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REFLEXÃO PARA O 9º DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 7,1-10

Certamente o que mais chamará a atenção no Evangelho deste 9º Domingo do Tempo Comum será a cura feita por Jesus. O seu poder curador será super-exaltado, quando, na verdade, não é o centro da mensagem na perspectiva do autor, Lucas.
De fato, o texto proposto, o trecho de Lucas 7,1-10, apresenta a cura de um servo de um centurião romano. O mesmo episódio é relatado também por Mateus 8,5-13, embora a versão de Lucas seja mais rica em detalhes e significado.
O fato ocorreu logo após Ele ter terminado de 'falar para o povo' (v. 1). Ora, essa fala de Jesus, refere-se ao discurso no qual Ele proclamou as bem-aventuranças e as maldições, sendo estas últimas, exclusivas de Lucas, já que Mateus apresenta também as bem-aventuranças e até com mais profundidade em relação a Lucas.
O cenário da cena é a cidade de Cafarnaum, lugar muito importante para o ministério de Jesus. Era uma cidade alfandegária e, obviamente, munida de forte presença militar. Daí, não ser novidade o fato de que 'havia ali um oficial romano' (v. 2). Trata-se de um centurião, um chefe militar responsável por um grupo de cem soldados.
Assim como os cobradores de impostos, geralmente, os militares também não eram bem vistos pelo povo, uma vez que pertenciam ao aparato estatal do império romano e, consequentemente, eram também ele agentes de exploração. Inclusive, em muitos casos os cobradores de impostos pediam proteção aos soldados, quando a população negava-se a pagar as taxas.
Porém, o texto deixa claro que esse centurião específico era diferente dos demais. Não era visto pelo povo judeu como um inimigo, mas como um homem estimado, conforme as referências dadas a Jesus pelos anciãos (vv. 4-5). Suas credenciais o aproximam de um outro centurião também apresentado por Lucas com características muito semelhantes: Cornélio, personagem dos Atos Apóstolos (cf. At 10,1-33), homem temente a Deus e estimado pelo povo judeu, mesmo sendo pagão.
Ainda sobre as qualidades do oficial romano, uma que ainda se sobressai sobre aquelas apresentadas pelos anciãos judeus a Jesus (vv. 4-5) é a sua estima pelo seu escravo doente (v. 2), o qual vem erroneamente chamado de empregado na tradução do texto litúrgico. O texto grego traz o termo δουλος (dulos), cujo significado é escravo ou servo. Para o trabalhador remunerado ou empregado, o termo correspondente na língua grega é εργατης (ergates). Portanto, chama-nos a atenção o fato de um oficial romano querer tanto bem a um escravo, a ponto de preocupar-se bastante com ele, enviando duas comitivas a Jesus: uma de anciãos judeus (v. 3) e outra de amigos (v. 6).
Aos poucos, os motivos da estima do povo judeu pelo oficial, algo raro, vão ficando cada vez mais claros. Sentimentos como carinho (v. 2), generosidade (v. 5) e humildade (v. 6) não eram comuns no imaginário popular judaico para um soldado romano. E, muito menos fé (v. 9).
Porém, Lucas não está fazendo uma apologia ao exército romano com esse episódio. O que ele quer, na verdade, é apresentar o universalismo da mensagem de Jesus e, consequentemente, de sua ação. Ele quer mostrar para suas comunidades que não pode haver distinção entre os destinatários do Evangelho. Não importa se alguém é de origem judaica ou pagã. O que importa é reconhecer o Senhorio de Deus na pessoa de Jesus Cristo, através da fé, acima de tudo.
O soldado romano era o protótipo do rejeitado no mundo judaico. A atitude de Jesus diante dele é um convite à comunidade cristã, a Igreja, a abrir mão de todo e qualquer tipo de preconceito e discriminação. Lucas reforça a sua tese ao mencionar que a fé do oficial deixou Jesus admirado (v. 9). É importante fazer essa observação por que, de acordo com os quatro Evangelhos, é muito raro Jesus se admirar. Somente em duas ocasiões se diz que ele 'ficou admirado': aqui em Lc 7,9 (e no texto paralelo de Mateus 8,10) e em Marcos 6,6, sendo que nesse último, o motivo da admiração é exatamente o contrário do episódio de hoje: é a falta de fé dos judeus, particularmente de seus próprios conterrâneos.
Portanto, o que deixa Jesus admirado é a fé e a falta de fé. Seria bem mais compreensível a fé dos israelitas e a incredulidade dos pagãos. Mas é exatamente o contrário: a fé dos pagãos e a incredulidade dos judeus, o que vai ser uma marca das comunidades de Lucas, segundo sua segunda obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.
Para concluir, retomamos o que afirmamos na introdução: o que mais chamaria a atenção do Evangelho seria a cura do servo. No entanto, para as intenções de Lucas, o mais importante é a acolhida da mensagem de Jesus da parte dos pagãos, como antecipação da trajetória da Igreja primitiva e a certeza de que não é necessário o contato físico para receber ação salvífica de Jesus, pois, nesse caso, Ele curou o servo à distância. Com isso, Lucas combate a presunção de cristãos que vangloriavam-se de ter convivido com o Jesus terreno, sentindo-se superiores àqueles que abraçaram a fé posteriormente.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

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DOMINGO DA ASCENSÃO: LUCAS 24,46-53 (ANO C)

A nossa reflexão não tem como objeto o sentido da solenidade da ascensão em si, mas sim o Evangelho proposto para essa no corrente ano: Lucas 24, 46-53. Obviamente, a reflexão do texto bíblico nos levará a uma compreensão da festa também. Trata-se dos últimos versículos do terceiro Evangelho. É, portanto, a conclusão.

Lucas não escreve o seu Evangelho pensando nesta solenidade e, portanto, não procuremos no mesmo, dados cronológicos exatos que venham comprovar com exatidão a soma dos quarenta dias dias após a ressurreição, como sugere a liturgia. Nem mesmo o dado dos Atos dos Apóstolos, livro também escrito por Lucas, pode fundamentar o número de dias. De fato, Atos 1,3-9, trecho incluído na primeira leitura de hoje, afirma que "durante quarenta dias, apareceu-lhe falando do reino de Deus" (v. 3) e  "Depois de dizer isso Jesus foi levado ao céu à vista deles" (v. 9). Se tomássemos essa afirmação como exata, estaríamos negando outros trechos escritos pelo mesmo autor no Evangelho.

É importante ressaltar que nenhum livro da Bíblia foi escrito para descrever acontecimentos e apresentá-los como dados históricos concretos. A historiografia bíblica preocupa-se com a ação salvífica de Deus na história, e essa não pode ser medida segundo critérios humanos. Como os autores bíblicos eram humanos, logo, tudo nela é aproximativo.

Portanto, a diferença de dados na obra lucana, Evangelho e Atos, não mostra incoerência, mas sim perspectivas diferentes. São simbólicos os quarenta dias de Atos como é simbólico o "terceiro dia" como o dia da ressurreição. Não havia motivos para Jesus passar três dias morto, nem para passar quarenta aparecendo após a ressurreição.

Assim, o dado mais verossímil e que melhor reflete a ressurreição e ascensão é a promessa do paraíso ao malfeitor (erroneamente chamado de bom ladrão) na cruz: "Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,43). O seu grito de morte "Pai, em tuas mãos entrego o meu espirito" (Lc 23,46) confirma mais ainda que, ao morrer, Jesus imediatamente foi para o encontro do Pai no céu, sem esperar três nem quarenta dias. Repetimos, esses números são elementos teológico-catequéticos empregados pelos autores do Novo Testamento para explicar os eventos da Paixão-Morte-Ressurreição de Jesus com embasamento nas Escrituras.

Feitas as considerações, nos concentramos agora no Evangelho de hoje: Lucas 24,46-53. O contexto é o da ressurreição, ou seja, "no primeiro dia da semana" (24,1). É a continuação do célebre episódio dos Discípulos de Emaús. Jesus aparece aos onze e algumas mulheres (24,36), conforme aparecera aos dois no caminho (24,13-35) e refaz a catequese que fizera aos dois no caminho: explica a si mesmo à luz da Escritura (24,27. 43-46).

O versículo 45 diz que Jesus abriu a mente dos discípulos para que compreendessem a Escritura à luz do que estavam contemplando, ou seja, a sua ressurreição. De fato, só alguém com a mente muito aberta poderia conceber e aceitar um Messias que padecesse, mesmo que viesse a ressuscitar (v. 46). Uma vez esclarecidos, começa a missão: anunciar, em seu Nome, a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (v. 48). A primeira missão da Igreja é, portanto, levar a todos os povos a reconciliação, sem distinção.

O começo por Jerusalém é muito significativo. Era em Jerusalém onde estava a sede do poder religioso e, portanto, era para lá que as pessoas iam para receber o perdão de Deus através dos sacrifícios e oferendas rituais no templo. Com essa afirmação, Jesus diz que aquela antiga instituição não funciona. Aquele ritualismo estéril não é capaz de reconciliar o mundo com Deus.

Mais significativo ainda é o fato de ser Jerusalém, com seu aparato religioso e policial, responsável pela sua morte. O perdão e a reconciliação são destinados antes de tudo àqueles que estão em maior débito com Deus, a elite religiosa, responsável direta pela Morte do Messias. E, como o Deus de Jesus, principalmente na perspectiva de Lucas, é substancialmente misericórdia, o perdão é dirigido antes de tudo aos maiores devedores, para depois, chegar a todas as nações.

A promessa do paráclito é reforçada (v. 49), porque dele depende a eficácia da missão recém confiada à comunidade dos discípulos: ser portadora da reconciliação e, portanto, da misericórdia de Deus.

Um dos versículos mais ricos de todo o trecho é, certamente, o 50: "Então, Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os". Com o gesto de levá-los para fora, Lucas evoca o antigo êxodo e o atualiza. É preciso libertá-los definitivamente da antiga mentalidade. Para perto de Betânia significa o início da missão reconciliadora, já que Betânia lembra a amizade pura e desinteressada, amizade vivida por Jesus com a família de Lázaro e suas irmãs Maria e Marta.

Ainda no versículo 49, não menos significativo é o gesto de Jesus abençoar. É a primeira vez que Lucas atribui a Jesus essa função, exatamente no finalzinho do seu Evangelho. Com isso, ele faz uma paralelo com o início do seu Evangelho, por sinal, uma técnica muito utilizada por ele, o paralelismo. Em Lc 1,21-22a se diz que o povo aguardava Zacarias e estranhava que demorasse no Santuário. Quando saiu, não podia falar. Zacarias, então, não podia abençoar. A bênção de Jesus revela a esterilidade do antigo sacerdócio e a fertilidade do novo. O antigo sacerdócio está falido, não tem mais importância alguma, não transmite mais perdão nem bênção. Por isso, é urgente que seja a própria Jerusalém a primeira destinatária da reconciliação, porque é ela que está carente.

A subida de Jesus ao céu coincide com o momento da bênção. Portanto, sua partida deste mundo não é sinal de ausência nem de abandono. Com a bênção Ele confirma que está presente naqueles que a recebem. O gesto de reverência e adoração dos discípulos (v. 52) revela o pleno reconhecimento do senhorio de Jesus. A grande alegria (v. 52) revela a característica principal do discípulo e da discípula de Jesus, já antecipada no início do livro em Maria (1,47), nos pastores e nos anjos (1,8-20), e presente em todo o livro.

Para concluir, podemos dizer que estes poucos versículos (24,46-53) além de marcar a conclusão da missão terrena de Jesus e inaugurar a missão da Igreja, a qual será apresentada de modo mais amplo e claro no segundo volume da obra lucana, o livro dos Atos dos Apóstolos, são a conclusão e síntese do Evangelho, bem como a recapitulação de elementos importantes pré-anunciados no início do Evangelho: a alegria do discipulado (1,28;47 = 24,52), o Espírito Santo como força indispensável na missão (1,35 = 24,49).

Assim como Lucas abriu seu Evangelho no templo, com a esterilidade de Zacarias e Isabel, encerra também no templo. Porém, não mais na carência de bênção nem na infertilidade, mas no vigor e ardor dos discípulos, convictos da missão e, felizes!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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6º DOMINGO DA PÁSCOA

Com o Evangelho deste sexto domingo da páscoa (Jo 14,23-29), continuamos a contemplar Jesus com seus discípulos na última ceia, segundo o evangelista João. É o ápice do ensinamento de Jesus aos seus, quando lhes dá o seu testamento, o qual apresenta o amor como palavra-chave.

Antes de nos determos ao texto proposto, é indispensável recordar o versículo que o precede (v. 22): “Judas – não o Iscariotes – perguntou-lhe: Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo? ”. Portanto, o que Jesus diz a partir do versículo 23 é a sua resposta à pergunta de Judas.

Jesus continuava o testamento e falava exatamente da sua identidade com o Pai. Antes, tinha falado da identidade do discípulo com Ele mesmo, apresentando o amor como o instrumento único de medida. Assim, a pergunta de Judas (não o traidor!) revela o medo e a fraqueza da comunidade dos discípulos: se ele questiona porque Jesus se revela somente a eles e não ao mundo, é porque não se sente capaz de amar à maneira de Jesus, como exigia o novo mandamento, a ponto de ele mesmo é ser revelação de Jesus ao mundo.

Ora, Jesus se revela aos discípulos esperando que estes dêem, perante o mundo, um testemunho capaz de tornar conhecido o seu próprio amor (cf. Jo 13,35). Em outras palavras, Jesus quer que o mundo o reconheça pelo testemunho dos seus discípulos. É pela vivência do seu amor pelos discípulos que Jesus quer se tornar conhecido.

Jesus responde ao discípulo dizendo que Ele e o Pai se revelam naquele que o ama, e quem o ama guarda a sua palavra (v. 23). A sua palavra, aqui, é o seu mandamento, aquele do amor (cf. Jo 13,35). Assim, não apenas Ele, mas também o Pai se manifestará, porque os dois, Jesus e o Pai, vem fazer morada no discípulo (v. 23).

Os discípulos queriam manifestações extraordinárias, coisas mirabolantes e espetaculares, como milagres e curas. A resposta de Jesus mostra a distância que há entre a sua proposta e a expectativa dos discípulos. Seu canal de manifestação é apenas o amor. Quem ama de verdade se torna morada de Jesus e do Pai.

Percebendo a incompreensão e incapacidade dos discípulos viverem verdadeiramente o amor, Jesus assegura-lhes que sua partida do meio deles não significa ausência. Continuará presente junto com o Pai naqueles que guardarem sua palavra (v. 23). Assim como ele está sendo acusado pelo mundo (condenado), por ter amado verdadeiramente, também seus discípulos serão, caso amem como ele mandou.

Por isso mesmo, ele enviará o Espírito Santo com a função de advogado:  para + klhtoj = paracletoj. Somente João usa essa palavra. Trata-se de uma palavra grega composta: para (junto a) +  klhtoj (chamado), cujo significado literal é “chamado a estar junto”.  Como Jesus está sendo processado, seus discípulos também serão e, por isso, necessitarão de alguém perto para defendê-los das acusações. Este será o Espírito Santo, o qual os instruirá e os recordará constantemente (v. 26), sobretudo quando estes esquecerem o essencial: o amor.

Jesus se despede desejando-lhes a paz (v. 27). Trata-se de uma saudação comum entre os judeus. Tanto se desejava paz ao chegar quanto ao sair. Era uma forma de comprimento. Mas, Ele não quer apenas repetir uma formula. Na verdade Ele amplia enriquece seu signficado, dando um novo sentido. Por isso, Ele não a dá como o mundo. Com essa expressão, Ele faz uma dupla crítica: aos judeus e aos romanos. A crítica aos judeus consiste em tornar a paz uma realidade capaz de superar as perturbações do coração e o medo (v. 27), e não um mero formalismo. Aos romanos ele dirige uma crítica irônica, uma vez que no seu tempo vigorava a famosa ‘pax romana’, uma farsa do império para ofuscar qualquer movimento libertador.


A paz de Jesus é única! Não há uma ‘paz’ para saída e outra para chegada, mas uma paz permanente, porque Ele vai para o Pai (v. 28), mas permanece junto com o Pai naqueles que guardam suas palavras, ou seja, naqueles que amam!


Francisco Cornelio Freire Rodrigues
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