sexta-feira, janeiro 02, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR – MATEUS 2,1-12


Neste domingo, a Igreja no Brasil celebra a solenidade da Epifania do Senhor, uma festa que pode ser considerada um verdadeiro prolongamento do Natal. Epifania quer dizer manifestação, deriva do verbo grego “epifaino” (ἐπιφαίνω), cujo significado literal é manifestar, aparecer, resplender. Nesta solenidade celebramos, então, a manifestação de Deus em Jesus como luz, guia e Senhor de todo o universo. O evangelho desta festa é o mesmo para todos os anos: Mt 2,1-12, texto que compreende o episódio da visita dos magos do Oriente, os primeiros personagens do Evangelho de Mateus a reconhecer Jesus como rei; eles saíram de longe para adorar à criança recém-nascida, configurando-se como uma das primeiras surpresas da obra de Mateus. É importante observar que, embora a celebração recorde a manifestação de Deus, o texto apresenta um movimento inverso: é o mundo com sua pluralidade de raças e culturas, representadas pelos magos do Oriente, que manifesta sua adesão e aceitação ao senhorio de Jesus, indo ao seu encontro.

A nível de contextos narrativo e literário, é importante recordar que o episódio dos magos é exclusivo de Mateus, constituindo-se uma das principais novidades do seu “evangelho da infância” de Mateus (Mt 1–2). Na verdade, tudo o que faz parte dos “evangelhos da infância” configura-se como novidade, tendo em vista que há apenas dois relatos dessa natureza no Novo Testamento: Mt 1–2 e Lc 1–2, respectivamente. E os dois são substancialmente diferentes entre si, por isso, o que um traz é sempre novidade em relação ao outro, à exceção da concepção virginal de Jesus, os nomes de José e Maria e do próprio Jesus, além do nascimento em Belém. Todos os demais elementos são próprios de cada evangelista, sobretudo a maneira de narrar cada episódio. O episódio dos magos está para Mateus como o dos pastores para Lucas. No entanto, o dos magos se torna ainda mais surpreendente, tendo em vista a origem inusitada dos personagens. Trata-se de um texto muito rico em teologia e simbologia, além da grande beleza que possui. É um dos textos que melhor revela as habilidades teológicas e literárias do evangelista. Certamente, é o episódio mais recordado de todo o “evangelho da infância” de Mateus, sobretudo porque em relação anúncio do nascimento de Jesus as tradições cristãs priorizaram a versão de Lucas, mais focada na pessoa de Maria, enquanto Mateus valorizou mais a figura de José. Ao longo da história, o episódio dos magos foi interpretado mais folcloricamente do que teologicamente. Daí a dificuldade de termos uma interpretação mais fidedigna ao sentido real do texto, tendo em vista que as interpretações folclóricas, inclusive adotadas pelo cristianismo oficial, estão muito enraizadas no imaginário popular, a começar pela transformação dos magos em reis.

Começamos o estudo do texto partindo dos primeiros versículos: «Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”» (v. 1-2). Ao contrário de Lucas, Mateus não narra o momento do nascimento de Jesus, mas apenas o menciona como um fato já acontecido, dando, porém, informações muito importantes de tempo e espaço: nasceu em Belém, no tempo do rei Herodes. A princípio, já é possível perceber a intenção do autor com essa informação: está surgindo uma alternativa de poder e realeza diferente do sistema vigente; há um deslocamento do centro para a periferia; começa uma descentralização, o que vem a indicar que o poder exercido até então na capital Jerusalém é um poder ilegítimo e, por isso, está desmoronando. É claro que é necessário o complemento da informação para termos clareza da oposição que o autor quer apresentar entre o poder centralizado em Jerusalém e o projeto alternativo que surge em Belém: «nasceu um rei para os judeus» (v. 2); esse dado indica que alguém estava reinando de maneira ilegítima, no caso, Herodes e o poder imperial em geral, de quem Herodes era representante. As indicações de tempo e espaço também servem para legitimar a historicidade do homem Jesus de Nazaré. Ora, os cristãos da comunidade de Mateus não tinham conhecido o homem Jesus e, por isso, poderiam questionar a sua existência. Com esses dados, o evangelista quer reforçar que Jesus foi um homem concreto, gente de carne e osso que nasceu e viveu em um período histórico determinado.

A outra grande novidade do relato, percebida ainda no primeiro versículo, está na peculiaridade dos personagens apresentados pelo autor: «alguns magos do Oriente» (v. 1). Ora, os magos (em grego: μάγοι – mágoi), eram estudiosos orientais, responsáveis pela interpretação dos sonhos e pela leitura dos fenômenos da natureza e dos astros. No mundo greco-romano, e sobretudo em Israel, os magos eram vistos como feiticeiros e charlatões, operadores da magia. Eram, na verdade, os sacerdotes de cultos pagãos da Pérsia e Babilônia; pertenciam a uma categoria condenada pelo judaísmo e pelo cristianismo das origens. De fato, dois episódios nos ajudam a perceber o quanto a magia era condenada na Bíblia: a saga de Balaão, no Antigo Testamento (Nm 22–24), e a tentativa de compra do dom do Espírito Santo pelo mago Simão, no Novo Testamento (At 8,9-24). Inclusive, por causa desse episódio, é do nome Simão que deriva o termo “simonia”, que significa a comercialização – compra e venda – de bens sagrados e espirituais. Portanto, os magos eram pessoas abomináveis à luz da religião de Israel e dos primeiros cristãos. E quando Mateus os apresenta como os primeiros adoradores de Jesus, em seu Evangelho, tem a intenção de denunciar todos os tipos de preconceitos e exclusivismos, evidenciando a necessidade da comunidade aceitar e promover a diversidade, mostrando que Jesus veio ao mundo como a manifestação definitiva de Deus ao mundo inteiro, revelando-se acessível a todas as pessoas.

Para encobrir a rejeição que estes personagens tão controversos poderiam sofrer, a tradição cristã dos primeiros séculos resolveu caricaturá-los, atribuindo-lhes características que o texto bíblico não cita, como a condição de reis. Ao invés de ajudar na compreensão do texto, esse tratamento real aos magos terminou distorcendo o sentido aplicado pelo evangelista. É importante reforçar que esses personagens são fruto da inteligência e criatividade teológica do evangelista, ou seja, os magos não são personagens reais, mas simbólicos. A intenção do evangelista e de sua comunidade ao apresentá-los era exatamente mostrar que também aos distantes e sem reputação Deus se revela, e são exatamente esses os que com mais sinceridade buscam o verdadeiro rosto de Deus, tão difícil de ser reconhecido na pessoa de uma frágil e pobre criança, como as elites religiosa e política de Jerusalém não foram capazes de reconhecer. Ainda sobre o revestimento dado pela tradição, é importante recordar que o texto bíblico não faz menção alguma ao número dos magos; não diz que eram três, como tradicionalmente eles são representados, com base apenas no número dos dons por eles oferecidos: ouro, incenso e mirra. Além do número três, sem fundamento no texto bíblico, a tradição também lhes deu nomes (Gaspar, Baltasar e Melchior) e meio de transporte (camelos). Por isso, como afirmamos no início, é necessário distanciar-se da imagem romântica do presépio para compreender bem o texto de Mateus.

Está mais do que clara a oposição: os magos vieram de longe para adorar o Deus verdadeiro. Foram a Jerusalém, mas lá não era possível encontrar o verdadeiro Deus porque a elite religiosa o tinha monopolizado e distorcido a sua imagem, inclusive determinando quem poderia entrar no templo, onde imaginavam que Deus estava confinado lá. Como gentios, os magos eram barrados pelas paredes do templo que separava os pagãos dos judeus piedosos. Com a pergunta «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?» (v. 2a), os magos afirmam que não reconhecem a autoridade de Herodes, ou seja, o consideram um rei ilegítimo, mesmo tendo ido ao seu encontro, inicialmente, mais por falta de conhecimento. Com a afirmação «nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo» (v. 2b), eles desafiam também a elite religiosa, mostrando que as paredes do templo já não conseguem mais conter esse Deus que se revela em todo o universo e a todos os povos, como luz que brilha e ilumina a humanidade inteira. Portanto, os poderes político e religioso vigentes são desmascarados com o nascimento de Jesus, pois perdem totalmente o controle que imaginavam ter sobre Deus e seu agir libertador sobre o mundo. E os magos são os primeiros a constatarem esse fato.

Enquanto Herodes exercia o poder pela força e a violência, Jesus exercerá a sua autoridade pelo serviço; enquanto a relação com Deus, monopolizado pela elite religiosa, era mediada por uma casta sacerdotal corrompida e através de sacrifícios e ofertas, em Jesus é Deus quem se manifesta plenamente, sendo Ele mesmo quem se oferece à humanidade, ao invés de exigir sacrifícios e oferendas. Por isso, «o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda Jerusalém» (v. 3), pois viam que um novo tempo estava surgindo, novas relações estavam sendo gestadas, uma sociedade alternativa estava nascendo, enfim, o Reino de Deus estava começando e, portanto, todos os reinos humanos deveriam desaparecer. Como sempre, a força dos pequenos gera desconforto nos grandes. Herodes significa o poder político da época, “toda Jerusalém” significa o poder religioso. Juntando os dois na mesma frase e com os mesmos sentimentos, o evangelista denuncia o conluio que havia entre eles. O verbo grego traduzido por “ficou perturbado” é o mesmo empregado para expressar a agitação das águas do mar (ταράσσω – tarásso). Trata-se, portanto, de uma agitação incontrolável, como ficam as elites quando percebem sinais de mudança nas bases, com a possibilidade de perda de poder e privilégios. Essa agitação se torna sinônimo de perigo, como eram perigosas as águas do mar para a mentalidade semita.

As preocupações de Herodes e de “toda Jerusalém”, compreendida como a elite política, religiosa e intelectual predominantes, ou seja, sacerdotes e escribas, leva-os a um medíocre pacto (vv. 4-6), o qual se repetirá posteriormente e levará Jesus à morte de cruz, com as mesmas motivações: o medo que as autoridades tinham de um autêntico “Rei dos Judeus” (Mt 27,11). Isso significa que exerciam poder de modo ilegítimo, em favor de seus próprios interesses, sem preocupação alguma com o bem do povo. Era um poder usurpado. A pedido de Herodes, a elite religiosa usa as Escrituras em favor de um projeto de morte, e isso serve de advertência para as comunidades cristãs de todos os tempos: a Palavra não pode ser instrumentalizada para interesses pessoais nem projetos de poder. Portanto, a reunião de Herodes com os sacerdotes e mestres da Lei prefigura o conluio que levará Jesus à morte, no final do Evangelho. No nascimento, o pacto é feito entre Herodes e toda Jerusalém; na paixão será entre Pilatos e o sinédrio, mas são as mesmas forças, com as mesmas práticas. Como último recurso, Herodes tenta a fraude e o suborno, exigindo que os magos retornem a ele quando encontrarem o menino (vv. 7-8).

Ajudados pela Escritura e pelo próprio Herodes, os magos foram a Belém e lá, de fato, encontraram o que estavam procurando: Jesus, Deus e luz que ilumina todos os povos, inclusive eles, operadores de práticas abomináveis aos olhos do judaísmo. A reação deles não poderia ser outra: «Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande» (v. 10). A luz de Deus, até então sufocada por uma religião ritualista e segregadora, agora ilumina o universo inteiro e o convida a alegrar-se com isso, pois significa o fim de todas as barreiras, o desmoronamento de todos os muros e sinais de separação. É neste versículo que aparece pela primeira vez a palavra alegria no Evangelho de Mateus. É importante recordar que, enquanto o “evangelho da infância” de Lucas (Lc 1–2) é um relato alegre do começo ao fim, inclusive as primeiras palavras que o anjo dirige a Maria são um convite á alegria – “alegra-te cheia de graça!” –, o relato da infância de Mateus (Mt 1–2) é totalmente dramático, marcado por angústia, dúvida e medo (Mt 1,19.13-13). Por isso, é muito relevante perceber a primeira alegria e, ainda mais, considerando que ela parte de pessoas sem credibilidade para os padrões religiosos de Israel.

Se os magos se alegraram por verem a estrela, a alegria deles deve ter aumentado ainda mais «Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe» (v. 11a). Por serem pagãos e magos, eles não podiam adentrar além do pátio do templo reservado para os gentios e, portanto, não podiam contemplar nem adorar verdadeiramente a divindade nacional dos judeus. Agora, é tudo diferente: na casa, eles entram e vêem porque é o próprio Deus quem se deixa ver e conhecer em Jesus e na comunidade cristã, personificada em Maria, a mãe. Essa passagem é muito importante, pois em todo o primeiro capítulo de Mateus houve uma centralidade e importância dadas à figura de José. Nesta cena, ele não é mencionado, mas apenas Maria, como imagem da comunidade cristã, lugar privilegiado do encontro com Jesus e da verdadeira adoração. Certamente, Mateus teve uma intenção especial com esse detalhe: quis mostrar que Deus se deixa conhecer parcialmente na criação, representada pela estrela (vv. 2.9.10), de maneira mais clara ele se revela na Escritura (vv. 4-6), mas para fazer uma autêntica experiência com ele é necessário reunir-se em comunidade, personificada em Maria (v. 11).

Para compreender a atitude dos magos, é necessário recordar o que o texto diz, desde o início, sobre a intenção deles: «adorar o rei dos judeus» (v. 2). Para isso, eles tinham empreendido um longo caminho, inclusive errando a rota, pois foram primeiro a Jerusalém, mas lá não o encontraram, devido à estrutura rígida e decadente da religião oficial aliada ao poder político tirano de Herodes e do império romano. Ao contrário de Lucas, Mateus tem uma visão extremamente negativa sobre Jerusalém e o templo. Para Mateus, Jerusalém é sinônimo de trevas, é sinal de morte e ameaça para o reinado de Deus. Inclusive, pós a ressurreição, para encontrarem o Ressuscitado, os discípulos deverão retornar à Galileia (Mt 28,16-20). Por isso, somente deslocando-se para a periferia os magos puderam, de fato, experimentar o Deus que tanto buscavam. Aqui, está o ápice do contraste que o evangelista quer apresentar: o templo perdeu seu sentido, Deus não habita mais nele; é necessário retirar-se para a periferia, inserir-se na comunidade e, assim, adorar e experimentar a beleza desse Deus que quer apenas misericórdia e amor, e não mais sacrifícios.

Quando perceberam que encontraram aquele que tanto buscavam, os magos «ajoelharam-se diante dele e o adoraram» (v. 11). Essa atitude mostra que, finalmente, os magos se saciaram, encontraram sentido para suas vidas e buscas e, portanto, esvaziaram-se de si, oferecendo tudo o que tinham. Não ofereceram porque lhes fora exigido, como acontecia na religião do templo, mas porque sentiram-se confortados e correspondidos. Enquanto os poderes oficiais se uniam para matar, os magos, como figuras dos marginalizados, se prostram unidos para adorar. A adoração verdadeira, ou seja, o autêntico culto, não depende mais de um espaço específico delimitado pela religião; é feita na própria casa; a única exigência é que seja feita em «espírito e em verdade» (Jo 4,24). Ajoelhar-se em adoração será a atitude das mulheres e dos discípulos no primeiro encontro com o Ressuscitado (Mt 28,9.17). Com isso, o evangelista apresenta os magos como inauguradores do novo e autêntico culto, sendo modelos para o discipulado de Jesus.

Os presentes oferecidos pelos magos, ouro, incenso e mirra (v. 11b) são simbólicos e revelam, por um lado a identidade de Jesus e, por outro, a nova relação entre a humanidade e Deus. O ouro, revela que Jesus é rei enquanto o recebe, mas ao mesmo tempo diz que todas as nações podem participar do seu reino, enquanto foi oferecido por pagãos; assim, o privilégio de Israel como povo escolhido perde o seu sentido, pois a pertença ao Reino de Deus não é determinada por raça ou cultura, mas pela sinceridade de coração. O incenso representa a divindade de Jesus, ou seja, é o reconhecimento de que Ele é Deus, mas a humanidade não precisa mais dos sacerdotes do templo para se comunicar com Ele, pois qualquer pessoa e em qualquer lugar pode fazer isso. A mirra é o mais ambíguo dos três presentes: é, antes de tudo, o sinal da humanidade de Jesus, uma vez que era um perfume usado pelos judeus para embalsamar os cadáveres, como acontecerá com o corpo do próprio Jesus, quando morrer; porém, no Cântico dos Cânticos, em diversas passagens, a mirra é citada como o perfume da esposa amada (Ct 5,5.13) e, com muita probabilidade, Mateus quis dizer que a esposa amada de Deus deixou de ser Israel e passou a ser toda a humanidade.

Na conclusão do texto, encontramos uma afirmação muito significante para a comunidade cristã de todos os tempos: «Avisados em sonho para nãos voltarem a Herodes, os magos retornaram para sua terra seguindo outro caminho» (v. 12). Seguir outro caminho é a primeira atitude de quem faz um encontro autêntico com Jesus. Desse encontro, surge uma nova maneira de relacionar-se com Deus e com o próximo. Consequentemente, brota uma nova mentalidade que rejeita qualquer forma de poder que oprime e mata, inclusive amparado pela religião, como o complô de Herodes com os sacerdotes do templo. Para viver bem a nova relação com Deus é necessário desviar-se das antigas rotas e estruturas, como fizeram os magos, ao perceberem que Jerusalém só oferecia exploração e perigo. A experiência autêntica com Deus, portanto, provoca no ser humano a necessidade de percorrer novos caminhos, o que pode ser compreendido como uma nova maneira de viver, com novas atitudes parecidas com as de Jesus.

À guisa de conclusão, podemos nos questionar sobre quais caminhos que o Natal nos instiga a percorrer de agora em diante. Se serão os caminhos de sempre, ou seja, se continuarmos com as mesmas maneiras de pensar e compreender as coisas, principalmente a nossa relação com Deus e o próximo, é sinal de Jesus não nasceu em nós, ou seja, o Natal não aconteceu em nossas vidas. E Jesus se não nasceu em nós, não poderemos manifestá-lo ao próximo. Também é importante recordar o atual contexto eclesial: que o “outro caminho” seguido pelos magos estimule a reflexão sinodal em curso e que cada vez mais caminhos sejam abertos em nossas comunidades. Quanto mais disposição de “caminhar juntos” houver, mais a luz de Cristo iluminará o mundo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

quarta-feira, dezembro 31, 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – LUCAS 2,16-21



Na conclusão da oitava de Natal e o início do novo ano civil, a Igreja celebra a solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, recordando a afirmação do Concílio de Éfeso (ano 431) que a definiu como “Theotókos”, cujo significado literal é “aquela que gerou Deus”. O objetivo da Igreja com esta festa e com a definição conciliar, no entanto, é afirmar a identidade de Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e não necessariamente promover o culto e a devoção a Maria. Na verdade, de todas as festas marianas, essa é a que melhor exprime as motivações e o objeto do culto mariano, pois recorda que «a Virgem Maria é mãe de Deus porque pariu, segundo a carne, o Verbo de Deus» (afirmação do Concílio de Éfeso, ano 431). O sentido da festa, portanto, volta-se para o Cristo, recordando a participação decisiva de Maria na sua vinda ao mundo. Trata-se da festa mariana mais antiga, sendo celebrada desde o século VI, e certamente a mais cheia de sentido. Ao longo do tempo, passou por diversas modificações, inclusive no título e na data. Por sinal, o título e a data atuais já são frutos da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. O último título anterior ao Vaticano II era “festa da circuncisão” de Jesus, fundamentada na tradição judaica de circuncidar as crianças do sexo masculino no oitavo dia após o nascimento, como aconteceu, sem dúvidas, com Jesus. No ano de 1968, o então papa Paulo VI proclamou este dia – primeiro de janeiro – também como o Dia Mundial da Paz, convidando a inteira humanidade a empenhar-se na construção da paz e da fraternidade universal. Isso torna esta celebração ainda mais significativa.

O evangelho lido na liturgia deste dia é a continuação quase imediata daquele da noite de Natal, sendo separado por apenas um versículo: Lc 2,15. Enquanto na noite de Natal o evangelho foi Lc 2,1-14, na solenidade de hoje o texto proposto é Lc 2,16-21. Inclusive, é o mesmo texto para todos os anos. A nível de contextualização, consideramos que o primeiro passo para uma boa compreensão do evangelho de hoje é recordar o versículo que o antecede: «Quando os anjos os deixaram e foram para o céu, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos já a Belém para ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”» (Lc 1,15). Ora, os pastores ficaram maravilhados com a Boa Notícia que o anjo lhes tinha anunciado: um Salvador nasceu para eles, naquela noite (Lc 2,10), que é sempre um “hoje”, tema importante da catequese lucana. E, ao anúncio do anjo, seguiu-se o canto da multidão da corte celeste que desceu à terra, para junto dos pastores, proclamando a glória de Deus nos céus e a correspondente paz na terra entre a humanidade (2,13-14). Portanto, era inevitável a surpresa e a perplexidade nos pobres pastores, assim como a dúvida, afinal, conforme os parâmetros religiosos da época, eles seriam os últimos a receber uma mensagem do céu, pois pertenciam à categoria das pessoas mais simples e marginalizadas, e eram considerados impuros, compondo o último estrato social e religioso da época.

Uma das grandes novidades de Jesus, desde o nascimento, foi contradizer o que a sua religião tinha afirmado sobre o Messias e sobre Deus. Ora, a religião oficial tinha classificado as pessoas como puras e impuras, justas e pecadoras, imaginando que a vinda do Messias seria marcada pelo extermínio daquelas classificadas como impuras e pecadoras, como eram considerados os pastores na época. Ao invés de seguir as determinações da religião, Jesus preferiu, desde o início, exatamente as categorias excluídas, tomando partido por elas, contradizendo e frustrando muitas expectativas. É nessa perspectiva que podemos e devemos compreender a reação dos pastores ao anúncio do nascimento de Jesus. A eles, a religião tinha ensinado que estava fora de cogitação a salvação, pois eram gente da pior qualidade e que não observava a Lei. De repente, eles recebem um anúncio de salvação e sentem-se amados por Deus. Sem dúvidas, eles ficaram surpreendidos, sentindo-se humanizados, ao descobrir que eram destinatários da salvação, convidados a participar do Reino de Deus. Além, disso, a religião de Israel tinha alimentado as expectativas pela vinda de um messias poderoso, guerreiro e glorioso, e o que veio foi uma criança pobre, nascida em condições sub-humanas. Perplexos diante de tudo isso, eles decidiram ir a Belém para conferir e tirar todas as dúvidas (Lc 2,15).

Diante de uma novidade sem precedentes, é impossível esperar, por isso diz o texto que «Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura» (v. 16). Merece destaque a expressão adverbial “às pressas” (em grego: σπεύσαντες – speussantes), a qual possui grande relevância no vocabulário da teologia lucana: encontra-se logo após o anúncio do anjo a Maria, introduzindo a visita a Isabel (Lc 1,39), e na ordem de Jesus a Zaqueu, para que desça rapidamente da árvore, para acolher a salvação em sua casa (Lc 19,5-6). Isso quer dizer que, para Lucas, a salvação é uma Boa Notícia que não pode ser adiada, mas deve ser experimentada sem demora, com urgência. Tanto quem recebe quanto quem proclama o anúncio da salvação devem ter pressa. No caso dos pastores, mais ainda: como passaram a vida inteira às margens, sofrendo o desprezo e a exclusão, não poderiam mais perder tempo. Para eles e todas as categorias de pessoas marginalizadas, a inclusão tem de ser agora, hoje. Por isso, foram às pressas a Belém. Além da necessidade que sentiam, tendo em vista o histórico de marginalização que sofriam, a pressa dos pastores é também uma demonstração de fé e obediência a Deus. E, assim, o evangelista evidencia ainda mais as diferenças na maneira de acolher a mensagem de Deus entre as pessoas simples e os representantes da religião oficial: Maria e os pastores agiram com pressa diante do anúncio recebido, enquanto Zacarias, um sacerdote do templo, hesitou em acreditar. Com isso, Lucas vai, desde o início, delineando os traços de quem vai se abrir à mensagem de Jesus, durante o seu ministério.

Se os pastores ficaram surpresos com o anúncio do anjo, talvez tenham ficado mais ainda com o que viram em Belém: «encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura» (v. 16b). Na verdade, encontraram tudo conforme lhes tinha sido anunciado (Lc 2,12), mas é impossível que não tenham se surpreendido, tamanha a reviravolta na história. Ouviram que tinha nascido para eles um Salvador, e encontram na manjedoura, junto aos pais, uma pequena criança, provavelmente em meio às moscas e ao mau cheiro de esterco de animais, sem nenhum sinal distintivo que revelasse glória ou poder, atributos próprios de um salvador. Porém, o que encontraram confirmava o que lhes tinha sido anunciado (Lc 2,12). Apesar da inevitável surpresa, veio a consciência da novidade e da nova história que estava começando. Ora, se tivesse nascido um Salvador conforme as expectativas da religião oficial, os pastores não conseguiriam sequer chegar perto, e seriam os últimos a saber. Aos poucos, foram compreendendo que um novo tempo com uma nova ordem estava surgindo, quem estava às margens estava passando para o centro, como eles. E essa mudança só se tornava possível porque o Salvador veio identificado com eles. Nesta cena, portanto, Lucas delineia o primeiro grande esboço de uma Igreja pobre e para os pobres.

Na sequência, o evangelista diz que os pastores «tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino» (v. 17), tornando-se assim, também eles, mensageiros de salvação, portadores de Boa Notícia. Contaram que o anjo lhes aparecera anunciando o nascimento do Salvador, e que depois “uma multidão da corte celeste” baixou perto deles glorificando a Deus e anunciando a paz em toda a humanidade (Lc 2,10-14). Contaram coisas maravilhosas, de modo que quem os escutava também se maravilhava, ou seja, ficavam perplexos, admirados, pois, até então, não se tinha notícia de um Deus que fizesse conta de gente pouco importante e sem currículo, como eram eles, conforme os padrões da sociedade e da religião da época. Com isso, o evangelista ensina que os pastores foram os primeiros evangelizados com o nascimento de Jesus e se tornaram os primeiros evangelizadores de tão grande acontecimento. Assim, Lucas faz deles modelos de anunciadores, prefigurando neles a missão dos apóstolos e dos discípulos e discípulas de todos os tempos. De fato, mais adiante, no auge da missão e sofrendo as primeiras perseguições, os apóstolos vão confirmar a fidelidade seguindo o exemplo dos pastores: «não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos» (At 4,20). Não calar diante do que se vê e se ouve é exigência básica da evangelização. E os pastores foram os primeiros a fazer isso.

De todas as pessoas que ouviram o relato dos pastores e ficaram maravilhadas, o texto destaca a reação de Maria como mais profunda, com menos surpresa e mais reflexão. Afinal de contas, ela já estava habituada às maravilhas de Deus, pois foi a primeira destinatária do anúncio salvífico através do anjo Gabriel (Lc 1,26-38) e tinha assistido à exaltação de Isabel quando a visitou (Lc 1,39-52). No entanto, ela não deixará de maravilhar-se, pois a trajetória de Jesus lhe trará outras surpresas, como no episódio da apresentação no templo, quando ela e José ficarão admirados com o que se dizia do menino (Lc 2,33). A reação de Maria é diferenciada, pois nela o evangelista está construindo a imagem da discípula modelo: «guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração» (v. 19). Se na atitude dos pastores já havia esboço do modelo de discípulo e discípula, esse modelo se aperfeiçoa em Maria: não basta contar o que se vê e se escuta, mas é necessário também meditar, assimilar bem, interiorizar. O verbo grego empregado pelo evangelista, traduzido pelo lecionário como “meditar” (συμβαλλω – symbálô), possui um significado muito mais profundo: quer dizer “colocar junto”, “unir”, “reunir”, “interpretar”. E era isso que Maria fazia: percebia os diversos sinais e acontecimentos do agir de Deus e juntava-os, fazendo sua própria interpretação, da qual a melhor demonstração está no canto do Magnificat: uma síntese da história da salvação, com ênfase na opção de Deus pelos pobres e humildes de sempre.

Certamente, a meditação de Maria consistia em relacionar os acontecimentos do presente com as ações libertadoras de Deus ao longo da história, como ela mesma já expressara no Magnificat (Lc 1,46-55) e experimentara em sua vida. É exatamente aqui que ela se sobressai sobre os demais ouvintes, porque ela guardava, ou seja, escutava com atenção tudo o que os pastores tinham dito, e juntava com o que já sabia: as palavras do anjo Gabriel e as declarações de Isabel, e o histórico de Deus em favor dos pobres e humildes. Aquela que já era mãe, inicia agora uma nova etapa, o discipulado, e isso ela vai fazer ao longo de toda a sua vida e a de Jesus. Ao invés de ver os fatos isoladamente, ela vai juntando cada um, unindo as peças e percebendo, no seu coração, que a história da salvação está sendo reescrita com novos parâmetros, uma inversão de ordem: os últimos, como ela e os pastores, passaram a ser os primeiros. E é essa a prova de que o Reino de Deus, de fato, irrompeu na história. Nesse sentido, Maria se torna autêntica intérprete da nova história da salvação, sendo, por isso, modelo ideal de discípula e discípula.

Tendo comprovado e visto que tudo o que lhes tinha sido anunciado era verdade, «os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus» (v. 20). Realmente, não faltavam motivos para os pobrezinhos dos pastores glorificarem a Deus! É importante lembrar que a alegria e o louvor também são traços bem característicos de Lucas; quem faz a experiência do amor misericordioso de Deus reage louvando e glorificando. O louvor dos pastores mostra que, em Jesus, o abismo entre o humano e o divino foi eliminado; céus e terra foram unidos definitivamente. Cantar glória a Deus era função dos anjos no céu que, excepcionalmente desceram à terra e louvaram a Deus diante dos pastores (Lc 1,13-14), mas logo retornaram para o céu. Agora, também aos pastores, os últimos da terra, tem esse direito. Temos aqui uma mudança completa de paradigma: o que era privilégio dos primeiros do céu, se torna acessível aos últimos da terra. O louvor continuado dos pastores mostra que a experiência vivenciada por eles foi verdadeira. O mistério contemplado deixou marcas permanentes. Eles não assistiram apenas a um evento, mas se tornaram participantes e construtores de uma etapa nova da história. Regressaram transformados, renovados, animados, se sentindo gente de verdade. Por isso, daquele momento em diante, dificilmente eles deixaram de anunciar tudo o que tinham visto, escutado e vivido.

No final, vem evidenciado o papel importante de José e Maria na educação de Jesus, levando para a circuncisão conforme previa a lei e, ao mesmo tempo, a liberdade que tinham para seguir mais a Deus do que a Lei: «Quando se completaram os oitos dias para a circuncisão do menino, deram-lhes o nome de Jesus como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido» (v. 21). A circuncisão não era exclusividade de Israel. Era um costume comum a vários povos do antigo Oriente, sendo que a motivação era por questão de higiene e saúde. Em Israel se transformou em preceito religioso, passando a ser o principal sinal de pertença de um homem ao povo eleito. Com esse dado, Lucas reforça a concretude da encarnação. O que está sendo evidenciado mesmo é o nome dado à criança: Jesus, cujo significado é o “Senhor salva”. A Lei determinava que se desse o nome de um parente próximo. Contudo, o nome Jesus fora indicado pelo anjo, no momento do anúncio (Lc 1,31). Com isso, Lucas mostra que, entre a Lei e o Espírito Santo, Maria e José preferiram se orientar pelo Espírito Santo, prefigurando, assim, mais uma característica da comunidade cristã. E Lucas faz essa referência à circuncisão mais como dado cronológico do que mesmo identitário. O importante aqui é o nome que sintetiza a missão de Jesus. E o conjunto dos eventos, do anúncio do nascimento até aqui, mostra a atualidade desse nome.

O significado do nome Jesus é “Deus salva”, porque agora a salvação entrou definitivamente na história, como o anjo tinha anunciado aos pastores: «Hoje, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor» (2,11). E, a partir desse nascimento, a salvação tornou-se acessível à humanidade inteira, deixando de ser privilégio de um povo. Isso quer dizer que todos os povos da terra compõem o “vós” para quem nasceu o Salvador, que é o Cristo Senhor. Portanto, hoje, especialmente, é mais do que justo recordarmos a Mãe desse Salvador, e seguir seu exemplo de discípula fiel.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, dezembro 27, 2025

REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ – MATEUS 2,13-15.19-23 (ANO A)



No domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, cujas leituras variam de acordo com o ciclo litúrgico vigente. Neste ano, por ocasião do ciclo A, o evangelho é tirado de Mateus, especificamente da parte introdutória, a qual é chamada convencionalmente de “evangelho da infância”, correspondente aos dois primeiros capítulos, os quais funcionam como introdução e síntese de todo o Evangelho, como acontece também com o Evangelho de Lucas. A passagem selecionada para esta festa – Mt 2,13-15.19-23 – contém dois episódios, bastante conexos entre si: a fuga de José com Jesus e sua mãe para o Egito (vv. 13-15), e o respectivo retorno dos três para a Palestina, com a fixação da residência em Nazaré da Galileia (vv. 19-23). Como se vê, a liturgia preferiu saltar alguns versículos entre os dois episódios (vv. 16-18), correspondentes ao relato da matança dos inocentes a mando de Herodes, o que foi o motivo da fuga de José com o menino e a mãe para o Egito. Nesse texto, é interessante notar a itinerância, o movimento, o quanto Jesus se encontra em caminho, em viagem, o que não vai se tornar um traço característico da sua identidade no Evangelho de Mateus, como é no de Lucas, nesta passagem chega a ser interessante e até surpreendente. Com isso, o evangelista faz da vida de Jesus uma síntese da trajetória do povo de Deus, marcada pelo constante peregrinar, prefigurando a identidade da Igreja, igualmente peregrina, sobretudo, por ser essencialmente missionária.

De todos os evangelistas, Mateus é aquele que mais recorre ao Antigo Testamento para construir a sua “história de Jesus”, empregando, inclusive, os métodos de interpretação usados pelos rabinos do seu tempo, embora com uma finalidade diferente. Os rabinos ligados ao judaísmo oficial usavam passagens do Antigo Testamento para negar que Jesus fosse o Messias e Filho de Deus. Mateus, por sua vez, buscava passagens para confirmar e afirmar Jesus como o Messias, procurando constantemente colocá-lo em paralelo com os principais personagens da história de Israel, principalmente com Moisés. Ele faz isso apresentando Jesus como muito superior a todos as figuras da antiga aliança, incluindo Moisés.  Por ser o evangelista com os pés mais fincados nas tradições judaicas, ele insiste em apresentar Jesus como o messias anunciado e prometido pelos profetas. Isso acontece em todo o seu Evangelho, mas com mais intensidade no “evangelho da infância” (cc. 1 – 2). O trecho lido hoje é uma clara demonstração disso. A principal motivação para o evangelista fazer isso foi a realidade e a composição das suas comunidades, formadas predominantemente por cristãos que tinham saído do judaísmo e necessitavam de provas escriturísticas de que Jesus era mesmo o Messias esperado e Filho de Deus. Na época da redação do Evangelho, essas comunidades também viviam um período muito difícil, perseguidas pelo império romano e o judaísmo oficial. Para fortalecê-las, o evangelista apresenta Jesus sendo perseguido desde os seus primeiros dias de vida, como mostra o evangelho de hoje, um aspecto que Lucas não enfatiza em seu relato da infância.

Feita a introdução contextualizada, olhemos para o texto: «Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse» (v. 13a). Temos novamente a figura do Anjo que aparece em sonho a José; o mesmo tinha acontecido quando ele descobriu a gravidez de Maria e pensava abandoná-la em segredo (Mt 1,19). A expressão “Anjo do Senhor” é uma forma suavizada para falar de Deus mesmo. Como a mentalidade hebraica concebia Deus como um ser muito distante e o ser humano incapaz de comunicar-se com ele, usava-se a imagem de uma figura intermediária, como um anjo. Já o sonho, na mentalidade bíblica, e sobretudo em Mateus, significa a disposição interior para compreender a vontade de Deus e colocá-la em prática, ou seja, indica o estado de oração. Toda vez que se diz que houve uma revelação ou visão direcionada a uma pessoa em sonho, quer dizer que tal pessoa se encontrava em oração. O evangelista aproveita a ocasião também para fazer um paralelo entre o esposo de Maria e o patriarca José, o penúltimo filho de Jacó, habilidoso em sonhar e interpretar sonhos (Gn 37; 40 – 41), de acordo com o livro do Gênesis, o qual também salvou a vida dos descendentes de Israel, levando-os para o Egito numa época de carestia. Desse modo, Mateus reforça a herança israelita de Jesus, relacionando também os outros personagens envolvidos em seu nascimento com as principais tradições da história do seu povo.

Através do anjo, o Senhor dá uma ordem a José: «Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo» (v. 13b). A primeira informação evidenciada aqui é a proteção constante de Deus na vida de Jesus, sendo também uma antecipação do seu ministério como oposição ao poder estabelecido. O evangelista está alertando que, desde o início, Jesus e seu projeto de libertação são insuportáveis para todo e qualquer sistema de dominação sustentado pelo uso da força e poderio econômico, causas diretas das principais injustiças. É nítida aqui também a intenção do evangelista de comparar Jesus com Moisés: ambos, quando ainda eram crianças, foram alvos da fúria de governantes violentos e injustos; o que Herodes faz é semelhante ao que o faraó do Egito fez na época de Moisés, ordenando que todos os meninos hebreus fossem mortos (Ex 1,22 = Mt 2,16). É claro que, além da continuidade, o principal objetivo do evangelista ao comparar Jesus com os personagens do Antigo Testamento é demonstrar a sua superioridade. Isso será feito no decorrer de todo o Evangelho, e teremos a oportunidade de perceber isso ao longo do ano litúrgico em curso – ano A –, o qual possibilitará um contato constante com a obra de Mateus

Ao longo de todo o seu “evangelho da infância”, Mateus apresenta José como exemplo de abertura e obediência à vontade de Deus, constituindo-o como modelo antecipado de discípulo, ao mesmo tempo em que recorda a figura obediente de Abraão. Por isso, à recomendação do anjo, temos a imediata resposta de José: «José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito» (v. 14). Os verbos “levantar-se”, “pegar” (o mesmo que ‘tomar consigo’)” e “partir/entrar”, que formam um refrão neste texto (vv. 13-14.20-21), tanto como ordem do anjo quanto como execução da parte de José, conforme indica o narrador, são aqui uma síntese do discipulado de Jesus, e fazem deste trecho um verdadeiro tratado missionário. Mesmo sem dizer uma única palavra, José é aqui apresentado como autêntico e fiel discípulo missionário: o seu agir é todo conforme a Palavra de Deus e, em tudo o que ele faz, ele leva Jesus consigo. Na recomendação do anjo e no cumprimento por José é delineado também um ordenamento para a comunidade: Jesus, o menino, está sempre no centro: José-o menino-a mãe. Na tradição judaica, numa relação de três nomes, aquele que aparece no meio é o principal, e o evangelista reflete isso. José e a mãe, cujo nome não vem aqui mencionado, são aqui as imagens do antigo Israel que converge para Jesus, e também da comunidade cristã – a Igreja – que será idealizada no decorrer do Evangelho, a partir dos ensinamentos de Jesus. Eles só se inserem na história da salvação em função de Jesus. Logo, no centro de uma comunidade não pode estar outro senão Jesus Cristo.

Para a conclusão do primeiro episódio, o evangelista insere uma citação do profeta Oséias (Os 11,1): «Ali ficou até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu Filho”» (15). A morte de Herodes é o evento demarcatório de que o perigo diminuiu, pelo menos por enquanto, pois a sequência do texto mostrará o contrário. Na maioria das citações explícitas dos profetas, Mateus diz apenas “para se cumprir o que disse o profeta”; em algumas, nas mais importantes, como essa, ele diz “para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta”; assim, ele coloca as palavras na boca de Deus, para demonstrar que quem chamou Jesus de Filho foi próprio Deus. O Filho ao qual Oséias se refere é povo de Israel, recordando o êxodo. Aplicada a Jesus, a citação antecipa a confissão da sua filiação divina para a comunidade de Mateus. O evangelista afirma aqui a messianidade de Jesus como Filho de Deus, o que será reafirmado no decorrer do Evangelho, especialmente na cena do batismo (Mt 3,17) e na confissão de Pedro (Mt 16,16) e na transfiguração (Mt 17,5).

Tendo omitido os versículos que tratam da “matança dos inocentes” (vv. 16-18), o texto continua com o dado da morte de Herodes e uma nova aparição do Anjo do Senhor a José (v. 19), com uma nova ordem: «Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos» (v. 20). A ordem para voltarem à terra de Israel, saindo do Egito, alude à ordem de Deus a Moisés, quando estava refugiado em Madiã: «Vai, volta ao Egito, porque aqueles que queriam te matar estão mortos» (Ex 4,19). Embora no texto de Mateus o movimento seja o contrário, ou seja, é do Egito que devem partir, o objetivo é atualizar a experiência do êxodo. Mesmo sendo José o executor das determinações de Deus por meio do anjo, é Jesus o motivo de tudo. Assim, o evangelista o apresenta como o libertador definitivo, não apenas de Israel, mas de toda a humanidade. Aqui, temos também um elemento novo: antes, era apenas Herodes quem queria matar Jesus recém-nascido (v. 13); agora, o evangelista diz “aqueles que procuravam matar”, ou seja, trata-se de um grupo, um conjunto de forças. Com isso, o evangelista apresenta uma antecipação do complô final formado pelos poderes político e religioso de Jerusalém, que levará Jesus à cruz. Por isso, ao escapar da matança dos inocentes, Jesus teve a sua morte adiada, de modo algum livrou-se do perigo. Enquanto messias e Filho de Deus, o agente máximo de humanização enviado pelo Pai, toda a sua vida confrontada pelas principais forças antagônicas ao Reino de Deus que ele veio instaurar no mundo: o império romano e a elite religiosa de Jerusalém.

Novamente, José fez a vontade de Deus. O evangelista não se cansa de repetir que tudo o que José faz é conforme o dizer de Deus: «José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, e entrou na terra de Israel» (v. 21). A entrada na terra de Israel é a realização parcial do novo êxodo, o qual será consumado com a ressurreição. Como o poder dominante usa de todos os métodos para se perpetuar, a morte de um tirano não significa melhora na vida do povo. É um poder que passa de pai para filho com os mesmos métodos. Por isso, mesmo após a morte de Herodes Jesus corria perigo: «Mas quando soube que Arquelau reinava na Judeia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galileia» (v. 22). Novamente, Deus intervém em favor de Jesus e da comunidade reunida em seu redor, prefigurada em José e Maria. Deus protege, mas o ser humano participa da contínua libertação. Em momento algum o evangelista diz que Deus os transportou miraculosamente de um lugar para outro. O que se diz é que Deus iluminou a realidade com a sua Palavra, comunicada pelo anjo. A iniciativa de partir de um lugar para outro foi sempre de José, ou seja, do agente humano. E ele fez tudo a partir do que ouviu de Deus. É assim também que deve fazer a comunidade cristã: à luz da Palavra, tomar iniciativas de libertação; não repetindo as práticas do opressor, mas criando e propondo alternativas de vida. A ida dos três para a desprezada região da Galileia é uma prova disso. É de lá que o Reino será, posteriormente, anunciado e terá sua construção iniciada por Jesus (Mt 4,14).

Toda a história dramática até aqui apresentada teve como objetivo principal levar Jesus para Nazaré, ou seja, para as margens: «E foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”» (v. 23). Ora, toda a Galileia era discriminada pela elite de Israel, sobretudo pela pouca ortodoxia do seu povo. Inclusive, era chamada de “Galileia dos pagãos” (Mt 4,15). E parece que Nazaré era a pior das cidades que havia lá. Na verdade, Nazaré era apenas uma aldeia de menos de quinhentos habitantes; seu nome não é citado uma única vez no Antigo Testamento. O evangelista se arriscou até a usar uma profecia “inexistente”, para explicar a ida de Jesus para lá. Ora, nenhum texto do Antigo Testamento fala de um “nazareno”; já foram feitas várias explicações para esta referência, mas nenhuma convincente. A maior prova da má fama de Nazaré na época de Jesus é dada pelo evangelista João: «De Nazaré pode sair coisa boa?» (Jo 1,46). No entanto, foi lá que Deus escolheu para dar início ao seu Reino. Assim, o evangelista conclui o seu “evangelho da infância”, delineando a missão de Jesus e a sua identificação com tudo o que é marginalizado e descartado. Para Mateus, portanto, é das margens que brota a libertação de toda opressão e injustiça. Os centros de poder são sempre ameaça à liberdade, à justiça e, consequentemente, ao Reino de Deus.

Ainda sobre a ida de Jesus a Nazaré, levado por seus pais, após o período de refúgio no Egito, merece atenção a particularidade do Evangelho de Mateus, no qual Nazaré aparece como algo acidental, fruto do acaso, como se vê na passagem de hoje (vv. 22b-23); parece que eles foram morar lá por uma questão de segurança, devido, provavelmente, à insignificância do lugar, onde poderiam viver anonimamente. E, no final, o evangelista forjou uma referência profética para justificar. Esse dado contraria outras tradições neotestamentárias, como a de Lucas, por exemplo, que apresenta Nazaré como o lugar fixo de residência dos pais de Jesus antes do seu nascimento, inclusive, como cenário do anúncio do anjo a Maria, e onde residia toda a sua parentela (Lc 1,26-38; 2,4; 4,16ss). Obviamente, tal observação não visa provocar o questionamento sobre qual dos evangelistas estaria correto. O certo é que cada qual utilizou o dado correspondente às suas respectivas intenções teológicas, uma vez que nenhum deles tinha pretensão de historicidade ao compor seus relatos catequéticos. Independentemente de qualquer relação anterior de seus pais com Nazaré, o certo é que essa pequena aldeia foi incorporada à própria identidade de Jesus, tornando-o eternamente conhecido como o Nazareno ou simplesmente Jesus de Nazaré.

Ao escrever os episódios que compõem o evangelho de hoje, o evangelista Mateus não pretendia apresentar um modelo fixo e universal de família. Na verdade, ele quis enfatizar a inserção do Filho de Deus na história, recordando sua pertença a uma família e um povo. Com isso, ele ensina que Jesus é plenamente humano, viveu intensamente os dramas da existência humana, inclusive os perigos, a instabilidade e a pobreza, reforçando sua opção preferencial pelos últimos, os excluídos e marginalizados, como ele mesmo se fez. José e a Mãe do menino são recordados como modelos pela atenção e obediência à Palavra de Deus, antecipando como deve ser a comunidade cristã em todos os tempos: peregrina e missionária, sempre do lado dos mais necessitados, mesmo que essa opção gere perseguição e perigo. 

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

quinta-feira, dezembro 25, 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR – JOÃO 1,1-18 (MISSA DO DIA)


Assim como acontece com a liturgia da missa da noite, o evangelho indicado para a missa do dia na solenidade do Natal do Senhor também é o mesmo para todos os anos. Trata-se do prólogo do Evangelho de João – Jo 1,1-18. Esse texto é considerado uma das páginas mais belas e profundas de toda a Bíblia. É um poema de elogio à Palavra de Deus, cuja encarnação constitui o centro do mistério do Natal e, consequentemente, da vida cristã. Enquanto Mateus e Lucas procuraram explicar o nascimento e a origem divina de Jesus a partir de relatos e reconstrução de prováveis genealogias (Mt 1,1-17; Lc 3,23-38), o autor do Quarto Evangelho recorda a sua preexistência enquanto Palavra ou Verbo de Deus que precede a criação do mundo, inclusive, apresentando a participação da própria Palavra na criação do mundo. Pela diferença de estilo literário, sobretudo, muitos estudiosos acreditam que esse texto é um acréscimo posterior da comunidade joanina, enquanto outros o vêem como uma introdução pensada pelo autor, desde o início, como chave de leitura de toda a obra, uma vez que no prólogo já se percebem indicações de praticamente todas as linhas teológicas tratadas no Quarto Evangelho e nas cartas atribuídas à tradição joanina. O debate em torno dessa questão continua aceso na exegese, sem perspectiva de conciliação. A extensão do texto não permite um comentário pormenorizado versículo por versículo. Por isso, procuramos colher a mensagem central do texto.

E começamos recordando que o prólogo do Evangelho de João foi visto com desconfiança em muitas comunidades cristãs dos primeiros séculos, devido a uma suposta influência da filosofia grega. Isso foi mais pela linguagem do que mesmo pelo conteúdo em si. De fato, nesse texto o autor procura conciliar a maneira de pensar dos gregos com o jeito de acreditar dos hebreus. Contudo, embora expressa em linguagem mais próxima da filosofia e poética gregas do que da literatura hebraica, a mensagem deste prólogo possui plena relação e continuidade com a teologia predominante da Bíblica Hebraica, apesar dos pontos de ruptura, como acontece com todos os escritos do Novo Testamento. Até mesmo em relação à linguagem fica evidente que o autor fez uso de modelos já conhecidos no mundo judaico, embora não tão aceitos, como os elogios à Sabedoria em Sb 6–9, Pr 8 e Eclo 24. De fato, a maneira como o autor do Quarto Evangelho apresenta a Palavra-Verbo (em grego: logos – λόγος) possui muita afinidade com o que se dizia da Sabedoria (em grego: sofia – σοφίᾳ) no Antigo Testamento que, personificada, desceu do céu e se tornou acessível à humanidade. Porém, dos textos citados do Antigo Testamento, que fazem elogio à Sabedoria e certamente influenciaram o autor do Quarto Evangelho, somente o de Provérbios faz parte da Bíblia Hebraica, pois os livros da Sabedoria e do Eclesiástico não são considerados inspirados pelos judeus.

Feitas algumas considerações a nível de contexto, olhemos para o texto e, logo de início, já percebemos a primeira grande afinidade com o Antigo Testamento, apesar da novidade contida na afirmação: «No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus» (v. 1). A primeira expressão do prólogo é a mesma que abre o livro da Gênesis, na tradução grega dos Setenta (LXX): “no princípio” (Ἐν ἀρχῇ - en arkê). Em Gn 1,1 se diz que no “princípio Deus criou…”, mas aqui se diz que em um princípio anterior à própria criação já havia a Palavra que estava com Deus e era ele próprio. Isso quer dizer que, enquanto Palavra, Jesus Cristo já existia antes da criação do mundo e ele mesmo foi agente da criação, junto com Deus, o Pai, como diz o texto: «Tudo foi feito por ela e sem ela nada se fez de tudo que foi feito» (v. 3). Talvez essa seja uma das descobertas mais surpreendentes e preciosas que o autor do Quarto Evangelho nos fornece. Ora, no Novo Testamento, existem hinos até mais antigos do que este que afirmam a pré-existência do Cristo, como Filho de Deus e agente da criação (Ef 1,3-14; Cl 1,15-20), mas não afirmando que ele é a Palavra, e menos ainda com a clareza que João faz aqui. E a profundidade deste primeiro versículo de João se torna ainda mais evidente se o compararmos aos evangelhos sinóticos de Mateus e Lucas que, empregando o gênero literário da genealogia, chegam ao máximo em Abraão e Adão, quando procuram identificar as origens messiânicas de Jesus. Afirmando a preexistência da Palavra na eternidade de Deus, o autor ensina que Deus fala, ele se comunica com a humanidade. Aliás, se diz aqui que todo o agir de Deus se dá por meio da Palavra, que é performativa, sendo também um evento. Isso evoca a ideia de um Deus acessível à humanidade, como, de fato, a vida de Jesus demonstra tão bem.

Na sequência, o autor exalta as qualidades do Cristo enquanto Palavra e seus efeitos para o mundo: «Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la» (vv. 4-5). Vida e luz são duas das categorias teológicas mais relevantes na perspectiva do Quarto Evangelho, e aqui são diretamente associadas a Jesus: ele é fonte de vida e de luz. No auge de sua vida pública, Jesus mesmo vai dizer que veio ao mundo para trazer luz ao mundo e comunicar vida em abundância à humanidade (Jo 8,12; 10,10). Ele vai dizer claramente ser a luz e a vida verdadeiras. Sua luz é eterna, brilha fortemente, mas é perseguida pelas trevas, que são todas as forças de morte manifestadas ao longo da história, incluindo o poder religioso instituído em Israel e os diversos sistemas de poder político que já dominaram aquele povo. Na verdade, as trevas são todas as oposições ao projeto de Deus, desde a criação até os tempos atuais, de modo que as trevas aqui mencionadas não dizem respeito apenas à história de Israel, mas ao mundo inteiro. Todo impedimento ao projeto de Deus e da Palavra encarnada, Jesus, representa o mundo das trevas, em todos os tempos e lugares. A primeira vitória da luz aconteceu na criação: o primeiro ato criador de Deus foi invocar a luz sobre o caos primordial (Gn 1,3). E o Natal, enquanto “fazer-se carne” da Palavra é o começo da máxima manifestação dessa luz, cujo ápice será a ressurreição. Durante sua vida terrena, Jesus experimentou na carne o quanto a sua luz foi perseguida pelas trevas, sobretudo, ao ser  rejeitado e combatido pela instituição religiosa. Mas a ressurreição mostrou que as trevas não conseguiram dominá-la.

Por ser também uma síntese poetizada do percurso dinâmico da Palavra, desde a criação até a encarnação, o prólogo do evangelho joanino compreende também, embora implicitamente, uma síntese da história da salvação. Por isso, não poderiam faltar referências aos personagens mais relevantes da história e da religião de Israel. Mas o autor é muito cuidadoso nesse sentido, e cita somente dois nomes: Moisés e João, o Batista; um legislador e um profeta. João, o Batista, é identificado como enviado por Deus para dar testemunho da luz (vv. 6-9.15). O papel da testemunha é apontar para a luz, ajudando os outros a serem iluminados e, por consequência, a chegarem à fé, como consequência da luz contemplada e recebida. Nesse sentido, João é síntese de todo o profetismo bíblico que, ao longo da história, constituiu-se como a expressão religiosa mais autêntica de Israel. Com a instituição religiosa corrompida desde o início, por muitos séculos somente o profetismo fez a luz de Deus resplandecer sobre o seu povo. O aparato ritualista do templo, em conluio com a monarquia e, posteriormente, com os impérios dominantes, ofuscavam a luz verdadeira. Por isso, por tanto tempo a luz verdadeira não foi conhecida e nem reconhecida, apesar de nunca ter faltado o testemunho de profetas como João Batista (vv. 10-11). Também Moisés não poderia ser esquecido na apresentação da trajetória da Palavra-Luz. Seu papel é reconhecido, mas colocado em seu devido lugar: por meio dele foi dada a Lei (v. 17), que tem a sua importância na história, mas até certo ponto, pois ela não comunica graça e nem verdade, e pode ser distorcida por aqueles que se credenciam como seus legítimos intérpretes, como realmente aconteceu. Basta olhar a história de Israel para perceber o quanto a Lei foi distorcida, sendo mais usada para escravizar do que mesmo para libertar. Por não comunicar graça e verdade, a Lei não gerava filhos para Deus, mas apenas servos. Só o Cristo-Palavra gera filhos para Deus, porque somente ele reflete a luz verdadeira do Pai e, por isso, ele é a própria luz (v. 18). Na verdade, tudo o que é propriedade do Pai só pode ser comunicado claramente por aquele que o conhece verdadeiramente, e é Jesus quem o conhece.

Até então, todas as formas de comunicação experimentadas por Deus para revelar-se claramente à humanidade tinham sido parciais e, por conseguinte, insuficientes (Hb 1,1-2). Por isso, chegou o momento em que «a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho Unigênito, cheio de graça e de verdade» (v. 14). Esse versículo é o ponto alto do texto e de toda a fé cristã. Sobrepõe-se, inclusive, à fé na ressurreição, porque a ressurreição é consequência da encarnação. Ele ressuscitou porque morreu, e só morreu porque se fez carne. Não há contraposição entre os dois mistérios, o que há é uma relação de causa e efeito. E Para compreender bem esse versículo, e perceber a verdadeira revolução que ele indica, é necessário voltar para o início e lê-lo em paralelo com o primeiro versículo: «No princípio era Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus» (v. 1). A Palavra que se fez carne é o próprio Deus. Temos aqui uma reviravolta maravilhosa na história! Ora, ao longo da história, não faltam personagens que agiram como se fossem deuses, que é a lógica do mundo. A ambição, o orgulho, a sede de poder e a prepotência levam os homens a quererem ser como Deus. E o Natal revela um movimento totalmente oposto a essa lógica: não é um homem que se fez Deus, mas um Deus que se fez homem, motivado pelo amor. E é somente por causa desse acontecimento que podemos contemplar a glória de Deus. Antes, imaginava-se que a glória de Deus poderia ser contemplada na Lei, no templo e, ocasionalmente, em algumas raras manifestações a personagens privilegiados. Aqui, o evangelista ensina que a carne humana, sinônimo de fragilidade na teologia tradicional de Israel, é o lugar privilegiado de manifestação da glória de Deus. Por isso, esse versículo (v. 14) pode ser considerado um dos mais revolucionários de toda a Bíblia.

A Palavra se fez carne, e nessa carne podemos contemplar a glória de Deus em plenitude, com transparência. E conhecemos como se deu esse “fazer-se carne” da Palavra: foi numa criança pobre, nascida em condições sub-humanas. Essa é a maior revolução da história. É o ponto de chegada de uma longa trajetória, anterior até mesmo à criação do mundo, e o ponto de partida de uma nova história, que começa pelos últimos, pelos pequenos, pelo que é frágil e marginalizado. O autor poderia dizer apenas que a Palavra se tornou humano ou homem, mas isso poderia ser distorcido; poderiam dizer que ele, em sua divindade, teria apenas se revestido de humanidade, sem, no entanto, ter-se tornado verdadeiramente humano e frágil. Inclusive, na própria comunidade do evangelista surgiu esse problema, o que se tornou um dos motivos principais para a redação da Primeira Carta de João: reafirmar que Jesus Cristo veio na carne (1Jo 4,1). Ora, o termo carne (em grego: σὰρξ – sarx) empregado pelo evangelista representa a dimensão mais frágil da condição humana. Inclusive, em algumas tendências teológicas, às vezes, é usado como sinônimo de pecado, em contraposição a “espírito”, como convite para o ser humano superar o “estado da carne”. Isso evidencia ainda mais o quanto a declaração de Jo 1,14 é revolucionária. A Palavra não apenas se fez carne. Mas escolheu o fazer-se carne para morar no meio da humanidade e como meio privilegiado de revelação da gloria de Deus. Ora, os judeus imaginavam a glória de Deus como poder e força, os gregos viam a glória como a sabedoria fornecida pela filosofia, enquanto o cristianismo, na perspectiva do Quarto Evangelho, afirma que é na carne humana que a glória de Deus se manifesta.

O Natal é, portanto, um convite atualizado para se conhecer a Deus e aprender como se pode conhecê-lo, porque ensina, acima de tudo, onde ele está, como ele se manifesta e qual é a expressão máxima da sua glória: é a carne humana, inicialmente a do seu Filho Unigênito, o menino pobre de Belém; depois, a carne de todas as pessoas que, no Filho, se tornam filhos e filhas de Deus também. De fato, como dizia um anônimo teólogo, o cristianismo é “a religião do céu vazio”, porque Deus escolheu a carne humana para morar, armando definitivamente a sua tenda. 

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR – MATEUS 2,1-12

Neste domingo, a Igreja no Brasil celebra a solenidade da Epifania do Senhor, uma festa que pode ser considerada um verdadeiro prolongamen...