sábado, janeiro 21, 2017

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 4,12-23 (ANO A)


Neste III Domingo do Tempo Comum, o Evangelho nos situa ainda no início da vida pública de Jesus, apresentando suas primeiras medidas como líder e mestre e, sobretudo, como Senhor e Messias. O texto proposto, Mateus 4,12-23, é bastante longo e rico de significado, uma vez que mostra os primeiros passos de um longo e complicado percurso empreendido por Jesus de Nazaré e seus primeiros discípulos.

Tendo já se passado a pregação de João Batista (cf. Mt 3,1-12), o batismo de Jesus (cf. Mt 3,13-17) e as tentações no deserto (cf. Mt 4,1-11), o evangelista Mateus vem nos mostrar com o texto de hoje que Jesus está, de fato, apto a iniciar e cumprir a sua missão, por isso, apresenta os seus primeiros passos no texto que a liturgia nos oferece hoje.

O primeiro versículo, com indicações de tempo e espaço, marca o início de uma nova fase na vida de Jesus: “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galiléia” (v. 12). A prisão do Batista se torna um divisor de águas na vida de Jesus. Ora, João desenvolveu sua atividade batizador na Judéia, às margens do Jordão, e Jesus participou dessa atividade como discípulo seu, esperando o momento certo de apresentar-se como autônomo em relação aos homens e dependente somente do Pai Celeste. O indicativo espacial, “retornou para a Galileia” (v. 12b) significa muito mais que uma mudança de localização; é na verdade, sinal de mudança de projeto, ou seja, o projeto de Jesus não será uma simples continuidade da missão do Batista, mas será novo e independente.

Enquanto localizada na Judéia, próxima a Jerusalém, a pregação do Batista visava purificar judeus, através do batismo, para reintegrá-los à religião oficial, ou seja, ao templo. Jesus, ao contrário, veio para incluir as pessoas no Reino dos céus e, por isso, inicia sua atividade longe das antigas instituições. A troca de localidade, portanto, significa mudança de perspectivas e evidencia as diferenças entre a missão de cada um.

Para Jesus, não é suficiente se mudar para a Galileia, era necessário mudar também de cidade, por isso, “deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia” (v. 13). A mudança da Judéia para a Galileia já era muito significativa. Ele poderia, no entanto, morar em Nazaré, onde moravam seus pais e parentes. Ora, Nazaré era apenas um povoado; povoado, na linguagem do Novo Testamento, significa o apego às tradições e fechamento às novas ideias; os habitantes dos povoados são, biblicamente falando, pessoas fechadas, de mentalidade rígida.

Com uma mensagem de libertação tão inovadora, Jesus não poderia ser aceito num povoado como Nazaré, a não ser de passagem, de vez em quando. Por isso, foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia (v. 13b). Cafarnaum não era uma cidade tão grande, porém, tinha uma localização geográfica bastante estratégica para o desenvolvimento do projeto de Jesus: era um importante entreposto comercial, centro alfandegário e zona de circulação de pessoas de diversas proveniências. Em cidades com tais características, geralmente não havia tanto apego às tradições e costumes religiosos; uma população flutuante significa possibilidade de abertura de mentalidade e, portanto, mais facilidade de aceitação de novas ideias.

Além de ser localizada na Galileia, cuja população era muito mal vista pelos judeus piedosos da Judeia, Cafarnaum ainda estava situada às margens do mar (v. 13b); embora se trate apenas de um lado, o chamado ‘mar da Galileia’ tinha grande importância para toda a região. Além da facilidade de locomoção para as demais cidades circunvizinhas ao lago, através de embarcações, a fluorescente atividade pesqueira contribuía muito para o movimento da cidade e sua economia.

Todas essas informações que caracterizam Cafarnaum e sua população custavam-lhe o rótulo de terra semipagã pelos judeus mais devotos. Aqui, mais uma vez, vem evidenciada a opção de Jesus e o seu distanciamento de João Batista. Jesus trocou os judeus mais piedosos da Judeia por pessoas, em sua maioria impuras e pagãs, da Galileia. Para que a comunidade de Mateus, profundamente influenciada pelo judaísmo, aceitasse um messias tão contraditório, foi necessário o evangelista recorrer à Escritura e encontrar no profeta Isaias uma passagem que justificasse a opção de Jesus (vv. 14-17).

No trecho citado de Isaías, o profeta alude às tribos de Zabulon e Neftali, primeiros alvos da invasão assíria no séc. VIII a.C., onde começou a miscigenação da população, a ponto de ser chamada “Galileia dos pagãos” (cf. Is 8,23 – 9,1). No entanto, foi nesse lugar que Deus quis manifestar por primeiro a sua luz, que é Jesus, contrariando todas as expectativas messiânicas vigentes até então.

Em um lugar aparentemente impróprio, “Jesus começou a proclamar e dizer: ‘Convertei-vos pois o Reino dos céus está próximo’!” (v. 17). Essa exortação já tinha sido apresentada por Mateus na pregação de João Batista (Mt 3,2). Com isso, ele mostra que é possível perceber uma certa continuidade entre Jesus e João, embora sejam muito fortes os sinais de ruptura entre os dois. Para a expressão grega “ metanoei/te\ h;ggiken ga.r h` basilei,a tw/n ouvranw/n ” – “metanoeite enghiken gar basileira ton uranón” – a melhor tradução seria “convertei-vos, pois aproximou-se o reino dos céus”;  de fato, a forma verbal ‘aproximou-se’ corresponde melhor ao grego “ h;ggiken ” – “enghiken” que a forma ‘está próximo’ no texto litúrgico. ‘Aproximou-se’ exprime melhor a materialidade que a temporalidade do reino. E jesus está se referindo exatamente à materialidade, ou seja, aos sinais que começará a fazer, pois são estes sinais que dirão que o reino chegou definitivamente e, portanto, é inútil continuar esperando uma intervenção prodigiosa de Deus, quando na verdade Ele já enviou o Messias e esse já age no meio do seu povo.

Para entrar no reino que já chegou, Jesus faz um apelo no imperativo: “Convertei-vos”, tradução do grego “metanoei/te – “metanoeite”. Não apenas para entrar no reino, mas até para perceber e sentir que ele já chegou, é necessário converter-se, o que não significa intensificar as práticas penitenciais e devocionais, nem melhorar um pouco, nem rezar mais, mas sim mudar radicalmente o jeito de ser, de pensar e de agir. Conversão, em grego metanoia – “metanoia”, significa mudar radicalmente de mentalidade. É essa mudança que se exige para aceitar o reino com seus valores.

Ao contrário de Marcos e Lucas, Mateus prefere ‘reino dos céus’ a ‘reino de Deus’, certamente por consideração ao seu auditório composto predominantemente por cristãos oriundos do judaísmo, para quem não era agradável pronunciar o nome de Deus. Trata-se do reino dos céus porque sua origem é o amor de Deus; mas não é um reino para o futuro nem para uma vida depois da morte. É um projeto de sociedade alternativa para agora, o hoje da história, ou seja, para esse mundo.

É um reino tão urgente que, para realiza-lo, Jesus chama imediatamente seus primeiros colaboradores (vv. 18-20). Isso evidencia ainda mais que, embora do céu, esse reino foi projetado para a terra. Por isso, o chamado dos primeiros quatro discípulos acontece na situação concreta do cotidiano deles: eram pescadores e estavam em seus afazeres quando foram chamados. Diz o texto que “Jesus andava à beira do mar da Galileia e viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores” (v. 18).

Jesus não vai à sinagoga observar quem tinha boas práticas religiosas, não faz uma pesquisa em busca de pessoas de boa reputação; simplesmente, olha, observa e chama: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens” (v. 19). Essa frase sempre foi muito usada e repetida pelas comunidades cristãs de todos os tempos. É, no Evangelho de Mateus, o primeiro chamado vocacional.

Mais do que descrever a vocação dos primeiros discípulos, o evangelista quer evidenciar o chamado dos cristãos e cristãs de sua comunidade, e de todos os tempos. Se evidenciam também as peculiaridades de Jesus como mestre; enquanto os rabinos de seu tempo eram procurados por candidatos a discípulos, é Jesus mesmo quem busca e escolhe os seus; com o imperativo “Segui-me”, tradução da expressão grega “ovpi,sw mou” – “opíso mú”, ele faz um convite para os discípulos colocarem-se em processo de aprendizagem, observando tudo o que Ele irá fazer, o que requer total abertura e desprendimento; por isso, a tradução mais próxima do sentido empregado no texto original é “vinde atrás de mim”; somente andando atrás do mestre o discípulo caminhará na direção certa.

A expressão ‘pescadores de homens’ (v. 19b) é muito passível de interpretações equivocadas que podem distanciar e distorcer o sentido aplicado no Evangelho; geralmente, se tem usado ela para justificar as mais diversas formas de proselitismos e até abusos, o que nunca esteve nos planos de Jesus. É necessário, portanto, compreender o sentido do mar para o mundo bíblico. Em grego qa,lassa – “thalassa”, mar é sinônimo de perigo; evoca morte e domínio do mal. Portanto, ser “pescador de homens” é ser sinal de vida, e assim é a missão dos seguidores de Jesus: restituir aos homens e mulheres, ou seja, à humanidade, a vida e a dignidade, livrando-a de todas as ameaças à vida em plenitude: a violência, o ódio, a corrupção, a injustiça, a fome, e todos os males nos quais a humanidade possa “afogar-se”.

A resposta de Pedro e André foi positiva, como diz o texto: “Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram” (v. 20). Embora fossem pescadores por profissão, compreenderam que não poderiam continuar pescando do mesmo jeito, pois os peixes tinham no mar seu habitat natural e, portanto, o mar era o lugar de vida para eles; desse modo, enquanto pescavam peixes eles faziam o contrário do que deviam fazer com os homens, ou seja, tiravam da vida para a morte; por isso, deixaram as redes imediatamente.

As redes são instrumentos de morte, embora sejam sinais de trabalho e de sobrevivência para os pescadores. Como pescadores de homens, os discípulos de Jesus devem estar atentos, como esteve Jesus, a quais situações de morte a humanidade está sujeita, ou seja, quais são os mares que sufocam e afogam o ser humano com sua dignidade. Aos seres humanos não se pesca com redes, mas com uma proposta de libertação e vida plena.

A comunidade formada por Jesus é dinâmica e Ele não pára de chamar; por isso, andando um pouco mais à frente, chamou outros dois irmãos, João e Tiago, os quais deixaram, além do barco e das redes, também o pai, Zebedeu (vv. 21-22). Esse segundo grupo de irmãos deixou também o pai e, como sabemos, deixar a família é, ao longo dos evangelhos, uma das principais exigências de Jesus para o seu seguimento (cf. Mt 10,37; 19,29). A figura do pai significa a tradição e o preceito, a obediência à autoridade humana; na comunidade de Jesus essas relações deixam de existir, pois um só é o Pai de todos (cf. Mt 23,9). Portanto, na comunidade cristã não há espaço para a figura do pai com sua autoridade, típica da sociedade patriarcal, à qual a comunidade cristã surge como alternativa.

O versículo conclusivo apresenta uma síntese da atividade messiânica de Jesus em seu início: uma atividade itinerante e portadora de uma mensagem libertadora que resume a natureza da “pesca de homens” convocada por Ele, a qual pode ser resumida pela “cura de todo tipo de doença e enfermidade do povo”. Cabe aos cristãos de cada tempo e lugar, perceber quais são essas enfermidades e quais os perigos de afogamento que os mares continuam a oferecer à humanidade e, como quem vai “atrás de Jesus”, ser sinal de libertação e transformação.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

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