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sábado, agosto 29, 2026

REFLEXÃO PARA O 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 16,21-27 (ANO A)


O evangelho oferecido pela liturgia deste vigésimo segundo domingo do tempo comum é Mt 16,21-27. Esse texto é a continuação imediata daquele que fora lido no domingo passado – Mt 16,13-20 – marcado pela solene confissão de Pedro, como porta-voz de todos os discípulos, reconhecendo Jesus como “Messias, o Filho do Deus vivo”. Convém recordar que Pedro chegou a esse reconhecimento por revelação do Pai, e não por esforço nem capacidade pessoais, como recordou Jesus, ao declará-lo bem-aventurado (Mt 16,17). Apesar de correta do ponto de vista formal, a confissão de Pedro sobre a identidade messiânica de Jesus não estava carregada de equívocos; tanto é, que o próprio Jesus ordenou que os discípulos não contassem a ninguém que ele era o messias (Mt 16,20). Ora, Jesus conhecia bem a mentalidade dos seus discípulos e, portanto, sabia que tipo de messias eles esperavam, segundo as expectativas e tradições de Israel: um messias triunfalista e guerreiro, justiceiro, valente e vencedor, que fosse a Jerusalém para assumir o poder por meio da força e, assim, restaurar o antigo reino davídico-salomônico. Diante disso, Jesus tratou imediatamente de esclarecê-los sobre a verdadeira natureza de sua messianidade, anunciando o que lhe aguardava em Jerusalém e reforçando as exigências indispensáveis para o seu discipulado, como mostra o texto de hoje: o primeiro anúncio da paixão (v. 21) e as condições para alguém tornar-se seu discípulo ou discípula (vv. 24-26), intercalados por um diálogo conflituoso com Pedro (vv. 22-23), e uma conclusão de caráter escatológico e sapiencial (v. 27).

Podemos dizer que o episódio de Cesareia de Filipe foi um divisor de águas na vida de Jesus, incluindo a sua maneira de se relacionar com os discípulos, influenciando o seu jeito de pregar e no próprio conteúdo da pregação. Daquele momento em diante, ele começou a falar com mais clareza sobre o seu real destino e a natureza da sua messianidade, uma vez que os discípulos continuavam apegados às concepções tradicionais de poder, sonhando com prestígio, sucesso pessoal e o triunfo nacionalista. É isso o que indica o evangelho de hoje, logo no primeiro versículo, cujo texto original começa com uma importante indicação temporal, infelizmente substituída na tradução do lecionário pela genérica expressão “naquele tempo”. A indicação temporal omitida pela liturgia poderia ser traduzida como «a partir daquele momento» ou «daquele momento em diante» (em grego: Ἀπὸ τότε – apó tóte), o que indica claramente tratar-se do início de uma nova fase na vida de Jesus. Por isso, daquele momento em diante, «Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (v. 21). Fica claro, portanto, que esse texto abre uma nova fase no ministério de Jesus e na dinâmica narrativa do Evangelho de Mateus, o único que traz a indicação temporal recordada acima, embora o conjunto do texto esteja presente nos outros dois sinóticos.

Até então, Jesus já havia ensinado bastante sobre o Reino dos céus, seja por meio de discursos e parábolas seja mediante gestos de humanização e libertação, como os milagres de curas, exorcismos e até de domínio sobre a natureza. Com isso, ele mostrava as características do Reino e sua dinâmica. Agora, é chegado o momento de esclarecer quais são as consequências concretas na vida de quem «busca em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6,33), como ele mesmo. E a busca pelo Reino exige que se façam opções radicais, tomadas de posições que geram consequências. Assim, o que ele começou a mostrar aos discípulos, do episódio de Cesareia de Filipe em diante, foi exatamente essas consequências. Fazer opção pelo Reino é, antes de tudo, sentir indignação, inconformismo e resistência às forças que impedem a concretização desse Reino. E os principais entraves para a instauração desse Reino eram, além da mentalidade equivocada dos discípulos, o aparato religioso de Israel e a dominação romana, na época. Como era em Jerusalém que a estrutura religiosa de Israel estava sediada, institucionalmente, era para lá que Jesus devia ir. Sua ida era inevitável, e ele preparou seus discípulos para isso. Inclusive, os evangelhos sinóticos mostram três anúncios da paixão, dos quais lemos hoje o primeiro. Jesus sabia antecipadamente o que aconteceria e quem seriam seus algozes principais: «os anciãos, os sumos sacerdotes e os mestres da Lei», a elite religiosa de Jerusalém, que também exercia poder político. Jesus não sabia disso por possuir conhecimento de coisas misteriosas e futuras, nem por predestinação, mas pela consciência de que seu projeto colidia com os interesses dessa elite.

Jesus Sabia que sua morte seria o desfecho de um confronto entre dois projetos bem distintos: o Reino de Deus, enquanto projeto de humanização e libertação do ser humano em plenitude, marcado pela justiça, acolhida, misericórdia e amor, de um lado, e, do outro, a instituição político-religiosa com seus dogmas, sua lei, seus preceitos excludentes, suas práticas segregadoras e a violência. O confronto era inevitável. Como centro de poder e, portanto, de exploração, Jerusalém e sua elite eram conhecidas por «matar profetas» (Mt 23,37; Lc 13,34). Inevitavelmente, Jesus seria o próximo. No entanto, as elites se enganam ao imaginar que matando Jesus poriam fim ao projeto do Reino. A confiança de Jesus no Pai ultrapassa todos os limites da existência humana. Ele reconhece que vai morrer, sim, mas irá ressuscitar ao terceiro dia. A certeza da ressurreição era fruto de uma íntima e profunda confiança no Pai, confiança essa ainda não experimentada pelos discípulos, como a sequência do texto mostrará. A ressurreição é certeza somente para quem confia verdadeiramente no Pai, o Deus Vivo. A expressão «no terceiro dia», na linguagem bíblica, não é um dado cronológico, mas teológico; indica o agir de Deus; significa uma intervenção de Deus na história. Na ressurreição, Deus agirá de modo admirável e novo.

Mais uma vez, a reação dos discípulos às palavras de Jesus é encabeçada por Pedro, porta-voz da comunidade: «Então Pedro, tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não te permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!’» (v. 22). A atitude de Pedro é de oposição total ao que Jesus tinha acabado de dizer. Ora, contagiados pela ideologia nacionalista, os discípulos não aceitavam o messianismo “às avessas” de Jesus. De fato, Jesus se apresentou como um messias ao revés de tudo o que se esperava em Israel. Com essa atitude, Pedro e todo o grupo, pois é em nome do grupo que ele age e fala, jogam por terra toda uma caminhada de discipulado. É como se ele revogasse a belíssima confissão proferida pouco tempo antes (Mt 16,13-20). O verbo repreender (em grego: ἐπιτιμάω – epítimao) significa condenar por um erro, reprovar bruscamente; fazendo isso, Pedro nega a sua condição de discípulo. É uma atitude arrogante e arbitrária, totalmente incompatível com o que Jesus tinha ensinado até então. Pedro sabia que, inevitavelmente, o caminho do discípulo é o mesmo do mestre. Assim, se Jesus morresse pelo Reino, ele e os demais discípulos também poderiam morrer. Por isso, ele tenta tirar essa ideia de Jesus. E essa tem sido uma das grandes tentações do cristianismo institucional ao longo da história: desconsiderar a força das palavras de Jesus e seus impactos na vida de cada um e na sociedade, e até instrumentalizá-las e distorcê-las em benefício próprio. Convicto de seguir o messias glorioso, Pedro não aceita de modo algum a ideia de um messias sofredor.

Jesus logo percebe a ideia infeliz de Pedro e, com muita sinceridade, chama-lhe a atenção, reprovando totalmente a sua atitude: «Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens» (v. 23). Aqui, o texto litúrgico apresenta um grande equívoco: Jesus não manda Pedro ir para longe, mas para atrás de si, ou seja, voltar ao lugar de discípulo. O evangelista usa aqui a mesma expressão empregada no momento do chamado primeiro: “vinde atrás de mim” (Mt 4,19), ou seja, o imperativo “segui-me” (em grego: ὀπίσω μου – opísso mu); inclusive, é a mesma expressão que vai empregar no versículo seguinte, ao expor as condições para o discipulado (v. 24). Portanto, Jesus não afasta Pedro, mas o convida a colocar-se em seu devido lugar: no seguimento, ou seja, atrás de si. Quer dizer, Jesus ordena que Pedro assuma a condição para a qual foi chamado: ser discípulo. De fato, na comunidade cristã, todos os membros não podem passar de discípulos, porque todos são seguidores de um único mestre, que é Jesus, e filhos de um único Pai, que é Deus (Mt 23,8-12). Logo, todos são irmãos e irmãs na comunidade e devem igualmente seguir Jesus e viver à sua maneira, com todos os riscos que seu modo de viver comporta. O discípulo não propõe, mas acolhe o que o mestre indica. Pedro é chamado de Satanás porque, na verdade, satanás não é uma pessoa em si ou um ser específico, mas é uma atitude ou postura; trata-se de uma imagem bíblica que significa obstáculo, adversário. Logo, tudo o que impede a realização do Reino é o papel e a atitude de satanás. E esse papel de satanás é, muitas vezes, assumido pelos de dentro, ou seja, por quem se apresenta como seguidor, integrando numericamente a comunidade do discipulado, mas não se abre aos desígnios do Pai.

Pouco tempo antes, após ter confessado a sua fé, Pedro tinha sido proclamado bem-aventurado pela sua sintonia com o Pai (Mt 16,17); agora, ele é duramente repreendido por trocar os pensamentos do Pai pelas coisas dos homens e gerenciar sua vida a partir dessas coisas, que eram os seus próprios interesses pessoais. As coisas do Pai, às quais Jesus se refere, são: a fé, a solidariedade, o serviço, a justiça e o amor; as coisas dos homens são o medo, o egoísmo, a ambição e a sede de poder e dominação. Esse paradoxo não poderia passar despercebido por Jesus. Por isso, de pedra da construção, Pedro passa a ser pedra de tropeço (em grego: σκάνδαλον – escândalon), ou seja, escândalo para a comunidade. E essa mudança ocorre num pequeno intervalo de tempo, por isso é necessário manter aceso o espírito de vigilância para que o Evangelho seja plenamente vivido. É importante estarmos atentos a essa situação: a edificação do Reino é confiada à comunidade cristã, a Igreja. Essa, tanto pode construí-lo, quanto impedir a sua construção e até provocar a destruição. A construção depende da fidelidade a Jesus, da capacidade de doação da vida, o que requer renúncias e perdas. É importante notar que, para Jesus e a lógica do Evangelho, escândalo não é a transgressão de regras morais, mas sim a omissão, a falta de convicção e de capacidade de doar a própria vida em prol do Reino de Deus. Em outras palavras, escândalo é a falta de amor e justiça, é o fechamento ao projeto humanizante e libertador de Jesus.

Ao perceber o recuo de Pedro, Jesus sente a necessidade de reforçar a sua catequese aos discípulos e de falar com cada vez mais clareza, como temos recordado. É claro que ninguém tem obrigação de segui-lo, pois o seguimento é livre e opcional. Inclusive, os evangelhos mostram pessoas que até se oferecem para seguir Jesus e depois recuam, ao tomar conhecimento das exigências, como o jovem rico (Mt 19,16-30), Judas com a traição e o próprio Pedro com as negações, embora volte atrás e de novo se coloque como discípulo. A quem opta pelo seguimento, são feitas exigências bastante radicais, que devem ser aceitas com fidelidade, e isso Jesus deixa muito claro: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (v. 24). Como se vê, o seguimento é livre, não é imposto; só segue Jesus quem de fato o quer. E, a quem quer, as exigências são indispensáveis. Com essa afirmação, ele chama a atenção dos discípulos para a seriedade do seguimento. A primeira exigência não é um convite à negação de si nem à resignação, mas a rejeição de todo e qualquer projeto egoísta e individualista de realização. Renunciar a si mesmo é assumir um projeto coletivo, cujo centro de interesse será sempre o bem do próximo. Significa uma superação de si, dos próprios interesses. É ter consciência dos desafios inerentes ao seguimento de Jesus e, mesmo assim, abraçá-los. É o que estava faltando a Pedro naquele momento, ao trocar os pensamentos de Deus pelas coisas dos homens.

O convite a carregar a cruz é a certeza de que o projeto de Jesus é incompatível com a ordem vigente. É importante ressaltar que não é Jesus quem oferece a cruz. A cruz é consequência do seu seguimento fiel. Jesus convida o discípulo a assumir corajosamente uma atitude de repulsa ao domínio religioso e imperial vigentes, marcados pela exploração, pela injustiça e pela violência. A cruz na vida do discípulo, portanto, é sinal e prova de que tal atitude foi assumida com seriedade. Tudo isso, claro, considerando que a cruz não era um adorno sacro, como foi adotado posteriormente, mas um sinal de morte, de rebeldia, de inconformismo e humilhação, já que era a pena reservada àquele que era considerado pior na sociedade, ou seja, aos rebeldes que ameaçavam a ordem vigente e, por isso, “mereciam” uma pena humilhante e exemplar. Logo, é completamente equivocado transformar a cruz em sinal de resignação passiva, como tanto se tem feito. A exigência de carregar a cruz é sempre um convite à coragem, à subversão, e não à aceitação das injustiças oficialmente cometidas pelas classes detentoras de poder. Sem essas disposições, vive-se uma religião de fachada, se faz teatro, mas não há seguimento de Jesus.

O autêntico seguimento de Jesus é desafiador porque exige uma lógica completamente nova no modo de conceber a vida, a religião e o próprio Deus. Por isso, seus discípulos ainda não tinham compreendido. Eles estavam seguindo-o como Messias, mas segundo o messianismo tradicional, ou seja, esperavam que Jesus fosse um messias glorioso, potente e guerreiro que, eliminando o poder romano, imporia o seu poder, restaurando o reino davídico-salomônico para impor-se sobre outros povos. Jesus, pelo contrário, propunha o Reino do seu Pai, um reino sem dominador nem dominados, mas um reino de servidores, iguais em dignidade e amor. Abraçar esse projeto ousado de Jesus é ver o mundo com outros olhos. O jogo de palavras perda/ganho empregado por Jesus, em estilo sapiencial, significa a passagem de uma mentalidade individualista para uma concepção comunitária de sociedade e de mundo (vv. 25-26). Mais que salvar sua vida, o cristão autêntico pensa na instauração do Reino. Somente no Reino de Deus a vida pode ser vivida em sua plenitude e dignidade e, portanto, tentar vivê-la fora desse projeto é perdê-la, simplesmente. Vale lembrar que o Reino de Deus não é uma vida no além, mas a vida presente com sentido e dignidade plena.

O versículo conclusivo, de traços escatológicos, é um alerta sobre o próprio seguimento. A lógica retributiva proposta (v. 27) tem como critério a opção pelos pequeninos e marginalizados, conforme demonstrará o próprio Evangelho de Mateus, no final (Mt 25,31-46). “A conduta” esperada em cada pessoa é a disposição para o autêntico seguimento de Jesus com todas as consequências que esse seguimento implica, incluindo a capacidade de carregar a cruz, não como mero simbolismo, mas como disposição para lutar por um mundo novo, com inclusão, tolerância, respeito, fraternidade e opção clara por aqueles e aquelas por quem Jesus mesmo fez opção.

 Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, agosto 22, 2026

REFLEXÃO PARA O 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 16,13-20 (ANO A)


Após uma pausa para a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a liturgia deste vigésimo primeiro domingo do tempo comum retoma a leitura semicontínua do Evangelho de Mateus, como é próprio do ciclo litúrgico A. O texto proposto para este dia – Mt 16,13-20 – é muito rico e significativo, pois contém o relato do clássico episódio de Cesareia de Filipe, cujo ápice é a confissão de fé de Pedro, que reconhece e proclama Jesus como o Cristo, ou seja, o Messias. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (Mt 16,13-20; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), sendo que a versão de Mateus apresenta mais elementos próprios, como veremos no decorrer da reflexão. E foi exatamente por causa dos seus elementos próprios que o texto de Mateus foi mais valorizado, ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo de tradição católica romana. Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. Convém recordar que esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (Mt 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (Mt 16,21-23; 17,22). Na verdade, pode-se dizer que esses acontecimentos são consequência do episódio narrado no evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza dessa.

Recordamos acima o que sucede ao texto no conjunto do evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: houve uma controvérsia de Jesus com os fariseus, que lhe pediram um sinal do céu (Mt 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo fermento dos fariseus e saduceus (Mt 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam. Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, síntese do programa de Jesus, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade. Todos esses elementos introdutórios recordados, em nível de contexto, confirmam que o episódio narrado no evangelho de hoje constitui um verdadeiro divisor de águas no ministério de Jesus e, consequentemente, na vida dos seus primeiros discípulos.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: «Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?’» (v. 13). Como se vê, o texto começa com um indicativo espacial. Cesareia de Filipe estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica (homenagem a César), era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização. Ora, longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos da influência do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. O distanciamento físico, portanto, é sinal do distanciamento da ideologia que Jerusalém representa. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus se torna um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos Céus, e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova e a continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial. Portanto, pode-se dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas tradicionais do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano. Isso torna a confissão de Pedro um ato extremamente subversivo.

A expressão “Filho do Homem” ao invés do pronome pessoal “eu” é a primeira particularidade de Mateus em relação às versões de Marcos e Lucas deste episódio. Porém, o sentido aqui é o mesmo. A pergunta de Jesus sobre o que diziam a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Àquela altura da sua vida pública, ele já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que ele realizava. Foi como consequência disso que ele fez a pergunta: «Que dizem os homens ser o Filho do Homem?» (v. 13b). E a resposta dada pelos discípulos revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava diante do povo; certamente, o povo simples, com quem ele interagia e por quem lutava. Eis a resposta: «alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas» (v. 14). A menção a Jeremias entre os personagens com os quais o povo identificava Jesus é outra exclusividade de Mateus. Marcos e Lucas nomeiam apenas João Batista e Elias. O acréscimo de Mateus é significativo, pois Jeremias foi o profeta mais “parecido” com Jesus, em relação ao estilo de vida, o teor da pregação e a perseguição sofrida.

A resposta mostra o quanto Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. Mas ele era e é muito mais. Logo, trata-se de uma resposta incompleta. Ora, embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. E a comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado, pois isso a impede de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Apesar de importante, a pergunta de Jesus sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, o que ele queria saber mesmo era o que os seus discípulos pensavam de si, qual imagem tinham a seu respeito. Por isso, lhes perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que «Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo’» (v. 16). Certamente, os outros discípulos também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade, da qual Pedro se faz porta-voz.

A resposta de Pedro é complexa e profunda. Ele confessa que Jesus é «o Messias, o Filho do Deus vivo». A tradução litúrgica traz a palavra “Messias”, no entanto, é mais apropriado o termo “Cristo”, conforme o texto na língua original (em grego: Χριστός – Christós). É muito significativo que Jesus seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: «o Filho do Deus vivo». Além de definir a qualidade da messianidade de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade. Por sinal, a expressão «Filho do Deus vivo», na resposta de Pedro, é outra exclusividade de Mateus. Em Marcos, a resposta é apenas «Tu és o Cristo!» (Mc 8,29), e em Lucas é «Tu és o Cristo de Deus» (Lc 9,20). Logo, a resposta em Mateus é mais profunda e completa, sendo também mais universalista. Ora, o título “Cristo” (ou Messias) correspondia às mais profundas expectativas do judaísmo, bastante enraizado na comunidade de Mateus, o que seria um incentivo à preservação da ideologia nacionalista.

Com a expressão «o Filho do Deus vivo», o evangelista ensina que a messianidade de Jesus não corresponde às expectativas de Israel; trata-se de um Messias diferente, que não veio apenas para Israel, mas para a inteira humanidade. Assim, a resposta de Pedro compromete a(s) comunidade(s) cristã(s), em todos os tempos e lugares, a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo, é o Filho do Deus vivo, ou seja, o seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus oferecido pelo templo de Jerusalém eram privados de vida, eram agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído que era explorado diariamente. Portanto, a convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas religiosos e políticos que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.

Jesus aprovou a resposta de Pedro, por isso o proclamou bem-aventurado: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu» (v. 17).  De agora em diante, até o versículo 19, o texto passa a ser exclusivo de Mateus. O paralelismo com Marcos e Lucas só volta no versículo 20. Considerando que Mateus teve Marcos como fonte para este episódio, os versículos 17-19 são um acréscimo da sua comunidade como resposta a necessidades concretas, sobretudo em relação à diferenciação da comunidade com a sinagoga. A bem-aventurança dirigida a Pedro não é um elogio por um mérito particular, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz, então, é uma constatação: parece que as coisas começam a funcionar bem na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; e como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (Mt 11,21), e Pedro estava falando a partir do que o Pai lhe revelou, logo ele estava demonstrando adesão plena ao projeto do Reino, inserindo-se no mundo dos pequeninos! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição de pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro, portanto, consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por ela.

Na continuidade, Jesus declara: «Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (v. 18a). Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade – a Igreja –, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica, que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas, pessoas de fé. E Pedro foi uma destas pedras escolhidas por Jesus, a primeira, sem dúvida. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável à fé que Pedro tinha acabado de professar. É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: (Πέτρος) “Petros” e (πέτρα) “petra”. Embora muito próximas, é possível distingui-las: “Petros”, que foi transformada no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Jesus diz que Pedro (petros) é uma pedra-tijolo da construção, e a pedra-rocha (petra) é a fé que ele professou, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada.

A proclamação de Jesus como Cristo e Filho de Deus é a base da comunidade cristã, a Igreja. Por sinal, essa é a primeira vez que aparece a palavra igreja (em grego: ἐκκλησία – ekklesia) no Evangelho de Mateus, o único que a emprega, e somente duas vezes (Mt 16,18; 18,17); o significado da palavra é assembleia convocada, reunião, comunidade. Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que havia na região de Cesaréia de Filipe, construídos sobre pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, ele declara: «e o poder do inferno nunca poderá vencê-la» (v. 18b). Aqui, ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a instauração do Reino aqui na terra, razão da sua existência. O “poder do inferno”, portanto, significa as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso. Essas forças retardam a concretização do Reino, mas não impedirão a sua realização. Para superá-las, é imprescindível uma fé viva e comprometida, como a fé de Pedro e de tantos outros irmãos que doaram a vida pelo Reino.

No último versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: «Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (v. 19). Mais do que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer. No judaísmo, a imagem das “chaves” correspondia à capacidade de interpretação e aplicação da Lei pelos rabinos e escribas. Inclusive, o próprio Jesus vai denunciá-los por terem “fechado” o Reino dos Céus: «Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam!» (Mt 23,13). As chaves confiadas a Pedro e a toda a comunidade, portanto, são para abrir o Reino a todas as pessoas, a começar pelas marginalizadas e sofridas, os pobres, as vítimas das mais variadas formas de exclusão. Portanto, Mateus não emprega a imagem das chaves como símbolo de uma instituição nem como conferimento de um poder, mas como sinal de uma nova relação com Deus, baseada na comunhão e na verdade. A antiga religião tinha bloqueado, escondido o rosto desse Deus, mas Jesus dá a chave de acesso a ele: a vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), que são a síntese de toda a sua mensagem. Logo, a função de “ligar e desligar” representa a responsabilidade da comunidade e a necessidade de comunhão, e não propriamente um poder instituído. Inclusive, no discurso sobre a comunidade, essa mesma função será atribuída a toda a comunidade (Mt 18,18). Isso exige profunda fidelidade da Igreja para viver em profunda comunhão com Jesus e o Pai, para que tudo o que ela venha a realizar e viver seja referendado por eles.

O último versículo apresenta uma proibição de Jesus aos discípulos: «Jesus, então, ordenou aos discípulos que eles não dissessem a ninguém que Ele era o Messias» (v. 20). A princípio, parece uma contradição, uma vez que a comunidade tem a missão de anunciar Jesus e sua boa nova. Ora, Jesus conhecia muito bem os seus discípulos e suas fragilidades. Essa confissão de Pedro já foi um grande passo, mas sabia que ainda continuavam vulneráveis e aquela fé não se manteria tão sólida com o passar do tempo, como o próprio Evangelho vai mostrar na sua sequência. Espalhar que Jesus era o Messias seria muito arriscado para a continuidade do seu projeto, pois a ideia de Messias que circulava na época era completamente diferente do tipo de messianismo que estava revelando. Certamente, muitos mal-entendidos surgiriam. Essa ordem para que os discípulos não contassem a ninguém que ele era o Messias reforça na comunidade a necessidade de que cada um tem de fazer uma experiência autêntica com Ele, seguindo cada passo da sua vida para, de fato, perceber a especificidade do seu messianismo e da sua vida: servir e amar, até dar a própria vida.

Se a comunidade/Igreja viver fielmente o Evangelho, sintetizado nas bem-aventuranças, que são as chaves de leitura de toda a obra de Mateus, e de acesso ao Reino, não resta dúvida de que Jesus e o Pai confirmarão as suas decisões e pleitos lá nos céus. Por isso, é importante manter-se em comunhão perene com Jesus, aberta aos apelos do Espírito Santo e aos sinais dos tempos, como os meios privilegiados por meio dos quais Deus revela a sua vontade ao longo da história. A confissão de Pedro foi fruto de sua abertura à vontade de Deus, como deve abrir-se também a comunidade em todos os tempos. É essa abertura, sinal de comunhão, que possibilita a confirmação nos céus daquilo que se faz e se vive na terra.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, maio 03, 2025

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 21,1-19 (ANO C)

 



A partir do terceiro domingo da Páscoa, a liturgia passa a empregar um texto evangélico específico para cada ano, conforme o ciclo litúrgico vigente, ao contrário do que ocorre no primeiro e no segundo domingo, quando se lê o mesmo texto todos os anos. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico C, o evangelho proposto no terceiro domingo é Jo 21,1-19, texto que descreve a terceira e última manifestação do Ressuscitado aos seus discípulos, conforme a dinâmica narrativa do Quarto Evangelho. Nele, a ênfase recai sobre a “pesca milagrosa” e o diálogo franco e sincero de Jesus com Pedro. Inicialmente, este capítulo 21 não fazia parte do Evangelho de João; foi acrescentado posteriormente, devido às necessidades das comunidades destinatárias. A redação original do Evangelho foi concluída em Jo 20,30-31, conforme lemos no domingo passado: «Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome». Como o Quarto Evangelho já tinha um prólogo (Jo 1,1-18), os líderes da(s) comunidade(s) joanina(s) entenderam que poderiam acrescentar um epílogo – o capítulo 21 – sem trair as intenções e nem as características do evangelista, mas até enriquecendo.

Dos diversos motivos que contribuíram para o acréscimo do capítulo 21 ao Evangelho de João, podemos destacar os seguintes: 1) a reabilitação de Pedro; é inegável que após a contestação no lava-pés (Jo 13,6-10) e a negação durante o processo de Jesus (Jo 18,15-27), Pedro ficou abalado psicologicamente, com grande remorso, e teve sua imagem comprometida nas comunidades; 2) se na conclusão original o evangelista afirmara que Jesus tinha realizado “muitos outros sinais” além daqueles descritos até então, é de se imaginar que as comunidades tenham perguntado algo sobre os sinais não narrados, e até pedido exemplos; logo, a “pesca milagrosa” deste capítulo responde a essa indagação; 3) as duas aparições do Ressuscitado narradas no capítulo 20 (conteúdo do evangelho do domingo passado – Jo 20,19-21), aconteceram no domingo, quando a comunidade estava reunida em um lugar fechado; posteriormente, também deve ter surgido dúvidas se o Ressuscitado não estaria presente também nos outros dias da semana e nas atividades cotidianas dos seus seguidores; uma aparição durante uma pesca, responde a esse questionamento. Certamente, houve outros motivos, mas não é possível destacar todos aqui. Na verdade, não é possível sequer conhecer todos. O que estudiosos conseguem é perceber, pelas entrelinhas, os mais evidentes. Pela extensão, não comentaremos todos os versículos separadamente.

Feitas as devidas considerações introdutórias, a nível de contexto, olhemos então para o texto: «Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo (Gêmeo), Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus» (vv. 1-2). Até então, as aparições do Ressuscitado aos discípulos, tinham acontecido numa sala fechada em Jerusalém, à exceção da aparição a Maria Madalena no jardim – não incluímos o episódio dos discípulos de Emaús, Lc 24,13-35, em que o Senhor apareceu no caminho, porque esse pertence às tradições do evangelista Lucas; por questões didáticas, tratamos aqui apenas da tradição joanina. Dessa vez, a aparição acontece na Galileia, a céu aberto. Ao contrário das duas primeiras que tinham acontecido no domingo (o primeiro ou oitavo dia semana), dessa vez o dia não vem indicado. Já temos um primeiro sinal de que o Ressuscitado não está condicionado a nenhum espaço ou tempo determinados. O mar de Tiberíades – também chamado de lago de Genesaré ou mar da Galileia – possui um significado importante para as origens do cristianismo, pois foi o cenário dos primeiros chamados, conforme a tradição sinótica. A manifestação do Ressuscitado nesse ambiente é um sinal de retorno às origens e confirmação da vocação. Quem outrora deixou-se atrair pela proposta de Jesus de Nazaré, deve continuar atraído pelo Ressuscitado, já que é a mesma pessoa. O autor identifica sete discípulos nessa aparição, apesar de só informar o nome de três. O número sete possui um valor simbólico altamente significativo para os propósitos de universalização da mensagem de Jesus; enquanto o número doze representa apenas o povo de Israel, o número sete representa o universo inteiro, e esse deve ser o destino da missão dos discípulos de Jesus de Nazaré, o crucificado que ressuscitou.

A pesca, por ser a atividade da maioria dos primeiros discípulos, se tornou imagem simbólica da missão apostólica no cristianismo das origens. Por isso, essa cena, mais que descrever uma pescaria real, é uma verdadeira parábola da missão da comunidade cristã. O grupo de discípulos está unido, e Pedro continua impetuoso, falando e agindo sem medir as consequências: «Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”. Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite» (v. 3). A adesão dos companheiros à iniciativa de Pedro recorda sua liderança na comunidade primitiva. Também recorda a unidade: não deve haver projetos individualistas na comunidade; a missão de um é também de todos. Apesar da adesão do grupo, a iniciativa de Pedro não logrou êxito, o que vem indicado pela expressão «não pescaram nada naquela noite»; o indicativo temporal “naquela noite” possui valor simbólico, significando aqui a ausência de Jesus, aquele que é a luz verdadeira, por excelência. Quando falta essa luz, prevalecem as trevas. Por consequência, essa ausência torna ineficazes as iniciativas da comunidade, por mais boa vontade que tenham os seus membros. No Evangelho de João, o paradoxo trevas-luz possui mais relevância do que em qualquer outro escrito do Novo Testamento. 

Como opção de superação e oposição às trevas da noite, surge o novo dia, com o raiar da luz: «Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem» (v. 4a). Na luz do dia, Jesus se faz presente. Obviamente, não é o dia que traz a presença de Jesus, mas é ele quem faz as trevas desaparecerem e o dia surgir, pois ele é a própria luz. E ele estava de pé, a posição de ressuscitado, vivente, em oposição ao sono e à morte. Quer dizer que, ressuscitado, não dorme e nem morre mais, permanece de pé, pronto para acompanhar a comunidade cristã em qualquer travessia, seja por terra, seja por mar. Contudo, habituados a encontrar o Senhor somente no âmbito litúrgico da reunião comunitária do domingo, os discípulos não o reconheceram quando estava de pé (v. 4b), à margem do mar, mesmo ele já tendo se lhes manifestado duas vezes. Com isso, o autor faz um alerta às comunidades de todos os tempos: é preciso reconhecer a presença de Jesus no dia-a-dia, nas margens e nas atividades cotidianas também. Não basta esperar uma semana para encontrar-se com ele no encontro litúrgico da comunidade, pois ele interage no dia-a-dia através dos acontecimentos e das pessoas necessitadas, principalmente. Inclusive, fazendo-se necessitado, como mostra o evangelista: «Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”» (v. 6). Aqui, ele se revela necessitado e, sobretudo, terno, carinhoso. O termo grego que o lecionário traduziu por “moços” fica mais bem traduzido por “filhinhos” ou simplesmente “filhos” (παιδία – paidía). Expressa uma interpelação íntima e carinhosa, como se dá na relação entre pais e filhos. Com sinceridade e muito provavelmente com decepção, os discípulos responderam que não tinham nada para comer, afinal, a pescaria tinha sido um fracasso. 

À luz do dia, mesmo sem ainda ser reconhecido, Jesus aponta a solução para a comunidade que trabalhou em vão durante a noite: «“Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes» (v. 6). Guiada somente pelo impulso de Pedro e na escuridão da noite, a comunidade trabalhou em vão; orientada pelas palavras de Jesus, o resultado foi surpreendente: uma pesca abundante. Aqui está a primeira motivação para a transformação da comunidade. Contudo, será um processo lento. Assim como fora o primeiro a acreditar na ressurreição ao ver o sepulcro vazio (Jo 20,8), o discípulo amado também é o primeiro a reconhecer Jesus naquele homem desconhecido à beira do mar, por isso, exclamou convictamente: «É o Senhor!» (v. 7). O Quarto Evangelho insiste que a primeira condição para o encontro autêntico com Jesus é o amor. Não há trabalho intelectual e nem físico que se sobreponha ao amor. Boas intenções não bastam para o crescimento da comunidade, se nessa não reina o amor. De fato, o amor é o que dá credibilidade ao anúncio; por isso, «Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu a sua roupa, pois estava nu, e atirou-se no mar» (v. 7b). Ora, Pedro conhecia bem a trajetória de amor daquele discípulo, por isso, sabia que seu testemunho era verdadeiro. As atitudes de Pedro aqui, embora ainda impetuosas, mostram o progresso de sua conversão; a passagem do estado de nudez ao de vestido significa uma mudança de atitude e de mentalidade. Com efeito, a afirmação de que ele “estava nu” não quer dizer que estivesse totalmente despido, mas com alguma veste interior. De fato, a veste interior já era considerada um estado de nudez, em muitas culturas, sobretudo as mais conservadoras. O atirar-se no mar é uma imagem do batismo: é preciso passar pelas águas para tornar-se uma nova pessoa. Pedro tem pressa, pois se sente mais necessitado do que os demais de ficar na presença do Senhor (v 8).

O momento privilegiado do encontro da comunidade com o Ressuscitado será sempre a refeição, o banquete, como sinal de partilha, amor e alegria. E é o próprio Jesus quem prepara a refeição (vv. 9-13), pois, o Ressuscitado continua o mesmo que serviu e foi crucificado: é aquele que se fez servo, que lavou os pés dos discípulos. Essa refeição representa a Eucaristia, já consolidada entre as comunidades, na época da redação do texto. Mesmo oferecendo o banquete, Jesus pede a colaboração dos discípulos: «Trazei alguns dos peixes que apanhastes» (v. 10). É claro que Jesus não pede os peixes por necessidade. Se trata de uma oportunidade oferecida aos discípulos para trabalharem com ele, participarem da sua obra, do seu plano de saciar o mundo de amor. Isso mostra que a comunidade deve unir seus esforços aos dons do Ressuscitado para a transformação do mundo. A construção do Reino exige esforço de todos. Os peixes, aqui, são dons do Ressuscitado, e prova de que as palavras dele geram abundância e fertilidade, por isso, são indispensáveis para o banquete; são, acima de tudo, frutos do amor. O convite «vinde comer» (v. 13) é dirigido a todas as pessoas; participar desse banquete é um ato de amor.

A sequência do texto (vv. 15-19) mostra o diálogo decisivo de Jesus com Pedro, que é o coração de todo o capítulo. Essa é, certamente, uma das cenas mais belas de todo o Novo Testamento. Ao longo do(s) Evangelho(s), Pedro tinha demonstrado diversas contradições. Obstinado, procurava sempre demonstrar uma prontidão maior que os demais discípulos; era sempre o primeiro a responder às perguntas de Jesus, queria mostrar mais serviço sempre e de todas formas. Por esse seu caráter, acabava caindo em contradição facilmente. Se manifestou contra a atitude de Jesus no momento do lava-pés e o negou três vezes durante o processo. Esse último fato foi, certamente, o mais dramático e que deixou, inevitavelmente, mais sequelas interiores e remorso, não em Jesus que perdoa tudo, mas no próprio Pedro. É provável que tenha causado desconfiança entre os companheiros e até nas comunidades futuras. Por isso, era necessário reabilitá-lo, e foi esse o principal motivo da inserção deste capítulo num Evangelho que já estava concluído. Aqui, Jesus não faz um acerto de contas com Pedro, mas quer apenas mostrar que, não obstante todas as fragilidades do apóstolo, o amor entre os dois precisa ser confirmado e reforçado, pois é do amor que dependem os frutos da missão confiada. Assim, o evangelista recorda a re-humanização de Pedro pela força do amor de Jesus. 

Jesus pergunta três vezes se Pedro lhe ama, e Pedro responde três vezes. O número três, obviamente, alude ao número de negações; foi essa a marca negativa que Jesus quis tirar do coração de Pedro, mostrando todo o seu amor por ele. Temos aqui uma prova muito clara de que Jesus não desiste do ser humano. Ele insiste de todos os modos para que nenhum dos que o Pai lhe confiou se perca (Jo 6,39), pois essa é sua missão. Jesus age com Pedro como um bom terapeuta que pretende eliminar o mal pela raiz. Eis a primeira pergunta e resposta: «“Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”» (v. 15). Na verdade, Jesus não necessita que Pedro lhe ame mais do que os demais; esse detalhe que aparece somente na primeira pergunta, é apenas uma advertência: quanto mais intenso for o amor do discípulo, maior deve ser a disponibilidade para o serviço. A resposta de Pedro é positiva, inclusive reconhecendo que Jesus sabe tudo, como soube antecipadamente da sua negação (Jo 13,36-38). O amor de Pedro, bem como dos demais discípulos, é fundamental para os propósitos de Jesus, que confirma a missão: «Apascenta os meus cordeiros». Antes de tudo, fica claro que o rebanho é de Jesus e, portanto, os seus discípulos não podem recebê-lo como propriedade sua. Apascentar significa cuidar: proteger dos perigos e prover o alimento, especialmente; em outras palavras, é proporcionar todos os meios para uma vida digna, abundante e humanizada. 

A pergunta é repetida até a terceira vez, com pequenas variações de vocabulário que não comprometem o seu significado, embora alguns estudiosos explorem bastante as mudanças. Para o uso litúrgico, no entanto, é suficiente saber que aquilo que está em questão é a reabilitação de Pedro por meio do amor. Nesse processo de resgate, «Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava» (v. 17); o remorso da negação veio à tona novamente, mas essa tristeza também significa um lamento por não ter descoberto antes que o amor é o único meio para uma relação autêntica com Jesus. A sua prontidão anterior, o apresentar-se sempre como o primeiro, tanto no falar quanto no agir, não tinha tanto efeito porque a motivação para isso ainda não era o amor. Agora sim, Pedro está convicto da necessidade do amor nas relações e do seu papel na comunidade; não se trata de exercer um governo; Jesus lhe pede para cuidar, para servir, não para governar. O serviço, movido pelo amor, é o que conta na comunidade cristã. Está claro, portanto, que o objetivo principal do texto é mostrar a reabilitação de Pedro: de um discípulo envergonhado de seu mestre, a um discípulo convertido pelo amor, tendo o seu remorso sanado pela insistência do Senhor Ressuscitado. Se é Jesus o dono do rebanho, para cuidar desse rebanho é necessário amá-lo intensamente, à sua própria maneira. 

Convicto da conversão de Pedro, Jesus lhe revela o seu próprio destino: «“Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará onde não queres ir”. Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”» (vv. 18-19). Ora, sempre que Jesus dizia que ia sofrer, quando antecipava a sua morte de cruz, o primeiro a repreendê-lo era Pedro. Agora, Jesus diz que é o próprio Pedro quem também vai passar pela cruz: a expressão «estenderás os braços» é uma referência explícita à morte de cruz. Dessa vez, já não há contestação porque Jesus está cara a cara com um novo Pedro, um homem convertido, consciente de que não pode mais agir segundo seus impulsos, pois quando isso acontece a pesca é totalmente estéril; só há peixe em abundância quando as redes são lançadas de acordo com as indicações de Jesus. Após a reabilitação de Pedro, Jesus renova o convite ao seguimento: «Segue-me». O Ressuscitado é uma pessoa viva, presente na comunidade, e deve ser seguido sempre. Esse seguimento, para ser autêntico, deve ser motivado sempre pelo amor.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

domingo, setembro 15, 2024

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 8,27-35 (ANO B)


A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo comum nos coloca exatamente diante do centro temático e literário do Evangelho de Marcos: a confissão de fé de Pedro, na região de Cesareia de Filipe, em nome de todo o grupo dos discípulos, com o primeiro anúncio da paixão e a apresentação das condições essenciais para o discipulado – Mc 8,27-35. É importante ter em mente os três momentos que constituem o episódio, para compreendê-lo em sua totalidade. Às vezes, enfatiza-se somente a confissão de Pedro, o que torna a interpretação reducionista. Esse episódio é um divisor de águas na estrutura literária da obra e também no itinerário missionário e messiânico de Jesus, pois marca a conclusão do seu ministério na Galileia e o início do seu caminho para Jerusalém, onde acontecerão os eventos da sua paixão e morte, culminando com a ressurreição. É, portanto, o início de uma etapa decisiva, o que vai exigir muito mais convicção nos seus discípulos. Trata-se de um episódio comum aos três evangelhos sinóticos (Mc 8,27ss; Mt 16,13-19; Lc 9,18-22), sendo que a versão mais rica é essa de Marcos, pois possui mais traços de originalidade, uma vez que se trata do primeiro evangelho escrito. Além disso, é em Marcos que o referido episódio possui mais centralidade e relevância, a ponto de ser o marco divisor de toda a estrutura literária do livro.

Dividido em duas grandes partes, o Evangelho de Marcos tem como finalidade apresentar Jesus como o Cristo, ou seja, como o messias, e como o Filho de Deus, como já se percebe em seu primeiro versículo: «Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus» (Mc 1,1). Nessa afirmação, está a resposta à pergunta implícita “Quem é Jesus?”. Toda a primeira parte – capítulos de 1 a 8 – visa gerar na comunidade a certeza de que Jesus de Nazaré é o Messias, tão esperado por Israel ao longo dos séculos, embora não seja revestido das características tradicionais do messianismo nacionalista vigente, como previsto pelos judeus do seu tempo, incluindo seus próprios discípulos. Essa primeira parte é concluída com a proclamação solene de Pedro, em nome da comunidade dos discípulos, quando afirma “Tu és o Cristo”, em resposta à pergunta de Jesus sobre a sua identidade. O nome Cristo – em grego χριστóς – christós – significa messias, ungido. Já a segunda parte – capítulos de 9 a 16 – visa levar a comunidade a acreditar que o Messias Jesus é também o Filho de Deus, cuja certeza é dada pela confissão do centurião romano diante da cruz: «Realmente, esse homem era Filho de Deus» (Mc 15,39). A maturidade da comunidade, portanto, pode ser verificada pela sua capacidade de professar livremente essas duas verdades a respeito da identidade de Jesus de Nazaré, sem distorções, dando-lhe adesão até as últimas consequências. Nessa dupla profissão de fé, responde-se à pergunta “Quem é Jesus?”. O evangelho de hoje, obviamente, trata apenas da primeira parte da resposta.

Feitas as devidas observações a nível de contexto, olhemos especificamente para o texto de hoje, e a nossa primeira observação diz respeito à dimensão espacial: «Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe» (v. 27a). Essa informação possui grande relevância, considerando a localização e a importância da cidade de Cesaréia de Filipe. Ora, como Cesareia estava localizada no extremo norte da Galileia, em área já considerada pagã, esse dado representa uma espécie de isolamento dos discípulos em relação à ideologia nacionalista. Lá, eles estariam livres para emitir uma opinião isenta de qualquer influência ideológica e preconceitos. Com isso, o evangelista ensina que para reconhecer a verdadeira identidade de Jesus é necessário isolar-se dos tradicionais esquemas religiosos de Israel. Além disso, a cidade de Cesareia, como o próprio nome indica, era uma homenagem a César, um dos títulos de honra do imperador romano; logo, o reconhecimento de Jesus como messias, na “cidade de César” representava a oposição do projeto do Reino de Deus às forças de morte movidas pelo poder opressor romano. Portanto, estamos diante de um dos episódios mais ousados dos evangelhos: uma negação do messianismo nacionalista e um desmascaramento ao poder romano.

Com esse dado, o evangelista quer ensinar que as duas primeiras exigências para o seguimento convicto de Jesus é o rompimento com as ideologias, religiosas principalmente, e a coragem para confrontar toda forma de poder oposta ao Reino de Deus. Essa era a situação da comunidade do evangelista Marcos, na época da redação do evangelho: escrito fora da Palestina, quando a convivência com a comunidade judaica já tinha se tornado insuportável e, especificamente, na cidade de Roma, capital do império, em época de forte perseguição. Portanto, o evangelista, para fortalecer os cristãos da sua comunidade, narra esse episódio para mostrar que aquela situação presente já tinha sido prevista e vivida pelo próprio Jesus com seus primeiros discípulos. E assim ele mostra também como Jesus e os primeiros discípulos foram capazes de suportar e superar as principais forças opositoras, sem ceder a nenhum dos lados que visavam ofuscar seu projeto de Reino: o império romano e a sinagoga judaica. Ora, Jesus quer que seus discípulos e discípulas sejam sempre pessoas livres capazes de proclamar a Boa Nova do Reino em quaisquer circunstâncias, sem deixar-se influenciar pelas forças dominantes, sobretudo.

E, em situações de hostilidade, é necessário renovar as convicções para continuar o seguimento. Assim, Jesus faz uma espécie de consulta a respeito da sua própria imagem, não interessado em fama, mas somente para saber se estava sendo compreendido juntamente com a sua mensagem. É claro que a preocupação não era com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio na comunidade e o grau de compreensão dos discípulos, após um tempo considerável de convivência com ele. Por isso, o texto diz que, ainda «No caminho, perguntou aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?”» (v. 27b). Aqui, o evangelista faz questão de evidenciar o caráter itinerante e a falta de comodidade no discipulado. Por isso, “o caminho” com os inerentes perigos é lugar de catequese e anúncio, o que também reflete a situação da comunidade do evangelista (anos 60 d.C.): expulsos da sinagoga, os cristãos já não tinham lugar fixo para a pregação, buscando espaços alternativos, como as casas, as estradas e até os cemitérios. Não obstante esses desafios, a clareza e a convicção do seguimento são fundamentais para a vida da comunidade. É interessante notar que somente Marcos localiza o episódio no caminho. Ora, como se sabe, dos evangelhos sinóticos (Mt; Mc; Lc), o que mais se interessa pelo caminho é Lucas, fazendo do caminho metáfora da vida e da missão. Contudo, somente Marcos diz que esse episódio aconteceu no caminho. Isso torna o dado ainda mais relevante, pois mostra o caminho como a realidade da comunidade, vivendo em plena itinerância, sem nenhum tipo de segurança.

A resposta dada pelos discípulos pergunta de Jesus, como opinião do povo, revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava, certamente entre o povo simples, com quem ele interagia e por quem mais se interessava em seu ministério. De fato, as pessoas simples – pobres e marginalizados em geral – eram as preferidas de Jesus. Ele fez clara opção preferencial por elas. Eis, portanto, a resposta: «Eles responderam: “Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias, outros, ainda, que és algum dos profetas”» (v. 28). Como se vê, não resta dúvidas de que Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. De fato, os personagens citados foram grandes profetas, homens que acenderam a esperança de libertação, anunciando a libertação denunciando e denunciando todos os entraves para que essa acontecesse, sempre com muita fidelidade ao profeto de Deus. Mas Jesus é muito mais do isso. Ora, embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história. Contudo, é inegável que o povo já o estimava, mesmo que não tivesse muita convicção da sua verdadeira identidade, ainda mais considerando que seus familiares o tinham por louco e as autoridades religiosas o consideravam um enviado de satanás (Mc 3,20-30). O povo simples o via como um homem de Deus e isso é muito significativo.

A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto, uma preparação para a pergunta decisiva aos discípulos. De fato, o que Jesus queria saber mesmo era o que seus discípulos pensavam dele. Afinal, já tinham um bom tempo de convivência. Inclusive, boa parte dos seus ensinamentos tinha sido dirigida exclusivamente aos discípulos, como até mesmo a explicação de algumas parábolas mais ambíguas (Mc 4,34). Ele esperava, portanto, que os discípulos lhe conhecessem melhor do que as outras pessoas. Por isso, lhes perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (v. 29a). Ora, que as pessoas de fora o conhecessem apenas superficialmente, seria aceitável, mas, dos discípulos, ele esperava uma resposta mais profunda e convicta, afinal, estavam com ele dia e noite. E, realmente, aconteceu, a resposta de Pedro é muito profunda: «Pedro respondeu: “Tu és o Messias”» (v. 29b). Aqui, Pedro fala em nome do grupo. Essa é a resposta da comunidade, de quem Pedro se faz porta-voz, assumindo uma inegável liderança. Embora correta, a resposta de Pedro e da comunidade não é satisfatória, por isso, o evangelista diz que «Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito» (v. 30). Dizer que Jesus é o Messias, é o mesmo que dizer o Cristo, como de fato ele era, já que as duas palavras possuem o mesmo significado. Trata-se de um título que indica, na literatura bíblica, a figura esperada para promover a libertação definitiva de Israel. Por isso, a resposta de Pedro é muito significativa. Porém, Jesus não confia nas convicções com que Pedro dá sua e, por isso, proibiu a ele e aos demais de falaram a seu respeito.

Chega a ser surpreendente a reação de Jesus. É verdade que ele proibia as pessoas curadas e exorcizadas de contar os milagres feitos (Mc 1,44; 7,36). Mas aqui a proibição é muito mais severa: ele proibiu de falar a seu respeito! Somente em duas ocasiões ele proíbe seus discípulos de falar: neste episódio e na transfiguração (Mc 9,9), e ambas estão profundamente relacionadas à paixão. Mas o que fez Jesus proibir Pedro de repetir essa fórmula foram as possibilidades de incompreensão que essa comportava. Ora, o Messias esperado pelos judeus, cujas expectativas foram alimentadas por muitos séculos, desde a época do exílio, era um guerreiro, um restaurador do reino de Davi. Essas expectativas diziam respeito a um único povo e religião, enquanto a mensagem de Jesus é universalista e acessível a todos os seres humanos, independentemente de qualquer cultura, etnia e religião. Portanto, podemos afirmar que Pedro deu a resposta correta – Jesus é mesmo o Cristo – mas não tinha ainda a consciência ideal – Jesus não veio para restaurar o reino de Davi, mas para implantar o Reino de Deus, como realidade universal. Na resposta de Pedro estava um projeto de poder nacionalista de poder, amparado pelo sistema religioso, com o qual Jesus não concordava. Ora, todo projeto de poder se torna mais perigoso quando é sustentado pelo discurso religioso. Jesus sabia disso, por isso seu projeto de Reino é totalmente contra-hegemónico.

Diante do equívoco dos discípulos, representados por Pedro, Jesus inaugura uma nova etapa da sua catequese, buscando revelar a sua verdadeira identidade de messias “às avessas”: o messias descendente de Davi, esperado pelos judeus, era um guerreiro, viria ao mundo para combater e matar os inimigos de Israel, restaurando o trono outrora ocupado por Davi e Salomão; Jesus ensina que sua missão é o contrário de tudo isso: «Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias» (v. 31). Esse é o primeiro dos três anúncios da paixão presentes no evangelho. Ao invés de matar os inimigos, o Messias Jesus é quem padece e, por consequência, esse deveria ser também o destino dos seus discípulos. Não se trata de uma predestinação e nem adivinhação do futuro. É apenas consciência das opções feitas. Jesus sabia que, com seu projeto de Reino inclusivo, restaurando o que a religião e a sociedade tinham descartado, incluindo as pessoas que tinham sido marginalizadas, seu destino não poderia ser outro senão a cruz, a pena que o império destinava aos subversivos, como ele. De fato, a cruz era o destino dos rebeldes, os criminosos públicos, perturbadores da ordem. E Jesus sabia que sua fidelidade ao projeto do seu Pai o levaria a isso. No Evangelho de Marcos, ele já tinha sido “jurado” de morte pelos fariseus e herodianos (Mc 3,6), mas ainda não tinha se pronunciado a respeito, como o faz agora. É relevante notar que ele faz o anúncio da paixão como um ensinamento, e não apenas como uma informação dada. O evangelista emprega o verbo do ensino, da catequese e formação: “começou a ensiná-los”. É o verbo ensinar (em grego: διδάσκω – didásko). Com isso, ele ensina que, em Jesus, tudo é ensinamento, sua vida, incluindo a morte, constitui sua maior mensagem. Na expressão “começou a ensiná-los”, é relevante também o verbo começar (em grego ἄρχω – arko), que pertence à raiz etimológica “arquê” e indica princípio. Aqui, precisamente, significa que Jesus começou do princípio a ensinar. Quer dizer que, até então, seus discípulos ainda não tinham aprendido nada. Por isso, a catequese deveria começar do princípio, da estaca zero.

Na continuação, o evangelista diz que Jesus «dizia isso abertamente» (v. 32a). Também esse é um detalhe exclusivo de Marcos e bastante significativo. O termo grego traduzido por “abertamente” é “parressia” (παρρησίᾳ), e significa também liberdade, sinceridade, franqueza e firmeza. No mundo grego, era empregado para expressar o privilégio dos cidadãos livres, que podiam expor o que pensavam, nas assembleias civis, sem medo algum. Com isso, o evangelista apresenta Jesus como um homem livre, sem amarras nem medos. A sequência do texto revela a incompreensão de Pedro sobre a identidade de Jesus. Ora, fechado na mentalidade nacionalista, ele não aceitava um messias sofredor, por isso, «tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo» (v. 32b). Essa atitude de Pedro é absurda e inaceitável. O verbo repreender (em grego: ἐπιτιμάω – epitimáo) significa condenar por um erro, reprovar bruscamente. Trata-se de algo tão absurdo que Pedro não teve coragem de fazer na frente dos outros discípulos, mas o faz à parte. Fazendo isso, Pedro estava negando a sua condição de discípulo. Obviamente, Jesus não aceita a proposta de Pedro. Por isso, lhe chama para assumir o seu verdadeiro lugar: «Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: “Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens”» (v. 33). Jesus, como mestre, tem autoridade para “repreender” e condenar a atitude absurda de Pedro. E o faz com muita ênfase. Ora, em todo o Novo Testamento, esse é o único episódio em que uma pessoa é diretamente chamada de satanás. E essa pessoa é ninguém menos que Pedro. Com isso, constata-se que os evangelhos não pretendem idealizar ninguém, além de Jesus. Ao chamá-lo de satanás, Jesus está apenas dizendo que, com aquela postura, Pedro está sendo obstáculo para o Reino de Deus. O papel de satanás é dificultar a realização do Reino; e muitas vezes, como neste caso relatado por Marcos, quem age como satanás são membros da própria comunidade, inclusive os que ocupam lugares de destaque, como Pedro ocupava na primitiva comunidade cristã.

Literalmente, satanás significa o adversário, acusador, inimigo. E foi isso o que Jesus viu em Pedro, nesta ocasião. Contudo, Jesus não desiste das pessoas, ele acredita intensamente no ser humano, sempre dá uma nova oportunidade, promovendo humanização. Por isso, ao contrário do que a tradução litúrgica do texto expressa, Jesus não manda Pedro para longe, mas apenas para trás de si. Aqui, ele usa a mesma expressão do chamado vocacional: “segue-me” ou “vem atrás de mim” – empregada em Mc 1,17; 8,34 (em grego: ὀπίσω μου – opísso mu). Jesus repreende Pedro, mas não o expulsa do grupo, apenas diz “vai para trás de mim”, “assume teu lugar de discípulo”, ou simplesmente “segue-me”. Com isso, o evangelista ensina que a última palavra na comunidade deve ser sempre a de Jesus. O discípulo nunca deve tomar o lugar do mestre, assim como, na comunidade cristã, nenhuma pessoa pode ter a última palavra, pois essa é sempre de Jesus. Ele insiste para que Pedro reconheça seu lugar e assuma o estatuto de discípulo. Como protótipo do discípulo, Pedro revela determinação e fragilidade, ao mesmo tempo. E Jesus o quer, mesmo assim, com essas contradições e ambiguidades. Querendo desviar Jesus do caminho da cruz, Pedro não pensou apenas em Jesus, mas pensou nele mesmo. Ele sabia que a cruz era incompatível com a ideia de Messias que ele tinha dentro de si. E sabia também que o seu próprio destino deveria ser igual ao do seu mestre. Por isso, quis evitar, fazendo Jesus tirar essa ideia da cabeça. Mais do que preocupação com Jesus, Pedro demonstrou preocupação consigo mesmo. Jesus sabia, por isso o repreendeu como não feito com ninguém, nem fará. Nem aos seus adversários Jesus chamará de satanás.

Tendo esclarecido que não é um messias conforme as expectativas do povo e dos discípulos, Jesus esclarece as exigências para o seu seguimento. Ele está terminando o seu ministério na Galileia; em pouco tempo irá iniciar o caminho para Jerusalém, onde viverá o drama da paixão. Para continuarem no seu seguimento, é necessário que os discípulos tenham clareza do destino e dos riscos que estão correndo, como seguidores de um messias ao revés. Por isso, o esclarecimento, dessa vez dirigido também à multidão, de onde poderia sair novos discípulos que, de antemão, são advertidos: «Então chamou a multidão com seus discípulos e disse: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz a cada dia, e siga-me”» (v. 34). Antes de tudo, Jesus deixa claro que o discipulado é uma adesão pessoal e livre: “se alguém me quer seguir”; Ele não obriga e nem impõe; apenas propõe. E o seguimento exige rupturas. E a primeira ruptura é com a própria pessoa. Renunciar a si mesmo não significa odiar-se, mas é deixar de lado o egoísmo e todas as convicções pessoais que não estejam em sintonia com a mensagem libertadora do Evangelho; pretensões de poder, conquista e bem-estar pessoal, devem ser deixadas de lado. A cruz de cada dia corresponde às consequências de tal escolha. A cruz, como a mais temida das penas na época, era sinal de perigo; era a pena reservada aos considerados desordeiros, subversivos; com isso, Jesus deixa claro que os seus discípulos, à medida em que viverem o Evangelho com fidelidade, estarão em perigo constante, pois as opções do Evangelho contradizem os pretensões dos detentores de poder deste mundo, o que torna, inevitavelmente, de seus autênticos discípulos em subversivos, pessoas consideradas perigosas para o sistema. Também quanto ao tomar a cruz, Lucas se destaca em relação aos demais: somente nele se diz que a cruz deve ser tomada a cada dia, ou seja, é uma realidade do cotidiano, não um evento e muito menos um adorno; é a situação cotidiana de quem assume com seriedade o seguimento de Jesus.

O último versículo é um provérbio, no qual são reforçadas as exigências para o discipulado, com suas consequências, por meio de antíteses que visam dar ênfase ao ensinamento: «Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la» (v. 35). Há aqui um jogo de palavras, recurso retórico bastante usado por pregadores itinerantes, e neste, especificamente, são contrapostos os verbos salvar e perder à luz da lógica reversa da messianidade de Jesus. Já na época da redação do Evangelho de Marcos, os cristãos eram considerados pessoas que tinham perdido a vida, conforme a lógica do sistema vigente, devido às renúncias que tinham feito e à disposição de abraçar a cruz como consequência das opções assumidas. Abrir mão de uma mentalidade individualista, deixando de lado projetos e ambições pessoais para viver a utopia do Reino, ou seja, aderir a um projeto igualitário, com relações gratuitas e movidas pelo amor, era visto como perda e loucura. Para Jesus, contudo, quem faz isso salva a sua vida, quer dizer, dá sentido à existência. A salvação não é simplesmente a preservação ou repouso eterno da alma, mas a vida e a mensagem libertadora de Jesus, o salvador. Se salva, portanto, quem assimila essa mensagem e faz dela vida.

Somos convidados hoje, de modo especial, a procurar conhecer cada vez mais a identidade autêntica de Jesus, para poder continuar no seu seguimento. Segui-lo é confrontar-se com as estruturas do mundo que impedem a realização, desde já, do Reino de Deus. O seguimento e o anúncio devem ser frutos de uma relação de intimidade com Ele e com o Pai. Sem convicção e conhecimento da sua pessoa, o anúncio tende a ser distorcido.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

REFLEXÃO PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,34-40 (ANO A)

A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a etapa final do seu ministério, marca...