sábado, agosto 27, 2016

REFLEXÃO PARA O XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 14,1.7-14 (ANO C)

Continuamos a acompanhar Jesus em seu longo caminho para Jerusalém. Nesse caminho, o evangelista Lucas nos mostra muitas ‘paradas’, como se fossem estações, nas quais prevalece o ensinamento à ação de caminhar. Trata-se mais de um itinerário teológico-catequético que uma distância percorrida. O texto de hoje, Lc 14,1.1-7, apresenta Jesus em uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus. Por sinal, essa é a terceira vez que Lucas o apresenta comendo na casa de um fariseu (cf. 7,36; 11,37; 14,1). Esse dado é importante porque nos ajuda a reformular a imagem distorcida de que Jesus e os fariseus eram inimigos.

É verdade que sempre há muitas discórdias nesses encontros, mas o fato de eles convidarem Jesus para comer em suas casas é sinal de que havia uma certa estima e curiosidade. E, por outro lado, o fato de Jesus aceitar tais convites mostra que, de fato, não fazia distinção de pessoas: comia com os pecadores e publicanos, para o murmúrio dos próprios fariseus (cf. Lc 5,30), e também aceitava o convite dos partidários desse grupo religioso tão observante e zeloso para com os preceitos da Lei.

Jesus aceitava convite de todos. O que não combinava com Ele era o isolamento, o fechamento egoísta e solitário. É inegável que o encontro de Jesus com os fariseus sempre terminava em conflito. Havia, sem dúvidas, uma forte oposição entre a mensagem libertadora de Jesus e a mentalidade conservadora e legalista dos fariseus. Mas, pelo menos segundo Lucas, eles conseguiam conviver.

Como afirma logo o primeiro versículo, “Num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus” (v. 1a). Essa é uma informação muito importante para a compreensão de todo o texto, porque nos dá as indicações de tempo (dia de sábado) e de espaço (casa de um fariseu). Esses dados são indicativos de que vem confusão pela frente! A refeição tinha um sentido muito forte para o povo judeu. Nos dias de sábado, após o culto matinal na sinagoga, as famílias almoçavam festivamente; a comida tinha sido preparada na véspera, a sexta-feira, o “dia da preparação”, como eles chamavam, uma vez que nenhum trabalho poderia ser feito no sábado, dia de culto e repouso.

Nos povoados, os judeus mais influentes costumavam oferecer verdadeiros banquetes, convidando com frequência o pregador daquele dia na sinagoga, de modo que o almoço fosse uma extensão do culto. Assim, à mesa se discutia o assunto da pregação, tirando as dúvidas suscitadas. Isso nos faz supor que, naquele sábado, Jesus pregou na sinagoga e após o culto, recebeu o convite para uma refeição na casa de um chefe dos fariseus, alguém importante do lugar. Como a fama de Jesus já tinha se espalhado bastante, os primeiros interessados em conferir o teor de sua mensagem eram os fariseus, verdadeiros guardiães da sã doutrina na época.

A continuação do versículo diz que “os fariseus observavam Jesus” (v. 1b). Essa é também uma informação de grande importância, porque mostra qual era a intenção deles ao convidarem Jesus: observar cuidadosamente seus gestos e palavras e o acusarem de blasfemo e transgressor da Lei de Deus, uma vez que a interpretação de Jesus lhes contradizia. Podemos dizer que havia uma dupla malícia: os fariseus convidavam Jesus para observá-lo e depois acusá-lo, e Jesus aceitava tais convites para desmascará-los, muito mais que para degustar da fartura do banquete. Infelizmente, o texto litúrgico nos priva de conhecer a origem da controvérsia, ao omitir o trecho que vai do segundo ao sexto versículo: a cura de um hidrópico em dia de sábado (vv. 2-6). Foi aí que o conflito teve início.

Considerando aquilo que o texto litúrgico propõe, percebemos que Jesus também os observava com muita atenção. E dessa observação, Ele fez duas importantes advertências, muito duras, por sinal: aos convidados (vv. 7-11), e ao dono da casa (vv. 12-15). Destas advertências a pessoas específicas, surge um ensinamento universal, direcionado, inicialmente, aos discípulos, mas estendido aos cristãos de todos os tempos: o cultivo da humildade e da gratuidade nas relações, ou seja, um estilo de vida baseado em novos critérios, em discordância com os valores defendidos pelas tradições ultrapassadas, como o judaísmo oficial da época.

Ao advertir os convidados (vv. 7-11), Jesus recorre à tradição sapiencial e constrói uma pequena parábola, baseada em uma citação do livros dos Provérbios: “Não te vanglories na frente do rei, nem ocupes o lugar dos grandes; pois é melhor que te digam: ‘Sobe aqui!’ do que seres humilhado na frente de um nobre” (Pr 25,6-7). Tendo notado que os convidados escolhiam os primeiros lugares, foi muito oportuna a chamada de atenção. A princípio, parece um convite à esperteza: como lograr de sucesso na frente dos demais ao ser promovido, passando do último para o primeiro lugar (v. 10). Era essa a mentalidade do autor sapiencial. Mas, Jesus usou o texto de Provérbios apenas como ilustração. O que, de fato, Ele quer apresentar é a dinâmica do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, prevenir seus discípulos para não imitarem o comportamento dos fariseus. Por isso mesmo, Ele continuará essa observação em outras ocasiões: na parábola do fariseu e o publicano (cf. Lc 18,9-14) e, já em Jerusalém, no discurso contra os escribas (cf. Lc 20,45-47). Portanto, o contexto é o da formação dos discípulos.

Ora, a busca pelos primeiros lugares, característica do grupo dos fariseus, não pode fazer parte do discipulado de Jesus. A atitude do cristão deve ser sempre a do serviço, e quem serve não pensa nos lugares de honra. Certamente, esse texto reflete também a preocupação de Lucas com a uma tendência hierarquizante na Igreja primitiva. O banquete dos fariseus é, aqui, apresentado como o anti-modelo do banquete cristão, o qual deve prefigurar o banquete do Reino. Assim, renunciar aos lugares de destaque é, mais que humildade, um gesto de amor. É dar espaço para o outro, optando por uma modelo de sociedade alternativa, renunciando a qualquer indício de concorrência e egoísmo. É uma atitude inclusiva, como será desenvolvido na sequência do texto.

Assim, a segunda advertência completa a primeira: “dirigindo-se a quem o tinha convidado” (v. 12a). Tendo “observado como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (v. 7a), Ele percebeu também as características destes convidados, e os critérios usados pelo dono da casa para convidá-los. Estava muito clara a política da retribuição naquele ambiente. Aqui, Ele retoma o discurso das bem-aventuranças: “fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca” (cf. Lc 6,35). Esse conselho dado ao dono da casa é completamente contrário aos costumes da época. Trata-se de algo revolucionário. O convite à gratuidade nas relações é, aqui, apenas um dos ricos significados desse trecho. Fazer o bem sem esperar recompensa é, de fato, uma atitude necessária para a comunidade dos discípulos. Mas a proposta apresentada aqui vai muito além disso!

Há um forte apelo a uma revolução social, ao conceber as novas relações, além de um convite para uma luta da qual nenhum cristão pode fugir: a superação de todas as formas de exclusão e marginalização. Ele observou, naquele ambiente, quatro categorias de convidados: “amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos” (v. 12), e todas com capacidade de retribuir. Para reverter essa situação, Ele propõe outros critérios, sendo o primeiro a impossibilidade de retribuição. Por isso, sugere também quatro categorias: “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (v. 13). Para aquele fariseu, isso foi apenas sugestão. Para os cristãos, isso é compromisso e condição: não há cristianismo sem luta pela inclusão. É interessante observar a fórmula “quatro por quatro”: tirar os privilégios de quatro grupos específicos, e incluir quatro grupos que representam todas as categorias de excluídos, inclusive da vida religiosa, uma vez que os aleijados, os coxos e os cegos nem entrar no templo podiam. Assim, o projeto do Reino, anunciado já no cântico de Maria, prevendo a ascensão dos humildes e a queda dos poderosos (cf. Lc 1,52), vai ficando cada vez mais claro. Não podemos deixar de perceber aqui uma antecipação da Eucaristia e seu sentido mais profundo: banquete para todos, motivado por amor-doação, sem exclusão alguma.

Na conclusão, novamente Ele retoma o tema das bem-aventuranças, completando-o: “Tu serás feliz!” (v. 14a). Já tendo dito que “Felizes são os pobres porque deles é o Reino de Deus” (cf. Lc 6,20), agora Ele diz que é feliz também quem fica do lado dos pobres. Essa conclusão tem um significado muito relevante para a teologia de Lucas: além de bem-aventurado, o pobre é também fonte de bem-aventurança, portanto, um lugar teológico privilegiado.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

domingo, agosto 21, 2016

REFLEXÃO PARA A ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (LUCAS 1,39-56)

Neste domingo em que celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia nos oferece um dos textos mais lidos de todo o Novo Testamento, sobretudo nas tradições católicas: Lucas 1,39-56. Concentraremos nossa reflexão unicamente no Evangelho, embora seja oportuno fazer uma leitura de conjunto com os outros textos que a liturgia oferece para esse dia, bem como uma contextualização histórica do dogma proclamado pelo papa Pio XII em 1950. Porém, mais uma vez reiteramos que nos concentraremos apenas no texto evangélico de Lucas.

O texto apresenta a visitação de Maria à sua parenta Isabel, contemplando o famoso cântico ‘Magnificat’ como ápice e conclusão do encontro das duas mulheres, ambas contempladas de modo especial pelo olhar misericordioso de Deus, o qual olha para a “humildade de seus servos e servas” (v. 48). É importante lembrar que o contexto geral do episódio do encontro entre as duas mulheres é o da dupla anunciação: do nascimento de Jesus a Maria (cf. 1,26-38) e de João a Zacarias (cf. Lc 1,5-25), dentro do chamado ‘Evangelho da Infância’, episódio exclusivo da narrativa de Lucas.

Após a retirada do anjo de perto dela (cf. Lc 1,38), tendo ficado embaraçada com o anúncio (cf. Lc 1,29), Maria tomou a firme decisão de ir visitar sua parenta, certamente com o propósito de conferir a veracidade do anúncio feito pelo anjo: “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice, e este é o sexto mês para aquela que a chamavam de estéril” (cf. Lc 1,36). Realmente, a gravidez de uma mulher estéril e anciã seria tão surpreendente quanto a de uma jovem sem relação com homem. Por isso, Maria não pensou duas vezes e “partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia” (v. 39). Muito tem se discutido a respeito da finalidade dessa partida tão apressada. As interpretações mais populares e devocionais atribuem essa partida à vontade de Maria de servir, de ajudar à sua parenta. Porém, em momento algum o texto afirma isso, nem mesmo dá indícios.

O anjo afirmou a Maria que Isabel, sua parenta, já estava no sexto mês de gravidez, e logo que o anjo a deixou, imediatamente, Maria partiu com pressa para a casa de Isabel. Ora, diz o texto que Maria permaneceu três meses na casa da parenta e retornou para casa. Logo, Maria esperou até o nono mês da gravidez de Isabel exatamente para comprovar a informação dada pelo anjo. Tendo retornado após três meses, fica claro que seu propósito não era o serviço, uma vez que é exatamente após o parto que a mulher mais necessita de cuidados e ajuda. E, Maria voltou para casa antes do parto. Se o objetivo da viagem fosse o serviço à parenta, ela teria permanecido com a mesma após o parto.

Portanto, podemos concluir, sem dificuldade, que Maria pôs-se a caminho para a casa de Isabel com o intuito de comprovar a veracidade do anúncio da parte do anjo. Como uma mulher atenta e perspicaz, sensível aos sinais dos tempos, ela fez bem em conferir esse fato. Isso apenas comprova que era uma mulher prudente, de fé sólida. Além disso, o texto revela, de modo antecipado, muitos aspectos da teologia tratada por Lucas ao longo de toda a sua obra (Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos). É típico de Lucas, o movimento. O constante partir de um lugar para outro é um traço característico do Evangelho de Lucas, principalmente da parte de Jesus com os discípulos. Essa partida imediata de Maria faz dela um modelo de discípula e, ao mesmo tempo, inaugura o primeiro movimento de Jesus: ainda no ventre, Ele já estava inquieto e pronto a romper qualquer situação de estabilidade e tranquilidade, mesmo enfrentando adversidades e perigos, como Maria enfrentou ao partir sozinha para uma região montanhosa e de difícil acesso.

O fato de Maria não ter ido à casa de Isabel para servi-la não diminui o seu papel e o seu valor. Antes de tudo, merece atenção e reverência a sua coragem e determinação de partir sozinha e apressada para uma região distante, percorrendo caminhos difíceis e perigosos. Para uma mulher, isso era praticamente inadmissível, e ela, com muita audácia o fez, rompendo muitas barreiras, antecipando o papel da Igreja, da qual ela é modelo: romper barreiras, colocar-se em estado constante de saída, independente do perigo a ser enfrentado. Um dos fatos narrados pelo texto que atestam a coragem de Maria, além de empreender uma viagem perigosa sozinha, é a sua atitude ao chegar ao destino: “Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel” (v. 40). Muito mais que cumprimentar, o verbo saudar é mais compatível com a língua original e o contexto. A expressão hebraica para a saudação é desejar a paz. Ao enviar os discípulos em missão, Jesus ordenou que eles desejassem a paz em cada casa que entrassem (cf. Lc 10,5). Aqui, mais uma vez, Maria antecipa a atitude de cada discípulo e discípula: ser portador (a) da paz! Como mulher inovadora e corajosa, ela ignora a tradição patriarcal e saúda a mulher em lugar do homem (v. 40). Assim, ela provoca uma verdadeira revolução e inversão de valores nas relações sociais, como aprofundará no seu hino, o Magnificat. Na sociedade do seu tempo, o primeiro a receber a saudação era o dono da casa. Saudando primeiro a mulher, ela afirma que um tempo novo está surgindo, com novas relações e uma nova ordem.

A saudação de Maria irradia paz no ambiente, a ponto de fazer até mesmo a criança, ainda no ventre, agitar-se (v. 41a). Isso porque Isabel fica “cheia do Espírito Santo” (v. 41b). Trata-se do mesmo Espírito prometido pelo anjo a Maria no momento do anúncio: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (cf. Lc 1,35a). Como força vital, o Espírito Santo é luz irradiante e interpelante, que pode ser sentido quando transmitido por pessoas cheias dele, como Maria. A atitude de Isabel não poderia ser outra, senão exclamar, gritando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! ” (v. 42). É a palavra profética que nela se atualiza. Sabendo que Maria carregava dentro de si o Messias, isso fazia dela a mais ‘bendita’ entre todas as mulheres. Assim, Isabel torna-se a primeira a proclamar ‘bem-aventuranças’ no Evangelho. Ora, gerar filhos na mentalidade judaica, era sinal de bem-aventurança e bênção; uma confirmação de que se tinha Deus a seu favor. Logo, gerar o Messias seria prova de uma dignidade inigualável.

Tendo composto seu Evangelho com muita atenção para a escritura hebraica, o Antigo Testamento, Lucas procura atualizá-lo no ‘evento Cristo’. Assim, na continuação da exclamação de Isabel, o evangelista desenha Maria como a nova ‘Arca da Aliança’. Como sabemos, na arca da aliança eram guardadas as tábuas da lei, sinal máximo da presença de Deus no meio do seu povo. Com a exclamação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? ” (v. 43), Lucas relembra e atualiza as palavras de Davi quando estava para receber a Arca em sua casa: “Como virá a Arca de Iahweh para minha casa?” (2 Sm 6,9). Portanto, Lucas percebe em Maria a arca da nova aliança, não mais baseada na lei, e sim no amor e na acolhida. Davi exclamou com medo (cf. 2 Sm 6,10), enquanto Isabel exclamou de alegria.

E, mais uma vez, Maria é reconhecida como bem-aventurada: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45). Além de exaltar as qualidades de Maria, as palavras de Isabel são também uma repreensão ao seu esposo Zacarias, o qual, ao contrário de Maria, não acreditou no anúncio do anjo (cf. Lc 1,20), por isso ficou mudo até que o menino nascesse. Isabel combate a incredulidade do marido, por sinal um sacerdote, e reforça a sua fé renovada pela presença de Maria, como ela confessou: “Será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45b).

Provavelmente tímida com tantos elogios da parte da sua parenta, Maria a interrompe e, exultando de alegria, expressa seu louvor a Deus com o hino conhecido como Magnificat (vv. 46-54). É o primeiro dos hinos que Lucas apresenta em seu Evangelho. Trata-se de uma composição que sintetiza todo o Antigo Testamento. Lucas faz uma construção nova com pedras antigas, pois o texto é um verdadeiro mosaico de citações do Antigo Testamento. A estrutura geral é tomada do cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10), o que se explica pela analogia das duas situações. Se Isabel estava maravilhada por contemplar grandes coisas (vv. 42-45), Maria lhe ajuda a compreender melhor tal situação, convidando-lhe a olhar para a história e perceber que, na verdade, esse Deus de Israel nunca esqueceu o seu povo, sempre fez grandes coisas em seu favor e, portanto, é a Ele que o louvor deve ser dirigido. Tudo o que está acontecendo é dom de Deus.

Maria personifica todo o Israel e resume os grandes feitos de Deus na história, destacando, sobretudo, a sua predileção pelos pobres, humildes e humilhados. Quando reconhece que “o Todo-Poderoso fez e faz grandes coisas” (v. 49), ao mesmo tempo se afirma que não há outros poderosos, exatamente porque devem ser derrubados de seus falsos tronos (v. 52). É o início do cumprimento das antigas promessas, agora sob a responsabilidade de Jesus e a comunidade dos discípulos, da qual Maria é modelo. A versão das bem-aventuranças e maldições é também aqui antecipada: “Encheu de bens os famintos” (v. 53a) antecipa as bem-aventuranças dirigidas aos pobres (cf. Lc 6,20-21); “Despediu os ricos de mãos vazias” (v. 53b) antecipa as maldições dirigidas aos ricos (cf. Lc 6,24-25). É, sem dúvidas, a síntese da oração de Israel que deverá ser continuada pela comunidade dos discípulos, a Igreja.

A conclusão do texto reafirma a imagem de Maria como nova arca da aliança: “Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa” (v. 56). Uma expressão muito parecida aparece em 2Sm 6,11: “A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom e a toda a sua família”. A presença de Maria na casa de Isabel foi, com certeza, a confirmação da bênção de Deus sobre ela, seu esposo Zacarias e o filho esperado, João Batista. Na arca da nova aliança não há tábuas da lei, não há norma nem preceito, há apenas Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com a humanidade.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, agosto 13, 2016

REFLEXÃO PARA O XX DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 12,49-53 (ANO C)

O Evangelho deste XX Domingo do Tempo Comum – Lucas 12,49-53 – nos apresenta algumas das mais difíceis e duras palavras de Jesus. São palavras que refletem a tensão existente na comunidade dos discípulos, e que não deixam de causar tensão e perplexidade também nos nossos dias. Não podemos esquecer o contexto do caminho do mestre com seus seguidores para Jerusalém. À medida que caminhavam, as exigências para o seu seguimento iam ficando cada mais claras e radicais. Por isso, decisões importantes deveriam ser tomadas, e os discípulos de Jesus poderiam dizer sim ou não, menos optar pela neutralidade.

O Reino não podia mais esperar. Era necessário e urgente que os discípulos fizessem uma opção radical. Por isso, Jesus usa uma linguagem forte e interpelante, carregada de simbolismos e até de paradoxos. Partindo da imagem do fogo, Ele praticamente obriga a comunidade a fazer a sua escolha e torna-la clara, sem meios termos.

A primeira frase já é bastante assustadora: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra” (v. 49a). Aqui, Ele usa uma palavra muito frequente em toda a Bíblia: fogo. Essa palavra aparece 378 vezes no Antigo Testamento e 71 vezes no Novo. É empregada com diversos significados, de modo que fica difícil, à primeira vista, precisar o sentido aplicado por Jesus aqui. Lucas já havia citado o fogo em outras duas ocasiões anteriores: quando João Batista anunciou que Jesus batizaria com o Espírito Santo e o fogo (cf. Lc 3,16ss), e quando os discípulos Tiago e João quiseram destruir um povoado dos samaritanos com o fogo (cf. Lc 9,53).

Essa é, portanto, a terceira vez que Lucas usa essa imagem. Certamente, o sentido aqui empregado não é o mesmo das duas ocasiões anteriores. Diferente do sentido empregado por João Batista, porque aqui Ele não está se apresentando como alguém que vai batizar, mas que vai receber um batismo (v. 50). Diferente também do sentido literal empregado por João e Tiago, porque o próprio Jesus os repreendeu, opondo-se radicalmente a qualquer forma de violência (cf. Lc 9,53). Aqui, não se trata de um fogo de aniquilamento, nem de purificação. É um sentido completamente novo e diferente em relação às formas mais frequentes do uso dessa imagem em toda a Bíblia.

Na verdade, a imagem do fogo aqui, apenas antecipa o que será dito nos versículos seguintes (vv. 52 e 53). Ele até lamenta que esse fogo ainda não esteja aceso: “E como gostaria que esse fogo já estivesse aceso” (v. 49). Ele veio ao mundo para revelar o rosto misericordioso do Pai e construir o seu Reino. Como seria bom se o povo tivesse escutado o apelo dos profetas, antecipando-se assim, às exigências do Reino! Ele sentiu que o fogo ainda não estava acesso porque as pessoas ainda não tinham optado radicalmente pelo Reino e, portanto, as coisas ainda estavam tranquilas, o mundo ainda carecia de transformação.

A imagem do fogo aqui, significa, portanto, as divisões e contradições causadas pelo advento do Reino de Deus. Jesus, sendo acolhido por uns e rejeitado por outros, será sinal de contradição e divisão, como afirmara o velho Simeão em sua profecia sobre Jesus (cf. Lc 2,33-34). Tirará o mundo da aparente tranquilidade, já que o empenho dos que optarem por ele, será elemento de desestabilização das estruturas. Todos os sistemas alicerçados na injustiça, na opressão e na ganância, sejam eles religiosos ou políticos, serão desmascarados pelos que optarem pelo Reino. Enfim, será um verdadeiro incêndio na terra. Jesus desejou que esse fogo ‘já estivesse aceso’ porque percebeu as injustiças gritantes do seu tempo.

Jesus reconhece que, à medida que vai tornando clara a sua mensagem, vai despertando a ira dos poderosos. Por isso, tinha plena consciência de que seus dias estavam contados. A incompatibilidade entre os valores do Reino e as estruturas do seu tempo era evidente. Quanto a isso, Ele não tinha medo nem escondia, tanto que deixou muito claro: “Devo receber um batismo e como estou ansioso até que isso se cumpra!” (v. 50). A tradução mais correta para esse versículo seria: “Tenho um batismo para ser batizado, e como me angustio até que esteja consumado! ”. O batismo aqui não significa o sacramento cristão nem o rito de purificação judaico, mas a sua morte. É interessante resgatar o sentido literal de batismo: em grego βαπτισμος (baptismos), significa uma imersão na qual se desaparece, afogar-se; mergulhar em uma água que arrasta. É claro que Ele se refere à sua própria morte que se aproximava cada vez mais, à medida que Ele ia anunciando o Reino. E isso o deixava angustiado, não ansioso como diz a tradução do texto litúrgico. A sua angústia se deve ao fato de que o tempo estava passando e sua mensagem não era absorvida, não era bem compreendida pelos seus seguidores. A demora dos discípulos em assumir uma posição radical e urgente o deixava angustiado. Ele temia morrer sem ser compreendido pelos seus. Era esse o motivo da angústia.

A sequência do texto parece ser ainda mais desconcertante. Se recordamos como Lucas inicia e como termina o seu evangelho, podemos até acusá-lo de contraditório, considerando o texto de hoje. Logo no início, o coro angelical anuncia uma paz universal como fruto do nascimento de Jesus: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens que ele ama!” (cf. Lc 2,14). Na conclusão do Evangelho, o Ressuscitado oferece a sua paz como primeiro dom e fruto da ressurreição, encorajando a comunidade amedrontada pelos últimos acontecimentos: “A paz esteja convosco!” (cf. Lc 24,37). Além dessas, são muitas as outras referências à paz no evangelho de Lucas. Portanto, é impossível não nos surpreendermos com essa passagem.

Com certeza, uma das coisas que seus discípulos menos esperavam ouvir de sua própria boca era que Ele não veio trazer a paz, e sim a divisão! (v. 51). O mundo no seu tempo vivia uma falsa paz. Era o tempo da famosa “pax romana”, política imperial de Roma para a contenção de conflitos. Trata-se de uma paz completamente falsa. Em nome da ordem social, eram proibidas todas as formas de manifestação e protesto. Todos eram obrigados a aceitar as determinações do império em nome da ordem e dos bons costumes. Havia um verdadeiro controle interno, graças ao autoritarismo. Devia-se aceitar todas as imposições do império, sem nenhuma reação. Era a isso que chamavam paz. E claro, se paz era isso, Jesus dizia não à paz! A essa falsa paz, Ele se opôs radicalmente.

Ora, Jesus veio para instaurar o Reino de Deus em um mundo inimigo desse Reino. Mantendo as coisas como estavam, o Reino não poderia ser instaurado. Por isso, Ele veio exatamente para desagregar, causar divisão (v. 51). Manter aquela ordem seria opor-se ao Reino. A proposta do Reino exige uma nova sociedade, um novo jeito de conceber as coisas, novas relações. Por isso Ele encontrou resistências por que, de fato, não era e nem é fácil. Deve-se passar para uma nova lógica, uma nova mentalidade. Sair do comodismo, de toda ideia falsa de bem-estar e tranquilidade. Impossível não desagregar quando se propõe isso.

Jesus não queria enganar ninguém, por isso falou claro: sua proposta de vida causaria confusão logo nas famílias (vv. 52-53). Quem aceitasse participar da construção do Reino encontraria oposição até mesmo na própria casa. Isso Ele ilustra com a imagem do rompimento das relações familiares: “pai contra filho, filho contra o pai, mãe contra filha e filha contra mãe” (v. 53). Aqui Ele usa o profeta Miquéias como pano de fundo: “Porque o filho insulta o pai, a filha levanta-se contra sua mãe, a nora contra a sua sogra, os inimigos do homem são as pessoas da sua casa” (Mq 7,6). Essa situação de conflito geral, explica bem o fogo que Ele trouxe.

Ainda sobre essa imagem da família dividida, podemos perceber uma descrição profética das novas relações entre a comunidade cristã e as antigas instituições: filho contra pai, pai contra filho; mãe contra filha, filha contra mãe; porém ele não fala de irmãos contra irmãos. A sua comunidade é uma ‘casa de irmãos’ e entre esses não pode haver divisão. Aqui podem estar representadas as relações tensas entre a igreja nascente e a sinagoga. A oposição entre pai e filho, simbolicamente, é entre o velho e o novo. Dois mundos em conflito: o cristianismo e o judaísmo. O cristianismo é o novo, o filho que se opõe ao fechamento do pai, o velho. É apenas uma relação, mas muito significativa. Os cristãos devem entrar em conflito com as instituições antigas e fechadas, mas jamais entre eles mesmos, pois são todos irmãos.

Quem optar pelo Reino, será sinal de contradição diante de um sistema injusto e desigual. Por isso, as divisões ocorrem em todos os âmbitos, até mesmo na família. Seguir Jesus é absorver novos valores e viver a partir deles. É estar disposto à incompreensão. É ter um coração ardente de desejo por mudança!


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues 

sábado, agosto 06, 2016

REFLEXÃO PARA O XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 12,32-48 (ANO C)

O texto evangélico que a liturgia deste XIX Domingo nos oferece, continua a nos situar no caminho de Jesus para Jerusalém e, portanto, nos impele a refletir na condição de discípulos e discípulas, uma vez que esse caminho é uma profunda catequese para o ontem e o hoje da Igreja. Trata-se do programa formativo de Jesus para o seu discipulado. Diversos temas são tratados nesse contexto, ambos conexos entre si.

O texto de hoje, Lc 12,32-48, apresenta o tema da vigilância e da responsabilidade, como exigências para a comunidade herdeira do Reino, a qual é chamada ao encorajamento diante das dificuldades enfrentadas ao longo do “caminho”. Podemos dizer que esse caminho, aqui, é a própria história no seu desenrolar-se. Ou seja, o que Jesus ensinou aos seus discípulos, continua válido para os cristãos e cristãs de todos os tempos e lugares.

Para uma melhor compreensão, uma vez que é bastante longo, podemos dividir o texto em duas partes: uma introdutiva (vv. 32-34), e uma segunda, composta de três pequenas parábolas (vv. 35-48) que visam apenas ilustrar com imagens o tema apresentado na introdução. Trata-se de um texto longo, mas bastante compreensível, desde que esteja claro o seu contexto, que é o caminho formativo da comunidade.

O primeiro versículo é a grande chave de leitura para todo o texto: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o reino” (v. 32). O pedido de encorajamento (v. 32a) é sinal de que a proposta de Jesus não é de fácil assimilação. As exigências e responsabilidades para segui-lo são muitas, por isso havia tendência à desistência entre os discípulos. À medida que caminhava com seus discípulos e discípulas, pois havia também mulheres no grupo (cf. Lc 8,1-3), aumentavam as hostilidades ao projeto revolucionário de Jesus, principalmente da parte da hierarquia religiosa judaica, responsável pelo confronto final em Jerusalém . Aumentavam também os conflitos internos no grupo, tanto por rivalidade entre os discípulos, quanto por medo e desilusão com as exigências que só aumentavam. Começavam a perceber que Jesus não apresentava nenhum traço do messias ideal, esperado há séculos. Ao invés de messias triunfante, como esperavam os judeus, Jesus parecia um louco fracassado, fadado a terminar sozinho. Por isso, Ele insistia pedindo coragem e perseverança.

Precisavam de muita coragem e perseverança, exatamente porque se tratava de um “pequenino rebanho” (v. 32b), praticamente invisível e sem importância diante das grandes estruturas religiosa e política da época: o judaísmo oficial e o império romano, respectivamente. Paradoxalmente, o pequeno rebanho tem um grande valor, pois “foi do agrado do Pai dar-lhes o reino” (v. 32b). Realmente, trata-se de algo maravilhoso e até surpreendente, mas inconcebível para as pretensões triunfalistas vigentes naquele tempo. O reino proposto por Jesus, confiado pelo Pai à pequena comunidade, não contém os elementos esperados, tais como poder, riqueza, vaidade, concorrência, grandeza e tantos outros. A proposta de Jesus contempla uma verdadeira inversão de valores e, certamente, a comunidade dos discípulos não estava ainda pronta para absolver essa virada radical. Por isso, a insistência de Jesus ao pedir coragem e perseverança.

Na sequência do texto (v. 33), são apresentadas algumas das exigências para continuar ou não como membros do “pequeno rebanho”: “vendei vossos bens e dai esmola” (v. 33a). Com certeza, no grupo dos discípulos ainda havia alguns fazendo média com Jesus, aderindo pela metade, ou seja, aparentemente despojados, mas com algumas reservas escondidas, como Ananias e Safira nos Atos dos Apóstolos (cf. At 5,1-11). Percebendo isso, Jesus pede um desprendimento total. Parece que a parábola do rico insensato, refletida no domingo passado (cf. Lc 12,13-21) , ainda não fora suficiente para esclarecer aos discípulos sobre a incompatibilidade entre o apego aos bens materiais e os valores do Reino. Não basta vender os bens, é necessário aplicar bem o valor destes para que realmente, um tesouro seja adquirido. Mas, como? Partilhando, dando aos pobres. Alguns vendiam e ficavam para si com parte dos valores, como já citamos o caso de Ananias e Safira.

A continuação do versículo mostra o que deve ser o alvo do discípulo: possuir “um tesouro no céu” (v. 33b), ou seja, buscar coisas que não se acabam, mas que permanecem para toda a vida. Os discípulos ainda não tinham assimilado o ensinamento do homem rico da parábola (cf. 12,13-21), ou seja, não tinham compreendido a necessidade de que é necessário perder aos olhos do mundo, para ganhar aos olhos de Deus. Jesus pede para os discípulos buscarem o que é eterno, o que realmente tem valor no Reino que o Pai lhes confiou. E esse é um tema muito caro para Lucas (cf. Lc 11,41; 16,9; 19,8).

A conclusão da primeira parte é feita com um provérbio: “onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (v. 34). Vale a pena recordar a importância do uso da imagem do “tesouro” na Bíblia. O primeiro sentido é a reunião de coisas preciosas acumuladas para serem conservadas como sinal de segurança, por isso, deveria ficar escondido, pois se revelado, logo seria alvo de cobiça e estaria sujeito a assaltos. Como significa algo muito precioso, o termo passou a ser usado como imagem de realidades espirituais, em contraposição a bens materiais, principalmente na literatura sapiencial (cf. Pr 2,4; Sb 7,14; Eclo 1,25). Assim, independentemente do valor, cada judeu tinha um tesouro, porque tinha algo central em sua vida. Jesus se apropria desse uso para ilustrar a sua descrição do Reino de Deus em diversas ocasiões, como no texto de hoje. Como o coração para a mentalidade hebraica significava o pensamento e a consciência do homem, portanto, o centro da vida, Jesus quer dizer que é para o tesouro que a vida do homem se volta. Por isso, exige que seus discípulos acumulem tesouro apenas no céu, pois é para lá que devem estar direcionadas as suas vidas. Daí o sentido do provérbio por Ele usado.

Continuando sua catequese, Jesus apresenta três pequenas parábolas com o intuito de reforçar o ensinamento proposto. Se durante a sua presença física, Ele já via sinais de desânimo entre os discípulos, muito mais seria quando já não estivesse mais fisicamente entre eles. Por isso, as parábolas insistem no tema da vigilância e da responsabilidade, sendo, ao mesmo tempo uma chamada de atenção nos discípulos e uma crítica à hierarquia religiosa judaica.

A primeira parábola apresenta a imagem de um senhor que viaja para uma festa e deixa tudo aos cuidados dos seus servos (vv. 35-38). É introduzida com um imperativo: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas” (v. 35). Parece uma imagem sem sentido para os dias atuais, mas muito significativa no seu contexto. É a imagem de que está em atitude de serviço. A vestimenta básica da época era a túnica; essa não facilitava o serviço, pois atrapalhava o movimento.

A expressão “os rins cingidos”, significa a túnica levantada até a cintura, posição dos rins, presa ao cinto. Com isso, facilitava-se o movimento. Era assim que ficavam enquanto trabalhavam ou viajavam. Jesus pede uma postura vigilante, mas ao mesmo tempo serviçal; seus discípulos devem vigiar sim, eis o sentido das “lâmpadas acesas”; mas, enquanto vigiam colocam-se em prontidão para o serviço. Foi  “cingido” que Jesus lavou os pés dos discípulos na última ceia (cf. Jo 13,4-5). Também os hebreus celebraram a primeira páscoa assim: “E comereis assim: com a cintura cingida, as sandálias nos pés” (cf. Ex 12,11a). Há uma clara intenção da parte de Lucas de incentivar a comunidade a manter-se constantemente em clima pascal. Isso se confirma pela continuação da parábola, na qual se diz que quando o senhor voltar da festa fará os servos sentarem-se à mesa, e os servirá (v. 37). Uma atitude surpreendente para quem é senhor. Somente Jesus, sendo senhor, fez-se servo (cf. Lc 22,27).

A segunda parábola (vv. 39 e 40) apenas reforça a necessidade da vigilância, através da imagem do ladrão que não avisa a hora do assalto, mas procura exatamente surpreender o dono da casa. É necessário que a comunidade não seja surpreendida.

A terceira parábola (vv. 42-48) é uma resposta implícita à pergunta de Pedro: “Senhor, tu contas essa parábola para nós ou para todos? ” (v. 41). Está claro que os discípulos não eram os únicos ouvintes de Jesus no momento. Essa pergunta reflete o medo da responsabilidade que afligia os discípulos. De fato, para um rebanho tão pequeno, era muita responsabilidade herdar o reino e assumir suas consequências. Jesus não responde diretamente, mas com a parábola (vv. 42-48). Nessa Ele faz uma crítica explícita à hierarquia religiosa judaica, acusada de relaxamento e mau exemplo desde os tempos do profeta Ezequiel, através da imagem dos “maus pastores” (cf. Ez 34,1-10), e ao mesmo tempo alerta a comunidade dos discípulos a perseverar como guardiã do Reino. O uso do termo administrador no singular -  oivkono,moj (oikónomos) em grego, exclusivo de Lucas – contrapõe-se aos homens da primeira parábola, no plural. Portanto, provocado pela pergunta de Pedro, e percebendo sua insegurança, Jesus direciona o ensinamento para os discípulos. É deles que serão feitas exigências maiores, exatamente porque a eles foi confiado o Reino. Claro que essas exigências se estendem aos discípulos e discípulas de todos os tempos.

Percebemos, então, com o longo texto evangélico de hoje, o convite de Jesus à comunidade-Igreja para abraçar com humildade (pequeno rebanho, v. 32) a responsabilidade de herdeira do Reino, tendo a missão de fazer esse Reino crescer. Toda a comunidade é convidada a empenhar-se nesse projeto, pois ela toda é herdeira. Porém, há uma exigência maior para aqueles que assumem responsabilidades maiores. Para isso, é necessária a vigilância constante. E para Jesus, a verdadeira vigilância consiste no serviço ao próximo.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues