sábado, abril 23, 2016

EU VOS DOU UM ÚNICO MANDAMENTO!

A última ceia no Quarto Evangelho é muito mais que o consumo de alimentos e confraternização. É um momento forte de auto revelação da parte de Jesus. É o momento de apresentação de seu testamento; por isso, este episódio ocupa nada menos que cinco capítulos (13 – 17), totalizando cento e cinquenta e cinco versículos. Para este Quinto Domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece apenas cinco versículos, os quais podem ser considerados como a síntese geral do testamento de Jesus (13,31 – 35).

Podemos dizer que estes poucos versículos são a síntese e o coração do testamento de Jesus porque é aqui que Ele dá o mandamento por excelência, o mandamento do amor (v. 34). Não deixa de ser interessante que os fatos que precedem e sucedem à entrega do amor como mandamento, são bastante negativas para a comunidade: o anúncio da traição de Judas (vv. 21 – 30) e o anúncio da negação de Pedro (vv. 36 – 38). Essa pequena observação, por si só, já é muito significativa: não obstante as traições e negações, a resposta de Jesus não pode ser outra, senão o amor!

A mudança da terceira pessoa (vv. 31-32) para a primeira (vv. 33-35) mostra claramente que o pequeno trecho compreende dois momentos distintos dentro do mesmo episódio. O primeiro versículo (v. 31) estabelece a conexão com a cena anterior, o anúncio da traição de Judas e sua separação da comunidade. Trair Jesus é, logicamente, separar-se da sua comunidade.

Jesus esperou muito que a sua ‘hora’ chegasse no Evangelho de João (cf. 2,4; 7,30; 8,20). Finalmente, ela chegou (cf. 12,22.27; 13,1); é agora, como diz o versículo 31: “Agora foi glorificado o Filho do homem”. A traição de Judas não ofuscara o seu projeto, o qual era o projeto do Pai. Ora, antes da traição, Jesus tinha lavado os pés dos discípulos e recomendado que os mesmos seguissem seu exemplo. Ao cumprir tal gesto, não fez distinção, mesmo sabendo quem o haveria de trair negar. Portanto, tinha feito tudo. Já não havia mais o que esperar. Por isso, chegou, realmente o seu ‘agora’. 

A partir do versículo 33, em primeira pessoa, Jesus dirige-se diretamente aos discípulos, chamando-os carinhosamente de ‘filhinhos’ (tekni,on). É a primeira e única vez em que ele se dirige aos discípulos dessa forma. Teknion é o diminutivo de teknon, ou seja, é filhinho ou filhinha. Nem Maria, sua mãe, lhe tinha chamado dessa forma. Tudo isso evidencia o amor, a atenção e o cuidado dEle para com os seus.

No versículo 34, uma nova nova surpresa! Há dois adjetivos em grego que significam novo: ne,oj e kainoj. Ne,oj quer dizer ‘o mais novo’, ou seja, algo novo que surge entre coisas antigas, sem necessariamente substituí-las. Já kainoj, quer dizer algo absolutamente novo que supera tudo o que havia antes; é o novo que toma o lugar dos demais, aquele que substitui. Os demais deixam de existir, perdem completamente a importância e a razão de ser. E, Jesus usa exatamente kainoj ao referir-se ao novo mandamento. Com isso, ele quer dizer que os outros mandamentos não existem mais! Não há mais uma antiga e uma nova aliança. Há uma única aliança. A antiga não foi apenas superada pela nova; foi completamente abolida.

Uma vez que Jesus quebrou todas as barreiras que separavam a humanidade da divindade, ao chamar seus discípulos de filhinhos, não há mais razão de se pensar na antiga lei. Tudo é novo. Outra grande novidade que surge é a horizontalidade das relações: o novo mandamento nem sequer menciona o nome de Deus. Pede apenas amor ao próximo, segundo uma medida: a medida de Jesus: “Como eu vos amei, assim também deveis amar-vos uns outros”. Jesus não pede nem mesmo amor a si. Apenas coloca seu amor como parâmetro. Cumprir o novo mandamento é amar ao próximo segundo a sua própria medida de amor. No amor ao próximo, consequentemente, estará o amor ao Criador.

‘Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (v. 35). Com essa última afirmação, Jesus exclui a necessidade de qualquer outro distintivo para que alguém seja reconhecido como seu seguidor. Brasões, crucifixos, roupas com imagens estampadas e terços, assim como comida e bebida, não tem importância alguma. Nenhum destes sinais é capaz de caracterizar alguém como cristão. Só o amor, e o amor como o dele mesmo, é suficiente para alguém ser reconhecido como discípulo de Jesus.

A única característica da Sua comunidade é um amor semelhante ao Seu!


Francisco Cornelio Freire Rodrigues

segunda-feira, abril 11, 2016

PEDRO, TU ME AMAS? SIM, SENHOR, EU TE QUERO BEM!

Algumas linhas de reflexão sobre o Evangelho do terceiro domingo da páscoa (10/04/2016):

1. O capítulo 21 do Evangelho de João não pertence a redação original do Evangelho; é um acréscimo posterior; João já tinha encerrado seu evangelho em 20,30-31.


2. A primeira parte (21,1-14), referente à pesca, é uma espécie de parábola sobre a comunidade cristã, já que após os apóstolos receberem o Espírito Santo, eles não voltaram mais à vida de antes, mas viveram somente para o anúncio do Evangelho; logo, não voltaram mais à vida de pescadores;

3. Os versículos de 1-14 querem dizer que os esforços da Igreja são inúteis se não se baseiam no que Jesus ordenou;

4. A comunidade pode até trabalhar pesadamente, mas só faz a pesca verdadeira acontecer quando é o Ressuscitado que recomenda.

5. Eles tinham pescado a noite sem sucesso; Jesus aparece ao amanhecer e recomenda que lancem as redes, e dessa vez a pesca tem êxito: quer dizer que nada na comunidade pode ter êxito se não for à luz do Ressuscitado!

6. Os versículos de 16-19 são o coração da passagem: Jesus pergunta três vezes se Pedro o ama porque quer sanar o remorso e a dívida de Pedro após tê-lo negado três vezes.

7. Na primeira vez Jesus pergunta usando o verbo αγαπαω "agapao", verbo que expressa o amor por excelência; Pedro responde com o verbo φιλεω "filêo", verbo que expressa amizade, querer bem; Em outras palavras, Jesus pergunta se Pedro o ama, e Pedro diz que lhe quer bem. Ou seja, Pedro não estava preparado para corresponder ao amor de Jesus. Eles viviam níveis diferentes de amor.

8. Da segunda pergunta em diante, Jesus passa a usar também o verbo "Filêo", percebendo que o amor supremo é um caminho: o atual querer bem de Pedro pode um dia tornar-se verdadeiro amor!

9. Ao pedir para Pedro cuidar ou apascentar, ele não pede para Pedro governar a Igreja, mas para servir! Apascentar exige cuidado, cuidado pressupõe o querer bem. Logo, a autoridade na Igreja jamais deve sobrepor-se ao serviço.

10. Quando Pedro fica triste, é por causa do remorso da traição. Ele lembra que as três perguntas se referem à triplice negação.

11. O Ressuscitado continua sendo uma pessoa real e concreta, não um ser abstrato; por isso pede que Pedro lhe siga (v. 19); Ele é alguém que continua na história a abrir sempre novos caminhos, caminhos que devem ser observados e seguidos pela Igreja.


Francisco Cornelio Freire Rodrigues

segunda-feira, abril 04, 2016

A propósito de Tomé, protagonista do II Domingo da Páscoa (Jo 20,19-31)



Dois dos discípulos de Jesus foram estereotipados negativamente: Judas como traidor e Tomé como incrédulo. No entanto, uma leitura mais atenta do quarto Evangelho leva-nos a perceber que houve uma injustiça ao dar este rótulo a Tomé. João deixa claro que ele exigiu provas concretas de que o Senhor, realmente, tinha ressuscitado. Porém, nenhum dos discípulos acreditou na ressurreição antes que o Senhor Ressuscitado lhes aparecesse. 

Os dez (os doze menos Tomé e Judas) que estavam reunidos naquele primeiro dia, não tinham acreditado no testemunho de Maria Madalena quando disse "Eu vi o Senhor!" (cf. Jo 20,28b). Eles só acreditaram quando o Senhor apareceu no meio deles.

O detalhe que vai distinguir Tomé dos demais não é a falta de fé, mas a coragem! De fato, Tomé não estava no encontro daquele primeiro dia, quando eles, os dez, estavam reunidos a portas fechadas, com medo dos judeus (cf. Jo 20,19). Ora, se Tomé não estava trancado com medo, é porque estava circulando livremente, sem temor algum. No episódio da ressurreição de Lázaro, quando os riscos da morte de Jesus tinham aumentado bastante, Tomé foi o único que se prontificou a ir a Jerusalém para morrer com e como Jesus (cf. Jo 11,16). Portanto, o único que estava plenamente consciente das conseqüências do seguimento a Jesus. 

Recordemos que nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), sempre que Jesus anuncia a paixão há uma forte resistência nos discípulos, principalmente em Pedro, o qual não pensa apenas em evitar a morte a morte do Mestre, mas por querer salvar a própria pele, uma vez que a sorte do mestre deve ser também a do discípulo. Ao contrário dos demais, Tomé estava pronto para morrer com, como e por Jesus, por isso não quis trancar-se em uma sala por medo.

Diferentemente do modo como foi rotulado, Tomé foi o discípulo questionador e destemido, aquele que tinha senso crítico. Assim como os demais, só acreditou na ressurreição quando viu com os próprios olhos o ressuscitado a sua frente. A diferença é que a sua dúvida se prolongou por uma semana, enquanto os demais tiraram suas conclusões logo no dia mesmo da ressurreição.

Quando reconheceu que, de fato, o Senhor ressuscitou e está vivo, Tomé fez a bela, perfeita e profunda profissão de fé de todos os evangelhos: "Meu Senhor e meu Deus!" (cf. Jo 20,28). Até então, Jesus já tinha sido chamado de Cristo, Messias, Mestre, Senhor, Filho de Deus, Filho do Homem, mas ninguém tinha-lhe chamado de Deus; Tomé foi o primeiro.

Logo, o rótulo de incredulidade não corresponde à sua personalidade. Tomé foi o que mais teve convicção ao reconhecer a identidade divina de Jesus. Seu senso crítico só lhe fez bem. Não acreditou em qualquer conversa; só acreditou quando fez a experiência com o Ressuscitado, por isso acreditou de modo convicto e profundo.

Como eu queria uma fé como a de Tomé! Como os dias atuais precisam de pessoas como ele! Em tempos onde muitas pessoas dizem ter visões ou revelações, nada melhor que um pouco de desconfiança. Tem muita gente dizendo que viu ou escutou mensagens de anjos, de santos e do próprio Deus. Prefiro desconfiar!

Por sinal, o próprio evangelista João nos dá uma sugestão e convida seus leitores a agir como Tomé. Ele que diz que Tomé é Dídimo - Διδυμοσ - uma palavra grega que significa 'gêmeo'. Assim, ele convida seu leitor a ser o irmão gêmeo de Tomé: discípulo fiel, corajoso, atento, questionador, perspicaz e convicto.

Francisco Cornelio Freire Rodrigues