sábado, janeiro 28, 2017

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 5,1-12 (ANO A)


Neste IV Domingo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra nos apresenta um dos trechos mais bonitos e ricos de significado de todo o Novo Testamento: Mateus 5,1-12. Trata-se da versão mateana das bem-aventuranças, a introdução do primeiro e grande discurso de Jesus no primeiro evangelho, conhecido como “Discurso ou sermão da montanha” (Mt 5 – 7). 

Esse discurso tem, ao longo dos séculos, encantado cristãos e não cristãos. Aqui, faz-se necessário recordar o que afirmou o primeiro verdadeiro exegeta cristão da história, Orígenes, que viveu entre 185 e 253 d.C., o qual afirmou que as bem-aventuranças são o retrato de Jesus, ou seja, através delas Jesus disse quem Ele era e como vivia. Com certeza Orígenes tinha razão.

Jesus ainda não tinha sequer formado o grupo completo dos Doze. Tinha chamado apenas quatro discípulos: Pedro, André, João e Tiago (cf. Mt 4,18-22), mas já tinha iniciado sua atividade messiânica e despertado o interesse das multidões (cf. Mt 4,23-25). Como não pretendia enganar a ninguém, preferiu, logo de início, deixar claro o seu projeto, iniciando exatamente com a proclamação das bem-aventuranças, as quais revelam o seu jeito de ser e como deve ser também a vida dos discípulos, destinatários primeiros do seu ensinamento, mesmo circundado pelas multidões (v. 1-2).

Como diz o texto, “vendo as multidões, Jesus subiu ao monte” (v. 1a). Aqui, há uma clara alusão a Moisés que subia ao monte Sinai para comunicar-se com Deus, tendo recebido ali as tábuas da lei (cf. Ex. 19,3; 24,15.18). A montanha é, portanto, o lugar da oração, do encontro com Deus e da sua revelação à humanidade. Não se trata de um indicativo topográfico, mas teológico.

Aqui, Jesus revela-se Senhor e mestre. O gesto de ensinar sentado e com os discípulos próximos a ele (v. 1-2), mostra a autoridade de mestre, significa que seu ensinamento é sólido, consistente e sério, embora ainda tenha um grupo muito pequeno de discípulos. Ele não consegue esperar seu grupo crescer para dizer como quer que seus discípulos sejam, por isso, apresenta logo ali o seu perfil.

O evangelista usa nove vezes o termo grego “maka,rioi  macarioi, cujo significado é felizes, bem-aventurados ou benditos. Com isso, Jesus descreve como devem ser seus discípulos. Na verdade, como todo discípulo deve imitar o seu mestre, e como autêntico e verdadeiro que era, tudo o que Ele já vivia, o propôs para o seu discipulado. O que, de fato, é exigido, é que sejam bem-aventurados, felizes. Talvez um conceito equivocado de felicidade dificulte uma compreensão mais sólida do que Ele apresenta. 

É importante recordar que as bem-aventuranças não são sugestões, mas exigências radicais que devem ser vividas em sua totalidade. Não se pode escolher uma ou outra. Só tem sentido e valor quando vividas por completo, ou seja, todas; por isso, é desafiante ser discípulo ou discípula de Jesus.

A primeira bem-aventurança (v. 3) é um consolo para quem já é “pobre em espírito” e um convite para que os que ainda não são, se tornarem. De todas, é aquela que mais tem gerado controvérsias na interpretação. A preferência de Jesus pelos pobres é inquestionável. No entanto, alguns, para suavizar a interpretação, outros para não se comprometerem, afirmam que Jesus não está aqui se referindo à pobreza como carência de bens, mas como um sentimento. É claro que essa interpretação é absurda, sobretudo se tomamos a mensagem de Jesus em seu conjunto, e recordamos que uma das coisas que Ele mais cobra de seus discípulos é o desapego e a renúncia aos bens. Também não se trata de um convite à resignação.

O pano de fundo para essa bem-aventurança é a profecia de Sofonias (cf. Sf 3,11-13), quando apresenta o ‘resto de Israel’ como um povo ‘pobre e humilde’ que buscará refúgio no nome do Senhor. Portanto, os pobres em espírito são aqueles que confiam em Deus, unindo à pobreza, a humildade, uma vez que, não basta ser pobre, é necessário ser humilde para entrar na dinâmica do Reino. A eles, os pobres em espírito, deve ser dado o Reino já agora, uma vez que a condição deles não permite mais esperar por uma transformação futura. E, foi Jesus, por excelência, um pobre no espírito, porque completou sua pobreza material com a confiança no Espírito Santo e no Pai.

A segunda bem-aventurança (v. 4) também tem um texto profético como pano de fundo: a profecia de Isaías que anuncia o ‘consolo dos aflitos’ (cf. Is 61,2). Ser consolado, na linguagem bíblica, não é simplesmente ser confortado ou ter a dor aliviada por alguns momentos, mas é ter o sofrimento eliminado por completo. A não aceitação do projeto de Jesus pelas estruturas sócio-políticas e religiosas causará aflições no seu discipulado, mas resistindo, receberão a verdadeira consolação.

Aos aflitos, somam-se os mansos, a terceira bem-aventurança (v. 5). O próprio Jesus se apresentará, posteriormente, como manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29). Aqui, Jesus alude aos israelitas que foram deserdados injustamente de suas terras (cf. Sl 37,11), por isso, terão como recompensa a herança da terra novamente. Também não é um convite à passividade. É apenas um lembrete para que, diante das injustiças, a comunidade dos discípulos tome as mesmas atitudes de Jesus.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme Ele mesmo experimentara, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão interpelante: ‘bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça’ (v. 6). Ora, a fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano e o deixam ansioso. Com isso, Ele ensina que, como o alimento e a água são essenciais para a vida, assim deve ser a busca pela justiça em seus discípulos, ou seja, deve fazer parte do dia-a-dia da comunidade e ser tão apreciada quanto o alimento cotidiano. Portanto, a luta pela justiça é uma necessidade vital para o discipulado de Jesus.

A misericórdia é tão importante na vida do discípulo, a ponto de ser a condição para receber a misericórdia de Deus (v. 7). Assim é a quinta bem-aventurança. Ora, na Bíblia, a misericórdia é, sobretudo, ação em favor dos necessitados. Não se trata de um simples sentimento de piedade. É uma das principais características de Deus, por isso, é indispensável na vida do discípulo, o qual deve estar sempre atento e solícito às necessidades do próximo.

Com a sexta bem-aventurança (v. 8), Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica, os quais não permitiam que as pessoas vissem o verdadeiro rosto de Deus. Por isso, diz que bem-aventurados são ‘os puros de coração’, e não os que se submetem constantemente aos ritos estéreis e vazios, os quais, ao invés de aproximar as pessoas de Deus, causavam divisões e exclusões e, portanto, afastavam de Deus. A verdadeira pureza é aquela interior, ou seja, do coração, porque permite ver os outros com os olhos de Deus e, assim, dar a conhecer o próprio Deus.

Considerando que os discípulos seriam imersos em situações de conflito, Jesus pede, com a sétima bem-aventurança (V. 9), que sejam ‘promotores da paz’. É claro que paz a promovida pelo discípulo de Jesus será sempre uma paz inquieta como foi a dele. Lutar pela paz é tão imprescindível na vida do discípulo, a ponto de ser condição para ser considerado filho de Deus. Se trata de algo muito profundo, considerando a riqueza teológica da palavra hebraica לוםf –  Shalom: paz como o bem-estar total do homem, harmonia com Deus, consigo mesmo e com o próximo em todas as dimensões. É por esse tipo de paz que o discípulo de Jesus deve lutar, ou seja, por uma vida digna e íntegra para todos, desconstruindo o modelo arbitrário de paz imposto pelo império romano, a ‘pax romana’.

Com a oitava bem-aventurança (v. 10), Jesus apresenta aquilo que vai comprovar se o discípulo está imitando-o ou não, ou seja, se está vivendo ou não as bem-aventuranças: ‘ser perseguido por causa da justiça’. O principal sinal de adesão plena ao Reino é ser perseguido! Por isso, ser discípulo de Jesus é um desafio, porque a lógica do Reino contrapõe-se a todo e qualquer sistema humano de gerenciamento da vida.

Viver as bem-aventuranças é abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entrará em colisão com os sistemas dominantes. Obviamente, ao invés de aplausos, os discípulos receberão perseguições, calúnias e injúrias, completando assim a nona bem-aventurança (v. 11). E, diante de tudo isso, Jesus ainda convida a alegrar-se e exultar (v. 12), na certeza de que a sua proposta de vida é a única viável para a construção de um mundo justo, solidário e fraterno, em contraposição a todos os sistemas humanos já experimentados.

As bem-aventuranças nos desafiam a compreendermos e reconhecermos se, de fato, estamos sendo fiéis a Jesus, ou seja, agindo como discípulos e discípulas. Como sabemos, não são sugestões ou opções, mas condições indispensáveis para o seguimento; vivê-las é tornar-se parecido com Jesus, uma vez que elas são seus traços básicos e característicos.



Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, janeiro 21, 2017

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 4,12-23 (ANO A)


Neste III Domingo do Tempo Comum, o Evangelho nos situa ainda no início da vida pública de Jesus, apresentando suas primeiras medidas como líder e mestre e, sobretudo, como Senhor e Messias. O texto proposto, Mateus 4,12-23, é bastante longo e rico de significado, uma vez que mostra os primeiros passos de um longo e complicado percurso empreendido por Jesus de Nazaré e seus primeiros discípulos.

Tendo já se passado a pregação de João Batista (cf. Mt 3,1-12), o batismo de Jesus (cf. Mt 3,13-17) e as tentações no deserto (cf. Mt 4,1-11), o evangelista Mateus vem nos mostrar com o texto de hoje que Jesus está, de fato, apto a iniciar e cumprir a sua missão, por isso, apresenta os seus primeiros passos no texto que a liturgia nos oferece hoje.

O primeiro versículo, com indicações de tempo e espaço, marca o início de uma nova fase na vida de Jesus: “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galiléia” (v. 12). A prisão do Batista se torna um divisor de águas na vida de Jesus. Ora, João desenvolveu sua atividade batizador na Judéia, às margens do Jordão, e Jesus participou dessa atividade como discípulo seu, esperando o momento certo de apresentar-se como autônomo em relação aos homens e dependente somente do Pai Celeste. O indicativo espacial, “retornou para a Galileia” (v. 12b) significa muito mais que uma mudança de localização; é na verdade, sinal de mudança de projeto, ou seja, o projeto de Jesus não será uma simples continuidade da missão do Batista, mas será novo e independente.

Enquanto localizada na Judéia, próxima a Jerusalém, a pregação do Batista visava purificar judeus, através do batismo, para reintegrá-los à religião oficial, ou seja, ao templo. Jesus, ao contrário, veio para incluir as pessoas no Reino dos céus e, por isso, inicia sua atividade longe das antigas instituições. A troca de localidade, portanto, significa mudança de perspectivas e evidencia as diferenças entre a missão de cada um.

Para Jesus, não é suficiente se mudar para a Galileia, era necessário mudar também de cidade, por isso, “deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia” (v. 13). A mudança da Judéia para a Galileia já era muito significativa. Ele poderia, no entanto, morar em Nazaré, onde moravam seus pais e parentes. Ora, Nazaré era apenas um povoado; povoado, na linguagem do Novo Testamento, significa o apego às tradições e fechamento às novas ideias; os habitantes dos povoados são, biblicamente falando, pessoas fechadas, de mentalidade rígida.

Com uma mensagem de libertação tão inovadora, Jesus não poderia ser aceito num povoado como Nazaré, a não ser de passagem, de vez em quando. Por isso, foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia (v. 13b). Cafarnaum não era uma cidade tão grande, porém, tinha uma localização geográfica bastante estratégica para o desenvolvimento do projeto de Jesus: era um importante entreposto comercial, centro alfandegário e zona de circulação de pessoas de diversas proveniências. Em cidades com tais características, geralmente não havia tanto apego às tradições e costumes religiosos; uma população flutuante significa possibilidade de abertura de mentalidade e, portanto, mais facilidade de aceitação de novas ideias.

Além de ser localizada na Galileia, cuja população era muito mal vista pelos judeus piedosos da Judeia, Cafarnaum ainda estava situada às margens do mar (v. 13b); embora se trate apenas de um lado, o chamado ‘mar da Galileia’ tinha grande importância para toda a região. Além da facilidade de locomoção para as demais cidades circunvizinhas ao lago, através de embarcações, a fluorescente atividade pesqueira contribuía muito para o movimento da cidade e sua economia.

Todas essas informações que caracterizam Cafarnaum e sua população custavam-lhe o rótulo de terra semipagã pelos judeus mais devotos. Aqui, mais uma vez, vem evidenciada a opção de Jesus e o seu distanciamento de João Batista. Jesus trocou os judeus mais piedosos da Judeia por pessoas, em sua maioria impuras e pagãs, da Galileia. Para que a comunidade de Mateus, profundamente influenciada pelo judaísmo, aceitasse um messias tão contraditório, foi necessário o evangelista recorrer à Escritura e encontrar no profeta Isaias uma passagem que justificasse a opção de Jesus (vv. 14-17).

No trecho citado de Isaías, o profeta alude às tribos de Zabulon e Neftali, primeiros alvos da invasão assíria no séc. VIII a.C., onde começou a miscigenação da população, a ponto de ser chamada “Galileia dos pagãos” (cf. Is 8,23 – 9,1). No entanto, foi nesse lugar que Deus quis manifestar por primeiro a sua luz, que é Jesus, contrariando todas as expectativas messiânicas vigentes até então.

Em um lugar aparentemente impróprio, “Jesus começou a proclamar e dizer: ‘Convertei-vos pois o Reino dos céus está próximo’!” (v. 17). Essa exortação já tinha sido apresentada por Mateus na pregação de João Batista (Mt 3,2). Com isso, ele mostra que é possível perceber uma certa continuidade entre Jesus e João, embora sejam muito fortes os sinais de ruptura entre os dois. Para a expressão grega “ metanoei/te\ h;ggiken ga.r h` basilei,a tw/n ouvranw/n ” – “metanoeite enghiken gar basileira ton uranón” – a melhor tradução seria “convertei-vos, pois aproximou-se o reino dos céus”;  de fato, a forma verbal ‘aproximou-se’ corresponde melhor ao grego “ h;ggiken ” – “enghiken” que a forma ‘está próximo’ no texto litúrgico. ‘Aproximou-se’ exprime melhor a materialidade que a temporalidade do reino. E jesus está se referindo exatamente à materialidade, ou seja, aos sinais que começará a fazer, pois são estes sinais que dirão que o reino chegou definitivamente e, portanto, é inútil continuar esperando uma intervenção prodigiosa de Deus, quando na verdade Ele já enviou o Messias e esse já age no meio do seu povo.

Para entrar no reino que já chegou, Jesus faz um apelo no imperativo: “Convertei-vos”, tradução do grego “metanoei/te – “metanoeite”. Não apenas para entrar no reino, mas até para perceber e sentir que ele já chegou, é necessário converter-se, o que não significa intensificar as práticas penitenciais e devocionais, nem melhorar um pouco, nem rezar mais, mas sim mudar radicalmente o jeito de ser, de pensar e de agir. Conversão, em grego metanoia – “metanoia”, significa mudar radicalmente de mentalidade. É essa mudança que se exige para aceitar o reino com seus valores.

Ao contrário de Marcos e Lucas, Mateus prefere ‘reino dos céus’ a ‘reino de Deus’, certamente por consideração ao seu auditório composto predominantemente por cristãos oriundos do judaísmo, para quem não era agradável pronunciar o nome de Deus. Trata-se do reino dos céus porque sua origem é o amor de Deus; mas não é um reino para o futuro nem para uma vida depois da morte. É um projeto de sociedade alternativa para agora, o hoje da história, ou seja, para esse mundo.

É um reino tão urgente que, para realiza-lo, Jesus chama imediatamente seus primeiros colaboradores (vv. 18-20). Isso evidencia ainda mais que, embora do céu, esse reino foi projetado para a terra. Por isso, o chamado dos primeiros quatro discípulos acontece na situação concreta do cotidiano deles: eram pescadores e estavam em seus afazeres quando foram chamados. Diz o texto que “Jesus andava à beira do mar da Galileia e viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores” (v. 18).

Jesus não vai à sinagoga observar quem tinha boas práticas religiosas, não faz uma pesquisa em busca de pessoas de boa reputação; simplesmente, olha, observa e chama: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens” (v. 19). Essa frase sempre foi muito usada e repetida pelas comunidades cristãs de todos os tempos. É, no Evangelho de Mateus, o primeiro chamado vocacional.

Mais do que descrever a vocação dos primeiros discípulos, o evangelista quer evidenciar o chamado dos cristãos e cristãs de sua comunidade, e de todos os tempos. Se evidenciam também as peculiaridades de Jesus como mestre; enquanto os rabinos de seu tempo eram procurados por candidatos a discípulos, é Jesus mesmo quem busca e escolhe os seus; com o imperativo “Segui-me”, tradução da expressão grega “ovpi,sw mou” – “opíso mú”, ele faz um convite para os discípulos colocarem-se em processo de aprendizagem, observando tudo o que Ele irá fazer, o que requer total abertura e desprendimento; por isso, a tradução mais próxima do sentido empregado no texto original é “vinde atrás de mim”; somente andando atrás do mestre o discípulo caminhará na direção certa.

A expressão ‘pescadores de homens’ (v. 19b) é muito passível de interpretações equivocadas que podem distanciar e distorcer o sentido aplicado no Evangelho; geralmente, se tem usado ela para justificar as mais diversas formas de proselitismos e até abusos, o que nunca esteve nos planos de Jesus. É necessário, portanto, compreender o sentido do mar para o mundo bíblico. Em grego qa,lassa – “thalassa”, mar é sinônimo de perigo; evoca morte e domínio do mal. Portanto, ser “pescador de homens” é ser sinal de vida, e assim é a missão dos seguidores de Jesus: restituir aos homens e mulheres, ou seja, à humanidade, a vida e a dignidade, livrando-a de todas as ameaças à vida em plenitude: a violência, o ódio, a corrupção, a injustiça, a fome, e todos os males nos quais a humanidade possa “afogar-se”.

A resposta de Pedro e André foi positiva, como diz o texto: “Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram” (v. 20). Embora fossem pescadores por profissão, compreenderam que não poderiam continuar pescando do mesmo jeito, pois os peixes tinham no mar seu habitat natural e, portanto, o mar era o lugar de vida para eles; desse modo, enquanto pescavam peixes eles faziam o contrário do que deviam fazer com os homens, ou seja, tiravam da vida para a morte; por isso, deixaram as redes imediatamente.

As redes são instrumentos de morte, embora sejam sinais de trabalho e de sobrevivência para os pescadores. Como pescadores de homens, os discípulos de Jesus devem estar atentos, como esteve Jesus, a quais situações de morte a humanidade está sujeita, ou seja, quais são os mares que sufocam e afogam o ser humano com sua dignidade. Aos seres humanos não se pesca com redes, mas com uma proposta de libertação e vida plena.

A comunidade formada por Jesus é dinâmica e Ele não pára de chamar; por isso, andando um pouco mais à frente, chamou outros dois irmãos, João e Tiago, os quais deixaram, além do barco e das redes, também o pai, Zebedeu (vv. 21-22). Esse segundo grupo de irmãos deixou também o pai e, como sabemos, deixar a família é, ao longo dos evangelhos, uma das principais exigências de Jesus para o seu seguimento (cf. Mt 10,37; 19,29). A figura do pai significa a tradição e o preceito, a obediência à autoridade humana; na comunidade de Jesus essas relações deixam de existir, pois um só é o Pai de todos (cf. Mt 23,9). Portanto, na comunidade cristã não há espaço para a figura do pai com sua autoridade, típica da sociedade patriarcal, à qual a comunidade cristã surge como alternativa.

O versículo conclusivo apresenta uma síntese da atividade messiânica de Jesus em seu início: uma atividade itinerante e portadora de uma mensagem libertadora que resume a natureza da “pesca de homens” convocada por Ele, a qual pode ser resumida pela “cura de todo tipo de doença e enfermidade do povo”. Cabe aos cristãos de cada tempo e lugar, perceber quais são essas enfermidades e quais os perigos de afogamento que os mares continuam a oferecer à humanidade e, como quem vai “atrás de Jesus”, ser sinal de libertação e transformação.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, janeiro 14, 2017

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO TEMPO COMUM – JOÃO 1,29-34 (ANO A)


A liturgia do II Domingo do Tempo Comum sempre propõe um texto joanino, independente do evangelista do ano. Neste ano, o texto proposto é João 1,29-34, a continuação do testemunho de João Batista sobre Jesus, apresentando-o como Cordeiro e Filho de Deus. Trata-se de um texto denso, como é todo o Evangelho de João.

Para uma compreensão mais adequada do texto é necessário fazer uma pequena observação ou correção na versão litúrgica: ao invés da genérica e desnecessária expressão ‘Naquele tempo’, o texto original possui uma delimitação temporal específica, infelizmente, omitida pela liturgia. De fato, o versículo 29 é introduzido pela expressão “No dia seguinte”; pode parecer apenas um detalhe, porém é muito importante.

Eis, portanto, a forma correta: “No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’” (v 29). Ora, o Quarto Evangelho apresenta a famosa ‘semana inaugural’ da vida pública de Jesus, e a expressão omitida pela liturgia, ‘No dia seguinte’, nos distancia do contexto daquela semana.

O primeiro dia foi marcado pela comitiva enviada pelas autoridades religiosas de Jerusalém para interrogar João sobre sua identidade (cf. Jo 1,19-28), e o último ou sétimo foi o dia das bodas de Caná (cf. Jo 2,1), o qual é introduzido pela expressão grega th/| h`me,ra| th/| tri,th| - ‘té hémera té tríte’, que significa “o terceiro dia”, mas em relação aos quatro dias anteriores e, portanto, é o sétimo da primeira semana.

Essa observação é interessante porque nos faz perceber que o evangelista João apresenta o início do ministério de Jesus evocando a criação, também ritmada pela estrutura de uma semana (cf. Gn 1,1 – 2,4). O Evangelho de hoje, portanto, apresenta o segundo dia da nova criação, ou seja, do novo tempo que o autor do Quarto Evangelho quer apresentar.

Um dia após ter sido interrogado pelos comissários de Jerusalém, “João viu Jesus aproximar-se dele” (v. 29a). É necessário perceber a importância da ação de Jesus: vir, aproximar-se, caminhar em direção a alguém, no caso, João Batista. Uma nova ordem na história da salvação está sendo inaugurada, e João a contempla como testemunha privilegiada: é Deus quem vem ao encontro dos homens e mulheres, ou seja, ao encontro da humanidade. À humanidade, cabe o papel de reconhecer, acolher e testemunhar, como soube fazer o Batista.

Quanta alegria para quem era considerado incapaz de ir até Deus (os pecadores), e quanta tristeza para quem tinha ‘aprisionado’ Deus em um conjunto de ritos e um edifício (judaísmo oficial da época)! De agora em diante, a crise será inevitável, pois duas ordens entram em choque: a religião oficial e o novo jeito de manifestar-se de Deus, em Jesus.

A reação de João Batista diante do que estava contemplando foi decisiva e corajosa. Na verdade, com a afirmação “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (v. 29b), o Batista desmascarou de vez toda a elite religiosa e política do seu tempo; não apenas colocou em xeque as autoridades da época, mas decretou a completa falência delas.

Para a expressão “Cordeiro de Deus”, em grego o` avmno.j tou/ qeou/ - hó amnós tu Theú, muitas possibilidades de interpretação foram sugeridas ao longo da história, umas convincentes e outras não, umas condizentes com a lógica do Quarto Evangelho e outras não. Portanto, diversas perspectivas podem ser apresentadas.

Uma primeira perspectiva para a compreensão dessa afirmação é a messiânica. Ora, estava consolidada no imaginário do judaísmo da época, a imagem de um messias valente, guerreiro, rei forte e potente; com a imagem do cordeiro, João desconstrói completamente essa imagem, pois o cordeiro era símbolo da mansidão, o oposto das expectativas do povo. Com isso, o evangelista quer dizer que o messias autêntico não é um guerreiro lutador, mas homem manso e não violento. Porém, mansidão não quer dizer resignação, como Jesus vai mostrar ao longo de sua vida pública. Lutou incessantemente pela ruptura total dos costumes e tradições, mas sem jamais empunhar as armas da violência.

A imagem do cordeiro representa a primeira dimensão da identidade de Jesus; a segunda, será apresentada no final do texto: a filiação divina (v. 34). A função salvífica do ‘Cordeiro’ também é desanimadora para as aspirações religiosas nacionalistas da época: tirar o pecado do mundo! Ora, esperava-se um messias potente e guerreiro como libertador único e exclusivo de Israel e que viesse para exterminar os pecadores; e João anuncia um messias manso como um cordeiro e de alcance salvífico universal... que loucura!

Ao mesmo tempo que contradiz as expectativas messiânicas, a imagem do cordeiro também desmascara o culto: já não há mais necessidade de cordeiros e touros serem imolados no templo, pois um só é o autêntico ‘Cordeiro’; esse, não ‘expia’ pecados, mas elimina definitivamente o pecado do mundo; a eliminação do pecado do mundo representa a falência total do templo: não há mais necessidade de comprar animais para oferecer em sacrifício, uma vez que Deus veio ao encontro da humanidade, em Jesus Cristo.

Jesus não veio para expiar os pecados, mas para abolir o pecado e, não apenas de Israel, mas da humanidade inteira, ou seja, ‘o pecado do mundo’, tradução da expressão grega a`marti,an tou/ ko,smou – ‘hamartían tu kosmú’. Tirar o pecado do mundo significa restabelecer na humanidade a sua capacidade de comunicação com Deus. A visão de pecado do Quarto Evangelho é completamente diferente daquela que a religião impôs; não é a síngula transgressão de regras criadas pela própria religião, mas a falta de comunicação com Deus. E, quem tinha distanciado Deus da humanidade e, portanto, impossibilitado essa comunicação, tinha sido a própria religião.

O Evangelho de Jesus é um projeto de vida plena, marcado pela igualdade, fraternidade, justiça, solidariedade e amor; é nesse projeto que Deus se revela e, portanto, faz desaparecer o pecado. Logo, os sistemas cultuais expiatórios perdem seu sentido e seu valor. Para quem vivia “às custas do pecado” do povo, como o templo de Jerusalém, essa nova ordem é altamente prejudicial; na verdade, é destruidora.

O testemunho do Batista é importante porque reconhece a necessidade de vir depois dele, alguém que já existia antes dele (v. 30), ou seja, reconhece o quanto são maravilhosos os desígnios de Deus: a humanidade não poderia permanecer nem perecer daquela forma e naquele estágio; o que preexistia, deveria se manifestar, e João teve a graça de testemunhar essa manifestação que marcou o início de uma nova humanidade ou nova criação.

João tinha consciência de que, embora a salvação agora contemplada, tivesse um alcance universal, seria manifestada primeiro a Israel, através do sinal exterior do seu batismo com água (v. 31). Portanto, no momento da eleição, por privilégio, no tempo de João, por necessidade, Israel não poderia deixar de ser o primeiro campo de manifestação dessa nova ordem ou etapa da história da salvação.

A continuidade do testemunho de João atesta sua autenticidade: ele mesmo fez a experiência e viu “O Espírito descer como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele” (v. 32). Com essa imagem, João atesta a provisoriedade do seu batismo e da religião: o Espírito desceu do céu e permaneceu em Jesus; a morada da divindade na terra não é mais o templo... Posteriormente, após a ressurreição, esse mesmo Espírito será enviado a toda a humanidade.

João proclama que Jesus é a morada do Espírito e, assim, a humanidade é transformada e reordenada. É a contemplação da descida e permanência do Espírito em Jesus (v. 33) que dá a João a certeza de que Ele é, inclusive, mais que Cordeiro: é o Filho de Deus (v. 34).

Sendo Filho de Deus, Jesus é ‘igual’ ao Pai e, portanto, herdeiro; por ter em si o Espírito, somente Ele poderá doá-lo, transmitindo-o a toda a humanidade, como fará após a ressurreição. Assim, acolhendo, todos podem tornar-se também filhos de Deus (cf. Jo 1,12). De fato, o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus é o objetivo de todo o Quarto Evangelho, como vem afirmado na primeira conclusão: “Esses sinais foram escritos para crerdes que Jesus é o Filho de Deus” (Jo 20,31a). Por isso, logo no início apresenta uma testemunha privilegiada, João Batista (cf. Jo 1,6-8.19.29.32.34), e no final, toda a comunidade dos discípulos e discípulas (cf. Jo 20,1-31).

Esperava-se um Messias valente para exterminar os pecadores... Deus enviou um, manso como um cordeiro, para tirar o pecado do mundo, através de uma proposta nova de vida para todos, principalmente os pecadores!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, janeiro 08, 2017

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (MATEUS 2,1-12)



Celebramos neste domingo a solenidade da Epifania do Senhor, concluindo o tempo do Natal. Epifania quer dizer manifestação, deriva do verbo grego  epifai,nw – epifaino, cujo significado é manifestar-se. Portanto, celebramos a manifestação de Deus em Jesus como luz, guia e Senhor de todo o universo, embora o texto evangélico proposto, Mateus 2,1-12, apresente um movimento oposto: é o mundo com sua pluralidade de raças e culturas, representado pelos magos do Oriente, que manifesta sua adesão e aceitação ao senhorio de Jesus.

O texto evangélico referido é, além de longo, muito complexo, rico em teologia e simbologia e, sobretudo, belo e encantador. Infelizmente, ao longo da história, foi interpretado mais folcloricamente que teologicamente. Daí a dificuldade de apresentarmos uma interpretação mais fidedigna às intenções do autor, tendo em vista que as interpretações folclóricas, consolidadas pelo cristianismo oficial, estão muito enraizadas no imaginário popular.

Antes de tudo, devemos esquecer a linda e romântica imagem do presépio para compreendermos bem o texto bíblico, partindo dos primeiros versículos: “Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém (v. 1), perguntando: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (v. 2). Percebemos que Mateus, ao contrário de Lucas, não descreve o nascimento de Jesus, apenas o menciona como um fato já acontecido, dando, porém, informações importantes de tempo e espaço: nasceu em Belém, no tempo do rei Herodes.

A princípio, já é possível perceber a intenção do autor com essa informação: está surgindo uma alternativa de poder e realeza diferente do sistema vigente; há um deslocamento do centro para a periferia, ou seja, começa uma descentralização, o que vem a indicar que o poder, exercido até então na capital, está ruindo. É claro que é necessário o complemento da informação para termos clareza da oposição que o autor quer apresentar entre o poder centralizado e o projeto alternativo que surge: nasceu um rei para os judeus (v. 2), portanto, o poder de Herodes está sendo deslegitimado.

A outra grande novidade do relato está nos personagens apresentados pelo autor: alguns magos do Oriente (v. 1); Ora, os magos, em grego ma,goi – magoi, eram estudiosos orientais, responsáveis pela interpretação dos sonhos e pela leitura dos fenômenos naturais, mas também eram vistos como feiticeiros e charlatões, operadores da magia e sacerdotes de cultos pagãos da Pérsia e Babilônia,  portanto, pertenciam a uma categoria condenada pelo judaísmo e pelo cristianismo das origens; de fato, dois episódios nos ajudam a perceber o quanto a magia era condenada pela Bíblia: a saga de Balaão no Antigo Testamento (cf. Nm 22 – 23), e a tentativa de compra do dom do Espírito Santo pelo mago Simão no Novo Testamento (cf. At 8,9-24). Portanto, os magos eram pessoas abomináveis à luz da religião de Israel e dos primeiros cristãos.

Infelizmente, a tradição cristã revestiu os magos de características que não eram suas, ao considera-los como reis. Ao invés de ajudar na compreensão do texto, esse tratamento real aos magos distorceu completamente o sentido aplicado por Mateus ao criar personagens tão atípicos; de fato, a intenção do evangelista e sua comunidade ao apresentar esses personagens era exatamente mostrar que também aos distantes e sem reputação, Deus se revela e são exatamente esses os que com mais sinceridade buscam o verdadeiro rosto de Deus, tão difícil de ser reconhecido na pessoa de uma frágil e pobre criança, como as elites, religiosa e política, não foram capazes de reconhecer.

Está mais do que clara a oposição: os magos vieram de longe para adorar ao Deus verdadeiro. Foram a Jerusalém, mas lá não era possível encontrar o verdadeiro Deus porque a elite o tinha monopolizado; como gentios, eram barrados pelas paredes do templo que segregava os pagãos dos judeus piedosos.

Com a pergunta “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” (v. 2a), os magos afirmam que não reconhecem a autoridade de Herodes, ou seja, o consideram um rei ilegítimo; com a afirmação “nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (v. 2b), eles desafiam também a elite religiosa, mostrando que as paredes do templo já não conseguem mais conter esse Deus que se revela em todo o universo e a todos os povos. Portanto, os poderes político e religioso são ameaçados com o nascimento de Jesus.

Enquanto Herodes exercia o poder pela força e a violência, Jesus exercerá a sua autoridade pelo serviço; enquanto a relação com Deus, monopolizado pela elite religiosa, era mediada por uma casta sacerdotal corrompida e através de sacrifícios e ofertas, em Jesus é Deus se manifesta plenamente, sendo Ele mesmo que se oferece, ao invés de exigir oferendas. Por isso, “o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda Jerusalém” (v. 3), pois viam que um novo tempo estava surgindo, novas relações estavam sendo gestadas, uma sociedade alternativa estava nascendo, enfim, o Reino de Deus estava começando e, portanto, todos os reinos humanos deveriam desaparecer.

As preocupações de Herodes e de ‘toda Jerusalém’, compreendida como a elite política e intelectual predominantes, ou seja, sacerdotes e escribas, leva-os a um medíocre pacto (vv. 4-6), o qual se repetirá posteriormente e levará Jesus à morte, com as mesmas motivações: o medo que as autoridades tinham de um autêntico ‘Rei dos Judeus’. No nascimento, o pacto é feito entre Herodes e toda Jerusalém; na paixão será entre Pilatos e o sinédrio, mas são as mesmas forças, com as mesmas práticas. Como último recurso, Herodes tenta a fraude e o suborno, exigindo que os magos retornem a ele quando encontrassem o menino (vv. 7-8).

Ajudados pela Escritura e pelo próprio Herodes, os magos foram a Belém e lá, de fato, encontram o que estavam procurando: Jesus, Deus e luz que ilumina todos os povos, inclusive eles, operadores de práticas abomináveis aos olhos do judaísmo. A reação deles não poderia ser outra:  “Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande” (v. 10); a tradução do texto litúrgico, infelizmente, não consegue expressar suficientemente esse sentimento dos magos; o autor usa a expressão grega  evca,rhsan cara.n mega,lhn – ‘ekaressan karan megalen’, para a qual a tradução mais adequada é “alegraram-se com uma alegria grande”; é compreensível o exagero do autor, considerando o seu esforço em mostrar que Aquele que parecia distante e inacessível pode, de fato, ser contemplado e visto por todos. A luz de Deus, até então sufocada por uma religião ritualista e segregadora, ilumina o universo inteiro e o convida a alegrar-se com isso, pois significa o fim de todas as barreiras, o desmoronamento de todos os muros e sinais de separação.

Certamente, a alegria deles aumentou ainda mais “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11a). Por serem pagãos e magos, não podiam adentrar mais que o pátio do templo reservado para os gentios e, portanto, não podiam contemplar nem adorar verdadeiramente; agora, é tudo diferente: eles vêem porque é o próprio Deus quem se deixa ver e conhecer em Jesus, e na comunidade, personificada em Maria, mãe.

Essa passagem é muito importante, pois em todo o primeiro capítulo de Mateus houve uma centralidade e importância dadas a José; nessa cena, ele não é mencionado, mas apenas Maria; em Lucas, “os pastores encontraram Maria, José e o recém-nascido” (cf. Lc 2,16).  Certamente, Mateus teve uma intenção especial com esse detalhe: quis mostrar que Deus se deixa conhecer parcialmente na criação, através da estrela (vv. 2.9.10), na Escritura (vv. 4-6), mas de modo pleno, só é possível fazer uma verdadeira e autêntica experiência na comunidade reunida, personificada em Maria (v. 11).

É necessário recordar o que o texto diz, desde o início, sobre o objetivo dos magos: adorar o rei dos judeus (v. 2). Tinham empreendido um longo caminho, inclusive errando a rota, pois foram primeiro a Jerusalém, mas lá não o encontraram, devido a estrutura rígida e decadente da religião oficial. Somente deslocando-se para a periferia puderam, de fato, experimentar o Deus que tanto buscavam. Aqui, está o ápice do contraste que o evangelista quer apresentar: o templo perdeu seu sentido, Deus não habita mais nele; é necessário retirar-se para a periferia, inserir-se na comunidade e, assim, adorar e experimentar a beleza desse Deus que quer apenas misericórdia e amor, e não mais sacrifícios.

Quando perceberam que encontraram aquele que tanto buscavam, “ajoelharam-se diante dele e o adoraram” (v. 11). Essa atitude mostra que, finalmente, saciaram-se, encontraram sentido para suas vidas e, portanto, esvaziaram-se de si, oferecendo tudo o que haviam. Não ofereceram porque lhes fora exigido, como exigia o templo, mas porque sentiram-se confortados e correspondidos.

É claro que os presentes oferecidos pelos magos, ouro, incenso e mirra (v. 11b) são simbólicos e revelam, por um lado a identidade de Jesus e, por outro, a nova relação entre a humanidade e Deus. O ouro, revela que Jesus é rei enquanto recebe, mas ao mesmo tempo diz que todas nações podem participar do seu reino, enquanto foi oferecido por pagãos; o incenso revela sua divindade, ou seja, é o reconhecimento de que Ele é Deus, mas a humanidade não precisa mais dos sacerdotes do templo para se comunicar com Ele, pois qualquer pessoa e em qualquer lugar pode fazer isso. A mirra é o mais ambíguo dos três presentes: é, antes de tudo, o sinal da humanidade de Jesus, uma vez que era um perfume usado pelos judeus para embalsamar os cadáveres, como acontecerá com o corpo do próprio Jesus, quando morre; porém, no Cântico dos Cânticos, em diversas passagens, a mirra é citada como o perfume da esposa e, com muita probabilidade, Mateus quis dizer que a esposa privilegiada de Deus deixou de ser Israel e passou a ser toda a humanidade.

O texto termina com uma afirmação de muita relevância para a comunidade cristã e para todas pessoas de todos os tempos e lugares: os magos retornaram seguindo outro caminho (v. 12). Para viver essa nova relação com Deus, é necessário desviar-se das antigas estruturas, representadas por Herodes e o templo. Quem faz uma experiência autêntica com Deus, de fato, segue outro caminho, em grego a;llhj o`dou/ - ‘allés hodú’. Eles perceberam, finalmente, que Jerusalém só oferecia exploração, ganância e violência. A experiência com Deus faz o ser humano mudar a mentalidade e, consequentemente, o caminho a percorrer.

Concluindo, podemos deixar como reflexão permanente: uma vez que concluímos o tempo do Natal, quais os caminhos que iremos percorrer de agora em diante? Se serão os caminhos de sempre, ou seja, se continuamos com as mesmas maneiras de pensar e compreender as coisas, principalmente nossa relação com Deus e o próximo, Jesus não nasceu em nós... e, se não nasceu, não poderemos manifestá-lo ao próximo!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

domingo, janeiro 01, 2017

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA SANTA MÃE DE DEUS, MARIA – LUCAS 2,16-21


Apenas um versículo separa o texto evangélico da noite de Natal do indicado para a solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, celebrada hoje: Lc 2,15. Na noite de Natal, refletimos Lc 2,1-14, e para a solenidade de hoje o texto proposto é Lc 2,16-21. De início, temos convicção de que o Evangelho de hoje, Lc 2,16-21, não pode ser bem compreendido sem considerarmos o versículo que o antecede: "Quando os anjos os deixaram e foram para o céu, os pastores disseram uns aos outros: 'Vamos já a Belém para ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer'" (Lc 1,15).

Os pastores ficaram maravilhados com a Boa Notícia que o anjo lhes tinha anunciado: um Salvador nasceu para eles! (cf. Lc 2,10). Ao anúncio, seguiu-se o canto dos anjos glorificando a Deus (cf. 2,13-14). Portanto, era inevitável a surpresa e a perplexidade nos pobres pastores e, mais ainda, a dúvida, afinal, conforme os parâmetros religiosos da época, eles seriam os últimos a receber uma mensagem do céu, pois pertenciam à categoria das pessoas impuras e desprezíveis.

Uma das grandes novidades de Jesus, desde o nascimento, foi contradizer o que a sua religião tinha afirmado sobre o Messias. Ora, a religião tinha classificado as pessoas como puras e impuras, piedosas e pecadoras, imaginando que a vinda do Messias seria marcada pelo extermínio das classificadas como impuras e pecadoras, como os pastores, por exemplo. Ao invés de seguir as determinações da religião, Jesus prefere, desde o início, exatamente as categorias excluídas, contradizendo e frustrando muitas expectativas.

É nessa perspectiva que podemos e devemos compreender a reação dos pastores; a eles, a religião tinha dito que estavam fora de cogitação a salvação, eram gente da pior qualidade e, de repente, recebem um anúncio de salvação e sentem-se amados por Deus. Perplexos ainda, decidem ir a Belém para conferir e tirar todas as dúvidas (cf. Lc 2,15).

Diante de uma novidade sem precedentes, é impossível esperar, por isso “Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (v. 16). Chama a atenção a expressão ‘às pressas’, embora a tradução mais correta, de acordo com o texto original é ‘apressaram-se’; trata-se de uma maravilha que não pode ser adiada! Não há tempo a perder para quem passou toda a vida às margens, na exclusão. Para esses, a inclusão tem que ser agora, hoje! Por isso, foram às pressas.

Se os pastores ficaram surpresos com o anúncio do anjo, talvez ficaram mais ainda com o que viram em Belém: ‘encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura’ (v. 16b). Certamente, pensaram entre si: ‘Que Salvador é esse? Pequeno, frágil, em meio às moscas, com cheiro de esterco?’; ao mesmo tempo perceberam que se fosse um salvador conforme as expectativas da religião oficial, eles não conseguiriam sequer chegar perto. Aos poucos, foram compreendendo que um novo tempo com uma nova ordem estava surgindo, quem estava às margens estava passando para o centro.

Após contemplarem a cena, ainda maravilhados, os pastores “contaram tudo o que lhes fora dito sobre o menino” (v. 17), tornando-se assim, também mensageiros de salvação, portadores de Boa Notícia. Contaram que o anjo lhes aparecera anunciando o nascimento do Salvador, e que depois ‘uma multidão da corte celeste’ baixou perto deles glorificando a Deus e anunciando a paz a quem Ele ama (cf. Lc 2,10-14). Contaram coisas maravilhosas, de modo que quem os escutava também se maravilhava, ou seja, ficavam perplexos, admirados, pois, até então, não se tinha notícia de um Deus que fizesse conta de gente que não presta, conforme os padrões da religião da época.

O texto deixa uma lacuna: diz que os anjos encontraram Maria, José e o menino; em seguida afirma que ‘todos escutavam’ o que os pastores contaram. Inicialmente, podemos imaginar somente os três, mas na descrição da reação do auditório dos pastores, é provável que houvesse mais gente ao redor da manjedoura, sobretudo quando dá destaque à reação diferenciada de Maria: “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). No entanto, é mais plausível supor que o autor quer apenas evidenciar a reação diferenciada de Maria, ao invés de procurar outros ouvintes para os pastores.

A reação de Maria é mais profunda que a dos demais, afinal de contas, ela já estava habituada às maravilhas de Deus, pois foi a primeira destinatária do anúncio salvífico através do anjo Gabriel (cf. Lc 1,26-38), assistiu à exaltação de Isabel quando a visitou (cf. Lc 1,39-52). No entanto, ela não deixará de maravilhar-se, pois a trajetória de Jesus lhe trará outras surpresas, como no episódio da apresentação no templo, Maria e José ficaram admirados com o que se dizia do menino (cf. Lc 2,33). Mas, sua reação é diferenciada.

A reação de Maria é de discípula: “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). O verbo grego traduzido por meditar é sumba,llw – symbálô, o qual possui um significado muito mais profundo que meditar; literalmente significa ‘colocar junto’, ‘unir’, ‘reunir’. É exatamente aqui que Maria se sobressai sobre os demais ouvintes, porque ela guardava, ou seja, escutava com atenção tudo o que os pastores tinham dito, e juntava com o que já sabia: as palavras do anjo Gabriel e as declarações de Isabel.

Aquela que já era mãe, inicia agora uma nova etapa, o discipulado, e isso ela vai fazer ao longo de toda a vida de Jesus; ao invés de ver os fatos isoladamente, ela vai juntando cada um, unindo as peças e percebendo, no seu coração, que a história da salvação está sendo reescrita com novos parâmetros, uma inversão de ordem: os últimos, como ela e os pastores, passaram a ser os primeiros!

Tendo comprovado e visto que tudo o que lhes tinha sido anunciado era verdade, “os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus” (v. 20). Realmente, não faltavam motivos para os pobrezinhos dos pastores glorificarem a Deus! É importante lembrar que a alegria e o louvor são traços bem característicos de Lucas; quem faz a experiência do amor de Deus reage louvando e glorificando.

O louvor dos pastores é mais um indício de que a distância entre o céu e a terra foi eliminada: cantar glória a Deus era função exclusiva dos anjos no céu, que excepcionalmente desceram à terra e louvaram a Deus diante dos pastores (cf. Lc 1,13-14), mas logo retornaram para o céu. Agora, também aos pastores, os últimos da terra, tem esse direito. Quanta revolução: o que era privilégio dos primeiros do céu, se torna acessível aos últimos da terra!

No final, vem evidenciado o papel importante de José e Maria na educação de Jesus, levando para a circuncisão conforme previa a lei e, ao mesmo tempo, a liberdade que tinham para seguir mais a Deus que a lei que já não comunicava mais a vontade de Deus: “deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (v. 21). Ao dar um nome contrário ao que lei previa, nome de parente próximo, Maria e José se declaram a favor da nova história que Deus está começando a escrever com a colaboração de homens e mulheres, principalmente os mais simples e humildes.


O significado do nome é “Deus salva”, porque agora a salvação entrou definitivamente na história, como o anjo tinha anunciado: “Hoje, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (cf. 2,11). Portanto, hoje, especialmente, é mais do que justo recordarmos a Mãe desse Salvador, e seguir seu exemplo de discípula fiel.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues