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A propósito de Tomé, protagonista do II Domingo da Páscoa (Jo 20,19-31)



Dois dos discípulos de Jesus foram estereotipados negativamente: Judas como traidor e Tomé como incrédulo. No entanto, uma leitura mais atenta do quarto Evangelho leva-nos a perceber que houve uma injustiça ao dar este rótulo a Tomé. João deixa claro que ele exigiu provas concretas de que o Senhor, realmente, tinha ressuscitado. Porém, nenhum dos discípulos acreditou na ressurreição antes que o Senhor Ressuscitado lhes aparecesse. 

Os dez (os doze menos Tomé e Judas) que estavam reunidos naquele primeiro dia, não tinham acreditado no testemunho de Maria Madalena quando disse "Eu vi o Senhor!" (cf. Jo 20,28b). Eles só acreditaram quando o Senhor apareceu no meio deles.

O detalhe que vai distinguir Tomé dos demais não é a falta de fé, mas a coragem! De fato, Tomé não estava no encontro daquele primeiro dia, quando eles, os dez, estavam reunidos a portas fechadas, com medo dos judeus (cf. Jo 20,19). Ora, se Tomé não estava trancado com medo, é porque estava circulando livremente, sem temor algum. No episódio da ressurreição de Lázaro, quando os riscos da morte de Jesus tinham aumentado bastante, Tomé foi o único que se prontificou a ir a Jerusalém para morrer com e como Jesus (cf. Jo 11,16). Portanto, o único que estava plenamente consciente das conseqüências do seguimento a Jesus. 

Recordemos que nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), sempre que Jesus anuncia a paixão há uma forte resistência nos discípulos, principalmente em Pedro, o qual não pensa apenas em evitar a morte a morte do Mestre, mas por querer salvar a própria pele, uma vez que a sorte do mestre deve ser também a do discípulo. Ao contrário dos demais, Tomé estava pronto para morrer com, como e por Jesus, por isso não quis trancar-se em uma sala por medo.

Diferentemente do modo como foi rotulado, Tomé foi o discípulo questionador e destemido, aquele que tinha senso crítico. Assim como os demais, só acreditou na ressurreição quando viu com os próprios olhos o ressuscitado a sua frente. A diferença é que a sua dúvida se prolongou por uma semana, enquanto os demais tiraram suas conclusões logo no dia mesmo da ressurreição.

Quando reconheceu que, de fato, o Senhor ressuscitou e está vivo, Tomé fez a bela, perfeita e profunda profissão de fé de todos os evangelhos: "Meu Senhor e meu Deus!" (cf. Jo 20,28). Até então, Jesus já tinha sido chamado de Cristo, Messias, Mestre, Senhor, Filho de Deus, Filho do Homem, mas ninguém tinha-lhe chamado de Deus; Tomé foi o primeiro.

Logo, o rótulo de incredulidade não corresponde à sua personalidade. Tomé foi o que mais teve convicção ao reconhecer a identidade divina de Jesus. Seu senso crítico só lhe fez bem. Não acreditou em qualquer conversa; só acreditou quando fez a experiência com o Ressuscitado, por isso acreditou de modo convicto e profundo.

Como eu queria uma fé como a de Tomé! Como os dias atuais precisam de pessoas como ele! Em tempos onde muitas pessoas dizem ter visões ou revelações, nada melhor que um pouco de desconfiança. Tem muita gente dizendo que viu ou escutou mensagens de anjos, de santos e do próprio Deus. Prefiro desconfiar!

Por sinal, o próprio evangelista João nos dá uma sugestão e convida seus leitores a agir como Tomé. Ele que diz que Tomé é Dídimo - Διδυμοσ - uma palavra grega que significa 'gêmeo'. Assim, ele convida seu leitor a ser o irmão gêmeo de Tomé: discípulo fiel, corajoso, atento, questionador, perspicaz e convicto.

Francisco Cornelio Freire Rodrigues