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REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA QUARESMA – JOÃO 9,1-41 (ANO A)


Neste IV Domingo da Quaresma continuamos em contato com o Evangelho segundo João. O texto a liturgia nos oferece é Jo 9,1-41, a narrativa da cura do cego de nascença. Trata-se do sexto dos sete sinais cumpridos por Jesus no Quarto Evangelho.

Embora os evangelhos em geral registrem outras curas de cegos, esse episódio do cego de nascença é exclusivo de João e um dos trechos de maior criatividade e riqueza desse Evangelho, tanto literária quanto teológica. É um texto bastante longo, composto por quarenta e um versículos; obviamente, essa extensão nos impossibilita de analisarmos cada versículo, por isso, procuramos destacar somente os seus aspectos mais essenciais.

Para uma boa compreensão do texto é necessário fazer, embora brevemente, a contextualização. A cena narrada acontece em Jerusalém ou em seus arredores. Jesus tinha ido à “cidade santa” para a grande festa das tendas (cf. Jo 7,1-2.14), uma das três grandes festas de peregrinação dos judeus, juntamente com as festas da páscoa e de pentecostes. Como a fama de Jesus já estava bastante espalhada, em decorrência dos cinco sinais já cumpridos (cf. Jo 2,1-12 – a mudança da água em vinho; 4,46-54 – a cura do funcionário do rei; 5,1-18 – a cura do paralítico; 6,1-15 – a partilha dos pães; 6,16-21 – a caminhada sobre o mar), Ele já era, portanto, considerado um perigo para o poder religioso, uma vez que cada sinal manifestava a glória de Deus, provando que Deus não se deixava manipular pela religião.

À medida que a religião oficial vai sendo desmascarada pelo testemunho, o ensinamento e os sinais de Jesus, os chefes religiosos vêem desmoronar seus poderes e privilégios. Por isso, planejam matá-lo (Jo 7,1), pois Jesus era uma pessoa perigosa para o sistema. Durante a festa das tendas, Ele tinha passado dos limites ao se auto proclamar luz do mundo (cf. 8,12) e Filho eterno do Pai (cf. 8,54-58). Por toda essa ousadia, os judeus o consideraram um endemoniado (cf. 8,48) e, por isso, tentaram apedrejá-lo.

É, portanto, observando o último versículo do capítulo anterior que podemos compreender o nosso texto de hoje: “Eles pegaram, então, pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do templo” (8,59).

Assim, voltamos nossa atenção para o Evangelho de hoje, o qual se inicia assim: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (v. 1). Mesmo apressado, pois estava fugindo, Jesus percebe a necessidade do outro e age em solidariedade, reconhecendo a situação desprezível do homem. A cegueira era sinal de maldição, pois impedia que o homem pudesse estudar e conhecer a Lei, o único meio de comunicação que Deus estabeleceu com o seu povo, conforme a mentalidade judaica. Portanto, aquele homem, cego de nascença (em grego  tuflo.n evk geneth/j – tyflon ek guenetês) estava completamente excluído da religião e da sociedade.  

Mais que qualquer outra deficiência, a cegueira era considerada uma maldição e consequência do pecado, conforme a religião judaica ensinava, e os discípulos de Jesus ainda estavam dominados por essa mentalidade, o que se evidencia na pergunta: “Quem pecou para que nascesse cego? Ele ou os seus pais?” (v. 2). Vigorava a ‘teologia da retribuição’ e acreditava-se que “Deus não deixa ninguém impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e a quarta geração” (Ex 34,7). É claro que Jesus não concorda com essa mentalidade e, por isso, corrige seus discípulos e expressa a sua pressa em sanar aquela situação de miséria vivida pelo pobre homem cego (vv. 3-4).

Jesus compartilha com os discípulos a sua responsabilidade de manifestar as obras do Pai (v. 4), usando o verbo trabalhar, em grego evrga,zomai (ergazomai). Infelizmente, a versão litúrgica do texto não exprime a intensidade e urgência presentes no texto original. Ao invés de “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia” (v. 4a), a forma mais justa seria “Nós temos que trabalhar realizando as obras daquele que me enviou, enquanto é dia”; o verbo trabalhar exprime a seriedade da missão, a expressão “enquanto é dia” revela a urgência. Considerando que seus dias estavam contados, depois de tantas ameaças, não há mais tempo a perder. A “chegada da noite” (v. 4c) significa a sua morte que se torna cada vez mais próxima.

Quando o assunto é a liberdade e a dignidade do ser humano, o discípulo de Jesus, assim como Ele, deve agir com pressa, independente das regras e códigos de moral, civis ou religiosos. Aqui nos chama a atenção para o voluntarismo de Jesus: o cego não lhe pede nada, não lhe faz nenhuma súplica, ao contrário de muitas outras curas em que são os necessitados que até imploram a Jesus. O simples olhar de Jesus é suficiente para perceber a necessidade no próximo.

Imediatamente Jesus passa à ação com um gesto cheio de simbolismo: “Cuspiu no chão, fez lama com a saliva” (v. 6a). A imagem do barro alude à criação, é a matéria prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. Segundo essa mesma mentalidade, a saliva é gerada pelo hálito, esse, por sua vez, é o sopro, o espírito. Portanto, Jesus repete o gesto criador de Deus: soprou sobre o barro e gerou vida humana (cf. Gn 2,7). Com a lama produzida pelo seu hálito, Jesus ungiu os olhos do cego (6b). O texto litúrgico emprega a expressão “colocou-a sobre os olhos do cego”, mas seria mais adequado dizer que Ele “ungiu os olhos do cego”, considerando o sentido do verbo grego empregado pelo evangelista:  evpi,criw – epícrio, o qual significa ungir.

A ação de ungir é seguida por uma ordem: “Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer enviado)” (v. 7). Não é fácil interpretar essa ordem. A maioria, lendo o texto à luz de uma liturgia batismal, aplica aqui o simbolismo da água batismal; No entanto, considerando a oposição de Jesus às instituições religiosas do seu tempo, principalmente no Evangelho de João, é mais prudente não seguirmos essa linha. A piscina de Siloé localizava-se fora de Jerusalém, e como Jesus estava fugindo, provavelmente já se encontrava fora da cidade, próximo à piscina. Como aquela piscina abastecia o templo, inimigo de Jesus, é difícil imaginar que Jesus visse naquelas águas, um elemento purificador. A lama nos olhos deveria ser tirada de qualquer maneira e, portanto, Jesus indicou o local mais próximo.

O verdadeiro sentido da ordem “Vai lavar-te” consiste na liberdade e responsabilidade que Jesus quer apresentar ao ser humano. Ele apresenta o caminho, cabe ao homem fazer a sua parte. Jesus não impõe a sua luz sobre o mundo, mas a oferece. Obviamente, sua ordem foi cumprida: “O cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (v. 7b). Quem anda pelos caminhos que Jesus aponta encontra luz e sentido para a vida. A ida do cego à piscina representa sua adesão ao Evangelho, sua fé e seu compromisso. É uma demonstração de que no Reino de Deus não há espaço para a passividade, mas todos devem assumir responsabilidades e compromissos. Jesus liberta, mas dá, ao homem, autonomia e o faz também sujeito de sua própria libertação.

O espanto é geral entre aqueles que conheciam o cego de nascença, um homem miserável e amaldiçoado e, agora, passam a ver um homem íntegro, novo e restaurado (vv. 8-12). A admiração começa entre os vizinhos, passa pelos que o viam mendigando no tempo até chegar nos fariseus e nas autoridades religiosas. O motivo de tamanho espanto é compreensível, considerando que a afirmação do próprio homem que fora cego ao defender-se das acusações dos fariseus: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença” (v. 32). De fato, em toda a Bíblia, não há registro de nenhum outro milagre de cura de um cego de nascença.

Os fariseus, como representantes do sistema de dominação, reagem com rigor e até com violência, porque vêem que a luz que eles ajudavam a roubar do povo, Jesus a restitui e de modo completamente gratuito. Por isso, inconformados, submetem o homem curado a um longo interrogatório, sem aceitar nenhuma das respostas. É claro que todo o inconformismo é causado pela rejeição a Jesus.

O fato de Jesus ter curado em dia de sábado já era, por si, motivo de escândalo, ainda mais da forma como fez: “Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego” (v. 14). Jesus tocou na terra, mexeu no barro e fez lama em dia de sábado, praticando algo abominável para os judeus. De fato, os judeus consideravam o sábado como o maior dos mandamentos, pois é o único mandamento que até Deus guardou (cf. Ex 20,11), assim eles pregavam. Eles passam a ter mais um motivo para condenar Jesus.

O ex cego é, literalmente, encurralado pelos representantes da religião oficial porque deixou de ser um dominado, tornou-se um sujeito autônomo, ganhou independência. A situação chega ao ponto de ser necessário o depoimento dos pais do homem (v. 18-23). Com medo da repressão, os pais deixam a responsabilidade para que o próprio filho responda. Sendo incapazes de convencer com argumentos e testemunho, os chefes apelam para a violência, como em qualquer sistema opressor, por isso, “o expulsaram da comunidade” (v. 34b). É a religião agindo com tirania, banindo a vida, ao invés de protegê-la. É claro que não havia espaço para Jesus em uma religião como aquela.

Mais uma vez Jesus se manifesta, ao saber que o homem tinha sido expulso da comunidade sinagogal e vem ao seu encontro (v. 35). Aqui, é importante fazer mais uma observação semântica: o texto original não diz apenas que Jesus encontrou o homem de novo, como afirma a tradução litúrgica, mas diz que “Ele foi encontrá-lo”, ou seja, foi busca-lo, uma vez que o homem estava novamente em perigo. Portanto, a ação de Jesus é recuperar o que a religião rejeitou. A religião exclui e Jesus inclui; os sistemas dominantes separam, Jesus junta; o templo domina, Jesus liberta.

No final da discussão, Jesus mostra a grande inversão de valores e de papéis: os verdadeiros cegos são os fundamentalistas que, apegados à lei e aos mais diversos códigos de conduta, sufocam a vida do ser humano, privando da liberdade e da dignidade (v. 41a). Para esse tipo de cegueira não há justificativa (v. 41b).

Assim como João escreveu pensando na sua comunidade, também devemos pensar nas comunidades de hoje em dia: se essas não promovem a vida e a liberdade do ser humano, estão distantes da proposta de Jesus. Se prevalece a norma sobre a caridade, o Evangelho está sendo esquecido. Se o conhecimento continua concentrado em um pequeno grupo, está mais para sinagoga que para comunidade cristã. Se há imposição de ideias, decisões e normas, continua-se a gerar cegos, ao invés de pessoas conscientes e iluminadas.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues