quarta-feira, dezembro 31, 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – LUCAS 2,16-21



Na conclusão da oitava de Natal e o início do novo ano civil, a Igreja celebra a solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, recordando a afirmação do Concílio de Éfeso (ano 431) que a definiu como “Theotókos”, cujo significado literal é “aquela que gerou Deus”. O objetivo da Igreja com esta festa e com a definição conciliar, no entanto, é afirmar a identidade de Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e não necessariamente promover o culto e a devoção a Maria. Na verdade, de todas as festas marianas, essa é a que melhor exprime as motivações e o objeto do culto mariano, pois recorda que «a Virgem Maria é mãe de Deus porque pariu, segundo a carne, o Verbo de Deus» (afirmação do Concílio de Éfeso, ano 431). O sentido da festa, portanto, volta-se para o Cristo, recordando a participação decisiva de Maria na sua vinda ao mundo. Trata-se da festa mariana mais antiga, sendo celebrada desde o século VI, e certamente a mais cheia de sentido. Ao longo do tempo, passou por diversas modificações, inclusive no título e na data. Por sinal, o título e a data atuais já são frutos da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. O último título anterior ao Vaticano II era “festa da circuncisão” de Jesus, fundamentada na tradição judaica de circuncidar as crianças do sexo masculino no oitavo dia após o nascimento, como aconteceu, sem dúvidas, com Jesus. No ano de 1968, o então papa Paulo VI proclamou este dia – primeiro de janeiro – também como o Dia Mundial da Paz, convidando a inteira humanidade a empenhar-se na construção da paz e da fraternidade universal. Isso torna esta celebração ainda mais significativa.

O evangelho lido na liturgia deste dia é a continuação quase imediata daquele da noite de Natal, sendo separado por apenas um versículo: Lc 2,15. Enquanto na noite de Natal o evangelho foi Lc 2,1-14, na solenidade de hoje o texto proposto é Lc 2,16-21. Inclusive, é o mesmo texto para todos os anos. A nível de contextualização, consideramos que o primeiro passo para uma boa compreensão do evangelho de hoje é recordar o versículo que o antecede: «Quando os anjos os deixaram e foram para o céu, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos já a Belém para ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”» (Lc 1,15). Ora, os pastores ficaram maravilhados com a Boa Notícia que o anjo lhes tinha anunciado: um Salvador nasceu para eles, naquela noite (Lc 2,10), que é sempre um “hoje”, tema importante da catequese lucana. E, ao anúncio do anjo, seguiu-se o canto da multidão da corte celeste que desceu à terra, para junto dos pastores, proclamando a glória de Deus nos céus e a correspondente paz na terra entre a humanidade (2,13-14). Portanto, era inevitável a surpresa e a perplexidade nos pobres pastores, assim como a dúvida, afinal, conforme os parâmetros religiosos da época, eles seriam os últimos a receber uma mensagem do céu, pois pertenciam à categoria das pessoas mais simples e marginalizadas, e eram considerados impuros, compondo o último estrato social e religioso da época.

Uma das grandes novidades de Jesus, desde o nascimento, foi contradizer o que a sua religião tinha afirmado sobre o Messias e sobre Deus. Ora, a religião oficial tinha classificado as pessoas como puras e impuras, justas e pecadoras, imaginando que a vinda do Messias seria marcada pelo extermínio daquelas classificadas como impuras e pecadoras, como eram considerados os pastores na época. Ao invés de seguir as determinações da religião, Jesus preferiu, desde o início, exatamente as categorias excluídas, tomando partido por elas, contradizendo e frustrando muitas expectativas. É nessa perspectiva que podemos e devemos compreender a reação dos pastores ao anúncio do nascimento de Jesus. A eles, a religião tinha ensinado que estava fora de cogitação a salvação, pois eram gente da pior qualidade e que não observava a Lei. De repente, eles recebem um anúncio de salvação e sentem-se amados por Deus. Sem dúvidas, eles ficaram surpreendidos, sentindo-se humanizados, ao descobrir que eram destinatários da salvação, convidados a participar do Reino de Deus. Além, disso, a religião de Israel tinha alimentado as expectativas pela vinda de um messias poderoso, guerreiro e glorioso, e o que veio foi uma criança pobre, nascida em condições sub-humanas. Perplexos diante de tudo isso, eles decidiram ir a Belém para conferir e tirar todas as dúvidas (Lc 2,15).

Diante de uma novidade sem precedentes, é impossível esperar, por isso diz o texto que «Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura» (v. 16). Merece destaque a expressão adverbial “às pressas” (em grego: σπεύσαντες – speussantes), a qual possui grande relevância no vocabulário da teologia lucana: encontra-se logo após o anúncio do anjo a Maria, introduzindo a visita a Isabel (Lc 1,39), e na ordem de Jesus a Zaqueu, para que desça rapidamente da árvore, para acolher a salvação em sua casa (Lc 19,5-6). Isso quer dizer que, para Lucas, a salvação é uma Boa Notícia que não pode ser adiada, mas deve ser experimentada sem demora, com urgência. Tanto quem recebe quanto quem proclama o anúncio da salvação devem ter pressa. No caso dos pastores, mais ainda: como passaram a vida inteira às margens, sofrendo o desprezo e a exclusão, não poderiam mais perder tempo. Para eles e todas as categorias de pessoas marginalizadas, a inclusão tem de ser agora, hoje. Por isso, foram às pressas a Belém. Além da necessidade que sentiam, tendo em vista o histórico de marginalização que sofriam, a pressa dos pastores é também uma demonstração de fé e obediência a Deus. E, assim, o evangelista evidencia ainda mais as diferenças na maneira de acolher a mensagem de Deus entre as pessoas simples e os representantes da religião oficial: Maria e os pastores agiram com pressa diante do anúncio recebido, enquanto Zacarias, um sacerdote do templo, hesitou em acreditar. Com isso, Lucas vai, desde o início, delineando os traços de quem vai se abrir à mensagem de Jesus, durante o seu ministério.

Se os pastores ficaram surpresos com o anúncio do anjo, talvez tenham ficado mais ainda com o que viram em Belém: «encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura» (v. 16b). Na verdade, encontraram tudo conforme lhes tinha sido anunciado (Lc 2,12), mas é impossível que não tenham se surpreendido, tamanha a reviravolta na história. Ouviram que tinha nascido para eles um Salvador, e encontram na manjedoura, junto aos pais, uma pequena criança, provavelmente em meio às moscas e ao mau cheiro de esterco de animais, sem nenhum sinal distintivo que revelasse glória ou poder, atributos próprios de um salvador. Porém, o que encontraram confirmava o que lhes tinha sido anunciado (Lc 2,12). Apesar da inevitável surpresa, veio a consciência da novidade e da nova história que estava começando. Ora, se tivesse nascido um Salvador conforme as expectativas da religião oficial, os pastores não conseguiriam sequer chegar perto, e seriam os últimos a saber. Aos poucos, foram compreendendo que um novo tempo com uma nova ordem estava surgindo, quem estava às margens estava passando para o centro, como eles. E essa mudança só se tornava possível porque o Salvador veio identificado com eles. Nesta cena, portanto, Lucas delineia o primeiro grande esboço de uma Igreja pobre e para os pobres.

Na sequência, o evangelista diz que os pastores «tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino» (v. 17), tornando-se assim, também eles, mensageiros de salvação, portadores de Boa Notícia. Contaram que o anjo lhes aparecera anunciando o nascimento do Salvador, e que depois “uma multidão da corte celeste” baixou perto deles glorificando a Deus e anunciando a paz em toda a humanidade (Lc 2,10-14). Contaram coisas maravilhosas, de modo que quem os escutava também se maravilhava, ou seja, ficavam perplexos, admirados, pois, até então, não se tinha notícia de um Deus que fizesse conta de gente pouco importante e sem currículo, como eram eles, conforme os padrões da sociedade e da religião da época. Com isso, o evangelista ensina que os pastores foram os primeiros evangelizados com o nascimento de Jesus e se tornaram os primeiros evangelizadores de tão grande acontecimento. Assim, Lucas faz deles modelos de anunciadores, prefigurando neles a missão dos apóstolos e dos discípulos e discípulas de todos os tempos. De fato, mais adiante, no auge da missão e sofrendo as primeiras perseguições, os apóstolos vão confirmar a fidelidade seguindo o exemplo dos pastores: «não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos» (At 4,20). Não calar diante do que se vê e se ouve é exigência básica da evangelização. E os pastores foram os primeiros a fazer isso.

De todas as pessoas que ouviram o relato dos pastores e ficaram maravilhadas, o texto destaca a reação de Maria como mais profunda, com menos surpresa e mais reflexão. Afinal de contas, ela já estava habituada às maravilhas de Deus, pois foi a primeira destinatária do anúncio salvífico através do anjo Gabriel (Lc 1,26-38) e tinha assistido à exaltação de Isabel quando a visitou (Lc 1,39-52). No entanto, ela não deixará de maravilhar-se, pois a trajetória de Jesus lhe trará outras surpresas, como no episódio da apresentação no templo, quando ela e José ficarão admirados com o que se dizia do menino (Lc 2,33). A reação de Maria é diferenciada, pois nela o evangelista está construindo a imagem da discípula modelo: «guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração» (v. 19). Se na atitude dos pastores já havia esboço do modelo de discípulo e discípula, esse modelo se aperfeiçoa em Maria: não basta contar o que se vê e se escuta, mas é necessário também meditar, assimilar bem, interiorizar. O verbo grego empregado pelo evangelista, traduzido pelo lecionário como “meditar” (συμβαλλω – symbálô), possui um significado muito mais profundo: quer dizer “colocar junto”, “unir”, “reunir”, “interpretar”. E era isso que Maria fazia: percebia os diversos sinais e acontecimentos do agir de Deus e juntava-os, fazendo sua própria interpretação, da qual a melhor demonstração está no canto do Magnificat: uma síntese da história da salvação, com ênfase na opção de Deus pelos pobres e humildes de sempre.

Certamente, a meditação de Maria consistia em relacionar os acontecimentos do presente com as ações libertadoras de Deus ao longo da história, como ela mesma já expressara no Magnificat (Lc 1,46-55) e experimentara em sua vida. É exatamente aqui que ela se sobressai sobre os demais ouvintes, porque ela guardava, ou seja, escutava com atenção tudo o que os pastores tinham dito, e juntava com o que já sabia: as palavras do anjo Gabriel e as declarações de Isabel, e o histórico de Deus em favor dos pobres e humildes. Aquela que já era mãe, inicia agora uma nova etapa, o discipulado, e isso ela vai fazer ao longo de toda a sua vida e a de Jesus. Ao invés de ver os fatos isoladamente, ela vai juntando cada um, unindo as peças e percebendo, no seu coração, que a história da salvação está sendo reescrita com novos parâmetros, uma inversão de ordem: os últimos, como ela e os pastores, passaram a ser os primeiros. E é essa a prova de que o Reino de Deus, de fato, irrompeu na história. Nesse sentido, Maria se torna autêntica intérprete da nova história da salvação, sendo, por isso, modelo ideal de discípula e discípula.

Tendo comprovado e visto que tudo o que lhes tinha sido anunciado era verdade, «os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus» (v. 20). Realmente, não faltavam motivos para os pobrezinhos dos pastores glorificarem a Deus! É importante lembrar que a alegria e o louvor também são traços bem característicos de Lucas; quem faz a experiência do amor misericordioso de Deus reage louvando e glorificando. O louvor dos pastores mostra que, em Jesus, o abismo entre o humano e o divino foi eliminado; céus e terra foram unidos definitivamente. Cantar glória a Deus era função dos anjos no céu que, excepcionalmente desceram à terra e louvaram a Deus diante dos pastores (Lc 1,13-14), mas logo retornaram para o céu. Agora, também aos pastores, os últimos da terra, tem esse direito. Temos aqui uma mudança completa de paradigma: o que era privilégio dos primeiros do céu, se torna acessível aos últimos da terra. O louvor continuado dos pastores mostra que a experiência vivenciada por eles foi verdadeira. O mistério contemplado deixou marcas permanentes. Eles não assistiram apenas a um evento, mas se tornaram participantes e construtores de uma etapa nova da história. Regressaram transformados, renovados, animados, se sentindo gente de verdade. Por isso, daquele momento em diante, dificilmente eles deixaram de anunciar tudo o que tinham visto, escutado e vivido.

No final, vem evidenciado o papel importante de José e Maria na educação de Jesus, levando para a circuncisão conforme previa a lei e, ao mesmo tempo, a liberdade que tinham para seguir mais a Deus do que a Lei: «Quando se completaram os oitos dias para a circuncisão do menino, deram-lhes o nome de Jesus como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido» (v. 21). A circuncisão não era exclusividade de Israel. Era um costume comum a vários povos do antigo Oriente, sendo que a motivação era por questão de higiene e saúde. Em Israel se transformou em preceito religioso, passando a ser o principal sinal de pertença de um homem ao povo eleito. Com esse dado, Lucas reforça a concretude da encarnação. O que está sendo evidenciado mesmo é o nome dado à criança: Jesus, cujo significado é o “Senhor salva”. A Lei determinava que se desse o nome de um parente próximo. Contudo, o nome Jesus fora indicado pelo anjo, no momento do anúncio (Lc 1,31). Com isso, Lucas mostra que, entre a Lei e o Espírito Santo, Maria e José preferiram se orientar pelo Espírito Santo, prefigurando, assim, mais uma característica da comunidade cristã. E Lucas faz essa referência à circuncisão mais como dado cronológico do que mesmo identitário. O importante aqui é o nome que sintetiza a missão de Jesus. E o conjunto dos eventos, do anúncio do nascimento até aqui, mostra a atualidade desse nome.

O significado do nome Jesus é “Deus salva”, porque agora a salvação entrou definitivamente na história, como o anjo tinha anunciado aos pastores: «Hoje, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor» (2,11). E, a partir desse nascimento, a salvação tornou-se acessível à humanidade inteira, deixando de ser privilégio de um povo. Isso quer dizer que todos os povos da terra compõem o “vós” para quem nasceu o Salvador, que é o Cristo Senhor. Portanto, hoje, especialmente, é mais do que justo recordarmos a Mãe desse Salvador, e seguir seu exemplo de discípula fiel.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, dezembro 27, 2025

REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ – MATEUS 2,13-15.19-23 (ANO A)



No domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, cujas leituras variam de acordo com o ciclo litúrgico vigente. Neste ano, por ocasião do ciclo A, o evangelho é tirado de Mateus, especificamente da parte introdutória, a qual é chamada convencionalmente de “evangelho da infância”, correspondente aos dois primeiros capítulos, os quais funcionam como introdução e síntese de todo o Evangelho, como acontece também com o Evangelho de Lucas. A passagem selecionada para esta festa – Mt 2,13-15.19-23 – contém dois episódios, bastante conexos entre si: a fuga de José com Jesus e sua mãe para o Egito (vv. 13-15), e o respectivo retorno dos três para a Palestina, com a fixação da residência em Nazaré da Galileia (vv. 19-23). Como se vê, a liturgia preferiu saltar alguns versículos entre os dois episódios (vv. 16-18), correspondentes ao relato da matança dos inocentes a mando de Herodes, o que foi o motivo da fuga de José com o menino e a mãe para o Egito. Nesse texto, é interessante notar a itinerância, o movimento, o quanto Jesus se encontra em caminho, em viagem, o que não vai se tornar um traço característico da sua identidade no Evangelho de Mateus, como é no de Lucas, nesta passagem chega a ser interessante e até surpreendente. Com isso, o evangelista faz da vida de Jesus uma síntese da trajetória do povo de Deus, marcada pelo constante peregrinar, prefigurando a identidade da Igreja, igualmente peregrina, sobretudo, por ser essencialmente missionária.

De todos os evangelistas, Mateus é aquele que mais recorre ao Antigo Testamento para construir a sua “história de Jesus”, empregando, inclusive, os métodos de interpretação usados pelos rabinos do seu tempo, embora com uma finalidade diferente. Os rabinos ligados ao judaísmo oficial usavam passagens do Antigo Testamento para negar que Jesus fosse o Messias e Filho de Deus. Mateus, por sua vez, buscava passagens para confirmar e afirmar Jesus como o Messias, procurando constantemente colocá-lo em paralelo com os principais personagens da história de Israel, principalmente com Moisés. Ele faz isso apresentando Jesus como muito superior a todos as figuras da antiga aliança, incluindo Moisés.  Por ser o evangelista com os pés mais fincados nas tradições judaicas, ele insiste em apresentar Jesus como o messias anunciado e prometido pelos profetas. Isso acontece em todo o seu Evangelho, mas com mais intensidade no “evangelho da infância” (cc. 1 – 2). O trecho lido hoje é uma clara demonstração disso. A principal motivação para o evangelista fazer isso foi a realidade e a composição das suas comunidades, formadas predominantemente por cristãos que tinham saído do judaísmo e necessitavam de provas escriturísticas de que Jesus era mesmo o Messias esperado e Filho de Deus. Na época da redação do Evangelho, essas comunidades também viviam um período muito difícil, perseguidas pelo império romano e o judaísmo oficial. Para fortalecê-las, o evangelista apresenta Jesus sendo perseguido desde os seus primeiros dias de vida, como mostra o evangelho de hoje, um aspecto que Lucas não enfatiza em seu relato da infância.

Feita a introdução contextualizada, olhemos para o texto: «Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse» (v. 13a). Temos novamente a figura do Anjo que aparece em sonho a José; o mesmo tinha acontecido quando ele descobriu a gravidez de Maria e pensava abandoná-la em segredo (Mt 1,19). A expressão “Anjo do Senhor” é uma forma suavizada para falar de Deus mesmo. Como a mentalidade hebraica concebia Deus como um ser muito distante e o ser humano incapaz de comunicar-se com ele, usava-se a imagem de uma figura intermediária, como um anjo. Já o sonho, na mentalidade bíblica, e sobretudo em Mateus, significa a disposição interior para compreender a vontade de Deus e colocá-la em prática, ou seja, indica o estado de oração. Toda vez que se diz que houve uma revelação ou visão direcionada a uma pessoa em sonho, quer dizer que tal pessoa se encontrava em oração. O evangelista aproveita a ocasião também para fazer um paralelo entre o esposo de Maria e o patriarca José, o penúltimo filho de Jacó, habilidoso em sonhar e interpretar sonhos (Gn 37; 40 – 41), de acordo com o livro do Gênesis, o qual também salvou a vida dos descendentes de Israel, levando-os para o Egito numa época de carestia. Desse modo, Mateus reforça a herança israelita de Jesus, relacionando também os outros personagens envolvidos em seu nascimento com as principais tradições da história do seu povo.

Através do anjo, o Senhor dá uma ordem a José: «Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo» (v. 13b). A primeira informação evidenciada aqui é a proteção constante de Deus na vida de Jesus, sendo também uma antecipação do seu ministério como oposição ao poder estabelecido. O evangelista está alertando que, desde o início, Jesus e seu projeto de libertação são insuportáveis para todo e qualquer sistema de dominação sustentado pelo uso da força e poderio econômico, causas diretas das principais injustiças. É nítida aqui também a intenção do evangelista de comparar Jesus com Moisés: ambos, quando ainda eram crianças, foram alvos da fúria de governantes violentos e injustos; o que Herodes faz é semelhante ao que o faraó do Egito fez na época de Moisés, ordenando que todos os meninos hebreus fossem mortos (Ex 1,22 = Mt 2,16). É claro que, além da continuidade, o principal objetivo do evangelista ao comparar Jesus com os personagens do Antigo Testamento é demonstrar a sua superioridade. Isso será feito no decorrer de todo o Evangelho, e teremos a oportunidade de perceber isso ao longo do ano litúrgico em curso – ano A –, o qual possibilitará um contato constante com a obra de Mateus

Ao longo de todo o seu “evangelho da infância”, Mateus apresenta José como exemplo de abertura e obediência à vontade de Deus, constituindo-o como modelo antecipado de discípulo, ao mesmo tempo em que recorda a figura obediente de Abraão. Por isso, à recomendação do anjo, temos a imediata resposta de José: «José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito» (v. 14). Os verbos “levantar-se”, “pegar” (o mesmo que ‘tomar consigo’)” e “partir/entrar”, que formam um refrão neste texto (vv. 13-14.20-21), tanto como ordem do anjo quanto como execução da parte de José, conforme indica o narrador, são aqui uma síntese do discipulado de Jesus, e fazem deste trecho um verdadeiro tratado missionário. Mesmo sem dizer uma única palavra, José é aqui apresentado como autêntico e fiel discípulo missionário: o seu agir é todo conforme a Palavra de Deus e, em tudo o que ele faz, ele leva Jesus consigo. Na recomendação do anjo e no cumprimento por José é delineado também um ordenamento para a comunidade: Jesus, o menino, está sempre no centro: José-o menino-a mãe. Na tradição judaica, numa relação de três nomes, aquele que aparece no meio é o principal, e o evangelista reflete isso. José e a mãe, cujo nome não vem aqui mencionado, são aqui as imagens do antigo Israel que converge para Jesus, e também da comunidade cristã – a Igreja – que será idealizada no decorrer do Evangelho, a partir dos ensinamentos de Jesus. Eles só se inserem na história da salvação em função de Jesus. Logo, no centro de uma comunidade não pode estar outro senão Jesus Cristo.

Para a conclusão do primeiro episódio, o evangelista insere uma citação do profeta Oséias (Os 11,1): «Ali ficou até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu Filho”» (15). A morte de Herodes é o evento demarcatório de que o perigo diminuiu, pelo menos por enquanto, pois a sequência do texto mostrará o contrário. Na maioria das citações explícitas dos profetas, Mateus diz apenas “para se cumprir o que disse o profeta”; em algumas, nas mais importantes, como essa, ele diz “para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta”; assim, ele coloca as palavras na boca de Deus, para demonstrar que quem chamou Jesus de Filho foi próprio Deus. O Filho ao qual Oséias se refere é povo de Israel, recordando o êxodo. Aplicada a Jesus, a citação antecipa a confissão da sua filiação divina para a comunidade de Mateus. O evangelista afirma aqui a messianidade de Jesus como Filho de Deus, o que será reafirmado no decorrer do Evangelho, especialmente na cena do batismo (Mt 3,17) e na confissão de Pedro (Mt 16,16) e na transfiguração (Mt 17,5).

Tendo omitido os versículos que tratam da “matança dos inocentes” (vv. 16-18), o texto continua com o dado da morte de Herodes e uma nova aparição do Anjo do Senhor a José (v. 19), com uma nova ordem: «Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos» (v. 20). A ordem para voltarem à terra de Israel, saindo do Egito, alude à ordem de Deus a Moisés, quando estava refugiado em Madiã: «Vai, volta ao Egito, porque aqueles que queriam te matar estão mortos» (Ex 4,19). Embora no texto de Mateus o movimento seja o contrário, ou seja, é do Egito que devem partir, o objetivo é atualizar a experiência do êxodo. Mesmo sendo José o executor das determinações de Deus por meio do anjo, é Jesus o motivo de tudo. Assim, o evangelista o apresenta como o libertador definitivo, não apenas de Israel, mas de toda a humanidade. Aqui, temos também um elemento novo: antes, era apenas Herodes quem queria matar Jesus recém-nascido (v. 13); agora, o evangelista diz “aqueles que procuravam matar”, ou seja, trata-se de um grupo, um conjunto de forças. Com isso, o evangelista apresenta uma antecipação do complô final formado pelos poderes político e religioso de Jerusalém, que levará Jesus à cruz. Por isso, ao escapar da matança dos inocentes, Jesus teve a sua morte adiada, de modo algum livrou-se do perigo. Enquanto messias e Filho de Deus, o agente máximo de humanização enviado pelo Pai, toda a sua vida confrontada pelas principais forças antagônicas ao Reino de Deus que ele veio instaurar no mundo: o império romano e a elite religiosa de Jerusalém.

Novamente, José fez a vontade de Deus. O evangelista não se cansa de repetir que tudo o que José faz é conforme o dizer de Deus: «José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, e entrou na terra de Israel» (v. 21). A entrada na terra de Israel é a realização parcial do novo êxodo, o qual será consumado com a ressurreição. Como o poder dominante usa de todos os métodos para se perpetuar, a morte de um tirano não significa melhora na vida do povo. É um poder que passa de pai para filho com os mesmos métodos. Por isso, mesmo após a morte de Herodes Jesus corria perigo: «Mas quando soube que Arquelau reinava na Judeia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galileia» (v. 22). Novamente, Deus intervém em favor de Jesus e da comunidade reunida em seu redor, prefigurada em José e Maria. Deus protege, mas o ser humano participa da contínua libertação. Em momento algum o evangelista diz que Deus os transportou miraculosamente de um lugar para outro. O que se diz é que Deus iluminou a realidade com a sua Palavra, comunicada pelo anjo. A iniciativa de partir de um lugar para outro foi sempre de José, ou seja, do agente humano. E ele fez tudo a partir do que ouviu de Deus. É assim também que deve fazer a comunidade cristã: à luz da Palavra, tomar iniciativas de libertação; não repetindo as práticas do opressor, mas criando e propondo alternativas de vida. A ida dos três para a desprezada região da Galileia é uma prova disso. É de lá que o Reino será, posteriormente, anunciado e terá sua construção iniciada por Jesus (Mt 4,14).

Toda a história dramática até aqui apresentada teve como objetivo principal levar Jesus para Nazaré, ou seja, para as margens: «E foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”» (v. 23). Ora, toda a Galileia era discriminada pela elite de Israel, sobretudo pela pouca ortodoxia do seu povo. Inclusive, era chamada de “Galileia dos pagãos” (Mt 4,15). E parece que Nazaré era a pior das cidades que havia lá. Na verdade, Nazaré era apenas uma aldeia de menos de quinhentos habitantes; seu nome não é citado uma única vez no Antigo Testamento. O evangelista se arriscou até a usar uma profecia “inexistente”, para explicar a ida de Jesus para lá. Ora, nenhum texto do Antigo Testamento fala de um “nazareno”; já foram feitas várias explicações para esta referência, mas nenhuma convincente. A maior prova da má fama de Nazaré na época de Jesus é dada pelo evangelista João: «De Nazaré pode sair coisa boa?» (Jo 1,46). No entanto, foi lá que Deus escolheu para dar início ao seu Reino. Assim, o evangelista conclui o seu “evangelho da infância”, delineando a missão de Jesus e a sua identificação com tudo o que é marginalizado e descartado. Para Mateus, portanto, é das margens que brota a libertação de toda opressão e injustiça. Os centros de poder são sempre ameaça à liberdade, à justiça e, consequentemente, ao Reino de Deus.

Ainda sobre a ida de Jesus a Nazaré, levado por seus pais, após o período de refúgio no Egito, merece atenção a particularidade do Evangelho de Mateus, no qual Nazaré aparece como algo acidental, fruto do acaso, como se vê na passagem de hoje (vv. 22b-23); parece que eles foram morar lá por uma questão de segurança, devido, provavelmente, à insignificância do lugar, onde poderiam viver anonimamente. E, no final, o evangelista forjou uma referência profética para justificar. Esse dado contraria outras tradições neotestamentárias, como a de Lucas, por exemplo, que apresenta Nazaré como o lugar fixo de residência dos pais de Jesus antes do seu nascimento, inclusive, como cenário do anúncio do anjo a Maria, e onde residia toda a sua parentela (Lc 1,26-38; 2,4; 4,16ss). Obviamente, tal observação não visa provocar o questionamento sobre qual dos evangelistas estaria correto. O certo é que cada qual utilizou o dado correspondente às suas respectivas intenções teológicas, uma vez que nenhum deles tinha pretensão de historicidade ao compor seus relatos catequéticos. Independentemente de qualquer relação anterior de seus pais com Nazaré, o certo é que essa pequena aldeia foi incorporada à própria identidade de Jesus, tornando-o eternamente conhecido como o Nazareno ou simplesmente Jesus de Nazaré.

Ao escrever os episódios que compõem o evangelho de hoje, o evangelista Mateus não pretendia apresentar um modelo fixo e universal de família. Na verdade, ele quis enfatizar a inserção do Filho de Deus na história, recordando sua pertença a uma família e um povo. Com isso, ele ensina que Jesus é plenamente humano, viveu intensamente os dramas da existência humana, inclusive os perigos, a instabilidade e a pobreza, reforçando sua opção preferencial pelos últimos, os excluídos e marginalizados, como ele mesmo se fez. José e a Mãe do menino são recordados como modelos pela atenção e obediência à Palavra de Deus, antecipando como deve ser a comunidade cristã em todos os tempos: peregrina e missionária, sempre do lado dos mais necessitados, mesmo que essa opção gere perseguição e perigo. 

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

quinta-feira, dezembro 25, 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR – JOÃO 1,1-18 (MISSA DO DIA)


Assim como acontece com a liturgia da missa da noite, o evangelho indicado para a missa do dia na solenidade do Natal do Senhor também é o mesmo para todos os anos. Trata-se do prólogo do Evangelho de João – Jo 1,1-18. Esse texto é considerado uma das páginas mais belas e profundas de toda a Bíblia. É um poema de elogio à Palavra de Deus, cuja encarnação constitui o centro do mistério do Natal e, consequentemente, da vida cristã. Enquanto Mateus e Lucas procuraram explicar o nascimento e a origem divina de Jesus a partir de relatos e reconstrução de prováveis genealogias (Mt 1,1-17; Lc 3,23-38), o autor do Quarto Evangelho recorda a sua preexistência enquanto Palavra ou Verbo de Deus que precede a criação do mundo, inclusive, apresentando a participação da própria Palavra na criação do mundo. Pela diferença de estilo literário, sobretudo, muitos estudiosos acreditam que esse texto é um acréscimo posterior da comunidade joanina, enquanto outros o vêem como uma introdução pensada pelo autor, desde o início, como chave de leitura de toda a obra, uma vez que no prólogo já se percebem indicações de praticamente todas as linhas teológicas tratadas no Quarto Evangelho e nas cartas atribuídas à tradição joanina. O debate em torno dessa questão continua aceso na exegese, sem perspectiva de conciliação. A extensão do texto não permite um comentário pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos colher a mensagem central do texto.

E começamos recordando que o prólogo do Evangelho de João foi visto com desconfiança em muitas comunidades cristãs dos primeiros séculos, devido a uma suposta influência da filosofia grega. Isso foi mais pela linguagem do que mesmo pelo conteúdo em si. De fato, nesse texto o autor procura conciliar a maneira de pensar dos gregos com o jeito de acreditar dos hebreus. Contudo, embora expressa em linguagem mais próxima da filosofia e poética gregas do que da literatura hebraica, a mensagem deste prólogo possui plena relação e continuidade com a teologia predominante da Bíblica Hebraica, apesar dos pontos de ruptura, como acontece com todos os escritos do Novo Testamento. Até mesmo em relação à linguagem fica evidente que o autor fez uso de modelos já conhecidos no mundo judaico, embora não tão aceitos, como os elogios à Sabedoria em Sb 6–9, Pr 8 e Eclo 24. De fato, a maneira como o autor do Quarto Evangelho apresenta a Palavra-Verbo (em grego: logos – λόγος) possui muita afinidade com o que se dizia da Sabedoria (em grego: sofia – σοφίᾳ) no Antigo Testamento que, personificada, desceu do céu e se tornou acessível à humanidade. Porém, dos textos citados do Antigo Testamento, que fazem elogio à Sabedoria e certamente influenciaram o autor do Quarto Evangelho, somente o de Provérbios faz parte da Bíblia Hebraica, pois os livros da Sabedoria e do Eclesiástico não são considerados inspirados pelos judeus.

Feitas algumas considerações a nível de contexto, olhemos para o texto e, logo de início, já percebemos a primeira grande afinidade com o Antigo Testamento, apesar da novidade contida na afirmação: «No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus» (v. 1). A primeira expressão do prólogo é a mesma que abre o livro da Gênesis, na tradução grega dos Setenta (LXX): “no princípio” (Ἐν ἀρχῇ - en arkê). Em Gn 1,1 se diz que no “princípio Deus criou…”, mas aqui se diz que em um princípio anterior à própria criação já havia a Palavra que estava com Deus e era ele próprio. Isso quer dizer que, enquanto Palavra, Jesus Cristo já existia antes da criação do mundo e ele mesmo foi agente da criação, junto com Deus, o Pai, como diz o texto: «Tudo foi feito por ela e sem ela nada se fez de tudo que foi feito» (v. 3). Talvez essa seja uma das descobertas mais surpreendentes e preciosas que o autor do Quarto Evangelho nos fornece. Ora, no Novo Testamento, existem hinos até mais antigos do que este que afirmam a pré-existência do Cristo, como Filho de Deus e agente da criação (Ef 1,3-14; Cl 1,15-20), mas não afirmando que ele é a Palavra, e menos ainda com a clareza que João faz aqui. E a profundidade deste primeiro versículo de João se torna ainda mais evidente se o compararmos aos evangelhos sinóticos de Mateus e Lucas que, empregando o gênero literário da genealogia, chegam ao máximo em Abraão e Adão, quando procuram identificar as origens messiânicas de Jesus. Afirmando a preexistência da Palavra na eternidade de Deus, o autor ensina que Deus fala, ele se comunica com a humanidade. Aliás, se diz aqui que todo o agir de Deus se dá por meio da Palavra, que é performativa, sendo também um evento. Isso evoca a ideia de um Deus acessível à humanidade, como, de fato, a vida de Jesus demonstra tão bem.

Na sequência, o autor exalta as qualidades do Cristo enquanto Palavra e seus efeitos para o mundo: «Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la» (vv. 4-5). Vida e luz são duas das categorias teológicas mais relevantes na perspectiva do Quarto Evangelho, e aqui são diretamente associadas a Jesus: ele é fonte de vida e de luz. No auge de sua vida pública, Jesus mesmo vai dizer que veio ao mundo para trazer luz ao mundo e comunicar vida em abundância à humanidade (Jo 8,12; 10,10). Ele vai dizer claramente ser a luz e a vida verdadeiras. Sua luz é eterna, brilha fortemente, mas é perseguida pelas trevas, que são todas as forças de morte manifestadas ao longo da história, incluindo o poder religioso instituído em Israel e os diversos sistemas de poder político que já dominaram aquele povo. Na verdade, as trevas são todas as oposições ao projeto de Deus, desde a criação até os tempos atuais, de modo que as trevas aqui mencionadas não dizem respeito apenas à história de Israel, mas ao mundo inteiro. Todo impedimento ao projeto de Deus e da Palavra encarnada, Jesus, representa o mundo das trevas, em todos os tempos e lugares. A primeira vitória da luz aconteceu na criação: o primeiro ato criador de Deus foi invocar a luz sobre o caos primordial (Gn 1,3). E o Natal, enquanto “fazer-se carne” da Palavra é o começo da máxima manifestação dessa luz, cujo ápice será a ressurreição. Durante sua vida terrena, Jesus experimentou na carne o quanto a sua luz foi perseguida pelas trevas, sobretudo, ao ser  rejeitado e combatido pela instituição religiosa. Mas a ressurreição mostrou que as trevas não conseguiram dominá-la.

Por ser também uma síntese poetizada do percurso dinâmico da Palavra, desde a criação até a encarnação, o prólogo do evangelho joanino compreende também, embora implicitamente, uma síntese da história da salvação. Por isso, não poderiam faltar referências aos personagens mais relevantes da história e da religião de Israel. Mas o autor é muito cuidadoso nesse sentido, e cita somente dois nomes: Moisés e João, o Batista; um legislador e um profeta. João, o Batista, é identificado como enviado por Deus para dar testemunho da luz (vv. 6-9.15). O papel da testemunha é apontar para a luz, ajudando os outros a serem iluminados e, por consequência, a chegarem à fé, como consequência da luz contemplada e recebida. Nesse sentido, João é síntese de todo o profetismo bíblico que, ao longo da história, constituiu-se como a expressão religiosa mais autêntica de Israel. Com a instituição religiosa corrompida desde o início, por muitos séculos somente o profetismo fez a luz de Deus resplandecer sobre o seu povo. O aparato ritualista do templo, em conluio com a monarquia e, posteriormente, com os impérios dominantes, ofuscavam a luz verdadeira. Por isso, por tanto tempo a luz verdadeira não foi conhecida e nem reconhecida, apesar de nunca ter faltado o testemunho de profetas como João Batista (vv. 10-11). Também Moisés não poderia ser esquecido na apresentação da trajetória da Palavra-Luz. Seu papel é reconhecido, mas colocado em seu devido lugar: por meio dele foi dada a Lei (v. 17), que tem a sua importância na história, mas até certo ponto, pois ela não comunica graça e nem verdade, e pode ser distorcida por aqueles que se credenciam como seus legítimos intérpretes, como realmente aconteceu. Basta olhar a história de Israel para perceber o quanto a Lei foi distorcida, sendo mais usada para escravizar do que mesmo para libertar. Por não comunicar graça e verdade, a Lei não gerava filhos para Deus, mas apenas servos. Só o Cristo-Palavra gera filhos para Deus, porque somente ele reflete a luz verdadeira do Pai e, por isso, ele é a própria luz (v. 18). Na verdade, tudo o que é propriedade do Pai só pode ser comunicado claramente por aquele que o conhece verdadeiramente, e é Jesus quem o conhece.

Até então, todas as formas de comunicação experimentadas por Deus para revelar-se claramente à humanidade tinham sido parciais e, por conseguinte, insuficientes (Hb 1,1-2). Por isso, chegou o momento em que «a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho Unigênito, cheio de graça e de verdade» (v. 14). Esse versículo é o ponto alto do texto e de toda a fé cristã. Sobrepõe-se, inclusive, à fé na ressurreição, porque a ressurreição é consequência da encarnação. Ele ressuscitou porque morreu, e só morreu porque se fez carne. Não há contraposição entre os dois mistérios, o que há é uma relação de causa e efeito. E Para compreender bem esse versículo, e perceber a verdadeira revolução que ele indica, é necessário voltar para o início e lê-lo em paralelo com o primeiro versículo: «No princípio era Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus» (v. 1). A Palavra que se fez carne é o próprio Deus. Temos aqui uma reviravolta maravilhosa na história! Ora, ao longo da história, não faltam personagens que agiram como se fossem deuses, que é a lógica do mundo. A ambição, o orgulho, a sede de poder e a prepotência levam os homens a quererem ser como Deus. E o Natal revela um movimento totalmente oposto a essa lógica: não é um homem que se fez Deus, mas um Deus que se fez homem, motivado pelo amor. E é somente por causa desse acontecimento que podemos contemplar a glória de Deus. Antes, imaginava-se que a glória de Deus poderia ser contemplada na Lei, no templo e, ocasionalmente, em algumas raras manifestações a personagens privilegiados. Aqui, o evangelista ensina que a carne humana, sinônimo de fragilidade na teologia tradicional de Israel, é o lugar privilegiado de manifestação da glória de Deus. Por isso, esse versículo (v. 14) pode ser considerado um dos mais revolucionários de toda a Bíblia.

A Palavra se fez carne, e nessa carne podemos contemplar a glória de Deus em plenitude, com transparência. E conhecemos como se deu esse “fazer-se carne” da Palavra: foi numa criança pobre, nascida em condições sub-humanas. Essa é a maior revolução da história. É o ponto de chegada de uma longa trajetória, anterior até mesmo à criação do mundo, e o ponto de partida de uma nova história, que começa pelos últimos, pelos pequenos, pelo que é frágil e marginalizado. O autor poderia dizer apenas que a Palavra se tornou humano ou homem, mas isso poderia ser distorcido; poderiam dizer que ele, em sua divindade, teria apenas se revestido de humanidade, sem, no entanto, ter-se tornado verdadeiramente humano e frágil. Inclusive, na própria comunidade do evangelista surgiu esse problema, o que se tornou um dos motivos principais para a redação da Primeira Carta de João: reafirmar que Jesus Cristo veio na carne (1Jo 4,1). Ora, o termo carne (em grego: σὰρξ – sarx) empregado pelo evangelista representa a dimensão mais frágil da condição humana. Inclusive, em algumas tendências teológicas, às vezes, é usado como sinônimo de pecado, em contraposição a “espírito”, como convite para o ser humano superar o “estado da carne”. Isso evidencia ainda mais o quanto a declaração de Jo 1,14 é revolucionária. A Palavra não apenas se fez carne. Mas escolheu o fazer-se carne para morar no meio da humanidade e como meio privilegiado de revelação da gloria de Deus. Ora, os judeus imaginavam a glória de Deus como poder e força, os gregos viam a glória como a sabedoria fornecida pela filosofia, enquanto o cristianismo, na perspectiva do Quarto Evangelho, afirma que é na carne humana que a glória de Deus se manifesta.

O Natal é, portanto, um convite atualizado para se conhecer a Deus e aprender como se pode conhecê-lo, porque ensina, acima de tudo, onde ele está, como ele se manifesta e qual é a expressão máxima da sua glória: é a carne humana, inicialmente a do seu Filho Unigênito, o menino pobre de Belém; depois, a carne de todas as pessoas que, no Filho, se tornam filhos e filhas de Deus também. De fato, como dizia um anônimo teólogo, o cristianismo é “a religião do céu vazio”, porque Deus escolheu a carne humana para morar, armando definitivamente a sua tenda. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

quarta-feira, dezembro 24, 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR – LUCAS 2,1-14 (MISSA DA NOITE)



O evangelho da solene liturgia da noite de Natal é sempre o mesmo para todos os anos: Lc 2,1-14. Isso se explica pelo fato de tratar-se do único texto do Novo Testamento que, de fato, narra o nascimento de Jesus. Como se sabe, somente dois dos evangelhos canônicos contêm relatos e informações sobre o nascimento e a infância de Jesus, que são Mateus e Lucas, respectivamente. Tanto é que os dois primeiros capítulos destes evangelhos ficaram conhecidos como “evangelhos da infância” (Mt 1–2; Lc 1–2). Contudo, o evangelho de Mateus não chega a narrar o nascimento, propriamente: da aceitação de José ao anúncio do anjo (Mt 1,24-25), o evangelista salta para o episódio da visita dos magos, já depois do nascimento do menino (Mt 2,1-12). Essa lacuna de Mateus rendeu ainda mais privilégio e importância ao relato de Lucas, fazendo com que o texto lido nesta noite se tornasse um dos mais conhecidos e valorizados de toda a Bíblia, para as comunidades cristãs. Por se tratar de um texto relativamente longo, não comentaremos detalhadamente versículo por versículo. Procuraremos colher a mensagem em seu conjunto, embora seja necessário enfatizar alguns versículos em particular, após fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato. Por sinal, também a contextualização será breve, tendo em vista que muitos elementos do contexto são os mesmos do evangelho de ontem, o quarto domingo do advento.

A propósito do contexto narrativo, observamos que, apesar da longa extensão do texto, o relato do nascimento propriamente é muito curto, ocupando apenas dois versículos (vv. 6-7). O restante da narrativa compreende uma ampla introdução (vv. 1-5) e o anúncio festivo aos pastores (vv. 8-14), os primeiros a se beneficiarem da libertação inaugurada pelo nascimento de Jesus. Recordamos que este é um dos textos que mais revela as qualidades literárias de Lucas e uma de suas linhas teológicas mais relevantes: a preferência de Deus pelos pobres e marginalizados. Ainda a nível de introdução e contexto, é importante recordar que os relatos da infância de Jesus, tanto em Mateus quanto em Lucas, não possuem finalidade cronística ou histórica, mas catequética e teológica. Aliás, esse pressuposto vale para todos os relatos evangélicos. No entanto, isso não significa que os fatos narrados não possuam fundamentos históricos. Mas quer dizer que todas as informações e detalhes do texto estão a serviço de um plano teológico e catequético, que visam responder a questionamentos e necessidades de comunidades concretas do final do primeiro século. O que o evangelista quis deixar claro foi que Jesus verdadeiramente nasceu, viveu, fez opções bem concretas e eliminou todas as barreiras entre Deus e a humanidade. Como o “evangelho da infância” funciona como introdução e síntese ao inteiro evangelho, o texto de hoje contém indícios ainda mais evidentes daquilo que o evangelista pretende desenvolver no restante da obra. Na verdade, possui aponta temas que serão desenvolvidos até mesmo no segundo volume de sua obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.

Feitas as considerações contextuais, passemos a olhar diretamente para o texto, partindo do primeiro versículo, que é bastante carregado de informações: «Aconteceu que naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra» (v. 1). De todos os evangelistas, Lucas é o que mais se preocupa em situar os eventos narrados na história universal. Ele faz isso para ressaltar que Jesus não é um personagem inventado, não é uma lenda, mas um homem concreto que não caiu do céu, e sim que teve uma existência real em circunstâncias de tempo e espaço bem definidos. Com isso, ele também indica a viabilidade do projeto de salvação e libertação inaugurado por Jesus. Não se trata de uma promessa de felicidade para o além, mas de uma proposta de vida para ser vivida já neste mundo, como ele mesmo viveu. É um programa de humanização para toda a humanidade; o único capaz de reverter a injusta ordem vigente, transformando o mundo egoísta, violento e injusto em verdadeira irmandade. E os relatos da infância de Jesus (Lc 1–2), sobretudo o nascimento, marcam o início dessa transformação, são o começo da reviravolta na história. Por isso, o episódio começa mencionando a maior autoridade do mundo conhecido na época, o imperador romano, para terminar com os últimos, os pastores, para quem o céu se abre em festa. Por isso, os dados do primeiro versículo são muito importantes para a compreensão de todo o texto. O dado temporal “naqueles dias” tem relação com os últimos acontecimentos narrados pelo evangelista, como a dupla anunciação – do nascimento de João e de Jesus (Lc1,5-23.26-38) –, a visita de Maria a Isabel (Lc 1,39-56) o nascimento de João (1,57-66). Do ponto de visto da história da salvação, era um tempo muito de intenso, repleto de acontecimentos importantes, embora inesperados. Enfim, eram dias de muitas novidades.

O evangelista localiza os eventos salvíficos, ocasionados pelo agir de Deus, no quadro da história universal, recordando também acontecimentos do mundo do império romano. Com isso, ele ensina que o agir de Deus se dá no curso da história. Não há duas histórias paralelas – uma sagrada e outra profana –, mas uma única história, na qual Deus age, salvado e libertando o seu povo. Assim, ele recorda as realizações do imperador romano César Augusto, chamado também de Otaviano, que comandou o império romano de 27a.C. a 14d.C., tendo sido um dos imperadores mais ambiciosos e poderosos da história. Foi ele quem criou a “pax romana”, que não passava de uma política de repressão e controle, com o falso pretexto de manter a lei e a ordem. Foi com ele que se consolidou a atribuição do título de “divino” ao imperador, que significava ser tratado como um deus. Sem dúvidas, era o homem mais poderoso da terra, na época. O decreto do recenseamento de “toda a terra” é uma prova disso. Aqui, por “toda a terra” (em grego: οἰκουμένην – oikumenen) compreende-se o território do império romano, o mundo habitado conhecido. Porém, esse dado é fruto da criatividade de Lucas. Não se tem notícias históricas de um recenseamento de abrangência universal na antiguidade. Quando aconteciam recenseamentos nos grandes impérios, incluindo o romano, se fazia por províncias ou, no máximo, por regiões. Provavelmente, Lucas soube de um recenseamento na província da Judeia e superdimensionou o fato, com a intenção de evidenciar a ambição do imperador com sua força opressora, uma vez que os recenseamentos eram abomináveis em Israel, por serem mecanismos de controle do povo, e só Deus tinha poder verdadeiro sobre o povo, segundo a mentalidade judaica. Por isso, os únicos recenseamentos considerados legítimos foram aqueles da época de Moisés, pois foram ordenados pelo próprio Deus, como demonstra o livro dos Números. Quando era proposto por um rei ou imperador era considerado pecado grave, porque servia para o controle dos impostos e a recrutamento de soldados para o exército. Inclusive, um dos pecados mais graves de Davi foi a realização de um recenseamento (2Sm 24,1-17). Quando Deus determinava um recenseamento, o fazia para saber se estava faltando algum dos seus filhos ou filhas, logo, era sinal de seu amor e cuidado.  

Outra intenção de Lucas com o dado do recenseamento foi encontrar um pretexto para levar o nascimento de Jesus para Belém e, assim, conferir-lhe as credenciais messiânicas, além de enfatizar a importância do caminho, que é outra linha teológica relevante na sua obra. Com isso, ele põe Maria em caminho pela segunda vez, sendo reforçando seu perfil de primeira missionária e peregrina do Evangelho. O primeiro caminho percorrido por Maria, já animada pelo Espírito Santo, se deu por ocasião da visita a Isabel (Lc 1,39-56). Agora, ele faz o segundo. Tudo isso, ressaltamos, está a serviço de um plano teológico traçado pelo evangelista. Por isso, o texto diz que, «Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia» (v. 4). Esse versículo também é muito rico de significado e possui grande importância para o sentido do texto. Tradicionalmente, a cidade de Davi era Jerusalém, embora ele tenha nascido e sido ungido rei em Belém (1Sm 16,1-13; 2Sm 5,7.9). A pertença de José à descendência davídica dá legitimidade à messianidade de Jesus, o que já tinha sido informado ainda no evangelho da anunciação (Lc 1,27). A distância entre Nazaré e Belém é de aproximadamente 150 km, dificilmente percorrível por uma mulher em gravidez avançada, como se encontrava Maria. Mas a motivação é teológica. Com isso, ele antecipa que nenhum obstáculo impedirá o percurso da Palavra de Deus, que é o próprio Jesus. Quem se reveste do Espírito Santo, como Maria, jamais se acomoda, por mais que encontre adversidades. E essa deve ser a postura da comunidade cristã em todos os tempos, da qual Maria e José são modelos.

Apesar de ser a cidade natal de Davi, personagem importante da história de Israel, Belém era um lugar praticamente esquecido, sem importância. Possuía apenas um valor simbólico, a começar pelo nome, que significa “casa do pão”, além de uma profecia de Miquéias, pouco recordada no mundo judaico da época, que previa para lá acontecer o nascimento do Messias. Na prática, era considerada apenas um vilarejo da periferia de Jerusalém, separadas por apenas 10 km. Assim, o nascimento de Jesus nela não significa apenas o cumprimento das Escrituras, mas também a opção de Deus pelos últimos, pelo que é periférico e excluído. Com isso, percebemos uma das principais demonstrações da genialidade de Lucas: ao afirmar que «enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto» (v. 6), ele confirma que Jesus será o Messias esperando, anunciado pelas Escrituras. Em seguida, quase como advertência, ele ensina que não será um Messias glorioso, guerreiro e poderoso como a religião de Israel esperava, ao narrar a situação de completa pobreza em que ele nasceu: «E Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria» (v. 7). Enfaixar os recém-nascidos era um sinal de cuidado e proteção, na antiguidade; acreditava-se que o enfaixamento ajudava a criança a crescer reta, sem deficiências. A falta de lugar na hospedaria é a primeira demonstração de que Jesus já nasceu excluído e entre os excluídos. Ele já nasce banido e, ao longo do seu ministério, vai juntar-se aos banidos de sempre. Pelas expectativas de Israel, o Messias deveria nascer em berço de ouro, enquanto o berço de Jesus foi uma manjedoura (em grego: φάτνῃ – fatne), ou seja, um cocho para alimentação de animais. Foi colocado num cocho de animais por falta de lugar digno. O texto não diz que a hospedaria estava lotada, apenas diz que não havia lugar para eles, mas poderia haver para outras pessoas. Não havia lugar para eles, talvez, pelas condições em que se encontravam: forasteiros, refugiados.

O evangelista deixa claro que Jesus nasce um Messias às avessas das expectativas. Nasceu em condições sub-humanas. Numa sociedade desigual, dividida entre privilegiados e injustiçados, ele ficou do lado dos injustiçados, desde o nascimento. Israel não estava preparado para receber um Messias assim e o cristianismo, a partir de  quando se institucionalizou, também parece ainda não ter assimilado como ele veio e viveu. Tudo isso aponta para um novo tempo, uma nova história, como a sequência do Evangelho de Lucas vai mostrar, mas o texto de hoje já antecipa. Ora, o episódio começou pelo imperador (v. 1), o maior na escala social, passou pelo governador (v. 2), e parou num casal desabrigado com um recém-nascido (v. 7), que é o ponto de partida de uma nova história, de um novo jeito de compreender o mundo. A partir de Jesus, os humildes passam a ter vez, começam a ser lembrados, como diz o texto: «Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho» (v. 8). Apesar de romantizados na Bíblia, devido às origens pastoris do povo de Israel, os pastores constituíam a escória da sociedade, conforme a mentalidade vigente; ocupavam o último degrau da escala social, desde que Israel deixou a condição de povo nômade para sedentário, quando chegou na terra prometida. Devido aos cuidados que os rebanhos exigiam, os pastores não tinham condições de observar a Lei, sobretudo o repouso sabático; por causa das andanças dos rebanhos, eram obrigados a atravessar terras pagãs, e o contato constante e direto com os animais os tornavam impuros. Por isso, eram mais rejeitados até do que os cobradores de impostos. Além da total exclusão, também eram duramente explorados; cuidavam de rebanhos que não eram deles; tinham de vigiar durante dias noites, para defender os rebanhos de ameaças de lobos e assaltantes.

Como o nascimento de Jesus inaugura uma nova história, também marca o início de uma nova ordem, com novos protagonistas. Os últimos começam a se tornar primeiros, e o anúncio aos pastores é uma prova disso, como diz o texto: «Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém, disse aos pastores: ‘Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo’» (v. 9-10). Ora, de acordo com a religião da época, os últimos a receber uma mensagem de Deus seriam os pastores. Eles já tinham sido condenados antecipadamente. Mas, como Deus surpreende, eles se tornaram os primeiros destinatários do anúncio do nascimento de Jesus. A notícia dada pelo anjo é para todo o povo, como é a mensagem libertadora de Jesus. Mas algumas pessoas tem prioridade nesse anúncio: os pobres e excluídos. Essa é uma das grandes certezas que os evangelhos revelam e, sobretudo, o de Lucas. A opção preferencial pelos pobres é clara! Por isso, esse anúncio é dado com uma grande alegria para os pastores. Explorados e excluídos, eles nunca tinham recebido mensagem de alegria; quando alguém se dirigia a eles, o que era raro, era com palavras de condenação ou impondo ordens. O anúncio do nascimento de Jesus para eles é uma grande alegria porque traz eles para o centro da história, que começa a ser reescrita a partir de baixo, a partir dos pequenos e últimos. Com o anúncio do anjo aos pastores, portanto, o programa do Magnificat começou a ser realizado: finalmente, os humildes começaram a ser elevados. Os primeiros, como o imperador e o governador, passam a ser últimos, já não são mais lembrados na nova história que está começando.

E a notícia dada aos pastores é mesmo de alegria, é maravilhosa: «Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor» (v. 11). Como se vê, o anúncio é atual, indica que a salvação não é um evento passado nem futuro, mas um fato do presente, do cotidiano: é para hoje! Temos aqui, mais uma linha importante da teologia de Lucas: o hoje (em grego: σήμερον – semeron), que indica a urgência da salvação/libertação, sobretudo para quem não pode mais esperar, como os pastores, na época, e tantas pessoas marginalizadas ainda hoje. E isso constitui uma séria advertência para a comunidade: é preciso discernir quais são as situações que exigem tomadas de posição e meios de transformação com urgência. Neste versículo, aparecem os três principais títulos cristológicos de Jesus: Salvador (em grego: σωτὴρ – sotér), Cristo, que significa Messias/ungido (em grego: χριστὸς – Christós), e Senhor (em grego:  κύριος – Kýrios). Quer dizer que Jesus possui a totalidade dos dons de Deus, e tudo foi disponibilizado à humanidade, a partir do seu nascimento. Com todos esses títulos aplicados a Jesus, o evangelista confronta a teologia de Israel e a ideologia imperial. Ora, os títulos de Salvador, Messias e Senhor eram muito caros ao pensamento judaico, que os concebia do ponto de vista triunfalista, com o qual o menino nascido na manjedoura nada tinha a ver. As credenciais de Jesus como Salvador, Messias e Senhor são o reverso do que se esperava em Israel. À exceção do título de Messias, o imperador romano também exigia ser reconhecido com esses títulos – salvador e senhor. Mas, de modo sutil e poético, pela boca do anjo, o evangelista denuncia essa falsa pretensão: só um verdadeiro Salvador, Messias e Senhor do mundo: é o frágil menino, enrolado em faixas, colocando numa manjedoura porque lhe negaram um lugar na hospedaria.

Para não deixar dúvidas, o anjo indica como os pastores encontrarão o Salvador nascido para eles (v. 12). A lógica seria procurá-lo num palácio ou num templo, em meio a refinados ornamentos. Mas desse modo os pastores jamais encontrariam, pois, as portas dos templos e palácios não se abririam para eles. Um recém-nascido é sinal de impotência e fragilidade, a manjedoura indica a extrema pobreza. Temos aqui um grande paradoxo: é nessa impotência, fragilidade e pobreza que está a glória de Deus em plenitude, o que é confirmado pela «multidão da coorte celeste» (v. 13) que se juntou ao primeiro anjo para cantar e festejar. Essa cena marca o fim definitivo da separação entre o céu e a terra, entre o humano e o divino. O nascimento de Jesus superou as antigas barreiras de separação. Diante dos pastores, os anjos não só cantam, mas proclamam uma nova imagem de Deus, mas também um jeito novo de se relacionar com ele e uma nova ordem para o mundo: «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados» (v. 14). Como se vê, a glória de Deus está intrinsecamente relacionada ao bem-estar da humanidade. A paz não é um sentimento, nenhuma tranquilidade interior; é a totalidade de todos os bens sonhados por Deus para a humanidade: justiça, liberdade, dignidade, igualdade, fraternidade, terra para trabalhar… logo, não tem sentido proclamar Deus como glorioso sem preocupar-se com essa paz entre os homens. Se as pessoas não podem viver bem na terra, pouco sentido tem a proclamação da glória de Deus nos céus.

Que a celebração de mais um Natal nos ajude a assimilar o seu verdadeiro sentido, abraçando as causas que ele pressupõe. Como dizia o saudoso Papa Francisco, «Deus faz morada entre nós, pobre e necessitado, para nos dizer que é servindo aos pobres que amamos a ele». Celebremos o Natal, portanto, acolhendo Jesus que vem ao nosso encontro, reconhecendo-o entre aqueles que não tem lugar onde ser acolhido. Que a manjedoura, lugar de manifestação e revelação do Deus que é Salvador, Messias e Senhor, não seja romantizada. Jesus foi parar nela porque não lhe deram lugar na hospedaria. A manjedoura foi o que lhe restou. Que nosso coração seja hospedaria para Jesus nascer a cada dia, e que sejamos promotores de paz, justiça, amor e humanização, para proclamarmos a glória de Deus com a consciência tranquila. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, dezembro 20, 2025

REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO ADVENTO – MATEUS 1,8-24 (ANO A)



O quarto domingo do advento marca o ápice da preparação para o Natal do Senhor. Por isso, neste dia, em todos os anos, sempre se lê um trecho de um dos chamados “evangelhos da infância” (Mt 1–2; Lc 1–2). Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, o texto lido é Mt 1,18-24. Nesse sentido, a liturgia propõe um verdadeiro caminho pedagógico para expressar as dimensões teológica e espiritual próprias do advento. Ora, à medida em que o Natal se aproxima, a liturgia recorda os principais acontecimentos que antecedem o nascimento de Jesus, bem como os personagens escolhidos por Deus como mediadores imediatos da sua entrada definitiva na história da humanidade. Se nos dois últimos domingos – segundo e terceiro do advento – foi evidenciada a figura de João Batista, enquanto profeta precursor, neste quarto domingo são recordados os personagens José e Maria, os agentes humanos mais próximos do mistério da encarnação e, consequentemente, os destinatários primeiros do fazer-se humano de Deus.

No texto de hoje, tudo gira em torno do anúncio da inesperada gravidez de Maria, por obra do Espírito Santo, com o inevitável embaraço gerado em José e a providência divina na resolução do problema criado. Ao contrário de Lucas, que evidencia mais a figura de Maria, na narrativa mateana o personagem humano que mais se destaca neste contexto do nascimento de Jesus é José, sendo ele o destinatário do anúncio divino. É importante recordar que, mais do que descrever fatos, o autor quer mostrar que a vinda de Jesus Cristo não é obra humana e que, através dessa vinda, Deus faz uma séria interpelação à humanidade. De fato, à humanidade, representada no texto por José, é lançada uma proposta de vida e libertação, tendo ela a liberdade de acolher ou não. O relato evangélico, portanto, não é cronístico, mas teológico e catequético.

O texto começa com um enunciado bastante rico de informações: «A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a um homem chamado José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo» (v. 18). Tudo o que será desenvolvido nos versículos seguintes é esmiuçamento desse primeiro enunciado. Além das informações explícitas no texto, também as entrelinhas são importantes, como veremos ao longo da reflexão. O primeiro passo importante para compreender melhor a “origem” de Jesus Cristo é recordar a “genealogia” apresentada nos versículos anteriores (Mt 1,1-16), na qual prevalece a fórmula “X gerou Y”, com o uso predominante do verbo gerar (em grego: γεννάω – ghennáo) aplicado a grandes personagens da história de Israel, começando por Abraão, e terminando com o desconhecido Jacó, o pai de José. Para falar do nascimento de Jesus, o evangelista abandona a fórmula “X gerou Y”, e apenas diz que ele nasceu de Maria, esposa de José. Com isso, ele quer mostrar que, mesmo inserido na história do povo eleito, Jesus provoca rupturas com os esquemas tradicionais, desde a sua concepção. Nenhuma tradição religiosa ou estrutura familiar e social conseguem emoldurar a pessoa de Jesus e sua mensagem libertadora, o que ficará ainda mais evidente ao longo do seu ministério.

Como se vê, o primeiro versículo do evangelho de hoje já constitui um grande elemento de ruptura: a origem de Jesus é, ao mesmo tempo, a origem de uma nova humanidade, uma nova criação e, portanto, de novas relações. No entanto, é importante recordar que nos referimos a ruptura enquanto quebra de paradigmas. Ao afirmar que Jesus não foi gerado por José, o evangelista está dizendo que Ele não está atrelado a nenhuma estrutura familiar, é independente, ou seja, ninguém terá domínio sobre ele. Com isso, quebram-se os paradigmas da sociedade patriarcal fundada no clã e no domínio do masculino. Aqui, apesar de não ser mencionado, o Reino dos Céus, nome dado por Mateus ao que os outros sinóticos chamam de Reino de Deus, o que mais tarde será o objeto da pregação de Jesus, começa a ser delineado como uma sociedade alternativa, em contraposição às antigas instituições, principalmente a instituição familiar patriarcal, base da sociedade igualmente patriarcal, que será profundamente contestada por Jesus em seu ministério, mediante palavras e gestos.

O outro passo necessário à compreensão desta passagem é o entendimento do contexto sócio-histórico por trás do relato, recordando a estrutura do casamento judaico no tempo de Jesus, como recurso essencial para entender o significado da expressão «Maria estava prometida em casamento a José» (v. 18b). Ora, isso quer dizer que, para efeitos legais, eles já estavam casados. O casamento judaico se realizava em duas etapas: a primeira – a da promessa – consistia no compromisso firmado entre os noivos e suas respectivas famílias, inclusive com assinatura de contrato, não podendo mais ser dissolvido, a não ser por motivo grave. Essa etapa durava aproximadamente um ano, sendo que os noivos continuavam morando com os pais e ainda não podiam ter relações sexuais. Como casava-se muito cedo, geralmente as mulheres tinham entre 12 e 13 anos nessa etapa, e os homens entre 18 e 24. Esse costume dos homens casarem mais velhos era a principal causa para a existência de muitas viúvas em Israel, passando a ser sinônimo de vulnerabilidade social, necessitando de proteção especial na Lei e, posteriormente, na comunidade cristã (At 6,1-7). Foi, então, durante a fase da promessa que Maria quando ficou grávida. Embora ainda não vivessem juntos, já estavam literalmente casados. A segunda etapa do casamento iniciava-se quando os esposos passavam a viver juntos. Essa etapa era inaugurada por uma grande festa, que poderia durar até uma semana, a depender das condições econômicas dos noivos, sendo que na primeira noite da festa já havia a consumação, ou seja, a relação sexual.

A grande surpresa do texto é a afirmação de que «antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo» (v. 18c). Trata-se de um fenômeno extraordinário e inexplicável, como, de fato, são os planos de Deus. A originalidade de Jesus começa exatamente aqui: gerado pelo Espírito Santo, sem a participação da figura masculina, marcando, assim, uma ruptura total com a sociedade patriarcal. Isso será determinante para a independência e liberdade do seu ministério, como será demonstrado ao longo do Evangelho. Inclusive, ele mesmo vai confirmar, já no ápice da vida pública, ao ordenar aos seus discípulos que, «na terra, não chamem a ninguém de Pai, pois um só é o Pai de vocês, aquele que está no céu» (Mt 23,9). Ora, a figura do pai na família patriarcal, como expressão de autoridade máxima, era um impedimento à construção de uma comunidade igualitária e fraterna. Por isso, Jesus faz de tudo para tirar essa figura do horizonte da comunidade de seus discípulos e discípulas. Assim, mais do que a contemplar um nascimento prodigioso, o evangelista nos convida a aderir às novas relações inauguradas com esse nascimento. É o surgimento de um mundo novo e um novo tempo.

A sequência do texto, como desenvolvimento do primeiro versículo (v. 18), apresenta o esposo de Maria com boas credenciais: «José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo» (v. 19). Uma informação que o texto não traz de modo explícito, mas implicitamente devemos imaginar, é a forma como José tomou conhecimento da gravidez de Maria. É necessário percebermos o vácuo entre o versículo 18 e o 19 para imaginarmos essa cena: o texto diz que ela ficou grávida do Espírito Santo (v. 18) e, em seguida, que José, como homem justo, não quis denunciá-la (v. 19), mas não diz como ele ficou sabendo. É muito provável que Maria mesma tenha lhe contado. Mesmo não se tratando de um relato de crônica, é impossível o leitor não questionar e imaginar a cena. Aqui, recordemos que o anjo do Senhor só entra em cena quando José pensa em abandoná-la. O plano de abandoná-la prova que a explicação de Maria não fora convincente a José. Reconstruir essas entrelinhas do texto é essencial para colher e acolher melhor a mensagem.

Na continuação, diz o texto que, como «José, seu marido era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo» (v. 19). Aqui, ao afirmar que José era esposo (marido), mais uma vez se confirma a informação de que os dois já eram casados, de fato, embora ainda na primeira etapa do casamento. Mas, o centro do versículo é o adjetivo atribuído a José: justo (em grego: δίκαιος – dikaios), o que confirma, ainda mais, a revolução e inversão de valores apresentada por Mateus. Ora, o que caracterizava um judeu como “justo” era a observância minuciosa e exata da Lei, e aqui, José é considerado justo por recusar-se a aplicar a lei que recomendava o apedrejamento para a mulher que engravidasse de outro na primeira etapa do casamento, a fase da promessa (Dt 22,23-27). O plano de abandonar Maria em segredo mostra que José já tinha compreendido o sentido verdadeiro da Lei, da qual Jesus será constituído o intérprete oficial, credenciado por Deus, seu verdadeiro Pai (Mt 5,17-48), ao trocar o mero preceito pela misericórdia. De fato, a intenção de abandonar Maria em segredo quer dizer que ele se recusou a expô-la publicamente, rompeu com a sinagoga ao não buscar testemunhas entre os anciãos da sua cidade para testemunharem o divórcio e o consequente apedrejamento, como era o costume. Certamente, uma grande crise envolveu José, levando-o a muitas reflexões e discernimento.

Como Deus tinha agido em Maria, também agiu nele: «Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”» (v. 20). Certamente, ele não tinha acreditado plenamente na explicação de Maria, ficando na dúvida e amadurecendo a ideia de abandoná-la. De repente, algo de extraordinário se apresenta, introduzido pela expressão “eis que”. Sempre que essa fórmula de introdução “eis que” (em grego: ἰδού – idú) aparece no Novo Testamento, significa que a informação que lhe segue é uma novidade e tem grande importância; é sempre algo surpreendente; inclusive, no idioma original do Evangelho, o grego, se trata de uma interjeição com função demonstrativa, cuja tradução literal seria “vê!”. De fato, é muito importante a intervenção de Deus através do anjo, seu mensageiro, personagem relevante para a mentalidade judaica, considerando a distância entre Deus e os seres homens e, portanto, muito propícia para a existência de um ser intermediário. Assim, a expressão “anjo do Senhor” significa o próprio Deus; os autores bíblicos a empregam para diminuir o impacto de uma intervenção direta de Deus na vida do ser humano. A expressão “em sonho”, por sua vez, mais do que traduzir um estado psíquico, na Bíblia, indica uma atitude orante. Logo, o evangelista quer dizer que foi na oração que José tomou conhecimento e consciência dos planos de Deus para a sua vida e o mundo. Ele já estava com uma decisão praticamente tomada – abandonar Maria em segrego –, mas resolver discernir melhor em oração, ou seja, na intimidade com Deus, e eis que, orando, encontrou a luz necessária para decidir em favor da vida – da mulher e da criança.

E as palavras do anjo são muito encorajadoras, convidam José a participar diretamente da nova humanidade criada por Deus, recebendo Maria como esposa, ou seja, levando o casamento à segunda etapa. Mas, ao mesmo tempo deixa claro que ele não terá nenhum domínio sobre o menino, uma vez que Maria concebeu pelo Espírito Santo, sem intervenção humana. Contudo, a José, cabe um papel relevante, que é dar o nome à criança, como recorda o evangelista: «Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados» (v. 21). Na Bíblia, o nome significa a identidade e a própria essência da pessoa. Como o nome Jesus significa “Deus salva”, isso já indica a sua missão: salvar o seu povo de seus pecados. Essa informação é carregada de significado e, mais uma vez, expressa a novidade de Deus que Jesus veio inaugurar. Ora, esperava-se um Messias para condenar o povo por causa dos pecados; Jesus vem salvar o povo dos seus pecados, o que significa libertar o povo das injustiças e dos erros, individuais e comunitários, inclusive do sentimento de culpa por erros do passado, o que tanto pesava sobre o povo judeu. Isso Jesus fará muito bem ao longo do seu ministério, com sua práxis libertadora. O povo carregava o sentimento de culpa pelos pecados devido aos pesados fardos que a religião tinha imposto. Jesus vem salvar e libertar, instaurando vida nova nas realidades velhas, humanizando o mundo e as pessoas que o habita, ao inaugurar uma nova maneira de se relacionar com Deus, cuja base é o amor.

Como é típico nos evangelhos, e mais ainda no de Mateus, o uso de textos e expressões do Antigo Testamento é imprescindível, sobretudo em momentos marcados pela dúvida e o medo. A citação do Antigo Testamento tem a função de confirmar, dar respaldo ao que está para ser dito. Por isso, o autor recorre ao profeta Isaías com o “oráculo do Emanuel” (Is 7,14) para confirmar que o fato presente tem respaldo na história da salvação e, por isso, pertence aos planos de Deus: «Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado de Emanuel, que significa Deus está conosco”» (v. 23). Como se vê, o nome de Isaías não é mencionado, embora o texto citado seja dele. De fato, quando se fazia uma citação dele, não tinha necessidade de dizer o seu nome. Quando se dizia “o profeta”, os ouvintes e leitores já sabiam que se tratava de Isaías, cujo livro é o texto profético mais lido na liturgia da sinagoga e das comunidades cristãs, provavelmente por se tratar do livro mais longo de todos os profetas. Mais do que cumprimento de promessa e atestado da virgindade de Maria, a citação profética quer evidenciar que é necessário buscar referências nas Sagradas Escrituras para a construção da história e a compreensão do presente e, sobretudo, para afirmar no que consiste o nascimento de Jesus: a presença definitiva de Deus Conosco, ou seja, Deus no meio da gente e como gente. Quer dizer que o divino veio definitivamente ao encontro da humanidade para habitar em seu meio. Como se sabe, nem a criança anunciada por Isaías, que provavelmente foi o rei Ezequias, filho de Acaz (séc. VIII-VII a.C.), e nem Jesus receberam o nome de Emanuel. Na verdade, não se trata de um nome próprio, mas de um título funcional, que expressa um traço característico do Deus de Jesus e nosso: ele é próximo da humanidade, ou seja, está conosco, sempre.

Com a citação de Isaías 7,14, Mateus apresenta uma das principais chaves de leitura de sua grande obra: Deus está presente no dia-a-dia da comunidade. Por isso, o seu Evangelho pode ser chamado o “evangelho da presença”, pois do começo ao fim, essa presença é evidenciada: no início, com o anúncio do anjo (1,23), no discurso sobre a vida em comunidade, quando Jesus promete ficar no meio «quando dois ou mais se reunirem em seu nome» (cf. 18,20), e no final, nas últimas palavras do Ressuscitado, quando ele promete estar com os discípulos para sempre, até o fim dos tempos (28,20). À comunidade, de outrora e de hoje, foi conferida a responsabilidade de manifestar essa presença com o anúncio e o testemunho, sobretudo. Após o anúncio do anjo, o evangelista diz que «José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa» (v. 24). Ao invés de seguir a letra morta da Lei, José obedeceu à Palavra viva de Deus, anunciada pelo anjo, antecipando o que Jesus recomendará aos seus discípulos (Mt 5,17-48; 9,13). José foi o primeiro a perceber, segundo a perspectiva de Mateus, que Deus não estava mais na antiga Lei, mas está conosco, no próximo que necessita de acolhida e compreensão. Por isso, o que Maria representa no “evangelho da infância” de Lucas (Lc 1–2), José representa em Mateus: modelo antecipado de discípulo que soube trocar a Lei pelo amor e a misericórdia. Enfim, ele foi o primeiro a superar os escribas e fariseus na justiça, como Jesus exigirá dos seus discípulos, mais tarde (Mt 5,20)

Nas entrelinhas, Mateus diz que Deus deixou a letra, o livro, para tornar-se humano. E, no discurso escatológico, no final do Evangelho (Mt 25,31-46), ele vai especificar a categoria humana que Deus se fez: os pequeninos – pobres e desvalidos, famintos, nus, prisioneiros, pessoas marginalizadas em geral. Logo, a preparação para o Natal depende essencialmente da nossa capacidade de acolher e estar do lado destas pessoas que são carne viva do Emanuel.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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