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REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (LUCAS 9,18-24)

A reflexão acerca de Lc 9,18 - 24, texto evangélico deste 12º Domingo do Tempo Comum, obriga-nos a olhar para todo o capítulo nono do terceiro Evangelho e, nesse, situar a passagem em questão, para melhor o compreendermos. 

O capítulo nono de Lucas se inicia com o envio missionário dos Doze para proclamar o Reino de Deus e curar (cf. 9,1-2). Eles foram de povoado em povoado (cf. 9,6). A repercussão da missão foi tanta, a ponto de chegar aos ouvidos do tetrarca Herodes (cf. 9,7-9). O retorno dos discípulos missionários foi marcado pelo entusiasmo, fazendo aumentar, ainda mais, a multidão que seguia Jesus, culminando com o episódio da partilha dos pães (cf. 9,10-17). 

A recordação desses fatos é imprescindível para a compreensão do texto que a liturgia nos oferece pelos seguintes aspectos: (a) os Doze foram enviados para anunciar o Reino; um modo de Jesus saber se o anúncio fora bem feito é conhecendo o que o povo aprendeu. As variadas respostas das multidões comprometem a qualidade da missão e do anúncio; (b) o tumulto criado no retorno dos discípulos leva Jesus a uma espécie de parada, tipo um retiro. Por isso, Ele se retira para rezar em um lugar afastado; o clima de oração cria também o clima para as perguntas íntimas que irá fazer aos discípulos. 

Considerando esses aspectos, nós podemos, finalmente, olhar para o texto de hoje. A primeira informação apresentada é de que Jesus estava com seus discípulos em um lugar reservado para rezar (v. 18). É próprio de Lucas apresentar Jesus em oração, principalmente como antecedente de tomadas importantes de decisões e de momentos decisivos na sua vida: passou a noite em oração na véspera da escolha dos Doze (cf. 6,12), estava em oração no momento da transfiguração (cf. 9,28), ensinou seus discípulos a rezar (cf. 11,1-2), rezava na turbulenta véspera da Paixão (cf. 22,40ss). Esses são apenas alguns exemplos. Portanto, quando Lucas apresenta Jesus em oração, ele indica a importância do episódio.

No entanto, aquele momento de Jesus sozinho com os discípulos não era apenas de oração, mas, principalmente, de formação. Jesus formava continuamente seus discípulos, considerando a novidade de seus ensinamentos e a forte tendência de má interpretação. Por isso, era necessário passar muitas horas ensinando.

Jesus não ensinava apenas expondo conteúdos, mas perguntando, exortando e provocando. Assim, as perguntas que hoje Ele dirige aos Doze, não constituem uma pesquisa de opinião pública sobre a sua popularidade, mas retratam uma preocupação com a forma como a sua mensagem estava sendo anunciada e acolhida, principalmente após a missão dos Doze em diversos povoados (cf. 9,1-6), pois a qualidade do anúncio era reflexo da formação recebida pelos discípulos. Por isso, Ele se preocupa.

Sua preocupação não é com a popularidade, mas se a sua mensagem está sendo compreendida. De fato, é isso o que preocupa Jesus. Daí a pergunta: "Quem diz o povo que eu sou?" (v. 18). Em outras palavras, Jesus pergunta que imagem o povo está tendo dele. Pela resposta dos discípulos, há uma certa confusão na cabeça do povo, já que uns dizem ser o Batista, outros Elias ou algum dos profetas. Na verdade, os discípulos omitiram algumas imagens de Jesus, pois para os fariseus e outros grupos, Ele não passava de um charlatão. Certamente eles não ouviam apenas comentários positivos a respeito do Mestre que nem parecia mestre!

As respostas selecionadas são uma tentativa de engrandecimento de Jesus da parte dos discípulos, uma vez que estas colocam Ele no nível de personagens importantes da tradição judaica antiga (Elias) e recente (João Batista). Em outras palavras, os discípulos dizem a Jesus que o povão o vê como um profeta. Para Jesus, isso não é satisfatório. Principalmente, porque o seu perfil não se alinha muito com as características dos profetas citados. 

Elias e João Batista foram grandes homens, sem dúvida, mas muito diferentes de Jesus. Elias foi um profeta virtuoso para o seu contexto, mas defensor da guerra em nome de Yhaweh contra o culto a baal (cf. 1 Rs 18 - 19). João Batista, com sua austeridade, preferiu isolar-se no deserto ao invés de lidar diretamente com o povo no dia-a-dia. Portanto, as imagens de Jesus que estavam sendo construídas não eram as mais adequadas. Certamente era um prestígio ser comparado e até confundido com personagens tão importantes. Mas, seu papel, sua metodologia e sua mensagem eram muito diferentes. Portanto, a resposta dos discípulos foi algo preocupante para Jesus. Por isso, Ele quis saber a opinião deles próprios.

Consciente da confusão causada no povo quanto à sua identidade, a pergunta aos discípulos é bem precisa: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (v. 20a), ou seja, e vocês, o que acham de mim? Sejam sinceros... Daí, Pedro toma a palavra e responde prontamente: "Tu és o Cristo de Deus" (v. 20b). Essa resposta afirma a messianidade de Jesus, ou seja, Pedro diz que Ele é o Messias de Deus, portanto, o esperado. Resposta correta, mas também não satisfatória.

Ora, a figura de messias na cabeça de Pedro, era a do messias davídico, portanto, a do restaurador, guerrilheiro e dominador. Era essa a imagem do messias esperado por tantos séculos em Israel, e Pedro, juntamente com os Doze, estavam convictos de ter chegado, e mais ainda dos privilégios que teriam quando Jesus assumisse o poder em Jerusalém. 

Por conhecer a mentalidade de Pedro e, portanto, sua ideia de messias, Jesus o proíbe severamente de contar isso a alguém (v. 21). A severidade da proibição indica a gravidade da afirmação de Pedro. Certamente foi essa a imagem que ele transmitiu de Jesus na missão realizada pouco tempo antes (cf. 9,1-6). Com isso, Jesus diz que é melhor ficar calado que anunciá-lo distorcendo a sua mensagem. 

Após combater severamente a mentalidade equivocada dos discípulos, Jesus procura esclarecer a sua verdadeira identidade.  E, o faz recordando, exatamente, a sua condição de homem, através da misteriosa expressão "O Filho do homem" (v. 22a), o que quer dizer que Ele era verdadeiramente homem. Sendo verdadeiro homem, não estava isento do sofrimento nem da rejeição, muito menos da morte. Por isso, cita aqueles que serão os responsáveis diretos pela sua condenação: os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v. 22b), os três grupos que compunham o Conselho máximo de Jerusalém, o Sinédrio, símbolo do poder. Se Ele será morto pelo poder, é porque sua proposta de vida não contempla esse. Pelo contrário, ao invés de poder, a característica do seu ensinamento é o serviço.

Indo mais além, Ele abre completamente o jogo: Esse homem a quem vocês estão seguindo, "deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia" (v. 22c). Certamente, Pedro e seus companheiros jamais tinham imaginado que o destino do Messias seria esse.

Como tínhamos recordado no início, essa recolhida com os Doze em lugar reservado não seria apenas para rezar, mas também para formar e ensinar, e eis, então,  o ápice da formação: Esse messias vai sofrer muito, até morrer; porém, há de ressuscitar ao terceiro dia, ou seja, em plenitude. Se vai morrer verdadeiramente como homem, vai ressuscitar, também verdadeiramente, por ser Deus.

O autor do Evangelho não descreve a reação dos Doze após as afirmações do versículo 22, mas certamente ficaram perplexos, tristes e até indecisos. As entrelinhas apontam para isso, o que se conclui com a sequencia do texto (v. 23): "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga"; se estavam só Ele e os Doze, isso foi direcionado para eles. Provavelmente, alguns pensaram em desistir do seu seguimento ao ouvi-lo falar de morte e cruz, e isso o leva a abrir cada vez mais o jogo, ou seja, deixa claro quais são as consequências do discipulado. Ainda há tempo de voltar atrás! 

Por fim, suas últimas palavras são, de fato, uma reviravolta na mentalidade dos discípulos. Ele apresenta uma dinâmica totalmente nova, jogando por terra a ideia ultrapassada de messias, presente na mente dos Doze e em Israel como um todo. O seu Reino não pode ser imaginado segundo as concepções habituais de seu tempo.

Há critérios e exigências para o seguimento autêntico de Jesus. Aceitar ou não, é pessoal. Mas, uma vez aceitando, devemos procurar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira identidade e assumir as consequências. Segui-lo não é invocar sua proteção e privilégios; é dar a vida como Ele. Quem tem medo de doar a vida não pode ser seu discípulo.

Última colocação: Se a imagem ou imagens que se tem de Jesus são equivocadas, é porque Ele está sendo mal anunciado!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues