domingo, outubro 30, 2016

REFLEXÃO PARA O XXXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 19,1-10 (ANO C)



O Evangelho deste XXXI Domingo do Tempo Comum, Lucas 19,1-10, nos indica que o longo caminho de Jesus para Jerusalém está chegando à sua fase conclusiva. É sempre oportuno recordar que esse caminho não é apenas um percurso físico, mas muito mais um plano catequético, teológico e espiritual apresentado pelos evangelhos sinóticos, sendo que é Lucas aquele evangelista que mais dá importância a esse caminho.

É importante, como sempre procuramos fazer, contextualizar o texto para, de fato, captarmos a essência de sua mensagem. Trata-se de um episódio exclusivo do Evangelho segundo Lucas, a conhecida história de Zaqueu, um personagem bastante controverso, paradoxal e conhecido.

O cenário da cena é a cidade de Jericó, como afirma o texto, “Jesus tinha entrado em Jericó e estava atravessando a cidade” (v. 1). Trata-se de uma cidade muito significativa para a história do povo bíblico. Situada a aproximadamente 27 km de Jerusalém, contrastava com a capital pela situação topológica e teológica. Enquanto Jerusalém estava a cerca de 700 metros acima do nível do mar, Jericó estava a quase 300 metros abaixo do nível do mar. Na luta pela posse da terra prometida, sob a liderança de Josué, um dos acontecimentos principais foi exatamente a conquista de Jericó (cf. Js 5,13 – 6,27). Do mesmo modo, no Evangelho, em seu êxodo, Jesus também realiza uma grande conquista em Jericó, salvando o que estava perdido (cf. vv. 9-10).

Naquela cidade, havia “um homem chamado Zaqueu” (v. 2a), cujo nome significa ‘puro’, o que parece ser mais uma ironia do autor do terceiro evangelho. O significado do nome do personagem contrasta completamente com as suas características apresentadas: “chefe dos cobradores de impostos e muito rico” (v. 2b). Ora, se um simples cobrador de impostos já era considerado impuro e um ladrão profissional, podemos dizer que Zaqueu era um ‘chefe de quadrilha’, portanto, um homem desprezível pela sociedade e visto como um caso perdido pela religião judaica. Pela sua segunda característica, a riqueza, Zaqueu também estaria excluído da comunidade dos discípulos, afinal, Jesus tinha acabado de dizer que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” (Lc 18,25).

Embora sua situação fosse tão desprezível, religiosamente falando, Zaqueu era um homem inquieto que buscava um sentido para a sua vida e não se deixava abater pelos rótulos que carregava, por isso, “procurava ver quem era Jesus” (v. 3a). Certamente, essa curiosidade não era à toa! Vivendo completamente segregado pela religião, devido sua condição de pecador público, já tinha escutado falar que havia um mestre que, por incrível que pareça, acolhia pecadores e comia com eles (cf. Lc 5,29-32).

O desejo de Zaqueu de ver quem era Jesus oponha-se a sua estatura, pois “era muito baixo” (v. 3c), por isso, facilmente era sufocado pela multidão. Certamente o evangelista não mediu com exatidão a altura de Zaqueu, apenas constatou o modo como ele era visto pelo povo que o olhava de cima para baixo, ou seja, com olhar de gente melhor e superior. Portanto, Zaqueu era baixo aos olhos dos outros, principalmente das pessoas religiosas de seu tempo. Era o olhar e o julgamento das pessoas religiosas, tanto da religião judaica quanto do grupo de Jesus que faziam de Zaqueu uma pessoa pequena. Certamente, devemos pensar se também em nossos dias muitas multidões e grupos não sufocam a visão sobre Jesus e até impedem a muitos de vê-lo.

Um aspecto importante no texto é a consciência de Zaqueu: ele reconhece que sua estatura, realmente, não está à altura de Jesus, mas isso não diminui seu desejo de vê-lo. Tinha plena consciência de que necessitava crescer, ou seja, mudar de vida. Por isso, busca novos caminhos, expondo-se ao ridículo: “correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus que deveria passar ali” (v. 4). Ele procurou uma estratégia própria para aproximar-se de Jesus e vê-lo, já que se dependesse das vias oficiais não conseguiria. Impossível não pensar no lado cômico da cena e nas consequentes risadas que despertou.
A reação de Jesus é surpreendente, completamente contrária à dos demais. Ao invés de olhar com desprezo para a posição patética de Zaqueu em cima da árvore, Jesus vê exatamente o desejo de conversão de um homem sedento de sentido para sua vida, por isso, “quando chegou ao local, olhou para cima e disse: Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa” (v. 5). Enquanto a sociedade o via de modo inferior, ou seja, olhava para ele de cima para baixo, Jesus o vê na sua dignidade, olhando para cima, dando-lhe a ordem de descer depressa, colocando-o em situação de igualdade com os demais. Assim, Jesus o inclui, diz que ele é uma pessoa como as demais, tendo, inclusive, um nome.

Além de trazer Zaqueu para o meio, ordenando-lhe que desça da árvore, Jesus surpreende mais ainda dizendo “hoje devo ficar na sua casa” (v. 5). O aspecto temporal aqui é muito importante, expresso pelo advérbio hoje, em grego  sh,meron – semeron. Trata-se de uma palavra chave para a teologia de Lucas. Realmente, são muitas as ocasiões em que se expressa o ‘hoje’ de Deus no terceiro evangelho: no nascimento de Jesus, os anjos anunciaram aos pastores “hoje, nasceu para vós um salvador” (Lc 2,11); no início da sua vida pública, na sinagoga de Nazaré, Jesus diz “Hoje cumpriu-se esta Escritura” (Lc 4,21); na cruz, é dada a promessa a um dos malfeitores: “hoje, estará comigo no paraíso” (Lc 23,43). Portanto, é hoje, especificamente que a comunidade é convidada a encontrar-se com Jesus. Aquilo que ontem era negado, pela religião oficial, não pode esperar para amanhã, deve ser hoje!

É interessante que Jesus não diz que quer ser hóspede de Zaqueu, mas que “deve ficar na sua casa”. Isso só reforça a urgência da experiência do encontro. É inadiável, tem que ser “hoje”. Por isso, usa-se o verbo grego mei/nai – meinai – cujo significado é permanecer ou ficar. Não se trata apenas de passar por lá, mas permanecer, ficar. É o mesmo verbo que os discípulos de Emaús usam no imperativo quando pedem “Fica conosco, Senhor!” (Lc 24,29). Portanto, não se trata de uma simples e passageira visita, mas de uma presença que permanece, por isso, é eficaz e transforma.

Ao sentir confiança nas palavras de Jesus, a curiosidade de Zaqueu foi transformada em alegria (v. 6), outro tema caro para o terceiro evangelho. O encontro autêntico com Jesus é marcado exatamente pela alegria verdadeira, porque Ele não dirige um sermão cheio de normas e julgamentos, mas simplesmente acolhe e olha com um olhar único de quem não condena, não julga nem discrimina.

À alegria do pecador acolhido e transformado pelo encontro com Jesus, contrasta a reação das pessoas religiosas que se sentiam mais dignas e não toleravam um Deus que ama a todos sem distinção. Por isso, houve murmúrio, como vem empregado no texto o verbo grego diego,gguzw – diegonguizô, usado três vezes por Lucas para expressar a reação dos opositores de Jesus, principalmente os fariseus (cf. Lc 5,30; 15,1-2; 19,7). Esse verbo é sinal de reprovação às atitudes de Jesus, e se nas outras duas vezes é empregado especialmente para os fariseus e doutores da lei, aqui expressa uma reprovação generalizada: “todos murmuravam, dizendo: Ele foi hospedar-se na casa de um pecador” (v. 7). A não aceitação à postura inclusiva e acolhedora de Jesus é própria do farisaísmo, mas as vezes consegue contagiar também as multidões, infelizmente.

Para Jesus, não importava a reação dos considerados ‘puros’ do seu tempo. O que de fato lhe interessava, era a atitude nova do homem transformado pelo seu encontro, como Zaqueu que “ficou em pé e disse ao Senhor” (v. 8a). Essa é, realmente, a imagem do novo homem. A imagem do homem “em pé” significa que ele está vivo, é uma pessoa autêntica e consciente, portanto, digna, como estava Zaqueu, renovado pelo encontro com Jesus. Foi esse encontro que lhe deu capacidade para tomar uma séria decisão em sua vida: dar a metade dos bens aos pobres e devolver quatro vezes mais o que tinha roubado (v. 8).

O homem novo e puro que nasceu do encontro de Jesus com Zaqueu inaugura a salvação no ‘hoje’ da sua vida. A salvação, de fato, acontece sempre que alguém faz um encontro pessoal com Jesus e deixa-se transformar por esse encontro. A atitude de Zaqueu, que de ladrão e rico que era, passou a partilhar e usar corretamente seus bens, em favor dos pobres, mostra que, de fato, “para Deus nada é impossível” (cf. Lc 18,27). Ou seja, a salvação é também possível para os ricos, desde que percebam a necessidade dos pobres e abandonem à lógica do acúmulo abrindo-se à partilha e a generosidade. É assim que Jesus procura e salva o que estava perdido, como Zaqueu no meio da multidão.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

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