dizer que a causa do Reino é incompatível com qualquer ideia de vida velha ou passado. Trata-se de um provérbio hiperbólico, cujo sentido é a exigência de uma nova mentalidade e, consequentemente, um novo jeito de pensar e conceber a vida.

No terceiro caso Jesus toma uma imagem agrícola para ilustrar mais uma exigência ou reforçar as outras duas, com a expressão: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (v. 62). Assim, a radicalidade do seu seguimento vem mais uma vez evidenciada, uma vez que o anúncio do Reino não pode mais esperar.

Para o discípulo de ontem, de hoje e de sempre, Jesus exige uma ruptura total com o passado. É urgente o anúncio do Reino, e esse só se faz com plena liberdade e convicção. Qualquer olhar para trás compromete o êxito do caminho a ser construído. As concessões requeridas pelos candidatos a discípulo representam o impacto da primeira dificuldade encontrada por Jesus e os Doze no caminho que tinham iniciado. As interpelações de Jesus representam a adesão total e incondicional.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, junho 18, 2016

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (LUCAS 9,18-24)

A reflexão acerca de Lc 9,18 - 24, texto evangélico deste 12º Domingo do Tempo Comum, obriga-nos a olhar para todo o capítulo nono do terceiro Evangelho e, nesse, situar a passagem em questão, para melhor o compreendermos. 

O capítulo nono de Lucas se inicia com o envio missionário dos Doze para proclamar o Reino de Deus e curar (cf. 9,1-2). Eles foram de povoado em povoado (cf. 9,6). A repercussão da missão foi tanta, a ponto de chegar aos ouvidos do tetrarca Herodes (cf. 9,7-9). O retorno dos discípulos missionários foi marcado pelo entusiasmo, fazendo aumentar, ainda mais, a multidão que seguia Jesus, culminando com o episódio da partilha dos pães (cf. 9,10-17). 

A recordação desses fatos é imprescindível para a compreensão do texto que a liturgia nos oferece pelos seguintes aspectos: (a) os Doze foram enviados para anunciar o Reino; um modo de Jesus saber se o anúncio fora bem feito é conhecendo o que o povo aprendeu. As variadas respostas das multidões comprometem a qualidade da missão e do anúncio; (b) o tumulto criado no retorno dos discípulos leva Jesus a uma espécie de parada, tipo um retiro. Por isso, Ele se retira para rezar em um lugar afastado; o clima de oração cria também o clima para as perguntas íntimas que irá fazer aos discípulos. 

Considerando esses aspectos, nós podemos, finalmente, olhar para o texto de hoje. A primeira informação apresentada é de que Jesus estava com seus discípulos em um lugar reservado para rezar (v. 18). É próprio de Lucas apresentar Jesus em oração, principalmente como antecedente de tomadas importantes de decisões e de momentos decisivos na sua vida: passou a noite em oração na véspera da escolha dos Doze (cf. 6,12), estava em oração no momento da transfiguração (cf. 9,28), ensinou seus discípulos a rezar (cf. 11,1-2), rezava na turbulenta véspera da Paixão (cf. 22,40ss). Esses são apenas alguns exemplos. Portanto, quando Lucas apresenta Jesus em oração, ele indica a importância do episódio.

No entanto, aquele momento de Jesus sozinho com os discípulos não era apenas de oração, mas, principalmente, de formação. Jesus formava continuamente seus discípulos, considerando a novidade de seus ensinamentos e a forte tendência de má interpretação. Por isso, era necessário passar muitas horas ensinando.

Jesus não ensinava apenas expondo conteúdos, mas perguntando, exortando e provocando. Assim, as perguntas que hoje Ele dirige aos Doze, não constituem uma pesquisa de opinião pública sobre a sua popularidade, mas retratam uma preocupação com a forma como a sua mensagem estava sendo anunciada e acolhida, principalmente após a missão dos Doze em diversos povoados (cf. 9,1-6), pois a qualidade do anúncio era reflexo da formação recebida pelos discípulos. Por isso, Ele se preocupa.

Sua preocupação não é com a popularidade, mas se a sua mensagem está sendo compreendida. De fato, é isso o que preocupa Jesus. Daí a pergunta: "Quem diz o povo que eu sou?" (v. 18). Em outras palavras, Jesus pergunta que imagem o povo está tendo dele. Pela resposta dos discípulos, há uma certa confusão na cabeça do povo, já que uns dizem ser o Batista, outros Elias ou algum dos profetas. Na verdade, os discípulos omitiram algumas imagens de Jesus, pois para os fariseus e outros grupos, Ele não passava de um charlatão. Certamente eles não ouviam apenas comentários positivos a respeito do Mestre que nem parecia mestre!

As respostas selecionadas são uma tentativa de engrandecimento de Jesus da parte dos discípulos, uma vez que estas colocam Ele no nível de personagens importantes da tradição judaica antiga (Elias) e recente (João Batista). Em outras palavras, os discípulos dizem a Jesus que o povão o vê como um profeta. Para Jesus, isso não é satisfatório. Principalmente, porque o seu perfil não se alinha muito com as características dos profetas citados. 

Elias e João Batista foram grandes homens, sem dúvida, mas muito diferentes de Jesus. Elias foi um profeta virtuoso para o seu contexto, mas defensor da guerra em nome de Yhaweh contra o culto a baal (cf. 1 Rs 18 - 19). João Batista, com sua austeridade, preferiu isolar-se no deserto ao invés de lidar diretamente com o povo no dia-a-dia. Portanto, as imagens de Jesus que estavam sendo construídas não eram as mais adequadas. Certamente era um prestígio ser comparado e até confundido com personagens tão importantes. Mas, seu papel, sua metodologia e sua mensagem eram muito diferentes. Portanto, a resposta dos discípulos foi algo preocupante para Jesus. Por isso, Ele quis saber a opinião deles próprios.

Consciente da confusão causada no povo quanto à sua identidade, a pergunta aos discípulos é bem precisa: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (v. 20a), ou seja, e vocês, o que acham de mim? Sejam sinceros... Daí, Pedro toma a palavra e responde prontamente: "Tu és o Cristo de Deus" (v. 20b). Essa resposta afirma a messianidade de Jesus, ou seja, Pedro diz que Ele é o Messias de Deus, portanto, o esperado. Resposta correta, mas também não satisfatória.

Ora, a figura de messias na cabeça de Pedro, era a do messias davídico, portanto, a do restaurador, guerrilheiro e dominador. Era essa a imagem do messias esperado por tantos séculos em Israel, e Pedro, juntamente com os Doze, estavam convictos de ter chegado, e mais ainda dos privilégios que teriam quando Jesus assumisse o poder em Jerusalém. 

Por conhecer a mentalidade de Pedro e, portanto, sua ideia de messias, Jesus o proíbe severamente de contar isso a alguém (v. 21). A severidade da proibição indica a gravidade da afirmação de Pedro. Certamente foi essa a imagem que ele transmitiu de Jesus na missão realizada pouco tempo antes (cf. 9,1-6). Com isso, Jesus diz que é melhor ficar calado que anunciá-lo distorcendo a sua mensagem. 

Após combater severamente a mentalidade equivocada dos discípulos, Jesus procura esclarecer a sua verdadeira identidade.  E, o faz recordando, exatamente, a sua condição de homem, através da misteriosa expressão "O Filho do homem" (v. 22a), o que quer dizer que Ele era verdadeiramente homem. Sendo verdadeiro homem, não estava isento do sofrimento nem da rejeição, muito menos da morte. Por isso, cita aqueles que serão os responsáveis diretos pela sua condenação: os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v. 22b), os três grupos que compunham o Conselho máximo de Jerusalém, o Sinédrio, símbolo do poder. Se Ele será morto pelo poder, é porque sua proposta de vida não contempla esse. Pelo contrário, ao invés de poder, a característica do seu ensinamento é o serviço.

Indo mais além, Ele abre completamente o jogo: Esse homem a quem vocês estão seguindo, "deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia" (v. 22c). Certamente, Pedro e seus companheiros jamais tinham imaginado que o destino do Messias seria esse.

Como tínhamos recordado no início, essa recolhida com os Doze em lugar reservado não seria apenas para rezar, mas também para formar e ensinar, e eis, então,  o ápice da formação: Esse messias vai sofrer muito, até morrer; porém, há de ressuscitar ao terceiro dia, ou seja, em plenitude. Se vai morrer verdadeiramente como homem, vai ressuscitar, também verdadeiramente, por ser Deus.

O autor do Evangelho não descreve a reação dos Doze após as afirmações do versículo 22, mas certamente ficaram perplexos, tristes e até indecisos. As entrelinhas apontam para isso, o que se conclui com a sequencia do texto (v. 23): "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga"; se estavam só Ele e os Doze, isso foi direcionado para eles. Provavelmente, alguns pensaram em desistir do seu seguimento ao ouvi-lo falar de morte e cruz, e isso o leva a abrir cada vez mais o jogo, ou seja, deixa claro quais são as consequências do discipulado. Ainda há tempo de voltar atrás! 

Por fim, suas últimas palavras são, de fato, uma reviravolta na mentalidade dos discípulos. Ele apresenta uma dinâmica totalmente nova, jogando por terra a ideia ultrapassada de messias, presente na mente dos Doze e em Israel como um todo. O seu Reino não pode ser imaginado segundo as concepções habituais de seu tempo.

Há critérios e exigências para o seguimento autêntico de Jesus. Aceitar ou não, é pessoal. Mas, uma vez aceitando, devemos procurar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira identidade e assumir as consequências. Segui-lo não é invocar sua proteção e privilégios; é dar a vida como Ele. Quem tem medo de doar a vida não pode ser seu discípulo.

Última colocação: Se a imagem ou imagens que se tem de Jesus são equivocadas, é porque Ele está sendo mal anunciado!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues