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sexta-feira, abril 24, 2026

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10,1-10 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da Páscoa emprega uma passagem do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se autoapresenta como o único, autêntico e bom pastor das ovelhas. Por isso, este domingo ficou conhecido como o “Domingo do bom pastor” e, oportunamente, instituído como o “Dia mundial de oração pelas vocações”, pelo então Papa Paulo VI, no ano de 1964. Embora o evangelho deste dia seja sempre tirado do mesmo capítulo – Jo 10 –, alternam-se os textos, conforme a dinâmica do ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, faz-se a leitura da primeira parte do capítulo – Jo 10,1-10 –, que funciona como introdução ao amplo discurso de Jesus, o qual ocupa praticamente todo o capítulo. Por sinal, nestes versículos lidos hoje, Jesus ainda não se apresenta explicitamente como o pastor, mas como a porta única por onde devem passar ovelhas e pastores. Com efeito, ele só começa a ser apresentado como pastor a partir do primeiro versículo que sucede ao texto de hoje (Jo 10,11). Por outro lado, o termo ovelhas (em grego: πρόβατα – próbata) aparece sete vezes no texto de hoje, e é em função das ovelhas que o pastor existe. Como sempre, recordamos que a compreensão adequada do texto exige uma consistente contextualização, como será feita a seguir.

Dadas as particularidades do texto, faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho. Como se sabe, a imagem de Jesus como bom pastor difundiu-se amplamente no cristianismo, desde os seus primórdios. Muito cedo, tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem muito bonita, que evoca proteção e cuidado. Por isso, sempre que se fala em bom pastor, recorda-se logo dessa imagem. No entanto, ela não corresponde ao que é retratado no décimo capítulo do Evangelho de João. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade, na perspectiva da comunidade joanina. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas. E Jesus, de fato, é um pastor que humaniza e educa para a liberdade.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Aliás, em praticamente todos os povos do Antigo Oriente Próximo, no qual Israel estava inserido, a imagem do pastor possuía essa mesma conotação. Desde o Antigo Testamento, essa figura foi associada a Deus e também aos líderes que exerciam funções de guia e governo sobre o povo, como reis e sacerdotes, sobretudo. Contudo, devido às infidelidades e ao descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, tornando-se alvo das denúncias proféticas. Uma das mais contundentes é a do profeta Ezequiel: ao lamentar-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, em vez de apascentar o rebanho (Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo de suas ovelhas (Ez 34,11). Jesus retoma e atualiza a perspectiva do profeta: ao apresentar-se como o único e autêntico pastor, coloca em xeque os sacerdotes do templo e os mestres da Lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque atingiam diretamente os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por agentes do sagrado que, em vez de pastores verdadeiros, buscavam a si mesmos. A prova do incômodo causado por seu discurso aparece na reação dos líderes judeus: alguns o acusavam de estar possuído por um demônio (Jo 10,20), enquanto outros procuravam prendê-lo (Jo 10,39). Assim, a mensagem de Jesus se revelou uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si mesmos e aos seus próprios interesses, explorando o povo em vez de protegê-lo.

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito entre Jesus e os fariseus (Jo 9,1-41). Por sinal, o episódio do cego de nascença – o sexto dos sete sinais realizados por Jesus no Evangelho de João – foi lido no quarto domingo da Quaresma deste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A. Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deixou intimidar por eles e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo. O cenário do episódio é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.

A fórmula solene de introdução empregada pelo autor (em grego: αμήναμήν – amén, amén) traduzida por «Em verdade, em verdade» (v. 1), já indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus, funcionando como uma chamada de atenção aos interlocutores para a relevância do que está para ser dito. Nos evangelhos sinóticos, emprega-se apenas um “em verdade” na fórmula, que também é bastante frequente e sempre introduz declarações importantes de Jesus. O duplo “em verdade”, portanto, é exclusividade de João. Tudo o que é introduzido por essa fórmula deve ser levado muito a sério pela comunidade cristã. É sempre um ensinamento com autoridade, irrevogável. Logo, o conceito de pastor apresentado no décimo capítulo de João é vital para a comunidade cristã; é algo que não pode ser esquecido e nem distorcido. À introdução solene, segue a primeira declaração: «Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante» (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores diretos, os fariseus (Jo 9,40-41); assim, ele aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrões e bandidos.

O termo que o texto do lecionário traduz por “redil” (em grego: αυλή – aulê) significa exatamente pátio ou átrio; com isso, percebe-se que Jesus se refere ao templo de Jerusalém, dominado por uma casta sacerdotal ilegítima e corrupta, que tinha tomado o lugar do verdadeiro pastor, que é o próprio Deus e seu Filho, Jesus. Também a palavra assaltante não corresponde à ideia do autor; inclusive a prática de assaltar já está contemplada na palavra ladrão. Ao invés de assaltante o termo mais adequado é “bandido”, pois corresponde melhor à palavra grega empregada pelo autor (ληστής – lestês), que designa mais a pessoa que pratica violência do que quem assalta. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia. Ora, as denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham transformado «a casa do Pai em uma casa de negócio» no início do Evangelho (Jo 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta, por isso, são ilegítimos e devem ser destituídos.

Categoricamente, ele afirma que «quem entra pela porta, é o pastor das ovelhas» (v. 2), ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, que eram ladrões e bandidos. Obviamente, o pastor é ele mesmo, como vai se autodefinir na continuação do discurso (vv. 11.14). Aqui, no entanto, trata-se de uma identificação ainda implícita. Contudo, é óbvio que é ele o pastor das ovelhas. Somente ele recebeu permissão do Pai para comunicar-se diretamente com as ovelhas, que é a humanidade inteira. E a comunicação estabelecida entre Jesus e as ovelhas é altamente libertadora e humanizante, marcada pela confiança e abertura. Por sinal, a Jesus, o único pastor autêntico, «o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora» (v. 3). Obviamente, é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O porteiro, nesta imagem, é o próprio Deus, o Pai. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida de modo privilegiado no Evangelho. Com efeito, quem realmente escuta o Evangelho não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso ou político, mesmo que esse se autodenomine cristão. Por isso, assim como a comunidade joanina, também as comunidades de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem rechaçar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico «chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora», ou seja, não trata o povo como massa de manobra, mas o tira do anonimato, valorizando a cada pessoa em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. Como se sabe, chamar alguém pelo nome significa conhecer a sua identidade e reconhecer seu valor e dignidade. E chamar pelo nome pressupõe o conhecimento recíproco, marcado pela intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz. Inclusive, o evangelista emprega aqui o mesmo verbo do êxodo (em grego: ἐξάγω – exagô), indicando que a ação de Jesus conduzir as ovelhas para fora é semelhante à de Deus libertando o povo hebreu da escravidão do Egito. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão nociva para o povo quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, «ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz» (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para também começar a dominar. Domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, ele “caminha à frente” sem controlar e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de vida e libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica. Antes de tudo, é para a liberdade que ele aponta e conduz. Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que nela não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores nem dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga instituição religiosa, Jesus não propõe nenhuma forma de poder e dominação para sua comunidade. Ele quer apenas que a comunidade seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado e imposto em seu nome.

Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (Jo 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, «não entenderam o que Jesus queria dizer» (v. 6) com essa comparação ou parábola. Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (Jo 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta: «Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas» (v. 7). Ao apresentar-se como a porta, ele revela sua identidade divina, o que se evidencia pelo uso da expressão “eu sou” (em grego: ἐγώ εἰμί – egô eimí). Trata-se do nome de Deus no Êxodo, ao revelar-se a Moisés (Ex 3,14). Naquela ocasião, Deus revelou-se como o “Eu sou” da libertação, garantindo fidelidade e presença junto ao seu povo, para vencer a opressão do Egito, sob a mediação de Moisés. No Novo Testamento, o Evangelho de João é o escrito que mais valoriza essa expressão como revelação da identidade divina de Jesus, sobretudo nos seus principais discursos. De fato, Jesus é a revelação plena do “Eu sou”, à medida em que, enquanto o Filho, é o único mediador entre o Pai e a humanidade. Por isso, ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois ele e seu Evangelho são o critério único de pertença ao Pai.

A denúncia aos que se autointitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema: «todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram» (v. 8). Os que vieram antes deles são os mesmos que o profeta Ezequiel já tinha denunciado, mas continuaram atuando mesmo depois da denúncia. Finalmente, eles estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida em que a voz de Jesus vai sendo ouvida no mundo, através do Evangelho. Portanto, quanto mais o Evangelho for ouvido, mais emancipada se torna a comunidade, e mais humanas se tornam as pessoas que se deixam conduzir pela única Palavra que liberta e gera vida. Por isso, é tão necessário o discernimento na vida cristã, para que a única voz a ser ouvida seja a de Jesus e essa voz se torne cada vez mais inconfundível.

À medida em que repete sua autoafirmação como a porta, Jesus ressalta a falência da instituição religiosa de Israel, incapaz de gerar vida e promover libertação: «Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem» (v. 9). Aqui, ao se autoafirmar como porta, mais uma vez, ele se apresenta implicitamente como o bom pastor, aquele que é capaz de fornecer boa pastagem às ovelhas, como retratado no conhecido Salmo 22. Como o Evangelho e a Lei são inconciliáveis, “só será salvo quem entrar por ele”; somente assim alguém poderá “entrar e sair” encontrando a pastagem necessária para a vida. Seu programa de vida é marcado pela liberdade e só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, significa extrema oposição à Lei e ao sistema religioso que aprisionava e até matava em nome de Deus. A pastagem encontrada quando se passa por ele é a liberdade e a vida plena e abundante que ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona, enquanto a Lei interpretada e aplicada pelos fariseus, mestres e sacerdotes impedia o acesso. A vida em abundância não significa uma vida para o além, mas a realização plena do ser humano em sua vida neste mundo, a qual não será destruída nem mesmo pela morte.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de normas e doutrinas pré-concebidas, mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação e nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam está de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente. Enfim, que nossas comunidades sejam espaço onde as pessoas possam viver em liberdade, caminhando com os próprios pés sob a orientação da única voz autêntica: o Evangelho de Jesus Cristo, o Crucificado que ressuscitou e caminha à nossa frente. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, abril 20, 2024

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,11-18 (ANO B)


O evangelho do quarto domingo da páscoa é sempre tirado do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se auto apresenta como o único, bom e autêntico pastor das ovelhas. Em cada ano, se lê um trecho diferente, mas sempre do mesmo capítulo, apresentando sempre a imagem do pastor a Jesus. Por isso, esse domingo ficou tradicionalmente conhecido como o «domingo do Bom Pastor». Por causa disso, de modo muito oportuno, o então Papa Paulo VI o instituiu também como o «dia mundial de oração pelas vocações». Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico B, o texto específico é Jo 10,11-18. Por sinal, de todo o capítulo, esses são os versículos que mais insistem na apresentação de Jesus como pastor. O cenário da narrativa é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo, durante uma das festas judaicas de peregrinação, embora não fique claro qual delas, se a festa das tendas ou a da dedicação do templo (cf. Jo 7,1-10; 10,22). É importante perceber que o evangelista João faz as principais manifestações de Jesus coincidirem com as festas de Israel para enfatizar sua condição de oposição e alternativa à estrutura religiosa do seu tempo.

Faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho. A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente em nada ao décimo capítulo do Evangelho de João. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada «parábola da ovelha perdida» (Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas. Jesus é um pastor que humaniza e educa para a liberdade.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (Ez 34,11). Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após esse discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protegê-lo.

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito entre Jesus e os fariseus (Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo. O cenário do episódio é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.

Feita a contextualização, olhemos para o texto, cuja profundidade é evidenciada já a partir do primeiro versículo: «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas» (v. 11). Com a expressão “Eu sou” (em grego: Ἐγώ εἰμι – egô eimí) Jesus recorda a sua condição divina, pois essa é a fórmula clássica de revelação de Deus, como tinha se revelado a Moisés (cf. Ex 3,14). O evangelista João tem um grande zelo por essa expressão, e só permite que ela seja pronunciada por Jesus, em sua obra. Assim, ele afirma que Jesus possui a identidade libertadora de Deus, e é a libertação e vida plena que ele está oferecendo, ao revelar-se como pastor autêntico. Por sinal, a expressão «bom pastor» não expressa tudo o que o texto diz na língua original. O evangelista emprega um termo que significa mais do que bondade, para expressar a qualidade de pastor que é Jesus. O termo empregado significa belo (em grego: καλός – kalós), não em relação às aparências, mas no sentido de completude, autenticidade, perfeição, realidade única; é o mesmo adjetivo empregado para qualificar o vinho novo das bodas de Caná (cf. Jo 2,10), que representa a superioridade da nova aliança em relação à antiga. Possui, portanto, uma função substitutiva. Isso quer dizer que só Jesus é pastor autêntico. Não existem outros pastores além dele; se existiram antes, perderam a validade depois dele. E a história mostra que os que vieram antes dele eram mais mercenários do que pastores.

E o que explica a qualidade única do pastoreio de Jesus é a capacidade de dar a vida pelas ovelhas, o que pressupõe um amor ilimitado. De fato, a primeira atitude que justifica a bondade ou beleza de Jesus enquanto pastor é a doação da vida. Ele é pastor belo/bom porque dá a vida, antes de tudo. E a palavra-chave de todo o texto é exatamente o verbo dar (em grego: τίθημι), repetido cinco vezes nesta passagem (vv. 11.15.17.18). Esse verbo pode ser traduzido também como doar, oferecer, entregar. No versículo 18, esse verbo aparece duas vezes, sendo que numa delas está traduzido por entregar. É importante recordar que, ao apresentar-se como aquele que dá a vida, Jesus não se refere apenas a sua morte de cruz. Na verdade, a morte na cruz foi o resultado ou consequência do seu doar vida continuamente. Durante toda a sua vida, ele deu vida às pessoas com quem se encontrou, principalmente as mais necessitadas. A sua vida foi uma doação contínua de vida. Ele doou vida aos pecadores e pecadoras a quem acolheu, aos doentes a quem curou, aos possuídos a quem libertou. Reduzir sua doação de vida à sua morte na cruz seria negligenciar sua missão de enviado do Pai para fazer plenamente sua vontade e revelar seu rosto com transparência. E o Pai o enviou para dar vida ao mundo. A morte na cruz, portanto, foi consequência de sua fidelidade, do seu dar-se plenamente, por amor. De fato, só o amor motiva alguém a fazer a da vida um dar-se contínuo, como ele fez. E a vida de quem dá vida não se acaba, se torna sempre mais viva, nem a morte consegue destruí-la, é vida que se eterniza. Por isso, dar a vida deve ser um imperativo também quem acredita em Jesus e recebeu vida em seu nome, quem vivificou-se pelo seu amor, pelas suas palavras.

Após apresentar-se como pastor bom/belo, capaz de dar vida, Jesus mostra o seu oposto, o que não deve ser seguido nem imitado entre os seus seguidores: «O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa» (v. 12). O termo mercenário, que se tornou tão pejorativo, equivale simplesmente a empregado, assalariado; aqui, representa a hierarquia religiosa de Jerusalém. Enquanto o pastor cuida das ovelhas por amor, a ponto de dar a vida por elas, o mercenário cumpre suas funções por pagamento e não chega a arriscar a vida por elas. Em situação de perigo, ele deixa o rebanho a mercê, «pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas» (v. 13). Aqui, Jesus chega ao ponto alto de sua crítica à hierarquia religiosa de Jerusalém. Aos sacerdotes do templo não importava a situação do povo, pois eles pensavam apenas nas ofertas que recebiam. Viviam uma relação meramente mercantilista, sem nenhuma sensibilidade para o cuidado do povo, pois não eram movidos pelo amor. Por isso, deixavam as ovelhas à mercê dos lobos. O lobo é imagem das forças de morte, exploração e injustiça que ameaçam a comunidade e a humanidade de um modo geral. Nesse contexto específico, representa o império romano. Ao invés de combatê-lo, a religião comandada por mercenários prefere aliar-se ou fugir dele. No caso da religião praticada no tempo de Jesus na Palestina, havia conivência e conveniência entre as autoridades religiosas e o império romano, de modo que mercenário e lobo conviviam muito bem, espoliando as pobres ovelhas de Israel. É importante recordar que as denúncias de Jesus às estruturas da sua época são válidas para todos os tempos.

Na sequência, Jesus explica como se dá sua relação de pastor com as ovelhas: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem” (v. 14). Esse conhecimento recíproco sempre foi desejado por Deus ao longo da história: ele conheceu a Israel e deixou-se conhecer por ele, mas Israel rejeitou o conhecimento (Os 2,22; 4,1; 6,3.6; Na 1,8; Jr 31,34), por isso perdeu o seu rumo. Conhecer, na linguagem bíblica, não se trata de um ato cognitivo, mas de uma relação íntima e recíproca, motivada pelo amor, semelhante a de Jesus com o próprio Pai«Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas» (vv. 14-15). A intimidade de Jesus com as suas ovelhas é atestada pela sua capacidade de amar até dar a vida. Enquanto os sacerdotes do templo pensavam relacionar-se com Deus através do sangue de animais derramado em sacrifício, Jesus se relaciona através do conhecimento recíproco, ou seja, mediante o amor. E esse modelo de relação, ele quer universalizar: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir» (v. 16a). Aqui está a abertura de horizonte. Pelas circunstâncias, o pastoreio de Jesus começa por Israel – o redil ao qual o texto se refere –, libertando o povo dos mercenários (dirigentes religiosos) e enfrentando o lobo (império romano). Mas é necessário, através da comunidade cristã, estender essa missão a todo o universo, ao longo da história.

A abertura universalista recorda que nenhuma religião pode delimitar o alcance do amor de Deus: também as pessoas que não fazem parte do redil pertencem a Deus e são amadas por ele. E, como diz Jesus, também «elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor» (v. 16b). Temos aqui o “sonho da unidade” sendo plantado por Jesus. A expressão «um só rebanho e um só pastor» não significa simplesmente a adesão de todo o mundo a um único sistema religioso, submetendo-se a uma única liderança. Significa, acima de tudo, um projeto de fraternidade universal, com inclusão, tolerância, justiça e solidariedade; é um mundo novo, construído a partir do amor. Par isso, é necessário que a voz inconfundível de Jesus ressoe em todo o universo e seja ouvida, mas expressa pela linguagem do amor, jamais através de proselitismos e imposição. De fato, a voz de Jesus não é um som, não é um eco, mas é o seu estilo de vida, seu jeito de amar, enfim, é a sua própria pessoa. Espalha essa voz no mundo, portanto, quem vive e ama à sua maneira, e não quem faz proselitismos em templos, praças e esquinas, repetindo fórmulas e mensagens ameaçadoras. A voz de Jesus só pode ser ouvida se pronunciada com amor. Por isso, não é tão difícil, nos dias atuais, identificar onde essa voz deixa de ser pronunciada.

Jesus volta a ressaltar sua unidade com o Pai: «É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente» (v. 17). Ora, é esse amor recíproco e incondicional que fundamenta e sustenta a relação entre Jesus e o Pai, e que é oferecido a toda a humanidade. Ao Pai, agrada a generosidade de Jesus: ele dá a sua vida livremente; a recebe novamente porque sabe que dar a vida por amor é, na verdade, estendê-la, torná-la eterna. E a vida eternizada pelo amor se torna indestrutível, resiste até mesmo à morte. Por isso, de modo bastante categórico, Jesus declara: «Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo» (v. 18a). Não se trata de um mero entreguismo, nem de destino, nem de acidente; é consequência e consciência de suas escolhas, e sua grande escolha foi viver ilimitadamente o amor, e o amor incondicional não mede consequências. A expressão «tenho o poder de entregá-la e de recebê-la novamente» (v. 18b) significa a plena consciência de estar amando com um amor igual ao do Pai. Inclusive, foi isso que o próprio Pai lhe pediu: «essa é a ordem que recebi do meu Pai» (v. 18c). Como se vê, Jesus recebeu do Pai a ordem de amar até dar a vida. É isso o que ele pede aos seus seguidores e seguidoras de todos os tempos: viver em profundo amor entre si e com ele, de modo que a comunidade cristã seja, de fato, a primeira instância do sonho de «um só rebanho e um só pastor», como embrião de um mundo novo.

Que o Pastor Bom, autêntico e único, inspire vocações que façam ressoar a sua voz no mundo, suscitando colaboradores e colaboradoras para o seu pastoreio. Em tempos tão difíceis, é essencial que sua voz seja ouvida, sobretudo no combate aos mercenários e lobos que se tornam cada vez mais agressivos e numerosos. E para colaborar com o pastoreio de Jesus é necessário deixar-se conhecer por ele, deixar-se amar e segui-lo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró- RN

sábado, abril 29, 2023

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DE PÁSCOA – JOÃO 10,1-10 (ANO A)

 


Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da Páscoa utiliza um trecho do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se auto apresenta como o único, autêntico e bom pastor. Por isso, este domingo ficou conhecido como o «Domingo do bom pastor» e, oportunamente, instituído como o «Dia mundial de oração pelas vocações», pelo Papa Paulo VI, no ano de 1964. Embora o evangelho deste dia seja sempre tirado do mesmo capítulo – Jo 10 –, alternam-se os textos, conforme o ciclo litúrgico vigente. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, faz-se a leitura da primeira parte do capítulo: Jo 10,1-10. Por sinal, nestes versículos Jesus ainda não é diretamente apresentado como o pastor, mas como a porta única por onde devem passar ovelhas e pastores. Ele só começa a ser apresentado como pastor a partir do primeiro versículo que sucede ao texto de hoje (Jo 10,11). Curiosamente, o termo ovelhas (em grego: πρόβατα – próbata) aparece sete vezes no texto de hoje, e é em função das ovelhas que o pastor existe.

Faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho. A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente em nada ao décimo capítulo do Evangelho de João. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada «parábola da ovelha perdida» (Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas. Jesus é um pastor que humaniza e educa para a liberdade.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (Ez 34,11). Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após esse discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protegê-lo.

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito entre Jesus e os fariseus (Jo 9,1-41). Por sinal, o episódio do cego de nascença – o sexto dos sete sinais realizados por Jesus no Evangelho de João – foi lido no quarto domingo da Quaresma deste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A. Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo. O cenário do episódio é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.

A fórmula solene de introdução empregada pelo autor, (em grego: αμήν, αμήν – amén, amén) traduzida por «Em verdade, em verdade» (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus, funcionando como uma chamada de atenção aos interlocutores para a importância do que está para ser dito. Tudo o que é introduzido por essa fórmula deve ser levado muito a série pela comunidade cristã. É sempre um ensinamento com autoridade. Logo, o conceito de pastor apresentado no décimo capítulo de João é vital para a comunidade cristã; é algo não pode ser esquecido e nem distorcido. À introdução solene, segue a declaração: «Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante» (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores diretos, os fariseus (9,40-41); assim, ele aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrões e bandidos.

O termo que o texto do lecionário traduz por «redil» (em grego: αυλή – aulê), significa exatamente pátio ou átrio; com isso, percebe-se que Jesus se refere ao templo de Jerusalém, dominado por uma casta sacerdotal ilegítima, que tinha tomado o lugar do verdadeiro pastor, que é o próprio Deus e seu filho, Jesus. Também a palavra assaltante não corresponde à ideia do autor; inclusive a prática de assaltar já está contemplada na palavra ladrão. Ao invés de assaltante o termo mais adequado é «bandido», pois corresponde melhor à palavra grega empregado pelo autor (ληστής – lestês), a qual designa mais a pessoa que pratica violência. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia. Ora, as denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada «purificação do templo» (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar «a casa do Pai em uma casa de negócio» no início do Evangelho (Jo 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta.

Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, «quem entra pela porta, é o pastor das ovelhas» (v. 2), e esse alguém é o próprio Jesus, como ele mesmo vai se autodefinir na continuação do discurso (vv. 11.14). De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para comunicar-se diretamente com as ovelhas, o povo. E a comunicação estabelecida entre Jesus e as ovelhas – a humanidade inteira – é altamente libertadora e humanizadora. A Jesus, o único pastor autêntico, «o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora» (v. 3). Obviamente, é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O porteiro, nesta imagem, é o próprio Deus, o Pai. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho, não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso ou político, mesmo que esse se autodenomine cristão. Assim como a comunidade joanina, também as de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem repulsar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico «chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora», ou seja, não trata o povo como massa de manobra, mas o tira do anonimato, valorizando a cada pessoa em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. Como se sabe, chamar alguém pelo nome significa conhecer a sua identidade e reconhecer seu valor e dignidade. E chamar pelo nome pressupõe o conhecimento recíproco, marcado pela intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. «Conduzir para fora» é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz. Inclusive, o evangelista emprega aqui o mesmo verbo do êxodo (em grego: ἐξάγω – exagô), indicando que a ação de Jesus conduzir as ovelhas para fora é semelhante a de Deus libertando o povo hebreu da escravidão do Egito. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão nociva para o povo quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, «ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz» (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para começar a dominar também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele «caminha à frente» sem controlar e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica. Antes de tudo, é para a liberdade que ele aponta e conduz. Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga instituição religiosa, Jesus não propõe nenhuma forma de poder e dominação para sua comunidade. Ele quer apenas que a comunidade seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado em seu nome.

Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (cf. 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, «não entenderam o que Jesus queria dizer» (v. 6) com essa comparação ou parábola. Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta (v. 7). De fato, como único mediador entre a humanidade e o Pai, Ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois é Ele e seu Evangelho o critério único de pertença ao Pai. A denúncia aos que se auto intitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema (v. 8); esses estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida em que a voz de Jesus vai sendo ouvida, através do Evangelho. Portanto, quando mais o Evangelho for ouvido, mais emancipada se torna a comunidade, e mais humanas se tornam as pessoas que se deixam conduzir pela única Palavra que liberta e gera vida.

À medida em que repete sua autoafirmação como a porta (v. 9), Jesus ressalta a falência da instituição religiosa de Israel. Como o Evangelho e a lei são inconciliáveis, «só será salvo quem entrar por Ele»; somente assim alguém poderá «entrar e sair» encontrando a pastagem necessária para a vida. Seu programa de vida é marcado pela liberdade e só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por Ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, oposição à Lei e ao sistema religioso que aprisionava e até matava em nome de Deus. A pastagem que se encontra quando passa por Ele é a liberdade e a vida plena e abundante que Ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona e da qual a lei privava o ser humano. Não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser humano em sua vida neste mundo, a qual não será destruída pela morte.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de normas e doutrinas pré-concebidas mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação e nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam está de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente. Enfim, que nossas comunidades sejam espaço onde as pessoas possam viver em liberdade, caminhando com os próprios pés sob a orientação da única voz autêntica: o Evangelho de Jesus Cristo, o Crucificado que Ressuscitou e caminha à nossa frente. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, abril 21, 2018

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,11-18




Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da páscoa se serve do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se auto apresenta como único, verdadeiro e bom pastor. Por isso, esse domingo foi batizado como o “domingo do bom pastor”. Nesse ano, o texto específico é Jo 10,11-18, versículos que contém, de fato, a apresentação de Jesus como pastor, uma vez que nos primeiros versículos ele tinha se apresentado simplesmente como a “porta das ovelhas” (cf. Jo 10,1-9).

A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente ao que Jesus fala de si no Quarto Evangelho. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque o conhece verdadeiramente e se deixa conhecer.

É importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após o seu discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.

Ainda a nível de contexto, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo episódio, também polêmico, da cura do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41). É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir do medo.

Após apresentar-se como porta das ovelhas, eis que ele se apresenta como pastor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (v. 11). Jesus fala de modo claro, associando o discurso à práxis; diz que é o pastor bom e porque o é: porque dá a vida por suas ovelhas. A tradução mais justa é “Eu sou o pastor belo”; o evangelista emprega aqui um adjetivo que corresponde mais a belo do que a bom; o belo (em grego: o` kalo,j – hó kalós) tem um sentido mais profundo: não se trata de uma qualidade, mas da sua própria essência. Significa que Jesus é o modelo único de pastor. Só há um critério para verificar a bondade-beleza do pastor: a capacidade de dar a vida por suas ovelhas. A vida, nos escritos joaninos, está intrinsecamente relacionada ao ato de amar. Portanto, dar a vida significa amar sem limites. Essa é a essência do pastor belo.

Após apresentar-se como pastor, Jesus apresenta a sua antítese: “O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa” (v. 12). O termo mercenário (em grego: misqwto.j – mistotós), que se tornou tão pejorativo, equivale simplesmente a empregado, assalariado. Enquanto o pastor cuida das ovelhas por amor, a ponto de dar a vida por elas, o mercenário cumpre suas funções por pagamento e não chega a arriscar a vida por elas. Em situação de perigo, ele deixa o rebanho a mercê, “pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas” (v. 13). Aqui, Jesus chega ao ponto alto de sua crítica à hierarquia religiosa de Jerusalém. Aos sacerdotes do templo, não importava a situação do povo, eles pensavam apenas nas ofertas que recebiam.

O lobo representa todas as forças de morte, exploração e injustiça que ameaçam a comunidade e a humanidade de um modo geral. Ao invés de combate-lo, a religião comandada por mercenários prefere aliar-se ou fugir dele. No caso da religião praticada no tempo de Jesus na Palestina, havia conivência e conveniência entre as autoridades religiosas e o império romano, de modo que mercenário e lobo conviviam muito bem, espoliando as pobres ovelhas de Israel. É importante lembrar que todas as denúncias feitas por Jesus às estruturas do seu tempo foram, ao mesmo tempo, alerta para que os seus seguidores não repetissem tais erros.

Na sequência, Jesus explicita como se dá sua relação de pastor com as ovelhas: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem” (v. 14). Esse conhecimento recíproco sempre foi desejado por Deus ao longo da história: conheceu a Israel e deixou-se conhecer por ele, mas Israel rejeitou o conhecimento (cf. Os 4,6), por isso perdeu o seu rumo. Conhecer, na linguagem bíblica, não se trata de um ato cognitivo, mas de uma relação íntima e recíproca, motivada pelo amor, semelhante à relação de Jesus com o próprio Pai: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas” (vv. 14-15). A intimidade de Jesus com os seus é atestada pela sua capacidade de amar até dar a vida.

Enquanto os sacerdotes do templo pensavam relacionar-se com Deus através do sangue de animais derramado em sacrifício, Jesus se relaciona através do conhecimento recíproco, ou seja, através do amor. E esse modelo de relação, ele quer universalizar: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir” (v. 16a). Aqui está a abertura de horizonte. Por necessidade, o seu pastoreio começa por Israel, libertando o povo dos mercenários (dirigentes religiosos) e enfrentando o lobo (império romano). Mas é necessário, através da comunidade cristã, estender essa missão a todo o universo.

Nenhuma religião pode delimitar o alcance do amor de Deus: também aqueles que não estão no redil pertence a Deus e são amados por ele. Como diz Jesus, também “elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (v. 16b). A voz inconfundível de Jesus deve ressoar em todo o universo, expressa na linguagem do amor, jamais através de proselitismos ou ritos. Sobre o “sonho da unidade”, fazemos a seguinte observação: ao invés de um “só rebanho e um só pastor”, a tradução correta seria “um só rebanho, um só pastor”, sem a conjunção aditiva, como no texto grego (mi,a poi,mnh( ei-j poimh,n – mía poímne, eis poimén), ressaltando a unidade entre o pastor e o rebanho, a ponto de serem uma coisa só; o pastor é rebanho, o rebanho é pastor, é essa a relação ideal na comunidade cristã, cujo pastor único é Cristo, mas está tão unido aos seus como a videira aos ramos (cf. Jo 15,1-5). A tradução “um só rebanho e um só pastor” foi usada pela primeira vez por São Jerônimo, na Vulgata, e adotada pela Igreja para ajudar a fundamentar a autoridade papal.

Jesus volta a ressaltar sua unidade com o Pai: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente” (v. 17). Ora, é esse amor recíproco e incondicional que fundamenta e sustenta a relação entre Jesus e o Pai, e que é oferecido a toda a humanidade. Ao Pai, agrada a generosidade de Jesus: ele dá a sua vida livremente; a recebe novamente porque sabe que dar a vida por amor é, na verdade, estendê-la, torná-la eterna. A vida eternizada pelo amor se torna indestrutível, resiste até mesmo à morte. Por isso, de modo bastante categórico, Jesus declara: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo” (v. 18a). Não se trata de um mero entreguismo, nem de destino, nem de acidente; é consequência de suas escolhas, e sua grande escolha foi viver ilimitadamente o amor, e o amor incondicional não mede consequências.

A expressão “tenho o poder de entregá-la e de recebê-la novamente” (v. 18b) significa a plena consciência de estar amando com um amor igual ao do Pai. Inclusive, foi isso que o próprio Pai lhe pediu: “essa é a ordem que recebi do meu Pai” (v. 18c). Jesus recebeu do Pai a ordem de amar até dar a vida, obedeceu porque viviam uma relação de amor recíproco, a ponto de serem um só, como ele mesmo diz na continuação desse discurso: “Eu e o Pai somos um” (v. 30). É isso que ele pede aos seus seguidores de todos os tempos: viver em profundo amor entre si e com ele, de modo que a comunidade cristã seja “um só rebanho, um só pastor”, ou seja, uma comunidade de amor.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró- RN

REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (ANO A)

  Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua ...