sábado, outubro 22, 2016

REFLEXÃO PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 18,9-14 (ANO C)


Ainda no longo caminho de Jesus para Jerusalém, a liturgia deste XXX Domingo do Tempo Comum nos oferece, como texto evangélico, a famosa parábola do fariseu e o publicano (Lc 18,9-14). É a segunda parábola do capítulo dezoito de Lucas e uma das mais conhecidas de todo o evangelho. Assim como a primeira, a do juiz iníquo e a viúva (cf. Lc 18,1-8), a parábola de hoje está inserida no ensinamento de Jesus sobre a oração, embora ela não se limite apenas a esse tema.

Em linhas gerais, a parábola refletida domingo passado (cf. Lc 18,1-8) nos convidava a rezar sempre e sem desanimar, lutando e suplicando a Deus por justiça, a partir do exemplo da pobre e injustiçada viúva. A parábola de hoje nos chama a atenção sobre a maneira correta de rezar, ou seja, de dirigir-se a Deus na oração, a partir da contraposição de dois personagens. Nela, prevalece o estilo típico de Lucas de apresentar personagens com características e comportamentos completamente opostos para despertar a atenção do leitor, levando-o a fazer opção por um dos lados.

Diante de qualquer ensinamento de Jesus, principalmente quando em forma de parábola, é importante considerar quem são os destinatários primeiros. É claro que seus ensinamentos serão válidos e atuais para todas as gerações, mas não podemos perder de vista o contexto específico em que se deu. Por isso, é importante recordar que muitas vezes os evangelhos afirmam: “Jesus disse aos discípulos”, “Jesus disse aos fariseus”, “Dirigindo-se às multidões, Jesus disse-lhes”. Se mesmo quando os destinatários são determinados, o ensinamento os transcende, ou seja, serve para todas as pessoas e em todos os tempos, muito mais quando não vem mencionado um destinatário determinado, como no caso da parábola de hoje.

O texto diz que a parábola foi contada para “alguns” (v. 9). Certamente, aqui está um alerta para nós, leitores de hoje. Pelo desenvolvimento da parábola, a tendência é imaginar como destinatários, apenas os fariseus. Porém, também os discípulos estavam incluídos, até porque, não são raras as vezes em que Jesus chama-lhes a atenção por não assimilarem os valores do Reino. Na verdade, com os fariseus Jesus já nem se preocupava; o que Ele queria mesmo era prevenir os discípulos para não se deixarem contaminar pelo “fermento dos fariseus” (cf. 12,1). Portanto, também nós, discípulos e discípulas de hoje devemos nos incluir nesses “alguns” para quem a parábola é dirigida.

Feitas as devidas considerações iniciais, voltemo-nos atentamente para o texto do evangelho. Na versão da liturgia, a parábola é introduzida assim: “Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros” (v. 9). No entanto, a tradução mais adequada seria: “Jesus contou uma parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros”. De fato, o desenvolvimento da parábola vai apontar que, aqueles se consideram justos, tendem a desprezar os outros exatamente como consequência da qualidade de justos. O desprezo pelos outros é consequência do sentir-se justo. Eis o problema de “alguns”: desprezar os outros a partir de uma visão errada de Deus e de justiça. Mas, não pensemos que havia “alguns” assim somente no tempo de Jesus. Os alguns para quem a parábola é dirigida está dentro de cada e cada uma. Trata-se de um alerta de Jesus para a comunidade estar sempre atenta à tendência de autossuficiência, presunção e orgulho.

O convencimento de ser justo pode levar a pessoa a duas consequências anti-evangélicas: o desprezo pelos outros e a falta de confiança em Deus. É exatamente isso que Jesus quis combater com a parábola do fariseu e o publicano. Assim identificados os destinatários, olhemos para os personagens: “Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro publicano” (v 10). Os dois personagens antagônicos encontram-se em situações de convergência: no mesmo lugar, o templo, e fazendo a mesma coisa, rezando.

A princípio, parece tudo muito óbvio: dois homens foram ao templo para orar. O uso do verbo subir, em grego avna,bainw – anabaino, além de indicar as circunstâncias geográficas do templo, na parte alta de Jerusalém, indica também a atitude da pessoa orante: elevar-se ou subir para encontrar-se e comunicar-se com Deus faz parte da mentalidade bíblica. Embora tenham ido paralelamente, é isso que o evangelho nos faz entender, eles já vão separados pela condição social e religiosa. O primeiro, fariseu, era frequentador assíduo do templo, pertencia à corrente religiosa de maior fidelidade à Lei em todo o Israel. Os fariseus, cujo nome significa separados, observavam os preceitos da Lei em seus mínimos detalhes e gozavam de grande simpatia popular, pela vida religiosa exemplar que levavam e pela prática das boas obras.

O segundo personagem, o publicano, era um cobrador de impostos, e, portanto, um colaborador direto do poder opressor, o império romano. Gozava de uma péssima reputação popular, e com razão, pois além de cobrar as taxas exigidas pelo império, as quais já eram altas, ainda as aumentava para tirarem suas comissões. Assim, enriqueciam ilicitamente, pois recebiam o salário pelo trabalho, e ainda roubavam. Eram odiados pelo povo e completamente excluídos da religião, pois a condição de servidores do poder dominante não permitia que observassem a Lei de Deus. Eram considerados ladrões profissionais e pecadores públicos. Portanto, o publicano da parábola carregava consigo todos estes estigmas.

A parábola não se limita a dizer que os dois subiram para orar; diz também o conteúdo da oração de cada um (vv. 11-13). E, é exatamente a atitude e o conteúdo da oração de cada um deles que vai determinar o desfecho final da história. Como de praxe, a oração do fariseu é bastante longa (vv. 11-120, uma espécie de prestação de contas de suas ações. É uma ação de graças, mas não pelas obras de Deus, e sim pelas suas próprias obras, um louvor a si mesmo. Parece até que o fariseu não acreditava que Deus conhece e vê tudo!

Por ser um dos que se “consideravam justos” (v. 9), o fariseu desprezava os outros, comparando sua vida de fiel observante com os pecados dos outros: “ladrões, desonestos, adúlteros, como aquele publicano” (v. 11). Ele não confrontava sua vida com o projeto de Deus, mas com a vida dos outros, imaginando com isso, receber crédito da parte de Deus.

Na sequência da oração, ele apresenta como é bom observante da Lei: jejuava duas vezes por semana, e pagava dízimo de toda a sua renda (v. 12). Na verdade, ele fazia mais até do que era determinado pela Lei; enquanto o jejum era exigido apenas uma vez no ano (cf. Lv 16,29), o fariseu ele jejuava duas vezes por semana, como faziam os féis mais tradicionalistas. Esses dias eram as segundas e quintas-feiras, como recordação da subida e descida ao monte de Moisés para receber a Lei. Enquanto o dízimo era exigido apenas dos principais produtos, trigo, vinho, azeite e primeiras crias do rebanho (cf. Dt 14,22-27), ele pagava de tudo. Por isso, considerava-se perfeito e irrepreensível. Foi orar dizendo a Deus que era justo, e quem se considera justo não sente necessidade da justiça de Deus.

Já o publicano, “ficou a distância” (v. 13a), pois ocupar os primeiros lugares era uma prática comum dos fariseus e criticada por Jesus (cf. Lc 14,7; 21,46). A atitude do publicano é de quem tem consciência de sua condição de pecador, por isso, “não se atrevia a levantar os olhos para o céu” (v. 13b). Colocou-se em condição de penitência, sabendo que sua condição de pecador público era motivo de escárnio para os outros, como foi para o fariseu na sua oração: “não sou como este publicano” (v. 11). Sua atitude de penitência se evidencia ainda mais com o gesto de “bater no peito”, sinal de arrependimento. Sua oração é muito simples, mas muito profunda, por isso foi ouvido por Deus: “Meu Deus, tem piedade de mim, porque sou pecador” (v. 13). Essa é uma das invocações que mais se repetem nos salmos (cf. Sl 25,11; 51,13), é a oração dos humildes, dos que reconhecem a necessidade de Deus. É essa atitude que vai determinar a sentença final de Jesus.

Na conclusão, Jesus usa de sua autoridade ao dar a sentença final, com a expressão “Eu vos digo”. De fato, o uso dessa fórmula é sinal de um ensinamento importante e irrevogável, em grego le,gw u`mi/n – legô himin, quer dizer que a declaração feita é irrevogável. E, a sentença é a justiça. O publicano voltou para casa justificado, enquanto o fariseu não” (v. 14a). Porque? O fariseu não foi pediu justiça nem misericórdia, pelo contrário, ofereceu aquilo que Deus já tem, os méritos. O publicano, pelo contrário, ofereceu sua condição miserável de pecador, e recebeu misericórdia, pediu piedade e recebeu justiça. A expressão final, uma espécie de provérbio “ quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”, usada duas vezes por Lucas (cf. 14,11; 18,14) além de resgatar a postura de cada um dos personagens na oração, o fariseu orgulhoso estava erguido, enquanto o publicano nem a cabeça levantava para o céu, revela o projeto de Deus apresentado no Evangelho de Lucas desde o início: “dispersou os orgulhos, aos humildes exaltou” (Lc 1,51b.52b).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

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