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sábado, maio 09, 2026

REFLEXÃO PARA O 6º DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,15-21 (ANO A)



Neste sexto domingo de Páscoa, continuamos a leitura do capítulo 14 do Evangelho segundo João, iniciada no domingo passado. A liturgia de hoje propõe os versículos de 15-21. O contexto, obviamente, continua sendo o da última ceia de Jesus com seus discípulos em Jerusalém. Como se sabe, esse texto faz parte do discurso de despedida de Jesus, considerado um verdadeiro testamento, uma vez que contém a síntese de seus principais ensinamentos. João é o único evangelista que fez essa síntese final dos ensinamentos de Jesus, respondendo às necessidades concretas das suas comunidades, ameaçadas pelas perseguições e por problemas internos, quando seu Evangelho foi escrito, já na última década do primeiro século. Propositadamente, a liturgia prioriza a leitura de trechos desse discurso nos domingos que antecedem a solenidade da ascensão, para que as comunidades cristãs tenham clareza da essência da mensagem de Jesus e não interpretem o seu retorno para junto do Pai como ausência, mas como início de uma presença ainda mais intensa entre os seus seguidores. Como a contextualização mais ampla já foi feita no domingo passado, não é necessário repeti-la hoje.

Eis o que o texto afirma logo em seu início: «Se me amais, guardareis os meus mandamentos» (v. 15). Enquanto o primeiro versículo do evangelho do domingo passado cobrava fé nos discípulos (Jo 14,1), o de hoje faz praticamente a mesma exigência com o amor. Com efeito, fé e amor são duas características indispensáveis para uma comunidade cristã. Sem fé e amor, não pode haver seguimento de Jesus. Essa é a primeira vez que Jesus pede amor para si, e o faz empregando o verbo que expressa o amor em sua máxima dimensão. Ora, no grego, idioma da redação do Evangelho, há quatro verbos que significam amar, mas somente um expressa um amor ilimitado e incondicional, capaz de doar a vida: é o verbo agapáo (άγαπάω), empregado aqui. O amor cristão tem um parâmetro que é o amor de Jesus, e os cristãos não podem amar de outro jeito que não seja esse. Quem ama Jesus guarda os seus mandamentos, o que aqui significa a totalidade de sua mensagem, uma vez que ele deixou um único mandamento: o mandamento do amor (Jo 13,34-35). Assim, mandamento no plural significa a totalidade da mensagem de Jesus, o que não consiste em preceitos e normas morais, mas num estilo de vida. Contudo, não deixa de ser exigente, por isso, o emprego na forma plural, como meio de explicitar que o mandamento do amor comporta várias exigências e consequências.

É importante perceber e recordar que o amor é exigência para pertencer a Jesus, mas não uma imposição, o que fica claro no texto, com o uso da forma condicional «se me amais…». Isso quer dizer que o amor deve ser livre, não imposto. Logo, trata-se de uma exigência livre e consciente. Quem escolhe segui-lo, só pode fazê-lo amando-o e vivendo à sua maneira. E a consequência do amor a Jesus é a observação e vivência efetiva dos seus ensinamentos. Ele não fala de obediência aos seus mandamentos, mas de guardar, o que significa preservar algo em sua essência e integridade, sem adulterações. Inclusive, o evangelista usa aqui o mesmo verbo guardar (em grego: τηρήω – terêo) colocado na boca do mestre-sala no episódio das bodas de Caná, ao elogiar o vinho novo, desconhecido para ele, como se estivesse «guardado até agora» (Jo 2,10). Portanto, quem ama Jesus vive e mantém a sua mensagem autêntica e intacta ao longo do tempo, não obstante as adversidades, como as enfrentadas pela comunidade do evangelista. Para conservar a mensagem de Jesus em sua integridade, no entanto, a comunidade precisa ler os sinais dos tempos, à luz do Espírito Santo, já que é uma mensagem dinâmica e viva. Logo, guardar os mandamentos de Jesus não significa apego a tradições e costumes estéreis, mas abertura e disposição para viver sempre conforme o seu amor, o que se faz somente abrindo-se ao Espírito Santo, o seu dom maior. 

Estando prestes a retornar ao Pai, Jesus reconhece a vulnerabilidade dos seus discípulos, que se encontravam angustiados e com medo (Jo 14,1). Por isso, lhes faz uma promessa: «E eu rogarei ao Pai e ele vos dará um outro defensor, para que permaneça sempre convosco» (v. 16). Aqui, Jesus está se referindo ao Espírito Santo como o outro defensor, sendo que o primeiro defensor é ele mesmo (1Jo 2,1); o outro atuará na vida dos discípulos com uma presença semelhante, embora mais intensa, à do próprio Jesus em sua vida terrena. O termo grego correspondente a defensor é “Parákletos” (παράκλητος), corresponde ao termo latino “advocatus”, do qual provém a palavra advogado; se trata de uma palavra composta (παρά – pará = “junto a” + κλητος – klétos = chamado), cujo significado literal é “chamado a estar junto ou do lado” para defender, consolar e encorajar. Em todo o Novo Testamento, essa palavra é empregada apenas em escritos de tradição joanina (Jo 14,16.26; 15,26; 1Jo 2,1). Adaptada ao português e outras línguas modernas como “Paráclito”, esse termo foi praticamente transformado em título do Espírito Santo, quando na verdade expressa a sua atuação viva e eficaz na comunidade. Ora, angustiados e aflitos pelo medo, os discípulos temiam exatamente que a partida de Jesus os deixasse desamparados; a essa situação, Jesus responde prometendo o outro defensor. Assim, ele antecipa que, através do Espírito Santo, estará para sempre presente na vida dos seus seguidores de todos os tempos, com uma presença até mais efetiva do que aquela terrena, uma vez que não estará mais condicionado aos limites do espaço e do tempo.

A presença do Espírito Santo é decisiva e vital para a comunidade. Por isso, Jesus continua referindo-se ao Espírito Santo, mostrando agora uma função ainda mais clara, essencial e urgente: ajudar a manter a comunidade na Verdade, que é o próprio Pai e Jesus, já que, quem vê a um vê ao outro (Jo 14,9), uma vez que os dois são Um (Jo 10,30): «O Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós» (v. 17). Aqui, o evangelista faz a contraposição, típica da sua teologia, entre a comunidade cristã e o mundo. O mundo, nesse caso, não significa a criação ou o cosmos, mas toda a oposição ao Evangelho; é a negação do amor de Deus comunicado por Jesus, o que geralmente é o sistema opressor – religioso, político ou econômico – mas também as contradições e incoerências internas da própria comunidade. Enfim, é toda realidade que rejeita o amor de Deus, que são os sistemas que se alimentam da mentira, do ódio, da violência e de tudo o que é contrário ao Evangelho. A comunidade só resiste a tudo isso se acolher o Espírito da Verdade, a quem ela conhece, porque Jesus a deu a conhecer, inclusive enviando-o para dentro de cada discípulo. Com efeito, a acolhida do Espírito da Verdade não é um acontecimento pontual na vida, mas a abertura de coração para que o mesmo Espírito permaneça dentro da pessoa, orientando seu viver. Trata-se, portanto, de um verdadeiro processo de humanização: deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a pessoa torna-se tão plenamente humana, a ponto de assemelhar-se a Deus, de quem Jesus é a máxima revelação.

A presença do Espírito na comunidade garante proteção e amparo aos discípulos; por isso, Jesus lhes assegura: «Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós» (v. 18). Os discípulos temiam exatamente viver como órfãos num mundo hostil e injusto, após a partida de Jesus. Ora, os órfãos, juntamente com as viúvas e os pobres, formavam a categoria de pessoas mais vulneráveis e frágeis em Israel, sujeitos à exploração dos poderosos. Eram os protótipos das pessoas abandonadas, sem qualquer proteção. Por isso, eram destinatários de atenção especial na própria Lei de Moisés (Dt 14,28-29). Com essa afirmação, Jesus declara que seus discípulos não serão abandonados; pelo contrário, virá a eles; essa vinda não é a parusia, ou seja, a vinda definitiva no final dos tempos, mas o seu retorno à comunidade após a ressurreição (Jo 20,19.24); inclusive, nos relatos das aparições, o evangelista João não dirá que Jesus apareceu aos discípulos, mas que ele veio onde eles se encontravam e, por sinal, em todas as ocasiões que ele veio, encontrou-os com medo (Jo 20,19.24). Certamente, essa garantia de não deixar seus discípulos órfãos é uma das promessas mais significativas de Jesus. É a certeza de uma presença afetiva e efetiva para sempre. Associada à promessa do Espírito Santo e à sua comunhão com o Pai, essa garantia revela os cuidados maternos e paternos do Deus que que Jesus veio revelar. Trata-se de um Deus que ama e cuida com amor de pai e mãe, por isso, quem se abre a esse amor não sente órfão.

Na sequência, com muita clareza, Jesus fala da sua morte e ressurreição, certamente com os discípulos já mais tranquilos, após o anúncio do outro defensor e a certeza de que eles não ficariam órfãos. Eis o que ele diz: «Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis por que eu vivo e vós vivereis» (v. 19). Ao contrário do mundo, para quem a morte de Jesus será uma partida permanente, porque não se abriu para conhecer o seu amor, os discípulos não deixarão de vê-lo, pois, ressuscitado, estará para sempre vivo entre eles. A relação com Jesus é fonte de vida, pois quem o vê, vive. Ver, aqui, significa a relação de intimidade com ele, e essa relação é geradora de vida. Naquela ocasião, os discípulos confirmarão a união íntima entre Jesus e o Pai e poderão também participar dessa mesma união, como ele mesmo promete: «Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós» (v. 20). Logo, a presença de Jesus no Pai e do Pai em Jesus se realiza também na vida dos discípulos, eliminando, assim, toda distância entre o humano e o divino. A comunidade cristã aberta ao Espírito da Verdade é, portanto, morada de Jesus e do Pai, pelo Espírito Santo.

No último versículo, é retomada a temática dos mandamentos, e novamente associados ao amor: «Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele» (v. 21). O termo mandamento (em grego:  έντολή – entolê), tanto no singular quanto no plural, aparece vinte e seis vezes nos evangelhos, sendo dezesseis nos sinóticos (Mt 5,19; 15,3; 19,17; 22,36;38;40; Mc 7,8.9; 10,5.19; 12,28.31; Lc 1,16; 15,29; 18,20; 23,56) e dez em João (Jo 10,18; 11,57; 12,49.50; 13,34; 14,15.21; 15,10.12); enquanto nos sinóticos sempre faz referência aos mandamentos da Lei, embora ressignificados por Jesus, em João os mandamentos são somente seus, não aludem à antiga Lei. Com isso, o evangelista reforça que é Jesus com seu amor o único parâmetro para a comunidade. Nesse versículo, o evangelista abre uma nova perspectiva; enquanto nos versículos anteriores o discurso foi todo construído em segunda pessoa, com Jesus falando diretamente aos discípulos reunidos com ele (“vós”), agora ele fala em terceira pessoa. Ele passa então a dirigir-se a toda pessoa, de qualquer lugar e de qualquer época (quem, aquele, qualquer um...). Logo, a experiência que os discípulos de primeira hora estavam vivendo pode ser vivida por qualquer pessoa que cumpre o mandamento do amor. Isso significa que toda pessoa, sem distinção, pode ser discípula de Jesus. Isso foi um conforto que o evangelista transmitiu aos membros da sua comunidade, especialmente àqueles chegados por último, vítimas de preconceito e discriminação, e serve de alento para as comunidades de todos os tempos.

Convictos da presença ativa de Jesus na comunidade que vive o seu amor e o aceita como única regra de vida, somos animados a acolher o Espírito Santo para estreitar cada vez mais os laços com Ele, com o Pai e com o próximo, o primeiro destinatário do seu amor. Dessa presença emana a força necessária para resistir aos obstáculos e as convicções para perseverar na verdade do Evangelho, como único parâmetro para a vida cristã.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sexta-feira, maio 01, 2026

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,1-12 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do quinto e do sexto domingo do tempo pascal utiliza textos do chamado «testamento de Jesus» do Quarto Evangelho (Jo 13–17). Esses capítulos, que correspondem à última ceia, contêm o ensinamento mais precioso de Jesus no contexto narrativo do Evangelho de João. Trata-se de um conjunto de diversos discursos que o evangelista reuniu como se fosse apenas um discurso, apresentado como síntese de tudo o que Jesus fez e ensinou durante a sua vida. Por isso, o conjunto começa com o gesto do lava-pés (Jo 13,1-12), expressão máxima do agir serviçal de Jesus, e é concluído com a oração sacerdotal (Jo 17,1-26), na qual Jesus expressa sua intimidade com o Pai, marcada pela confiança e entrega, e seu cuidado com a humanidade, suplicando unidade e fraternidade. Do lava-pés à oração de Jesus, portanto, está a síntese de toda a sua vida. O evangelista fez isso como resposta às necessidades da sua comunidade, que passava por crises, e das comunidades de todos os tempos.

À medida que o tempo pascal avança, e após lermos os diversos relatos das manifestações (aparições) do Ressuscitado junto aos seus discípulos(as), é interessante retornar à essência do que Ele ensinou, tendo em vista a proximidade da ascensão, para que essa não seja sinal de ausência, mas de presença e vivência dos seus ensinamentos. De fato, é através da vivência do que Jesus ensinou que se pode experimentar a sua presença de Ressuscitado ao longo da história. Neste quinto domingo do “Ano A”, o texto proposto é Jo 14,1-12. Para compreendê-lo melhor, é necessário recordar o que lhe antecede, no contexto narrativo da última ceia. E encontramos quatro acontecimentos precedentes que, de certo modo, condicionam o texto de hoje:  o lava-pés ou o mandamento do serviço (Jo 13,1-15), o anúncio da traição de Judas e seu desligamento do grupo (Jo 13,21-30), a entrega do mandamento do amor por Jesus (Jo 13,31-35) e o anúncio da negação de Pedro (Jo 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (Jo 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como ausência e fim. Tudo isso deixou os discípulos desanimados e inquietos; a ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperar a alegria e o entusiasmo dos discípulos com a continuidade do seu discurso, apesar de se encontrar às vésperas da paixão.

Olhando para o texto, percebemos que as palavras iniciais de Jesus denunciam a inquietação e o mal-estar que havia entre os discípulos naquele momento: «Não se perturbe o vosso coração» (v. 1a). A agitação no coração é sinal de tristeza e confiança abalada. Significa que há uma situação difícil de ser aceita e compreendida. É interessante que, embora fale para todo o grupo dos discípulos, Jesus se refere ao coração (em grego: καρδία – kardía) no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé na comunidade. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode desistir de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e um único mandamento. Na verdade, os discípulos até tinham certa razão de se encontrarem perturbados, humanamente falando, tendo em vista a certeza da morte próxima de Jesus. Mas Jesus os convida a superar o medo e deixar de ver a morte como o fim. Na verdade, ele quer ensinar que a morte não tem a palavra final, por isso, insiste que os discípulos não se perturbem com ela. Além disso, ele quer recordar tudo o que já tinha ensinado acerca do seu destino. E desde os primeiros momentos da sua pregação, ele tinha deixado claro qual seria o seu destino, tendo em vista sua extrema fidelidade ao Pai.

Mais do que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Ora, a comunidade estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões, além da tristeza pela sua aparente perda. Havia um clima de desconfiança entre eles, sobretudo após a saída de Judas e o anúncio da negação de Pedro (13,21-30; 36-38). O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus. Por isso, ele pede que os discípulos lhe renovem a adesão plena, com uma fé renovada: «Tendes fé em Deus, tende fé em mim também» (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao Evangelho de João. Somente nesse texto de hoje, o verbo que expressa fé e confiança (em grego: πιστεύω – pistêuo), aparece cinco vezes (vv. 1.11.12). O evangelista está ensinando também que a fé em Deus e a fé em Jesus são uma única fé. E somente a fé é capaz de fazer a comunidade superar o medo, a perturbação e criar coragem para enfrentar as adversidades que vêm como consequência da fidelidade ao projeto de Jesus. E a primeira adversidade é a cruz.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga casa, o templo, fora transformada em casa de negócios (Jo 2,16). Por isso, ele faz uma afirmação categórica e bastante firme: «Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós» (v. 2). Essa é uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada do Pai, e nem prometendo reservar lugares para os seus discípulos lá. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas. No templo de pedras, a antiga casa de Deus, havia uma única morada. As pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá, como ensinava a religião. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar a Deus somente em espírito e em verdade (Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Em vez de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: «E quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós» (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo transportar os discípulos de um lugar para outro, mas conduzi-los a uma nova condição de vida, dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais do que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será a casa do Pai quando nela vigorar a lei do amor e sua aplicação prática, que é o serviço, cuja demonstração ele fez há pouco tempo, com o gesto do lava-pés. Com isso, ele dá um significado novo para a vida presente: essa vida que vivemos agora não é apenas uma espera pela vida definitiva, mas ela já é eterna, pois já se pode experimentar nela a presença do eterno, que é ele mesmo, pois onde se vive como discípulo o Ressuscitado está presente. Portanto, o voltar de Jesus, após sua morte de cruz, ao encontro dos discípulos, significa muito mais do que o seu retorno glorioso no final dos tempos; no contexto do evangelho de hoje, significa sua inseparabilidade da comunidade após a ressurreição. A morte na cruz não tem força de separar Jesus dos seus porque, Ressuscitado, ele estará sempre presente. Por isso, essa sua afirmação expressa um retorno imediato: mediante o Espírito Santo, ele estará sempre presente entre os seus, e a ocasião privilegiada de experimentar essa presença é a comunidade reunida para a partilha do pão.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho, como ele mesmo afirma: «E para onde eu vou, vós conheceis o caminho» (v. 4); esse caminho é a sua própria vida, marcada pelo amor ilimitado e incondicional. No entanto, a incompreensão persiste nos discípulos, dominados pelos ideais messiânicos triunfalistas e incapazes de reconhecer o amor e a doação da vida como os únicos meios para uma relação autêntica com Deus. Com muita sinceridade, Tomé confessa a sua ignorância diante do que está sendo anunciado e vivido por Jesus: «Tomé disse a Jesus: ‘Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?’» (v. 5). De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade. Mas seu questionamento demonstra interesse em aprofundar e conhecer mais Jesus e sua relação com o Pai. Ele via a morte como o fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado já no episódio da reanimação de Lázaro, quando os outros discípulos queriam persuadir Jesus a não se aproximar de Jerusalém, pois já tinha sido ameaçado de morte. Naquela ocasião, Tomé desafiou aos demais discípulos e disse: «Nós iremos para morrer com ele» (Jo 11,16).

O questionamento de Tomé se torna uma oportunidade para Jesus fornecer uma das mais profundas revelações de si: «Jesus respondeu: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim’» (v. 6). Com a declaração “Eu sou” (em grego: Εγώ είμι – egô eimí) Jesus reafirma a sua condição divina, pois essa é a fórmula de revelação do Deus do Êxodo, o Deus libertador (Ex 3,13ss); por sinal, o uso dessa fórmula é muito frequente no Evangelho de João, mas essa é a única vez em que vem seguida de três predicativos: Caminho, Verdade e Vida. Essa é a afirmação em que Jesus mais revela traços da sua identidade. Embora pareça enigmática, essa tríplice predicação é bastante simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve nenhuma regra, não estabelece nenhuma lei e não deixa nenhuma doutrina. Isso gera dúvidas e medo nos discípulos: como se comportar após a partida de Jesus? Quais os parâmetros a seguir? Para simplificar, Jesus diz que ele mesmo é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa. Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus quer dizer que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa. O caminho a ser percorrido pela comunidade cristã é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é a sua própria pessoa e a vida a ser vivida é aquela que Ele viveu e doou em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida. Porém, o evangelista aplica aqui o sentido prático e conhecido dos termos. Quer dizer que, sem Jesus, a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai. Portanto, se auto declarando como Caminho, Verdade e Vida, Jesus diz que é tudo para a comunidade cristã e essa não pode alimentar-se de nada além da sua pessoa.

Na sequência, Jesus reafirma sua unidade com o Pai em tom de advertência e lamento pela falta de perspicácia dos discípulos: «Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes» (v. 7). Num único versículo, o mesmo verbo conhecer aparece três vezes. Não se trata de um conhecimento intelectual, mas de uma experiência de intimidade e amor. O conhecimento de Deus não é fruto do intelecto, mas de uma disposição para amar e ser amado. Jesus está denunciando a falta de amor nos discípulos, até aquele momento. Se ainda não conheciam a Jesus e ao Pai, é porque ainda não estavam amando verdadeiramente, o que se evidencia pela intervenção de Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!» (v. 8). Como se vê, persistia nos discípulos a incompreensão e não aceitação da unidade entre Jesus e o Pai. Isso mostra, mais uma vez, que eles tinham dificuldade de aceitar e assimilar um Deus presente na história e relacionando-se diretamente com o seu povo, e é exatamente esse Deus que Jesus nos revela. Por isso, a resposta a Filipe é uma espécie de desabafo de Jesus, em tom de lamentação e repreensão: «Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai?’» (v. 9). Ora, Filipe foi um dos primeiros discípulos chamados por Jesus (Jo 1,43); certamente, presenciou todos os sinais realizados, mesmo assim não tinha ainda assimilado Jesus como revelador do Pai e, consequentemente, não ainda deixado se humanizar por ele.

Toda a vida de Jesus é revelação de Deus; em tudo o que faz, ele revela o Pai porque os dois vivem uma unidade perfeita: «Não acreditas que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras» (v. 10). Os discípulos devem perceber essa unidade pelo amor incondicional de Jesus, expresso em suas palavras e ações. Como último critério, ou seja, quando a vida de Jesus marcada pelo amor incondicional não for capaz de convencer, que pelo menos considerem as suas obras, os sinais realizados, para reconhecê-lo como Um com o Pai: «Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras» (v. 11). É importante essa recomendação: as obras são o último critério para a fé. O primeiro critério é o amor envolvido e a certeza da vida abundante. A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades cristãs de todos os tempos. É perceptível que o Evangelho de João concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. No Quarto Evangelho, discípulos “secundários” para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, têm um certo protagonismo (Jo 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo: o discípulo amado. Esse detalhe revela um cuidado do evangelista em relação à organização da comunidade e uma precaução com as tendências hierarquizantes. Na comunidade onde reina o amor, todos têm espaço, inclusive para questionar. O que importa é que o amor fraterno seja vivido.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 12). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (Jo 10,10).

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, maio 06, 2023

REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DE PÁSCOA – JOÃO 14,1-12 (ANO A)


Todos os anos, a liturgia do quinto e do sexto domingo do tempo pascal utiliza textos do chamado «testamento de Jesus» do Quarto Evangelho (Jo 13–17). Esses capítulos, que correspondem à última ceia, contém o ensinamento mais precioso de Jesus no contexto narrativo do Evangelho de João. Trata-se de um conjunto de diversos discursos que o evangelista reuniu como se fosse apenas um discurso, apresentado como síntese de tudo o que Jesus fez e ensinou durante a sua vida. Por isso, o conjunto começa com o gesto do lava-pés (Jo 13,1-12), expressão máxima do agir serviçal de Jesus, e é concluído com a oração sacerdotal (Jo 17,1-26), na qual Jesus expressa sua intimidade com o Pai, marcada pela confiança e entrega, e seu cuidado com a humanidade, suplicando unidade e fraternidade. Do lava-pés à oração de Jesus, portanto, está a síntese de toda a sua vida. O evangelista fez isso como resposta às necessidades da sua comunidade, que passava por crises, e das comunidades de todos os tempos.

À medida em que o tempo pascal avança, após lermos os diversos relatos das manifestações (aparições) do Ressuscitado junto aos seus discípulos(a), é interessante retornar à essência do que Ele ensinou, tendo em vista a proximidade da ascensão, para que essa não seja sinal de ausência, mas de presença e vivência dos seus ensinamentos. De fato, é através da vivência do que Jesus ensinou que se pode experimentar a sua presença de Ressuscitado ao longo da história. Neste quinto domingo do “Ano A”, o texto proposto é Jo 14,1-12. Para compreendê-lo melhor, é necessário recordar o que lhe antecede, no contexto narrativo da última ceia. E encontramos quatro acontecimentos precedentes que, de certo modo, condicionam o texto de hoje:  o lava pés ou o mandamento do serviço (Jo 13,1-15), o anúncio da traição de Judas e seu desligamento do grupo (Jo 13,21-30; ), a entrega do mandamento do amor por Jesus (Jo 13,31-35) e o anúncio da negação de Pedro (Jo 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (Jo 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como ausência e fim. Tudo isso deixou os discípulos desanimados e inquietos; a ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperar a alegria e o entusiasmo dos discípulos com a continuidade do seu discurso, apesar de se encontrar às vésperas da paixão.

Olhando para o texto, percebemos que as palavras iniciais de Jesus denunciam a inquietação e o mal-estar que havia entre os discípulos naquele momento: «Não se perturbe o vosso coração» (v. 1a). A agitação no coração é sinal de tristeza e confiança abalada. Significa que há uma situação difícil de ser aceita e compreendida. É interessante que, embora fale para todo o grupo dos discípulos, Jesus se refere ao coração (em grego: καρδία – kardía) no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé na comunidade. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode desistir de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e um único mandamento. Na verdade, os discípulos até tinham certa razão de se encontrarem perturbados, humanamente falando, tendo a vista a certeza da morte próxima de Jesus. Mas Jesus os convida a superar o medo e deixar de ver a morte como o fim. Na verdade, ele quer ensinar que a morte não tem a palavra final, por isso, insiste que os discípulos não se perturbem com ela. Além disso, ele quer recordar tudo o que já tinha ensinado acerca do seu destino. E desde os primeiros momentos da sua pregação, ele tinha deixado claro qual seria o seu destino, tendo em vista sua extrema fidelidade ao Pai.

Mais do que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Ora, a comunidade estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões, além da tristeza pela sua aparente perda. Havia um clima de desconfiança entre eles, sobretudo após a saída de Judas e o anúncio da negação de Pedro (13,21-30; 36-38). O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus. Por isso, ele pede que os discípulos lhe renovem a adesão plena, com uma fé renovada: «Tendes fé em Deus, tende fé em mim também» (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao evangelho de João. Somente nesse texto de hoje, o verbo que expressa fé e confiança (em grego: πιστεύω – pistêuo), aparece cinco vezes (vv. 1.11.12). O evangelista está ensinando também que a fé em Deus e a fé em Jesus são uma única fé. E somente a fé é capaz de fazer a comunidade superar o medo, a perturbação e criar coragem para enfrentar as adversidades que vêm como consequência da fidelidade ao projeto de Jesus. E a primeira adversidade é a cruz.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga casa, o templo, fora transformada em casa de negócio (Jo 2,16). Por isso, ele faz uma afirmação categórica e bastante firme: «Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós» (v. 2). Essa é uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada do Pai, e nem prometendo reservar lugares para os seus discípulos lá. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas. No templo de pedras, a antiga casa de Deus, havia uma única morada. As pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá, como ensinava a religião. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar a Deus somente em espírito e em verdade (Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Ao invés de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: «E quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós» (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo transportar os discípulos de um lugar para outro, mas conduzi-los a uma nova condição de vida, dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais do que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será a casa do Pai quando nela vigorar a lei do amor e sua aplicação prática, que é o serviço, cuja demonstração ele fez há pouco tempo, com o gesto do lava-pés. Com isso, ele dá um significado novo para a vida presente: essa vida que vivemos agora não é apenas uma espera pela vida definitiva, mas ela já é eterna, pois já se pode experimentar nela a presença do eterno, que é ele mesmo, pois onde se vive como discípulo o Ressuscitado está presente. Portanto, o voltar de Jesus, após sua morte de cruz, ao encontro dos discípulos, significa muito mais do que o seu retorno glorioso no final dos tempos; no contexto do evangelho de hoje, significa sua inseparabilidade da comunidade após a ressurreição. A morte na cruz não tem força de separar Jesus dos seus porque, Ressuscitado, ele estará sempre presente. Por isso, essa sua afirmação expressa um retorno imediato: mediante o Espírito Santo, ele estará sempre presente entre os seus, e a ocasião privilegiada de experimentar essa presença é a comunidade reunida para a partilha do pão.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho, como ele mesmo afirma: «E para onde eu vou, vós conheceis o caminho» (v. 4); esse caminho é a sua própria vida, marcada pelo amor ilimitado e incondicional. No entanto, a incompreensão persiste nos discípulos, dominados pelos ideais messiânicos triunfalistas e incapazes de reconhecer o amor e a doação da vida como os únicos meios para uma relação autêntica com Deus. Com muita sinceridade, Tomé confessa a sua ignorância diante do que está sendo anunciado e vivido por Jesus: «Tomé disse a Jesus: ‘Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?’» (v. 5). De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade. Mas seu questionamento demonstra interesse em aprofundar e conhecer mais Jesus e sua relação com o Pai. Ele via a morte como o fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado já no episódio da reanimação de Lázaro, quando os outros discípulos queriam persuadir Jesus a não se aproximar de Jerusalém, pois já tinha sido ameaçado de morte. Naquela ocasião, Tomé desafiou aos demais discípulos e disse: «Nós iremos para morrer com ele» (Jo 11,16).

O questionamento de Tomé se torna uma oportunidade para Jesus fornecer uma das mais profundas revelações de si: «Jesus respondeu: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim’» (v. 6). Com a declaração “Eu sou” (em grego: Εγώ είμι – egô eimí) Jesus reafirma a sua condição divina, pois essa é a fórmula de revelação do Deus do Êxodo, o Deus libertador (Ex 3,13ss); por sinal, o uso dessa fórmula é muito frequente no Evangelho de João, mas essa é a única vez em que vem seguida de três predicativos: Caminho, Verdade e Vida. Essa é a afirmação em que Jesus mais revela traços da sua identidade. Embora pareça enigmática, essa tríplice predicação é bastante simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve nenhuma regra, não estabelece nenhuma lei e não deixa nenhuma doutrina. Isso gera dúvidas e medo nos discípulos: como se comportar após a partida de Jesus? Quais os parâmetros a seguir? Para simplificar, Jesus diz que ele mesmo é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa. Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus quer dizer que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa. O caminho a ser percorrido pela comunidade cristã é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é a sua própria pessoa e a vida a ser vivida é aquela que Ele viveu e doou em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida. Porém, o evangelista aplica aqui o sentido prático e conhecido dos termos. Quer dizer que, sem Jesus, a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai. Portanto, se auto declarando como Caminho, Verdade e Vida, Jesus diz que é tudo para a comunidade cristã e essa não pode alimentar-se de nada além da sua pessoa.

Na sequência, Jesus reafirma sua unidade com o Pai em tom de advertência e lamento pela falta de perspicácia dos discípulos: «Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes» (v. 7). Num único versículo, o mesmo verbo conhecer aparece três vezes. Não se trata de um conhecimento intelectual, mas de uma experiência de intimidade e amor. O conhecimento de Deus não é fruto do intelecto, mas de uma disposição para amar e ser amado. Jesus está denunciando a falta de amor nos discípulos, até aquele momento. Se ainda não conheciam a Jesus e ao Pai, é porque ainda não estavam amando verdadeiramente, o que se evidencia pela intervenção de Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!» (v. 8). Como se vê, persistia nos discípulos a incompreensão e não aceitação da unidade entre Jesus e o Pai. Isso mostra, mais uma vez, que eles tinham dificuldade de aceitar e assimilar um Deus presente na história e relacionando-se diretamente com o seu povo, e é exatamente esse Deus que Jesus nos revela. Por isso, a resposta a Filipe é uma espécie de desabafo de Jesus, em tom de lamentação e repreensão: «Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai?’» (v. 9). Ora, Filipe foi um dos primeiros discípulos chamados por Jesus (Jo 1,43); certamente, presenciou todos os sinais realizados, mesmo assim não tinha ainda assimilado Jesus como revelador do Pai e, consequentemente, não ainda deixado se humanizar por ele.

Toda a vida de Jesus é revelação de Deus; em tudo o que faz, ele revela o Pai porque os dois vivem uma unidade perfeita: «Não acreditas que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras» (v. 10). Os discípulos devem perceber essa unidade pelo amor incondicional de Jesus, expresso em suas palavras e ações. Como último critério, ou seja, quando a vida de Jesus marcada pelo amor incondicional não for capaz de convencer, que pelo menos considerem as suas obras, os sinais realizados, para reconhecê-lo como Um com o Pai: «Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras» (v. 11). É importante essa recomendação: as obras são o último critério para a fé. O primeiro critério é o amor envolvido e a certeza da vida abundante. A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades cristãs de todos os tempos. É perceptível que o Evangelho de João concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. No Quarto Evangelho, discípulos “secundários” para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, tem um certo protagonismo (Jo 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo: o discípulo amado. Esse detalhe revela um cuidado do evangelista em relação à organização da comunidade e uma precaução com as tendências hierarquizantes. Na comunidade onde reina o amor, todos têm espaço, inclusive para questionar. O que importa é que o amor fraterno seja vivido.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 12). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica em compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (Jo 10,10).

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

  Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua ...