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DOM HÉLDER CÂMARA E SUAS MADRUGADAS EM ROMA

Aos 07 de fevereiro de 1909 nascia no Nordeste do Brasil, Hélder Pessoa Câmara. Com muita precisão o amigo Talvacy Chaves lembra hoje em seu blog (cf. http://talvacy.blogspot.com/2012/02/deram-o-nome-de-helder-pessoa-camara.html), por isso não repetirei aquilo que já li no blog supracitado. Quero aproveitar esse espaço agora pra partilhar um pouco a minha experiência de leitor de Dom Hélder.

Entre as dificuldades de adaptar-me à nova língua, o italiano, constavam a preguiça e principalmente a saudade do Brasil e a solidão. Abri meu apetite por leituras em italiano com um livro de 497 páginas, o qual li em uma semana. O título do livro é ROMA, DUE DEL MATTINO (Roma, duas da manhã – madrugada), a autoria      è de HELDER CAMARA (Hélder Câmara). Foi assim que me adaptei à nova realidade, saboreando a leitura das cartas que Dom Hélder escrevia para seus amigos no Brasil, enquanto ele estava em Roma participando do Concílio Ecumênico Vaticano II.

Confesso que quase chorei de emoção quando, em outubro de 2008, vi na livraria aquele livro grosso, recém lançado, com o nome grande na capa “HELDER CAMARA”. Procurei primeiro ler as orelhas do livro; na primeira, uma resumo bigráfico, e na segunda, um pequeno comentário do editor, enaltecendo a figura do célebre bispo e já revelando aspectos importantes de sua personalidade e de seu ritmo de vida. O primeiro aceno é  que Dom Hélder, em Roma, mantém o consolidado costume de acordar à meia-noite para rezar, ler, refletir e escrever, volta a dormir às 3 horas e às 5 acorda definitivamente para dar início à sua jornada. Costumes de um homem místico! Era justamente nas madrugadas que ele escrevia para os amigos as cartas publicadas no livro. Outro dado interessante, ainda na orelha do livro, è que o jornal inglês SUNDAY TIMES, o elegeu como o homem mais influente da América Latina, depois de Fidel Castro, no século XX.

Foi lendo esse livro que despertou ainda mais a minha curiosidade pelo Vaticano II, e hoje, graças a Deus, ao ler qualquer trecho do concílio reconheço onde teve o “dedo” do BISPINHO BRASILEIRO, como era chamado pelos colegas amigos, e pelos não muito amigos era chamado de BISPO VERMELHO. Assim como sinto emoção ao ler, também sinto ao falar da leitura… é uma sensação que só provando mesmo pra saber e sentir o quanto è forte o seu ensinamento, a sua esperança, a sua paz, a sua fé.

O livro é composto de 296 cartas, escritas entre outubro de 1962 e dezembro de 1965. O total de cartas ultrapass em muito a cifra 296; esse número é apenas uma seleção criteriosa do que os editores acharam mais importante. Nelas, ele demonstra sua preocupação com os rumos do concílio, fazendo um intenso trabalho de bastidores, articulando diversas correntes, fazendo amizades e procurando a todo o custo que Concílio possa realmente corresponder às expectativas da Igreja diante do mundo moderno, e aos anseios do Papa que profeticamente o propôs, o PAPA BOM, João XXIII.

Compartilho aqui com os poucos leitores, uma das passagens mais comoventes. O Monsenhor Capovilla, secretário pessoal do Papa João XXIII, que continuou com o mesmo cargo assessorando Paulo VII, era grande amigo pessoal de Dom Hélder, e em 8 de novembro de 1965 recebeu-o em seu próprio apartamento no Vaticano e disse que “nenhum bispo lhe recorda tanto João XXIII como o Arcebispo de Olinda e Recife”; diante de tamanha estima da parte de quem conheceu profundamente João XXIII como Monsenhor Capovilla, Dom Hélder exclama: - Que responsabilidade! Capovilla era responsável também pela guardia dos objetos pessoais do falecido Papa João XXIII, e como a um grande amigo, mostrou tudo a Dom Hélder, deixando este maravilhado com tanta afinidade, afinal, o “Papa Bom” foi o primeiro grande intérprete dos anseios da Igreja em todo o mundo, que clamava por abertura e renovação, e era Dom Hélder um dos maiores representantes de tais anseios. Agradecendo a Capovilla, Dom Hélder exclamava: - Quanto bem eu quero ao Papa Louco, ao Papa Instrumento de Deus, ao Papa Bom!

O que mais deixava Dom Hélder maravilhado da intimidade com Monsenhor Capovilla, é que este foi em toda a vida a pessoa mais ligada ao Papa João XXIII, de quem Dom Hélder era devoto ainda quando o mesmo era vivo.


Deixo o convite para a leitura do livro, em português se chama As noites de um profeta: Dom Hélder Câmara no Vaticano II. Quem ler não se arrependerá. Confesso que comecei a admirá-lo ainda mais e a tê-lo como exemplo em todos os aspectos imagináveis: amor pela Igreja, pelo povo e sobretudo por Deus! Imaginemos um homem, depois de muito trabalho durante o dia, fazer uma vigília diária de meia-noite às 3 da manhã, e acordar novamente ás 5 para dedicar-se às atividades cotidianas? Só pode ser DOM DE DEUS!!

Francisco Cornelio F. Rodrigues, Roma 07 de fevereiro de 2012.
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