Páginas

REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,35-45 (ANO B)




O evangelho deste vigésimo nono domingo do tempo comum – Marcos 10,35-45 – continua mostrando a incompreensão e incoerência dos discípulos de Jesus em relação ao seu programa de vida com as respectivas exigências. Jesus está caminhando para Jerusalém e, desde o início do caminho, alertou os discípulos sobre o destino desse caminho: o sofrimento, a paixão e a morte. Após alertá-los pela primeira vez (cf. Mc 8,31-33), Jesus ainda repetiu mais duas vezes (cf. Mc 9,30-32; 10,32-34), no entanto, os discípulos continuavam sem entender ou, pelo menos, sem aceitar esse destino, pois estavam contagiados pela ideologia nacionalista que aspirava um messias glorioso que restaurasse o reino de Israel nos moldes de Davi e Salomão, os maiores reis da sua história. Por isso, a cada vez que Jesus anunciava o seu destino doloroso, os discípulos distorciam o anúncio, alimentando a falsa ilusão de um reino glorioso, nos moldes dos reinos deste mundo. 

O episódio narrado no evangelho de hoje segue de imediato ao terceiro anúncio da paixão, o mais claro e profundo dos três anúncios. Por incrível que pareça, a reação dos discípulos a esse terceiro anúncio foi a mais absurda de todas, demonstrando ambição e sede de poder, aspirações totalmente incompatíveis com a mensagem de Jesus. Ao primeiro anúncio, Pedro o repreendeu, em nome do grupo dos Doze (cf. Mc 8,32); ao segundo anúncio, os discípulos reagiram discutindo quem era o maior entre eles (cf. Mc 9,33-34); ao terceiro, a reação é a busca por posições de honra e poder, como vemos no evangelho de hoje. Ao projeto que Jesus apresenta, os discípulos não apenas respondem com uma coisa diferente, mas com algo totalmente oposto à proposta do mestre, distorcendo completamente a sua mensagem.

Olhemos para o texto: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: ‘Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir” (v. 35). É importante recordar que Tiago e João, juntamente com Pedro, são os discípulos mais evidenciados nos três evangelhos sinóticos, não por méritos, mas pelo contrário. Por isso, é importante recordar que no momento da constituição do grupo dos Doze, Tiago e João receberam o nome de Boanerges, que significa que significa “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão ao temperamento explosivo, arrogante, intolerante e ambicioso dos dois. Além do texto de hoje, os evangelhos registram mais duas ocasiões em que as características negativas deles dois são evidenciadas: quando querem monopolizar Jesus, proibindo um homem de fazer o bem em seu nome pelo simples fato de não pertencer ao grupo (cf. Mc 9,38-39), e quando queriam eliminar com fogo os samaritanos, somente porque não os acolheram, no início do caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51-55). Portanto, juntamente com Pedro, João e Tiago são os discípulos mais difíceis de lidar no grupo; por isso, quando Jesus fica somente com eles, como no episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36), não se trata de privilégio, mas de necessidade. Pelo comportamento e temperamento, ambos necessitavam de uma catequese mais intensa.

Antes mesmo que os discípulos façam diretamente o pedido, o evangelista já os denuncia: “Queremos que faças por nós o que vamos pedir”; aqui, há praticamente uma ordem, se trata de uma exigência. Além do conteúdo do pedido, a forma como esse é feito é uma afronta ao projeto de Jesus, o que torna o texto bastante polêmico. Por isso, Lucas preferiu omiti-lo do seu Evangelho, e Mateus o modificou, colocando a mãe dos discípulos como a autora do pedido (cf. Mt 20,20-23), reforçando, assim, a sua visão negativa da mulher. Marcos, pelo contrário, faz questão de revelar também as debilidades dos discípulos, por isso seu Evangelho é o mais autêntico e original, inclusive, é o que mais revela também os traços humanos de Jesus (cf. Mc 3,5; 7,34; 9,36; 10,14.16).

À “quase ordem” dos discípulos, Jesus pergunta: “o que quereis que eu vos faça?” (v. 36). É típico de Jesus responder com uma nova pergunta, o que revela uma certa ironia da sua parte. Se os discípulos ainda não tinham aprendido nada com os três anúncios da paixão, pouco importava para eles uma pergunta irônica de Jesus. Por isso, sem nenhum escrúpulo, eles fazem um pedido absurdo: “Deixa-nos sentar um à tua direito e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (v. 37). Temos aqui uma verdadeira afronta a tudo o que Jesus já tinha ensinado a respeito de si e do seu projeto de Reino de Deus. Esse pedido revela uma busca ambiciosa por poder e privilégios, decorrente de uma visão totalmente equivocada da messianidade de Jesus. Eles Imaginavam Jesus como um messias segundo as expectativas políticas de Israel, alimentada ao longo dos séculos: um messias guerreiro que combateria contra os dominadores (romanos), até expulsá-los do território e, finalmente, restabeleceria o antigo reino dravídico em Jerusalém. Jesus já tinha descartado essa possibilidade por diversas vezes, mas os discípulos continuavam fechados e presos à antiga mentalidade. Sentar à esquerda e à direita, equivale às posições de honra, como se fossem os primeiros ministros do rei.

Ao pedido absurdo dos discípulos, Jesus responde com uma repreensão irônica e, como de costume, com novas perguntas: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso, podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” (v. 38). Com razão, Jesus os trata como ignorantes; ora, depois de três anúncios explícitos da paixão, e de toda uma trajetória de oposição e combate aos poderes constituídos, é inadmissível que os discípulos ainda quisessem espelhar-se nessas formas de poder, alimentando pretensões de glória e privilégios. Segue à repreensão, duas perguntas provocatórias que resumem todo o ministério de Jesus, do início na Galileia à consumação em Jerusalém, evocando duas imagens simbólicas dessa trajetória: o cálice e o batismo. O batismo remonta ao início de tudo (cf. Mc 1,8-11), enquanto o cálice antecipa o fim dramático (cf. Mc 14,23.36). Embora essas sejam imagens de grande significado ao longo de toda a Bíblia, o mais certo é que Marcos se referiu, com elas, apenas à vida pública de Jesus do começo ao fim, do batismo à cruz; em outras palavras, é como se Jesus perguntasse: “Vocês estão dispostos a viver do meu jeito, do começo ao fim de vossas vidas?”.

Os irmãos respondem com muita prontidão, mas Jesus parece não levar muito a sério, provavelmente por perceber uma certa presunção nos dois: “Eles responderam: ‘Podemos!’ E ele lhes disse: ‘Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado” (vv. 39-40). A disposição para abraçar e assumir as consequências de um seguimento sério e radical não pode ser em função de recompensas futuras. Por isso, Jesus confirma que, de fato, eles participarão de seu destino doloroso, mas abraçar o seu projeto em vista de recompensa é sinal incompreensão. A disposição de lugares na glória futura é um dom gratuito do Pai, e não uma conquista por méritos.

O resultado do ambicioso pedido dos dois irmãos é a divisão da comunidade: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João” (v. 41). À medida que os projetos individuais são evidenciados, a unidade é quebrada. A reação de indignação dos outros dez não significa que eles tivessem compreendendo melhor a dinâmica do projeto de Jesus; pelo contrário, demonstra que eles também pensavam como os dois irmãos e revoltam-se por rivalidade, ou seja, eles também queriam os dois lugares de destaque pretendido pelos filhos de Zebedeu. Essa reação afirma que o espírito de concorrência contagiava o grupo dos discípulos. A comunidade, afetada pela ambição, estava completamente ameaçada, marcada pela rivalidade e espírito de competição. Por isso, Jesus chama a atenção: “E Jesus convocando-os, lhes diz: “sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os grandes as tiranizam” (v. 42). Jesus vê a ambição dos discípulos com muita preocupação, a ponto de convocar uma reunião e expor o seu projeto com mais clareza ainda, procurando mostrar o quanto o seu projeto é diferente de qualquer projeto humano de obtenção e exercício do poder. Tendo negligenciado os três anúncios da paixão, os discípulos têm como parâmetro os modelos vigentes de poder, marcados pelo domínio e a tirania.

Considerando o versículo anterior, no qual Jesus, de modo muito objetivo, mostrou o modelo de exercício de poder almejado pelos discípulos, eis que agora ele apresenta sua reação e proposta: “Porém, entre vós não é assim, mas aquele que quiser tornar-se grande entre vós, será vosso servidor.  E aquele que quiser ser o primeiro entre vós, será escravo de todos!” (vv. 43-44). Na comunidade cristã não pode haver espaço para carreirismo, ambição e posições de privilégio. Qualquer imitação dos sistemas vigentes de poder, da sinagoga ao império romano, deve ser abolida da comunidade. A expressão “entre vós não é assim” é carregada de uma certa ironia da parte de Jesus, uma vez que, de fato, estava sendo daquele jeito entre os discípulos; ao mesmo tempo, é uma forte chamada de atenção: não é mais possível adiar a tomada decisiva de posição a respeito dos valores do Reino. Daí ele apresenta qual é o modelo a ser seguido pela comunidade: o serviço. É necessário passar de um modelo baseado na imposição para um novo paradigma baseado no serviço, tendo em vista a igualdade e o bem de todos.

O referencial para a comunidade cristão não pode ser outro senão o próprio Jesus: “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida dele em resgate de muitos” (v. 45). Ele próprio é o exemplo de que a autoridade autêntica deve ser exercida através do serviço incondicional, contemplando a capacidade de dar a própria vida. Qualquer tentativa ou experiência na comunidade que tenha como parâmetro “os reinos deste mundo”, faz essa comunidade deixar de ser cristã.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,17-30 (ANO B)




Neste vigésimo oitavo domingo do tempo comum, continuamos a leitura do décimo capítulo do Evangelho segundo Marcos. O texto proposto pela liturgia – Marcos 10,17-30 – compreende mais uma etapa do caminho empreendido por Jesus e seus discípulos rumo à cidade de Jerusalém, que culminará com os eventos da sua paixão, morte e ressurreição. Esse caminho é muito mais teológico do que geográfico; é o aprofundamento da catequese e da formação dos discípulos. Por isso, nele, Jesus é interrompido diversas vezes, por várias categorias de interlocutores, que lhe fazem perguntas relevantes sobre a natureza e as condições para o discipulado, e sobre as características do Reino de Deus e os critérios para desse fazer parte. Jesus é questionado, tanto por personagens externos quanto pelos discípulos.

A extensão do Evangelho de hoje – treze versículos – dificulta uma análise versículo por versículo; por isso, buscaremos a mensagem principal do texto em seu conjunto, destacando apenas alguns versículos em particular. No domingo passado, Jesus tinha sido interrompido por alguns fariseus, que lhe interrogaram sobre a legitimidade do divórcio (cf. Mc 10,2-16); após respondê-los, Jesus aprofundou o ensinamento para os discípulos, em casa, que também lhe fizeram perguntas sobre tal tema. No texto de hoje, embora o tema seja diferente, o esquema é o mesmo: Jesus é questionado por um personagem externo, com quem interage e, em seguida, pelos próprios discípulos. É um texto comum aos três evangélicos sinóticos (cf. Mt ; Mc ; Lc ), sendo que a versão de Marcos é a mais rica, embora a de Mateus tenha se tornado mais conhecida.

O texto inicia afirmando que “Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” (v. 17). Após uma pausa, o caminho foi retomado. É importante recordar que a estrada (ou o caminho) é um espaço privilegiado para o ensinamento, em uma comunidade itinerante como a de Jesus e seus discípulos. Além de expressar a carência de estruturas fixas, expressa também o aspecto dinâmico, aberto e missionário da comunidade. No caminho, Jesus e a comunidade estão expostos, qualquer pessoa pode interagir e questionar, como fez “alguém” que, veio correndo ao seu encontro ajoelhou-se diante dele. Esse personagem é totalmente desconhecido, anônimo. O texto revela se tratar de alguém muito necessitado de sentido para a vida e, de certo modo, reconhecedor de que Jesus é fonte de sentido. Essa necessidade e reconhecimento se expressam no seu gesto: ajoelhou-se diante de Jesus. Até então, somente um personagem tinha se ajoelhado aos pés de Jesus: um leproso, ao suplicar-lhe a cura (cf. Mc 1,40). Com isso, insinua o evangelista que a riqueza em excesso pode ser um mal tão grave quanto a pior das enfermidades, a lepra. A pergunta feita pelo homem, deixa claro que ele sentia necessidade de algo; ainda não era alguém realizado. A vida eterna, aqui, mais do que uma vida pós-morte, significa o sentido desta vida terrena. Quem encontra sentido para a vida aqui, eterniza a sua existência: essa vida se torna indestrutível, mesmo com a morte.

Conhecedor do Pai, Jesus responde que somente Ele é bom, e mais ninguém (cf. v. 18). Jesus não se deixa levar por elogios, e recorda o que era exigido pelo judaísmo para viver bem: “Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe” (v. 19). Para o judeu, o sentido da vida consistia na observância da lei. Jesus e o evangelista mostram que essa visão está superada; já não basta observar e cumprir os mandamentos, mas é necessário algo a mais. No entanto, é importante observar quais os mandamentos que Jesus recorda: aqueles que dizem respeito ao modo de relacionar-se com o próximo. O primeiro mandamento – amar a Deus sobre todas as coisas – nem sequer é mencionado por Jesus, porque ele compreende que se não há respeito à dignidade do próximo e o reconhecimento dos direitos humanos, o amor e o culto a Deus são falsos, não passa de demagogia. Não há culto agradável a Deus se o ser humano não é respeitado em sua condição e dignidade. O amor a Deus é incompatível com o ódio e com a violência para com o próximo.

Com a resposta do homem a Jesus – “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (v. 20) – percebemos tratar-se já de uma pessoa madura, e não mais de um jovem, como aparece na versão de Mateus. Portanto, para as versões de Marcos e de Lucas é incorreto chamar o episódio do “jovem rico”. É importante observar a atitude de Jesus e a sua proposta: “Jesus olhou para ele com amor, e disse: ‘Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (v. 21). Essa é a única vez que o Evangelho segundo Marcos afirma que Jesus amou uma pessoa em particular. É claro que Ele ama sempre, mas somente aqui o evangelista enfatizou; e amou olhando-o profundamente, olho no olho. O amor gera relações fraternas e sinceras. É amando que Jesus revela a incompletude do ser humano, ao dizer que faltava algo, uma coisa que, na verdade, era tudo: livrar-se do seu mal – equivalente à uma lepra – vender, dar aos pobres e segui-lo. Dizer “uma só coisa te falta”, é dizer que não falta uma coisa a mais, mas falta o que é essencial. A lógica do Reino contraria à lógica humana: o homem foi a Jesus para pedir, para ter, Jesus diz que ele deve dar; foi pedir sentido para a vida, Jesus pede para livrar-se do que estava lhe tirando esse sentido: a riqueza, a posse dos bens e o apego a esses. Isso mostra a insuficiência e o superamento da ética dos mandamentos.

Como era muito rico, a reação do homem foi de tristeza, saiu abatido (cf. v. 22), porque não estava preparado para assimilar a lógica do Reino. Do confronto com um personagem externo, Jesus se volta para o interno da comunidade (cf. v. 23), ou seja, para os discípulos que também necessitavam assimilar, ainda mais, a lógica do Reino: “Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: ‘Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!’” (v. 24). Da admiração dos discípulos, Jesus se aproveita para aprofundar a catequese. A insistência sobre um mesmo argumento, revela a sua importância. Entrar no Reino de Deus é difícil, realmente, porque não há como critérios méritos pessoais, mas uma adesão incondicional; é mais difícil para os ricos (v. 23), mas também não é fácil para ninguém (v. 24). Também os discípulos, ao longo do caminho, mostravam dificuldades em aderir plenamente, à medida em que alimentavam expectativas de poder e praticavam atos que distorciam o que Jesus lhes ensinava: praticavam proselitismo (cf. Mc 9,38-40), alimentavam rivalidades entre si (cf. Mc 9,33-37), impediam as crianças de se aproximarem de Jesus (cf. Mc 10,13-16), desejavam sucesso (cf. Mc 10,35-40), etc.

Com um provérbio hiperbólico, Jesus enfatiza a dificuldade para os ricos assimilarem a lógica do Reino: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas tentativas de explicação já surgiram para suavizar a dureza dessa afirmação: algumas afirmavam que o “camelo”, aqui, é um tipo de corda grossa, outras que o “buraco da agulha” era uma porta estreita num muro de Jerusalém. Aceitar e alimentar tais interpretações é ignorar a radicalidade do Evangelho. Se trata de uma hipérbole, algo bem característico de Jesus e do evangelista Marcos. O camelo é mesmo o animal, e o buraco é de uma agulha normal. É claro que, com uma afirmação dessa, os discípulos ficaram ainda mais perplexos (cf. v. 26). Por isso, Jesus os tranquiliza, dizendo: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível” (v. 27). De fato, a história da salvação é marcada por diversos acontecimentos impossíveis, aparentemente, que se tornaram possíveis com a graça de Deus: a gravidez de Sara, já estéril (cf. Gn 18,14), a gravidez de Isabel, também estéril (cf. Lc 1,37) e de Maria, virgem (cf. Lc 1,37). A dificuldade da salvação para os ricos consiste na dificuldade que esses tem de assimilar a lógica do Reino, abrindo mão do que possuem e distribuindo aos mais necessitados; isso é difícil sim, mas não impossível.

Mais uma vez, Pedro fala em nome do grupo, inquieto com as exigências do Reino e com as renúncias que já tinha feito: “Pedro então começou a dizer-lhe: ‘Eis que nós deixamos tudo e te seguimos’” (v. 28). Parece oportunismo dos discípulos, expresso nas palavras de Pedro. Jesus sabia e conhecia o que eles já tinham deixado. Porém, responde de modo solene, afim de encorajá-los a continuar no seguimento: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida – casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições – e, no futuro, a vida eterna” (vv. 29-30). À medida em que as exigências aumentavam, havia na comunidade uma tendência ao desânimo e, até, à desistência. Jesus não promete prêmios, nem recompensa, mas garante sentido para a existência. Não obstante as perseguições, para os seguidores e seguidoras de Jesus é assegurada uma vida fraterna, uma vida comunitária real, desde que aceitem a lógica do Reino, com as renúncias devidas. Aqui, Jesus faz um convite à confiança na providência: quem deixa tudo por causa do Evangelho, não sente falta de nada. Por isso, Ele repete as mesmas coisas que devem ser deixadas como as mesmas que são conquistadas.

Para quem entrar na dinâmica do Reino, tudo é ressignificado. “Casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos”, como recompensa, não são posses, mas sinais de uma comunidade unida e perseverante, e frutos da partilha. É um ideal de vida que renasce. A comunidade que vive, de fato, o espírito da partilha, tem tudo o que é necessário, sem supérfluos, e se sustenta em relações fraternas. Porém, só recebe quem, antes, dá, quem deixa para trás o que tem e se aventura na dinâmica do Reino para herdar, com perseguição, o que dá sentido à vida. Quem aceita essa dinâmica, tem a sua vida eternizada.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,2-16 (ANO B)




Neste vigésimo sétimo domingo do tempo comum, a liturgia oferece Marcos 10,2-16 para o Evangelho. Como se trata de um texto bastante longo, não comentaremos versículo por versículo, mas procuraremos colher a sua mensagem central. O contexto continua sendo o caminho de Jesus com seus discípulos para Jerusalém, onde acontecerão os eventos da sua paixão e morte. É importante recordar que, durante esse caminho, Jesus sofre uma contínua e sistemática oposição, o que serve de preparação para o confronto final em Jerusalém com as autoridades religiosas e políticas que o levarão à morte na cruz.

O texto de hoje marca uma nova etapa no caminho: tendo atravessado o rio Jordão, Jesus já está no território da Judéia (cf. Mc 10,1) e, portanto, cada vez mais perto de Jerusalém. Até então, a oposição encontrada ao longo do caminho tinha sido somente dos próprios discípulos: desde Pedro, que o repreendeu ao ouvi-lo da própria morte (cf. Mc 8,27-35 – Evangelho do vigésimo quarto domingo), até João que proibiu um homem de agir em nome de Jesus, simplesmente por não fazer parte do grupo dos Doze (cf. Mc 9,38-48 – Evangelho do vigésimo sexto domingo). Essa observação é importante para lembrar que a mensagem de Jesus nunca encontra facilidade no seu anúncio; o Evangelho sempre encontra obstáculos, pois possui uma proposta de transformação de vidas e de mudança nas estruturas da sociedade. Propostas assim, tendem a incomodar, tanto as instituições, quando as pessoas a elas conformadas.

Os opositores que confrontam Jesus no Evangelho de hoje são os fariseus, por sinal, os mais tradicionais adversários, desde o início do seu ministério (cf. Mc 2,16; 3,6; 7,1). Com esses adversários, o confronto é sempre no campo doutrinal, sobretudo na maneira de compreender e interpretar a lei. Dessa vez, o confronto diz respeito à legitimidade do divórcio: “Alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher” (v. 2). De início, o evangelista já denuncia a malícia dos fariseus: “pôr Jesus à prova”, ou seja, tentá-lo, para posteriormente acusa-lo. Como fiéis observadores da lei, os fariseus já tinham consciência formada e conhecimento a respeito desse tema. Por isso, “Jesus perguntou: o que Moisés vos ordenou?” (v. 3), uma vez que os fariseus tinham Moisés como autoridade máxima, ou seja, a lei.  

Os fariseus respondem a Jesus, de acordo com a lei: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la” (v. 4). Está claro que a lei permitia o divórcio, mas Jesus recorda o motivo pelo qual a lei foi dada: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne” (vv. 5-7). Ora, a lei não corresponde aos propósitos originais da criação, mas foi dada como um paliativo, diante do mal enraizado no mundo. Jesus não veio ao mundo para conformá-lo nem conformar-se à lei, mas para recuperar o ideal da criação, instaurando definitivamente o Reino de Deus sobre o mundo.

Como a lei permitia o divórcio, na época de Jesus o debate girava em torno dos motivos para o mesmo. Havia duas correntes rabínicas de interpretação na sua época de Jesus: uma delas, afirmava que o divórcio só podia ser dado em caso de um erro muito grave por parte da mulher; para a outra, podia ser dado por qualquer motivo, inclusive se o marido desaprovasse uma comida preparada pela mulher, uma vez que a lei deuteronômica, na qual os fariseus se baseavam, dava essa liberdade (cf. Dt 24,1-4). Para Jesus, essa lei era absurda, pois legitimava a submissão e marginalização da mulher. Em todas as questões relativas à lei, a preocupação de Jesus é com os abusos que podem ser praticados e fundamentados a partir dela. Quem se prejudicava sempre era a mulher, pois o homem poderia repudiá-la a qualquer momento, mandando-a embora de casa. Essa lei legitimava a família patriarcal e mantinha a mulher marginalizada. Por isso, Jesus se distancia dessa lei e convida a sua comunidade a manter-se alinhada aos propósitos da criação: “Deus os fez homem e mulher” para serem “uma só carne”, ou seja, uma unidade, formando uma comunhão indissolúvel e sem hierarquia. Prender-se à lei, para Jesus, é negar o projeto original de Deus e fechar-se ao seu Reino, por consequência.

O embate com os fariseus tinha sido no caminho. É típico da pedagogia de Jesus aprofundar em casa, com os discípulos, o tema discutido no caminho. Mais uma vez, o evangelista evidencia caminho e casa como lugares prediletos da catequese de Jesus. Por isso, diz que, “em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto” (v. 10). De fato, se tratava de um assunto importante, muito relacionado ao cotidiano das pessoas. Também os discípulos seriam abordados sobre o mesmo; por isso, o interesse em aprender ainda mais com o Mestre. Aos discípulos, “Jesus respondeu: ‘Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério” (vv. 11-12). Nessa resposta, Jesus reafirma seu compromisso com os propósitos da criação: o divórcio não deveria existir e, ao mesmo tempo, traz uma grande novidade: coloca a mulher em condição de igualdade com o homem, ao afirmar que também o homem comete adultério ao divorciar-se e casar-se com outra. De acordo com a lei, fundamento da família patriarcal, a culpa e as consequências, em caso de divórcio, iam somente para a mulher; das consequências, a maior delas era a discriminação, o que gerava segregação e apedrejamento. A grande lição de Jesus aqui, além de remeter à humanidade ao plano da criação, é a proteção da mulher e a sua igualdade nas relações, combatendo uma lei que discriminava e excluía.

Na parte final, o evangelista coloca, novamente, em cena personagens tão caros para seção do caminho: as crianças. “Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam” (v. 13). A ênfase de Jesus e do evangelista às crianças tem uma função didática muito específica, sobretudo para a formação dos discípulos. Ora, quanto mais se aproximavam de Jerusalém, mais os discípulos alimentavam projetos de poder e sonhos de grandeza, imaginando a restauração do império davídico-salomônico e, com isso, a ocupação de cargos de honra na administração. Diante disso, o evangelista insiste em apresentar as crianças como modelo, considerando a insignificância que lhes era atribuída na época. O fato de os discípulos repreenderem as crianças, mostra o quanto eles ainda estavam distantes da mentalidade de Jesus.

Essa atitude de impedir que as crianças se aproximassem revela a incoerência e incompreensão dos discípulos com o projeto de Jesus de construir um mundo novo, o Reino de Deus, no qual os últimos e mais frágeis são a opção preferencial. Na controvérsia sobre o divórcio, Jesus elevou a mulher à condição de igualdade; agora, com as crianças, elevará todas as categorias de pessoas excluídas à condição de preferidos e preferidas do Reino.

Com a atitude escandalosa dos discípulos – no Evangelho, causa escândalo quem atrapalha alguém de se aproximar de Jesus – o evangelista diz que “Jesus se aborreceu e disse: ‘Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas” (v. 14). Embora outros evangelistas também narrem esse episódio, somente Marcos diz que “Jesus se aborreceu”; esse detalhe é importante por dois motivos: primeiro, porque demonstra a importância que Jesus dava às crianças (como imagem de todas as categorias de pessoas vulneráveis e marginalizadas da sociedade); segundo, porque denuncia o quanto era absurda a atitude dos discípulos; e, terceiro, porque mostra a preocupação do evangelista em revelar a humanidade de Jesus (um homem de sentimentos). Revelar os traços humanos de Jesus era muito importante para Marcos, o que os outros evangelistas pareciam esconder. A ordem de Jesus para que os discípulos não proíbam que as crianças se aproximem dele comporta um grande compromisso para a Igreja de todos os tempos: facilitar o máximo possível o encontro com os mais vulneráveis e excluídos da sociedade. A comunidade cristã não pode criar obstáculo algum para que as pessoas, sobretudo as mais necessitadas e excluídas, se aproximem do amor de Jesus.

As crianças são apresentadas como modelo, e para pertencer ao Reino de Deus é necessário tornar-se como elas (cf. v. 15). Para os discípulos, principalmente, essa comparação é muito importante. A criança é exemplo de quem necessita aprender, de quem não trama maldade nem alimenta ambições, de quem não se sente autossuficiente. Para o Reino de Deus, como uma sociedade alternativa, igualitária e justa, é imprescindível ter tais características para nele inserir-se. O gesto de abraçar, abençoar e impor as mãos sobre as crianças, no último versículo (cf. v. 16), enfatiza o amor acolhedor de Jesus pelas pessoas mais necessitadas e que a sociedade considera insignificantes.  

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 9,38-48 (ANO B)




O texto evangélico que a liturgia propõe para este vigésimo sexto domingo do tempo comum – Marcos 9,38-48 – é a continuidade daquele refletido no domingo passado (cf. Mc 9,30-37), e apresenta mais uma atitude de incoerência dos discípulos, seguida da correção e catequese de Jesus. O contexto geral é o do caminho decisivo de Jesus com os discípulos para Jerusalém, que culminará com os eventos da paixão, morte e ressurreição. Com muita maestria, o evangelista Marcos diz que, mesmo estando próximos, os discípulos se tornam, nesse itinerário, verdadeiros opositores de Jesus, com um comportamento oposto ao que o Mestre ensinava. Embora Jesus já tenha, nesse contexto, feito dois anúncios explícitos da sua paixão (cf. Mc 8,31-33; 9,30-32), os discípulos continuam ignorando, preferindo alimentar seus próprios anseios de grandeza, poder e exclusivismo, colocando-se, assim, em oposição a Jesus.
A principal incoerência dos discípulos denunciada no Evangelho de hoje é o exclusivismo e a tendência ao fechamento e fanatismo, expressos na atitude e na fala do apóstolo João: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue” (v. 38). Assim como a profissão de fé de Pedro – Tu és o Cristo! (Mc 8,27) – não representa uma afirmação pessoal, mas comunitária, ou seja, ele afirmou em nome do grupo, também nesse trecho de hoje a postura de João tem uma dimensão comunitária; é a expressão de todo o grupo de discípulos que permanecia com uma mentalidade fechada e exclusivista. É importante recordar que, no momento da formação do grupo dos Doze, juntamente com seu irmão Tiago, João recebeu o nome de Boanerges, que significa “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão ao temperamento explosivo, arrogante, intolerante e ambicioso dos dois. Além, dessa de hoje, há outras duas ocasiões em que essas características desses dois discípulos irmãos se revelam: quando pedem a Jesus para ocuparem as melhores posições no reino, um à direita e outro à esquerda (cf. Mc 10,35-40), e quando queriam eliminar com fogo os samaritanos, somente porque não os acolheram, no início do caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51-55). Juntamente com Pedro, João e Tiago são os discípulos mais difíceis de lidar no grupo; por isso, quando Jesus fica somente com eles, como no episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36), não se trata de privilégio, mas de necessidade. Pelo comportamento e temperamento, ambos necessitavam de uma catequese mais intensa.
A atividade de “expulsar demônios” nos evangelhos, e principalmente em Marcos, significa a promoção da liberdade e da dignidade das pessoas. É abrir as portas do Reino de Deus, tornando-o acessível a todas as pessoas. É a difusão da boa nova que transforma vidas, rompendo com as estruturas de morte e opressão vigentes em qualquer sistema. Uma atividade assim, de promoção plena do bem das pessoas, não pode ser estranha ao programa e à mensagem de Jesus, independente do grupo ou movimento a qual se pertença. Quem faz o bem ao próximo, está em sintonia Deus. Ao afirmar que o homem estava “expulsando demônios em nome de Jesus”, o evangelista evidencia que ele estava em sintonia e comunhão plena com Jesus, mesmo sem pertencer ao grupo dos Doze, e nem segui-los. A proibição imposta por João denuncia o fechamento e o fanatismo dos discípulos. Uma atitude dessas coloca em risco a eficácia e a credibilidade do Evangelho. Como uma proposta de vida de alcance universal, que visa a libertação plena do ser humano em todas as suas dimensões, a mensagem de Jesus não é propriedade de nenhum grupo ou instituição. Por isso, a repreensão.
A reação de Jesus é de clara reprovação à mesquinhez dos discípulos liderados por João: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor” (vv. 39-40). Ora, “fazer milagres em nome de Jesus” significa estar em sintonia com ele; só faz isso quem reconhece a sua autoridade e conduz a vida de acordo com o Evangelho. Ninguém pode ser impedido de fazer o bem, mesmo que não pertença ao mesmo grupo ou movimento. Proibir alguém de agir em nome de Jesus é querer aprisionar a sua mensagem e delimitar a ação do Espírito Santo, o que é impossível. Dos discípulos, exige-se abertura, compreensão e consciência de que a mensagem do Evangelho não é propriedade, mas dom acessível a quem tem sede de justiça e de amor. Com um simples provérbio, Jesus fecha a questão: “Quem não é contra nós é a nosso favor”. Ser contra, significa optar pelo mal e fechar-se aos valores do Reino; quem não faz isso, já está, consequentemente, a favor e, portanto, apto a agir em seu nome, independente de pertencer ou não a algum grupo religioso.
Como sempre, às repreensões de Jesus aos discípulos são seguidas de catequese mais aprofundada e prática: “Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa” (v. 41). Embora seja um gesto, aparentemente, simples, dar um copo de água era, para a mentalidade semita, uma das maiores demonstrações de hospitalidade e acolhida. A recompensa, aqui, significa a pertença a Jesus e sua comunidade. Essa pertença não depende de discursos ou formulações doutrinárias, mas de gestos e atitudes que revelem amor e justiça, como dar um simples copo de água a uma pessoa sedenta. O que importa, de acordo com o evangelista, é que tudo seja feito em “nome de Jesus”, ou seja, em comunhão com ele. Aqui, o ensinamento é dirigido exclusivamente aos discípulos: eles não devem esperar muita coisa, nem grandes adesões; basta um simples gesto de reconhecimento da pertença a Cristo, para que os destinatários sejam recompensados, ou seja, entrem em comunhão com sua vida.
Na sequência, a catequese é continuada com a retomada da importância dos “pequeninos” para o Reino de Deus, já introduzida no domingo passado com o exemplo da criança: “E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço” (v. 42). Escandalizar, aqui, é criar obstáculo ou impedimento à fé e à vida digna. O maior exemplo de escândalo numa comunidade é o espírito de grandeza e busca pelo poder. “Pequeninos” é a síntese de todas as categorias de pessoas vulneráveis e historicamente excluídas: pobres, mulheres, pecadores, etc. Quando os membros da comunidade cristã são motivos de escândalo para essas pessoas, isto é, quando não favorecem a acolhida e a inclusão, Jesus reprova e adverte severamente. Por sinal, Jesus tolera quase tudo, inclusive que sua mensagem seja rejeitada; a única coisa que ele não tolera é a indiferença e o desprezo aos pequeninos, os seus prediletos. A sorte de quem os rejeita é trágica. Ser jogado no mar com uma grande pedra amarrada ao pescoço é a certeza de que esse corpo jamais será resgatado; assim, não poderia receber uma sepultura digna e, consequentemente, não teria sequer direito à ressurreição dos mortos do último dia, como acreditavam os judeus. Esse destino exclui qualquer possibilidade de salvação. Dentre as tantas possibilidades de morte, a mais temida pelos judeus era o afogamento no mar, devido ao risco de não ter o corpo encontrado para ser sepultado. Daí, a ênfase de Jesus para mostrar que o ser humano se auto condena quando se torna obstáculo na vida dos pequeninos. Portanto, não é um convite para amputar membros do corpo, mas a ter o máximo cuidado de pautar toda a vida em favor do bem.
A chamada de atenção aos discípulos continua com a demonstração de certas ocasiões, através dos principais membros do corpo, que podem levar os discípulos a causarem “escândalo” aos pequeninos. A mão, o pé e o olho (cf. vv. 43-47) eram, de fato, os membros do corpo responsáveis pelo bom ou mau comportamento das pessoas, segundo a mentalidade semita. As mãos, representam todo o agir da pessoa; quando a pessoa não age conforme o evangelho, é melhor não tê-las, conforme essa mentalidade. Os pés representam a conduta, podendo levar a pessoa por caminhos justos e injustos; é melhor não ter pé do que andar por caminhos errados. O olho, como “lâmpada do corpo” (cf. Mt 6,22) é a porta de entrada dos sentimentos e desejos alimentados no coração da pessoa; tudo o que é processado no coração, sentimentos bons e maus, passou pelo olho. Diante disso, se esses membros são usados para o mal, é melhor o ser humano privar-se deles, do que ter um corpo são e uma vida perdida, sem sentido, ou seja, jogado no fogo que nunca se apaga. O texto original não fala de inferno, como na tradução litúrgica, mas de “geena” (em grego: γεενα). O “geena” era um vale onde ficava o lixão de Jerusalém; era sinônimo de imundície e de fogo constante. Inclusive, corpos humanos já tinham sido lá sacrificados, em cultos pagãos, por isso, esse local passou a ser símbolo de condenação completa para os judeus. Além do fogo, lá predominava também o mau cheiro constante. Era um símbolo concreto da negação da vida. Por ser depósito de todo o lixo de uma grande cidade, numa época em que o saneamento não era sequer imaginado, todos os tipos de resíduos iam para lá, por isso possuía um “fogo que não se apaga” (v. 48).
Com essa linguagem tão severa, Jesus não está apontando as possibilidades de uma vida futura, mas denunciando que não tem sentido algum a vida que não é pautada pelo bem ao próximo e, em especial, aos mais necessitados, ou seja, os pequeninos. “Geena” e fogo são imagens de uma vida fora do Reino de Deus, Reino esse que não é um paraíso futuro, mas um projeto real de vida para ser aplicado e vivido desde agora. Isso acontece quando a Boa Nova de Jesus é aceita com todas as suas dimensões e exigências. A dinâmica do Reino é incompatível com todas as formas de dominação, exclusivismo, autoritarismo e falta de amor e justiça.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 9,30-37




O Evangelho deste vigésimo quinto domingo do tempo comum – Marcos 9,30-37 – apresenta o segundo anúncio da paixão de Jesus, seguido da incompreensão dos discípulos que não aceitavam um messias sofredor. À incompreensão dos discípulos, Jesus reage e reforça a sua catequese, apresentando uma criança como exemplo para a comunidade, mostrando que o Reino de Deus tem como protagonistas e destinatários os pequenos e humildes, ao contrário do que pensavam os discípulos, que imaginavam uma comunidade hierárquica, aos moldes dos sistemas humanos de dominação.

O texto divide-se claramente em duas partes demarcadas pela dimensão espacial: a primeira (vv. 30-32), acontece no caminho, enquanto a segunda acontece na casa (vv. 33-37), em Cafarnaum. Casa e caminho representam os dois cenários privilegiados para a pregação de Jesus e para a vida da comunidade cristã, especialmente a comunidade do evangelista Marcos que, rompida definitivamente com a sinagoga, não tinha um espaço fixo para as suas reuniões. O caminho tem como significado a instabilidade, os perigos e, ao mesmo tempo, o dinamismo e a dimensão missionária da comunidade; é uma prova de que a Igreja nasceu para estar, realmente, em saída. Já a casa, significa a necessidade das relações fraternas e sinceras que devem marcar a vida da comunidade; é um espaço de acolhida, compreensão e vivência do amor.

Como diz o texto, “Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso” (v. 30). Essa travessia pela Galileia acontece após o episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-13) e a expulsão de um espírito impuro de um jovem epilético (cf. Mc 9,14-29). Chegou um momento de extrema necessidade de aprofundar o ensinamento sobre o seu destino aos discípulos; por isso, Jesus prefere o anonimato e o isolamento das multidões nessa fase da sua vida: “Pois estava ensinando a seus discípulos” (v. 31a). A incompreensão de Pedro após o primeiro anúncio da paixão (cf. Mc 8,31-35), como refletimos no domingo passado, foi um alerta para Jesus: os discípulos ainda não tinham compreendido quase nada; por isso, era necessário estar sozinho com eles para intensificar a catequese.

O conteúdo dessa fase específica da catequese é exatamente aquilo que os discípulos mais tinham dificuldade de compreender e aceitar, ou seja, o drama da paixão que se aproximava cada vez mais, não como predestinação, mas como consequência das opções feitas e posições assumidas até então por Jesus. Por isso, “dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará” (v. 31bc). Esse é o segundo anúncio da paixão. Enquanto os discípulos, conforme a ideologia nacionalista, esperavam que o messias matasse, declarando guerra ao poder romano para recuperar o trono dravídico-salomônico, Jesus afirma o contrário: é ele quem vai morrer. Embora nesse segundo anúncio não esteja tão claro quem serão seus algozes, ele já tinha declarado no primeiro: anciãos, sacerdotes e escribas (cf. Mc 8,31), ou seja, as autoridades religiosas, até então controladoras de Deus, agora inconformadas porque Jesus estava, com seu ministério, apresentando um Deus completamente diferente. O Deus dos chefes era cruel, vingativo e exigente, enquanto o Deus de Jesus é amoroso, misericordioso, acolhedor e justo.

A incompreensão dos discípulos continua, e até parece aumentar, gerando até medo: “Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar” (v. 32). Se não compreendiam, muito menos aceitavam a realidade como Jesus apresentava. Eles tinham medo de fazer perguntas porque suspeitavam que a explicação de Jesus não correspondesse às suas expectativas de triunfo e sucesso. Por isso, covardemente, preferem conversar entre si, alimentando sonhos triunfalistas e distantes da proposta de Jesus. Porém, Jesus os conhecia muito bem e sabia o que eles pensavam; lhes perguntará apenas por protocolo. “Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “O que discutis pelo caminho?” (v. 33). A cidade de Cafarnaum, onde Jesus realizou boa parte do seu ministério, tem um significado especial para a comunidade. É o ponto de partida da Boa Nova. Ao questionar os discípulos em casa, nessa cidade, Jesus revela a necessidade de renovação constante e de retorno às origens do chamado, com coragem para recomeçar. De fato, com o caminho da paixão já delineado, se torna cada vez mais necessário reavivar nos discípulos as motivações para o seguimento com bastante clareza.

Cientes do absurdo e da incompatibilidade entre o que eles conversavam e o que Jesus lhes apresentava, “eles ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior” (v. 34). Com essa informação, o evangelista revela que os discípulos estavam em total oposição ao projeto de Jesus. Ora, discutir quem é o maior, é negar completamente o projeto de Reino de Deus como fraternidade e igualdade. Essa discussão revela ambição e alimenta rivalidade, elementos impensáveis para uma comunidade que deve viver o princípio da igualdade e do amor. O silêncio deles denuncia a incoerência.

A atitude de Jesus diante de tamanha incoerência dos discípulos não é de condenação, mas de insistência no ensinamento e de renovação do chamado. Ao invés de abandoná-los, Jesus prefere aprofundar a catequese, demonstrando uma imensa capacidade pedagógica: “Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Ao sentar-se para ensinar, Jesus reafirma sua condição de mestre, o único maior naquele grupo. Chamando os doze para perto de si, ele os convida, antes de tudo, a renovar a vocação originária, deturpada pelos sentimentos de grandeza e ambição que eles tinham alimentado. Para aprender e aceitar o ensinamento, é necessário que os discípulos estejam muito próximos ao mestre, sendo influenciados somente por ele.

O ensinamento, aqui, é bastante didático, e revela, mais uma vez, os dotes pedagógicos de Jesus: bastam duas frases e um gesto para desconstruir os projetos de poder e ambição dos discípulos. Eis a primeira frase: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Enquanto os discípulos pensavam em poder e grandeza, tema da discussão no caminho, Jesus mostra um caminho oposto. Só há uma forma de ser o primeiro na comunidade: tornando-se servidor de todos. Tornar-se servidor de todos é o mesmo que “renunciar a si mesmo”, como ele já tinha dito anteriormente (cf. Mc 8,34). O discipulado não é um caminho para o sucesso, mas para o serviço. O sentido de ser discípulo é, portanto, a disposição de fazer para os outros e estar sempre a serviço, desinteressadamente.

Concluindo a sua catequese de contraponto às ambições de poder dos discípulos, Jesus faz um gesto bastante significativo, e finaliza com uma frase relacionada ao gesto: “Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou” (vv. 36-37). Aqui está o ponto alto da sua catequese; não basta falar, é necessário demonstrar com ações a veracidade da fala. O gesto de pegar uma criança, é bastante provocatório, uma vez que, na época, a criança não gozava de nenhuma estima e consideração, a não ser pelos próprios pais. Tanto o mundo hebraico quanto o grego, tinham visões muito negativas a respeito da criança, considerando-a uma pessoa inacabada e incapacitada para qualquer coisa. Jesus, pelo contrário, via com outros olhos: a criança é sinal de pequenez, mas também simboliza a capacidade de aprendizagem, tão necessária para o discipulado.

Colocando a criança no meio, Jesus a torna protagonista e centro da comunidade. O abraço é sinal da acolhida e do amor que devem ser dispensados aos pequenos do Reino, representados pela criança, os quais são todas as pessoas vulneráveis, necessitadas e desprezadas. De modo bastante claro, Jesus diz que acolher as pessoas desprezadas, representadas pela criança, é acolher a ele próprio e ao Pai que lhe enviou. Desse modo, podemos concluir que as pessoas consideradas pequenas, humildes, pobres, mulheres crianças e todas as categorias desprezadas pela sociedade são destinatárias e protagonistas do Reino, porque devem ocupar o centro da comunidade, uma vez que nelas se revelam Jesus e o Pai. A comunidade é, de fato, cristã quando, ao invés de excluir, acolhe e coloca em seu centro as pessoas historicamente condenadas e excluídas pela(s) sociedade(s).

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

ler notícia ›

REFLEXÃO PARA O XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 8,27-35 (ANO B)




Neste vigésimo quarto domingo do tempo comum, a liturgia nos apresenta o episódio central e divisório do Evangelho segundo Marcos: a confissão de fé de Pedro, em nome de todo o grupo dos discípulos, e o primeiro anúncio da paixão. O texto proposto, Marcos 8,27-35, é um divisor de águas também no itinerário missionário e messiânico de Jesus, pois marca o início do seu caminho para Jerusalém, onde acontecerão os eventos da sua paixão e morte, culminando com a ressurreição. É, portanto, o início de uma etapa decisiva que exige muita convicção nos discípulos. Se trata de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (cf. Mc 8,27ss; Mt 16,13-19; Lc 19,18-22), cuja versão mais rica é essa de Marcos, com mais probabilidade de correspondência com os fatos reais.

Dividido em duas grandes partes, o Evangelho segundo Marcos tem como finalidade apresentar Jesus como o Cristo, ou seja, como o messias, e como o Filho de Deus, como já se percebe em seu primeiro versículo: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Toda a primeira parte, capítulos de 1 a 8, visa gerar na comunidade a certeza de que Jesus de Nazaré é o messias, tão esperado por Israel ao longo dos séculos; por isso, essa é concluída com a proclamação solene de Pedro, em nome da comunidade dos discípulos, afirmando “Tu és o Cristo” (o nome Cristo, em grego χριστóς - christós, significa messias ou ungido). Já a segunda parte, capítulos de 9 a 16, visa levar a comunidade a acreditar que o messias é também o Filho de Deus, cuja certeza é dada pela confissão do centurião romano no momento da morte de Jesus: “realmente, esse homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A maturidade da comunidade, portanto, pode ser verificada pela sua capacidade de professar livremente essas duas verdades a respeito de Jesus de Nazaré, dando-lhe adesão até as últimas consequências.

Olhando especificamente para o texto do evangelho de hoje, a nossa primeira observação diz respeito à dimensão espacial: Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe” (v. 27b). Esse dado possui grande relevância, considerando a localização e a importância da cidade de Cesaréia de Filipe. Ora, como Cesareia estava localizada no extremo norte da Galileia, em área já considerada pagã, esse dado representa uma espécie de isolamento dos discípulos em relação à ideologia nacionalista. Lá, eles estariam livres para emitir uma opinião isenta de qualquer influência ideológica e preconceitos. Para reconhecer a verdadeira identidade de Jesus é necessário isolar-se dos esquemas religiosos de Israel. Além disso, a cidade de Cesareia, como o próprio nome indica, era uma homenagem a César, um dos títulos de honra do imperador romano; logo, o reconhecimento de Jesus como messias, na “cidade de César” representava a oposição do projeto do Reino de Deus às forças de morte movidas pelo poder opressor romano.

Com esse dado, o evangelista quer ensinar que as duas primeiras exigências para o seguimento convicto de Jesus é o rompimento com as ideologias, religiosas principalmente, e a coragem para confrontar toda forma de poder oposta ao Reino de Deus. Essa era a situação da comunidade do evangelista Marcos, na época da redação do evangelho: escrito fora da Palestina, quando a convivência com a comunidade judaica já tinha se tornado insuportável e, especificamente, na cidade de Roma, capital do império, em época de forte perseguição. Portanto, o evangelista, para fortalecer os cristãos da sua comunidade, narra esse episódio para mostrar que aquela situação presente já tinha sido prevista e vivida pelo próprio Jesus com seus primeiros discípulos.

Em situações de hostilidade, é necessário renovar as convicções para continuar o seguimento. Assim, Jesus faz uma espécie de consulta a respeito da sua própria imagem, não interessado em fama, mas somente para saber se estava sendo compreendido juntamente com a sua mensagem; não era preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio na comunidade. Por isso, ainda “no caminho, perguntou aos discípulos: ‘Quem dizem os homens que eu sou?’” (v. 27). Aqui, o evangelista faz questão de evidenciar o aspecto itinerante e a falta de comodidade no discipulado. Por isso, “o caminho” com os inerentes perigos é lugar de catequese e anúncio, o que também reflete a situação da comunidade do evangelista: expulsos da sinagoga, os cristãos já não tinham lugar fixo para a pregação, buscando espaços alternativos, como as casas, as estradas e até os cemitérios. Não obstante esses desafios, a clareza e a convicção do seguimento são fundamentais para a vida da comunidade.

A resposta dos discípulos à pergunta de Jesus revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual Jesus já gozava entre o povo, certamente o povo simples, com quem Ele interagia e por quem mais lutava. Eis a resposta: “alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias, outros, ainda, que és algum dos profetas” (v. 28). Sem dúvidas, Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. De fato, os personagens citados foram grandes profetas, homens que acenderam a esperança de libertação, anunciando, denunciando e testemunhando. Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história.

A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, Jesus queria saber mesmo era o que seus discípulos pensavam de si. Por isso, lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 29a). Que as pessoas de fora o conhecessem apenas superficialmente, seria tolerável, mas dos discípulos, esperava-se uma resposta mais profunda e convicta, como de fato aconteceu: “Pedro respondeu: ‘Tu és o Messias’” (v. 29b). Aqui, Pedro fala em nome do grupo. Essa é a resposta da comunidade. Embora correta, a resposta de Pedro e da comunidade não é satisfatória, por isso, “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito” (v. 30). Dizer que Jesus é o Messias, é o mesmo que dizer o Cristo, como de fato ele era. 

O que fez ele proibir Pedro de repetir essa fórmula foram as possibilidades de incompreensão que essa comportava. Ora, o messias esperado pelos judeus, cujas expectativas foram alimentadas por muitos séculos, desde a época do exílio, era um guerreiro, um restaurador do reino de Davi. Essas expectativas diziam respeito a um único povo e religião, enquanto a mensagem de Jesus é universalista e acessível a todos os seres humanos, independente de qualquer cultura, etnia e religião. Portanto, podemos afirmar que Pedro deu a resposta correta – Jesus é mesmo o Cristo – mas não tinha ainda a consciência ideal – Jesus não veio para restaurar o reino de Davi, mas para implantar o Reino de Deus, como realidade universal.

Diante do equívoco dos discípulos, representados por Pedro, Jesus inaugura uma nova etapa da sua catequese, buscando revelar a sua verdadeira identidade de messias “às avessas”: o messias descendente de Davi, esperado pelos judeus, era um guerreiro, viria ao mundo para combater e matar os inimigos de Israel, restaurando o trono outrora ocupado por Davi e Salomão; Jesus mostra que sua missão é o contrário de tudo isso: “o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias” (v. 31). Esse é o primeiro dos três anúncios da paixão presentes no evangelho. Ao invés de matar, o Messias Jesus é quem padece e, por consequência, essa deveria ser também a sorte dos seus discípulos.

Fechado na mentalidade nacionalista, Pedro não aceita um messias sofredor, por isso, “tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo” (v. 32). Essa atitude de Pedro é absurda e inaceitável. O verbo repreender (em grego: επιτιμαω – epítimao) significa condenar por um erro, reprovar bruscamente; fazendo isso, Pedro nega a sua condição de discípulo, e é chamado por Jesus a assumir o seu verdadeiro lugar: “Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: ‘Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens’” (v. 33). Jesus, como mestre, tem autoridade para “repreender” e condenar a atitude absurda de Pedro. Ao chama-lo de satanás, Jesus está apenas dizendo que, com aquela postura, Pedro está sendo obstáculo para o Reino de Deus.

Pedro queria evitar a cruz para Jesus e seus companheiros. Jesus, ao contrário, afirma que a cruz é condição para o seguimento (v. 34). Porém, ao contrário do que a tradução litúrgica do texto afirma, Jesus não manda Pedro para longe, mas apenas para trás de si. Aqui, ele usa a mesma expressão do chamado vocacional: “segue-me” – empregada em Mc 1,17; 8,34 (em grego: ovpi,sw mou – opísso mu). Jesus repreende Pedro, mas não o expulsa do grupo, apenas diz “vai para trás de mim”, “assume teu lugar de discípulo”, ou simplesmente “segue-me”. Com isso, o evangelista ensina que a última palavra na comunidade deve ser sempre a de Jesus. O discípulo nunca deve tomar o lugar do mestre, assim como, na comunidade cristã, nenhuma pessoa pode ter a última palavra, pois essa é sempre de Jesus.

Devido a tentação de Pedro, querendo suavizar o seguimento, diminuindo as suas consequências, Jesus aproveita para reforçar as convicções e a necessidade de disposição de dar a vida por sua causa e pelo Evangelho (vv. 34-35). De fato, o discipulado é incompatível com o egoísmo e a falta de coragem de dar a vida por causa do Evangelho. A comunidade se torna, de fato, cristã, ou seja, discípula, quando encontra o seu verdadeiro lugar: sempre atrás do mestre, no seguimento, não impondo os pensamentos humanos, mas apenas seguindo e fazendo o que Jesus pediu.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
ler notícia ›