sábado, maio 27, 2017

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO – MATEUS 28,16-20



Neste domingo da ascensão, a liturgia nos oferece o texto evangélico de Mt 28,16-20, para nossa a reflexão e meditação. É importante destacar, logo no início, que o evangelho segundo Mateus não descreve a ascensão. Aliás, essa vem descrita apenas na obra lucana (cf. Lc 24,50-51; At 1,6-11) e no acréscimo redacional de Marcos (cf. Mc 16,19). Em Mateus, o que é narrada é a manifestação do Ressuscitado, como lemos hoje, com ênfase para a sua presença constante e perene na comunidade.

Podemos dizer que o texto de hoje é uma síntese conclusiva de todo o evangelho segundo Mateus. À medida que escreve suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fazem questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado. É isso que percebemos hoje. No entanto, mesmo supondo uma familiaridade com todo o evangelho, a principal chave de interpretação para o evangelho de hoje, está no relato do sepulcro vazio e ressurreição (cf. Mt 28,1-10), com as respectivas manifestações de um anjo do Senhor (v. 2) e do próprio Jesus (v. 9). Tanto o anjo quanto Jesus haviam dado às mulheres a missão de convencerem os discípulos a retornarem à Galiléia para, ali, fazerem eles também a experiência do encontro com o Ressuscitado.

Podemos, pois, compreender porque “Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus tinha indicado” (v. 20). A menção aos onze recorda a perda de Judas, o qual já não fazia mais parte do grupo. Mas, tem também um outro significado: o número doze representava um projeto de reconstituição do antigo Israel, alimentando a ideologia nacionalista e triunfalista. Esse projeto faliu, devido a rejeição de Israel, levando Jesus ao escândalo da cruz. À luz da ressurreição, a comunidade mateana, fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos, percebe que a missão universal não precisa mais ser configurada segundo as tradições de Israel. Por isso, o número onze não significa incompletude na comunidade, mas é sinal de uma nova perspectiva. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (cf. At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário abandonar os esquemas do judaísmo.

Segundo a recomendação, os discípulos foram para a Galileia, ao monte indicado (v. 20). Em Jerusalém acontecera a grande tragédia para a comunidade dos discípulos. Além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado lá florescer. Basta recordar o conluio dos poderes religioso, militar e político para desacreditar a ressurreição, com a ideia do roubo do corpo pelos discípulos (cf. 28,11-15). Portanto, o retorno à Galileia era motivo para a sobrevivência da comunidade e, ao mesmo tempo, para o reencontro com as motivações e bases originárias. Além das incompreensões ao longo da caminhada, inclusive disputa por poder (cf. 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte deixaram a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade de retorno ao ideal primeiro, ou seja, retornar à Galileia para fazer a experiência do monte. Aqui, não se trata de indicações geográficas, mas teológicas.

Ao longo de todo o evangelho, há muitas referências ao monte, desde o monte das bem-aventuranças (cf. 5 – 7) até o monte das oliveiras (cf. 24 – 25). É o lugar de encontro com Deus e com a sua palavra. Foi no monte que Jesus lançou o seu programa de vida, as bem-aventuranças (5,1-12), e esse convite para os discípulos retornarem à Galileia para o monte é exatamente para voltarem à essência do projeto de vida indicado por Jesus. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré e o Ressuscitado. A Galiléia como região desprezada entre os judeus é um alerta aos discípulos quanto aos destinatários primeiros do anúncio: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram” (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o verbo grego prosku,new – proskinêo, o mesmo usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (cf. 2,2). Esse verbo tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar e sujeitar-se somente ao que foi ensinado por Jesus, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da lei. Assim como os magos, os discípulos aceitam os valores do reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos lugares da terra.

A dúvida não faz mal à comunidade, pelo contrário; Nem mesmo Jesus vê problemas no duvidar, tanto que não irá repreender os discípulos por isso. Como o evangelista não diz o motivo da dúvida, nem mostra Jesus repreendendo-os, podemos dizer que ele está apresentando uma característica necessária para a comunidade do Ressuscitado. Para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas o amor. Portanto, quanto mais se dúvida, mais necessidade se tem de amar, e amar sem limites.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso de envio (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, são de envio e comissionamento. Ao dizer “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. Está também reivindicando para si a identificação com a figura do “Filho do Homem” de Daniel (cf. Dn 7,13-14) e, ao mesmo, tempo corrigindo: ao Filho do Homem de Daniel, foram dados poder e domínio. Jesus trocou o domínio pelo serviço (cf. Mt 20,28), preferindo exercer sua autoridade no amor. A verdadeira autoridade, motivada pelo amor, parte da periferia, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá a autoridade é exercida com base na mentira, no medo, no suborno e na violência.

Após uma pequena introdução (v. 18), segue-se o envio universalista e inclusivo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de autoridade. Ele não envia seus discípulos para impor nem dominar, mas para fazer novos discípulos, uma vez que no seu reino não há súditos, mas irmãos. Essa é, sem dúvidas, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de sociedade. Não envia os discípulos para doutrinarem ninguém, mas para apresentarem uma proposta de vida. Aqui, registramos a força do verbo empregado pelo evangelista para “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular”, maqhteu,w – matheteúô; com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos, os quais não são operadores de tarefas, mas seguidores de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado.

À missão de “discipular” é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade, obviamente, marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal exterior além do batismo. A fórmula trinitária expressa a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial de João Batista. A expressão “Em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria essência, expressa a totalidade do seu ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais que uma ordem: “ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v 20a). Tudo o que Ele ordenou ou ensinou não foi muita coisa, não foi uma doutrina, foi apenas um jeito de viver. O pronome indefinido tudo, em grego pa,nta – panta, expressa a totalidade do que Jesus ensinou e a preocupação para que nada seja acrescentado de secundário e que possa, inclusive, desviar a comunidade do que foi ensinado por Ele. E o que, de fato, Ele ensinou, como já afirmamos, foi um jeito de viver, proposto nas bem-aventuranças e em todo o discurso da montanha (Mt 5 – 7). O que os discípulos têm a ensinar, para que todas nações sejam “discipuladas” é a vivência das bem-aventuranças, e isso não é doutrina nem código, é vida concreta, é um jeito de ser.

A última frase de todo o evangelho é, na verdade, a síntese: a certeza da presença de Jesus na comunidade: “Eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo estar (em grego eivmi – eimí) no futuro, o evangelista o emprega no presente. A presença é um tema central no evangelho segundo Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. Por isso, com essa certeza, Mateus não tinha motivos para descrever Jesus subindo para o céu, como fez Lucas. O importante é que a comunidade possa sentir sua presença e que essa a estimule a viver e ensinar somente o que Ele ensinou.

O Ressuscitado está, de fato, presente na comunidade que vive o ideal de vida proposto nas bem-aventuranças. Nessa comunidade todos são discípulos e irmãos. Essa comunidade celebra, acolhe, convence pelo testemunho e coloca-se em saída para, com alegria, compartilhar tudo o que Ele ensinou!


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, maio 13, 2017

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 14,1-12


Neste Quinto Domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece João 14,1-12 como texto do evangelho. Trata-se de um trecho do amplo discurso-testamento de Jesus na última ceia com seus discípulos, apresentado nos capítulos 13–17 do Quarto Evangelho. É importante recordar o que antecede o nosso texto para o compreendermos melhor. Em primeiro lugar, insistimos que, mais que uma simples degustação de comidas, a ceia é um momento de catequese, diálogo transparente, sincero e amável entre os participantes, no caso, Jesus e seus amigos.

Há quatro momentos importantes acontecidos na ceia que antecede o texto da liturgia de hoje: o lava pés ou o mandamento do serviço (cf. 13,1-15), o anúncio da traição de Judas (cf. 13,21-30), a entrega do mandamento do amor (cf. 13,31-35), e o anúncio da negação de Pedro (cf. 13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a sua hora de partir para o Pai (cf. 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente, compreendiam a sua partida como perda definitiva, como fim. Portanto, aquela ceia tinha perdido o seu clima festivo. Jesus tenta recuperá-lo com a continuidade do seu discurso, tenta tornar suportável para seus discípulos a realidade de sua despedida, de seu adeus.

Podemos compreender a inquietação e a incompreensão dos seguidores de Jesus narrada por João. Por acusa desse mal-estar, Jesus pede: “Não se perturbe o vosso coração” (v. 1a). A palavra coração, no grego (h` kardi,a – hé kardia), encontra-se no singular. Com isso, o evangelista evidencia a importância da unidade da fé; é o coração da comunidade que crê que deve estar tranquilo e não cada coração individualmente. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode abrir mão de ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e mandamento. Mais que um conforto intimista e individual, Jesus quer assegurar a unidade. Que esta estava abalada e suscetível de rivalidades e exclusões, já era sabido. Ele já havia confidenciado que havia entre eles um traidor, Judas, e um covarde, Pedro (cf. 13,21-30; 36-38), embora Judas já tivesse saído do ambiente da ceia, conforme relatado em 13,30.

O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus; por isso, ele pede que os discípulos renovem a adesão naquele que acompanharam até o momento derradeiro: “Tende fé em Deus, tende fé em mim também” (v. 1b). O tema da fé é muito caro ao evangelho de João e aparece em todo o texto: o evangelista usa cinco vezes o verbo grego pisteu,w – pistêuô,  que significa confiar, acreditar ou ter fé (cf. vv. 1.11.12). O número cinco não é à toa; é o número da Torah. Não estaria João dizendo aos seus seguidores que a confiança deles deveria mudar de foco, que ele próprio é a Torah e que eles não precisavam mais das tábuas da Lei mas da Nova Lei (seu evangelho), inscrita em seus corações pelo Espírito? A fé da comunidade estava abalada: como confiar em um mestre que se fez escravo e lavou os pés de todos? (cf. 13,1-15). Para quem alimentava as esperanças messiânicas tradicionais, como Pedro, o gesto do lava-pés era inconcebível (cf. 13,6-9). Portanto, o que Jesus pede a eles é uma fé renovada e ressignificada, o que também é exigido de nós, discípulos de hoje.

Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a antiga, o templo, fora transformada em casa de negócio (cf. Jo 2,16). Por isso, a afirmação categórica e firme: “Na casa do meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós” (v. 2); essa é, sem dúvidas, uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos pela tradição cristã católica, principalmente. Ao contrário do que parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada eterna, nem o prometendo aos seus discípulos. Ele está, na verdade, fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de dons e carismas.

No templo de pedras, a antiga casa do Pai, havia uma única morada; as pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente Ele habitava lá. No diálogo com a Samaritana, Jesus já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados, uma vez que chegaria o tempo de adorar em espírito e em verdade (cf. Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (cf. Jo 2,19-22), através da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Ao invés de ir ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a antiga religião.

Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: “voltarei e vos levarei comigo, afim de que onde eu estiver, estejais também vós” (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele não está prometendo levá-los para o céu, mas dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais que levar a comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será casa do Pai quando nela vigora a lei do amor e sua aplicação prática, o serviço.

Considerando tudo o que já havia ensinado, imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho (v. 4) ou método para todo esse processo de ida-retorno-presença, ou seja, morte-ressurreição, melhor traduzido por amor-doação. No entanto, a incompreensão persiste neles, embora somente Tomé seja sincero o suficiente para confessar a ignorância: “Tomé disse a Jesus: Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (v. 5). Como sempre, a sinceridade de Tomé se torna notável, apesar do equívoco. De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem para uma presença permanente no meio da comunidade; ele vê a morte como fim, embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado no episódio da reanimação de Lázaro: “Nós iremos para morrer com ele” (Jo 11,16).

À pergunta de Tomé, Jesus responde reivindicando a condição divina para si, acompanhada de três predicados e reforçando a certeza de que Ele é o único mediador entre Deus e a humanidade: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v. 6). “Eu sou”, em grego evgw, eivmi – egô eimí, é a fórmula típica da auto revelação de Deus ao longo da história (cf. Ex 13-15) e aplicada a Jesus no Quarto Evangelho. A tríplice predicação parece enigmática, mas na verdade é simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve uma regra, não estabelece uma lei nem deixa uma doutrina; as dúvidas nos discípulos surgem daí. Para simplificar, Jesus diz que é tudo o que a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa.

Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida, Jesus apenas diz que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver algo que não esteja em consonância com a sua pessoa; o itinerário a ser percorrido é a sua trajetória de vida, a verdade a ser transmitida é o seu ensinamento e a vida a ser vivida é aquela que Ele deu em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes termos: caminho, verdade e vida, em grego o`do.j – hodós, avlh,qeia – aletéia, e zwh, – zoé, respectivamente. Certamente, Jesus pensou no sentido prático dos termos: sem Ele a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai.

Como a unidade entre Jesus e o Pai já foi ressaltada na certeza das moradas em sua casa (vv. 2-3), e na sua resposta a Tomé, não nos prenderemos tanto à pergunta de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (v. 8). A resposta de Jesus mostra uma espécie de lamentação pela falta de conhecimento do Pai nos discípulos, considerando que tudo o que fizera até então fora mostrar o rosto do Pai através dos sinais realizados e, sobretudo, do amor transmitido. Por isso, a repreensão: “Há muito tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai.” (v. 9). É claro que as vozes de Filipe e Tomé representam a voz da comunidade toda.

A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e, obviamente, para as comunidades de hoje também. É perceptível que o Quarto Evangelho concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. Em João, discípulos secundários para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, tem um certo protagonismo (cf. 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de todos os discípulos é um anônimo, o discípulo amado. Essa observação nos leva a concluir que, para a tradição joanina, o modelo de organização não está baseado em uma relação hierárquica, mas fraterna, tendo como base única o amor.

Certamente, é vivenciando o mandamento do amor, estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v. 11). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra ilimitada temporal e espacialmente; isso implica em compromisso para nós, cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e, principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão para, de fato, ser uma vida em abundância (cf. Jo 10,10).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

sábado, maio 06, 2017

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DE PÁSCOA – JOÃO 10,1-10


No IV Domingo da Páscoa, a liturgia da Palavra sempre adota um trecho do décimo capítulo do Quarto Evangelho, o que justifica o título de “Domingo do Bom Pastor”, embora possa o mesmo ser questionado, uma vez que leva muitos a confundirem a figura joanina do pastor com aquela usada por Lucas em uma das parábolas da misericórdia (cf. Lc 15,1-7). Para a comunidade joanina, o pastor é, sobretudo, aquele dá liberdade, aponta caminhos e, portanto, jamais alguém que conduz uma ovelha nos ombros, símbolo da dependência e privação da liberdade.

Neste ano, ano A do ciclo litúrgico, o texto adotado é João 10,1-10, a primeira parte do capítulo décimo, o qual não pode ser compreendido se não em relação com o capítulo anterior. Ora, o capítulo nono fora concluído com a corajosa denúncia de Jesus à cegueira dos fariseus, no caloroso conflito gerado em decorrência da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida, desmascarando-os.

A fórmula de introdução empregada pelo autor, em grego VAmh.n avmh.n – amém, amém, equivocadamente traduzida por “Em verdade, em verdade” (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus como uma chamada de atenção para o que será dito. Logo, o conceito de pastor apresentado em Jo 10 é vital para a comunidade joanina, algo que não pode ser esquecido.
À introdução solene, segue a declaração: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores, os fariseus (cf. 9,40-41); aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrão e bandido.

Como sempre, a tradução do texto litúrgico deixa a desejar: ao invés de redil, o termo mais apropriado seria átrio, correspondente ao termo grego usado pelo evangelista auvlh. – aulê; aqui, não se trata de curral, mas do átrio interno do templo de Jerusalém; outra incoerência da tradução é o uso do termo assaltante; o texto original traz o termo grego lh|sth,j – lestês, o qual designa “bandido”, aquele que assalta e faz uso da violência. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia.

As denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar “a casa do Pai em uma casa de negócio” no início do Evangelho (cf. 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta.

Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, Jesus “entra pela porta e, portanto, é o pastor das ovelhas” (v. 2). De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para, de fato, comunicar-se com as ovelhas, o povo. A Jesus, o único pastor autêntico, “o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3); é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho, não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso, mesmo que esse se autodenomine cristão. Assim como a comunidade joanina, também as de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem repulsar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico “chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3), ou seja, não trata o povo como massa, mas o tira do anonimato, valorizando a cada um em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz; o evangelista usa aqui o verbo grego evxa,gw – exagô, o mesmo verbo do êxodo. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão maligna quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, “ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para começar a dominar também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele “caminha à frente” e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica.

Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga religião, Jesus não propõe nenhuma forma de poder para sua comunidade; Ele quer apenas que essa seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado em seu nome. Por isso, Ele não tira o povo do sistema religioso judaico para inserir em um outro sistema, mas para a liberdade.
Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (cf. 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, “não entenderam o que Jesus queria dizer” (v. 6) com essa comparação. Embora a versão litúrgica afirme, não se trata de uma parábola, mas de uma comparação apenas, como consta no texto grego, o qual aplica o termo paroimi,a – paroimía, que quer dizer apenas comparação.

Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (cf. 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta (v. 7). De fato, como único mediador entre a humanidade e o Pai, Ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois é Ele e seu Evangelho o critério único de pertença ao Pai. A denúncia aos que se auto intitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema (v. 8); esses estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida que a voz de Jesus vai sendo ouvida, através do Evangelho.

À medida que repete sua autoafirmação como “a porta”, em grego h` qu,ra -  hé thyra, (v. 9), Jesus ressalta a falência da instituição religiosa; como o Evangelho e a lei são inconciliáveis, e “só será salvo quem entrar por Ele”, porque somente assim alguém poderá “entrar e sair”; aqui, Ele apresenta o grau máximo de liberdade, ou seja, só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por Ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, oposição à lei que aprisionava e até matava. A pastagem que se encontra quando passa por Ele é a liberdade e a vida plena e abundante que Ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona e da qual a lei privava o ser humano. Não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser humano em sua vida neste mundo.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de moral e doutrina pré-concebidos, mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam estão de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues