sábado, novembro 25, 2023

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – MATEUS 25,31-46 (ANO A)



Na liturgia do trigésimo quarto domingo do tempo comum, o último do ano litúrgico, a Igreja celebra a solenidade de Jesus Cristo como rei do universo. As leituras desta solenidade variam conforme o ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, o evangelho proposto é Mt 25,31-46, texto que contém a parábola do juízo final, uma exclusividade do evangelista Mateus. Na verdade, há estudiosos que não classificam esse texto como parábola, mas apenas como uma “cena de julgamento”, um recurso próprio do gênero apocalíptico, ao qual pertence todo o discurso escatológico do Evangelho de Mateus (Mt 24–25). Porém, antes de tratarmos do texto bíblico e seu contexto narrativo-literário, consideramos oportuno fazer algumas considerações sobre a origem e a história desta solenidade. Trata-se de uma festa relativamente nova, considerando que a maioria das festas e devoções cristãs encontram raízes ainda nos primeiros séculos do cristianismo. A solenidade de Cristo Rei já foi instituída pelo Papa Pio XI, no ano de 1925, em um momento muito conturbado para a Europa e todo o mundo. Fazia pouco tempo que a primeira guerra mundial tinha terminado, já se desenhava o cenário da segunda. A ganância pelo poder com as consequências drásticas que desse derivam estavam em efervescência. Já estavam consolidados alguns regimes totalitários, como o fascismo na Itália e o stalinismo na Rússia, enquanto o nazismo estava sendo gestado na Alemanha. Também em Portugal e Espanha estavam sendo gerados projetos ditatoriais, consolidados na década de 30.

Em resposta a este cenário, sobretudo aos regimes totalitários, o Papa Pio XI instituiu esta festa como advertência e recordação de que Jesus Cristo é o único rei e Senhor do universo. Com isso, não se pretendia restabelecer o poder temporal da Igreja, o que também seria um contraexemplo evangélico. O que se quis foi alertar o mundo para o perigo dos totalitarismos e recordar o senhorio de Jesus Cristo, cujo reinado deve começar no coração de cada pessoa. Apesar de oportuna para o momento histórico, a maneira como a festa foi instituída poderia gerar interpretações distorcidas e equivocadas da realeza de Cristo, alimentando pretensões triunfalistas na Igreja. Por isso, ela foi ressignificada com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, começando pela mudança de data; antes, era celebrada no último domingo do mês de outubro, como preparação à solenidade de todos os santos. Com a reforma do Vaticano II, passou a ser celebrada no último domingo do ano litúrgico, como a culminação de um percurso e de um projeto universal de salvação, marcado pela inclusão e vida em abundância, correspondente ao que Jesus apresentou, ao longo de sua existência terrena, como o Reino de Deus. E, como se sabe, o Reino de Deus é incompatível com os projetos humanos de poder, tendo em vista que Deus reina quando o ser humano é plenamente respeitado em todas as suas dimensões, quando é realmente humanizado.

Conforme acenamos anteriormente, neste ano (ano A) o evangelho da festa de Cristo Rei é Mt 25,31-46. Esse texto é a conclusão solene do último dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, o chamado “discurso escatológico” (Mt 24–25). Contém as últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão (Mt 26–27). Esse dado reforça ainda mais a importância do texto, pois é o fechamento de todo o ensinamento de Jesus, exatamente no Evangelho que mais evidenciou a sua atividade de ensinar. E o mais importante e comprometedor é que, na conclusão desse ensinamento, a opção pelos pobres e pequenos ocupa a centralidade. Como temos afirmado nos últimos domingos, esse discurso foi construído com a finalidade de chamar a atenção da comunidade do evangelista que vivia um momento de crise, com um esmorecimento na vivência da fé e preocupações com o tardar do retorno do Senhor. Com isso, o evangelista incentiva a comunidade a trabalhar os talentos confiados pelo Senhor, fazendo-os frutificar, sem preocupar-se com o tempo. Portanto, a exemplo das parábolas anteriores (parábolas dos dois servos – Mt 24,45-51; parábola das dez virgens – Mt 25,1-12; parábola dos talentos – Mt 25,14-30), também essa tem a finalidade de despertar uma vigilância ativa na comunidade.

Feitas as devidas considerações introdutórias e contextualização, olhamos para o texto, que apresenta, em forma de parábola, uma cena de julgamento final conduzida pelo Filho do Homem, título com o qual Jesus se refere a si mesmo. É importante recordar que o tema principal do discurso escatológico é a vigilância, ou seja, a espera atenta pelo desfecho final da história; por isso, o texto inicia com esta expressão: «Quando vier o Filho do Homem em sua glória acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso» (v. 31). O verbo “vir” relaciona essa cena as parábolas anteriores do mesmo discurso, sendo que expressa mais um manifestar-se do que propriamente um retorno. Com isso, o evangelista quer mostrar que o Senhor nunca foi embora, ou seja, nunca se ausentou, mas sempre esteve presente na comunidade. Inclusive, esse é um dos ensinamentos principais da parábola: mostrar que, mesmo depois da ascensão, o Senhor permaneceu na comunidade através dos pobres e pequenos. Um dos desafios da comunidade de Mateus era compreender e aceitar essa realidade, o que explica a ênfase do evangelista com o tema da presença do Senhor, o Deus conosco, Emanuel (Mt 1,23; 18,20; 28,20). Do começo ao fim, o evangelista mostra em sua obra que o Senhor já está na comunidade; agora, ele está falando da manifestação gloriosa.

O assentar-se no trono glorioso recorda a realeza do Filho do Homem; de fato, ele é rei. O que surpreende, no entanto, é a maneira como exerce essa realiza, o que vem indicado nos versículos seguintes, que o apresentam como juiz universal e como pastor. Eis a primeira consequência da vinda/manifestação do Filho Homem: «Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos» (v. 32). A reunião de todos os povos da terra, mesmo que seja seguida de uma separação, já evoca a realização de uma fraternidade universal. Acabou-se o privilégio de Israel, que agora passa a ser contado como um entre todos os povos da terra. Como os critérios de juízo já não serão mais religiosos, Israel não tem vantagem sobre as demais nações, pois o que conta é o amor ao próximo, traduzido em ações concretas de serviço e solidariedade. A imagem do pastor é extremamente significante; evoca cuidado, conhecimento do rebanho e intimidade com ele. Significa a dimensão serviçal do poder, incluindo o amor, a compreensão e o cuidado humanizante. É o contrário do poder tirânico. A separação das “ovelhas dos cabritos” é uma imagem muito comum no mundo pastoril, sobretudo no antigo Oriente. Nos tempos de frio, todos os dias, ao anoitecer, os pastores faziam esse trabalho: as ovelhas dormiam ao descoberto, pois possuíam a lã como proteção natural, enquanto as cabras e cabritos eram colocadas para dormir em locais cobertos, uma vez que não possuíam um meio natural de proteção.

Ao reunir “todos os povos” diante de si, o Filho do Homem irá fazer a separação. O critério da separação é o mais surpreendente: ao invés de considerar distintivos religiosos, como bons e maus, puros e impuros, dignos e indignos, santos e pecadores, ortodoxos e hereges, o critério utilizado pelo juiz universal é o que alguém fez ou deixou de fazer aos “pequeninos” ou “menores” dos irmãos, ou seja, às pessoas marginalizadas. A atenção aos “menores dos irmãos” é o critério de participação na vida definitiva, ou seja, o «reino que o Pai preparou desde a criação do mundo» (v. 34). Em Mateus, a mensagem de Jesus foi condensada nos cinco discursos e é importante perceber o nexo que une esses discursos: o primeiro, o da montanha, foi iniciado com as bem-aventuranças, nas quais Jesus introduzia a sua opção preferencial pelos marginalizados e sofredores (pobres, aflitos, mansos, perseguidos... Mt 5,1-12); agora, no último discurso, como mostra o texto de hoje, essa opção é reforçada e confirmada. Podemos dizer que, do começo ao fim, a mensagem de Jesus tem a atenção voltada de maneira especial para os “menores dos irmãos”, ou seja, toda a sua vida foi marcada por uma clara opção por aquelas pessoas desprezadas pela sociedade.

A partir de seis situações (ações) concretas, o evangelho de hoje mostra como alguém pode ser herdeiro ou não do Reino de Deus: «dar comida aos famintos, dar água aos sedentos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, cuidar dos enfermos e visitar os presos» (vv. 35-40). Chamadas de “obras de misericórdia”, estas ações já eram recomendadas na Bíblia, ao longo do Antigo Testamento, especialmente em textos proféticos (Is 58,7; Ez 18,7.17). Portanto, Jesus não as inventa, mas dá um novo sentido, transformando-as em critérios exclusivos para o acesso definitivo ao Reino de Deus. Enquanto juiz e senhor da história, o Filho do Homem, conduzirá o julgamento com um diálogo bastante franco e sincero, iniciado com um convite: «Vinde benditos de meu Pai!” (v. 34a). Em seguida, são dadas as razões pelas quais são chamados de benditos do Pai: «Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar» (vv. 35-36). Chama a atenção a surpresa dos que são tratados como benditos (em grego: εὐλογημένοι – euloguêmenoi): eles perguntam quando viram o senhor naquelas situações e o serviram. Essa surpresa é registrada pelo narrador para reforçar o caráter desinteressado e gratuito do amor transformado em serviço: fazer o bem, sem olhar a quem! Eles praticaram o bem sem esperar recompensa, e é isso o que o Senhor espera de todos. A surpresa aumenta ainda mais quando o senhor diz: «todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!» (v. 40). Famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e presos sintetizam todas as categorias de marginalizados e são expressões da presença real de Jesus na comunidade cristã. Isso quer dizer que, em qualquer momento da história e em todos os lugares, qualquer pessoa pode ver Jesus e servi-lo; basta olhar para as pessoas que estão nessas situações e fazer-lhes o bem.

Fazia parte dos métodos rabínicos ensinar a mesma coisa duas vezes: uma em sentido positivo, e outra em sentido negativo, sobretudo quando se tratava de um ensinamento muito importante, mas de difícil aceitação, como Jesus faz nesta parábola. Assim, o diálogo com o segundo grupo se desenvolve a partir da mesma dinâmica, embora com desfecho contrário, a começar pelo convite inicial: «Afastai-vos de mim, malditos» (v. 41). Da mesma forma como fez com aqueles considerados benditos, o rei-juiz dá as razões pelas quais esses últimos são chamados de malditos (em grego: κατηραμένοι – katêramenoi): não ter feito aquilo que fizeram os primeiros (v. 43). Também esses recebem a sentença com surpresa: «Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?» (v. 44). A resposta do rei só faz aumentar a surpresa: «Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!» (v. 44). Assim como o terceiro empregado da parábola dos talentos (liturgia do 33º domingo), a sentença de condenação não é consequência de maldades cometidas, mas de omissões. O que há de mais sério na vida do ser humano, e que pode levá-lo à privação da vida em plenitude, é a omissão, a indiferença ao sofrimento do próximo, a carência de ações praticadas em favor dos menos favorecidos. Logo, a sentença final (v. 46) não é um castigo divino, mas simplesmente consequência de opções contrárias à essência do Evangelho, o que torna a vida sem sentido.

Como conclusão do discurso escatológico, o texto de hoje reforça a vigilância e dá um novo sentido a ela: não se deve ficar esperando pelo encontro com o Senhor na consumação dos tempos, em um tempo remoto; é preciso ter capacidade, maturidade e amor para encontrar-se com ele todos os dias, fazendo o bem àqueles nos quais o Senhor está presente, já elencados repetidas vezes aqui (faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso). A parábola é um alerta para a comunidade de Mateus, tão ansiosa pelo retorno do Senhor, mas incapaz de ver o Senhor já presente nos mais necessitados. Certamente, esse alerta continua válido também para os cristãos de hoje. O cristão verdadeiro encontra-se com o Senhor todos os dias, não tem medo nem anseia por um encontro final e decisivo, mas sabe que Ele já está aqui conosco. A presença de Jesus, por sinal, é o fio condutor do Evangelho segundo Mateus: do anúncio a José – Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23) – ao envio dos discípulos após a ressurreição: «Eis que eu estou convosco todos os dias» (28,20). Portanto, não há razões para a comunidade perguntar quando virá o Senhor; o importante é perceber a sua presença no cotidiano, nas situações concretas da vida.

Todos foram pegos de surpresa: tanto os considerados “benditos” quanto os ditos “malditos”, pois ou fizeram ou deixaram de fazer o bem. O bem a ser praticado deve ser completamente desinteressado. O Senhor não marca nem rotula nenhum daqueles nos quais ele deve ser reconhecido. Basta reconhecer o outro como ser humano, pessoa com dignidade, imagem e semelhança do criador; essa é a única marca e não é impressa por nenhuma religião, mas pelo Deus que é Pai e Criador. Ao Senhor, interessa o bem praticado, o serviço doado, o amor vivido! Reconhecer a realeza de Jesus sobre o universo é reconhecê-lo em cada irmão e irmã, sobretudo nos mais necessitados.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, novembro 18, 2023

REFLEXÃO PARA O 33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 25,14-30 (ANO A)

 


O evangelho do trigésimo terceiro domingo do tempo comum, o penúltimo do ano litúrgico, continua sendo tirado do discurso escatológico do Evangelho de Mateus, o último dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus no primeiro evangelho (Mt 24-25). O trecho lido hoje – Mt 25,14-30 – corresponde à chamada “parábola dos talentos”. Não se trata de um material exclusivo de Mateus, pois possui uma versão paralela em Lucas, a chamada “parábola das minas” (Lc 19,11-27) e uma breve alusão em Marcos (Mc 13,34), que provavelmente serviu de fonte para Mateus e Lucas. Porém, a versão de Mateus é carregada de particularidades, e isso lhe rende um aspecto de originalidade, fruto da criatividade do evangelista e consequência das necessidades da sua comunidade. Nessa parábola, continua em evidência o tema da vigilância, embora de maneira menos explícita do que na parábola das dez virgens (Mt 25,1-13), lida no domingo passado. A parábola dos talentos é considerada uma das mais complexas e difíceis de Mateus, sendo bastante passível de distorção em sua interpretação, pois, à primeira vista, poderia ser considerada como um incentivo à meritocracia, à cultura do acúmulo e até mesmo como justificativa para legitimar as desigualdades sociais. Por isso, é importante que seja bem interpretada, levando-se bastante em consideração o seu contexto.

Localizada estrategicamente entre a parábola das dez virgens (Mt 25,1-13) e a cena do julgamento final (Mt 25,31-46), essa parábola tem um significado muito relevante para o conjunto do Evangelho de Mateus e, portanto, seu ensinamento é de fundamental importância para o bem da comunidade cristã em todos os tempos. Na época da redação do seu Evangelho, a comunidade de Mateus vivia um momento de crises, provocadas por fatores externos e internos. A principal crise, sem dúvidas, girava em torno da fé, com um certo relaxamento e desânimo na vivência das bem-aventuranças, núcleo central da mensagem cristã. Ora, esperava-se um retorno quase imediato do Senhor, pois a pregação cristã primitiva alimentava isso; como não acontecia esse retorno, muitos cristãos começavam a desanimar, abandonando a fé ou vivendo-a de modo indiferente e superficial. Com essa parábola, o evangelista quis animar a comunidade, mostrando que o tempo de espera não é perdido; pelo contrário, é o tempo oportuno para a comunidade fazer crescer e multiplicar os dons que o Senhor lhe confiou. Logo, a parábola é um incentivo à perseverança e um convite à mudança de foco durante o tempo da espera: ao invés de preocupar-se com a vinda do Senhor propriamente, a comunidade deve preocupar-se em realizar cotidianamente a sua vontade, vivendo segundo o amor e a justiça, a síntese das bem-aventuranças.  

Olhemos, então, para o texto: «Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou» (vv. 14-15). Antes de tudo, recordemos que parábola é um gênero literário que apresenta uma mensagem por meio de comparação. Logo, é com essa imagem apresentada que o evangelista compara a situação da sua comunidade enquanto espera pelo retorno do Senhor. Não se trata, portanto, de uma descrição, mas apenas de uma comparação com uma realidade conhecida do seu auditório. Embora o texto litúrgico empregue a palavra empregados, o correto seria servos, por corresponder melhor ao termo empregado pelo evangelista na língua original (em grego: δούλος - dúlos). A palavra servo, na Bíblia, não significa apenas o escravo, mas alguém que tem parte na obra, uma pessoa que goza de plena confiança do dono da obra ou propriedade, como nesta parábola. E assim são todos os cristãos e cristãs na edificação do Reino de Deus e na preservação de toda a obra da criação. O homem viaja, mas não se ausenta, pois continua presente, de modo implícito, nos bens confiados aos servos. À medida em que movimentam os bens que lhes foram confiados, os servos tornam o proprietário presente. Também o Senhor ressuscitado não se ausentou da comunidade; continua presente à medida em que seus seguidores são capazes de fazer o seu projeto se desenvolver, cultivando e multiplicando os dons que lhes foram confiados, e abertos ao Espírito Santo.

Embora distribuídos em quantidades diferenciadas, a parábola mostra que ninguém ficou desprovido de bens, ou seja, de dons; cada um recebeu os talentos de acordo com a sua capacidade. Esse detalhe é muito importante para o evangelista. Se todos recebem, todos tem algo a partilhar, a trabalhar e fazer frutificar. A quantidade diferenciada de bens recebidos por cada um pode ser uma alusão à diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Os talentos não são emprestados, são entregues, verdadeiramente doados, fazendo pressupor que as pessoas têm liberdade para gerenciá-los cada um à sua maneira, embora não estejam isentas de responder pelas consequências. Talento (em grego: τάλαντον – talanton) era uma medida de peso usada para pesar metais preciosos como o ouro e a prata, na antiguidade. Seu uso começou na Babilônia e foi adotado por diversos sistemas de dominação, inclusive pelo império romano. Quando o talento deixou de ser usado como medida, e graças à intepretações desta parábola, a palavra se universalizou como sinônimo de capacidade pessoal, aptidão ou dom. Um talento equivalia a aproximadamente trinta quilos de ouro, o que correspondia a seis mil denários; e um denário era o salário de um dia de trabalho braçal (Mt 20,2). É claro que havia pequenas variações de uma cultura para outra, em relação às medidas e valores. Mas é certo que um talento, em qualquer lugar, tinha um grande valor. Por isso, até mesmo aquele que recebeu apenas um talento, ainda recebeu uma grande fortuna. Isso significa a benevolência e liberalidade do Senhor, bem como a perenidade dos bens que ele doa à comunidade.

Ao receber os talentos ou dons, cada um é livre para usá-los como quiser. A viagem do dono evoca a liberdade dada àqueles que receberam os talentos para usá-los. Como o dono não estava presente para vigiar os servos, eles poderiam multiplicar, extraviar ou apenas conservar os talentos recebidos. E a parábola diz qual foi a atitude de cada um: «o que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que recebeu dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão» (vv. 16-18). Tais atitudes revelam duas concepções de mundo completamente opostas. Os dois primeiros servos trabalharam até duplicarem o que haviam recebido. Embora o texto não indique como eles fizeram isso, o certo é que não ficaram parados, nem tiveram medo; foram ousados e criativos. Isso revela uma visão de mundo dinâmica, própria de quem vê a vida como uma oportunidade de crescimento. O terceiro servo simplesmente pensou na conservação do que havia recebido. Escondendo o talento por medo, o conservou de modo íntegro e fiel. É a visão de mundo própria de quem tem medo de correr riscos, tem medo de mudanças. Uma visão totalmente conformista e, portanto, distante de tudo o que Jesus fez e ensinou.

A aparente ausência do Senhor pode levar os membros da comunidade a diferentes posturas: para uns, é oportunidade de crescimento, para outros é motivo de medo e insegurança. A comunidade de Mateus vivia esse drama: o que fazer enquanto o Senhor não retornava? O evangelista aconselha que cada membro da comunidade seja criativo, que desenvolva os dons recebidos, procurem multiplicar, transformando as realidades com amor e justiça. Na verdade, o Senhor nunca se ausentou; deixou seus dons como forma de continuar presente e operante. Desse modo, o convite à vigilância não visa um momento final específico, mas uma vida toda vigilante, praticando o amor e a justiça, ou seja, vivendo segundo a dinâmica das bem-aventuranças. A liberdade de cada um no uso dos talentos não os isenta da responsabilidade, pelo contrário, torna-a ainda mais exigente. Por isso, diz o texto que «depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com os empregados» (v. 19). Ora, se os talentos entregues aos servos equivalem aos dons confiados aos membros da comunidade para a sua edificação, é justo que o Senhor se interesse pelo uso que cada um fez deles. E na comunidade não pode haver individualismo, indiferença nem omissão. Muito menos medo. O que pertence a um é interesse de todos, e a coragem de se arriscar é um imperativo.

Quem recebeu dons e não os fez frutificar, colocando-os a serviço dos demais, obviamente, não está apto a integrar a comunidade. É esse o sentido do acerto de contas mencionado na parábola. O Senhor quer saber o que fazemos com o seu Evangelho a nós confiado. Quem multiplicou os talentos, gerou vida, edificou o Reino. Quem o manteve intacto como recebeu, foi omisso, cruzou os braços; na comunidade cristã, responsável pela edificação do Reino, não há espaço para pessoas assim. Por isso, os servos que souberam colocar os dons a serviço da comunidade, multiplicando-os, ou seja, fazendo-os frutificar, são tratados, em tom de elogio (v. 23), como «bom e fiel» (em grego: ἀγαθὲ καὶ πιστέ – agathé kai pisté). Embora o texto não descreva o que estes servos fizeram precisamente, o certo é que agiram, não ficaram acomodados. O Senhor quer que os dons confiados sejam usados em prol da justiça e do amor, tornando o mundo mais humanizado e compatível com o Reino. Não se trata de um convite ao acúmulo, o que seria contrário à lógica do Reino. É uma mensagem de esperança e perseverança, um convite a perder o medo e arriscar tudo, inclusive a vida, para que as sementes do Reino se multipliquem.

Ao contrário dos dois primeiros servos, o terceiro foi repreendido (v. 26) como «mau e preguiçoso» (em grego: πονηρὲ καὶ ὀκνηρέ – poneré kai oknêré). É interessante que o texto não menciona nenhuma ação malvada desse servo; pelo contrário, menciona sua precaução e cuidado em não estragar o talento recebido, o que poderia render-lhe um reconhecimento de prudente. Ele apenas se preocupou em conservar o dom recebido do mesmo jeito que recebeu. Ora, na lógica do Reino, lógica que a comunidade cristã deve assumir, não basta cometer delitos para ser tratado como mal: basta ser omisso, indiferente e medroso. Não basta não fazer o que é mal, basta deixar de fazer o bem para ficar fora da comunidade e, consequentemente, do Reino. O medo paralisa a comunidade e impede a instauração do Reino. E de todos os medos, o mais perigoso é o medo de mudança. É esse medo que leva muitos grupos e movimentos a simplesmente conservarem rigidamente certas tradições, ignorando a ação criativa e constante do Espírito Santo.

Podemos, finalmente, identificar o sentido da vigilância nessa parábola: a autêntica vigilância não é espera passiva, mas é atitude, é serviço em prol do Reino, através da multiplicação dos dons confiados pelo Senhor à comunidade. Quem pensa apenas em conservar a doutrina, os costumes e tradições, trai a confiança depositada pelo Senhor. O Reino exige decisão, ousadia, criatividade e liberdade para o uso dos dons recebidos. Ser vigilante é, portanto, não ter medo de arriscar, é colocar-se a serviço da comunidade, expondo os dons recebidos, mesmo correndo riscos. Uma vez que os talentos não foram confiados para serem conservados, mas para frutificarem, a atitude do dono é completamente compreensível: «tirar do que tem pouco para dar ao que tem muito» (v. 28). Ora, o que já tinha dez talentos, passando a onze, poderá fazer multiplicar cada vez mais, e quem mais ganhará com isso será a comunidade, ou seja, o Reino. Com essa afirmação «a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas aquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado» (v. 29), o evangelho não está justificando as desigualdades do mundo nem propondo a sua perpetuação, mas está acentuando a natureza da comunidade cristã, enquanto espaço da criatividade e produção de frutos. Quem recebe o dom e o retém somente para si, não pode entrar em um projeto de vida comunitário como o Reino de Deus.

O destino final de quem se autoexcluiu da comunidade enfatiza a privação total de vida e amor: «choro e ranger de dentes» (v. 30). Essa expressão significa o grau máximo de desespero para um ser humano, equivalente a uma vida privada de sentido. Isso não é castigo, mas consequência de escolhas feitas e posições assumidas enquanto havia tempo para agir de modo diferente. É uma plena privação de humanização. De fato, é sem sentido a vida de quem não vive a lógica das bem-aventuranças. Viver somente para si é um mal. No Reino, só vive quem sabe viver a serviço do bem de todos; e só se vive assim com coragem e amor. No atual contexto eclesial, pode-se constatar a assimilação de cada uma das visões de mundo apresentadas na parábola pela adesão ou não à sinodalidade.

Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, novembro 11, 2023

REFLEXÃO PARA O 32º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 25,1-13 (ANO A)


 

À medida em que o ano litúrgico caminha para o final, o tema da vigilância entra em evidência. Por isso, nos três últimos domingos do ano litúrgico corrente, o evangelho passa a ser tirado do chamado “discurso escatológico”, o último dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus no Evangelho de Mateus (Mt 24–25). É importante ressaltar, de antemão, que a ênfase dada à vigilância não visa provocar medo, mas reavivar a fé e aumentar nos cristãos a esperança na realização plena do Reino de Deus, fazendo aumentar também a responsabilidade de cada pessoa nessa construção. No discurso escatológico, prevalece o gênero literário apocalíptico, o que o torna tão enigmático e provocativo. Por isso, é necessário compreender bem o texto, para que sua mensagem de encorajamento e esperança não se torne causa de medo e terror. Embora o discurso compreenda os capítulos 24 e 25, a liturgia dominical utiliza apenas o capítulo 25, o qual é composto de três grandes parábolas, sendo que o evangelho de hoje – trigésimo segundo domingo – corresponde à primeira: a parábola das dez virgens (ou jovens) – Mt 25,1-13. As outras duas serão lidas próximos dois domingos.

Além da posição privilegiada que ocupa no Evangelho, a parábola das dez virgens se destaca pela peculiaridade das personagens. Ora, em todos os evangelhos, somente quatro parábolas têm mulheres como protagonistas, sendo a maioria exclusividade de Lucas: a parábola do fermento na massa (Mt 13,33; Lc 13,20-21), a parábola da moeda perdida (Lc 15,8-10) a parábola do juiz injusto e a viúva persistente (Lc 10,1-8), e esta das dez virgens (Mt 25,1-13), sendo das quatro a única exclusiva de Mateus. Logo, estamos diante de uma obra prima de Mateus, que evidencia uma grande valorização da mulher justamente quando o seu Evangelho se aproxima do ponto culminante. Ainda a nível de contexto, é importante recordar a situação da comunidade do evangelista, destinatária primeira do Evangelho. Quase cinquenta anos separam os eventos da paixão, morte e ressurreição de Jesus da redação do Evangelho. Muitas coisas aconteceram nesse intervalo de tempo, gerando consequências para a vida da comunidade, chegando a abalar a fé, a esperança e a unidade dos cristãos e cristãs. Por isso, a comunidade mateana vivia uma situação de crise, tanto por causas externas quanto internas. As causas externas eram as perseguições da parte do judaísmo ortodoxo e do império romano; as causas internas eram os conflitos entre os membros da própria comunidade, divididos entre os de origem judaica e aqueles de origem pagã. O Evangelho de Mateus é, portanto, um conjunto de respostas a tudo isso.

No caso específico da parábola que hoje lemos na liturgia, essa é a resposta à crise de fé e de identidade pela qual passava a comunidade, devido à diminuição no fervor de seus membros. Ora, tendo se passado já quase cinquenta anos da ressurreição, os cristãos não viam suas vidas melhorarem, pelo contrário, até pioravam devido às perseguições. O resultado disso era uma fé cada vez menos viva e sem esperança. Era preciso, portanto, reanimar, encorajar e despertar na comunidade a esperança e o ardor da fé inicial. Além disso, havia a expectativa de um retorno quase imediato do Senhor, após a ascensão; à medida em que esse retorno não acontecia, diminuía a esperança e enfraquecia a fé. Diante do desânimo e enfraquecimento da fé na comunidade, o evangelista pede uma atitude de vigilância. A comunidade deve estar sempre pronta para encontrar-se com o Senhor a qualquer momento. Na verdade, segundo a perspectiva teológica do evangelista, o ideal é viver na certeza de que o Senhor nunca se ausentou, mas está sempre presente na comunidade, exatamente por ser o “Deus conosco” (Mt 1,23; 18,20 28,20). Isso exige solicitude para reconhecê-lo, e é exatamente o que a parábola das dez virgens quer suscitar. Devido à extensão e ao gênero do texto, não comentaremos versículo por versículo, mas procuraremos colher a sua mensagem central, embora seja necessário, mesmo assim, observar cuidadosamente algumas expressões particulares.

Uma vez contextualizados, olhemos para o texto que começa assim: «O Reino dos Céus é como a história das dez virgens que pegaram suas lâmpadas e foram ao encontro do noivo» (v. 1). Essa é a última parábola do Evangelho de Mateus em que o Reino dos Céus é explicitamente comparado a uma realidade concreta e conhecida do auditório de Jesus e da comunidade do evangelista. Ao todo, o Evangelho de Mateus contém dez “parábolas do Reino”, sendo essa a décima. Trata-se de uma parábola com mensagem de alcance e interesses universais. A expressão “dez virgens” (em grego: δέκα παρθένοις – déka parténois) evoca o universalismo da comunidade. Dez é um número que expressa totalidade e universalismo, ao contrário do número doze que possui um valor simbólico mais restrito a Israel. Com esse pequeno detalhe, Jesus e o evangelista dão um salto de qualidade considerável à mensagem: o Reino dos Céus já extrapolou os limites de Israel, é destinado a toda a humanidade. A imagem do matrimônio não era novidade na linguagem de Jesus e nem no judaísmo. Inclusive, a festa de casamento já tinha empregada como imagem do Reino em outra parábola, a da festa de casamento do filho do rei (Mt 22,1-14). Desde o profeta Oséias, a relação entre Deus e seu povo é apresentada em linguagem matrimonial. A novidade de Jesus consiste em ampliar o alcance da imagem, cuja noiva-esposa deixa de ser Israel e passa a ser a humanidade inteira. Por sinal, a parábola não fala da noiva; por ela, subentende-se toda a humanidade, uma vez que é o próprio Jesus o noivo-esposo.

Para compreender melhor a parábola e sua mensagem, é necessário entender como era celebrada uma festa de casamento na época e, sobretudo, qual era o papel das jovens virgens. Sem essa compreensão, pode-se imaginar, à primeira vista, que as dez virgens estivessem disputando um único noivo, ou até mesmo que o texto retrate um matrimônio poligâmico. Por isso, é importante a explicação do episódio. Em Israel e em muitas sociedades antigas orientais, o casamento era realizado por etapas ou fases. A primeira fase, chamada de fase da promessa, durava um ano. Os noivos consideravam-se já casados, embora continuassem a viver cada um com seus pais. Era o período para as famílias acertarem os acordos econômicos, pois o casamento era um negócio, e prepararem a festa. Completado o ano, o casamento era finalmente festejado e consumado. No dia marcado, o noivo ia com seus amigos até a casa da noiva. Em sua casa, a noiva reunia suas melhores amigas para esperar o noivo. Após a chegada do noivo, a noiva se despedia dos seus pais, deixava sua casa e ia para a casa do noivo, ao seu lado, onde acontecia a festa, que durava em média uma semana. Formava-se assim, o cortejo nupcial da casa da noiva para a casa do noivo. Isso deveria acontecer no início da noite, de modo que o cortejo era iluminado pelas lâmpadas que as moças amigas da noiva levavam. Para causar suspense, os noivos costumavam atrasar. Seria, portanto, uma grande imprudência as moças deixarem faltar óleo para suas lâmpadas no cortejo, uma vez que uma festa de casamento começava a ser preparada com muita antecedência, cerca de um ano.

É a partir dessa realidade descrita que Jesus faz a sua denúncia e alerta os seus discípulos com a parábola, a partir da contraposição de atitudes das virgens: cinco eram imprevidentes e outras cinco eram previdentes. Esse paradoxo entre a imprudência e a prudência é típico da mentalidade sapiencial e bastante difuso no tempo de Jesus. Como recurso retórico, o paradoxo foi muito empregado por Jesus. Os termos mais adequados para definir a atitude das moças, conforme o texto na língua original, seriam imprudentes e prudentes, ou ainda insensatas e sensatas. A insensatez das cinco primeiras consiste em ter deixado o óleo acabar. A sensatez das outras cinco consiste em ter óleo suficiente para o longo tempo de espera pela chegada do noivo. O óleo (em grego: ἔλαιον – elaion), literalmente óleo de oliva ou azeite, é o elemento decisivo da parábola, e o que tem gerado muitas discussões e debates nos estudos bíblicos. Alguns exegetas já identificaram o óleo com as boas obras, os carismas pessoais, os dons do Espírito Santo, interpretações que já não são totalmente satisfatórias. O mais provável, considerando o conjunto do Evangelho, é que o óleo corresponde à vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), compreendendo-as como o compromisso e a responsabilidade pessoal de cada pessoa na construção do Reino. As bem-aventuranças, enquanto autorretrato de Jesus, são também a identidade cristã, e o que corresponde ao único critério para se fazer parte do Reino.

No conjunto das bem-aventuranças, estão o amor, a justiça, a construção da paz, a mansidão, a solidariedade, a tolerância e o respeito. E tudo isso é intransferível. Por isso, as jovens prudentes não podiam emprestar o óleo às imprudentes (vv. 8-9), pois o amor é pessoal, ninguém pode amar no lugar do outro, ninguém pode ser justo no lugar do outro. «As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar dos vendedores’» (v. 9) As jovens prudentes não foram egoístas, como pode parecer, com essa atitude. Ao não compartilhar o óleo, elas demonstraram ainda mais prudência, pois evitaram que faltasse óleo para todas, o que deixaria o cortejo nupcial triste, sem beleza e vida. A imagem quer recordar que ninguém está isento de viver o amor e a justiça, enquanto síntese das bem-aventuranças. A vigilância exigida na parábola, portanto, não significa privar-se do sono, afinal as prudentes e imprudentes dormiram todas (v. 5), mas consiste em manter-se abastecidos de amor e justiça. Para quem assimilou o sentido das bem-aventuranças em sua vida, não importa o dia e nem a hora em que o Senhor retornará. Na verdade, a vivência das bem-aventuranças é o sinal mais concreto da presença constante do Senhor na comunidade e no mundo. Quem vive assim faz da própria vida uma manifestação concreta do Senhor.

Na chegada do cortejo ao destino, que é a casa do noivo, a porta da casa foi fechada, impedindo que alguém que chegasse atrasado pudesse entrar. E, finalmente, chegaram as imprevidentes, provavelmente após terem conseguido óleo com algum vendedor (v. 10). Mas já não adiantou, pois encontraram a porta fechada. Aqui, a porta fechada para quem não teve óleo suficiente não é sinal de castigo ou exclusão (vv. 11-12). É também uma advertência de Jesus e do evangelista. É uma situação parecida com a da parábola do banquete (Mt 22,1-14), lida há alguns domingos (28º domingo), quando um convidado foi retirado da sala por não vestir o traje apropriado para a festa, o que também era uma imagem das bem-aventuranças. O fechamento da porta, portanto, significa a afirmação das exigências para fazer parte do Reino. Essas exigências, especialmente o amor e a justiça, são indispensáveis porque sem elas o mundo não é transformado, as coisas não mudam. Por isso, a conclusão também retoma elementos do discurso da montanha. As palavras do noivo às virgens imprudentes recordam uma das sentenças de Jesus, pouco tempo depois de ter proclamado as bem-aventuranças: «Não é aquele que diz ‘Senhor, Senhor!’ que entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus» (Mt 7,21). E a vontade do Pai não se faz em um momento apenas, mas em toda a vida.

As cinco moças imprudentes que não alimentaram suficientemente suas lâmpadas com óleo representam aquelas pessoas que ao longo da vida não vivem as bem-aventuranças, imaginando que basta, de última hora, dizer “Senhor, Senhor!” para entrar no Reino. Tudo indica que na comunidade de Mateus havia muitas pessoas assim. Por isso, ele recordou com muito cuidado as palavras de Jesus que pediam paciência, vigilância e perseverança: «Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora» (v. 13). Essa vigilância não significa longas vigílias de oração, mas uma vida cristã sadia, responsável e comprometida com o Reino. Enfim, é a vida segundo as bem-aventuranças o que caracteriza a pessoa como vigilante e prudente. Por mais que a dimensão comunitária seja imprescindível na construção do Reino, há exigências pessoais intransferíveis e insubstituíveis, como o óleo da parábola.  

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, novembro 04, 2023

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – MATEUS 5,1-12a


Neste ano, a liturgia do trigésimo primeiro domingo do comum é substituída pela solenidade de todos os santos. E o evangelho proposto para essa solenidade é Mt 5,1-12a, interrompendo, assim, a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus. É um texto fixo, lido todos os anos, certamente porque nenhuma outra passagem expressa tão bem o sentido da santidade como esse. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha”. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido à repetição constante do termo grego makárioi (μακάριοι), cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados. Esse é, certamente, um dos trechos mais lidos e conhecidos de todo o Novo Testamento, apreciado por cristãos e não cristãos, pois contém o mais completo programa de humanização que o mundo já conheceu. Gandhi, por exemplo, definiu as bem-aventuranças como «as palavras mais altas que a humanidade já escutou».

As bem-aventuranças compreendem a síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, daquilo que seus discípulos e discípulas de todos os tempos devem viver. É um texto belo, mas muito fácil de ter seu sentido deformado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Ora, falar em todos os santos e santas tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta. Na verdade, todo o discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem evangélica, evitando que esta solenidade se transforme em mera apologia ao devocionismo fundamentalista que tanto tem se difundido nos últimos anos. Por isso, é preciso ter clareza do programa de vida de Jesus com seu projeto de sociedade e, consequentemente, das suas exigências.

De todas as palavras atribuídas a Jesus que encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Infelizmente, isso tem acontecido com muita frequência. Por isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de encorajamento e transformação. Na versão mateana, encontramos oito bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido à ocorrência do termo grego makárioi (μακάριοι) por nove vezes. Não consideramos a nona ocorrência do termo (v. 11) como uma nova bem-aventurança, mas como uma recapitulação e síntese das oito para os discípulos, reforçando a exigência para que eles de fato vivessem intensamente todas elas.

Para compreendermos as bem-aventuranças em seu sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já afirmamos anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é makárioi (μακάριοι), o qual pode ser traduzido por benditos, felizes ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É importante recordar que, embora escritos em grego, os evangelhos foram construídos segundo uma mentalidade semítica, sobretudo o de Mateus. Por isso, é importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o hebraico. Ora, o termo correspondente ao grego μακαριοι – makárioi, em hebraico é (אשרי) “ashrei”, o qual significa uma felicitação, mas é, ao mesmo tempo, uma forma imperativa do verbo caminhar, seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Expressivas correntes da exegese atual propõem que o evangelista pensou nos dois sentidos ao formular o seu texto. De fato, sem esse segundo sentido, as bem-aventuranças podem facilmente ser transformadas em discurso de conformismo ou resignação; com ele, passam a ser uma mensagem de transformação.

Olhemos, pois, para cada uma das situações contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Eis a primeira bem-aventurança: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança que tem recebido as interpretações mais equivocadas ao longo da história, infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à transformação. Na língua grega a palavra pobre (πτωχός – ptokós) deriva do verbo acocorar-se de medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de humilhação extrema. O convite de Jesus é para que não desanimem, mas sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em grego: πνεύμα – pneuma) é empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente, seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.

A segunda bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados» (v. 4). De todas as bem-aventuranças, certamente, essa é a mais paradoxal. Numa tradução mais literal, o termo aflitos seria substituído por “os que choram”, e essa bem-aventurança mistura felicidade com lágrimas e lágrimas com a consolação. É um paradoxo que escapa a qualquer lógica humana. É claro que Deus não compactua com as causas das aflições, mas ele está sempre do lado dos aflitos, daqueles que choram. Ora, jamais será consolado o aflito que se fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado por completo. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar, jamais recuar, para encontrar a consolação.

Na terceira bem-aventurança, Jesus diz: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (v. 5). O termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e, aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja, pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se ele dissesse: «não parem, continuem caminhando e lutando». Era muito comum os pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja.

Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme ele mesmo o fizera, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão forte: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (v. 6). A fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais para a vida, também deve ser a luta por justiça entre seus discípulos. A comunidade cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta por justiça.

Na quinta bem-aventurança, temos: «Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia» (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia, não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem, pois é do bem que o bem é gerado. Quando mais se ama mais possibilidades se tem de ser amado também. Isso faz parte da pedagogia divina e da própria essência do Deus revelado por Jesus, que é todo amor e misericórdia. De fato, a misericórdia é uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também para os seus seguidores. Seguir fazendo o bem ao próximo, sem distinção, é uma das principais exigências do discipulado.

Com a sexta bem-aventurança, Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o discípulo de Jesus deve marchar, avançar.

A sétima bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (v. 9). Na marcha da comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma, intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra (שלום) shalom: paz como bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamados filhos de Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado seu filho.

A oitava bem-aventurança funciona como uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao Reino: «Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 10). A justiça, por excelência, é a prática de todas as bem-aventuranças anteriores. A quem adere plenamente à lógica do Reino, não há outra consequência a não ser a perseguição. Mas, mesmo diante da perseguição, a palavra de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando, marchando em busca do Reino que é vosso!

Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro, na sobreposição de uns sobre os demais e pela violência. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o seu projeto: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (vv. 11-12a). Alguns estudiosos vêem essa afirmação como uma nova bem-aventurança, enquanto outros, a maioria, a vêem como um reforço e síntese conclusiva das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo e discípula de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como ele mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver como ele.

Assim, recordando que Paulo e os demais cristãos de suas comunidades chamavam-se mutuamente de santos, e eram cristãos porque levavam a sério as bem-aventuranças, podemos compreender que celebrar todos os santos é recordar todos os que não aceitam as coisas como são impostas, mas sabem mover-se, avançar e seguir um outro caminho, não para fugir da realidade, mas para transformá-la à maneira de Jesus.

Para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha, caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é libertadora porque convida o discípulo e a discípula a sair de si, colocar-se em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Enfim, as bem-aventuranças constituem o mais completo programa de humanização que esse mundo já conheceu.

 Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,11-18 (ANO B)

O evangelho do quarto domingo da páscoa é sempre tirado do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se auto apresenta como o ún...