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REFLEXÃO PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 12,38-44 (ANO B)




Após a interrupção para a solenidade de todos os santos, no último domingo, retomamos hoje a leitura do Evangelho segundo Marcos. O texto que a liturgia propõe para este trigésimo segundo domingo do tempo comum é Mc 12,38-44, trecho que apresenta Jesus já na cidade de Jerusalém, na fase final de seu ministério. Após percorrer um longo caminho acompanhado pelos discípulos e as multidões, Jesus entrou na grande cidade e começou a exercer o seu ministério também ali. É importante recordar que sua primeira atividade em Jerusalém foi a expulsão dos comerciantes do templo (cf. Mc 11,15-16), como forma de denúncia enfática à lideranças religiosas que exploravam as pessoas em nome de Deus.  Além desse fato, durante alguns dias, Jesus se envolveu em diversas controvérsias e disputas com os líderes religiosos no templo de Jerusalém, aprofundando cada vez mais a sua crítica à religião da época.

O episódio retratado no evangelho de hoje é a última controvérsia ou investida contra a religião dentro do próprio recinto do templo. É a última semana de Jesus, na qual ele aproveitou para entrar em conflito com todos os grupos hegemônicos da época, aprofundando o seu profetismo denunciador. Na verdade, de acordo com o relato de Marcos, essa foi a última vez que Jesus entrou no templo, o que torna o texto ainda mais significativo, pois atesta sua ruptura total com o sistema religioso que o condenará pouco tempo depois. No episódio anterior, ele tinha entrado em conflito com os escribas por motivos doutrinais (cf. Mc 12,28-37); no texto que a liturgia oferece para hoje, o conflito diz respeito ao comportamento dos escribas ou mestres da lei, como prefere a versão da liturgia. O escribas (em grego: γραμματευς = gramateús) eram os teólogos oficiais, intérpretes credenciados da lei, além de ser também, como sugere o próprio nome, responsáveis pela escrita das cópias da Escritura e dos comentários dos rabinos para serem lidos nas sinagogas. Eles exerciam papel preponderante no judaísmo da época; eram os responsáveis diretos pela dominação ideológica da religião sobre o povo.

Uma vez contextualizados, olhemos para o texto: “Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: “Tomai cuidado com os doutores da Lei! (v. 38a). Como já estava próximo da páscoa, muitos peregrinos já se encontravam em Jerusalém para a grande festa, inclusive a multidão que tinha acompanhado Jesus no caminho. Essa multidão ouvia o seu ensinamento e, certamente, repercutia. O ensinamento de Jesus é introduzido por uma séria e enfática chamada de atenção: “Tomai cuidado!”; apesar de forte, essa tradução ainda não exprime o que diz o texto na língua original: o evangelista usa uma forma imperativa de um verbo que significa “abrir os olhos” (em grego: βλεπω = blêpo), o que expressa uma situação de perigo e, por isso, a necessidade de uma atenção extrema. Portanto, a ordem que Jesus dá aos seus ouvintes, e Marcos transmite aos seus leitores de todos os tempos, é: “abri os olhos com os escribas!”. Com tal expressão, Jesus afirma que esses líderes religiosos eram pessoas muito perigosas! É importante recordar que Jesus jamais mandou os discípulos e as multidões tomarem cuidado com as prostitutas, os publicanos ou os pecadores em geral, mas somente com as classes das pessoas mais religiosas da época, como os escribas (doutores da lei), saduceus e fariseus.

Após o alerta inicial – “abri os olhos!” – Jesus diz o porquê: “Eles (os escribas ou doutores da lei) gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas, gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes” (vv. 38b-39). É por causa da presunção e desse comportamento hipócrita e falso dos escribas que as pessoas precisam ter muito cuidado com eles. O comportamento dos escribas é perigoso porque, em nome da religião, camuflam muita perversidade e maldade; são pessoas que vivem de aparências, se sentem superiores, são soberbas e cultivam privilégios, esbanjando ostentação. Um comportamento assim, é totalmente oposto ao que Jesus pede de seus discípulos; e o pior, para Jesus, é que os escribas faziam tudo isso em nome de Deus e da religião.

Na continuidade da denúncia, Jesus identifica uma falta ainda mais grave na falsa religiosidade dos escribas: “Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, eles receberão a pior condenação” (v. 40). A categoria das viúvas é uma das imagens de pessoas mais vulneráveis e necessitadas da Bíblia; juntamente com os pobres, os órfãos e estrangeiros, as viúvas expressam o cuidado e a predileção de Deus pelos humildes. Se a mulher já era uma categoria marginalizada, se tornava ainda mais se ficasse viúva. A mulher que ficasse viúva sem ter um filho homem, e se não casasse novamente com um cunhado, em caso de ter ficado com herança, deveria confiar o cuidado dessa herança aos escribas (doutores da lei), já que a mulher não podia fazer negócios; é a esse fato que Jesus alude ao dizer que os escribas devoram as casa das viúvas. Constatava-se que, ao receber o direito de administrar o patrimônio das viúvas, os escribas na verdade se desfrutavam desse, roubando e devorando. Para Jesus, nenhuma forma de injustiça e exploração é aceitável, mas quando isso acontece em nome de Deus e da religião, é muito pior. Por isso, a sentença: “eles receberão a pior condenação”. De acordo com o Evangelho, o que leva o ser humano à condenação é a prática da injustiça, principalmente a exploração e a falta de cuidado com as pessoas mais vulneráveis e necessitadas.

Após a polêmica com os escribas (doutores da lei), Jesus continua no tempo observando o movimento e, certamente, inconformado com tudo o que ali via. Ele sabia que aquela construção já não era casa de oração, mas casa de comércio (cf. Mc 11,15-18). Chamava a atenção de Jesus a comercialização da fé: “Jesus estava sentado no templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantas” (v. 41). O povo tinha se acostumado com uma divindade que pedia ofertas para revertê-las em favores e proteção aos que ofertavam. A posição de Jesus era de completo repúdio àquele sistema. Entre tantas pessoas devotas que por ali passavam, Jesus observa um caso particular: “Então chegou uma viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada” (v. 42). Ora, de acordo com a lei, o sistema religioso deveria prover as viúvas pobres do necessário para a sobrevivência (cf. Dt 14,28-29). E Jesus contempla o contrário: o sistema religioso recebendo até mesmo de quem não podia ofertar e mal tinha como sobreviver. Embora voluntária e generosa, a oferta da viúva é motivada por uma concepção errada de Deus; ela é coagida ideologicamente a ofertar para poder receber benefícios de Deus. Era isso que os escribas (doutores da lei) e sacerdotes pregavam.

Jesus se comove ao ver a viúva ofertando tudo o que tinha para viver, e chama a atenção dos discípulos: “Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (vv. 43-44). A denúncia aos escribas tinha sido feita abertamente para a multidão (cf. v. 38); agora, se trata de um ensinamento mais reservado e específico para os discípulos, cuja importância é evidenciada pela introdução “Em verdade vos digo” (em grego: αμην λεγω υμιν – amém legô himin); essa é uma fórmula de introdução de um ensinamento solene e importante. Portanto, a observação que Jesus fez sobre a oferta da viúva tem grande importância para o seu discipulado em todos os tempos.

É claro que Jesus percebeu sinceridade e verdade naquela oferta. Ao contrário dos escribas que viviam de aparências, e dos ricos que ofertavam do supérfluo, a viúva renunciou a tudo o que tinha para viver, doando as suas duas únicas pequenas moedas. Porém, a admiração de Jesus é mais uma denúncia do que um elogio: a oferta das duas moedinhas da viúva era a última prova que ele precisava para concluir que aquela instituição religiosa – o templo e seu aparato de sustentação financeiro e ideológico – estava completamente degradada, sugando até mesmo de quem não tinha, como a viúva. Jesus sentiu as dores da viúva sendo sugada pelo templo e chamou os discípulos para sentirem também essas dores, alertando-os para jamais repetirem os abusos da religião que ele estava condenando. Mais do que comover, aquela cena causou repulsa em Jesus; por isso, ao sair do templo, pouco tempo depois, ele desejou e profetizou a sua destruição: “Não ficará pedra sobre pedra que não seja demolida” (Mc 13,2).

Jesus condena severamente a religião que se sustenta em práticas superficiais, condena a ostentação e a busca por privilégios. Ele não tolera religião de fachada, sobretudo quando essa esconde injustiças e exploração. Qualquer prática religiosa que abusa da boa vontade das pessoas simples e humildes, nada tem a ver com o projeto de Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – MATEUS 5,1-12a



Todos os anos, o Evangelho que a liturgia propõe para a solenidade de todos os santos é Mateus 5,1-12a. Esse é, certamente, um dos trechos mais lidos e conhecidos de todo o Novo Testamento. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha”. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido a repetição constante do termo grego μακαριοι – makárioi, cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados.

As bem-aventuranças compreendem a síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos. É um texto belo, mas muito fácil de ter seu sentido deformado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Ora, falar em todos os santos e santas tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta.

O discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem evangélica, evitando que esta solenidade se transforme em mera apologia ao devocionismo ingênuo que tanto tem se difundido na Igreja Católica nos últimos anos. Por isso, é preciso ter clareza do programa de vida de Jesus com seu projeto de sociedade e, consequentemente, das suas exigências.

De todas as palavras atribuídas a Jesus que encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Infelizmente, isso tem acontecido com muita frequência. Na verdade, quem quer fazer da religião cristã o “ópio do povo”, começa pelas bem-aventuranças. Por isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de encorajamento e transformação.

Na versão mateana, encontramos oito bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido a ocorrência do termo grego μακαριοι – makárioi por nove vezes. Não consideramos a nona ocorrência do termo (v. 11) como uma nova bem-aventurança, mas como uma recapitulação e síntese das oito para os discípulos, reforçando a exigência para que eles de fato vivessem intensamente todas elas.

Para compreendermos as bem-aventuranças em seu sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já afirmamos anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é μακαριοι – makárioi, o qual pode ser traduzido por benditos, felizes ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É importante recordar que, embora escritos em grego, os evangelhos foram construídos segundo uma mentalidade semítica, sobretudo o de Mateus. Por isso, é importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o hebraico. Ora, o termo correspondente ao grego μακαριοι – makárioi, em hebraico é אשרי – ashrei, o qual significa uma felicitação, mas é, ao mesmo tempo, uma forma imperativa do verbo caminhar, seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Acreditamos que o evangelista pensou nos dois sentidos ao formular o seu texto. Sem esse segundo sentido, as bem-aventuranças não passariam de conformismo ou resignação; com ele, passam a ser uma mensagem de transformação.

Olhemos, pois, para cada uma das situações contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Eis a primeira bem aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança que tem recebido a pior interpretação ao longo da história, infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à transformação. Na língua grega a palavra pobre (πτωχος – ptokós) deriva do verbo acocorar-se de medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de humilhação extrema.

O convite de Jesus é para que não desanimem, mas sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em grego: πνευμα – pneuma) é empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente, seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.

A segunda bem-aventurança diz: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados” (v. 4). Ora, jamais será consolado o aflito que se fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado por completo. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar, jamais recuar.

Na terceira bem-aventurança, Jesus diz: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (v. 5). O termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e, aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja, pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se Ele dissesse: “não parem, continuem caminhando e lutando”. Era muito comum os pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme Ele mesmo o fizera, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão forte: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). A fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais para a vida, também deve ser a luta por Jesus entre seus discípulos. A comunidade cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta por justiça.

Na quinta bem-aventurança, temos: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia, não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem. A misericórdia é uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também para os seus seguidores. Seguir fazendo o bem ao próximo, sem distinção, é uma das principais exigências do discipulado.

Com a sexta bem-aventurança, Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o discípulo de Jesus deve marchar, avançar.

A sétima bem-aventurança diz: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). Na marcha da comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma, intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra   שלום– shalom: paz como bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamados filhos de Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado seu filho.

A oitava bem-aventurança funciona como uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao Reino: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 10). A justiça, por excelência, é a prática das bem-aventuranças anteriores. A quem adere plenamente à lógica do Reino, não há outra consequência a não ser a perseguição. Mas, mesmo diante da perseguição, a palavra de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando, marchando em busca do Reino que é vosso!

Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro e na sobreposição de uns sobre os demais. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o seu projeto: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (vv. 11-12a). Não consideramos essa afirmação como uma nova bem-aventurança, mas como um reforço e síntese das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como Ele mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver como Ele.

Assim, recordando que Paulo e os demais cristãos de suas comunidades chamavam-se mutuamente de santos, e eram cristãos porque levavam a sério as bem-aventuranças, podemos compreender que celebrar todos os santos é recordar todos os que não aceitam as coisas como são impostas, mas sabem mover-se, avançar e seguir um outro caminho; não para fugir da realidade, mas para transformá-la.

Para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha, caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é libertadora porque convida o discípulo e a discípula a sair de si, colocar-se em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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REFLEXÃO PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,46-52 (ANO B)




O evangelho deste trigésimo domingo do tempo comum – Marcos 10,46-52 – apresenta a última etapa do caminho de Jesus com seus discípulos em direção à cidade de Jerusalém, onde acontecerão os eventos da sua paixão, morte e ressurreição. É sempre oportuno recordar que esse não é apenas um percurso físico-espacial mas, sobretudo, um programa catequético, teológico e espiritual, apresentado pelos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), no qual Jesus procura abrir os olhos dos discípulos a respeito da sua verdadeira identidade: ele não é um messias glorioso e forte, mas servidor e sofredor que, ao invés de restaurar o reino de Davi, propôs a instauração do Reino de Deus. Para isso, fez três anúncios explícitos da paixão, mas mesmo assim os discípulos continuavam sem compreender nem aceitar.

O episódio narrado no evangelho hoje é a cura de Bartimeu, um cego que mendigava às margens da estrada, na saída da cidade de Jericó. Esse relato se torna emblemático e decisivo para a catequese de Marcos e a vida dos discípulos e discípulas de Jesus. Mais do que uma crônica, é uma espécie de parábola, através da qual Jesus denuncia a situação dos seus discípulos, e Marcos atualiza essa denúncia para a sua comunidade: há uma cegueira generalizada entre os seguidores de Jesus quando buscam prestígio, poder, riquezas e privilégios, quando não aceitam que o Reino de Deus pertence aos pequenos, excluídos e marginalizados. Ora, durante o caminho os discípulos tinham feito proselitismo, alimentado rivalidades discutindo quem era o maior entre eles, e almejado lugares de honra, demonstrando, com isso, uma verdadeira cegueira ao que Jesus estava propondo e anunciando. Por isso, ao apresentar na reta final desse caminho, um cego gritando por ajuda, o evangelista denuncia a situação dos discípulos e da sua comunidade.

Olhemos com atenção para o texto: “Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho” (v. 46). Esse primeiro versículo traz muitas informações importantes; a primeira, é que Jesus se encontra a caminho, em movimento. O caminho é um lugar importante para uma comunidade itinerante como a de Jesus. Representa a exposição aos riscos e perigos, mas também é sinal de abertura ao encontro e ao diálogo com o diferente; acentua que, desde o princípio, a Igreja existe para estar sempre em saída. Um outro indicativo espacial importante presente no versículo é a cidade de Jericó. Situada a cerca de trinta quilômetros de Jerusalém, Jericó era a última parada do caminho para a cidade santa (Jerusalém), para quem partia da Galileia, como Jesus e seus discípulos. Jericó tem grande significado para a tradição bíblica; foi a primeira cidade conquistada por Josué após a entrada na terra prometida (cf. Js 6,1-14). No tempo de Jesus, essa cidade era estratégica; sendo passagem obrigatória para quem ia do norte para Jerusalém, milhares de peregrinos passavam por ela durante o ano, principalmente na época das grandes festas religiosas de Israel, como a páscoa, pentecostes e a festa das tendas; isso fomentava a economia, ao mesmo tempo em que facilitava a aglomeração de mendigos pedindo esmolas à beira da estrada, fenômeno muito comum nas proximidades dos santuários e centros de peregrinação, até os dias de hoje.

Além dos discípulos, também uma grande multidão acompanha Jesus. Além de admiradores, pessoas que tinham se encantado com Jesus ao longo do caminho, essa multidão era também, com muita probabilidade, composta por peregrinos em geral que já se dirigiam à Jerusalém para a festa da páscoa que se aproximava. Dentre tantos pedintes que, certamente, estavam à beira do caminho, o evangelista destaca um: o cego Bartimeu, filho de Timeu. Na verdade, Bartimeu é a forma hebraica de “filho de Timeu”, cujo significado é “filho da honra”. Esse é o único caso, no Evangelho segundo Marcos, em que um doente necessitado de cura é chamado pelo nome. A sua condição de cego lhe impede de ser integrado à comunidade, restando-lhe somente as margens da sociedade e a mendicância para a sobrevivência. Esse personagem se torna paradigma para o discipulado, por isso o evangelista lhe dá tanta ênfase. Era consciente de sua condição e alimentava a esperança de voltar a ver, por isso, “quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” (v. 47). A fama de Jesus já tinha chegado à Jericó e alimentava a esperança dos humildes e marginalizados, como os cegos. Porém, ele ainda não era compreendido nem reconhecido como o Filho de Deus, mas apenas como o suposto messias nacionalista, filho de Davi. A cegueira dos discípulos, sobretudo, consistia exatamente nessa compreensão equivocada da identidade de Jesus. Ora, conceber Jesus como o filho de Davi é imaginá-lo guerreando, combatendo pela força para conquistar o trono e exercer o poder como os chefes deste mundo, algo totalmente incompatível com a mensagem de Jesus e sua proposta de Reino de Deus.

Imaginando que seguiam ao messias dravídico, as pessoas que acompanhavam Jesus, principalmente os discípulos, queriam monopolizá-lo, impedindo que outras pessoas se aproximassem dele, com medo de perder prestígio e privilégio quando fosse restaurado o reino de Israel. Os discípulos já tinham repreendido as crianças para que não se aproximassem, João tinha proibido a um homem desconhecido de agir em nome de Jesus e, agora, no episódio do cego, também o repreendem por querer aproximar-se de Jesus, suplicando a sua compaixão: “Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: ‘Filho de Davi, tem piedade de mim!” (v. 48). A atitude dos que repreendiam o cego é, muitas vezes, a postura das religiões em geral e, sobretudo, de muitos grupos cristãos: querer controlar a pessoa de Jesus, impedindo que ele seja conhecido e experimentado por todos, principalmente pelos mais necessitados. E Jesus não se deixa controlar por nenhuma religião ou grupo religioso; pelo contrário, ele mesmo faz questão que as pessoas banidas pela religião se aproximem dele, como mostra o texto: “Então Jesus parou e disse: “Chamai-o. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” (v. 49). Jesus interrompe seu caminho quando vê a necessidade do próximo, o que seus discípulos não aceitavam; Ele chama e quer perto de si toda pessoa necessitada e excluída.

Diante do convite, “o cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus” (v. 50). A atitude do cego evidencia o entusiasmo e alegria de quem tem reacesa a esperança. O primeiro gesto, jogar o manto, significa abrir mão de tudo, é o “renunciar a si mesmo”, uma das exigências de Jesus para o seu seguimento. Jogando o manto, o cego renunciou a tudo. Além de ser o único sinal de dignidade que ainda lhe restava, era no manto que guardava as esmolas que ganhava; o encontro autêntico com Jesus depende da capacidade de renunciar a tudo o que pode causar impedimento, como o apego aos bens. A renúncia ao manto, tornou o cego uma pessoa livre, por isso, ele “deu um pulou”; além da alegria, esse gesto significa também a liberdade reconquistada. Com isso, o evangelista recorda e denuncia, implicitamente, com o gesto do cego, os dois contra-exemplos anteriores na narrativa: o homem rico que não foi capaz de deixar o que possuía para herdar a vida eterna (cf. Mc 10,17-30; evangelho do 28º domingo), e a ambição dos discípulos por lugares de honra (cf. Mc 10,35-41; evangelho do 29º domingo). O pulo do cego é um salto qualitativo na sua vida, marco do encontro transformador com Jesus, salto esse que os discípulos da primeira chamada ainda tinham dificuldade de fazer.

Mesmo conhecendo as necessidades do cego, “Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” (v. 51). A pergunta de Jesus visa evidenciar o itinerário do discipulado: a passagem da cegueira à visão. Inclusive, é a mesma pergunta feita aos dois filhos de Zebedeu (cf. Mc 10,36). Demonstra o interesse de Jesus pelo próximo. Ver era a necessidade de todos os que acompanhavam Jesus, mas somente o cego Bartimeu foi capaz de assumir. Ao invés da visão, os filhos de Zebedeu pediram privilégio e honra (cf. Mc 10,37). Bartimeu, pelo contrário, assume sua condição de pequenino do Reino, por isso é o verdadeiro “filho da honra”; no encontro pessoal com Jesus, falando face a face, deixa de lado a ideologia nacionalista e começa a reconhecer a verdadeira identidade de Jesus, por isso, já não o chama mais de “filho de Davi”, mas de “Mestre”; esse é mais um sinal da sua transformação pessoal, passagem das trevas à luz e, consequentemente, ao discipulado: “Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (v. 52). De acordo com Jesus, o cego foi curado pela própria fé; não foram necessários sinais ou gestos extraordinários; bastou um encontro sincero. O encontro transformador gerou um novo discípulo para Jesus. A vista recuperada do cego, nesse relato, significa uma verdadeira exigência e o último apelo de Jesus aos discípulos, por isso, esse foi o último milagre narrado no Evangelho segundo Marcos.

Mais do que demonstração de força e poder, os milagres narrados nos evangelhos tem a função de mostrar a necessidade de transformação e mudança de mentalidade pelas quais todo ser humano deve passar para aderir à mensagem de Jesus. Para isso, é necessário, acima de tudo, abrir os olhos. É essa a necessidade principal das comunidades cristãs em todos os tempos: abrir os olhos para ver como Jesus e reconhecer sua presença nos mais necessitados e humildades, e discernir quais projetos, de fato, estão em sintonia com o Evangelho.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,35-45 (ANO B)




O evangelho deste vigésimo nono domingo do tempo comum – Marcos 10,35-45 – continua mostrando a incompreensão e incoerência dos discípulos de Jesus em relação ao seu programa de vida com as respectivas exigências. Jesus está caminhando para Jerusalém e, desde o início do caminho, alertou os discípulos sobre o destino desse caminho: o sofrimento, a paixão e a morte. Após alertá-los pela primeira vez (cf. Mc 8,31-33), Jesus ainda repetiu mais duas vezes (cf. Mc 9,30-32; 10,32-34), no entanto, os discípulos continuavam sem entender ou, pelo menos, sem aceitar esse destino, pois estavam contagiados pela ideologia nacionalista que aspirava um messias glorioso que restaurasse o reino de Israel nos moldes de Davi e Salomão, os maiores reis da sua história. Por isso, a cada vez que Jesus anunciava o seu destino doloroso, os discípulos distorciam o anúncio, alimentando a falsa ilusão de um reino glorioso, nos moldes dos reinos deste mundo. 

O episódio narrado no evangelho de hoje segue de imediato ao terceiro anúncio da paixão, o mais claro e profundo dos três anúncios. Por incrível que pareça, a reação dos discípulos a esse terceiro anúncio foi a mais absurda de todas, demonstrando ambição e sede de poder, aspirações totalmente incompatíveis com a mensagem de Jesus. Ao primeiro anúncio, Pedro o repreendeu, em nome do grupo dos Doze (cf. Mc 8,32); ao segundo anúncio, os discípulos reagiram discutindo quem era o maior entre eles (cf. Mc 9,33-34); ao terceiro, a reação é a busca por posições de honra e poder, como vemos no evangelho de hoje. Ao projeto que Jesus apresenta, os discípulos não apenas respondem com uma coisa diferente, mas com algo totalmente oposto à proposta do mestre, distorcendo completamente a sua mensagem.

Olhemos para o texto: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: ‘Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir” (v. 35). É importante recordar que Tiago e João, juntamente com Pedro, são os discípulos mais evidenciados nos três evangelhos sinóticos, não por méritos, mas pelo contrário. Por isso, é importante recordar que no momento da constituição do grupo dos Doze, Tiago e João receberam o nome de Boanerges, que significa que significa “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão ao temperamento explosivo, arrogante, intolerante e ambicioso dos dois. Além do texto de hoje, os evangelhos registram mais duas ocasiões em que as características negativas deles dois são evidenciadas: quando querem monopolizar Jesus, proibindo um homem de fazer o bem em seu nome pelo simples fato de não pertencer ao grupo (cf. Mc 9,38-39), e quando queriam eliminar com fogo os samaritanos, somente porque não os acolheram, no início do caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51-55). Portanto, juntamente com Pedro, João e Tiago são os discípulos mais difíceis de lidar no grupo; por isso, quando Jesus fica somente com eles, como no episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36), não se trata de privilégio, mas de necessidade. Pelo comportamento e temperamento, ambos necessitavam de uma catequese mais intensa.

Antes mesmo que os discípulos façam diretamente o pedido, o evangelista já os denuncia: “Queremos que faças por nós o que vamos pedir”; aqui, há praticamente uma ordem, se trata de uma exigência. Além do conteúdo do pedido, a forma como esse é feito é uma afronta ao projeto de Jesus, o que torna o texto bastante polêmico. Por isso, Lucas preferiu omiti-lo do seu Evangelho, e Mateus o modificou, colocando a mãe dos discípulos como a autora do pedido (cf. Mt 20,20-23), reforçando, assim, a sua visão negativa da mulher. Marcos, pelo contrário, faz questão de revelar também as debilidades dos discípulos, por isso seu Evangelho é o mais autêntico e original, inclusive, é o que mais revela também os traços humanos de Jesus (cf. Mc 3,5; 7,34; 9,36; 10,14.16).

À “quase ordem” dos discípulos, Jesus pergunta: “o que quereis que eu vos faça?” (v. 36). É típico de Jesus responder com uma nova pergunta, o que revela uma certa ironia da sua parte. Se os discípulos ainda não tinham aprendido nada com os três anúncios da paixão, pouco importava para eles uma pergunta irônica de Jesus. Por isso, sem nenhum escrúpulo, eles fazem um pedido absurdo: “Deixa-nos sentar um à tua direito e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (v. 37). Temos aqui uma verdadeira afronta a tudo o que Jesus já tinha ensinado a respeito de si e do seu projeto de Reino de Deus. Esse pedido revela uma busca ambiciosa por poder e privilégios, decorrente de uma visão totalmente equivocada da messianidade de Jesus. Eles Imaginavam Jesus como um messias segundo as expectativas políticas de Israel, alimentada ao longo dos séculos: um messias guerreiro que combateria contra os dominadores (romanos), até expulsá-los do território e, finalmente, restabeleceria o antigo reino dravídico em Jerusalém. Jesus já tinha descartado essa possibilidade por diversas vezes, mas os discípulos continuavam fechados e presos à antiga mentalidade. Sentar à esquerda e à direita, equivale às posições de honra, como se fossem os primeiros ministros do rei.

Ao pedido absurdo dos discípulos, Jesus responde com uma repreensão irônica e, como de costume, com novas perguntas: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso, podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” (v. 38). Com razão, Jesus os trata como ignorantes; ora, depois de três anúncios explícitos da paixão, e de toda uma trajetória de oposição e combate aos poderes constituídos, é inadmissível que os discípulos ainda quisessem espelhar-se nessas formas de poder, alimentando pretensões de glória e privilégios. Segue à repreensão, duas perguntas provocatórias que resumem todo o ministério de Jesus, do início na Galileia à consumação em Jerusalém, evocando duas imagens simbólicas dessa trajetória: o cálice e o batismo. O batismo remonta ao início de tudo (cf. Mc 1,8-11), enquanto o cálice antecipa o fim dramático (cf. Mc 14,23.36). Embora essas sejam imagens de grande significado ao longo de toda a Bíblia, o mais certo é que Marcos se referiu, com elas, apenas à vida pública de Jesus do começo ao fim, do batismo à cruz; em outras palavras, é como se Jesus perguntasse: “Vocês estão dispostos a viver do meu jeito, do começo ao fim de vossas vidas?”.

Os irmãos respondem com muita prontidão, mas Jesus parece não levar muito a sério, provavelmente por perceber uma certa presunção nos dois: “Eles responderam: ‘Podemos!’ E ele lhes disse: ‘Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado” (vv. 39-40). A disposição para abraçar e assumir as consequências de um seguimento sério e radical não pode ser em função de recompensas futuras. Por isso, Jesus confirma que, de fato, eles participarão de seu destino doloroso, mas abraçar o seu projeto em vista de recompensa é sinal incompreensão. A disposição de lugares na glória futura é um dom gratuito do Pai, e não uma conquista por méritos.

O resultado do ambicioso pedido dos dois irmãos é a divisão da comunidade: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João” (v. 41). À medida que os projetos individuais são evidenciados, a unidade é quebrada. A reação de indignação dos outros dez não significa que eles tivessem compreendendo melhor a dinâmica do projeto de Jesus; pelo contrário, demonstra que eles também pensavam como os dois irmãos e revoltam-se por rivalidade, ou seja, eles também queriam os dois lugares de destaque pretendido pelos filhos de Zebedeu. Essa reação afirma que o espírito de concorrência contagiava o grupo dos discípulos. A comunidade, afetada pela ambição, estava completamente ameaçada, marcada pela rivalidade e espírito de competição. Por isso, Jesus chama a atenção: “E Jesus convocando-os, lhes diz: “sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os grandes as tiranizam” (v. 42). Jesus vê a ambição dos discípulos com muita preocupação, a ponto de convocar uma reunião e expor o seu projeto com mais clareza ainda, procurando mostrar o quanto o seu projeto é diferente de qualquer projeto humano de obtenção e exercício do poder. Tendo negligenciado os três anúncios da paixão, os discípulos têm como parâmetro os modelos vigentes de poder, marcados pelo domínio e a tirania.

Considerando o versículo anterior, no qual Jesus, de modo muito objetivo, mostrou o modelo de exercício de poder almejado pelos discípulos, eis que agora ele apresenta sua reação e proposta: “Porém, entre vós não é assim, mas aquele que quiser tornar-se grande entre vós, será vosso servidor.  E aquele que quiser ser o primeiro entre vós, será escravo de todos!” (vv. 43-44). Na comunidade cristã não pode haver espaço para carreirismo, ambição e posições de privilégio. Qualquer imitação dos sistemas vigentes de poder, da sinagoga ao império romano, deve ser abolida da comunidade. A expressão “entre vós não é assim” é carregada de uma certa ironia da parte de Jesus, uma vez que, de fato, estava sendo daquele jeito entre os discípulos; ao mesmo tempo, é uma forte chamada de atenção: não é mais possível adiar a tomada decisiva de posição a respeito dos valores do Reino. Daí ele apresenta qual é o modelo a ser seguido pela comunidade: o serviço. É necessário passar de um modelo baseado na imposição para um novo paradigma baseado no serviço, tendo em vista a igualdade e o bem de todos.

O referencial para a comunidade cristão não pode ser outro senão o próprio Jesus: “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida dele em resgate de muitos” (v. 45). Ele próprio é o exemplo de que a autoridade autêntica deve ser exercida através do serviço incondicional, contemplando a capacidade de dar a própria vida. Qualquer tentativa ou experiência na comunidade que tenha como parâmetro “os reinos deste mundo”, faz essa comunidade deixar de ser cristã.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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REFLEXÃO PARA O XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,17-30 (ANO B)




Neste vigésimo oitavo domingo do tempo comum, continuamos a leitura do décimo capítulo do Evangelho segundo Marcos. O texto proposto pela liturgia – Marcos 10,17-30 – compreende mais uma etapa do caminho empreendido por Jesus e seus discípulos rumo à cidade de Jerusalém, que culminará com os eventos da sua paixão, morte e ressurreição. Esse caminho é muito mais teológico do que geográfico; é o aprofundamento da catequese e da formação dos discípulos. Por isso, nele, Jesus é interrompido diversas vezes, por várias categorias de interlocutores, que lhe fazem perguntas relevantes sobre a natureza e as condições para o discipulado, e sobre as características do Reino de Deus e os critérios para desse fazer parte. Jesus é questionado, tanto por personagens externos quanto pelos discípulos.

A extensão do Evangelho de hoje – treze versículos – dificulta uma análise versículo por versículo; por isso, buscaremos a mensagem principal do texto em seu conjunto, destacando apenas alguns versículos em particular. No domingo passado, Jesus tinha sido interrompido por alguns fariseus, que lhe interrogaram sobre a legitimidade do divórcio (cf. Mc 10,2-16); após respondê-los, Jesus aprofundou o ensinamento para os discípulos, em casa, que também lhe fizeram perguntas sobre tal tema. No texto de hoje, embora o tema seja diferente, o esquema é o mesmo: Jesus é questionado por um personagem externo, com quem interage e, em seguida, pelos próprios discípulos. É um texto comum aos três evangélicos sinóticos (cf. Mt ; Mc ; Lc ), sendo que a versão de Marcos é a mais rica, embora a de Mateus tenha se tornado mais conhecida.

O texto inicia afirmando que “Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” (v. 17). Após uma pausa, o caminho foi retomado. É importante recordar que a estrada (ou o caminho) é um espaço privilegiado para o ensinamento, em uma comunidade itinerante como a de Jesus e seus discípulos. Além de expressar a carência de estruturas fixas, expressa também o aspecto dinâmico, aberto e missionário da comunidade. No caminho, Jesus e a comunidade estão expostos, qualquer pessoa pode interagir e questionar, como fez “alguém” que, veio correndo ao seu encontro ajoelhou-se diante dele. Esse personagem é totalmente desconhecido, anônimo. O texto revela se tratar de alguém muito necessitado de sentido para a vida e, de certo modo, reconhecedor de que Jesus é fonte de sentido. Essa necessidade e reconhecimento se expressam no seu gesto: ajoelhou-se diante de Jesus. Até então, somente um personagem tinha se ajoelhado aos pés de Jesus: um leproso, ao suplicar-lhe a cura (cf. Mc 1,40). Com isso, insinua o evangelista que a riqueza em excesso pode ser um mal tão grave quanto a pior das enfermidades, a lepra. A pergunta feita pelo homem, deixa claro que ele sentia necessidade de algo; ainda não era alguém realizado. A vida eterna, aqui, mais do que uma vida pós-morte, significa o sentido desta vida terrena. Quem encontra sentido para a vida aqui, eterniza a sua existência: essa vida se torna indestrutível, mesmo com a morte.

Conhecedor do Pai, Jesus responde que somente Ele é bom, e mais ninguém (cf. v. 18). Jesus não se deixa levar por elogios, e recorda o que era exigido pelo judaísmo para viver bem: “Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe” (v. 19). Para o judeu, o sentido da vida consistia na observância da lei. Jesus e o evangelista mostram que essa visão está superada; já não basta observar e cumprir os mandamentos, mas é necessário algo a mais. No entanto, é importante observar quais os mandamentos que Jesus recorda: aqueles que dizem respeito ao modo de relacionar-se com o próximo. O primeiro mandamento – amar a Deus sobre todas as coisas – nem sequer é mencionado por Jesus, porque ele compreende que se não há respeito à dignidade do próximo e o reconhecimento dos direitos humanos, o amor e o culto a Deus são falsos, não passa de demagogia. Não há culto agradável a Deus se o ser humano não é respeitado em sua condição e dignidade. O amor a Deus é incompatível com o ódio e com a violência para com o próximo.

Com a resposta do homem a Jesus – “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (v. 20) – percebemos tratar-se já de uma pessoa madura, e não mais de um jovem, como aparece na versão de Mateus. Portanto, para as versões de Marcos e de Lucas é incorreto chamar o episódio do “jovem rico”. É importante observar a atitude de Jesus e a sua proposta: “Jesus olhou para ele com amor, e disse: ‘Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (v. 21). Essa é a única vez que o Evangelho segundo Marcos afirma que Jesus amou uma pessoa em particular. É claro que Ele ama sempre, mas somente aqui o evangelista enfatizou; e amou olhando-o profundamente, olho no olho. O amor gera relações fraternas e sinceras. É amando que Jesus revela a incompletude do ser humano, ao dizer que faltava algo, uma coisa que, na verdade, era tudo: livrar-se do seu mal – equivalente à uma lepra – vender, dar aos pobres e segui-lo. Dizer “uma só coisa te falta”, é dizer que não falta uma coisa a mais, mas falta o que é essencial. A lógica do Reino contraria à lógica humana: o homem foi a Jesus para pedir, para ter, Jesus diz que ele deve dar; foi pedir sentido para a vida, Jesus pede para livrar-se do que estava lhe tirando esse sentido: a riqueza, a posse dos bens e o apego a esses. Isso mostra a insuficiência e o superamento da ética dos mandamentos.

Como era muito rico, a reação do homem foi de tristeza, saiu abatido (cf. v. 22), porque não estava preparado para assimilar a lógica do Reino. Do confronto com um personagem externo, Jesus se volta para o interno da comunidade (cf. v. 23), ou seja, para os discípulos que também necessitavam assimilar, ainda mais, a lógica do Reino: “Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: ‘Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!’” (v. 24). Da admiração dos discípulos, Jesus se aproveita para aprofundar a catequese. A insistência sobre um mesmo argumento, revela a sua importância. Entrar no Reino de Deus é difícil, realmente, porque não há como critérios méritos pessoais, mas uma adesão incondicional; é mais difícil para os ricos (v. 23), mas também não é fácil para ninguém (v. 24). Também os discípulos, ao longo do caminho, mostravam dificuldades em aderir plenamente, à medida em que alimentavam expectativas de poder e praticavam atos que distorciam o que Jesus lhes ensinava: praticavam proselitismo (cf. Mc 9,38-40), alimentavam rivalidades entre si (cf. Mc 9,33-37), impediam as crianças de se aproximarem de Jesus (cf. Mc 10,13-16), desejavam sucesso (cf. Mc 10,35-40), etc.

Com um provérbio hiperbólico, Jesus enfatiza a dificuldade para os ricos assimilarem a lógica do Reino: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas tentativas de explicação já surgiram para suavizar a dureza dessa afirmação: algumas afirmavam que o “camelo”, aqui, é um tipo de corda grossa, outras que o “buraco da agulha” era uma porta estreita num muro de Jerusalém. Aceitar e alimentar tais interpretações é ignorar a radicalidade do Evangelho. Se trata de uma hipérbole, algo bem característico de Jesus e do evangelista Marcos. O camelo é mesmo o animal, e o buraco é de uma agulha normal. É claro que, com uma afirmação dessa, os discípulos ficaram ainda mais perplexos (cf. v. 26). Por isso, Jesus os tranquiliza, dizendo: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível” (v. 27). De fato, a história da salvação é marcada por diversos acontecimentos impossíveis, aparentemente, que se tornaram possíveis com a graça de Deus: a gravidez de Sara, já estéril (cf. Gn 18,14), a gravidez de Isabel, também estéril (cf. Lc 1,37) e de Maria, virgem (cf. Lc 1,37). A dificuldade da salvação para os ricos consiste na dificuldade que esses tem de assimilar a lógica do Reino, abrindo mão do que possuem e distribuindo aos mais necessitados; isso é difícil sim, mas não impossível.

Mais uma vez, Pedro fala em nome do grupo, inquieto com as exigências do Reino e com as renúncias que já tinha feito: “Pedro então começou a dizer-lhe: ‘Eis que nós deixamos tudo e te seguimos’” (v. 28). Parece oportunismo dos discípulos, expresso nas palavras de Pedro. Jesus sabia e conhecia o que eles já tinham deixado. Porém, responde de modo solene, afim de encorajá-los a continuar no seguimento: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida – casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições – e, no futuro, a vida eterna” (vv. 29-30). À medida em que as exigências aumentavam, havia na comunidade uma tendência ao desânimo e, até, à desistência. Jesus não promete prêmios, nem recompensa, mas garante sentido para a existência. Não obstante as perseguições, para os seguidores e seguidoras de Jesus é assegurada uma vida fraterna, uma vida comunitária real, desde que aceitem a lógica do Reino, com as renúncias devidas. Aqui, Jesus faz um convite à confiança na providência: quem deixa tudo por causa do Evangelho, não sente falta de nada. Por isso, Ele repete as mesmas coisas que devem ser deixadas como as mesmas que são conquistadas.

Para quem entrar na dinâmica do Reino, tudo é ressignificado. “Casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos”, como recompensa, não são posses, mas sinais de uma comunidade unida e perseverante, e frutos da partilha. É um ideal de vida que renasce. A comunidade que vive, de fato, o espírito da partilha, tem tudo o que é necessário, sem supérfluos, e se sustenta em relações fraternas. Porém, só recebe quem, antes, dá, quem deixa para trás o que tem e se aventura na dinâmica do Reino para herdar, com perseguição, o que dá sentido à vida. Quem aceita essa dinâmica, tem a sua vida eternizada.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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REFLEXÃO PARA O XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,2-16 (ANO B)




Neste vigésimo sétimo domingo do tempo comum, a liturgia oferece Marcos 10,2-16 para o Evangelho. Como se trata de um texto bastante longo, não comentaremos versículo por versículo, mas procuraremos colher a sua mensagem central. O contexto continua sendo o caminho de Jesus com seus discípulos para Jerusalém, onde acontecerão os eventos da sua paixão e morte. É importante recordar que, durante esse caminho, Jesus sofre uma contínua e sistemática oposição, o que serve de preparação para o confronto final em Jerusalém com as autoridades religiosas e políticas que o levarão à morte na cruz.

O texto de hoje marca uma nova etapa no caminho: tendo atravessado o rio Jordão, Jesus já está no território da Judéia (cf. Mc 10,1) e, portanto, cada vez mais perto de Jerusalém. Até então, a oposição encontrada ao longo do caminho tinha sido somente dos próprios discípulos: desde Pedro, que o repreendeu ao ouvi-lo da própria morte (cf. Mc 8,27-35 – Evangelho do vigésimo quarto domingo), até João que proibiu um homem de agir em nome de Jesus, simplesmente por não fazer parte do grupo dos Doze (cf. Mc 9,38-48 – Evangelho do vigésimo sexto domingo). Essa observação é importante para lembrar que a mensagem de Jesus nunca encontra facilidade no seu anúncio; o Evangelho sempre encontra obstáculos, pois possui uma proposta de transformação de vidas e de mudança nas estruturas da sociedade. Propostas assim, tendem a incomodar, tanto as instituições, quando as pessoas a elas conformadas.

Os opositores que confrontam Jesus no Evangelho de hoje são os fariseus, por sinal, os mais tradicionais adversários, desde o início do seu ministério (cf. Mc 2,16; 3,6; 7,1). Com esses adversários, o confronto é sempre no campo doutrinal, sobretudo na maneira de compreender e interpretar a lei. Dessa vez, o confronto diz respeito à legitimidade do divórcio: “Alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher” (v. 2). De início, o evangelista já denuncia a malícia dos fariseus: “pôr Jesus à prova”, ou seja, tentá-lo, para posteriormente acusa-lo. Como fiéis observadores da lei, os fariseus já tinham consciência formada e conhecimento a respeito desse tema. Por isso, “Jesus perguntou: o que Moisés vos ordenou?” (v. 3), uma vez que os fariseus tinham Moisés como autoridade máxima, ou seja, a lei.  

Os fariseus respondem a Jesus, de acordo com a lei: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la” (v. 4). Está claro que a lei permitia o divórcio, mas Jesus recorda o motivo pelo qual a lei foi dada: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne” (vv. 5-7). Ora, a lei não corresponde aos propósitos originais da criação, mas foi dada como um paliativo, diante do mal enraizado no mundo. Jesus não veio ao mundo para conformá-lo nem conformar-se à lei, mas para recuperar o ideal da criação, instaurando definitivamente o Reino de Deus sobre o mundo.

Como a lei permitia o divórcio, na época de Jesus o debate girava em torno dos motivos para o mesmo. Havia duas correntes rabínicas de interpretação na sua época de Jesus: uma delas, afirmava que o divórcio só podia ser dado em caso de um erro muito grave por parte da mulher; para a outra, podia ser dado por qualquer motivo, inclusive se o marido desaprovasse uma comida preparada pela mulher, uma vez que a lei deuteronômica, na qual os fariseus se baseavam, dava essa liberdade (cf. Dt 24,1-4). Para Jesus, essa lei era absurda, pois legitimava a submissão e marginalização da mulher. Em todas as questões relativas à lei, a preocupação de Jesus é com os abusos que podem ser praticados e fundamentados a partir dela. Quem se prejudicava sempre era a mulher, pois o homem poderia repudiá-la a qualquer momento, mandando-a embora de casa. Essa lei legitimava a família patriarcal e mantinha a mulher marginalizada. Por isso, Jesus se distancia dessa lei e convida a sua comunidade a manter-se alinhada aos propósitos da criação: “Deus os fez homem e mulher” para serem “uma só carne”, ou seja, uma unidade, formando uma comunhão indissolúvel e sem hierarquia. Prender-se à lei, para Jesus, é negar o projeto original de Deus e fechar-se ao seu Reino, por consequência.

O embate com os fariseus tinha sido no caminho. É típico da pedagogia de Jesus aprofundar em casa, com os discípulos, o tema discutido no caminho. Mais uma vez, o evangelista evidencia caminho e casa como lugares prediletos da catequese de Jesus. Por isso, diz que, “em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto” (v. 10). De fato, se tratava de um assunto importante, muito relacionado ao cotidiano das pessoas. Também os discípulos seriam abordados sobre o mesmo; por isso, o interesse em aprender ainda mais com o Mestre. Aos discípulos, “Jesus respondeu: ‘Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério” (vv. 11-12). Nessa resposta, Jesus reafirma seu compromisso com os propósitos da criação: o divórcio não deveria existir e, ao mesmo tempo, traz uma grande novidade: coloca a mulher em condição de igualdade com o homem, ao afirmar que também o homem comete adultério ao divorciar-se e casar-se com outra. De acordo com a lei, fundamento da família patriarcal, a culpa e as consequências, em caso de divórcio, iam somente para a mulher; das consequências, a maior delas era a discriminação, o que gerava segregação e apedrejamento. A grande lição de Jesus aqui, além de remeter à humanidade ao plano da criação, é a proteção da mulher e a sua igualdade nas relações, combatendo uma lei que discriminava e excluía.

Na parte final, o evangelista coloca, novamente, em cena personagens tão caros para seção do caminho: as crianças. “Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam” (v. 13). A ênfase de Jesus e do evangelista às crianças tem uma função didática muito específica, sobretudo para a formação dos discípulos. Ora, quanto mais se aproximavam de Jerusalém, mais os discípulos alimentavam projetos de poder e sonhos de grandeza, imaginando a restauração do império davídico-salomônico e, com isso, a ocupação de cargos de honra na administração. Diante disso, o evangelista insiste em apresentar as crianças como modelo, considerando a insignificância que lhes era atribuída na época. O fato de os discípulos repreenderem as crianças, mostra o quanto eles ainda estavam distantes da mentalidade de Jesus.

Essa atitude de impedir que as crianças se aproximassem revela a incoerência e incompreensão dos discípulos com o projeto de Jesus de construir um mundo novo, o Reino de Deus, no qual os últimos e mais frágeis são a opção preferencial. Na controvérsia sobre o divórcio, Jesus elevou a mulher à condição de igualdade; agora, com as crianças, elevará todas as categorias de pessoas excluídas à condição de preferidos e preferidas do Reino.

Com a atitude escandalosa dos discípulos – no Evangelho, causa escândalo quem atrapalha alguém de se aproximar de Jesus – o evangelista diz que “Jesus se aborreceu e disse: ‘Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas” (v. 14). Embora outros evangelistas também narrem esse episódio, somente Marcos diz que “Jesus se aborreceu”; esse detalhe é importante por dois motivos: primeiro, porque demonstra a importância que Jesus dava às crianças (como imagem de todas as categorias de pessoas vulneráveis e marginalizadas da sociedade); segundo, porque denuncia o quanto era absurda a atitude dos discípulos; e, terceiro, porque mostra a preocupação do evangelista em revelar a humanidade de Jesus (um homem de sentimentos). Revelar os traços humanos de Jesus era muito importante para Marcos, o que os outros evangelistas pareciam esconder. A ordem de Jesus para que os discípulos não proíbam que as crianças se aproximem dele comporta um grande compromisso para a Igreja de todos os tempos: facilitar o máximo possível o encontro com os mais vulneráveis e excluídos da sociedade. A comunidade cristã não pode criar obstáculo algum para que as pessoas, sobretudo as mais necessitadas e excluídas, se aproximem do amor de Jesus.

As crianças são apresentadas como modelo, e para pertencer ao Reino de Deus é necessário tornar-se como elas (cf. v. 15). Para os discípulos, principalmente, essa comparação é muito importante. A criança é exemplo de quem necessita aprender, de quem não trama maldade nem alimenta ambições, de quem não se sente autossuficiente. Para o Reino de Deus, como uma sociedade alternativa, igualitária e justa, é imprescindível ter tais características para nele inserir-se. O gesto de abraçar, abençoar e impor as mãos sobre as crianças, no último versículo (cf. v. 16), enfatiza o amor acolhedor de Jesus pelas pessoas mais necessitadas e que a sociedade considera insignificantes.  

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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